segunda-feira, 15 de junho de 2026

GESTOS SIMPLES


Existe um gesto simples que atravessa gerações: deixar um copo de água ao lado da cama antes de dormir.

 

É um hábito discreto, quase automático, aprendido dentro de casa.

 

Muitos repetem esse costume há décadas sem sequer perceber.

 

Pequenas tradições como essa revelam como os gestos mais simples acabam acompanhando toda uma vida.

 

Meu avô, minha mãe, minha mulher, meus filhos, meus netos e eu cultivamos esse hábito de manter um copo de água ao lado da cama antes de dormir.

 

Ultimamente, o copo passou a ser acompanhado por uma garrafa térmica com água gelada.

 

Hoje, também é comum encontrar pequenos frigobares nos dormitórios.

 

Antigamente, porém, o banheiro ficava no quintal da casa e o copo de água fazia companhia ao penico, quase sempre guardado debaixo da cama.

 

Meu avô mantinha ainda na cabeceira uma vela, uma caixa de fósforos e um copinho de vidro para tomar o guaraná ralado logo ao despertar.

 

Como era surdo, não precisava de relógio despertador nem de telefone ao alcance da mão.

 

No tempo da minha infância, a saúde bucal era precária e poucas pessoas chegavam à velhice sem prótese dentária.

 

Antes de dormir retiravam a dentadura e a colocavam em um copo com água na cabeceira da cama.

 

Felizmente a odontologia evoluiu muito com as medidas preventivas e os modernos implantes dentários.

 

Os idosos continuam levantando várias vezes durante a noite, não por causa da água, mas pelas limitações que a idade naturalmente impõe.

 

Mesmo assim, o copo permanece ao lado da cama.

 

O hábito continua atravessando décadas, passado de pais para filhos, quase sempre sem explicação.

 

O dormitório talvez seja o espaço mais íntimo da casa, guardando costumes, lembranças e pequenos rituais que acompanham a nossa existência.

 

Ao escrever sobre esses temas, faço uma revisitação da minha própria vida.

 

Percebo quantas tradições absorvemos ao longo do caminho e como sentimos vontade de compartilhá-las.

 

No fim das contas, um simples copo de água guarda muito mais que água.

 

Guarda a memória silenciosa de uma família inteira.

 

Gabriel Novis Neves

10-06-2026




domingo, 14 de junho de 2026

JANELAS ABERTAS


Antes da televisão ocupar tanto espaço na vida das famílias, muita gente passava alguns minutos do dia observando a rua pela janela.

 

Dali acompanhava-se o movimento dos vizinhos, das crianças brincando e dos vendedores ambulantes.

 

A janela era uma espécie de jornal cotidiano, sempre trazendo alguma novidade.

 

Quem se sentava no parapeito acabava participando da vida do bairro sem sair de casa.

 

Tive o privilégio de passar horas nas janelas da minha casa até viajar para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

 

À tarde, fazia os deveres escolares, tomava banho com água retirada do tanque de cimento nos fundos da casa, vestia calção e camiseta, penteava os cabelos com Gumex e ficava vendo o tempo passar.

 

Via meu pai surgir na esquina das ruas Cândido Mariano e do Campo, trazendo sacolas com pão ainda quente para o lanche da tarde.

 

Conversava com quem passava e, sem perceber, ficava sabendo das novidades da cidade.

 

Todas as casas da minha rua tinham grandes janelas ocupadas durante boa parte do dia.

 

Depois que a região onde morei foi tombada pelo patrimônio histórico e cultural, seus moradores mudaram-se aos poucos.

 

Alguns casarões foram demolidos outros transformados em estacionamentos.

 

As janelas da minha infância eram verdadeiros instrumentos de comunicação com a comunidade, dividindo essa função com as cadeiras de balanço colocadas à porta das casas.

 

Estas ganhavam vida ao entardecer, quando o calor diminuía.

 

As janelas, porém, despertavam junto com o dia.

 

Quantas compras minha mãe fez sem sair de casa, negociando pela janela com os vendedores ambulantes.

 

Nasci em um tempo em que verduras, frutas, peixes, rapaduras, farinha de mandioca e galinhas, eram vendidos de porta em porta transportado em pequenos carros de madeira com uma única roda dianteira.

 

As mercadorias vinham do rio Cuiabá, dos sítios e das chácaras que cercavam a cidade.

 

Era uma Cuiabá simples, humana e próxima. Uma cidade que o tempo levou consigo, deixando apenas lembranças guardadas na memória de quem viveu.

