segunda-feira, 22 de junho de 2026

FERIADOS VIVIDOS EM CASA

 

Nem todo feriado precisa de estrada, mala ou viagem.

 

Alguns dos melhores acontecem dentro de casa.

 

Uma cadeira confortável, uma comida conhecida, uma visita querida, uma flor no jardim, uma música antiga, uma lembrança que aparece sem ser chamada.

 

O feriado dentro de casa tem a vantagem de não exigir preparação.

 

Ele apenas pede disponibilidade para perceber que o descanso também mora perto de nós.

 

Os melhores feriados que passei, foi em casa com mulher e filhos adolescentes.

 

Nosso mundo se resumia a uma pequena volta de automóvel após o jantar.

 

Íamos até o porto, apreciando a beleza da rua 15 de Novembro, com seu canteiro central arborizado e florido, seus lindos casarões coloniais, alguns assobradados e seus moradores sentados em cadeiras de balanço, observando o movimento das ruas.

 

Sou um apaixonado do porto, sala de visitas de Cuiabá.

 

Tudo começava pelo porto, com o seu lindo rio, piscoso e barcos de pescadores e da população ribeirinha.

 

Minha mãe nasceu antes de chegar a Cuiabá, no município de Santo Antônio de Leverger, na Usina de Itaicy, em 1913.

 

Meu avô, foi com a mulher que não sabia estar gravida, à Europa.

 

Foi consultar com os mestres da Medicina, sobre a sua surdez precoce.

 

Lá chegando, minha avó começou a sentir mal.

 

Foi consultar com o doutor Pinar, professor conhecido da Faculdade de Medicina de Paris, inventor do primeiro estetoscópio obstétrico.

 

Ele fez o diagnóstico de gravidez, ouvindo os batimentos cardíacos do feto.

 

Recomendou o seu retorno imediato a Cuiabá, temendo que o tempo de viagem não fosse suficiente para chegar ao seu destino.

 

Para não nascer no vapor, meu avô, médico, conseguiu que o comandante da embarcação aproximasse das beiras da usina.

 

Minha avó foi carregada em rede até a usina, onde foi realizado o parto.

 

Minha mãe foi a mais cuiabana das cuiabanas, sem ser.

 

Como gostaria de receber da Câmara dos Vereadores de Cuiabá, o título de cidadã cuiabana.

 

Assim era o nosso feriado dentro de casa, plantando memórias.

 

Gabriel Novis Neves

08-06-2026






domingo, 21 de junho de 2026

SILÊNCIO DAS RUAS


A rua em dia de descanso mostra outra fisionomia.

 

As lojas fechadas parecem cochilar, as calçadas ficam mais livres, os passos diminuem e os conhecidos aparecem sem a correria habitual.

 

Quem observa bem percebe que a rua também tem humor.

 

Nos dias úteis, ela é apressada.

 

Nos feriados, parece mais humana.

 

Talvez porque, sem tanta gente correndo, possamos finalmente enxergá-la.

 

Nas ruas movimentadas das grandes cidades, muita beleza passa despercebida.

 

Só nos dias de descanso, quando elas ficam mais vazias e silenciosas, conseguimos notar detalhes que a pressa esconde.

 

Nada é mais curioso do que uma rua sem movimento.

 

Com as lojas, bares e lanchonetes fechados, ouvimos melhor as conversas, os pássaros e até os próprios pensamentos.

 

Nasci no Centro Histórico de Cuiabá, onde o comércio fervilhava de gente.

 

Mesmo nos dias de descanso, havia sempre grupos conversando nas esquinas, quebrando o silêncio dos feriados.

 

Quantas vezes visitei o centro do Rio de Janeiro, nos meus tempos de estudante de Medicina, em domingos e feriados, e tive a impressão de estar em outra cidade!

 

As ruas vazias e o comércio fechado revelavam uma face diferente da metrópole, como se sua alma finalmente aparecesse.

 

Nesses momentos, vinha a saudade da Cuiabá que deixei para completar os estudos.

 

Sempre achei os domingos um pouco tristes por retirarem as pessoas da rua.

 

Rua tem vida.

 

E sua vida é o movimento.

 

Antigamente o centro era o principal ponto de encontro da cidade.

 

Todos o procuravam para passear, conversar, namorar ou simplesmente ver o movimento.

 

O Jardim era o grande palco desses encontros, especialmente nas noites de retretas.

 

Vinham pessoas de todos os bairros de Cuiabá e até de municípios vizinhos.

 

Era ali que muitas moças escolhiam seus namorados e muitos casamentos começaram sob o som da banda tocando ao ar livre.

