O jornal chegou cedo e ficou dobrado.
Passei por ele duas vezes antes de sentar.
Quando abri, fui direto às páginas conhecidas.
Li devagar, sem pular linhas.
Algumas notícias já eram esperadas; outras, nem tanto.
Dobrei novamente, deixando marcado o lugar onde parei.
O jornal continuou ali, ocupando seu espaço na mesa, como faz há tantos anos.
Quando criança eu ia à Livraria e Papelaria Santa Therezinha, do carioca Rubens de Carvalho, sempre no fim da tarde.
Ficava esperando o avião chegar trazendo os jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Comprava sempre um do Rio para meu pai, que não tinha rádio em casa e ficava sabendo, assim das últimas novidades da Segunda Guerra Mundial.
Na porta da livraria, ouvia a conversa dos adultos sobre os mais variados assuntos — e, claro, sobre futebol.
Fanáticos do Dom Bosco e do Mixto discutiam os resultados do campeonato cuiabano.
Levava o jornal para casa, e meu pai o lia sentado na cadeira de balanço.
Depois dobrava e guardava na copa.
De vez em quando eu vendia jornais nos boliches da Prainha para embrulhar as compras.
Quando o avião não pousava em Cuiabá, por falta de aeroporto que operasse à noite, eu só conseguia o jornal no dia seguinte.
Nessa época tínhamos apenas um campo de aviação: chão batido, onde pousavam os velhos DC3.
Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro decolei a bordo de um deles, partindo do campo de aviação onde hoje ficam as residências dos militares do 9º BEC.
Não me lembro de nenhum passageiro daquele voo.
Esse batalhão veio para cá para construir a estrada Cuiabá — Santarém.
Muitos se reformaram e ficaram por aqui, como o Coronel José Meirelles, que acabou sendo Prefeito de Cuiabá.
Morador do Coxipó da Ponte, foi um dos fundadores do Tênis Clube.
O jornal lido por meu pai sempre ficava dobrado na copa da nossa casa.
Quando retornei à minha cidade natal, já médico, passei a comprar o Jornal do Brasil na livraria da Praça da República.
Mais tarde, na reitoria da UFMT, um funcionário me levava o jornal.
Eu lia e o deixava dobrado na recepção da instituição.
O jornal dobrado sempre foi sinal de leitura feita.
Algumas coisas não pedem explicação.
Apenas permanecem.
Gabriel Novis Neves
03-02-2026