quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A POLTRONA VAZIA


Nas varandas dos antigos casarões cuiabanos — não sei se por acaso ou por tradição — sempre havia uma poltrona vazia em um dos cantos.

 

Esse objeto simples guardava um profundo simbolismo: era sinal de ausência, mas também de esperança.

 

Representava o espaço reservado às memórias, à espera silenciosa de quem já partiu ou, quem sabe, de quem ainda pode chegar.

 

Na sala de visitas do meu apartamento, conservo uma dessas poltronas antigas, herança de família.

 

Ela repousa próxima ao oratório, iluminada por um janelão.

 

Apesar de confortável, quase nunca é usada.

 

Os bisnetos preferem a cadeira de balanço, onde encontram o embalo dos meus braços.

 

Entretanto, minha mulher sempre escolhia aquela poltrona.

 

Ali se jogava para descansar, para ouvir histórias ou para confidenciar segredos.

 

Ninguém mais da família adotou o mesmo hábito, e desde então ela permanece vazia, mesmo nos dias festivos em que a casa se enche de vozes e risos.

 

Talvez essa poltrona continue esperando por ela.

 

Para mim, não está desocupada: conserva sua presença invisível, sua memória viva.

 

Quase vinte anos já se passaram desde a sua partida, e ainda assim acredito que um dia ela pode voltar para se refestelar novamente e ouvir as novidades que guardo para lhe contar.

 

Como é bom sonhar, inventar cenários que poderiam ser verdadeiros!

 

Afinal, viver não é apenas acrescentar dias ao calendário, mas aprender a lidar com essas presenças silenciosas que nos acompanham. Todos nós, ao longo da vida, encontramos uma poltrona vazia em nossa varanda interior. Símbolo de saudade, de passagem e de continuidade, ela atravessa gerações, ensinando que a ausência também pode ser companhia.

 

Assim é a poltrona da minha sala: ocupando um espaço reservado às memórias.

 

Gabriel Novis Neves

25-09-2025




terça-feira, 22 de setembro de 2026

O PREGÃO DO VENDEDOR DE RUA


Cada vez mais rara está aquela atividade comercial do vendedor de rua, que usava o eco da própria voz para oferecer frutas, verduras, doces e anunciar novidades.

 

Tudo sempre com preços reduzidos.

 

Esse eco animava e dava vida às manhãs cuiabanas.

 

Era um verdadeiro trabalho de camelô ambulante.

 

No bairro onde mora a enfermeira que cuida de mim, ainda é comum ouvir esse chamado.

 

Hoje quem faz o pregão, geralmente vem em uma caminhonete abarrotada de produtos, muito diferente do antigo ambulante que carregava a mercadoria nos ombros e ia de casa em casa.

 

O pregão de outrora fazia parte da paisagem: a voz forte atravessava as ruas, e moradores saiam às portas e janelas para interagir com o locutor improvisado.

 

Hoje só resiste nas periferias das grandes cidades — e se resiste, é porque ainda dá sustento a quem o pratica.

 

A vida nas pequenas cidades e nos bairros afastados é mais simples, mais próxima da essência, mais agradável que a pressa e o ruído das metrópoles.

 

O homem, desde sempre, inventa maneiras criativas de sobreviver, e uma das mais antigos é o comércio.

 

Povos, como libaneses e judeus, mestres nessa arte de negociar, espalharem-se pelo mundo.

 

Chegaram a Cuiabá no início do século XX, ocuparam o centro histórico e foram, em grande parte, responsáveis pelo desenvolvimento da cidade.

 

Seus filhos hoje estão em todas as áreas: no comércio e, sobretudo, nas profissões ligadas à saúde como destaque para as especialidades médicas.

 

E assim como o pregão das frutas, também surgiram os modernos pregões, da medicina: mutirões que, em regiões sem especialistas, reúnem multidões nos finais de semana para serem atendidas.

 

O chamamento é feito por alto falantes instalados em velhas ximbicas, ecoando como outrora.

 

O pregão é uma das mais manifestações humanas de trabalho.

 

Jamais será extinto.

 

Enquanto houver homens e mulheres, haverá comércio — com ou sem pregão.

 

Gabriel Novis Neves

15-09-2025




domingo, 20 de setembro de 2026

O APITO DO GUARDA DE TRÂNSITO


Com as obras nas principais ruas e avenidas de Cuiabá, a ordem no trânsito da cidade, especialmente em determinados trechos, depende do apito do guarda de trânsito.

