domingo, 16 de agosto de 2026

MANGUEIRAS FLORIDAS


Antes dos frutos chegarem, surgiam as pequenas flores que perfumavam o quintal.

 

O menino observava aquele espetáculo silencioso, aguardando o tempo certo da colheita.

 

Aprendia, ainda criança, que a natureza não conhece pressa e recompensa apenas aqueles que sabem esperar.

 

No mundo atual, esqueceram-se as lições da mãe natureza e até os velhos desaprenderam a esperar.

 

É uma correria desenfreada, onde muitas vezes termina em uma UTI de um hospital da cidade ou no consultório de um psiquiatra.

 

Quando não em uma delegacia de polícia.

 

Meu pai só estudou os quatro anos do antigo ensino primário.

 

Esperou vinte anos para montar o seu negócio: o bar e sorveteria.

 

Mais vinte para se casar com uma mulher vinte anos mais nova.

 

Outros vinte anos para ser pai de nove filhos.

 

Acompanhou seus filhos concluírem os cursos universitários e se casarem.

 

Esperou seu filho mais velho retornar à Cuiabá, para implantar a Universidade Federal de Mato Grosso, como seu primeiro reitor.

 

Meu pai nunca teve pressa.

 

Viu a família florescer, para partir deste mundo no tempo certo.

 

Assim era antigamente, bem diferente dos tempos atuais da pressa, quando tudo tem que ser feito ontem.

 

Eu nunca tive pressa, mas tudo na minha vida aconteceu antes que eu esperasse.

 

Minha carreira administrativa iniciou pelo fim, como diretor de um hospital do Estado.

 

Não era professor e assumi a Secretaria Estadual de Educação.

 

Não tinha curso de pós-graduação e fui escolhido pelo Ministério da Educação para implantar a Universidade Federal de Mato Grosso e ser o seu primeiro reitor, tarefa que demorei onze anos.

 

Fui um dos fundadores da Academia de Medicina de Mato Grosso e seu primeiro presidente, hoje Membro Emérito.

 

Nunca havia lecionado em universidade particular e logo fui convidado para ser o primeiro diretor e implantar o seu curso de Medicina.

 

Não tenho pressa em ter um livro impresso, embora em meu blog tenha publicado mais de quatro mil crônicas.

 

Quando tive pressa acreditando em promessas, não me dei bem.

 

Gabriel Novis Neves

14-08-2026




CUIDANDO DOS PASSARINHOS


Os passarinhos faziam parte da rotina das casas antigas.

 

O menino colocava água limpa nos bebedouros, espalhava sementes e esperava, em silêncio, a visita daqueles pequenos visitantes.

 

Aos poucos descobria que cuidar dos animais era também uma forma de aprender respeito, paciência e carinho pela natureza.

 

O quintal da minha casa só ficava em silêncio durante a noite, quando os passarinhos recolhiam-se para dormir.

 

Bastava o dia clarear para que saíssem em busca de sua alimentação preferida: goiabas, cajus e mangas maduras.

 

Faziam uma alegre algazarra enquanto se alimentavam e entoavam seus cantos para atrair as fêmeas na época do acasalamento.

 

Seu canto enchia a casa de vida, formando uma verdadeira orquestra da natureza.

 

De vez em quando, aves de maior porte, como as pombas, apareciam para beber água ou construir seus ninhos.

 

Cuidar dos passarinhos nunca significou aprisioná-los em gaiolas.     

 

Eles nasceram para voar livremente, espalhando sementes pelos caminhos e contribuindo para o equilíbrio da natureza.

 

Certa vez, meu pai ganhou uma linda arara que falava muito e chamava cada pessoa da casa pelo nome.

 

Para evitar que fugisse, colocaram-na em uma bela gaiola, instalada junto à porta da cozinha.

 

A experiência, porém, não deu certo.

 

A arara acabou sendo doada a um colecionador, e nunca mais soube qual foi o destino daquela gaiola.

 

Hoje moro em um apartamento de cobertura, onde mantenho um pequeno jardim.

 

Ali continuo recebendo a visita de passarinhos que vêm beber água e algumas vezes, até construir seus ninhos.

 

Durante muitos anos, era comum o cuiabano criar passarinhos em casa.

 

Quase todos os antigos casarões exibiam gaiolas penduradas nas varandas e corredores.

 

Inesquecível, porém, era a coleção de Raul José Vieira, filho do deputado Augusto Mário Vieira.

 

Havia tantas gaiolas que algumas ocupavam até o seu dormitório.

