sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ESPELHO SEM PRESSA


Parei diante do espelho por mais tempo do que o habitual. 

 

Observei as marcas do rosto sem julgamento. 

 

Não tentei corrigir nada. 

 

Apenas reconheci o homem que estava ali. 

 

Envelhecer também é aceitar a própria imagem sem pressa de fugir dela. 

 

O mundo moderno está cheio de pessoas em permanente luta contra o tempo. 

 

Combatem rugas, pálpebras caídas, papadas, como se o envelhecimento fosse um erro a ser corrigido. 

 

Criaram até nomes elegantes para suavizar a ideia — harmonização facial. 

 

Homens e mulheres procuram cada vez mais cedo os consultórios de cirurgia plástica, numa tentativa silenciosa de negar aquilo que é inevitável: a passagem dos anos. 

 

O espelho sempre foi um instrumento da vaidade humana. 

 

Houve um tempo em que a calvície era sinal de maturidade e masculinidade. 

 

Hoje, quem pode recorre ao implante capilar. 

 

A cirurgia plástica multiplicou subespecialidades, clínicas e hospitais cheios. 

 

Há, naturalmente, sua face necessária e nobre — a cirurgia reparadora, essencial para grandes queimados, enxertos de pele e reconstruções que devolvem dignidade e sobrevivência. 

 

Nas grandes cidades, bancos de pele humana tornaram-se indispensáveis nos hospitais de urgências. 

 

Era recém-formado em Medicina quando sofri um grave acidente na ambulância em que seguia para prestar socorro. 

 

Como sequela da fratura nasal, fiquei com desvio do septo, com indicação cirúrgica. 

 

Nunca me incomodou o nariz torto que o espelho mostrava. 

 

Estou com noventa e um anos e nunca corrigi esse detalhe. 

 

Aliás, jamais me submeti a procedimentos estéticos — sou o único da família. 

 

No meu quarto há um espelho herdado da família de minha esposa. 

 

Muitas vezes esqueço sua presença. 

 

Não tenho pressa de me observar nem de confirmar o avanço da idade. 

 

Pelo contrário, sinto orgulho de ter chegado até aqui com a mente lúcida e o coração em paz. 

 

Hoje compreendo que o espelho não serve apenas para revelar o que o tempo levou, mas sobretudo para lembrar o que ele permitiu viver. 

 

E assim ele permanece ali, silencioso, mais objeto de memória do que de vaidade — refletindo não a juventude perdida, mas a história inteira que consegui atravessar. 

 

Gabriel Novis Neves 

02-09-2026




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

CHÃO DE TERRA BATIDA


Na casa da minha infância, o chão do quintal era de terra batida. 

 

Depois da chuva, formavam-se pequenas poças onde eu pisava descalço. 

 

Minha mãe reclamava, mas eu voltava sorrindo. 

 

A terra secava rápido sob o sol de Cuiabá. 

 

Hoje penso que aquela poeira fazia parte da nossa liberdade. 

 

As crianças de hoje são criadas entre espigões de concreto. 

 

Desconhecem que as crianças de antigamente eram livres. 

 

Brincávamos descalços nas ruas de terra batida,  

 

tomávamos banho de chuva e voltávamos para casa com a roupa encharcada e a alma leve. 

 

Havia esconde-esconde na pracinha do bairro, procissões acompanhadas com respeito e quermesses cheias de alegria. 

 

Comprávamos tira de queimada, pé de moleque e pirulito. 

 

Tomávamos picolé de groselha no Bar do Bugre e passeávamos pelo Jardim em frente ao Palácio do Governo.

 

Tenho certeza de que era bom ser criança no meu tempo.

 

Jogávamos botão pelos corredores das casas, bolita nas calçadas de chão batido e organizávamos rifas na porta de casa.

 

Pulávamos amarelinha e soltávamos pipas feitas por nós mesmos, muitas vezes com a ajuda paciente de minha mãe.

 

No sábado de Aleluia malhávamos Judas pregado nos postes das ruas.

 

Levávamos o turíbulo da Catedral até a casa de dona Elza Nigro para buscar brasas e preparar o incenso das missas.

 

Era uma honra ser escolhido pelo pároco para ajudar no altar e tocar a campainha no momento da comunhão.

 

Meninos vendiam jornais nas ruas e chicletes na porta do Cine Teatro Cuiabá.

 

Havia rivalidades inocentes com os meninos do Porto, caçadas de preá no morro da Prainha,

 

água fresca bebida direto da bica e banhos no tanque do Baú.  

