Havia um professor que gostava de fazer perguntas inesperadas aos alunos.
No início, isso nos deixava apreensivos.
Bastava seu olhar percorrer a sala para que todos se preparassem para a possibilidade de serem chamados.
Com o tempo, porém, compreendemos que aquela exigência tinha um propósito maior: estimular o raciocínio.
Ele queria que pensássemos como médicos, não apenas como repetidores de livros.
Suas perguntas, às vezes desconcertantes, acabaram se transformando em importantes lições para a vida profissional.
Anos depois, já exercendo o magistério superior em meu torrão natal, lembrei-me daquela técnica pedagógica.
Passei também a preparar perguntas difíceis para estimular o raciocínio dos estudantes de Medicina.
O resultado foi além do esperado, e tive a certeza de que os alunos aprendiam melhor quando eram levados a pensar.
Um dos maiores problemas enfrentados pelos professores universitários é que muitos alunos chegam à faculdade acostumados apenas a decorar textos escolares.
Na universidade, sobretudo em cursos como Medicina, é impossível guardar na memória o conteúdo dos grossos tratados.
É preciso compreender o que se lê.
Muitos só aprendem isso depois de ingressar no ensino superior.
Nem todos os professores de Medicina possuem a sensibilidade necessária para despertar o raciocínio com técnicas pedagógicas adequadas.
Nem sempre o melhor médico é, também, o melhor professor.
A empatia entre professor e aluno é igualmente um fator decisivo no processo de aprendizagem.
Há mestres de perguntas difíceis que, ao final da aula, eram aplaudidos de pé pelos estudantes.
Eu mesmo senti enorme dificuldade quando precisei deixar os cadernos de lado e mergulhar nos livros de letras miúdas.
Depois de muito sacrifício e de noites maldormidas, passei a compreender melhor o que lia e adquiri o hábito de raciocinar — hábito esse que precisa sempre ser estimulado.
Não por acaso, os professores das perguntas difíceis estavam quase sempre entre os mais homenageados da turma.
Em geral, eram também os mais generosos com seus alunos.
Lembro-me de um deles, formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, que se recusou a me examinar na prova prática de Pediatria e Puericultura, no Hospital da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, ao ler meu sobrenome.
Disse, com firmeza e afeto:
— Jamais examinarei alguém da família do meu professor na Bahia.
Deu-me a nota máxima e chamou o próximo aluno.
Naquele gesto, havia respeito, gratidão e memória.
E eu compreendi, mais uma vez, que os grandes mestres ensinam até quando silenciam.
Gabriel Novis Neves
15-04-2026
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