sexta-feira, 8 de maio de 2026

A JUVENTUDE QUE NOS DEVOLVEM


Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.

 

Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas.

 

Ao lado deles a vida parece menos pesada.

 

Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo.

 

Como é bom receber a visitas dos netos!

 

Tudo parece reflorir.

 

Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto.

 

Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto.

 

Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades.

 

Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude.

 

Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento.

 

Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica.

 

O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica.

 

Fica mais leve.

 

Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós.

 

Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo.

 

E é bom que seja assim.

 

O tempo não volta para trás.

 

O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos.

 

Nem todas as mudanças são boas.

 

Algumas assustam.

 

Outras encantam.

 

Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas.

 

Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda.

 

É como se a família ganhasse nova luz.

 

Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece.

 

Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio.

 

Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura.

 

Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva.

 

E agradeço.

 

Porque a juventude que os netos nos devolvem não está no corpo.

 

Está no coração.

 

E o coração, quando ama, nunca envelhece.

 

Gabriel Novis Neves

27-04-2026




A FAMÍLIA SEGUINDO ADIANTE


Uma das maiores recompensas da velhice é olhar para a família e perceber que ela seguiu adiante.

 

Os filhos construíram suas vidas, os netos abriram caminhos, os bisnetos chegaram trazendo novas promessas.

 

Nada foi perfeito, como nunca é.

 

Mas houve continuidade.

 

E essa continuidade tem uma beleza serena.

 

Ver os nossos caminhando com as próprias pernas, enfrentando o mundo com coragem, é como assistir, em paz, ao desdobramento de uma semente plantada há muito tempo.

 

Não me tornei rei do dinheiro fácil, tampouco acertei na loteria.

 

Mas tive uma recompensa maior: olhar para a minha família e perceber que ela avançou.

 

São duas gerações de profissionais liberais, trabalhadores, sem penduricalhos em órgãos governamentais.

 

Cada um seguiu seu caminho, com esforço próprio, sem dever favores a ninguém.

 

Isso, para mim, é um privilégio que dá vontade de viver.

 

Lamento apenas não ter tempo suficiente para ver meus bisnetos adultos, trazendo plenamente suas novas promessas.

 

A culpa é da biologia, que precisamos respeitar.

 

Gostaria de ver um bisneto na universidade.

 

Seria como enxergar aquela sementinha plantada lá atrás florescendo também no coração do biso.

 

Família unida não significa família igual.

 

Cada filho, cada neto, cada bisneto tem seu temperamento, suas escolhas, suas diferenças.

 

Cabe aos pais compreenderem essas diferenças e educarem para o mesmo objetivo: seguir em frente com dignidade.

 

Parece coisa simples, mas é difícil de construir, de entender e, muitas vezes, de valorizar.

 

Para uma família simples, subir na vida exige educação, trabalho e dedicação.

 

Nada vem pronto.

 

Nada cai do céu.

 

É preciso furar a onda do desenvolvimento com esforço próprio, honestidade e exemplo.

 

Creio no exemplo dos pais como força maior nessa construção.

 

Os filhos observam mais do que escutam. Aprendem no silêncio da convivência, na disciplina diária, na forma como os mais velhos enfrentam as dificuldades sem perder a decência.

 

Por isso, quando vejo minha família seguindo adiante, sinto que alguma coisa valeu a pena.

 

Não é vaidade.

 

É gratidão.

 

A vida passa, mas a família continua.

 

E, quando continua pelo caminho do trabalho e da dignidade, deixa no coração do velho uma alegria mansa.

 

Um orgulho bonito de carregar.

 

Gabriel Novis Neves 

01-05-2026




quarta-feira, 6 de maio de 2026

HERANÇA DE AMOR


Há emoção difícil de explicar quando os menores repetem nomes da família.

 

Chamam o avô, o bisavô, identificam parentes e começam a compreender, ainda de forma vaga, que pertencem a uma história maior do que eles.

 

Ao ouvir esses nomes na boca infantil, sentimos que a memória ganhou novo abrigo.