 

Hoje, quando olho uma janela antiga, não vejo apenas a rua.

 

Vejo um pedaço da minha infância ainda acenando para mim.

 

Gabriel Novis Neves

10-06-2026




sábado, 13 de junho de 2026

SOMBRAS DAS ÁRVORES


Em cidades quentes, a sombra sempre foi uma companheira valiosa.

 

Caminhar alguns metros a mais para encontrar uma árvore era algo natural.

 

As pessoas conheciam os lugares mais frescos da cidade e sabiam onde descansar por alguns minutos.

 

A sombra não era apenas proteção contra o sol, mas também um convite para diminuir o passo e observar melhor o mundo.

 

A Cuiabá da minha infância era uma cidade arborizada, ajardinada, e generosa em sombras.

 

Mangueiras formavam verdadeiros túneis verdes, conduzindo-me de casa, no início da rua 13 de junho, até a Praça Ipiranga, com suas imponentes palmeiras imperiais, onde funcionava o meu Grupo Escolar em 1942.

 

Não me esqueço de quando voltava da escola para casa, na época das mangas, ia saboreando uma fruta colhida pelo caminho.

 

Assim eram as ruas de Cuiabá: acolhedoras, frescas e protegidas pelas copas das árvores. Quanto mais nos afastávamos do centro da cidade, mais encontrávamos árvores frondosas, oferecendo sombra abundante e frutos generosos.

 

O bairro do Porto era, para mim, o mais bonito e arborizado da cidade.

 

De uma quadra a outra, as árvores se sucediam diante do antigo Arsenal de Guerra, onde hoje funciona o Sesc Arsenal.

 

Aquele prédio histórico foi originalmente encomendado por Dom João VI em 1818, e construído entre 1818 e 1832 para servir como Real Trem de Guerra, destinado à fabricação e ao conserto de armamentos.

 

Mais tarde, entre 1842 e 1872, funcionou como cadeia pública e militar.

 

Após longos anos de abandono, foi restaurado e reinaugurado em 2002, transformando-se em um dos mais importantes espaços de cultura e lazer da cidade.

 

Quando menino passava as tardes de domingo, brincando pelas redondezas, entre a rua 13 de junho e o início da avenida 15 de novembro.

 

Gostava de ouvir as histórias que cercavam o velho Arsenal de Guerra.

 

Eram relatos misteriosos, contados pelos mais velhos, capazes de arrepiar a pele de qualquer criança.

 

Cresci alimentando um certo medo daquela construção e dos fantasmas que a imaginação popular insistia em abrigar em seus corredores.

 

Hoje a cidade está mudada.

 

As sombras ficaram mais raras, o calor parece mais intenso e as árvores já não dominam as ruas como antigamente.

 

Também desapareceram muitas das histórias de assombração que povoavam a imaginação das crianças.

 

Mas continuam vivas na memória daqueles que tiveram o privilégio de crescer sob a sombra das mangueiras e dos velhos mistérios de Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

11-06-2026















sexta-feira, 12 de junho de 2026

NAS MARGENS DO RIO CUIABÁ


A lembrança mais antiga que guardo do cais do rio Cuiabá é anterior à inauguração da Ponte Júlio Muller, em 1942.

 

Em 1939, viajei com meus pais e meus dois irmãos menores, de hidroavião para visitar minha avó Eugênia no Rio de Janeiro.

 

Recordo que chovia muito.

 

A pequena aeronave era ocupada por nossa família e o comandante da Polícia Militar do Estado, Coronel Máximo Levy, nosso vizinho na rua de Baixo.

 

Eu chorava nos braços de meu pai, enquanto meus irmãos dormiam tranquilamente.

 

Era costume, naquele tempo, quando o comandante da Polícia Militar viajava, executar hinos militares na despedida e chegada das autoridades, mesmo sob chuva intensa.

 

Depois que embarquei e o hidroavião deslizou pelas águas calmas do rio Cuiabá, adormeci. Nada mais me lembro da viagem.

 

Do Rio de Janeiro guardo apenas a lembrança dos brinquedos da praça do Lido, próximo ao Posto 2 de Copacabana.

 

Conservo como uma relíquia uma fotografia tirada em um daqueles brinquedos, ao lado da minha mãe, de Yara e de Pedro.

 

Algum tempo depois, comecei a frequentar o cais do porto, na garupa do cavalo de meu avô Alberto.

 

Ele costumava levar o animal para tomar banho nas águas do rio.

 

Naquele tempo, Cuiabá vivia relativamente isolada do restante do país.

