Mesmo encantado com a intensidade do Rio de Janeiro, havia momentos em que a saudade de Cuiabá surgia com força inesperada.
Bastava uma tarde mais silenciosa ou uma carta recebida de casa para que as lembranças aparecessem com nitidez.
Eu me recordava das ruas conhecidas, do calor do nosso sol e das conversas em família.
Aquela distância geográfica era também um aprendizado emocional: para crescer, muitas vezes precisamos nos afastar, ainda que temporariamente, das nossas raízes.
Sentia saudade dos meus pais, dos irmãos, dos ruídos e da calmaria da minha cidade.
Durante o dia as aulas preenchiam o tempo e ajudavam a distrair o pensamento.
Mas, à noite, no quarto de pensão, era quando a danada da saudade chegava.
A gente sente saudade — e como é difícil defini-la!
Poetas e compositores da nossa música popular brasileira sempre souberam tratar bem desse sentimento.
O movimento da bossa nova quase esgotou o tema.
Mas, muito antes dela, quantas canções já falavam da saudade com emoção!
Gosto da definição de Alceu Amoroso Lima: — “Saudade é a presença da ausência.”
E, para senti-la, nem sempre a distância é necessária.
Podemos estar ao lado de alguém e ainda assim sentir saudade de um tempo que já não volta. Isso acontece, por exemplo, nos relacionamentos que não deram certo.
Mas a saudade de casa é diferente de todas as outras.
Ela traz de volta o corredor onde jogávamos botão.
A sala de visitas com o telefone preto preso à parede.
O quarto escuro iluminado por uma telha de vidro.
A varanda com suas cadeiras de balanço e a trepadeira florida protegendo do sol da tarde.
A copa, onde fazíamos as refeições e bebíamos água do pote.
A cozinha com o forno de tijolos.
A área cimentada, com o tanque de onde tirávamos água para o banho.
O portão que levava ao quintal e dava saída para outra rua.
Lembrar da casa da minha infância — que já não existe — é revisitar um mundo inteiro guardado dentro de mim.
E é ali que a saudade, em silêncio, continua morando.
Gabriel Novis Neves
21-03-2026
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