terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

RANGENDO, RANGENDO; A TORRE DOS PECADOS PURIFICADOS


Hoje o portão rangeu diferente — mais longo, mais fundo.

 

Parei por um instante antes de sair.

 

Nada estava quebrado.

 

Era apenas o desgaste do tempo.

 

Portões envelhecem como as pessoas.

 

Continuam cumprindo sua função, mas avisam, em cada ruído, que carregam histórias acumuladas nos movimentos repetidos.

 

Saí com a enfermeira-cuidadora.

 

Fui à ótica em carro dirigido por ela com delicadeza e paciência.

 

A dor nos joelhos e na sola dos pés aumentou com os anos.

 

No retorno, fiz fisioterapia aos trancos.

 

Tomei um comprimido de novalgina, recebi massagem nos pés com spray de cataflan.

 

Só assim consegui chegar ao escritório para escrever esta crônica.

 

Estou bem.

 

Sofro apenas os males naturais do envelhecimento.

 

Lembro-me de quando tudo começou.

 

Esqueci que estava envelhecendo e procurei um neurologista.

 

Já era tarde: a idade havia lesionado os nervos da sola dos pés.

 

Tentei aliviar a dor trocando sapatos de couro por tênis esportivos, sapato-tênis, chinelos, meias térmicas.

 

Nada resolveu.

 

Pensei até em cauterização — procedimento que exigiria desligar o marca-passo cardíaco.

 

Não encontrei quem o dispusesse.

 

Minha terapia, além dos medicamentos, é recordar.

 

Recordar o tempo em que não sentia dor alguma, quando o corpo obedecia sem negociação e os passos eram dados sem cálculo.

 

Tudo começou sorrateiramente.

 

Após os cinquenta, vieram o oftalmologista e o cardiologista.

 

Depois dos setenta, a convivência com especialistas tornou-se rotina.

 

Estou envelhecido, mas com a memória preservada.

 

Ao acordar, a primeira lembrança é da locomoção difícil, que desanima a sair de casa.

 

Mesmo apaixonado por eles, raramente visito meus bisnetos, e já não tenho condições de receber visitas.

 

Meu espaço resume-se ao dormitório, ao escritório e à copa.

 

Conversar com dores nos membros inferiores não é agradável.

 

Por isso recolho-me.

 

Sinto-me, às vezes enferrujado como o portão.

 

Mas, assim como ele, continuo abrindo e fechando meus dias.

 

Range, é verdade — mas ainda assim sustenta a passagem da vida.

 

E enquanto eu puder atravessar esse vão, mesmo devagar, estarei inteiro.

 

Gabriel Novis Neves

16-02-2026




Rangendo, Rangendo; a torre dos pecados purificados

como a luz, ela passará através deste mundo.

Balançando, balançando; a torre em nossa espinha.

aqueles que cairão seremos nós, ou o céu?


TITE KUBO (Noriaki Kubo), nos "poemas de volume" ou "poemas de abertura" da obra Bleach (mangá)


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

PREENCHENDO O CORAÇÃO

 

A cadeira ficou vazia na outra ponta da mesa.

 

Sempre esteve ocupada.

 

Hoje, não.

 

Preparei o café como de costume e me sentei.

 

O espaço chamou mais atenção que a ausência.

 

Cadeiras vazias falam.

 

Ou melhor — parecem falar.

 

Guardam presenças, conversas e silêncios.

 

Aprendi que certos vazios não se preenchem; apenas se respeitam.

 

Hoje vivo essa experiência.

 

Primeiro, a mesa sem uma cadeira.

 

Depois, apenas as cabeceiras.

 

Há vinte anos ocupo uma delas.

 

No início estranhei as ausências.

 

A vista procurava o que já não estava ali.

 

Com o tempo, passei a respeitar.

 

Sinto quase como invasão quando alguém se senta naquela outra ponta.

 

Não por antipatia, mas por memória.

 

A vida nos conduz por destinos que não escolhemos, e acabamos acreditando que as cadeiras falam.

 

Não falam.

 

Guardam.

 

Quem alcança a longevidade atravessa todas essas etapas e sente na alma o peso suave de cada uma.

 

A casa do velho — e ele próprio — muitos chamam de museu.

 

Cercado de lembranças.

 

Tenho móveis que atravessaram gerações.

 

São testemunhas mudas do nosso passado.

 

Tudo permanece em silêncio, ocupando um espaço de saudade.

 

Nas academias, a cadeira vazia tem número. Logo é ocupado por outro, chamado de ‘imortal’.

 

Curioso como o homem culto inventa palavras para suavizar o inevitável.

 

Na academia, morreu, perde-se a cadeira.

 

Na vida, não.

 

Há pessoas substituíveis.

 

E há as insubstituíveis.


As insubstituíveis não deixam apenas um lugar vazio à mesa.

