Quase toda casa possuía um banco ou algumas cadeiras na calçada.
Ali os moradores conversavam ao cair da tarde, cumprimentavam os vizinhos e acompanhavam o movimento da rua.
Era um espaço simples, mas cheio de convivência.
Antes que os portões altos e os muros fechassem as casas, aquele banco aproximava as pessoas e transformava vizinhos em verdadeiros amigos.
Foi assim, ainda menino, que conheci pessoas importantes da história de Cuiabá.
As cadeiras na porta das casas eram um costume das famílias cuiabanas.
Depois do jantar, todos se reuniam para conversar com os vizinhos e cumprimentar quem passava pela calçada.
A boa prosa logo surgia.
Não demoravam a aparecer o café passado na hora, o bolo caseiro e as risadas.
Até o calor parecia perder a força diante da alegria daqueles encontros.
As cadeiras da calçada transformavam-se num verdadeiro ponto de encontro da vizinhança.
Eu me sentava no batente da porta e ouvia, com curiosidade e atenção, a conversa dos adultos.
Era o grande jornal falado da cidade.
Naquele tempo era comum ouvir histórias de donzelas que fugiam de casa para se casar, despertando comentários sobre a coragem de jovens apaixonados.
Também circulavam notícias da gravidez da empregada que morava com a família, assunto que alimentava a inevitável bisbilhotice daqueles encontros.
Quantas lições aprendi apenas ouvindo!
Criança não participava da conversa.
Ouvia, aprendia e guardava.
Na falta de outras diversões, as famílias ocupavam as calçadas.
Quem saía com pressa depois do jantar dificilmente conseguia chegar ao destino sem parar em uma ou outra porta para colocar a conversa em dia.
Havia também os que saiam de casa apenas para saber das novidades.
Numa cidade pequena, sem rádio em muitos lares e muito antes da televisão, eram as calçadas que mantinham a cidade informada. Assim se vivia, com simplicidade, amizade e tempo para as pessoas.
O retorno de um filho da terra trazendo um diploma universitário era motivo de orgulho coletivo.
A conquista de um era celebrada por todos.
Talvez aquele banco da frente da casa tenha sido a primeira escola de convivência de muitas gerações cuiabanas.
Nele aprendíamos que uma boa conversa também é uma forma de construir uma comunidade.
Gabriel Novis Neves
02-07-2026