A lembrança mais antiga que guardo do cais do rio Cuiabá é anterior à inauguração da Ponte Júlio Muller, em 1942.
Em 1939, viajei com meus pais e meus dois irmãos menores, de hidroavião para visitar minha avó Eugênia no Rio de Janeiro.
Recordo que chovia muito.
A pequena aeronave era ocupada por nossa família e o comandante da Polícia Militar do Estado, Coronel Máximo Levy, nosso vizinho na rua de Baixo.
Eu chorava nos braços de meu pai, enquanto meus irmãos dormiam tranquilamente.
Era costume, naquele tempo, quando o comandante da Polícia Militar viajava, executar hinos militares na despedida e chegada das autoridades, mesmo sob chuva intensa.
Depois que embarquei e o hidroavião deslizou pelas águas calmas do rio Cuiabá, adormeci. Nada mais me lembro da viagem.
Do Rio de Janeiro guardo apenas a lembrança dos brinquedos da praça do Lido, próximo ao Posto 2 de Copacabana.
Conservo como uma relíquia uma fotografia tirada em um daqueles brinquedos, ao lado da minha mãe, de Yara e de Pedro.
Algum tempo depois, comecei a frequentar o cais do porto, na garupa do cavalo de meu avô Alberto.
Ele costumava levar o animal para tomar banho nas águas do rio.
Naquele tempo, Cuiabá vivia relativamente isolada do restante do país.
Era a chegada dos vapores que quebrava a rotina tranquila das ruas antigas.
Meu avô gostava de viajar para Corumbá a bordo dessas embarcações para visitar uma de suas filhas.
As famílias acompanhavam parentes e amigos até o cais.
As despedidas só terminavam quando o apito do vapor deixava de ecoar sobre as águas.
Na memória cuiabana daqueles tempos, o apito das embarcações ficou associado à esperança, à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam de longe.
O apito do vapor entrou para a história dos mais de trezentos anos da cidade, mas o Porto continua emocionando gerações como antiga porta de entrada de Cuiabá.
Foi por ali que chegou meu bisavô, Augusto Novis, baiano, médico da Marinha Imperial, vindo da Bahia.
Veio integrar as forças brasileiras que lutavam para expulsar os paraguaios de Corumbá.
Naquele tempo, havia um ritual para receber visitantes ilustres.
Autoridades, famílias tradicionais e jovens donzelas dirigiam-se ao cais para dar boas-vindas aos recém-chegados.
Os militares eram homenageados e convidados para jantares festivos.
Meu bisavô ficou noivo justamente no jantar de sua chegada.
Quis repetir uma dança com a jovem cuiabana que acabara de conhecer, e daquele encontro nasceu uma história de amor.
Terminada a campanha militar, retornou a Cuiabá, casou-se, constituiu uma numerosa família, abriu seu consultório e nunca mais voltou a Salvador.
O tempo passou.
Os vapores desapareceram, os aviões encurtaram distâncias e as estradas aproximaram os lugares.
Mas, em certas tardes silenciosas de Cuiabá, ainda parece possível ouvir, ao longe, o velho apito do vapor atravessando as águas do rio e navegando pela memória da cidade.
Gabriel Novis Neves
28-05-2026