quinta-feira, 30 de abril de 2026

MUITOS MODOS DE AMAR


Pai nenhum demora a perceber que os filhos não amam todos da mesma forma.

 

Um demonstra no cuidado prático; outro, na palavra carinhosa; outro, na presença discreta; outro, no telefonema inesperado.

 

O amor, mesmo dentro da mesma casa ou da mesma família, nunca veste roupa igual.

 

Com o tempo, aprendemos a reconhecer a linguagem própria de cada filho e a entender que, por trás de modos tão diferentes, pulsa o mesmo sentimento verdadeiro.

 

O cuiabano, muitas vezes, usa seu próprio vocabulário para demonstrar o sentimento de amar: encabulado, envergonhado, tímido, quase incapaz de pronunciar uma palavra de carinho.

 

O pai entente isso e procura tratar cada filho da mesma maneira, sempre com muito amor.

 

Com o crescimento das crianças podem ocorrer mudanças radicais nesse comportamento afetivo, principalmente

 

quando elas permanecem, por longos períodos, distantes do seu núcleo familiar.

 

A criança tem um poder de imitação incrível.

 

Bastaram seis meses morando no Rio de Janeiro para algumas retornarem com sotaque carioca.

 

Este sotaque é rico em chiados ao pronunciar as palavras, fazendo esquecer, às vezes por completo, o nosso linguajar cuiabano, que acho tão bonito e cheio de ensinamentos!

 

Ele nos dá noções de distância e até nos ajuda a respirar melhor quando a conversa acontece numa cidade de clima quente como Cuiabá. Também aprendem a exteriorizar sentimentos antes inibidos.

 

Os estudiosos procuram explicar a dificuldade da população cuiabana em demonstrar seus sentimentos mais nobres.

 

Desde crianças, éramos obrigados a pedir benção aos nossos pais.

 

Com o crescimento, muitos abandonam essa manifestação.

 

Eu não me lembro de ter sido beijado pelo meu pai, nem de tê-lo beijado.

 

Talvez fosse pela nossa diferença de idade.

 

Quando nasci, ele já era idoso.

 

Com minha mãe, o tratamento afetivo foi totalmente diferente.

 

Havia mais proximidade, mais doçura, mais liberdade para o carinho.

 

Na minha casa, cada filho tem seu modo próprio de amar os pais.

 

Uns falam pouco, mas estão sempre atentos.

 

Outros demostram afeto em pequenos gestos.

 

Há os que telefonam, os que visitam, os que resolvem problemas, os que se preocupam em silêncio.

 

Aprendi, com a idade, que o amor dos filhos não deve ser medido pelo barulho que faz.

 

Às vezes, ele mora numa palavra breve, num olhar de cuidado.

 

Cada filho ama do jeito que sabe.

 

E o coração de um pai aprende a entender todos esses idiomas.

 

Gabriel Novis Neves

26-04-2026




quarta-feira, 29 de abril de 2026

O BONDE DA MANHÃ


Nos meus tempos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro, muitas manhãs começavam dentro de um bonde.

 

Ainda com o sol surgindo por trás dos morros, eu embarcava levando livros debaixo do braço e a cabeça cheia de preocupações com as aulas e provas que viriam.

 

O bonde seguia rangendo pelos trilhos enquanto a cidade despertava lentamente.

 

Trabalhadores, estudantes e donas de casa dividiam aquele mesmo espaço simples.

 

Para mim, cada viagem era também um pequeno ritual silencioso de preparação para mais um dia na faculdade.

 

Sempre morei em bairros próximos à faculdade, para não perder tempo na minha locomoção da pensão até à Praia Vermelha.

 

Pegava o simpático bonde nº 4, que vinha do centro da cidade, passava pelos bairros da Glória, Catete, Flamengo, Botafogo e Praia Vermelha.

 

A sua última parada era na porta da Faculdade.

 

Com o tempo, aprendi a viajar pendurado no estribo do bonde, e saltar com ele em movimento.

 

Os colegas que vinham de cidades com bondes, saltavam de costas para o bonde. 

 

Existia uma linha de ônibus do centro até a Urca, com um ponto próximo à faculdade.

