domingo, 24 de maio de 2026

DESCANSO QUE TAMBÉM CANSA


Curiosamente há descansos que também cansam.

 

Feriados com viagens longas, filas, malas, trânsito, aeroportos, compromissos familiares e excesso de programação podem deixar a pessoa mais exausta do que antes.

 

O verdadeiro descanso talvez seja mais simples. Às vezes, ele está em ficar quieto, ouvir uma música antiga, olhar uma planta, conversar pouco ou apenas permitir que o corpo permaneça em paz.

 

Ultimamente, para descansar, prefiro ficar em casa, escrevendo, assistindo ao futebol ou simplesmente deixando o corpo repousar na cama, fingindo dormir.

 

Nunca fui homem de sair para descansar. Sempre gostei da tranquilidade da casa, mesmo nos dias sem visitas.

 

Com a idade avançada, meu lazer predileto passou a ser o repouso silencioso do dormitório.

 

Minha verdadeira sala de visitas é o quarto.

 

Recebo os amigos deitado na cama, enquanto eles se acomodam nas cadeiras de balanço ou, quando são familiares mais íntimos, sentam-se ao meu lado para longas conversas sem pressa.

 

Esse é o descanso que mais me agrada.

 

Arrumar e desarrumar malas, enfrentar aeroportos e esperas já não me seduz.

 

Hoje, sinto que o melhor das viagens continua sendo a volta para casa.

 

As gerações modernas gostam de viver na rua. Tudo parece motivo para sair, viajar ou circular pela cidade.

 

Moram em condomínios distantes e, para chegar ao centro, enfrentam deslocamentos demorados.

 

Nasci e sempre vivi no centro de Cuiabá, onde tudo ficava perto: hospitais, consultórios, farmácias, padarias, igrejas, restaurantes.

 

Antes das artroses nos joelhos, eu fazia quase tudo a pé.

 

Meu pai nunca teve automóvel.

 

Meu avô se deslocava a cavalo até o Porto ou ao Coxipó.

 

Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que a proximidade também é uma forma de descanso.

 

Na velhice fui descobrindo que descansar não é fugir do mundo.

 

É encontrar paz dentro da própria casa.

 

Gabriel Novis Neves

11-05-2026




sábado, 23 de maio de 2026

A CIDADE SEM BUZINAS


Uma cidade sem buzinas parece outra cidade.

 

O mesmo asfalto, as mesmas esquinas, os mesmos prédios, mas com uma alma diferente.

 

O silêncio permite ouvir sons esquecidos: uma ave, uma vassoura riscando a calçada, uma conversa baixa, o vento passando pelas árvores.

 

Quem viveu a Cuiabá antiga sabe que a cidade também tinha seus barulhos, mas eram sons humanos, reconhecíveis, quase familiares.

 

As buzinas dos automóveis, que durante a semana tanto incomodam, formam uma espécie de orquestra desordenada da vida moderna.

 

Curiosamente, quando desaparecem, sentimos que falta alguma coisa.

 

Escrevo do escritório no vigésimo andar de um edifício, em uma manhã de domingo e percebo essa ausência.  

 

Estou condicionado ao ruído da cidade.

 

Vou até a janela e tudo parece diferente.

 

As ruas estão quase vazias.

 

Não há vozes, passos apressados, motores impacientes.

 

Até as folhas das árvores parecem imóveis.

 

Não temos em Cuiabá o apito dos trens nem das embarcações dos grandes portos.

 

Os sons que chegam até a mim aos domingos são outros: um portão abrindo devagar, uma conversa distante, o canto de uma ave solitária. É um silêncio que devolve à cidade uma alma antiga.

 

Percebo, então, que o barulho também é vida. 

 

Criança saudável nasce gritando.

 

O silêncio, naquele instante, preocupa. Aniversário faz barulho.

 

Quando tudo silencia, sabemos que a festa terminou.

 

O próprio corpo humano produz seus ruídos: o coração pulsa, os pulmões respiram, o estômago reclama, a vida se anuncia pelos sons.

 

Também a cidade fala através deles.

 

Precisamos aprender a conviver com a linguagem do ruído e do silêncio.

 

Uma cidade completamente silenciosa parece perder parte da própria identidade.

 

Talvez precisemos das buzinas, dos passos, das vozes e dos pequenos ruídos cotidianos para sentirmos que a vida continua circulando entre nós.

 

No fundo, é o equilíbrio entre o silêncio e o barulho que dá alma às cidades — e também às pessoas.

 

Gabriel Novis Neves

18-05-2026




ALMOÇOS SEM HORA PARA ACABAR


Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.

 

E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.

 

Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.

 

A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.

 

Um assunto puxava outro.

 

Uma lembrança chamava outra.

 

E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.

 

Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.

 

Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.

 

Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.

 

Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.

 

São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.

 

As desculpas são muitas.

