Nos meus tempos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro, muitas manhãs começavam dentro de um bonde.
Ainda com o sol surgindo por trás dos morros, eu embarcava levando livros debaixo do braço e a cabeça cheia de preocupações com as aulas e provas que viriam.
O bonde seguia rangendo pelos trilhos enquanto a cidade despertava lentamente.
Trabalhadores, estudantes e donas de casa dividiam aquele mesmo espaço simples.
Para mim, cada viagem era também um pequeno ritual silencioso de preparação para mais um dia na faculdade.
Sempre morei em bairros próximos à faculdade, para não perder tempo na minha locomoção da pensão até à Praia Vermelha.
Pegava o simpático bonde nº 4, que vinha do centro da cidade, passava pelos bairros da Glória, Catete, Flamengo, Botafogo e Praia Vermelha.
A sua última parada era na porta da Faculdade.
Com o tempo, aprendi a viajar pendurado no estribo do bonde, e saltar com ele em movimento.
Os colegas que vinham de cidades com bondes, saltavam de costas para o bonde.
Existia uma linha de ônibus do centro até a Urca, com um ponto próximo à faculdade.
Como era uma linha com poucos veículos e preços elevados com relação aos dos bondes, não me lembro das vezes que os utilizei.
A Praia Vermelha e a da Urca frequentei pouquíssimas vezes.
Ia mais à Praia de Copacabana, próxima à praça do Lido, no Posto 2.
Quando encontrava espaço no bonde, abria o livro de Medicina para recordar o assunto da aula.
Deixei de ser decoreba e passei a entender o que lia, estudando na faculdade.
Os livros eram volumosos e muitos traziam textos em espanhol, quando não em francês.
Antes, o humanismo da escola francesa predominava no ensino médico, bem diferente dos dias de hoje, onde predomina a tecnologia e o idioma é o inglês.
O bonde 4 foi por muitos anos logomarca de ensino médico de qualidade.
E cada manhã naquele bonde era também um passo discreto na construção do meu futuro.
Gabriel Novis Neves
16-03-2026
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