Recusei um convite sem inventar desculpas.
Apenas disse que não queria ir.
No passado, teria aceitado por obrigação.
Hoje aprendi a preservar minha energia.
Dizer ‘não’ também é um ato de cuidado —consigo mesmo e com o tempo que ainda nos resta.
Até hoje tenho dificuldade em negar pedidos.
Não por covardia, mas por educação, talvez pelo excesso de consideração com o outro.
Ao longo da vida, porém, também recebi muitos ‘nãos’.
Alguns passaram sem marcas; outros ficaram gravados na memória.
O mais duro veio do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, em resposta a um ofício do governador Fernando Correa da Costa, ambos do mesmo partido.
O Estado de Mato Grosso ainda era uno quando foi criada a Fundação de Saúde de Mato Grosso — a FUSMAT — com o objetivo de agilizar os serviços de saúde no Estado.
Eu era médico concursado e estável do governo da Guanabara.
Em conversas na calçada da casa de meus pais, Fernando Correa disse à minha mãe que precisaria de mim na nova fundação.
Recebi o recado com emoção.
Expliquei que só poderia retornar se fosse colocado oficialmente à disposição do governo mato-grossense.
Depois de idas e vindas ao Palácio Guanabara, o secretário mostrou-me o despacho de Lacerda: um grande X sobre o pedido e a frase seca —
‘Quem não quiser trabalhar, demita-se’. Assinado: Carlos Lacerda!
Antes que eu tomasse qualquer decisão, o destino interferiu.
Era terça-feira, plantão no Hospital Souza Aguiar, equipe Cata-Preta.
Tomávamos café quando o alto falante chamou Augusto Paulino Neto e a mim ao gabinete do diretor, Brito Cunha.
Recebeu-nos armado, visivelmente tenso.
Era 31 de março de 1964.
Fomos designados, por ‘merecimento’, para integrar o hospital de campanha montado dentro do Palácio Guanabara, destinado a proteger o próprio governador, ameaçado por tropas que pretendiam invadi-lo.
O resto pertence a história do Brasil.
Aprendi então que a vida às vezes decide por nós.
E que certos ‘nãos’ apenas mudam o caminho nunca o destino.
Gabriel Novis Neves
30-03-2026