 

O que antes parecia apenas passado reaparece no presente com voz nova.

 

E assim a família segue, não apenas no sangue, mas também na lembrança.

 

Dos meus bisnetos, só a caçula de apenas dois anos me chama de biso, e não pelo meu nome próprio.

 

Fico alegre em saber que ela já me reconhece, assim como reconhece tias, tios, primas e primos.

 

Também a pedagogia infantil é bem diferente dos tempos antigos.

 

Outrora, comemorávamos nossos aniversários em casa, com tudo preparado pela mamãe.

 

Hoje, existem empresas especializadas para organizar o aniversário dos pequenos, com palhaços, brinquedos e tema da festa de acordo com a idade do homenageado.

 

Piquenique foi o convite do aniversário do meu último bisneto.

 

Eles ganham muitos presentes comprados nas lojas da cidade.

 

Quando eu era criança, tudo era mais simples, e os presentes, em sua maioria, eram artesanais.

 

Os antigos estavam acostumados com crianças de todas as idades e não achavam estranho ser chamados de pai, avô ou bisavô.

 

Confesso que senti algo especial com a chegada do primeiro neto.

 

Tirei fotografia, escrevi poesia, respondia com ar desconcertado quando me perguntavam sobre ele.

 

Imagine a minha felicidade quando aquela criaturinha descobriu que eu era seu avô!

 

Melhor ainda foi quando ela se entregou em meus braços, demonstrando segurança e carinho.

 

Com os bisnetos, a emoção voltou renovada.

 

Eles chegam depois de uma longa caminhada da vida, como flores tardias no jardim da família.

 

Não sabem ainda o que representam, mas trazem consigo a continuidade do nosso nome, dos nossos afetos e da nossa história.

 

Cada vez que uma criança pronuncia biso, alguma coisa dentro de mim se ilumina.

 

É a vida dizendo, com voz pequena, que ainda há futuro.

 

E assim a família cresce na lembrança, no sangue e no amor.

 

Gabriel Novis Neves 

01-05-2026





terça-feira, 5 de maio de 2026

SILÊNCIO NAS REPARTIÇÕES FECHADAS


Nos feriados e pontos facultativos as repartições públicas fechadas parecem guardar um silêncio especial.

 

Corredores vazios, mesas sem papéis novos, telefones mudos, portas trancadas.

 

Quem trabalhou muitos anos no serviço público conhece bem esse contraste.

 

De um lado, a rotina cheia de demandas, papéis, despachos, assinaturas e telefonemas.

 

De outro, o descanso coletivo, quando até os prédios parecem agradecer a pausa imposta pelo calendário.

 

Como comemoramos muitos feriados, nesses dias que deveriam ser apenas de descanso, acabamos saindo da rotina comum.

 

Muitos aproveitam para viajar, fazer trilhas, procurar riachos, cachoeiras e rios piscosos.

 

Há jogo de baralho para uns, redes estendidas para outros, comida simples, conversa jogada fora e a algazarra boa das crianças brincando.

 

Tudo isso faz um bem danado!

 

Fico lembrando a volta para casa, com todos alegres, queimados de sol, cheios de histórias e muito cansados.

 

Parece que apenas os prédios públicos, com suas portas e janelas fechadas, agradecem o feriado em silêncio quase sepulcral.

 

Tudo fica diferente.

 

O ponto de taxi em frente à repartição não funciona como nos dias comuns, e até as linhas de ônibus parecem circular em outro ritmo.

 

O funcionário zeloso, aquele que tem a chave da repartição, às vezes aproveita o silêncio para colocar o expediente em dia.

 

Leva de casa a marmita e passa parte do feriado trabalhando, talvez porque encontre no prédio vazio uma paz rara.

 

Antigamente tínhamos poucos feriados nacionais.

 

Com o tempo, porém, o comércio, necessitando incrementar suas vendas num mundo consumista, passou a transformar quase tudo em data comemorativa.

 

Estados e municípios também criaram seus feriados, e o calendário foi ficando cada vez mais generoso em pausas.