 

Minha mãe cuidava da saúde dos filhos com zelo — e o óleo de rícino era o grande terror da infância. 

 

Os brinquedos eram inventados, e nos quintais dos casarões construíamos verdadeiras cidades, inspiradas nos presépios de Natal espalhados pela cidade.

 

Éramos livres.

 

Éramos donos das ruas.

 

E talvez, sem saber, éramos profundamente felizes.  

 

Gabriel Novis Neves

26-02-2026


GABRIEL E YARA


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O PRIMEIRO TROVÃO DEPOIS DE MESES DE SECA


O primeiro trovão era recebido como uma notícia importante.

 

Depois de meses de calor, poeira e céu limpo, aquele barulho distante fazia todos olharem para cima.

 

O menino corria para o quintal à procura das nuvens carregadas.

 

Os adultos recolhiam as roupas do varal e fechavam algumas janelas.

 

Pouco depois vinha a chuva, lavando telhados, árvores e ruas.

 

Parecia que a própria cidade tomava um grande banho para começar outra vez.

 

A chuva tão esperada numa cidade quente, era uma festa desejada por todos.

 

As crianças descalças molhavam os pés nas correntezas que se formavam pelas ruas.

 

Era uma das brincadeiras preferidas da meninada daquele tempo.

 

Às vezes, porém, algum pé encontrava um caco de garrafa, e a brincadeira terminava com choro e sangue.

 

A hemostasia era feita com teia de aranha, abundante nos velhos casarões cuiabanos.

 

No bar do meu pai ela fazia parte dos recursos de primeiros socorros, pois a quebra de copos era frequente.

 

Não me lembro de ninguém que tenha contraído tétano por causa daqueles improvisados curativos.

 

O trovão não significa necessariamente que vai chover, mas, nas tempestades da minha infância, parecia sempre anunciar a chegada das águas.

 

Sempre tive medo dos trovões acompanhados de raios.

 

Já presenciei a queda de raios muito próximos de mim, na região amazônica de Mato Grosso.

 

Estava em terra, ao lado de um pequeno avião, quando assisti aquele impressionante espetáculo da natureza.

 

Confesso que senti medo —e ainda hoje me recordo daquela cena.

 

Em Mato Grosso os raios continuam representando perigo, especialmente para quem se encontra em áreas abertas durante as tempestades.

 

Apesar do medo, é belo observar, de um lugar protegido e à distância, o céu iluminado pelos relâmpagos e ouvir o estrondo dos trovões, anunciando a força da natureza.

 

Morando em apartamento e sem viajar para o interior, há muito tempo não vejo de perto uma tempestade como aquelas.

 

Hoje, quando escuto um trovão distante, ainda procuro o céu.

 

E, por alguns instantes, volto a ser o menino que corria para o quintal esperando a primeira chuva cair sobre a velha Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

28-08-2026




A CHAVE ESQUECIDA NA FECHADURA


 
A chave ficou na fechadura por mais tempo do que devia.
 
Só percebi ao passar novamente pela porta.
 
Girei devagar, retirei-a e guardei no bolso.
 
Nada aconteceu.
 
Mas o susto veio depois.
 
Esquecimentos pequenos se acumulam com a idade.
 
Eles não gritam; apenas avisam, em silêncio, que precisamos andar mais devagar.
 
O envelhecimento, quando chega, traz consigo essas distrações miúdas.
 
Embora eu tenha uma memória que ainda me permite escrever textos diários, vez ou outra ela se esconde de mim.
 
Esconde fatos simples, detalhes banais.
 
Mais adiante, porém, devolve a brincadeira, e eu prossigo com o trabalho, como se nada tivesse ocorrido.
 
O idoso precisa ter cuidado redobrado na Cuiabá de hoje.
 
Com a expectativa de vida aumentando, surgiu uma profissão cada vez mais necessária — a de cuidador.
 
Universidades formam tecnólogos e enfermeiros especializados no acompanhamento de idosos, e, ainda assim, é difícil encontrá-los no mercado.
 
Há oito anos contratei uma cuidadora-enfermeira.
 
Além de me acompanhar nas rotinas médicas, ela me ajuda com a internet, com aplicativos bancários e com a compra e organização dos meus medicamentos —são tantos que memorizo apenas os horários.
 
Pela idade, e para evitar transtornos, ando devagar, quase parando.
 
Assim, empurro a vida para frente.
 
Até onde, não sei.
 
Aceito minhas limitações sem segredo nem disfarce.
 