 

Como era uma linha com poucos veículos e preços elevados com relação aos dos bondes, não me lembro das vezes que os utilizei.

 

A Praia Vermelha e a da Urca frequentei pouquíssimas vezes.

 

Ia mais à Praia de Copacabana, próxima à praça do Lido, no Posto 2.

 

Quando encontrava espaço no bonde, abria o livro de Medicina para recordar o assunto da aula.

 

Deixei de ser decoreba e passei a entender o que lia, estudando na faculdade.

 

Os livros eram volumosos e muitos traziam textos em espanhol, quando não em francês.

 

Antes, o humanismo da escola francesa predominava no ensino médico, bem diferente dos dias de hoje, onde predomina a tecnologia e o idioma é o inglês.

 

O bonde 4 foi por muitos anos logomarca de ensino médico de qualidade.

 

E cada manhã naquele bonde era também um passo discreto na construção do meu futuro.

 

Gabriel Novis Neves

16-03-2026








terça-feira, 28 de abril de 2026

O PROFESSOR DAS PERGUNTAS DIFÍCEIS


Havia um professor que gostava de fazer perguntas inesperadas aos alunos.

 

No início, isso nos deixava apreensivos.

 

Bastava seu olhar percorrer a sala para que todos se preparassem para a possibilidade de serem chamados.

 

Com o tempo, porém, compreendemos que aquela exigência tinha um propósito maior: estimular o raciocínio.

 

Ele queria que pensássemos como médicos, não apenas como repetidores de livros.

 

Suas perguntas, às vezes desconcertantes, acabaram se transformando em importantes lições para a vida profissional.

 

Anos depois, já exercendo o magistério superior em meu torrão natal, lembrei-me daquela técnica pedagógica.

 

Passei também a preparar perguntas difíceis para estimular o raciocínio dos estudantes de Medicina.

 

O resultado foi além do esperado, e tive a certeza de que os alunos aprendiam melhor quando eram levados a pensar.

 

Um dos maiores problemas enfrentados pelos professores universitários é que muitos alunos chegam à faculdade acostumados apenas a decorar textos escolares.

 

Na universidade, sobretudo em cursos como Medicina, é impossível guardar na memória o conteúdo dos grossos tratados.

 

É preciso compreender o que se lê.

 

Muitos só aprendem isso depois de ingressar no ensino superior.

 

Nem todos os professores de Medicina possuem a sensibilidade necessária para despertar o raciocínio com técnicas pedagógicas adequadas.

 

Nem sempre o melhor médico é, também, o melhor professor.

 

A empatia entre professor e aluno é igualmente um fator decisivo no processo de aprendizagem.

 

Há mestres de perguntas difíceis que, ao final da aula, eram aplaudidos de pé pelos estudantes.

 

Eu mesmo senti enorme dificuldade quando precisei deixar os cadernos de lado e mergulhar nos livros de letras miúdas.

 

Depois de muito sacrifício e de noites maldormidas, passei a compreender melhor o que lia e adquiri o hábito de raciocinar — hábito esse que precisa sempre ser estimulado.

 

Não por acaso, os professores das perguntas difíceis estavam quase sempre entre os mais homenageados da turma.

 

Em geral, eram também os mais generosos com seus alunos.

 

Lembro-me de um deles, formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, que se recusou a me examinar na prova prática de Pediatria e Puericultura, no Hospital da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, ao ler meu sobrenome.

 

Disse, com firmeza e afeto:

 

 — Jamais examinarei alguém da família do meu professor na Bahia.

 

Deu-me a nota máxima e chamou o próximo aluno.

 

Naquele gesto, havia respeito, gratidão e memória.

 

E eu compreendi, mais uma vez, que os grandes mestres ensinam até quando silenciam.

 

Gabriel Novis Neves

15-04-2026




segunda-feira, 27 de abril de 2026

O PROFESSOR QUE ENTRAVA EM SILÊNCIO


Entre tantos mestres da Faculdade de Medicina, havia um professor que chamava atenção pela maneira tranquila de entrar na sala.

 

Não levantava a voz, não fazia gestos exagerados.

 

Apenas começava a falar e pouco a pouco o silêncio tomava conta da turma.