 

O amor de Raul pelos pássaros era tão grande, que o levei para a Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Com o apoio científico da professora Mirami Macedo, foi criado o zoológico da universidade, em uma área ao lado da reitoria.

 

Infelizmente, hoje ele está desativado por falta de recursos.

 

Raul José formou-se em Biologia pela UFMT e, já aposentado, continua ministrando cursos para estudantes da UFMT e de escolas de Cuiabá.

 

Uma vida inteira dedicada ao estudo, à preservação e ao amor pelos passarinhos.

 

Gabriel Novis Neves

06-08-2026





Socó-boi e Galinha d'água em fotografias de
Raul José Vieira Neto (@netorauljosevieira) no Instagram 

sábado, 15 de agosto de 2026

TIRANDO ÁGUA DO POÇO


Nas casas antigas buscar água fazia parte da rotina diária.

 

O menino segurava a corda, observava o balde descer lentamente e esperava o momento de puxá-lo de volta, cheio de água fresca.

 

Era uma tarefa simples que ensinava esforço, colaboração e o verdadeiro valor de um bem tão precioso.

 

O poço fazia parte dos quintais quando eu era menino.

 

Além de fornecer água fresca aos moradores da casa, nas festas de Santo Antônio era imprescindível para as brincadeiras das moças casamenteiras.

 

Era no quintal, morada do poço, que aconteciam as danças, todos vestidos de caipiras.

 

Entre as brincadeiras mais procuradas estavam a de fincar a faca na bananeira e a de olhar para o fundo do poço.

 

As moças casamenteiras acreditavam descobrir ali o rosto do futuro namorado.

 

Os rapazes divertiam-se no pau de sebo.

 

O quintal sempre foi um lugar de lazer para toda a família.

 

Além de guardar aquele tesouro de água fresca, era o lugar ideal para armar uma rede e passar a tarde balançando, sem fazer nada, apenas brincando com os próprios pensamentos.

 

Gostava de acompanhar os pedreiros perfurando um poço e observar o capricho com que concluíram a obra, cercando sua abertura com segurança.

 

Um dos prazeres da minha infância era retirar água do poço da casa do meu avô.

 

Encostava-me na mureta e olhava bem lá no fundo, acompanhando o balde amarrado à corda até tocar a água.

 

Depois vinha o esforço de trazê-lo novamente à superfície, carregado daquele líquido precioso. Enchia o latão de vinte litros e o levava até a cozinha.

 

Estava terminada a minha tarefa.

 

Cuiabá nasceu numa baixada, e o lençol freático era superficial.

 

Durante muitos anos as casas não possuíam água tratada nem rede de esgoto.

 

O poço, portanto, não era apenas parte da paisagem dos quintais: era indispensável à vida das famílias.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, formado em Medicina e casado, morei numa casa de oitenta metros quadrados, sem quintal e com a fossa na garagem.

 

O tempo levou os poços, os grandes quintais e muitas daquelas antigas brincadeiras.

 

Mas não levou da minha memória o menino debruçado sobre a mureta, vendo um balde desaparecer na escuridão e voltar trazendo água fresca.

 

Naquele tempo, até tirar água do poço era uma maneira de aprender a viver.

 

Gabriel Novis Neves

12-08-2026




sexta-feira, 14 de agosto de 2026

CANDEEIROS


Quando a noite chegava, antes de a energia elétrica alcançar todos os cantos da cidade, o lampião transformava-se em companheiro indispensável das famílias.

 

O menino observava, curioso, o cuidado dos adultos ao limpar o vidro, aparar o pavio e acender a chama.

 

Sem perceber, aprendia que até a luz da casa dependia de paciência, atenção e responsabilidade.

 

Na minha infância, conheci a lamparina e lampião objetos indispensáveis nas casas daquele tempo, assim como as velas.

 

Os lampiões clareavam as salas e muitas vezes eram objetos de luxo, feitos de cristais importados da Europa.

 

Na sala da minha casa, havia um lindo par de lampiões que ganhei de herança, com uma vela comprida em seu interior.

 

Eram acessos em datas especiais, dando solenidade ao ambiente.

 

Hoje, com as modernas hidrelétricas, temos energia elétrica disponível praticamente o tempo todo.

 

Até um celular pode iluminar a escuridão, assim como os modernos lampiões movidos a bateria.

 

Os edifícios possuem geradores próprios, mantendo os elevadores em funcionamento mesmo nos momentos de falta de energia na cidade.

 

Os mais modernos fornecem eletricidade também aos apartamentos, oferecendo ainda mais conforto aos moradores.