Agora mesmo, o Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional virá a minha casa gravar um documento audiovisual, de no máximo cinco minutos.
 
Será exibido na abertura oficial das comemorações do seu Jubileu de Ouro, em 09 de abril de 2026.
 
Lembro-me do início do Núcleo, quase por acaso, durante uma viagem a Brasília.
 
Estava com a professora Maria de Lourdes Delamônica Freire.
 
Ela, ex-aluna da UnB, soube da presença de uma pesquisadora portuguesa interessada na história de Cuiabá e sugeriu que oferecêssemos a UFMT como sede para a pesquisa.
 
A professora Maria Cecília Guerreiro de Souza aceitou o convite, mudou-se para Cuiabá e, com os nossos pesquisadores, fundou o NDIHR, hoje cinquentenário.
 
A chave esquecida na fechadura não abriu perigo algum.
 
Abriu lembranças.
 
Se a memória às vezes falha nas miudezas do presente, ela permanece firme guardando aquilo que ajudamos a construir.
 
 E enquanto eu ainda puder girar essa chave — mesmo devagar — continuarei abrindo portas para o que fomos e para o que ainda somos.
 

Gabriel Novis Neves
 
12-02-2026




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A TOALHA DOBRADA


Hoje encontrei a toalha dobrada sobre a cadeira do quarto.

 

Não me lembro de tê-la colocado ali.

 

Talvez tenha sido ontem à noite, talvez pela manhã.

 

Pequenos gestos se acumulam na casa sem que percebamos.

 

A toalha esperava silenciosa, como se ainda guardasse a umidade do banho e a pressa discreta do dia.

 

Fiquei olhando para ela mais tempo do que seria necessário.

 

Quantos movimentos repetimos sem notar? Quantos hábitos se instalam como móveis invisíveis da rotina?

 

O meio-dia passou enquanto eu escrevia, desiquilibrando as tarefas reservadas para a tarde.

 

Foi então que pensei: a manhã parece sempre mais curta.

 

Os antigos insistiam que nela o aprendizado era mais fácil, e que a noite nascera apenas para o descanso.

 

Na preparação para o vestibular de Medicina, descobri que isso nem sempre era verdade.

 

Pela manhã e à tarde frequentava aulas teóricas; restava-me a noite para estudar.

 

O exame acontecia logo após o carnaval.

 

Morando na capital do samba, ouvia ao longe as marchinhas ecoando pelas ruas, enquanto eu me debruçava sobre livros.

 

Depois de aprovado, conheci o leque de oportunidades que o carnaval oferecia.

 

Não me recordo dos carnavais que deixei passar.

 

Fui, pouco a pouco, aproximando-me da festa — primeiro espiando, depois participando. Regina levou-me aos salões.

 

Nunca usei fantasia, nem mesmo um simples disfarce.

 

E, no entanto, aqueles sons distantes da década de cinquenta — o rufar dos tamborins ouvido de longe — acabaram transformando-se, anos depois na criação da Mocidade Independente Universitária, em Cuiabá.

 

Tornei-me presidente da escola mais famosa da cidade, movido não por ambição, mas por um desses gestos quase imperceptíveis que mudam destinos.

 

O filósofo Eduardo Portela já afirmou que o carnaval é a maior manifestação da cultura popular brasileira.

 

Concordo.

 

Às vezes, o que começa como distração distante torna-se compromisso, identidade, memória coletiva.

 

A toalha dobrada sobre a cadeira me ensinou isso hoje.

 

Nada é pequeno demais.

 

Um gesto esquecido pode guardar o início de uma história inteira.

 

E a vida, silenciosa como aquela toalha, vai se dobrando sobre nós — esperando apenas que a descubramos.

 

Gabriel Novis Neves

17-02-2025




domingo, 30 de agosto de 2026

DOMINGOS DE ESTUDANTE


Nem todos os domingos eram de passeio para os estudantes de Medicina.

 

Muitas vezes, o dia era reservado para colocar a matéria em dia.

 

Eu ficava no quarto da pensão lendo livros e revisando as anotações da semana.

 

O silêncio dominical ajudava na concentração.

 

Às vezes, eu parava um pouco, olhava pela janela e pensava na família distante.

 

Depois, voltava aos livros, sabendo que aquele esforço fazia parte do caminho que eu havia escolhido.

 

Que profissão era a Medicina, exigindo tamanha dedicação de seus alunos!

 

Na pensão, uns estimulavam os outros ao estudo continuado.

 

No nosso grupo, porém, um deles deixou de nos acompanhar, vítima fatal de um acidente de bonde, ao saltar com ele ainda em movimento.