 

Seu conhecimento parecia surgir naturalmente, como quem conta uma história antiga.

 

Nós, ainda jovens estudantes, percebíamos que estávamos diante de alguém que não apenas ensinava Medicina, mas também transmitia serenidade e respeito pela profissão.

 

Aprendi que para ser bom médico, além de conhecer profundamente a arte de curar, é necessário ter seriedade e respeito pela profissão.

 

O médico, com a sua humildade, ensina até quando se cala.

 

Aquele professor não precisava impor autoridade.

 

Sua presença bastava.

 

Havia nele uma firmeza mansa, uma segurança sem vaidade, uma elegância que não vinha da aparência, mas do saber amadurecido pelo tempo e pela aparência.

 

Enquanto outros mestres impressionavam pelo brilho das palavras, ele nos conquistava pela simplicidade.

 

Falava baixo, mas chegava fundo.

 

Explicava com clareza, sem pressa, como se desejasse que cada ensinamento encontrasse o seu lugar dentro de nós.

 

Mais do que lições de Medicina, deixava exemplos de conduta.

 

Mostrava que o verdadeiro médico não é aquele que apenas dominas técnicas e diagnósticos, mas o que se apresenta diante do doente com respeito, discrição e humanidade.

 

Muitas vezes, ao vê-lo atravessar a sala em silêncio, eu pensava que a grandeza fosse mesmo assim: sem alarde, sem exibição, sem necessidade de aplauso.

 

Os anos passaram.

 

A vida me levou aos hospitais, às enfermarias, às salas de aulas e às responsabilidades da profissão.

 

Mas a lembrança daquele professor permaneceu viva, como uma lição guardada no íntimo.

 

Com ele aprendi que o saber pode ser sereno.

 

E que o silêncio também ensina.

 

Gabriel Novis Neves

17-04-2026




domingo, 26 de abril de 2026

RETORNO À PENSÃO


Ao fim do dia, eu retornava à pensão com a sensação do dever cumprido ou, às vezes, carregando preocupações acumuladas.

 

O cansaço físico se misturava à necessidade de continuar estudando.

 

Ainda assim, havia certo conforto naquele retorno.

 

Era o momento de organizar os pensamentos, rever conteúdos e me preparar para o dia seguinte.

 

Na pensão convivíamos com colegas vindos de várias partes do Brasil, o que facilitava os estudos, pois os problemas e as dificuldades eram semelhantes.

 

Alguns tinham o costume de estudar até altas horas da noite.

 

Outros, como eu, preferiam dormir logo após o jantar e retomar os livros de madrugada.

 

O cansaço era tanto que a luz acesa no quarto não incomodava quem dormia.

 

Para enganar a fome das noites e madrugadas havia sempre guloseimas enviadas de casa.

 

E assim o tempo foi passando.

 

Quando percebemos, já éramos médicos.

 

Quanto aprendi no fim do dia, na pensão!

 

As conversas vinham recheadas de saudade, de sonhos, das conquistas da cidade grande e também de suas perdições.

 

No silêncio da noite, antes dos estudos, surgiam segredos, confidências e revelações inesperadas.

 

Havia colegas de outros cursos, que trocavam as enfermarias pelos tribunais do júri, onde bebiam a sabedoria dos grandes mestres do Direito.

 

Outros frequentavam a sede da União Nacional dos Estudantes — UNE — e, no fim do dia, comentavam na pensão os destinos políticos do país.

 

O Rio de Janeiro do meu tempo formava excelentes profissionais em suas faculdades, devolvendo-os aos seus torrões natais, e também gerava políticos que ajudaram a construir esta nação.

 

Quantas lembranças guardo desse fim de tarde e de noite na pensão!

 

A pensão fez parte da formação dos estudantes do meu tempo.

 

Como aprendi naqueles anos de pensão!

 

A geração de meu filho e de meu neto estudou em cidade grande, cursando Medicina e Direito, morando em apartamentos próprios, com faxineira e cozinheira.

 

Se pudesse voltar no tempo, começaria novamente meu curso de Medicina morando em pensão.