 

Com o desenvolvimento urbano, as cidades ficaram muito próximas.

 

No nosso caso, surgiu a Grande Cuiabá, um conjunto de cidades irmãs, unidas por pontes, estradas, serviços e costumes.

 

Atravessamos o rio Cuiabá e chegamos a Várzea Grande, a segunda cidade mais populosa do Estado.

 

Mais adiante está Livramento, terra de leite e derivados.

 

Subindo a serra, rumo ao Portão do Inferno, encontramos a turística Chapada dos Guimarães, com sua beleza antiga e sempre renovada.

 

Na estrada de Santo Antônio do Leverger está sendo construído o novo Hospital Universitário da UFMT.

 

Cada uma dessas cidades tem seus feriados, suas tradições e suas pausas.

 

Quando o calendário permite, as pessoas procuram movimento, viagem, lazer e convivência.

 

As repartições, ao contrário, ficam imóveis.

 

Fecham suas portas, calam seus telefones, apagam suas luzes.

 

E, por um dia, parecem respirar em paz.

 

Gabriel Novis Neves

04-05-2026




segunda-feira, 4 de maio de 2026

HISTÓRIAS DA ANTIGA CASA


Na casa antiga o feriado tinha outro sabor.

 

Não havia tanta pressa para viajar, nem tantos compromissos fora.

 

O descanso acontecia dentro de casa, com comida simples, conversa na varanda, rádio ligado e visitas inesperadas.

 

As crianças brincavam por mais tempo, os adultos conversavam sem olhar o relógio, e o dia parecia maior.

 

Era um feriado sem luxo, mas cheio de presença.

 

Neste feriadão minha neta me telefonou, dizendo que não viria almoçar comigo.

 

As amiguinhas de sua filha, junto com as primas, dormiram em sua casa, transformando sua espaçosa residência, com piscina e jardim, em uma verdadeira creche alegre.

 

Daria muito trabalho deslocar toda aquela criançada até aqui para o almoço do sábado.

 

Ela preferiu preparar e comprar comida para as pequenas.

 

Entendi perfeitamente.

 

Quando criança eu amava dormir na casa dos meus amiguinhos das redondezas onde morava.

 

Daquela época apenas uma amiguinha permanece viva em Cuiabá.

 

Mas a amizade ficou distante, e raramente nos vemos.

 

Tudo era diferente quando dormíamos nas casas dos vizinhos.

 

A cama, o travesseiro, o café da manhã com pão feito em casa e até as brincadeiras tinham outro encanto.

 

Com tristeza, eu e minha irmã Yara éramos obrigados a voltar para casa.

 

Compreendo, e até invejo, a alegria da minha bisneta com suas amiguinhas passando o dia na piscina, beliscando um petisco aqui, outro ali, e fingindo almoçar.

 

A infância é um período da vida que passa depressa, mas deixa lembranças de como fomos um dia.

 

Recordo, com saudade, meus primeiros anos na bucólica rua de Baixo, verdadeiro encantamento com sua pracinha, caminho do Morro da Luz, passando pela ponte da Prainha.

 

Criança enxerga a beleza com olhos diferentes dos adultos.

 

O mundo das crianças é bem diferente do mundo dos mais velhos.

 

Como gostaria de ser criança outra vez e participar daquele piquenique na casa da minha bisneta!

 

Mas fico aqui, feliz com a alegria dela.

 

Também é uma forma de brincar: lembrar.

 

Gabriel Novis Neves

03-05-2026




domingo, 3 de maio de 2026

FAMÍLIA GRANDE E LONGEVA


Um bisneto correndo pela casa é mais do que uma criança em movimento.

 

É a continuação visível de uma história antiga, iniciada muito antes de seu nascimento.

 

Ele ainda não sabe, mas carrega no rosto, nos gestos ou no simples fato de existir, a vitória silenciosa de uma família que atravessou décadas.

 

Enquanto brinca, sem consciência disso, oferece aos mais velhos uma espécie de consolo: a certeza de que o amor doméstico não termina conosco.