 

Sofreu traumatismo de crâneo, no quarto ano da faculdade.

 

Durante o tempo de estudante soube também do suicídio de dois colegas: um no início do curso e o outro no sexto ano, com quem tive mais convivência, pois éramos plantonistas no mesmo hospital.

 

A responsabilidade de nos tornarmos bons médicos era um peso que alguns não suportaram, a ponto de abandonarem a própria vida.

 

Apesar dessas dores, a minha turma espalhou bons profissionais por esse Brasil.

 

 Naquele tempo, existiam poucas escolas de Medicina no país, quase todas públicas, situadas em cidades banhadas por água salgada.

 

No início da década de 1950, o Brasil contava com cerca de treze escolas médicas, todas públicas.

 

Naquela mesma década, houve crescimento, e mais catorze escolas foram criadas, sendo cinco particulares.

 

Hoje, existem em funcionando quinhentas e treze escolas de Medicina no Brasil, das quais trezentas e noventas são particulares.

 

Nosso Estado possui seis faculdades de Medicina, duas delas particulares.

 

Hoje, já não é preciso deixar o próprio Estado para estudar Medicina.

 

Cuiabá, com suas três faculdades, vêm formando excelentes médicos.

 

Tenho disso um belo exemplo em minha própria família: uma neta e o marido estudaram em escola particular e se tornaram excelentes profissionais.

 

Estudar longe de casa tornou-se tema frequente das minhas crônicas.

 

E talvez porque, no silêncio de um quarto de pensão, a saudade também ajudasse a formar o homem que o médico viria a ser.

 

Gabriel Novis Neves

02-04-2026




OS PRIMEIROS PROFESSORES CHEGARAM DE LONGE


Os primeiros professores da UFMT desembarcavam em Cuiabá trazendo livros, sotaques diferentes e disposição para enfrentar desafios.

 

Muitos deixavam grandes centros urbanos para morar numa cidade ainda pequena, quente e distante das grandes capitais culturais do país.

 

Alguns estranhavam o calor cuiabano, as ruas tranquilas e o ritmo da vida local.

 

Mesmo assim, permaneceram.

 

Vieram ajudar a construir uma universidade praticamente do zero.

 

Com eles chegaram novas ideias, experiências acadêmicas e uma enorme vontade de ensinar numa terra ainda carente de oportunidades no ensino superior.

 

Foi difícil explicar que a universidade não era mais uma repartição pública federal destinada a oferecer bons empregos aos filhos da elite cuiabana.

 

Ela nascera para oferecer oportunidades a todos e romper uma antiga tradição: a de que o filho do médico deveria ser médico e o filho do sapateiro, sapateiro.

 

Ouvi muitas críticas por aproveitar um professor vindo de longe em lugar de um filho da terra.

 

Sempre procurei escolher professores pelo currículo, pela competência e pela capacidade de ensinar, e não pelo sobrenome ou pelo lugar onde haviam nascido.

 

Graças a essa luta, em pouco tempo implantamos uma universidade respeitada no país.

 

Seus cursos, inclusive os considerados nobres — Direito, Engenharia e Medicina —alcançaram excelentes avaliações do Ministério da Educação.

 

Praticávamos a política educacional.

 

A política partidária não tinha lugar dentro da universidade.

 

Cheguei, inclusive, a perder o cargo de reitor, sendo posteriormente reconduzido.

 

Passados mais de cinquenta anos da criação da UFMT, é emocionante ouvir os depoimentos daqueles primeiros professores que chegaram de longe para nos ajudar.

 

Muitos permaneceram e adotaram Cuiabá como sua própria cidade.

 

Em reconhecimento à participação naquela aventura educacional, receberam o título de professores fundadores.

 

Tenho hoje o prazer de conviver com gerações mais novas que nem me conheceram e pouco sabem sobre os primeiros tempos de nossa universidade.

 

A atual reitora, professora doutora Marluce, zelosa com a preservação, procura do nosso passado, procura reconstruir e valorizar essa bonita história.

 

Um dos primeiros atos de sua gestão foi retomar o Projeto Memória, com a inauguração da placa da Sala de Parto, sede da primeira reitoria da nossa universidade —fato ainda desconhecido por muitos.

 

Aqueles professores chegaram de longe trazendo livros nas malas e sonhos na cabeça.

 

Com o passar dos anos, deixaram de ser professores de fora.

 

Tornaram-se parte da história de Cuiabá.

 

E ficaram para sempre na memória da nossa Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

25-08-2026