 

Era a chegada dos vapores que quebrava a rotina tranquila das ruas antigas.

 

Meu avô gostava de viajar para Corumbá a bordo dessas embarcações para visitar uma de suas filhas.

 

As famílias acompanhavam parentes e amigos até o cais.

 

As despedidas só terminavam quando o apito do vapor deixava de ecoar sobre as águas.

 

Na memória cuiabana daqueles tempos, o apito das embarcações ficou associado à esperança, à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam de longe. 

 

O apito do vapor entrou para a história dos mais de trezentos anos da cidade, mas o Porto continua emocionando gerações como antiga porta de entrada de Cuiabá. 

 

Foi por ali que chegou meu bisavô, Augusto Novis, baiano, médico da Marinha Imperial, vindo da Bahia. 

 

Veio integrar as forças brasileiras que lutavam para expulsar os paraguaios de Corumbá. 

 

Naquele tempo, havia um ritual para receber visitantes ilustres. 

 

Autoridades, famílias tradicionais e jovens donzelas dirigiam-se ao cais para dar boas-vindas aos recém-chegados. 

 

Os militares eram homenageados e convidados para jantares festivos. 

 

Meu bisavô ficou noivo justamente no jantar de sua chegada.

 

Quis repetir uma dança com a jovem cuiabana que acabara de conhecer, e daquele encontro nasceu uma história de amor. 

 

Terminada a campanha militar, retornou a Cuiabá, casou-se, constituiu uma numerosa família, abriu seu consultório e nunca mais voltou a Salvador. 

 

O tempo passou.

 

Os vapores desapareceram, os aviões encurtaram distâncias e as estradas aproximaram os lugares. 

 

Mas, em certas tardes silenciosas de Cuiabá, ainda parece possível ouvir, ao longe, o velho apito do vapor atravessando as águas do rio e navegando pela memória da cidade. 

 

Gabriel Novis Neves 

28-05-2026
















O PRAZER DE NÃO SEGUIR HORÁRIOS


Não ter horário é um pequeno luxo.

 

Passamos a vida obedecendo relógios: hora de acordar, de trabalhar, de almoçar, de pagar contas, de tomar remédios e de cumprir compromissos.

 

Por isso, quando surge um dia sem obrigação marcada, a alma agradece.

 

Não é preguiça.

 

É apenas o corpo e o espírito pedindo licença para existir sem cobrança, sem pressa e sem um relógio dando ordens.

 

Estou vivendo um dia assim.

 

Foi uma decisão minha.

 

Não quero ter horário para nada.

 

Embora esteja trabalhando no computador do escritório da minha casa, o hábito me faz olhar constantemente para o canto da tela, onde o relógio insiste em marcar a passagem do tempo.

 

Logo surge a lembrança da hora de terminar de escrever.

 

Descansar completamente, sem relógios a nos azucrinar a vida, talvez só no céu.

 

E, mesmo lá, quem sabe não apareça um anjo da guarda trazendo alguma tarefa para ocupar a eternidade?

 

Não desejo luxo nem preguiça.

 

Desejo apenas um dia sem obrigações.

 

Existem prazeres que nos levam a viajar, gastar dinheiro e procurar novidades.

 

Mas há outros, muito mais simples, como o prazer de não precisar fazer nada.

 

Fazer nada não tem preço.

 

É apenas o privilégio de estar em paz comigo mesmo.

 

Como médico, eram raros os dias sem responsabilidades.

 

E, quando eles surgiam, logo apareciam as urgências e emergências para preenchê-los.

 

Deve ser difícil viver sem nunca escapar dos horários.

 

Às vezes chego a pensar que os preguiçosos cumprem uma função importante: lembrar aos demais que a vida não foi feita apenas para correr.

 

Alguns religiosos acreditam que, na vida eterna, não haverá obrigações.

 

A alma agradece a ideia de não ter horários a cumprir.

 

Mas será que teremos companhia para uma boa conversa?

 

A dúvida não tem hora para aparecer.

 

Surge de repente e nos desperta.

 

Quantas vezes acordo motivado por uma pergunta, geralmente literária, que insiste em ser respondida?

 

É o espírito chamando o pensamento para trabalhar, mesmo quando o corpo deseja descansar.

 

O prazer de não ter horário é apenas mais um capítulo da filosofia da vida.

 

E talvez uma das maiores recompensas da velhice seja justamente esta: descobrir que, de vez em quando, não fazer nada também é uma forma de viver.

 

Gabriel Novis Neves

06-06-2026




quarta-feira, 10 de junho de 2026

VASSOURAS NOS QUINTAIS


Houve um tempo em que o dia começava ao som da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Era um ruído simples, mas que anunciava o despertar da casa.