 

O som que, entre buzinas e pressa, impõe ordem à cidade, já faz parte da paisagem sonora urbana.

 

O guarda de trânsito é uma categoria profissional pouco valorizada pela população, apesar dos seus serviços relevantes.

 

Sem ele a vida da cidade poderá entrar em colapso, além dos transtornos naturais causados pelos atrasos de pessoal em serviço, notadamente os especializados.

 

A autoridade policial é aquela que carrega uma arma em sua cintura.

 

A arma do guarda de trânsito é o apito, que já faz parte da paisagem sonora urbana.

 

Sua remuneração também é bem inferior à de outros profissionais que usam o apito como profissão: caso dos árbitros de futebol e regentes de bateria das escolas de samba.

 

Até os guardas noturnos, que com o apito dão tranquilidade aos moradores das suas residências, são melhores remunerados.

 

O som do apito se mistura aos sons da cidade em ebulição, compondo parte da paisagem sonora urbana.

 

Muitos sinaleiros têm guarda de trânsito, notadamente quando há obras por perto.

 

O apito do guarda de trânsito, assim como outros, é sinal de segurança e esperança.

 

Esperança da chegada, uma coisa gostosa para se curtir, como o apito do trem chegando a estação, ou do navio ao cais.

 

O apito é tão importante no cenário urbano, que foi tema de uma das obras musicais mais importantes do poeta da Vila, Noel Rosa.

 

Ele compôs a maravilha de samba — O Apito da Fábrica.

 

O som do apito está sempre presente em nossas vidas, sempre nos alertando para momentos melhores.

 

Gabriel Novis Neves

11-09-2025




sábado, 19 de setembro de 2026

JORNAL DOBRADO SOBRE A MESA


O jornal chegou cedo e ficou dobrado.

 

Passei por ele duas vezes antes de sentar.

 

Quando abri, fui direto às páginas conhecidas.

 

Li devagar, sem pular linhas.

 

Algumas notícias já eram esperadas; outras, nem tanto.

 

Dobrei novamente, deixando marcado o lugar onde parei.

 

O jornal continuou ali, ocupando seu espaço na mesa, como faz há tantos anos.

 

Quando criança eu ia à Livraria e Papelaria Santa Therezinha, do carioca Rubens de Carvalho, sempre no fim da tarde.

 

Ficava esperando o avião chegar trazendo os jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

 

Comprava sempre um do Rio para meu pai, que não tinha rádio em casa e ficava sabendo, assim das últimas novidades da Segunda Guerra Mundial.

 

Na porta da livraria, ouvia a conversa dos adultos sobre os mais variados assuntos — e, claro, sobre futebol.

 

Fanáticos do Dom Bosco e do Mixto discutiam os resultados do campeonato cuiabano.

 

Levava o jornal para casa, e meu pai o lia sentado na cadeira de balanço.

 

Depois dobrava e guardava na copa.

 

De vez em quando eu vendia jornais nos boliches da Prainha para embrulhar as compras.

 

Quando o avião não pousava em Cuiabá, por falta de aeroporto que operasse à noite, eu só conseguia o jornal no dia seguinte.

 

Nessa época tínhamos apenas um campo de aviação: chão batido, onde pousavam os velhos DC3.

 

Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro decolei a bordo de um deles, partindo do campo de aviação onde hoje ficam as residências dos militares do 9º BEC.

 

Não me lembro de nenhum passageiro daquele voo.

 

Esse batalhão veio para cá para construir a estrada Cuiabá — Santarém.

 

Muitos se reformaram e ficaram por aqui, como o Coronel José Meirelles, que acabou sendo Prefeito de Cuiabá.

 

Morador do Coxipó da Ponte, foi um dos fundadores do Tênis Clube.

 

O jornal lido por meu pai sempre ficava dobrado na copa da nossa casa.

 

Quando retornei à minha cidade natal, já médico, passei a comprar o Jornal do Brasil na livraria da Praça da República.

 

Mais tarde, na reitoria da UFMT, um funcionário me levava o jornal.

 

Eu lia e o deixava dobrado na recepção da instituição.

 

O jornal dobrado sempre foi sinal de leitura feita.

 

Algumas coisas não pedem explicação.

 

Apenas permanecem.

