Balançando ao vento ele parecia dançar sozinho.
Era o vestido que ninguém mais vestia, mas que ainda guardava o perfume de uma tarde feliz.
As coisas não mais usadas devem ser guardadas, como fazia a minha mulher.
Seus guarda-roupas e armários ficaram imexíveis por muitos anos após a sua partida prematura para outro plano.
Aqueles vestidos e roupas penduradas nos cabides exalavam o perfume e a saudade de quem deveria estar entre nós, e a qualquer momento poderia precisar de uma daquelas roupas, impregnadas de memórias.
Com os anos, elas esfarelaram, obrigando-me a esvaziar as roupas dos guarda-roupas.
E com que dor realizei esse trabalho.
Parecia que parte de mim estava indo para o lixo.
Aquela blusa azul que tanto gostava que ela usasse, parceira de tantas lembranças e segredos, terminou no lixo.
Doação de roupas em vida eu compreendo e faço.
É um desejo comum e me faz bem ajudando ao próximo.
Mas quando a ação é única, prefiro que o tempo resolva.
Aprendi a entender o tempo e aceitá-lo, como sempre.
O vestido balançando ao vento na corda do quintal parecia dançar.
Talvez dançasse para mim, como um último aceno da presença que o tempo não conseguiu apagar.
Fiquei olhando longamente, como quem tenta conversar com o passado.
O vento passava entre os tecidos, levantando a barra leve, e por um instante jurei ver o sorriso dela, vindo da varanda, rindo da minha emoção.
Deixei o vestido ali até o fim da tarde.
Quando o sol se pôs, a sombra azul se confundiu com o crepúsculo.
Recolhi-o com cuidado, dobrando como quem guarda um segredo.
E o pendurei novamente, não no varal, mas na memória — o único guarda-roupa que o tempo não consegue esvaziar.
Gabriel Novis Neves
12-11-2025

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