 

Com isso, velas, lamparinas e lampiões ficaram na história.

 

Deixaram de ser companheiros inseparáveis das famílias.

 

E o menino de hoje aprende muito cedo a ligar a lanterna do seu celular.

 

Nas arquibancadas dos estádios, durante os jogos noturnos, milhares de torcedores acendem ao mesmo tempo as lanternas de seus aparelhos para saudar seus clubes.

 

Produzem um espetáculo lindo de se ver!

 

O Centro Histórico de Cuiabá também foi iluminado por lampiões.

 

Funcionários da prefeitura eram encarregados de acendê-los ao anoitecer e apagá-los ao amanhecer, segundo contava meu pai.

 

Ainda me lembro de alguns no Beco do Candeeiro, já sem função, testemunhas silenciosas de uma cidade que começava a desaparecer.

 

O historiador Rubens de Mendonça, meu professor, também me ensinou muito sobre a história dos lampiões de Cuiabá.

 

Hoje, basta tocar a tela de um celular para fazer a luz aparecer.

 

Mas nenhuma tecnologia consegue iluminar o passado como a memória.

 

E ainda vejo aquele menino, diante do lampião, descobrindo que uma pequena chama era suficiente para clarear uma casa inteira.

 

Gabriel Novis Neves

10-08-2026




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SINOS DOBRANDO


O sino da igreja marcava o ritmo da vida cuiabana.

 

Anunciava missas, festas, casamentos, procissões e até momentos de tristeza.

 

O menino aprendia a reconhecer cada toque e, mesmo sem olhar o relógio, sabia a hora de voltar para casa.

 

Eram sons que organizavam o cotidiano e aproximavam toda a comunidade.

 

O sino da Matriz era patrimônio de toda a pequena cidade de Cuiabá.

 

A cidade ficava triste com o silêncio dos sinos, fato que só acontecido na Sexta-Feira Santa.

 

Sem eles, parecia que ficávamos sem rumo e até perdíamos a hora de voltar para casa.

 

A Matriz ficava em frente à Praça da República. Possuía uma única torre, com dois sinos, e um grande relógio redondo ao lado.

 

De hora em hora, o relógio anunciava o tempo com suas badaladas, ouvidas à distância.

 

Na minha casa da rua de Baixo, ouvia perfeitamente as batidas do relógio da Matriz.

 

Os sons dos sinos aproximavam toda a comunidade.

 

Quando a Matriz foi elevada à categoria de Catedral, a igreja ganhou mais uma torre, porém sem sino.

 

Outras igrejas de Cuiabá também possuíam seus sinos, espalhando pela cidade seus chamados de fé.

 

Na minha infância, além dos sinos da Matriz, lembro-me dos sinos das igrejas do Senhor dos Passos, do Rosário, da Boa Morte, da Mãe dos Homens, de Nossa Senhora Auxiliadora e de São Gonçalo, além dos que soavam nas proximidades da Arquidiocese de Cuiabá.

 

As igrejas menores, chamadas capelas, geralmente não possuíam sinos.

 

Os sinos eram parte da alma das pequenas cidades.

 

Seus sons atravessavam ruas, entravam pelas janelas e aproximavam as pessoas.

 

Como era doce acordar com o sino da cidadezinha onde nasci, convidando seus moradores para a missa das cinco da manhã, cada qual levando consigo a devoção ao seu santo preferido!

 

Tenho saudade daquele tempo da infância, quando tudo parecia novo, simples e bonito.

 

Se eu pudesse voltar a ser criança, gostaria de acordar novamente com os sinos da manhã chamando para a missa e ouvir, ao cair da tarde, suas badaladas convidando para a reza.

 

Talvez eu não tenha saudade apenas dos sinos.

 

Tenho saudade do menino que parava para ouvi-los.

 

Gabriel Novis Neves

11-08-2026








terça-feira, 11 de agosto de 2026

ARREBALDES


Na Cuiabá antiga, boa parte dos moradores possuía um pequeno sítio ou uma chácara nas cercanias da cidade.

 

Tinham um caseiro de confiança e era ali que passavam os fins de semana.

 

Mantinham também uma pequena criação de porcos, galinhas e, mais raramente, uma vaca, além de uma horta sempre produtiva.

 

Essas propriedades localizavam-se às margens do rio Cuiabá, do Coxipó da Ponte, ou do rio Coxipó do Ouro, na grande Cuiabá.

 

Para entrar no sítio, era necessário abrir e fechar a porteira.

 

Essa missão cabia ao menino, que saltava do veículo da família para abrir a porteira e, logo em seguida, fechá-la.

