quinta-feira, 30 de julho de 2026

PÉS NA TERRA, CABEÇA NOS SONHOS


Andar descalço fazia parte da rotina do menino do interior.

 

Os pés conheciam a terra quente, a grama úmida e a areia macia sem qualquer estranhamento.

 

Cada passo aproximava a criança da natureza e transformava o quintal em um universo de descobertas.

 

Era uma liberdade tão espontânea que ninguém imaginava que um dia pudesse parecer um costume distante.

 

Andar descalço era um hábito da criança do interior e também dos adultos.

 

Os pés reconheciam e agradeciam tudo aquilo sobre o que pisavam.

 

A sensação era de bem-estar, embora fosse preciso cuidado para evitar pequenos ferimentos.

 

Na casa de meus pais, eu percorria o quintal sempre descalço.

 

Isso facilitava subir aos galhos mais altos das árvores.

 

Lá de cima, além de observar o nosso quintal, desfrutávamos de uma visão privilegiada dos quintais vizinhos.

 

No curso de Medicina, aprendi a importância da observação da planta dos pés.

 

A terra quente, a grama úmida e a areia macia faziam parte da infância; mais tarde compreendi que os pés também revelam importantes sinais de saúde.

 

Muitos diagnósticos dependem do exame clínico, e a sola dos pés pode fornecer informações valiosas.

 

Descobri que era diabético quando surgiram dores persistente nas plantas dos pés.

 

Mesmo fazendo uso dos medicamentos e mantendo a glicemia sob controle, continuo convivendo com essas dores.

 

A diabetes, silenciosa e traiçoeira, já havia comprometido os nervos plantares.

 

As dores apenas me dão trégua quando consigo dormir.

 

Se não fossem elas, e se o sono ainda fosse tranquilo como na infância, talvez eu atravessasse o centenário com muito mais conforto.

 

Difícil é sentir dor o dia inteiro e ainda não conseguir dormir durante a noite.

 

Às vezes tenho vontade de regressar àqueles tempos em que só calçava sapatos para ir à escola.

 

Jamais pisaria calçado sobre a terra, a grama ou as folhas do quintal de minha casa.

 

A criança descalça vivia em íntima comunhão com a natureza e fazia do quintal um universo de descobertas.

 

O adulto, inevitavelmente, sente saudades daquela infância que caminhava descalça e feliz.

 

Gabriel Novis Neves 

27-07-2026




terça-feira, 28 de julho de 2026

O PRIMEIRO CANIVETE


Ganhar o primeiro canivete era motivo de enorme orgulho para muitos meninos do interior.

 

Não era um brinquedo, mas um sinal de confiança dos adultos.

 

Com ele surgiam pequenas responsabilidades e inúmeras utilidades no dia a dia.

 

O objeto era guardado com carinho no bolso, acompanhando caminhadas, pescarias e aventuras que marcariam para sempre a lembrança da infância.

 

Não me lembro exatamente quando ganhei meu primeiro canivete.

 

Achava bonito carregá-lo no bolso da calça enquanto percorria de bicicleta as ruas de Cuiabá.

 

Para mim, era um símbolo de maturidade e responsabilidade.

 

Naquele tempo, muitos o consideravam também um instrumento de defesa, razão pela qual seus portadores eram respeitados e, por vezes, até temidos.

 

Infelizmente, uma briga entre meninos podia terminar em graves ferimentos.

 

O canivete era companheiro indispensável nas caminhadas, nas pescarias, na preparação do cigarro de palha e tantas aventuras que ficaram gravadas na memória.

 

Servia para descascar as frutas maduras encontradas nas árvores à beira das estradas, limpar os peixes recém-pescados e resolver pequenas necessidades do cotidiano.

 

Hoje é raro encontrar alguém carregando um canivete.

 

Nas regiões rurais, porém, ele ainda conserva seu prestígio, assim como a velha funda usada para caçar passarinhos, ambos retratos de um tempo que lentamente desaparece.

 

Confesso que, muitas vezes, tenho vontade de morar na roça, longe da agitação da chamada civilização.

 

Despertar ao som dos passarinhos, continua sendo um dos meus maiores sonhos.