 

As folhas eram juntadas em pequenos montes, os canteiros recebiam atenção e a manhã parecia nascer junto com aquele trabalho silencioso.

 

Hoje muitos quintais desapareceram, mas o som da vassoura ainda vive na memória de quem cresceu em casas abertas para a rua e para a vida.

 

Nasci e fui criado em uma casa de portas abertas ouvindo o ruído da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Quis Deus que eu chegasse aos 91 anos morando em um apartamento, com portaria e sem quintal.

 

Mesmo assim, continuo escutando, dentro da memória, o som da vassoura riscando o quintal da minha infância.

 

As crianças educadas nas pequenas cidades do interior cresciam envolvidas pela natureza e só percebiam o valor desse privilégio quando viajavam para centros maiores.

 

Foi doloroso para mim deixar Cuiabá para estudar Medicina no Rio de Janeiro, distante dos cenários que haviam acompanhado a minha infância.

 

Como estudante tinha pouco tempo para apreciar as belezas naturais da cidade.

 

Faltavam-me o cheiro da terra molhada pela chuva e a simplicidade dos quintais cuiabanos.

 

Em vez do som da vassoura varrendo o quintal, eram os amoladores de faca que anunciavam a chegada de um novo dia.

 

Tudo parece diferente quando se compara a natureza com o mundo artificial.

 

Sempre defendi a ideia de que a criança criada em contato com a natureza desenvolve uma relação mais saudável com a vida.

 

Muitos dos nossos grandes estadistas, cientistas, professores, pesquisadores, escritores, poetas, jornalistas, artistas e jogadores de futebol nasceram no interior.

 

Os grandes clubes de futebol do mundo continuam sendo abastecidos por meninos vindos das pequenas cidades ou dos países mais humildes.

 

Quase todos eles despertaram um dia ao som de uma vassoura riscando o chão do quintal de suas casas.

 

Talvez por isso nunca tenham perdido completamente a simplicidade das suas origens.

 

Gabriel Novis Neves

09-06-2026




terça-feira, 9 de junho de 2026

O MOVIMENTO DAS TROPAS


Antes do avanço definitivo dos caminhões, as tropas de burro ainda dominavam parte do transporte em Cuiabá nos anos de 1940.

 

Vinham carregadas de mercadorias, alimentos e produtos do interior.

 

O som dos cascos nas ruas de terra fazia parte da paisagem sonora da cidade.

 

Os tropeiros traziam notícias, histórias e costumes de lugares distantes.

 

Crianças observavam admiradas aqueles homens queimados de sol conduzindo longas filas de animais.

 

Era um tempo em que a velocidade da vida seguia o passo das tropas e o comércio dependia da paciência das estradas.

 

Lembro-me de ficar agachado, deslumbrado, observando aqueles homens fortes, conduzindo as filas de animais que abasteciam a cidade.

 

A Cuiabá rural que conheci tinha o som dos cascos ecoando nas ruas de terra batida.

 

As tropas eram conduzidas pelos chamados tropeiros, figuras respeitadas e indispensáveis naquele tempo.

 

Ao chegarem à cidade, armavam barracas em praças afastadas do centro.

 

Ali preparavam a comida, dormiam em redes e cuidavam dos animais, sempre atentos para que nenhum burro se soltasse durante a noite.

 

O desfile das tropas parecia um espetáculo silencioso e fascinante.

 

Quando partiam de volta para os sítios e povoados do interior, deixavam uma sensação de vazio, como se a cidade perdesse um pouco do seu movimento e da sua alma.

 

O Brasil rural possuía uma riqueza humana e visual difícil de descrever.

 

Depois vieram os caminhões, as estradas e a pressa moderna, desalojando lentamente os burros dos caminhos antigos.

 

Até o linguajar do cuiabano mudou com o tempo.

 

Tenho certeza de que meus bisnetos, se encontrassem hoje uma tropa de burros atravessando a cidade, olhariam a cena com espanto.

 

Chegamos ao progresso atual graças também à força daqueles primeiros companheiros da agricultura e do transporte.

 

Com a modernidade, o homem do campo ganhou novas ferramentas e transformou Mato Grosso em potência do agronegócio.

 

Hoje, muitos dos antigos caminhos das tropas são percorridos por caminhonetes e até jatinhos.

 

Mas, dentro da memória de quem viveu naquele tempo, o som dos cascos ainda continua passando lentamente pelas ruas de Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

01-06-2026