Entre o cheiro de cola e de couro, o sapateiro era um artista silencioso.
A crônica homenageia esses mestres do ofício que consertavam não só sapatos, mas também histórias gastas pelo tempo.
Na Cuiabá antiga os sapatos eram de couro e duravam muitos anos.
Quando eu era guri, todos os meus sapatos tinham meia-sola e se aposentavam apenas quando o pé crescia — ou quando o couro, finalmente se rasgava.
Tínhamos inúmeros e bons sapateiros, e era difícil encontrar uma quadra sem pelo menos um deles.
Suas oficinas ficavam quase sempre na própria casa, ocupando uma salinha de frente para a rua.
Ali reinavam o cheiro da cola e do couro, misturados à boa conversa do artesão — o verdadeiro artista silencioso.
Fiz amizade com vários, entre eles o seo Atanásio, na rua Voluntários da Pátria, quase esquina com a rua de Cima, em frente à casa do meu avô Alberto.
Naquele tempo, sapatos não eram descartáveis como os de agora, e em casa ninguém tinha mais que um par.
Para mantê-los sempre limpos, a cidade contava com muitos engraxates —uns de banca fixa, outros ambulantes.
Na Praça Alencastro, na da República e na rua de Cima, entre a avenida Presidente Vargas e a rua Cândido Mariano, eles eram encontrados aos montes.
Os engraxates pouco conversavam, diferente dos sapateiros, que viviam contando histórias aos fregueses.
Muitas das antigas oficinas desapareceram, dando lugar às torres residenciais.
Mas a casa do sapateiro da Voluntários da Pátria, com sua oficina de artista silencioso, permanece lá — intacta e fechada.
Talvez algum problema jurídico, ligado ao inventário tenha sido o motivo do abandono.
Hoje, já não sei se ainda existem sapateiros em nossa cidade.
Era um ofício passado de pai para filho, tradição que resistiu por gerações.
Com a fundação da Universidade Federal de Mato Grosso, o filho do sapateiro tornou-se doutor — e assim melhoraram as condições sociais de muitas famílias de ofícios artesanais.
Gabriel Novis Neves
05-11-2025