 

Era uma responsabilidade levada muito a sério.

 

O menino aprendia cedo que um simples descuido poderia permitir a fuga dos animais ou causar transtornos à vizinhança.

 

Pequenos gestos como esse ensinavam compromisso, atenção e respeito pelas tarefas confiadas pelos adultos.

 

Nem sempre a missão era executada com prazer, embora o menino soubesse da importância da incumbência.

 

Mais tarde compreendeu que esses pequenos gestos ajudavam a formar o caráter e o senso de responsabilidade.

 

Meus pais nunca possuíram chácara ou sítio, mas eu sempre os frequentei.

 

Ia de carona no caminhão de parentes ou amigos e, por isso, quase sempre escolhido para abrir e fechar as porteiras.

 

Estas eram muito diferentes das portas.

 

Não possuíam chaves.

 

Sua abertura e seu fechamento exigiam paciência, habilidade e atenção.

 

O gado percebia a chegada dos veículos e costumava permanecer próximo à porteira.

 

Qualquer distração permitia a fuga de um animal, e a responsabilidade recaia sobre quem a havia aberto.

 

Hoje tudo mudou.

 

Os antigos sítios transformaram-se em bairros da cidade.

 

Cuiabá tornou-se uma das capitais do agronegócio, com fazendas altamente mecanizadas, tecnologia de ponta e até aeroportos privados para receber jatinhos. Mesmo assim, sempre que me lembro de uma porteira de madeira, volto a ser aquele menino encarregado de abri-la e fechá-la, aprendendo, sem perceber, que as maiores lições da vida costumam nascer das tarefas mais simples.

 

Gabriel Novis Neves

08-08-2026




segunda-feira, 10 de agosto de 2026

NO DIA DOS PAIS


Esta data começou a ser comemorada em nosso país em 1953, no segundo domingo de agosto.

 

Segundo a tradição cristã, foi escolhida em homenagem a São Joaquim, pai de Maria e avô de Jesus.

 

Na verdade, a iniciativa atendeu também aos interesses do comércio, que buscava impulsionar as vendas no segundo semestre do ano.

 

A ideia produziu os efeitos desejados e, desde então, os pais passaram a ganhar presentes, necessários ou não.

 

Neste ano, recebi de minha filha um par de chinelos de borracha.

 

Já estou usando.

 

Uma linda camiseta do filho do meio.

 

No domingo dedicado aos pais, torna-se difícil encontrar uma mesa disponível nos restaurantes da cidade.

 

Os shoppings também ficam lotados de pais acompanhados pelos filhos.

 

Infelizmente, muitos desses velhinhos passam boa parte do ano apenas na companhia de suas cuidadoras, sem receber sequer um simples telefonema dos filhos.

 

No Dia dos Pais, assim como no Dia das Mães, alguns são retirados de casa e levados a passear pela cidade, quase como troféus, numa demonstração pública de carinho que nem sempre corresponde à convivência do restante do ano.

 

Aqui em casa, a data foi comemorada em dose dupla: um almoço em família no sábado e, no domingo, a celebração da data especial.

 

Meu filho caçula veio presentear-me com um almoço de filé de bacalhau, na companhia do meu irmão, que mora em Niterói.

 

Minha família cresceu tanto que fui obrigado a apresentar meus bisnetos ao tio visitante.

 

Há, porém, uma unanimidade entre todos: a educação das crianças e a beleza dessa nova geração.

 

Além da formação recebida em casa, seus pais fazem questão de levá-las a conhecer outras culturas, pois viajar também é uma forma de educar.

 

Viajam tranquilamente de avião, sentem-se à vontade em hotéis e convivem com diferentes idiomas.

 

Estão sendo alfabetizadas em uma rede de escolas onde o inglês faz parte da rotina.

 

No mundo atual, quem não aprende esse idioma certamente encontrará maiores dificuldades no futuro.

 

O caçula dos meus bisnetos, com apenas cinco anos, cumprimenta com naturalidade, em inglês, seus professores e funcionários da escola.

 

Como nasci em 1935, não cresci comemorando o Dia dos Pais, como acontecia com o Natal e o Ano-Novo.

 

Somente depois de casado essa comemoração passou a fazer parte do calendário da nossa família, por iniciativa da Regina.

 

Hoje, compreendo que mais importante do que os presentes é o carinho compartilhado.

 

O verdadeiro presente de um pai é sentir-se lembrado, amado e cercado pela família.

 

Gabriel Novis Neves

09-08-2026