 

Gabriel Novis Neves

23-04-2026




sábado, 25 de abril de 2026

QUANDO OS FILHOS VIRAM CONSELHEIROS


Há um momento silencioso da vida em que os filhos, sem perceberem, deixam de ser apenas filhos. Continuam amorosos, respeitosos e presentes, mas passam também a cuidar, orientar e aconselhar o pai nas pequenas coisas do cotidiano.

 

Não considero isso uma inversão de papéis, como muitos dizem.

 

É apenas o tempo cumprindo, com delicadeza, a sua tarefa.

 

Onde antes havia proteção quase de um lado só, passa a existir uma ternura de mão dupla, feita de atenção, cuidado e afeto.

 

Quem tem a felicidade de viver bastante observa esse fenômeno com emoção.

 

Sou testemunha dos cuidados que meus filhos têm comigo.

 

E gosto muito dessa atenção.

 

Vejo nela uma demonstração de carinho, de zelo e de amor.

 

Às vezes, confesso, gostaria que, nesta altura da vida, eles me assumissem por completo.

 

Não por incapacidade de decidir, mas pelo conforto de saber que já não estou sozinho diante das pequenas exigências do dia a dia.

 

Também me comove a presença dos netos e bisnetos. Hoje, minha bisneta completa dois anos de vida saudável.

 

Ainda tão pequena, pede para falar com o biso por vídeochamada.

 

Na sua alegria inocente, percebo saudade, carinho e uma forma delicada de cuidado.  

 

O mundo da criança costuma ser outra criança.

 

Mas, quando um idoso passa a fazer parte desse pequeno universo, nasce uma ternura rara, quase sagrada.

 

É como se as pontas da vida se encontrassem: a infância começando e a velhice agradecendo.

 

Meus filhos, netos e bisnetos sempre demonstraram interesse em me aconselhar nas coisas simples.

 

Fazem isso sem imposição, apenas movidos pelo amor.

 

E essa via de cuidados aumenta a responsabilidade de todos nós.

 

Os filhos talvez não se consideram conselheiros dos pais.

 

Mas os pais, quando envelhecem com lucidez e gratidão, aprendem a desejar esses conselhos.

 

Recebê-los é uma forma bonita de continuar sendo amado.

 

Gabriel Novis Neves

24-04-2026




sexta-feira, 24 de abril de 2026

ALMOÇO AOS SÁBADOS


Meus bisnetos são frequentadores assíduos desses almoços de sábado.

 

Só deixam de comparecer quando viajam no período das férias.

 

O mais velho já completou nove anos e o caçula tem apenas dois.

 

Os maiores estudam em uma escola americana de tempo integral, onde estão sendo alfabetizados em português e inglês.

 

Do porteiro às professoras, todos se comunicam em inglês.

 

Hoje, no almoço, um deles veio me cumprimentar nesse idioma.

 

Seus pais estão certos ao investir na educação dos filhos, ainda que a mensalidade seja maior que a de muitas faculdades particulares de Medicina.

 

Se o poder público oferecesse ensino de qualidade a todas as crianças brasileiras, o futuro do país seria outro.

 

Mas, infelizmente, muito do dinheiro dos impostos se perde pelos caminhos da má gestão e da corrupção.  

 

Depois, criam-se artifícios para facilitar a chegada dos alunos da escola pública básica às universidades públicas, que ainda são, em grande parte as melhores do país.

 

No fim, há certa injustiça com os pais que se sacrificam em favor de um futuro melhor para os filhos.

 

Tenho também um bisneto que nasceu em Portugal, filho de mãe brasileira e pai português.

 

Está matriculado em uma escola, onde é alfabetizado em português e inglês.

 

Aprende ainda mandarim.

 

Esteve comigo nos feriados da Semana Santa, contando novidades e pronunciando algumas frases nesse idioma que, para muitos, já é visto como a língua do futuro, sobretudo no universo das grandes empresas e das relações comerciais com o Oriente.

 

Aprender idiomas estrangeiros é mais fácil na infância, quando a criança ainda não conhece a inibição.  

 

Lembro-me, com alegria, de ver meus netos, entre três e cinco anos, na piscina de um hotel na Holanda brincando com crianças de vários países europeus.

 

Cada uma falava em seu próprio idioma, e, ainda assim, todas se entendiam.

