Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.
Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.
Hoje carrego mais perguntas do que respostas.
Não considero isso fraqueza.
É maturidade.
Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.
Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.
A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.
O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.
No início, perder certezas me causou abatimento.
Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.
O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.
Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.
Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.
Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.
Desde a Idade Média buscamos certezas.
A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.
Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.
Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.
As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.
Crescem descobrindo que elas raramente existem.
Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.
E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.
Gabriel Novis Neves
24-02-2026