 

Elas passam a habitar o nosso coração.

 

Suas cadeiras permanecem vazias e chamam mais atenção assim do que se estivessem ocupadas.

 

E a minha mesa de café continua com a outra extremidade calada.

 

Silenciosa.

 

Mas profundamente presente.

 

Gabriel Novis Neves

15-02-2026





domingo, 15 de fevereiro de 2026

CARNAVAIS PASSADOS


Fui buscar, no fundo da memória, a evolução do carnaval na minha cidade.

 

Minha mãe era carnavalesca.

 

Eu ainda era muito criança e guardo um retrato fantasiado de chinês, com bigodinho fino, túnica e calça comprida de seda, segurando uma sacola cheia de confetes.

 

Ao meu lado, com a mesma fantasia, minha irmã Yara.

 

Só me lembro do retrato.

 

Devia ter menos de quatro anos.

 

Minha mãe, com as amigas, participava, na segunda-feira à tarde, do Bloco dos Sujos.

 

Eram maltrapilhos mascarados de mulheres, que brincavam na Praça Alencastro até o escurecer.

 

Meu pai trabalhava os quatro dias da folia. Mesinhas reservas eram colocadas em frente ao casarão da Praça Alencastro e no calçadão da Praça da República.

 

Os salões do bar ficavam lotados, e eu, menino, observava tudo encantado.

 

Nos fundos do salão uma eletrola tocava sucessos carnavalescos.

 

Lembro-me de alguns, como Bota o Retrato do Velho, gravado por Francisco Alves — o Rei da Voz — para o carnaval de 1950.

 

Papai sorria e dizia que gostava mais da marchinha Pra Você Gostar de Mim, conhecida como TAÍ, para o carnaval de 1930.

 

Composta por Joubert de Carvalho e imortalizada na voz de Carmem Miranda.

 

Contava que se casara com a minha mãe, Irene, quatro anos depois, por causa daquela música.

 

Já crescidinho, assistia da porta da sorveteria ao desfile dos carros de corsos, com as capotas arriadas e lindas meninas cantando e dançando para alegria do povo, que lançava confetes, serpentinas e jatos de lança-perfume.

 

Nós, os Carecas foi a marchinha de sucesso de 1942.

 

Vi blocos carnavalescos dos bairros desfilarem pelos três dias de festa, sendo o mais famoso o da Turma do Morro.

 

Era formado por filhos músicos e compositores do professor André Avelino, que mantinha escola no Morro da Prainha.

 

Havia mascarados e mascaradas pelo centro de Cuiabá.

 

Desfilavam as escolas de samba, sendo muito aplaudida a de Nhozinho, do Grande Terceiro.

 

Todas eram precedidas por crianças fantasiadas de índios, com seus apitos estridentes.

 

Ala de passistas, compositores, rei, rainha, mestre sala e bateria.

 

Os bailes aconteciam nos salões do Grande Hotel e do Clube Feminino.

 

Também eram animados os bailes do Bar Colorido, de dona Maria de Umbelina, atrás da igreja do Senhor do Passos.

 

Passei onze anos distante de Cuiabá.

 

Quando retornei, o carnaval já era outro. Mudaram as músicas, mudaram os cenários, mudaram as pessoas.

 

Mas, dentro de mim, continuava a tocar aquela velha marchinha que uniu meus pais.

 

O carnaval passou.

 

A memória ficou.

 

Gabriel Novis Neves

14-02-2026






sábado, 14 de fevereiro de 2026

SINTONIA FINA


O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.

 

Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.

 

Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.

 

Não mexi mais.

 

Fiquei ouvindo.

 

A sintonia exige paciência.

 

Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco.

 

Bastava um toque descuidado e o chiado voltava.

 

Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.

 

Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar?

 

Pequenos avisos que deixamos passar.

 

Às vezes melhoram sozinhos.

 

Outras vezes pedem atenção.

 

Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.

 

Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice.

 

Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade.

 

São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.

 

Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa.

 

Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel.

 

Não podia respirar forte.

 

Qualquer movimento traria o chiado de volta.

 

Assim escutei a final da Copa de 1950.

 

Imóvel.

 

O rádio no colo.

 

O coração na boca.

 

Perdemos o jogo.

 

Mas ganhei uma memória eterna.

 

Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos.

 

Nem sempre acertamos de primeira.

 

Há interferências, perdas, silêncios.

 

Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.

 

Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.

 

Está em manter firme a sintonia do coração.

 

Gabriel Novis Neves

13-02-2026




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

SILÊNCIOS PROPOSITAIS


Pode nos levar à reflexão sobre afastamentos, silêncios modernos e pessoas que somem sem despedida.

 

Com a proliferação da telefonia móvel, é raro passar um dia sem fazer ou receber ligações.

 

Mesmo assim, quase sempre há um número importante que insiste em não ser atendido.

