É a crônica de uma janela que via tudo: os desfiles, os namoros disfarçados e o passar do tempo — até o dia em que a vista se perdeu entre prédios.
Era a aristocrática rua de Cima, dos casarões com lindos sobrados e quintais frutíferos, de sombras generosas que se derramavam pelas calçadas.
Ali, por muito tempo, morou a elite da cuiabania.
Quando criança, passava com frequência por essa rua curta.
Ia da Praça Alencastro até a Praça da Mandioca, onde moravam os capitães- generais em seus belos casarões.
Tudo que acontecia em Cuiabá passava pela rua de Cima: procissões, missas na Catedral, desfiles cívico-militares, retretas no Jardim, movimentos no Palácio Alencastro e no Palácio da Instrução.
Bares e restaurantes animavam as noites, e das janelas elegantes os moradores observavam tudo — os namoros disfarçados, as festas, a própria vida a desfilar diante deles. Essas janelas eram, para seus privilegiados donos, um verdadeiro parque de diversões.
O lugar naquela janela que via tudo era disputado, até mesmo por outros moradores da casa.
Mas um dia, a vista se perdeu entre prédios.
Os antigos habitantes se mudaram para bairros afastados, o comércio fechou as portas, e as residências desapareceram.
A outrora charmosa rua de Cima tornou-se um deserto, com noites tristes e silenciosas.
Resta aqui e ali algum comércio resistente, pelas bandas do Bar do Bugre, também com os dias contados.
Desconheço qualquer projeto de revitalização do Centro Histórico e Cultural de Cuiabá.
As ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo precisam ser salvas — com suas histórias e memórias.
Exemplos não faltam em outras cidades: lembro-me da Lapa, no Rio de Janeiro, que não morreu.
O progresso empurra Cuiabá para longe da velha capital, para onde antes eram chácaras, sítios e fazendas — hoje tomadas por casas sem janelas, sem varandas, sem o prazer de ver a banda passar.
É isso que estamos deixando para as novas gerações: uma cidade sem história.
Gabriel Novis Neves
29-10-2025