 

As mães mais zelosas costumavam advertir as filhas contra os aviadores e representantes comerciais, considerados excessivamente namoradores e sem paradeiro certo.

 

Assim era a rua em dia de descanso.

 

Menos apressada, mais silenciosa e cheia de lembranças.

 

Talvez por isso ela ainda caminha comigo, mesmo quando já não passo por ela.

 

Gabriel Novis Neves

07-06-2026





TERRA MOLHADA

 

Quem viveu na Cuiabá das ruas sem pavimentação conhece um perfume impossível de esquecer.

 

Bastavam os primeiros pingos de chuva para surgir o cheiro da terra molhada, anunciando o alívio do calor e a chegada de momentos mais amenos.

 

As crianças corriam para as janelas, os adultos levantavam os olhos para o céu e a cidade parecia respirar diferente.

 

Era uma sensação simples, mas capaz de transformar o humor das pessoas.

 

Algumas lembranças permanecem vivas justamente porque chegam acompanhadas de aromas que nunca abandonam a memória.

 

Hoje moro em uma rua pavimentada, no vigésimo andar de um edifício.

 

Muitas vezes fico sabendo que choveu pela internet, sem ouvir o tamborilar das gotas nem sentir o perfume que subia da terra encharcada.

 

Aquele aroma dos pingos de chuva caindo sobre o chão batido da minha infância continua guardado dentro de mim, como uma fotografia invisível que o tempo não conseguiu apagar.

 

Como gostaria de compartilhar com meus netos e bisnetos o cheiro da chuva no chão de terra, tão diferente dos perfumes artificiais que nos cercam hoje!

 

Depois das pancadas de chuva que refrescavam a cidade, nada era mais prazeroso para os meninos do que correr para o córrego da Prainha, levando consigo a alegria de viver e aquele perfume inesquecível espalhado pelo ar. Às vezes me pergunto por que crescemos, por que as cidades se modernizam, se tantas coisas simples e belas acabam ficando para trás.

 

Eu daria muito para voltar a ser criança por algumas horas e caminhar novamente pelas ruas de chão batido da minha pequena Cuiabá.

 

Recordo as crianças nas janelas observando a chuva cair, o calorão desaparecendo aos poucos, as conversas do meu pai sobre as enchentes do rio Cuiabá e a movimentação que a chuva provocava na cidade.

 

O bar ficava cheio.

 

As mesas eram ocupadas por fregueses que aproveitavam a pausa forçada para conversar.

 

Muitas visitas acabavam ficando para o jantar, enquanto esperavam a chuva passar.

 

Já o ponto de taxi ao lado do bar esvaziava-se rapidamente, levando para casa aqueles que não queriam enfrentar as ruas molhadas.

 

Tudo isso pertence ao passado.

 

Mas o perfume da terra úmida, despertado pelas primeiras gotas de chuva, continua intacto.

 

Não existe mais nas ruas da cidade como antigamente.

 

Hoje ele vive apenas na memória.

 

E talvez seja justamente por isso que tenha se tornado tão precioso.

 

Gabriel Novis Neves

18-06-2026






sexta-feira, 19 de junho de 2026

VENDEDOR DE GELO


Houve um tempo em Cuiabá em que o gelo era artigo precioso.

 

Antes das geladeiras modernas, vendedores percorriam as ruas transportando em carrinho de mão grandes barras envolvidas em serragem.

 

As famílias compravam pedaços para conservar alimentos e refrescar bebidas.

 

A chegada do vendedor era aguardada com expectativa, especialmente nos dias mais quentes.

 

Hoje quase ninguém imagina essa rotina, mas ela fez parte da vida doméstica de muitas famílias cuiabanas e permanece viva na memória dos mais antigos.

 

Lembro-me de seu Silvino de Arruda e de sua fábrica de guaraná Zênite, na rua 13 de junho, em frente à antiga Maternidade de Cuiabá.

 

Além dos refrigerantes, ele fabricava e vendia barras de gelo, muito apreciadas numa cidade quente como a nossa.

 

Quantas vezes acompanhei funcionários do bar de meu pai para comprar gelo naquela fábrica da rua 13 de junho!

 

São recordações que hoje parecem quase inacreditáveis, mas que o tempo não conseguiu apagar.

 

Não fui fundador de Cuiabá, mas acompanhei e participei de parte importante do seu desenvolvimento.

 

Por isso, a Cuiabá isolada do restante do país não deve ser esquecida pelas novas gerações.

 

Gostaria de ver a surpresa de um dos meus bisnetos ao descobrir que a cidade possuía uma fábrica de gelo pertencente a um parente distante e que muitas crianças ainda nasciam em casa.

