sexta-feira, 19 de junho de 2026

VENDEDOR DE GELO


Houve um tempo em Cuiabá em que o gelo era artigo precioso.

 

Antes das geladeiras modernas, vendedores percorriam as ruas transportando em carrinho de mão grandes barras envolvidas em serragem.

 

As famílias compravam pedaços para conservar alimentos e refrescar bebidas.

 

A chegada do vendedor era aguardada com expectativa, especialmente nos dias mais quentes.

 

Hoje quase ninguém imagina essa rotina, mas ela fez parte da vida doméstica de muitas famílias cuiabanas e permanece viva na memória dos mais antigos.

 

Lembro-me de seu Silvino de Arruda e de sua fábrica de guaraná Zênite, na rua 13 de junho, em frente à antiga Maternidade de Cuiabá.

 

Além dos refrigerantes, ele fabricava e vendia barras de gelo, muito apreciadas numa cidade quente como a nossa.

 

Quantas vezes acompanhei funcionários do bar de meu pai para comprar gelo naquela fábrica da rua 13 de junho!

 

São recordações que hoje parecem quase inacreditáveis, mas que o tempo não conseguiu apagar.

 

Não fui fundador de Cuiabá, mas acompanhei e participei de parte importante do seu desenvolvimento.

 

Por isso, a Cuiabá isolada do restante do país não deve ser esquecida pelas novas gerações.

 

Gostaria de ver a surpresa de um dos meus bisnetos ao descobrir que a cidade possuía uma fábrica de gelo pertencente a um parente distante e que muitas crianças ainda nasciam em casa.

 

Profissões comuns na minha infância desapareceram com o progresso e hoje sobrevivem apenas como curiosidades históricas.

 

Cuiabá sempre foi uma cidade de temperaturas elevadas.

 

Mesmo assim, sua população seguia costumes europeus no modo de vestir.

 

Os homens trabalhavam de terno de casimira inglesa, enquanto as mulheres usavam blusas de mangas compridas e saias abaixo dos joelhos.

 

E, curiosamente, pareciam não sentir calor.

 

À noite, dormiam até com cobertores.

 

Eu já era um menino crescido quando chegou a primeira geladeira à nossa casa.

 

Minha mãe vivia às voltas com as frequentes interrupções de energia elétrica, tão comuns naquele tempo.

 

Muitas vezes os alimentos se estragavam, obrigando as famílias a comprar apenas o necessário para poucos dias.

 

Por isso a geladeira de nossa casa jamais ficava cheia de mantimentos.

 

Era outro tempo.

 

Um tempo em que o gelo chegava à porta de casa empurrado pelas mãos de um homem.

 

Gabriel Novis Neves

18-06-2036




quinta-feira, 18 de junho de 2026

PRAZER DE TERMINAR TAREFAS


Existem pequenas satisfações que nunca saem de moda.

 

Arrumar uma gaveta, concluir uma carta, organizar fotografias ou terminar um trabalho simples, produz uma sensação agradável de dever cumprido.

 

Talvez porque o ser humano goste de ver o começo, o meio e o fim das coisas.

 

São conquistas discretas, mas capazes de iluminar um dia comum.

 

Desde menino despertou em mim essa satisfação de concluir uma tarefa.

 

Acordava cedo para chegar à escola com a lição na ponta da língua, pronto para tirar nota máxima nas provas.

 

Foi assim durante os quatro anos do curso primário na Escola Modelo Barão de Melgaço.

 

Não era o mais inteligente da turma, mas certamente estava entre os mais esforçados.

 

Como primogênito de nove irmãos, coloquei na cabeça que precisava dar o exemplo, terminando os estudos sempre com o melhor aproveitamento possível.

 

Ao final de cada ano letivo, sentia o alivio de quem havia cumprido sua obrigação e podia desfrutar das férias com tranquilidade.

 

Hoje, aos 91 anos, continuo experimentando essa mesma sensação ao concluir uma crônica de trezentas palavras.

 

Não por vaidade, mas pela alegria simples de ver uma tarefa iniciada chegar ao seu final.

 

Lembro-me muito bem da minha mãe incentivando os filhos a concluir tudo o que começavam.

 

Ela repetia um provérbio que se tornou companheiro de toda a minha vida: ‘Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje’.

 

Aprendi com ela muitos ditados populares que carregava uma sabedoria construída pela experiência.

 

Entre eles, um dos meus preferidos: ‘Mais vale um pássaro na mão do que dois voando’.

 

Essas pequenas satisfações não envelhecem nem saem da moda.