 

Leio e compreendo o espanhol, e também o francês dos livros de Medicina, mas sou uma nulidade no inglês.

 

No ensino básico, em vez de conversação em inglês, a escola pública me ensinou literatura inglesa.

 

E estudei Medicina sob forte influência da escola francesa, com livros em francês e espanhol.

 

Meus cinco bisnetos são crianças muito queridas.

 

E, quando uma delas falta ao almoço de sábado, a mesa parece ficar um pouco menor.

 

Gabriel Novis Neves

19-04-2026




quinta-feira, 23 de abril de 2026

A ROUPA BRANCA DO ESTUDANTE


Vestir a roupa branca no meu tempo de estudante era quase um pequeno rito de passagem.

 

Antes mesmo de tocar um paciente, ela já nos lembrava que estávamos entrando em território de respeito, disciplina e cuidado.

 

Ao abotoá-la, sentíamos que não pertencíamos mais apenas ao mundo comum das ruas, das conversas soltas e das distrações do dia.

 

Estávamos, ainda aprendizes, nos aproximando de uma missão maior.

 

A roupa branca impunha limites.

 

Ela nos ensinava, silenciosamente, que o hospital era um espaço diferente, onde a dor humana exigia compostura, asseio e seriedade.

 

Não combinava com frivolidade, nem com descuido.

 

Era como se dissesse ao estudante e ao médico: daqui em diante, cada gesto seu terá consequência na vida de alguém.

 

Talvez por isso eu ainda veja esse uniforme com reverência.

 

Não por vaidade, nem por apego ao passado, mas porque certos símbolos ajudam a sustentar valores.

 

Quando um símbolo perde seu sentido, algo da própria profissão também se enfraquece.

 

O branco não era apenas cor.

 

Era compromisso.

 

Era vigilância.

 

Era pureza de intenção.

 

Sei que os tempos mudaram, os costumes mudaram e as novas gerações veem o mundo de maneira diferente.

 

Ainda assim, continuo acreditando que a Medicina precisa preservar alguns rituais, não por formalidade vazia, mas porque eles recordam a grandeza do ofício.

 

Cuidar de um enfermo nunca foi tarefa banal.

 

Exige ciência, sensibilidade e respeito.

 

A roupa branca, quando usada com consciência, deixa de ser simples vestimenta.

 

Torna-se presença, postura e promessa.

 

No fundo ela anuncia em silêncio, que ali está alguém pronto para servir.

 

E isso, por si só, já é quase uma prece.

 

Gabriel Novis Neves

20-04-202




quarta-feira, 22 de abril de 2026

A JUVENTUDE QUE ME EMPRESTAM


Uma das muitas manias do nosso tempo é dizer às pessoas envelhecidas que ainda estão jovens.

 

Nunca embarquei nessa canoa furada.

 

Recentemente, fui, pela primeira vez, a um especialista da minha cidade.

 

Antes da consulta, uma jovem funcionária avisou-me que o médico não atendia convênios nem planos de saúde, não aceitava cartão e só recebia por PIX.  

 

O pagamento, acrescentou, deveria ser feito antecipadamente.

 

Tudo acertado, entreguei-lhe meus documentos para a abertura do prontuário.

 

Ela se surpreendeu com o número do meu RG e do meu registro no Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso.

 

Ao ler minha data de nascimento, comentou, admirada, como eu estava bem para a idade.

 

Concluída a parte burocrática, informou o valor da consulta e repetiu o número do PIX.

 

Respondi que pagaria em dinheiro, pois sempre tive dificuldade com aplicativos bancários.

 

Do outro lado do balcão, ela manuseava com admirável destreza um moderno computador.

 

Quando pedi que, ao término da consulta, me fosse emitida a nota fiscal, percebi em seu olhar certa desconfiança, talvez por considerar aquilo pouco compatível com a minha idade, ainda mais sendo eu cadeirante.

 

Se ela tivesse paciência para me ouvir, naquele 12h40 em que fui encaixado, talvez eu pudesse esclarecer algumas de suas dúvidas.

 

Diria que fomos nós que trouxemos e instalamos na UFMT o primeiro computador IBM 11.30.

 

Diria também que o médico da clínica onde ela trabalha estudou numa faculdade que nós ajudamos a criar.

