domingo, 30 de agosto de 2026

DOMINGOS DE ESTUDANTE


Nem todos os domingos eram de passeio para os estudantes de Medicina.

 

Muitas vezes, o dia era reservado para colocar a matéria em dia.

 

Eu ficava no quarto da pensão lendo livros e revisando as anotações da semana.

 

O silêncio dominical ajudava na concentração.

 

Às vezes, eu parava um pouco, olhava pela janela e pensava na família distante.

 

Depois, voltava aos livros, sabendo que aquele esforço fazia parte do caminho que eu havia escolhido.

 

Que profissão era a Medicina, exigindo tamanha dedicação de seus alunos!

 

Na pensão, uns estimulavam os outros ao estudo continuado.

 

No nosso grupo, porém, um deles deixou de nos acompanhar, vítima fatal de um acidente de bonde, ao saltar com ele ainda em movimento.

 

Sofreu traumatismo de crâneo, no quarto ano da faculdade.

 

Durante o tempo de estudante soube também do suicídio de dois colegas: um no início do curso e o outro no sexto ano, com quem tive mais convivência, pois éramos plantonistas no mesmo hospital.

 

A responsabilidade de nos tornarmos bons médicos era um peso que alguns não suportaram, a ponto de abandonarem a própria vida.

 

Apesar dessas dores, a minha turma espalhou bons profissionais por esse Brasil.

 

 Naquele tempo, existiam poucas escolas de Medicina no país, quase todas públicas, situadas em cidades banhadas por água salgada.

 

No início da década de 1950, o Brasil contava com cerca de treze escolas médicas, todas públicas.

 

Naquela mesma década, houve crescimento, e mais catorze escolas foram criadas, sendo cinco particulares.

 

Hoje, existem em funcionando quinhentas e treze escolas de Medicina no Brasil, das quais trezentas e noventas são particulares.

 

Nosso Estado possui seis faculdades de Medicina, duas delas particulares.

 

Hoje, já não é preciso deixar o próprio Estado para estudar Medicina.

 

Cuiabá, com suas três faculdades, vêm formando excelentes médicos.

 

Tenho disso um belo exemplo em minha própria família: uma neta e o marido estudaram em escola particular e se tornaram excelentes profissionais.

 

Estudar longe de casa tornou-se tema frequente das minhas crônicas.

 

E talvez porque, no silêncio de um quarto de pensão, a saudade também ajudasse a formar o homem que o médico viria a ser.

 

Gabriel Novis Neves

02-04-2026




OS PRIMEIROS PROFESSORES CHEGARAM DE LONGE


Os primeiros professores da UFMT desembarcavam em Cuiabá trazendo livros, sotaques diferentes e disposição para enfrentar desafios.

 

Muitos deixavam grandes centros urbanos para morar numa cidade ainda pequena, quente e distante das grandes capitais culturais do país.

 

Alguns estranhavam o calor cuiabano, as ruas tranquilas e o ritmo da vida local.

 

Mesmo assim, permaneceram.

 

Vieram ajudar a construir uma universidade praticamente do zero.

 

Com eles chegaram novas ideias, experiências acadêmicas e uma enorme vontade de ensinar numa terra ainda carente de oportunidades no ensino superior.

 

Foi difícil explicar que a universidade não era mais uma repartição pública federal destinada a oferecer bons empregos aos filhos da elite cuiabana.

 

Ela nascera para oferecer oportunidades a todos e romper uma antiga tradição: a de que o filho do médico deveria ser médico e o filho do sapateiro, sapateiro.

 

Ouvi muitas críticas por aproveitar um professor vindo de longe em lugar de um filho da terra.

 

Sempre procurei escolher professores pelo currículo, pela competência e pela capacidade de ensinar, e não pelo sobrenome ou pelo lugar onde haviam nascido.

 

Graças a essa luta, em pouco tempo implantamos uma universidade respeitada no país.

 

Seus cursos, inclusive os considerados nobres — Direito, Engenharia e Medicina —alcançaram excelentes avaliações do Ministério da Educação.

 

Praticávamos a política educacional.

 

A política partidária não tinha lugar dentro da universidade.

 

Cheguei, inclusive, a perder o cargo de reitor, sendo posteriormente reconduzido.

 

Passados mais de cinquenta anos da criação da UFMT, é emocionante ouvir os depoimentos daqueles primeiros professores que chegaram de longe para nos ajudar.

 

Muitos permaneceram e adotaram Cuiabá como sua própria cidade.

 

Em reconhecimento à participação naquela aventura educacional, receberam o título de professores fundadores.