 

Caminhar pelas matas de um sítio, com um canivete no bolso, é quase um retorno à infância e um reencontro com a simplicidade da vida.

 

A lembrança desse canivete marcou minha juventude tanto quanto a alegria de ganhar minha primeira bicicleta, aos quinze anos.

 

No passeio inaugural, acompanhado por um grupo de colegas, seguimos até o cais do Porto.

 

Na descida da rua Quinze de Novembro, apertei apenas o freio da roda dianteira para diminuir a velocidade.

 

O resultado foi um tombo espetacular, com escoriações pelo corpo inteiro.

 

No entanto, nada foi capaz de diminuir a felicidade daqueles dias.

 

Revisitar o passado é redescobrir tesouros que o tempo guardou silenciosamente na memória.

 

São essas pequenas lembranças que continuam iluminando o presente.

 

Gabriel Novis Neves

25-07-2026




segunda-feira, 27 de julho de 2026

NINHOS AMOROSOS


Poucas descobertas encantavam tanto um menino quanto encontrar um ninho escondido entre os galhos.

 

Aproximava-se devagar, quase prendendo a respiração para não assustar a pequena família de pássaros.

 

O momento despertava curiosidade e admiração pela natureza.

 

Sem perceber, aprendia que a vida floresce nos lugares mais simples e merece sempre cuidado e respeito.

 

A construção da casa do joão-de-barro era acompanhada com curiosidade e encantamento.

 

Quanta sabedoria escondida naquela pequena obra da natureza!

 

Basta observar essa joia do reino animal para nos encantarmos com a perfeição da engenharia dos pássaros.

 

Eles aprendem cedo os instintos da sobrevivência e, quando formam um casal, já sabem construir um abrigo seguro e protegido.

 

O que mais me encanta na casa do joão-de-barro são as suas divisórias internas, planejadas com admirável inteligência.

 

Ali os filhotes nascem, são alimentados pelos pais e permanecem protegidos dos predadores.

 

Quando chega o tempo certo, aprendem a voar e deixam o ninho, prontos para viver de forma independente.

 

Encontrar um ninho de passarinho escondido entre os galhos de uma árvore também era uma descoberta que me ensinava a respeitar a natureza e todas as formas de vida.

 

Era bem mais simples que a casa do joão-de- barro, mas possuía o essencial: um ninho cuidadosamente construído para abrigar os ovos e proteger os filhotes.

 

Ali a fêmea botava os ovos, chocava-os e, com a ajuda do macho preparava os pequenos para ganhar o céu, obedecendo às perfeitas leis da natureza.

 

Aprendi ainda menino, que a vida floresce nos lugares mais simples, subindo aos galhos mais altos das arvores do quintal de minha casa.

 

Também acordava com o concerto dos passarinhos, cada espécie com seu canto característico.

 

Sanhaços, pica-paus, periquitos, sabiás-laranjeiras, canários-da-terra, bem-te-vis, joões-de-barro transformavam a manhã em uma verdadeira sintonia. 

 

Cantavam para marcar território, atrair a companheira e celebrar mais um dia de vida.

 

Ainda bem que moro em uma área de reflorestamento.

 

Todas as manhãs continuo despertando ao som dos pássaros, especialmente dos bem-te-vis.

 

Sempre que os ouço, tenho a impressão de que a natureza ainda encontra um jeito delicado de conversar conosco.

 

Gabriel Novis Neves

24-07-2026




domingo, 26 de julho de 2026

ASSOBIO PARA CHAMAR CACHORRO


Antes das coleiras sofisticadas e dos adestramentos modernos, bastava um assobio para o cachorro aparecer correndo.

 

O menino aprendia cedo aquele chamado especial que somente o animal reconhecia.

 

De longe surgia o companheiro de todas as aventuras, abanando o rabo como se reencontrasse um velho amigo.

 

Entre os dois existia uma amizade silenciosa, construída diariamente pelos caminhos, quintais e brincadeiras da infância.

 

Na roça, o assobio sempre foi uma forma simples e eficiente de comunicação entre pessoas e animais.

 

Até hoje, técnicos de futebol utilizam o assobio e gestos para orientar seus jogadores durante as partidas.