 

O ser humano gosta de acompanhar o início, o desenvolvimento e a conclusão das coisas.

 

Foi assim quando vi meus três filhos concluírem seus cursos superiores.

 

Foi assim, também, ao assistir à formatura dos meus netos.

 

Agora acompanho com alegria os primeiros passos dos meus cinco bisnetos.

 

Talvez eu não esteja presente para vê-los chegar à universidade.

 

Mas só de imaginar esse futuro já sinto uma enorme satisfação.

 

Afinal, poucas alegrias são tão grandes quanto ver uma tarefa bem-feita continuar através das novas gerações.

 

Gabriel Novis Neves

16-06-2026




quarta-feira, 17 de junho de 2026

ESPERANDO A CHUVA PASSAR


Antigamente ninguém carregava previsão do tempo no bolso.

 

Quando a chuva chegava, restava esperar.

 

Debaixo de marquises, varandas ou pontos de ônibus, as pessoas conversavam enquanto observavam as gotas caindo.

 

Muitas amizades começaram durante essas pausas inesperadas.

 

A chuva interrompia o caminho, mas aproximava as pessoas.

 

Curiosamente, naquele tempo, era comum sair de casa com um guarda-chuva debaixo do braço.

 

Ele servia tanto para proteger do sol forte de Cuiabá quanto para enfrentar a surpresa de um temporal repentino.

 

Na maioria das vezes, esperava-se a chuva passar sob uma marquise, em um ponto de ônibus ou à mesa de um bar.

 

Quantas amizades nasceram dessas pausas inesperadas.

 

Como eu gostava da Cuiabá da minha infância, onde tudo era motivo para uma nova conversa e, mesmo nascida sob uma marquise enquanto a chuva caía.

 

Ninguém parecia conhecer a pressa, e a vida seguia em um ritmo mais tranquilo.

 

Menino, da porta de minha casa ou do bar de meu pai, eu apreciava o espetáculo dos pingos desenhando círculos nas poças, sabendo que logo deixariam de molhar ruas e calçadas.

 

Numa cidade pequena, todos se conhecem, mas nem sempre conversam.

 

A chuva tinha o dom de aproximar as pessoas, iniciando, às vezes uma amizade duradoura ou até uma bonita história de amor.

 

Nas cidades do interior a chuva era recebida como uma benção, fortalecendo a agricultura e renovando a esperança.

 

Bem diferente das grandes cidades, onde muitas vezes é vista como um transtorno.

 

Ela altera a rotina, provoca congestionamentos, causa prejuízos e aumenta a tensão de quem vive cercado pela pressa.

 

Em Cuiabá, felizmente, deixamos para trás as grandes enchentes que tanto preocupavam a população antes da regularização do rio pelo sistema da barragem do Manso.

 

Em outras regiões do país, especialmente no Sul, as chuvas continuam provocando tragédias que se repetem ano após ano.

 

Como o tempo mudou!

 

Aquela chuva inesperada, que nos obrigava a parar por alguns minutos e nos presenteava com uma boa conversa, tornou-se cada vez mais rara.

 

Talvez a chuva continue a mesma.

 

Nós é que já não sabemos esperar por ela passar.

 

Gabriel Novis Neves

14-06-2026




terça-feira, 16 de junho de 2026

O HÁBITO DE GUARDAR


Durante muitos anos guardar sacolas era um costume presente em quase todas as casas.

 

Elas ficavam cuidadosamente dobradas em gavetas, armários ou atrás das portas, sempre prontas para uma nova utilidade.

 

Era uma atitude simples, motivada muito mais pela economia do que pela preocupação ambiental.

 

Sem perceber, muita gente aprendeu a evitar desperdícios muito antes de esse tema ocupar espaço nas conversas e nos noticiários.

 

Os antigos tinham o habito de guardar tudo o que pudesse servir novamente.

 

Sacolas, vidros, caixas, latas e embalagens ganhavam novas funções dentro de casa.

 

Quando os armários já não comportavam tantas coisas, fazia-se uma boa arrumação e parte daquele material seguia para o lixo.

 

Naquele tempo os resíduos eram recolhidos pelos caminhões da prefeitura e levados para áreas afastadas da cidade.

 

Mesmo ali, muitas peças ainda encontravam utilidade nas mãos dos catadores, que reaproveitavam ou comercializavam aquilo que ainda tinha valor.

 

Recordar essas pequenas práticas é um belo exercício de memória.

 

Meus pais não eram gastadores.

 

Tudo em casa era feito com moderação, sem excessos e sem desperdícios.