 

Tenho hoje o prazer de conviver com gerações mais novas que nem me conheceram e pouco sabem sobre os primeiros tempos de nossa universidade.

 

A atual reitora, professora doutora Marluce, zelosa com a preservação, procura do nosso passado, procura reconstruir e valorizar essa bonita história.

 

Um dos primeiros atos de sua gestão foi retomar o Projeto Memória, com a inauguração da placa da Sala de Parto, sede da primeira reitoria da nossa universidade —fato ainda desconhecido por muitos.

 

Aqueles professores chegaram de longe trazendo livros nas malas e sonhos na cabeça.

 

Com o passar dos anos, deixaram de ser professores de fora.

 

Tornaram-se parte da história de Cuiabá.

 

E ficaram para sempre na memória da nossa Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

25-08-2026




sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O SONHO DE ESTUDAR EM MATO GROSSO


Durante muitos anos, estudar Medicina, Engenharia ou Direito significava deixar Mato Grosso.

 

As famílias se sacrificavam para manter os filhos em cidades distantes, como Rio de Janeiro, São Paulo ou Belo Horizonte.

 

A implantação da UFMT começou a mudar esse destino.

 

Pela primeira vez, muitos jovens puderam cursar uma universidade sem abandonar suas raízes.

 

O sonho do diploma ficou mais próximo também das famílias simples do interior.

 

A universidade representou economia para os pais, esperança para os filhos e desenvolvimento para todo o Estado, que começava a crescer rapidamente.

 

E o ensino superior já não era um espaço reservado apenas aos homens.

 

Antes, os filhos de famílias pobres que desejavam prosseguir nos estudos tinham poucas alternativas.

 

Alguns procuravam o seminário, onde se preparavam para seguir a vida religiosa.

 

Outros ingressavam nos colégios militares, buscando a carreira de oficial.

 

Dutra, Rondon e Anísio Botelho seguiram a carreira militar.

 

Dom Aquino Correa concluiu seus estudos superiores em Roma.

 

No início da Universidade, muitos dos nossos professores, eram ex-seminaristas e ex-freiras, extremamente qualificados para exercer a docência universitária.

 

As primeiras colações de grau eram unificadas e realizadas no ginásio de esportes, que ficava repleto de familiares dos formandos.

 

Até hoje guardo na memória a alegria daquelas famílias que chegavam de todas as partes do interior do Estado.

 

Depois da solenidade, muitos faziam questão de tirar uma fotografia com o reitor, para guardar para a posteridade aquele momento tão sonhado.

 

Era mais do que uma formatura.

 

Para muitas famílias, representava a realização de um sonho que atravessara gerações.

 

Ninguém mais precisava deixar Cuiabá ou Mato Grosso para se tornar desembargador, engenheiro ou médico.

 

A Universidade também começou a preparar seus próprios professores, deixando de depender exclusivamente daqueles que vinham de longe.

 

Meus médicos atuais são antigos alunos ou professores que chegaram de outros lugares para lecionar e acabaram ficando por aqui.

 

Todos são professores universitários.

 

Hoje, Mato Grosso possui universidades e centros de ensino espalhados por várias cidades.

 

O jovem já pode estudar Medicina em Cuiabá, Sinop, Rondonópolis ou Cáceres sem precisar deixar o Estado.

 

O sonho do ensino superior em Mato Grosso vem de longe.

 

Em 1808, em Vila Bela da Santíssima Trindade, surgiu a histórica Aula de Anatomia.

 

Mais de um século e meio depois, com a criação da UFMT em 10-12-1970, aquele antigo sonho ganhou casa, professores e alunos.

 

E Mato Grosso começou a formar, em sua própria terra, os filhos que antes precisava mandar para longe.

 

Gabriel Novis Neves

26-08-2026




RESPEITAR OS RIOS


No período das chuvas o rio Cuiabá mudava de aparência.

 

Suas águas ganhavam força e despertavam respeito nos moradores.

 

O menino observava aquele espetáculo da natureza e aprendia, com os mais velhos, que a coragem nunca deve caminhar separada da prudência.

 

Ouvi falar de muitas enchentes do rio Cuiabá e presenciei algumas delas.

 

A maior de todas aconteceu em 1974, quando as salas de aulas da Universidade Federal serviram de abrigo aos desabrigados.

 

Os alunos perderam o primeiro semestre das aulas, bairros ribeirinhos foram tomados pela força das águas e muita gente perdeu tudo o que possuía.

