domingo, 1 de março de 2026

PENSAMENTO COMPLEXO


Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.

 

Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

 

Hoje carrego mais perguntas do que respostas.

 

Não considero isso fraqueza.

 

É maturidade.

 

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.

 

Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

 

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

 

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

 

No início, perder certezas me causou abatimento. 

 

Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

 

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.

 

Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

 

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

 

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

 

Desde a Idade Média buscamos certezas.

 

A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

 

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

 

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

 

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.

 

Crescem descobrindo que elas raramente existem.

 

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.

 

E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

 

Gabriel Novis Neves

24-02-2026