 

Pertencem à sétima geração dos Novis de Cuiabá.

 

Uma das cenas mais lindas da minha vida é receber meus bisnetos nos almoços de sábado!

 

Tenho cinco bisnetos: quatro moram em Cuiabá e um em Portugal

 

Em Cuiabá vivem três meninas e um menino.

 

A mais velha tem nove anos, a caçula apenas dois.

 

Cada um tem seu jeito de me cumprimentar, sempre com muito carinho, demonstrando todo o amor que sente pelo biso.

 

A menorzinha, sempre risonha, me abraça e me beija na boca, repetindo o gesto várias vezes, como se quisesse guardar aquele momento.

 

A mais velha me abraça com ternura e responde às perguntas que lhe faço, com certa maturidade de menina crescida.

 

Sua prima de oito anos se aproxima de onde estou para receber meus beijos na bochecha.

 

O menino de cinco anos, alegre e brincalhão, também tem seu modo único de demonstrar carinho ao seu biso.

 

O bisneto que mora em Portugal fala comigo por vídeochamada e gostaria muito de morar aqui para brincar com seus primos.

 

Sentado na cadeira de balanço, observo a correria e a alegria dos bisnetos pelo salão do apartamento.

 

Nesses momentos, lembro-me de meus pais, de meus avós e de como começou a nossa história.

 

De um lado, Salvador, na Bahia.

 

Do outro, Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

 

Meus pais me contaram essa linda história de amor, iniciada há quase dois séculos, e que, certamente, continuará por muitos outros.

 

Esta é a parte riquíssima que ainda sei contar. Depois de mim, outros continuarão a viver e a narrar essa história.

 

Porque uma família não termina.

 

Apenas muda de mãos.

 

Gabriel Novis Neves

28-04-2026




sábado, 2 de maio de 2026

CASA REPLETA


Há um silêncio particular que se instala na casa depois que filhos, netos e bisnetos se despedem.

 

Durante algumas horas, tudo foi ruído bom: passos, vozes, risos, brinquedos, pratos, chamados e abraços.

 

Depois, a porta se fecha, e a casa vai retomando, devagar, a sua quietude habitual.

 

Mas não volta a ser a mesma.

 

Ficam no ar os vestígios da visita, como um perfume de afeto.

 

E o silêncio, em vez de vazio, passa a ser lembrança repousada.

 

Resta a esperança de que, na semana seguinte, tudo se repita.

 

Quando somos crianças, os dias demoram a passar.

 

Na vida adulta, parecem voar, dando até a impressão de que encurtaram.

 

Isso faz bem ao idoso, que ainda sente pela casa o perfume do afeto, sinal de que filhos, netos e bisnetos voltarão.

 

Mais uma manhã de algazarra, alegria e brincadeiras, com a certeza de que tudo que é bom dura pouco, mas deixa marcas longas.

 

As famílias de antigamente tinham muitas crianças, e isso dava às casas um jeito permanente de festa.

 

A família de meu pai era formada por dez meninos e cinco meninas.

 

A de minha mãe, por sete meninas e um único menino.

 

Na minha casa de infância éramos cinco meninas e quatro meninos, deixando tudo sempre barulhento, com aquele ruído gostoso de se ouvir.

 

As pessoas que leem minhas crônicas diárias comentam que sou saudosista, sempre preso às lembranças do passado.

 

Como não recordar aquilo que passou por nós e nos fez bem?

 

Com Regina construí uma família de três filhos e seis netos, o mesmo número de filhos que tiveram meus pais.

 

Com a chegada dos cinco bisnetos, o silêncio se despediu.

 

Pelo menos nas reuniões de sábado, a casa voltou a ser como nos meus tempos de criança: alegre, cheia e ruidosa.

 

Hoje, fico na dependência do calendário para saborear novamente aquela gostosura antiga, sem o silêncio perturbador da casa vazia.

 

Quando todos vão embora, recolho devagar os ecos da manhã.

 

E fico esperando o próximo sábado.

 

Gabriel Novis Neves

30-04-2026