 

Depois da construção da barragem de Manso, o rio Cuiabá nunca mais apresentou enchentes daquela proporção.

 

Na Várzea de Ana Poupina e no Grande Terceiro, atrás do quartel da Polícia Militar, os moradores transitavam de canoa durante as cheias.

 

O mesmo acontecia na avenida 15 de Novembro, até as proximidades da igreja de São Gonçalo.

 

Em Várzea Grande, na região do antigo Matadouro Municipal, a estrada de chão batido também foi levada pelas águas.

 

Naquela época, existia apenas uma ponte de concreto armado ligando os dois maiores municípios do Estado.

 

As canoas, transportando pessoas e mercadorias, funcionavam o tempo todo.

 

As embarcações de pequeno e médio porte não conseguiam chegar até a capital, e todos sofriam com o desabastecimento.

 

Os pais levavam os filhos menores para apreciar o espetáculo impressionante da enchente do rio Cuiabá.

 

Fotógrafos profissionais registravam as águas e vendiam álbuns aos órgãos públicos, que os colocavam sobre as mesas das salas de espera.

 

Hoje existem poucos remanescentes da última grande enchente para contar sua história e lembrar como a prudência dos ribeirinhos era essencial.

 

O mesmo rio que, no período da seca, permitia travessias a pé, durante as grandes cheias transformava-se num verdadeiro mar.

 

A natureza oferecia um espetáculo de beleza e força, mas também ensinava seus limites.

 

O menino nunca esqueceu os moradores do Porto navegando de canoa pelas ruas.

 

Foi assim que aprendeu: o rio pode ser amigo, mas merece respeito.

 

Gabriel Novis Neves

17-08-2026











quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ÁRVORES QUE MUDAVAM A PAISAGEM


Setembro chegava quase sem pedir licença.

 

Algumas árvores perdiam as folhas, outras começavam a florescer, e o menino percebia pequenas mudanças na paisagem da cidade.

 

Não havia necessidade de consultar o calendário para saber que o ano caminhava depressa.

 

Bastava observar os quintais, as praças e o comportamento dos passarinhos.

 

A natureza possuía seu próprio relógio e, silenciosamente, avisava que mais uma estação estava chegando à velha Cuiabá.

 

A nova estação chegava cheia de novidades, especialmente para os costureiros, que preparavam roupas mais leves e coloridas para a sociedade cuiabana.

 

Setembro também era considerado o mês das noivas e dos casamentos elegantes.

 

Hoje, muitos deles são realizados longe da residência dos noivos, em cidades litorâneas ou até no exterior.

 

Os pais das noivas costumam justificar que sai mais barato do que uma grande recepção nos salões da cidade natal.

 

Para mim, setembro sempre foi um mês muito ligado à família.

 

É o mês de aniversário da minha mãe, de um irmão, de dois dos meus três filhos, de uma neta e de dois bisnetos.

 

É também o mês que anuncia a primavera e nos lembra que o fim do ano já não está tão distante.

 

Logo chegarão dezembro, as férias escolares, as festas de formatura, o Natal e o Ano-Novo.

 

Chegarão também as chuvas de verão, lavando a poeira das folhas e devolvendo aos quintais aquele verde vivo de dá alegria à cidade.

 

Nas férias, algumas famílias viajam para cidades distantes.

 

Outras permanecem por aqui, aproveitando as riquezas que a natureza colocou tão perto de nós: o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, a Serra de São Vicente.

 

Temos rios, riachos, córregos, peixes, árvores frutíferas e tantos lugares bonitos para contemplar que, às vezes me pergunto por que procuramos tão longe as belezas que moram ao nosso lado.

 

Talvez o menino já soubesse disso.

 

Em setembro ele não precisava viajar para descobrir um mundo novo.

 

Bastava abrir a janela.

 

As árvores mudavam a paisagem, os passarinhos festejavam entre os galhos e Cuiabá costumava a vestir novamente o seu verde.

 

O mesmo verde que acompanhou a minha infância e que, tantos setembros depois, ainda floresce dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

24-08-2026




terça-feira, 25 de agosto de 2026

MANGUEIRAS SE PREPARARAM PARA O VERÃO


Antes de aparecerem as primeiras mangas havia um espetáculo silencioso acontecendo nos quintais.

 

As mangueiras começavam a mudar, surgiam pequenas flores e o menino sabia que os frutos não demorariam.

 

Passava debaixo das árvores olhando para cima, imaginando quantas mangas nasceriam naquele ano.

 

Ninguém precisava explicar o calendário da natureza.