 

E, pelo visto, eles entendem perfeitamente o recado.

 

Havia diversas maneiras de assobiar.

 

Alguns usavam dois dedos, um de cada mão; outros dois dedos da mesma mão.

 

O som era forte e podia ser ouvido à grande distância.

 

Aprendi cedo a assobiar, imitando os mais velhos durante as brincadeiras no mato, quando aquele som ajudava a reunir o grupo ou evitava que alguém se perdesse.

 

Nunca consegui, porém, fazer o famoso assobio com os dedos nos cantos da boca, capaz de produzir um som ainda mais potente.

 

O assobio continua vivo em nosso cotidiano. Chama pessoas, reúne cães, imita o canto dos pássaros, serve de alerta, acompanha canções e até faz parte de partituras musicais.

 

Conheci maestros que, enquanto regiam uma orquestra, assobiavam discretamente acompanhando a melodia.

 

Quando o assobio imita um pássaro, muitas vezes provoca o voo imediato das aves mais próximas.

 

Poucas habilidades eram aprendidas tão cedo quanto assobiar.

 

Um gesto simples, sem custo algum, que atravessou gerações sem perder sua utilidade.

 

A tecnologia transformou quase tudo ao nosso redor, mas não conseguiu substituir esse antigo costume.

 

E, para chamar um cachorro amigo, continua bastando um bom assobio.

 

Gabriel Novis Neves

21-07-2026




MIRANDO O CÉU


Antes que as telas ocupassem o tempo livre, era comum interromper as atividades apenas para observar o céu ao entardecer.

 

As cores mudavam lentamente, os pássaros retornavam aos ninhos e a temperatura se tornava mais amena.

 

Sem perceber, as pessoas contemplavam um espetáculo diário oferecido pela natureza.

 

Era um momento de serenidade que encerrava o dia com beleza e esperança.

 

Os antigos olhavam o céu várias vezes ao dia e acompanhavam o movimento das nuvens, procurando nelas sinais, formas e significados.

 

O céu sempre foi fonte de inspiração para poetas, compositores e também para os políticos.

 

Havia quem dissesse que as nuvens se pareciam com eles: num instante apresentavam uma forma e, pouco depois, já eram completamente diferentes.

 

Esse era o espetáculo silencioso e permanente da natureza.

 

Hoje, quase ninguém encontra tempo para olhar o céu, especialmente ao entardecer.

 

Muitos se recolhem diante da televisão para assistir ao futebol; outros preferem as mesas dos bares, onde desfrutam da companhia dos amigos.

 

Enquanto isso, o sol se despede na linha do horizonte, oferecendo um dos mais belos espetáculos da criação.

 

Assim como o arco-íris, sua beleza só pertence àqueles que levantam os olhos.

 

A natureza continua oferecendo maravilhas que passam despercebidas por quem vive apressado entre ruas e avenidas, sempre atento ao trânsito e aos compromissos. Também desapareceram muitos costumes, como o de contar histórias sobre o céu.

 

Quem da minha geração não ouviu falar de São Jorge montado em seu cavalo, desenhado na lua?

 

Sentados à porta das casas, os adultos conversavam, as crianças ouviam encantadas e a imaginação voava mais alto que as nuvens.

 

Com o desaparecimento das cadeiras nas calçadas, as famílias se recolheram para dentro de casa, e aquelas histórias ficaram guardadas apenas na memória.

 

Não sou contra o progresso.

 

Ao contrário, reconheço tudo que ele nos trouxe.

 

Mas confesso que sinto saudades do tempo em que bastava erguer os olhos para o céu e deixar a imaginação caminhar junto com as nuvens.

 

Gabriel Novis Neves

19-07-2026




sábado, 25 de julho de 2026

PERFUMES NA COZINHA


Alguns perfumes são capazes de atravessar décadas.

 

Bastava um bolo no forno, um doce sendo preparado ou uma panela fervendo lentamente para que toda a casa adquirisse um aroma acolhedor.

 

Os cheiros aproximavam as pessoas e anunciavam momentos felizes.

 

Muito antes das fragrâncias artificiais, eram os próprios alimentos que davam identidade ao lar.