 

Profissões comuns na minha infância desapareceram com o progresso e hoje sobrevivem apenas como curiosidades históricas.

 

Cuiabá sempre foi uma cidade de temperaturas elevadas.

 

Mesmo assim, sua população seguia costumes europeus no modo de vestir.

 

Os homens trabalhavam de terno de casimira inglesa, enquanto as mulheres usavam blusas de mangas compridas e saias abaixo dos joelhos.

 

E, curiosamente, pareciam não sentir calor.

 

À noite, dormiam até com cobertores.

 

Eu já era um menino crescido quando chegou a primeira geladeira à nossa casa.

 

Minha mãe vivia às voltas com as frequentes interrupções de energia elétrica, tão comuns naquele tempo.

 

Muitas vezes os alimentos se estragavam, obrigando as famílias a comprar apenas o necessário para poucos dias.

 

Por isso a geladeira de nossa casa jamais ficava cheia de mantimentos.

 

Era outro tempo.

 

Um tempo em que o gelo chegava à porta de casa empurrado pelas mãos de um homem.

 

Gabriel Novis Neves

18-06-2036




quinta-feira, 18 de junho de 2026

PRAZER DE TERMINAR TAREFAS


Existem pequenas satisfações que nunca saem de moda.

 

Arrumar uma gaveta, concluir uma carta, organizar fotografias ou terminar um trabalho simples, produz uma sensação agradável de dever cumprido.

 

Talvez porque o ser humano goste de ver o começo, o meio e o fim das coisas.

 

São conquistas discretas, mas capazes de iluminar um dia comum.

 

Desde menino despertou em mim essa satisfação de concluir uma tarefa.

 

Acordava cedo para chegar à escola com a lição na ponta da língua, pronto para tirar nota máxima nas provas.

 

Foi assim durante os quatro anos do curso primário na Escola Modelo Barão de Melgaço.

 

Não era o mais inteligente da turma, mas certamente estava entre os mais esforçados.

 

Como primogênito de nove irmãos, coloquei na cabeça que precisava dar o exemplo, terminando os estudos sempre com o melhor aproveitamento possível.

 

Ao final de cada ano letivo, sentia o alivio de quem havia cumprido sua obrigação e podia desfrutar das férias com tranquilidade.

 

Hoje, aos 91 anos, continuo experimentando essa mesma sensação ao concluir uma crônica de trezentas palavras.

 

Não por vaidade, mas pela alegria simples de ver uma tarefa iniciada chegar ao seu final.

 

Lembro-me muito bem da minha mãe incentivando os filhos a concluir tudo o que começavam.

 

Ela repetia um provérbio que se tornou companheiro de toda a minha vida: ‘Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje’.

 

Aprendi com ela muitos ditados populares que carregava uma sabedoria construída pela experiência.

 

Entre eles, um dos meus preferidos: ‘Mais vale um pássaro na mão do que dois voando’.

 

Essas pequenas satisfações não envelhecem nem saem da moda.

 

O ser humano gosta de acompanhar o início, o desenvolvimento e a conclusão das coisas.

 

Foi assim quando vi meus três filhos concluírem seus cursos superiores.

 

Foi assim, também, ao assistir à formatura dos meus netos.

 

Agora acompanho com alegria os primeiros passos dos meus cinco bisnetos.

 

Talvez eu não esteja presente para vê-los chegar à universidade.

 

Mas só de imaginar esse futuro já sinto uma enorme satisfação.

 

Afinal, poucas alegrias são tão grandes quanto ver uma tarefa bem-feita continuar através das novas gerações.

 

Gabriel Novis Neves

16-06-2026




quarta-feira, 17 de junho de 2026

ESPERANDO A CHUVA PASSAR


Antigamente ninguém carregava previsão do tempo no bolso.

 

Quando a chuva chegava, restava esperar.

 

Debaixo de marquises, varandas ou pontos de ônibus, as pessoas conversavam enquanto observavam as gotas caindo.

 

Muitas amizades começaram durante essas pausas inesperadas.

 

A chuva interrompia o caminho, mas aproximava as pessoas.

 

Curiosamente, naquele tempo, era comum sair de casa com um guarda-chuva debaixo do braço.

 

Ele servia tanto para proteger do sol forte de Cuiabá quanto para enfrentar a surpresa de um temporal repentino.

 

Na maioria das vezes, esperava-se a chuva passar sob uma marquise, em um ponto de ônibus ou à mesa de um bar.

 

Quantas amizades nasceram dessas pausas inesperadas.

