quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O CALOR QUE PARECIA PARAR A CIDADE


Havia dias em que o calor de Cuiabá parecia mandar na cidade.

 

Depois do almoço as ruas ficavam quase vazias, as janelas se abriam e qualquer sombra era disputada.

 

O menino procurava o lugar mais fresco da casa, enquanto os adultos reclamavam do tempo.

 

Nem o vento aparecia para ajudar.

 

Tudo parecia parado, à espera de que o sol perdesse a força.

 

Ainda assim, o cuiabano aprendia desde cedo a conviver com aquele calor sufocante.

 

Fui criado sem aparelho de ar-condicionado e, apesar das altas temperaturas, dormia até com cobertor.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, tinha apenas um ventilador no quarto da casinha da rua Marechal Floriano.

 

Para mim, outubro sempre foi o mês mais quente.

 

Costumo brincar que Cuiabá só conhece uma estação: o verão.

 

Talvez por isso tenha estranhado tanto a temperatura mais amena quando deixei minha terra para estudar no Rio de Janeiro.

 

No Colégio Anglo-Americano, na praia de Botafogo, vivia de agasalho, até dentro de casa.

 

Foi ali que me preparei para alcançar meus objetivos e retornar à terra natal, disposto a ser útil à minha cidade e ao meu Estado.

 

O tempo passou, e aquele menino que enfrentava o calor cuiabano sem maiores cerimônias tornou-se intolerante a ele.

 

Hoje durmo em quarto refrigerado, faço as refeições com ar-condicionado e passo as manhãs e as tardes no escritório, também refrigerado.

 

Mudamos nós, e mudou Cuiabá.

 

Os quintais floridos foram desaparecendo.

 

Muitas árvores que ofereciam sombra às calçadas deram lugar ao cimento.

 

Córregos, riachos e tanques, que ajudavam a refrescar a cidade, ficaram apenas na lembrança.

 

A antiga Cidade Verde era realmente verde.

 

Talvez por isso o calor daquele tempo, embora forte, pareça hoje mais suave em minha memória.

 

Ou talvez fosse apenas o menino que sentia menos calor e tinha mais sombras onde se esconder.

 

Gabriel Novis Neves

30-09-2026




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