 

Que o primeiro especialista daquela clínica foi meu avô, um médico surdo.

 

Que meu número no Registro Geral da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso é 36, concedido quando fui reitor, no tempo da mudança para esse formato.

 

E que meu registro no Conselho Regional de Medicina lembra os pioneiros da Medicina cuiabana, pois minha titulação veio do Rio de Janeiro, onde me formei.

 

Tão jovem estou, que para me manter de pé gasto, todos os meses, mais de dois salários mínimos em farmácia e conto com duas cuidadoras em tempo integral.

 

Envelheci. E espero, em breve, alcançar o meu centenário.

 

Enquanto isso, continua firme a mania de emprestar juventude aos velhos.

 

E a velhice serena e verdadeira, segue sorrindo em silêncio.

 

Gabriel Novis Neves

22-04-2026




terça-feira, 21 de abril de 2026

CRÔNICAS GUARDADAS


Tenho um estoque de crônicas que daria para publicar um livro impresso.

 

Preciso revisar e esvaziar esse acúmulo de textos, para só então continuar meu trabalho de produção.

 

Mas tornar esse desejo realidade não é simples.

 

Estou condicionado a escrever diariamente, pelo menos uma crônica.

 

Leio de tudo e procuro me manter informado sobre o mundo atual.

 

Neste meu crepúsculo, descobri coisas que jamais imaginei existir.

 

Conversando com um amigo bem mais jovem do que eu, constatei que muitas novidades, para mim espantosas, já eram do seu conhecimento havia muito tempo.

 

Também passei grande parte da vida ocupado e preocupado com minhas obrigações profissionais de médico e administrador público.

 

Pouco me sobrava para cuidar da família, tantas vezes sacrificada, inclusive nos prazeres simples das férias.

 

As crônicas escritas e ainda não publicadas não envelhecem.

 

Mesmo assim, é bom acompanhar o que há de novo.

 

A chamada ‘imortalidade digital’, quase impensável até há pouco tempo já é uma realidade.

 

Os chineses estão vendendo programas de videochamadas para que as pessoas possam conversar com entes queridos falecidos.

 

Isso se torna possível pelo uso da inteligência artificial, hoje tão presente em nossas vidas.

 

O grande número de canais de podcast no YouTube mostra que existe um público enorme interessado nesse veículo de informação.

 

Nos podcasts de relacionamento, por exemplo, aparecem entrevistadas como ‘garota de programa’, ‘atriz pornô’, ou ‘criadora de conteúdo adulto’.

 

São convidadas a falar sobre a própria vida sexual, muitas vezes em detalhes.

 

Tudo isso é facilmente acessível pelo celular.

 

As chamadas ‘questões de gênero’ inundam os meios de comunicação sem causar estranheza aos jovens.

 

Já os idosos, muitas vezes, ficam confusos e acabam sendo obrigados a aceitar essas novas regras de relacionamento afetivo entre homem e mulher.

 

‘O mundo mudou’, como diria a minha mãe.

 

Talvez eu escreva todos os dias justamente para não perder de vista esse mundo globalizado, de informações tão próximas e de valores tão distantes da minha juventude.

 

Gabriel Novis Neves

11-06-2024




segunda-feira, 20 de abril de 2026

MUDANÇA NÃO É REGRA


A mudança esteve diante de mim por muito tempo.

 

Não exigia esforço físico, nem grandes explicações.

 

Bastava um passo para o lado, uma palavra dita no momento certo, um hábito abandonado. Pensei nela em silêncio, várias vezes, enquanto a vida seguia seu curso normal.

 

Não houve medo declarado, nem falta de oportunidade.

 

Houve acomodação.

 

A rotina tem esse poder: transforma o incômodo em parte da paisagem, e seguimos convivendo com ele como se fosse natural.

 

Não fiz a mudança porque me acostumei.

 

O que é conhecido, mesmo desconfortável, parece mais seguro do que o novo.

 

Sabemos onde aperta, onde dói, onde incomoda.

 

O desconhecido exige coragem, e a coragem não está disponível todos os dias.

 

Há manhãs em que apenas levantar já é suficiente.