 

Como eu gostava da Cuiabá da minha infância, onde tudo era motivo para uma nova conversa e, mesmo nascida sob uma marquise enquanto a chuva caía.

 

Ninguém parecia conhecer a pressa, e a vida seguia em um ritmo mais tranquilo.

 

Menino, da porta de minha casa ou do bar de meu pai, eu apreciava o espetáculo dos pingos desenhando círculos nas poças, sabendo que logo deixariam de molhar ruas e calçadas.

 

Numa cidade pequena, todos se conhecem, mas nem sempre conversam.

 

A chuva tinha o dom de aproximar as pessoas, iniciando, às vezes uma amizade duradoura ou até uma bonita história de amor.

 

Nas cidades do interior a chuva era recebida como uma benção, fortalecendo a agricultura e renovando a esperança.

 

Bem diferente das grandes cidades, onde muitas vezes é vista como um transtorno.

 

Ela altera a rotina, provoca congestionamentos, causa prejuízos e aumenta a tensão de quem vive cercado pela pressa.

 

Em Cuiabá, felizmente, deixamos para trás as grandes enchentes que tanto preocupavam a população antes da regularização do rio pelo sistema da barragem do Manso.

 

Em outras regiões do país, especialmente no Sul, as chuvas continuam provocando tragédias que se repetem ano após ano.

 

Como o tempo mudou!

 

Aquela chuva inesperada, que nos obrigava a parar por alguns minutos e nos presenteava com uma boa conversa, tornou-se cada vez mais rara.

 

Talvez a chuva continue a mesma.

 

Nós é que já não sabemos esperar por ela passar.

 

Gabriel Novis Neves

14-06-2026




terça-feira, 16 de junho de 2026

O HÁBITO DE GUARDAR


Durante muitos anos guardar sacolas era um costume presente em quase todas as casas.

 

Elas ficavam cuidadosamente dobradas em gavetas, armários ou atrás das portas, sempre prontas para uma nova utilidade.

 

Era uma atitude simples, motivada muito mais pela economia do que pela preocupação ambiental.

 

Sem perceber, muita gente aprendeu a evitar desperdícios muito antes de esse tema ocupar espaço nas conversas e nos noticiários.

 

Os antigos tinham o habito de guardar tudo o que pudesse servir novamente.

 

Sacolas, vidros, caixas, latas e embalagens ganhavam novas funções dentro de casa.

 

Quando os armários já não comportavam tantas coisas, fazia-se uma boa arrumação e parte daquele material seguia para o lixo.

 

Naquele tempo os resíduos eram recolhidos pelos caminhões da prefeitura e levados para áreas afastadas da cidade.

 

Mesmo ali, muitas peças ainda encontravam utilidade nas mãos dos catadores, que reaproveitavam ou comercializavam aquilo que ainda tinha valor.

 

Recordar essas pequenas práticas é um belo exercício de memória.

 

Meus pais não eram gastadores.

 

Tudo em casa era feito com moderação, sem excessos e sem desperdícios.

 

A Cuiabá da minha infância era uma cidade simples, onde a maioria das famílias levava uma vida parecida.

 

Meus amigos frequentavam os mesmos lugares: a escola pública, o posto de saúde, a igreja, o cinema, os jardins e as praças.

 

Os hábitos de alimentação e vestuário também não eram muito diferentes entre as famílias.

 

Quase todas as casas possuíam quintais generosos, onde se cultivavam frutas, verduras e se criavam alguns animais para complementar a alimentação, enriquecida pelos peixes abundantes do rio Cuiabá.

 

Os brinquedos eram feitos por nós mesmos, e as calçadas e quintais constituíam nossos espaços preferidos de diversão.  

 

Era comum encontrar cabras, vacas, galinhas e outras criações domésticas nos fundos das casas.

 

Quando retornei a Cuiabá, muitos daqueles costumes haviam desaparecido, inclusive o hábito de guardar sacolas e reaproveitar objetos.

 

A vida tornou-se mais prática, mas também mais descartável.

 

Passamos a comprar mais, guardar menos e substituir com rapidez aquilo que antes procurávamos conservar.

 

Talvez por isso eu admire tanto as lições de economia e simplicidade que aprendi na infância.

 

Elas me ensinaram que o verdadeiro valor das coisas não está apenas no que possuímos, mas no cuidado que dedicamos ao que temos.

 

Hoje, quando vejo uma simples sacola guardada em uma gaveta, não enxergo apenas um objeto reaproveitado.

 

Vejo uma lembrança silenciosa de um tempo em que se desperdiçava menos, se compartilhava mais e a vida parecia caminhar com maior simplicidade.

 

Gabriel Novis Neves

15-06-2026