 

Quantas pessoas entravam em minha casa atraídas pelo perfume da comida!

 

Muitas até se convidavam para o almoço ao sentir, da rua, o cheiro dos pastéis sendo fritos.

 

Minha casa sempre foi ponto de encontro de parentes, colegas e amigos, especialmente aos sábados e feriados.

 

Tenho uma amiga que mora no Rio de Janeiro e, todas as vezes que vem a Cuiabá, faz questão de comer os pastéis fritos na hora, preparados em minha casa.

 

O aroma dos alimentos tem o poder de aproximar as pessoas.

 

A mesa farta sempre foi um lugar de encontros, celebrações e boas conversas.

 

Por isso, transformei os sábados em dias dedicados à família.

 

A comida é importante, mas o verdadeiro banquete é a convivência.

 

Nesses encontros todos falam ao mesmo tempo, as risadas se misturam e a casa parece ganhar ainda mais vida.

 

Sou sempre o primeiro a me sentar à mesa e também o primeiro a me levantar.

 

De mãos dadas com minha bisneta caçula, de apenas dois anos, caminho até o dormitório para a sesta.

 

Ela parece hipnotizada pelos aromas da cozinha e faz questão de almoçar na copa para sentir de perto o perfume dos alimentos.

 

Na minha casa a porta de entrada é pela cozinha.

 

Os convidados —e até os não convidados —chegam, levantam as tampas das panelas, provam um pedaço daqui, outro dali, e descobrem o cardápio antes mesmo de se sentarem à mesa.

 

Enquanto houver uma cozinha perfumada, sempre haverá uma casa cheia de afeto.

 

Gabriel Novis Neves

17-07-2026




quinta-feira, 23 de julho de 2026

COLHEITAS EM CASA


Houve um tempo em que buscar os ovos no galinheiro era uma das primeiras tarefas do dia.

 

O menino caminhava devagar para não assustar as galinhas, observando cada ninho com a curiosidade de quem procurava pequenos tesouros.

 

O ovo ainda morno, recém-botado, era recebido com alegria e cuidado.

 

A simplicidade daquele gesto ensinava responsabilidade, paciência e respeito pelo ritmo da vida no interior.

 

Na minha infância, morávamos em uma casa com amplo quintal, onde meus pais criavam galinhas.

 

Desde cedo aprendi a visitar o galinheiro e recolher os ovos que abasteciam a mesa da família.

 

A vida era muito simples e generosa.

 

O quintal oferecia quase tudo de que precisávamos: alface, rúcula, agrião, couve, espinafre, abóbora, batata doce, berinjela, beterraba, cenoura, pepino, pimentão, rabanete, tomate, caqui.

 

Havia também cabras e porcos.

 

Não era necessário muito dinheiro para viver bem; a própria terra sustentava a cozinha e aproximava a família da natureza.

 

Buscar os ovos era uma das primeiras obrigações do dia, antes mesmo de ir para a escola, quando a manhã ainda despertava.

 

Meu avô Alberto, médico, também mantinha em seu quintal uma vaca e uma cabra.

 

Naquele tempo, o leite fresco era considerado um importante alimento para fortalecer os doentes.

 

Quando meu irmão Inon adoeceu gravemente, meu avô foi examiná-lo em nossa casa na rua de Baixo.

 

Depois da consulta, recomendou que ele fosse levado para a sua residência, na rua Voluntários da Pátria, onde tomaria três vezes ao dia leite recém-tirado da cabra.  

 

A penicilina ainda não havia chegado a Cuiabá, e os recursos eram poucos.

 

Eu tinha apenas seis anos.

 

Ainda não era alfabetizado, mas acompanhava meu avô na rotina de tirar o leite, recolher os ovos do galinheiro e cuidar do quintal.

 

Naqueles dias aprendi também minhas primeiras jogadas de xadrez e, talvez sem perceber, nasceu em mim o desejo de estudar Medicina.

 

Meses depois, meu irmão recuperou plenamente a saúde.

 

Hoje, aos oitenta e cinco anos, continua entre nós, com uma bela lembrança de que, muitas vezes, o amor, o cuidado e a dedicação também fazem parte da cura.

 

Gabriel Novis Neves

20-07-2026