 

A Cuiabá da minha infância era uma cidade simples, onde a maioria das famílias levava uma vida parecida.

 

Meus amigos frequentavam os mesmos lugares: a escola pública, o posto de saúde, a igreja, o cinema, os jardins e as praças.

 

Os hábitos de alimentação e vestuário também não eram muito diferentes entre as famílias.

 

Quase todas as casas possuíam quintais generosos, onde se cultivavam frutas, verduras e se criavam alguns animais para complementar a alimentação, enriquecida pelos peixes abundantes do rio Cuiabá.

 

Os brinquedos eram feitos por nós mesmos, e as calçadas e quintais constituíam nossos espaços preferidos de diversão.  

 

Era comum encontrar cabras, vacas, galinhas e outras criações domésticas nos fundos das casas.

 

Quando retornei a Cuiabá, muitos daqueles costumes haviam desaparecido, inclusive o hábito de guardar sacolas e reaproveitar objetos.

 

A vida tornou-se mais prática, mas também mais descartável.

 

Passamos a comprar mais, guardar menos e substituir com rapidez aquilo que antes procurávamos conservar.

 

Talvez por isso eu admire tanto as lições de economia e simplicidade que aprendi na infância.

 

Elas me ensinaram que o verdadeiro valor das coisas não está apenas no que possuímos, mas no cuidado que dedicamos ao que temos.

 

Hoje, quando vejo uma simples sacola guardada em uma gaveta, não enxergo apenas um objeto reaproveitado.

 

Vejo uma lembrança silenciosa de um tempo em que se desperdiçava menos, se compartilhava mais e a vida parecia caminhar com maior simplicidade.

 

Gabriel Novis Neves

15-06-2026






segunda-feira, 15 de junho de 2026

GESTOS SIMPLES


Existe um gesto simples que atravessa gerações: deixar um copo de água ao lado da cama antes de dormir.

 

É um hábito discreto, quase automático, aprendido dentro de casa.

 

Muitos repetem esse costume há décadas sem sequer perceber.

 

Pequenas tradições como essa revelam como os gestos mais simples acabam acompanhando toda uma vida.

 

Meu avô, minha mãe, minha mulher, meus filhos, meus netos e eu cultivamos esse hábito de manter um copo de água ao lado da cama antes de dormir.

 

Ultimamente, o copo passou a ser acompanhado por uma garrafa térmica com água gelada.

 

Hoje, também é comum encontrar pequenos frigobares nos dormitórios.

 

Antigamente, porém, o banheiro ficava no quintal da casa e o copo de água fazia companhia ao penico, quase sempre guardado debaixo da cama.

 

Meu avô mantinha ainda na cabeceira uma vela, uma caixa de fósforos e um copinho de vidro para tomar o guaraná ralado logo ao despertar.

 

Como era surdo, não precisava de relógio despertador nem de telefone ao alcance da mão.

 

No tempo da minha infância, a saúde bucal era precária e poucas pessoas chegavam à velhice sem prótese dentária.

 

Antes de dormir retiravam a dentadura e a colocavam em um copo com água na cabeceira da cama.

 

Felizmente a odontologia evoluiu muito com as medidas preventivas e os modernos implantes dentários.

 

Os idosos continuam levantando várias vezes durante a noite, não por causa da água, mas pelas limitações que a idade naturalmente impõe.

 

Mesmo assim, o copo permanece ao lado da cama.

 

O hábito continua atravessando décadas, passado de pais para filhos, quase sempre sem explicação.

 

O dormitório talvez seja o espaço mais íntimo da casa, guardando costumes, lembranças e pequenos rituais que acompanham a nossa existência.

 

Ao escrever sobre esses temas, faço uma revisitação da minha própria vida.

 

Percebo quantas tradições absorvemos ao longo do caminho e como sentimos vontade de compartilhá-las.

 

No fim das contas, um simples copo de água guarda muito mais que água.

 

Guarda a memória silenciosa de uma família inteira.

 

Gabriel Novis Neves

10-06-2026




domingo, 14 de junho de 2026

JANELAS ABERTAS


Antes da televisão ocupar tanto espaço na vida das famílias, muita gente passava alguns minutos do dia observando a rua pela janela.

 

Dali acompanhava-se o movimento dos vizinhos, das crianças brincando e dos vendedores ambulantes.

 

A janela era uma espécie de jornal cotidiano, sempre trazendo alguma novidade.

 

Quem se sentava no parapeito acabava participando da vida do bairro sem sair de casa.

