No próximo domingo, dia 25, o Brasil voltará às urnas para escolher os seus governantes.
Será mais um daqueles dias em que a esperança e a incerteza caminham de mãos dadas.
Aos 91 anos, já acompanhei muitas eleições.
Vi governos chegarem e partirem, promessas desaparecerem com o vento e sonhos que, contrariando as previsões, conseguiram florescer.
O tempo me ensinou que as eleições passam, mas as consequências das escolhas permanecem.
Nasci durante a era Vargas e guardo lembranças da sua queda, em outubro de 1945, quando o Brasil se preparava para reencontrar a democracia.
Eu era um menino de dez anos, ainda de calças curtas, descobrindo que o destino de um país também se decidia pelo voto.
Na eleição presidencial daquele dezembro, três candidatos disputavam a preferência dos brasileiros: dois militares e um engenheiro civil.
O primeiro era o cuiabano Eurico Gaspar Dutra, general do Exército; o segundo, o brigadeiro Eduardo Gomes, da Aeronáutica; e o terceiro o gaúcho Yedo Fiuza, engenheiro civil.
Dutra havia construído uma brilhante carreira militar, chegando ao Ministério da Guerra durante o governo Vargas.
Nascido em Cuiabá, no bairro Grande Terceiro, foi batizado na capela de Nossa Senhora do Rosário, no Coxipó do Ouro.
Casou-se com Carmela Dutra, carioca e católica fervorosa, cuja influência religiosa contribuiu para a decisão presidencial de proibir os jogos de azar e fechar os cassinos brasileiros.
Carmela faleceu em 1947.
Dutra morreria em 1974, no Rio de Janeiro.
Na campanha eleitoral, não faltavam provocações.
Enquanto os adversários destacavam a elegância e a condição de solteiro do brigadeiro Eduardo Comes, os adversários de Dutra procuravam conquistar a simpatia dos trabalhadores.
Foi nessa disputa que surgiu um episódio curioso.
Hugo Borghi, ligado à campanha de Dutra, espalhou a versão de que o brigadeiro não precisava dos votos dos chamados marmiteiros, trabalhadores que levavam suas refeições para as fábricas.
A história ganhou as ruas e se transformou em poderosa arma eleitoral.
Dutra acabou derrotado em Cuiabá, sua terra natal, mas venceu em Mato Grosso e conquistou a Presidência da República.
No ano seguinte, Nereu Ramos seria eleito vice-presidente.
A democracia brasileira ensaiava seus primeiros passos depois dos longos anos do Estado Novo.
Mas, de todas aquelas lembranças, uma permanece especialmente viva.
Assisti a um comício do brigadeiro Eduardo Gomes em Cuiabá.
Elegante, de terno e gravata, ele discursava de um dos grandes janelões do casarão do seu Batinga, na Rua do Campo, em frente ao Clube Feminino.
Eu observava tudo com a curiosidade de um menino que ainda não compreendia inteiramente a política, mas percebia que alguma coisa importante estava acontecendo.
Meu pai, o seu Bugre, votou em Dutra.
No Bar do Bugre, entretanto, evitava declarar sua preferência.
Afinal, entre um cafezinho, uma conversa e outra, era preciso preservar a freguesia.
Embora, no fundo, todos soubessem em quem ele votaria.
Hoje, tantos anos depois, quando se aproxima outro domingo de eleições, volto àquela Cuiabá da minha infância.
Mudaram os candidatos, as campanhas e até a maneira de votar.
Mas uma coisa permanece.
As urnas envelheceram comigo.
A esperança, não.
Gabriel Novis Neves
19-10-2025






