Nem tudo era descartado quando apresentava defeito.
Sapatos gastos ganhavam nova vida nas mãos habilidosas do sapateiro.
Costuras, solas e saltos eram cuidadosamente recuperados, permitindo que o calçado acompanhasse seu dono por muitos anos.
Mais do que consertar sapatos, esses profissionais ensinavam, sem palavras, uma lição de economia, paciência e respeito pelas coisas.
Hoje os sapateiros quase desapareceram das ruas, mas continuam caminhando pelas lembranças de quem viveu aquele tempo.
A Cuiabá da minha infância possuía inúmeras sapatarias.
Esse fato revelava um costume simples: cuidar bem do que se possuía.
Fui criado no centro histórico, onde ruas e becos abrigavam pequenas bancas de sapateiros.
O som ritmado do martelo, o cheiro do couro e a concentração do artesão faziam parte da paisagem da cidade.
Assim fui educado.
Em casa aprendíamos a evitar desperdícios e a valorizar cada objeto.
Quando retornei à Cuiabá, em 1964, ainda encontrei muitas sapatarias em plena atividade.
Hoje quase não as vejo.
Vivemos numa época em que grande parte dos produtos nasce com vida curta, tornando-se mais fácil substituí-los do que consertá-los. Sempre admirei a imagem de um sapateiro trabalhando.
Há nela algo de profundamente humano.
Curvado sobre a bancada, concentrado em seu ofício, ele me fez lembrar a figura de São José, exercendo com dignidade o trabalho silencioso das mãos.
A economia doméstica, que meus pais ensinavam naturalmente pelo exemplo, hoje é estudada em universidades.
Muitas profissões artesanais desapareceram, levadas pelo avanço da tecnologia e pelos novos hábitos de consumo.
Ainda assim, acredito que o verdadeiro valor das coisas, continua sendo o mesmo: cuidar, conservar e agradecer pelo que temos.
Talvez essa seja a mais duradoura lição deixada pelos velhos sapateiros.
Gabriel Novis Neves
28-06-2026