 

As árvores anunciavam as estações e ensinavam às crianças que cada coisa chegava exatamente no seu tempo.

 

Na Cuiabá da minha infância quase toda casa tinha uma mangueira no quintal.

 

Algumas eram enormes, antigas moradoras do lugar, oferecendo sombra durante o calor e frutos quando chegava a estação.

 

O menino conhecia cada uma delas.

 

Sabia qual produzia manga mais doce, qual amadurecia primeiro e aquela cujos galhos eram mais fáceis de subir.

 

Quando começavam a florir, um perfume discreto anunciava que o verão estava a caminho.

 

Depois vinham os pequenos frutos verdes, quase escondidos entre as folhas.

 

Era preciso esperar.

 

E como era difícil para uma criança compreender a paciência!

 

Todos os dias o menino examinava as mangas, procurando descobrir se alguma já estava no ponto de ser colhida.

 

Às vezes a natureza se antecipava,

 

Uma manga madura despencava no quintal durante a madrugada e, pela manhã, começava a disputa para saber quem a encontraria primeiro.

 

Não existiam supermercados oferecendo frutas durante o ano inteiro.

 

Havia o tempo da manga, do caju, da goiaba e da jabuticaba.

 

Cada fruta possuía sua estação e, talvez por isso, fosse tão esperada e saborosa.

 

Hoje encontro mangas bonitas nas bancas, quase em qualquer época.

 

Mas nenhuma possuía o mesmo sabor daquela que o menino esperava amadurecer no quintal.

 

Talvez porque algumas frutas alimentam o corpo.

 

Outras alimentam a memória.

 

E essas nunca saem da estação.

 

Gabriel Novis Neves

23-08-2026




segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE QUE MUDOU A CIDADE


Cuiabá era outra cidade antes da chegada da UFMT.

 

A vida universitária ainda era pequena e muitos jovens precisavam sair do Estado para estudar.

 

A implantação da universidade trouxe movimento, novos bairros, ônibus lotados de estudantes e uma juventude cheia de sonhos.

 

Aos poucos, a cidade passou a conviver com professores vindos de várias regiões do Brasil. Surgiram debates, eventos culturais, bibliotecas e novas profissões.

 

A universidade não mudou apenas o ensino: modificou o jeito de pensar de toda uma geração mato-grossense.

 

Muitos cuiabanos ilustres temiam que os filhos da terra não fossem capazes de implantar um projeto tão complexo: uma universidade federal em uma cidade de aproximadamente oitenta mil habitantes, distante dos grandes centros de educação, cultura e artes.

 

Viviam cochichando pela cidade, defendendo a vinda de técnicos do Rio de Janeiro e de São Paulo para executar a missão.

 

Dos três maiores responsáveis pelo trabalho, apenas o reitor havia estudado fora de Cuiabá, onde cursou Medicina.

 

Os vice-reitores acadêmico e administrativo, haviam cursado Direito em nossa Faculdade de Direito.

 

Aos poucos a universidade atraiu professores e pesquisadores de vários estados do Brasil e até do exterior.

 

Muitos ex-alunos foram aproveitados como professores e servidores da instituição federal.

 

Na época da implantação, não possuíamos nenhum professor com pós-graduação.

 

Hoje, todos têm doutorado e muitos pós-doutorado.

 

Ninguém mais precisa sair de Cuiabá para se tornar mestre ou doutor.

 

No início das atividades universitárias, professores eram enviados aos melhores centros de pós-graduação do Brasil e do exterior.

 

A inversão do binômio ensino e pesquisa para pesquisa e ensino foi fundamental para a captação de recursos destinados para o projeto Humboldt, do Ministério do Planejamento.

 

Nossa universidade nasceu como fundação, e não como autarquia, o que favoreceu muito sua instalação no Coxipó da Ponte.

 

Foi protagonista do desenvolvimento de Cuiabá e de toda a região sul da Amazônia.

 

Participou também de momentos decisivos da história de Mato Grosso, inclusive do período que antecedeu a divisão territorial do Estado em 1977.

 

Em 1974 o presidente Ernesto Geisel esteve na universidade e assistiu à nossa palestra, numa sala de aula do primeiro bloco da área tecnológica.

 

Contar a história da UFMT, prestes a completar cinquenta e seis anos, só é possível em conta gotas.

 

São muitas histórias, personagens, sonhos e dificuldades vencidas para caberem numa única crônica.

 

A universidade cresceu junto com Cuiabá.

 

E Cuiabá nunca mais foi a mesma depois dela.

 

Gabriel Novis Neves

22-08-2026