sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O VESTIDO AZUL NA CORDA


Balançando ao vento ele parecia dançar sozinho.

 

Era o vestido que ninguém mais vestia, mas que ainda guardava o perfume de uma tarde feliz.

 

As coisas não mais usadas devem ser guardadas, como fazia a minha mulher.

 

Seus guarda-roupas e armários ficaram imexíveis por muitos anos após a sua partida prematura para outro plano.

 

Aqueles vestidos e roupas penduradas nos cabides exalavam o perfume e a saudade de quem deveria estar entre nós, e a qualquer momento poderia precisar de uma daquelas roupas, impregnadas de memórias.

 

Com os anos, elas esfarelaram, obrigando-me a esvaziar as roupas dos guarda-roupas.

 

E com que dor realizei esse trabalho.

 

Parecia que parte de mim estava indo para o lixo.

 

Aquela blusa azul que tanto gostava que ela usasse, parceira de tantas lembranças e segredos, terminou no lixo.

 

Doação de roupas em vida eu compreendo e faço.

 

É um desejo comum e me faz bem ajudando ao próximo.

 

Mas quando a ação é única, prefiro que o tempo resolva.

 

Aprendi a entender o tempo e aceitá-lo, como sempre.

 

O vestido balançando ao vento na corda do quintal parecia dançar.

 

Talvez dançasse para mim, como um último aceno da presença que o tempo não conseguiu apagar.

 

Fiquei olhando longamente, como quem tenta conversar com o passado.

 

O vento passava entre os tecidos, levantando a barra leve, e por um instante jurei ver o sorriso dela, vindo da varanda, rindo da minha emoção.

 

Deixei o vestido ali até o fim da tarde.

 

Quando o sol se pôs, a sombra azul se confundiu com o crepúsculo.

 

Recolhi-o com cuidado, dobrando como quem guarda um segredo.

 

E o pendurei novamente, não no varal, mas na memória — o único guarda-roupa que o tempo não consegue esvaziar.

 

Gabriel Novis Neves

12-11-2025




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