A campainha tocou uma única vez, curta e decidida.
Não insistiu.
Levantei devagar, sem pressa, tentando lembrar quem poderia ser àquela hora.
Enquanto caminhava até a porta, pensei como certos sons interrompem o silêncio da casa com mais força do que deveriam.
Abri esperando alguém, mas encontrei apenas o corredor vazio.
Fiquei ali por alguns segundos, escutando o eco daquele toque que já tinha ido embora.
Voltei para dentro com a sensação estranha de quem foi chamado e não encontrou resposta.
A casa retomou o seu silêncio habitual, interrompido apenas pelo barulho distante da rua e pelo relógio da parede, sempre pontual.
Sentei-me novamente, mas a campainha continuava tocando na memória.
Pensei em quantas vezes a vida toca apenas uma vez.
Não repete.
Não espera.
É um aviso breve, quase educado, que pode ser ignorado por distração, cansaço ou simples demora.
Há convites que não insistem, pessoas que passam rápido, oportunidades que não batem duas vezes.
Lembrei das visitas antigas, quando a campainha era quase um anúncio de conversa longa, café passado na hora e cadeiras puxadas para perto.
Hoje, muitas vezes, o toque é seguido de pressa, recados curtos e despedidas apressadas.
Talvez aquela campainha tenha sido apenas engano.
Um dedo apressado no andar errado.
Ou talvez não.
Talvez tenha sido só um lembrete silencioso de que nem tudo permanece à espera.
Algumas coisas chegam, tocam e sequem adiante.
Levantei outra vez, conferi se a porta estava bem fechada e voltei para o meu canto.
A campainha não tocou novamente.
E eu entendi, sem necessidade de explicação, que certos chamados vêm apenas para testar se ainda estamos atentos ao que acontece do lado de fora — e dentro da gente.
Gabriel Novis Neves
28-01-2026