 

Com o tempo, percebi que a mudança não feita também cobra seu preço.

 

Ela aparece em pensamentos soltos, em lembranças inesperadas, em perguntas que surgem antes do sono.

 

Não grita, não acusa, apenas permanece.

 

É uma presença silenciosa, educada, mas insistente.

 

Talvez eu não tenha mudado por respeito ao meu próprio tempo.

 

Aprendi que nem tudo se resolve na pressa. Algumas decisões precisam amadurecer por dentro, como fruta que só cai quando está pronta.

 

A vida me ensinou que errar também cansa, e que nem toda escolha precisa ser heroica.

 

Hoje entendo que não mudar também é uma forma de decisão.

 

Pode não ser a melhor, nem a mais corajosa, mas é humana.

 

Ao escrever sobre ela, organizo o que ficou guardado.

 

A escrita me consola e me ensina: viver é escolher todos os dias, inclusive quando escolhemos permanecer onde estamos, em silêncio, tentando compreender.

 

Gabriel Novis Neves 

12-01-2026




domingo, 19 de abril de 2026

FORMAÇÃO DO MÉDICO PARA O INTERIOR


Uma das maiores necessidades dos nossos cursos de Medicina na atualidade é formar médicos para o interior do Brasil.

 

A partir do segundo ano, algumas disciplinas já passavam a ter aulas práticas em hospitais, como a Semiologia Médica.

 

Assim era no meu tempo de estudante, na década de cinquenta.

 

Depois, percorremos os hospitais nas várias especialidades da Medicina.

 

Se naquele tempo elas já eram muitas, imagino quantas se multiplicaram hoje, com o avanço constante das subespecialidades.

 

Naqueles anos, os cursos de Medicina duravam seis anos e eram terminais.

 

Formavam médicos prontos para o exercício da profissão, inclusive nas cidades do interior.

 

Saíamos da faculdade entendendo pouco de muito, mas esse pouco de muito, muitas vezes, era justamente o necessário para começar.

 

Em 1966 dirigi em Cuiabá um hospital psiquiátrico estadual sem jamais ter sido psiquiatra.

 

Tive, porém, excelentes mestres nessa disciplina, como o doutor Manfredini e a professora Nise da Silveira.

 

Foi com os conhecimentos adquiridos no curso que comecei a escrever minha história médica em Cuiabá.

 

Atendia o ambulatório de doenças mentais no Posto de Saúde da rua 13 de Junho e, sem demora fiquei conhecido como psiquiatra.

 

A atendente que trabalhava comigo dona Tanita, era mãe do extraordinário ator cuiabano Liu Arruda, que, ainda menino, costumava acompanhá-la ao serviço.

 

Até hoje encontro antigos pacientes da psiquiatria que me dizem ter sido curados com o meu tratamento, há mais de sessenta anos.

 

Talvez o humanismo na Medicina cure tanto quanto a tecnologia ajuda.

 

Durante os anos de estudante, dediquei-me com afinco a todas as disciplinas do curso, embora com especial inclinação para a ginecologia e obstetrícia.

 

O médico para o interior, cuja falta é sentida em tantos municípios brasileiros, já não está sendo formado como antes por nossas universidades.

 

Essa realidade só começará a mudar quando o governo federal criar e regulamentar o cargo de médico do interior, oferecendo-lhe o mesmo amparo e reconhecimento dados a outras carreiras públicas essenciais, como as do Ministério Público, da Polícia Federal, da Rodoviária e do Ministério da Defesa, com suas Forças Armadas.

 

O interior continua esperando.

 

E o Brasil também.

 

Gabriel Novis Neves

08-04-2026




sábado, 18 de abril de 2026

CERTEZAS QUE ABANDONEI


Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.

 

Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

 

Hoje carrego mais perguntas do que respostas.

 

Não considero isso fraqueza.

 

É maturidade.

 

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.

 

Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

 

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

 

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

 

No início, perder certezas me causou abatimento. 

 

Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

 

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.

 

Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

 

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

 

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

 

Desde a Idade Média buscamos certezas.

 

A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

 

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

 

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

 

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.

 

Crescem descobrindo que elas raramente existem.

 

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.

 

E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

 

Gabriel Novis Neves

24-02-2026