 

E isso nos leva à reflexão.

 

Alguns afastamentos até consigo compreender. Há problemas amorosos insolúveis, relações que exigem silêncio para preservar um casamento.

 

Nesses casos, atender à ligação não é desejado — a distância parece ser a melhor escolha.

 

Esse silêncio provoca sofrimento em quem liga e também em quem não atende.

 

Fica sempre a esperança de que, um dia, a chamada seja finalmente atendida, com sucesso na conversação.

 

Uma ligação não atendida raramente é definitiva.

 

Nessas situações resta esperar.

 

A modernidade também nos impõe certos silêncios como forma de defesa, diante de golpes cada vez mais frequentes.

 

Quem nunca foi vítima de alguma falcatrua ao atender uma chamada desconhecida ou falsa?

 

Por duas vezes fui prejudicado por quadrilhas bem treinadas, que se aproveitaram da nossa boa vontade — ou ingenuidade.


Há homens e mulheres matriculados na universidade do crime, organizada e eficiente, que utilizam telefonemas com finalidade criminosa.


Hoje, com a bina, só atendo chamadas cujos números estejam entre meus favoritos.

 

O que mais dói, porém, é gente que some sem se despedir.

 

Quando é da mesma cidade, ainda se pode dar um jeito de provocar o atendimento.

 

De outra cidade ou de outro Estado, talvez até a polícia possa ajudar.

 

Gente que some sem se despedir não considero falta de educação, mas uma fuga cujos motivos desconheço.

 

Nas situações citadas, a solução mais simples costuma ser mudar o número do telefone.

 

Assim, a ligação deixa de existir e o computador passa a responder friamente: este número não existe.

 

Mas o que faz a ligação de um número — entre os meus favoritos — não ser atendida?

 

Só consigo pensar na insegurança de falar com quem está do outro lado da linha.

 

Gabriel Novis Neves

28-11-2025




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DENTRE AS MANIAS QUE TENHO / 🎼

 

O copo de água ficou na cabeceira a noite inteira.

 

Acordei e ele ainda estava lá, no mesmo lugar.

 

Não lembrava se havia bebido algum gole antes de dormir.

 

A água parecia limpa, parada, sem sinal de uso.

 

Apoiei o braço na cama, observei por alguns segundos e segui com a rotina.

 

Arrumei o lençol, calcei o chinelo e fui ao banheiro.

 

O copo continuou esperando, como faz todas as noites.

 

Levar um copo de água para o quarto de dormir é uma dessas manias que fui acumulando com o passar dos anos.

 

Hoje é meu companheiro inseparável.

 

Nas poucas noites em que preciso levantar, amenizo a secura dos lábios —agravada pela máscara do CPAP —com um gole breve, quase automático.

 

Lembro da minha mulher, que levava para o dormitório o copo acompanhado da garrafa térmica.

 

Dormir com o copo de água na mesinha da cama é um hábito antigo, transmitido sem ensinamento, absorvido pelas novas gerações.

 

Meus netos e bisnetos mesmo tendo uma mini geladeira no quarto, não dispensam o copo na cabeceira.

 

Segredos entre quatro paredes morrem ali, e o copo d’água, discreto, não fala.

 

Nem sei bem por que escrevo sobre isso, embora faça parte do nosso cotidiano.

 

Talvez porque nada seja mais revelador do que prestar atenção nas coisas simples da vida, aquelas que atravessam o tempo sem pedir explicações.

 

Conversando com um contemporâneo, ele me contou que anotava mudanças trazidas pela modernidade.

 

Citou os antigos comerciantes da minha infância.

 

Quem vendia alimentos tinha venda, depois armazém, mercado, supermercado, atacadista.

 

Chamavam-se comerciantes.

 

Hoje, são empresários.

 

Meu pai, durante cinquenta anos, foi proprietário do Bar Moderno e sempre foi comerciante.

 

Hoje, sem dúvida, seria chamado de empresário.

 

Em quase tudo houve mudança de nome, de forma, de ritmo.

 

Mas o copo de água na cabeceira permanece.

 

Simples, silencioso, fiel.

 

Talvez porque algumas necessidades não envelhecem.

 

E certos hábitos, quando são de cuidado, não precisam ser modernizados.

 

Gabriel Novis Neves

23-01-2025


Com Tônia Carrero
 Inauguração do Teatro da UFMT




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

SAPATOS NA PORTA


Tirei os sapatos assim que entrei.

 

Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.

 

Sempre faço isso sem pensar.

 

O chão estava frio.

 

Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.

 

Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.

 

Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.

 

Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.

 

Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.

 

O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.

 

Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.

 

Havia orgulho no chão bem cuidado.

 

Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.

 

Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.

 

Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.

 

Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.

 

Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.

 

Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.

 

Os sapatos aguardavam na porta.

 

Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.

 

São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026