 

A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.

 

Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.

 

Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.

 

Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.

 

E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!

 

Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.

 

Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.

 

E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.

 

Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2026




quinta-feira, 21 de maio de 2026

RELÓGIO QUE ATRASA, NÃO ADIANTA. RELÓGIO QUE ADIANTA NÃO É CERTO TAMBÉM


Toda família parecia possuir um relógio teimoso.

 

Alguns atrasavam, outros adiantavam sem explicação.

 

Mesmo assim, ninguém pensava em jogá-los fora.

 

Acertava-se o horário de vez em quando, e a vida seguia.

 

Aqueles relógios antigos faziam parte da rotina da casa, marcando as refeições, as novelas, os horários escolares e as visitas.

 

Hoje os celulares oferecem a hora exata em qualquer lugar.

 

Mas os antigos relógios domésticos tinham personalidade própria, quase como membros silenciosos da família.

 

As casas de antigamente eram construídas de adobes, quase sempre coladas umas às outras, permitindo que os vizinhos ouvissem os sons vindos da casa ao lado.

 

A varanda da minha casa era separada da vizinha apenas por uma parede de adobe.

 

De lá ouvíamos a tosse do seo Alfredão, as conversas em voz alta e o relógio marcando as horas.

 

Ficava pendurado na varanda, com grande mostrador e um pêndulo dourado anunciando o tempo.

 

As badaladas chegavam perfeitamente até à nossa casa.

 

Lá em casa havia um relógio menor e redondo, que sempre adiantava.

 

Era rebelde às horas e também aos consertos dos relojoeiros de Cuiabá.

 

Mesmo assim, ninguém cogitava desfazer-se dele.

 

Com o passar dos anos, os velhos relógios acabaram transformados em peças de decoração daqueles antigos casarões.

 

Tudo nas casas de outrora desperta saudade: as cadeiras de balanço, as redes da sesta, as cortinas claras separando os cômodos, a cozinha de fogão a lenha com forno de barro.

 

Era a arquitetura das casas cuiabanas da primeira metade do século passado.

 

As lembranças da infância permanecem duradouras, quase imortais, como o relógio que adiantava sozinho numa época em que ainda não existia tanta pressa.

 

Poucos tinham automóvel e, caminhando pelas calçadas, ouvíamos as badaladas dos relógios domésticos.

 

Quem morava perto da Catedral guiava-se pelo seu grande relógio, que determinava a hora de acordar, ir à missa, ao colégio, almoçar e dormir.

 

Tudo isso fazia parte da vida dos moradores do Centro Histórico e da emblemática rua de Baixo.

 

Foi ali que nasci, cresci e parti para a vida, até me transformar em cronista do cotidiano.

 

No fundo, talvez eu continue ouvindo, dentro de mim, o velho relógio da infância marcando lentamente o tempo da saudade.

 

Gabriel Novis Neves

20-05-2026




quarta-feira, 20 de maio de 2026

AROMAS DE UMA VIDA INTEIRA

 

Poucas coisas davam tanta sensação de casa arrumada quanto abrir um sabonete novo no banheiro.

 

O perfume se espalhava discretamente e anunciava cuidado doméstico.

 

Algumas famílias guardavam sabonetes mais perfumados para dias especiais ou para a chegada das visitas.  

 

Havia também quem colocasse as caixinhas vazias dentro das gavetas, apenas para perfumar as roupas.

 

Pequenos hábitos simples davam personalidade as casas.

 

E certos cheiros permanecem vivos na memória durante décadas.

 

Minha mãe tinha o hábito de manter a casa sempre limpa, arejada e organizada, tudo feito com economia e zelo.

 

Muito cedo ela me ensinou que sabonete nunca acabava.

 

Quando a barra ficava pequena, era colada em outra nova, e assim sucessivamente.

 

Também guardava as embalagens perfumadas nas gavetas dos armários.

 

São perfumes que atravessam o tempo e permanecem guardados nas lembranças.

 

Minha mãe arrumava a casa de um jeito tão especial que, ainda da rua, já sabíamos que estávamos chegando perto de casa.

 

Tudo era feito com a ajuda dos filhos mais velhos, numa colaboração silenciosa e natural.

 

Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, conheci outros cheiros inesquecíveis.

 

Impossível esquecer o aroma das Lojas Sears, na Praia de Botafogo.

 

A refrigeração central, as escadas rolantes, os restaurantes, as lanchonetes, os cinemas e as lojas de departamentos criavam um ambiente moderno e perfumado, muito diferente da Cuiabá daquele tempo.

 

Em 1952 havia duas grandes novidades no Rio: o Estádio do Maracanã e as Lojas Sears.

 

Mais tarde, os sabonetes em barra começaram a desaparecer dos banheiros públicos, substituídos pelos sabonetes líquidos em recipientes presos à parede, considerados mais higiênicos e econômicos.