 

Tive o privilégio de passar horas nas janelas da minha casa até viajar para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

 

À tarde, fazia os deveres escolares, tomava banho com água retirada do tanque de cimento nos fundos da casa, vestia calção e camiseta, penteava os cabelos com Gumex e ficava vendo o tempo passar.

 

Via meu pai surgir na esquina das ruas Cândido Mariano e do Campo, trazendo sacolas com pão ainda quente para o lanche da tarde.

 

Conversava com quem passava e, sem perceber, ficava sabendo das novidades da cidade.

 

Todas as casas da minha rua tinham grandes janelas ocupadas durante boa parte do dia.

 

Depois que a região onde morei foi tombada pelo patrimônio histórico e cultural, seus moradores mudaram-se aos poucos.

 

Alguns casarões foram demolidos outros transformados em estacionamentos.

 

As janelas da minha infância eram verdadeiros instrumentos de comunicação com a comunidade, dividindo essa função com as cadeiras de balanço colocadas à porta das casas.

 

Estas ganhavam vida ao entardecer, quando o calor diminuía.

 

As janelas, porém, despertavam junto com o dia.

 

Quantas compras minha mãe fez sem sair de casa, negociando pela janela com os vendedores ambulantes.

 

Nasci em um tempo em que verduras, frutas, peixes, rapaduras, farinha de mandioca e galinhas, eram vendidos de porta em porta transportado em pequenos carros de madeira com uma única roda dianteira.

 

As mercadorias vinham do rio Cuiabá, dos sítios e das chácaras que cercavam a cidade.

 

Era uma Cuiabá simples, humana e próxima. Uma cidade que o tempo levou consigo, deixando apenas lembranças guardadas na memória de quem viveu.

 

Hoje, quando olho uma janela antiga, não vejo apenas a rua.

 

Vejo um pedaço da minha infância ainda acenando para mim.

 

Gabriel Novis Neves

10-06-2026




sábado, 13 de junho de 2026

SOMBRAS DAS ÁRVORES


Em cidades quentes, a sombra sempre foi uma companheira valiosa.

 

Caminhar alguns metros a mais para encontrar uma árvore era algo natural.

 

As pessoas conheciam os lugares mais frescos da cidade e sabiam onde descansar por alguns minutos.

 

A sombra não era apenas proteção contra o sol, mas também um convite para diminuir o passo e observar melhor o mundo.

 

A Cuiabá da minha infância era uma cidade arborizada, ajardinada, e generosa em sombras.

 

Mangueiras formavam verdadeiros túneis verdes, conduzindo-me de casa, no início da rua 13 de junho, até a Praça Ipiranga, com suas imponentes palmeiras imperiais, onde funcionava o meu Grupo Escolar em 1942.

 

Não me esqueço de quando voltava da escola para casa, na época das mangas, ia saboreando uma fruta colhida pelo caminho.

 

Assim eram as ruas de Cuiabá: acolhedoras, frescas e protegidas pelas copas das árvores. Quanto mais nos afastávamos do centro da cidade, mais encontrávamos árvores frondosas, oferecendo sombra abundante e frutos generosos.

 

O bairro do Porto era, para mim, o mais bonito e arborizado da cidade.

 

De uma quadra a outra, as árvores se sucediam diante do antigo Arsenal de Guerra, onde hoje funciona o Sesc Arsenal.

 

Aquele prédio histórico foi originalmente encomendado por Dom João VI em 1818, e construído entre 1818 e 1832 para servir como Real Trem de Guerra, destinado à fabricação e ao conserto de armamentos.

 

Mais tarde, entre 1842 e 1872, funcionou como cadeia pública e militar.

 

Após longos anos de abandono, foi restaurado e reinaugurado em 2002, transformando-se em um dos mais importantes espaços de cultura e lazer da cidade.

 

Quando menino passava as tardes de domingo, brincando pelas redondezas, entre a rua 13 de junho e o início da avenida 15 de novembro.

 

Gostava de ouvir as histórias que cercavam o velho Arsenal de Guerra.

 

Eram relatos misteriosos, contados pelos mais velhos, capazes de arrepiar a pele de qualquer criança.

 

Cresci alimentando um certo medo daquela construção e dos fantasmas que a imaginação popular insistia em abrigar em seus corredores.

 

Hoje a cidade está mudada.

 

As sombras ficaram mais raras, o calor parece mais intenso e as árvores já não dominam as ruas como antigamente.

 

Também desapareceram muitas das histórias de assombração que povoavam a imaginação das crianças.

 

Mas continuam vivas na memória daqueles que tiveram o privilégio de crescer sob a sombra das mangueiras e dos velhos mistérios de Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

11-06-2026