 

Todas as crônicas que escrevo acabam me levando de volta aos ensinamentos de minha mãe.

 

Ela foi a grande mestra da minha vida, até mesmo naquele inocente sabonete que, em suas mãos, parecia nunca ter fim.

 

Gabriel Novis Neves

16-05-2026



terça-feira, 19 de maio de 2026

VISITAS AMIGAS


Antigamente as visitas não tinham tanta pressa de ir embora.

 

Muitas vezes chegavam para passar a tarde e acabavam dormindo.

 

Armavam-se camas improvisadas, surgiam colchões pela sala e a conversa atravessava a noite.

 

As crianças adoravam a novidade.

 

Havia menos conforto material, mas sobrava naturalidade na convivência.

 

Hoje, quase tudo precisa ser combinado com antecedência.

 

A espontaneidade das antigas visitas parece ter desaparecido junto com certas liberdades da vida doméstica.

 

Dormir na casa do vizinho era um costume daquele tempo.

 

Os hábitos antigos, com a modernidade e o passar dos anos, foram desaparecendo.

 

Da minha geração, não conheço ninguém que não tenha experimentado aquelas pequenas liberdades da convivência familiar.

 

Curioso é perceber que as crianças não eram ensinadas a dormir fora de casa.

 

Descobriram isso por pura intuição, como se a amizade naturalmente prolongasse o dia até a noite.

 

E muitos adultos também gostavam daquela informalidade, dormindo no chão, sobre colchões improvisados, em meio às conversas e risadas.

 

Minha mãe recebia muitas visitas.

 

Tinha amigas espalhadas pelos bairros de Cuiabá, numa verdadeira comunhão de afeto e carinho.

 

Nunca deixava uma visita sem resposta.

 

Estava sempre indo reencontrar amigas, quase sempre acompanhada dos filhos mais velhos.

 

Foi assim que aprendi a conhecer os costumes dos antigos cuiabanos e a importância de uma conversa sem pressa.

 

Nessas visitas, a dona da casa preparava sucos com frutas do quintal, oferecia guloseimas guardadas em latas de alumínio, ou fritava, na hora os inesquecíveis sonhos da minha infância.

 

Era gostoso ser criança naquele tempo, quando a cidade, com suas ruas, becos, praças, córregos, morros e jardins, parecia um grande parque de diversões.

 

Os quintalões arborizados sombreavam generosamente as ruas, refrescando a velha Cuiabá.

 

A Cuiabá de trezentos anos, aquela da minha infância, foi aos poucos se afastando.

 

Muitos moradores deixaram os antigos bairros e seguiram para condomínios modernos e fechados, onde, muitas vezes, os vizinhos mal se conhecem.

 

Talvez por isso as visitas já não durmam mais em casa.

 

Porque certas intimidades também desapareceram com o tempo.

 

Gabriel Novis Neves

15-05-2026





PALETÓ GUARDADO


Houve um tempo em que muitos homens possuíam apenas um bom paletó.

 

Ficava protegido no guarda-roupa e só saía em casamentos, missas, aniversários ou fotografias da família.

 

Vestir aquele paletó mudava até o comportamento da pessoa.

 

Os sapatos eram engraxados, o cabelo penteado com cuidado e a postura ficava mais séria.

 

Hoje as roupas se multiplicaram e a formalidade diminuiu.

 

Mas aquele velho paletó carregava um respeito silencioso pelos acontecimentos da vida.

 

Na minha infância, era fácil identificar quando um homem estava indo para alguma solenidade importante.

 

O paletó bem escovado, a gravata apertada no colarinho e o perfume forte anunciavam que aquele dia não era comum.

 

Muitos pais de família trabalhavam o ano inteiro usando roupas simples, às vezes já gastas pelo serviço pesado, mas guardavam com enorme cuidado o ‘paletó de sair. ’

 

Ele quase nunca era lavado, para não perder o corte nem o brilho do tecido.

 

Ficava pendurado no armário, protegido por capas improvisadas, como se fosse uma peça valiosa da casa.

 

Quando chegava a ocasião especial, havia uma pequena cerimônia doméstica.

 

A mãe ajudava a escovar a roupa, os filhos observavam em silêncio e o homem parecia se transformar diante do espelho.

 

O paletó dava ao seu dono uma aparência de importância, mesmo que a vida fosse simples e apertada.

 

Hoje quase ninguém conserva esse ritual.

 

As roupas ficaram mais informais, as cerimônias mais leves e os guarda-roupas mais cheios.

 

Mas confesso que ainda sinto certa emoção ao ver um velho paletó bem cuidado.

 

Ele me fez lembrar um tempo em que as pessoas talvez possuíssem menos coisas, porém davam mais valor aos momentos importantes da vida.

 

Gabriel Novis Neves

13-05-2026