 

Gabriel Novis Neves

03-02-2026




COISAS SIMPLES

 

O menino não precisava de muito para considerar um dia feliz.

 

Uma fruta colhida no quintal, uma conversa na calçada, um pedaço de bolo, uma brincadeira com os amigos ou alguns minutos ao lado dos pais eram suficientes.

 

Somente muitos anos depois compreenderia a riqueza daqueles momentos.

 

A vida lhe ofereceria coisas maiores e mais sofisticadas, mas poucas teriam o mesmo sabor das pequenas alegrias que quase nada custavam.

 

Lembro-me dos aniversários dos meus filhos ainda pequenos, festejados em casa com os amiguinhos e preparados pela Regina.

 

Também me recordo da recepção do casamento religioso de nossa única filha, realizada em casa, e das reuniões de família no Natal, no Ano-Novo e em outras datas especiais.

 

Tudo muito simples.

 

E talvez por isso mesmo tão inesquecível.

 

Hoje, aos sábados, reúno a família para o almoço.

 

Falo pouco e observo muito.

 

Gosto de acompanhar o crescimento dos meus bisnetos, cada um mais bonito e carinhoso que o outro.

 

Quando, por algum motivo, eles não aparecem, parece que falta alguma coisa. Minha semana fica incompleta.

 

A vida no campo também ensina que felicidade não depende de luxo.

 

As crianças da roça descobrem alegrias que não estão nas vitrines: uma árvore, um bicho, um rio, uma brincadeira inventada.

 

Num mundo cada vez mais consumista, talvez esteja ficando difícil ensinar às crianças que algumas das maiores riquezas da vida não têm preço.

 

Muita coisa a gente aprende com o passar dos anos.

 

Aos noventa e um anos compreendo ainda melhor os grandes professores que foram meus pais, e o valor dos ensinamentos que me deixaram.

 

Aprendi com eles a gostar das coisas simples. Talvez por isso eu também procure escrever assim: com simplicidade, memória e coração.

 

Gabriel Novis Neves 

14-09-2029



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ATÉ A SOLEIRA


Tirei os sapatos assim que entrei.

 

Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.

 

Sempre faço isso sem pensar.

 

O chão estava frio.

 

Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.

 

Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.

 

Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.

 

Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.

 

Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.

 

O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.

 

Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.

 

Havia orgulho no chão bem cuidado.

 

Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.

 

Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.

 

Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.

 

Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.

 

Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.

 

Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.

 

Os sapatos aguardavam na porta.

 

Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.

 

São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O COPO VIRADO NA PIA


O copo estava virado de cabeça para baixo na pia.

 

Não lembrava de tê-lo lavado naquela hora.

 

Passei por ele algumas vezes durante a manhã.

 

A pia estava seca, a cozinha em ordem.

 

Mesmo assim, o copo chamava atenção.

 

Coisas simples guardam gestos automáticos que fazemos sem perceber.

 

Depois que envelhecemos, começamos a notar esses pequenos movimentos do dia.

 

No envelhecimento passamos parte do tempo lembrando fatos passados, nem sempre agradáveis.

 

Também revisitamos situações antigas que, na época, passaram despercebidas.

 

Os gestos automáticos que realizamos do acordar, ao sair para o trabalho, só se revelam plenamente com a idade.

 

Somos, durante boa parte da vida, como bichos de reflexos condicionados.

 

Bem mais tarde, começamos a notar e a valorizar esses pequenos gestos — como fazer a barba ao acordar.

 

O velho é um zelador de coisas antigas e defensor do passado.

 

Esquece com facilidade o que aconteceu ontem, mas lembra com exatidão o terno da primeira comunhão.

 

Lembra também do almoço na casa do avô, devoto de Nossa Senhora da Conceição: os presentes, os faltosos, a hora e o local do retrato para o álbum da família.

 

Recorda a volta para casa e os preparativos para procissão.

 

Ela saia da Catedral Metropolitana, na Praça da República, percorria as ruas de Cima, Voluntários da Pátria, Sete de Setembro e de Baixo, retornando à Catedral para a reza com Dom Aquino Correa.

 

Consigo lembrar um fato ocorrido há oitenta e quatro anos com riqueza de detalhes, embora não me lembre dos ingredientes do lanche de ontem à noite.

 

Ao envelhecer, reconheço com mais clareza a generosidade do meu pai, sempre me elogiando nas cerimônias de que participava.

 

Só me senti plenamente querido na velhice, embora o amor nunca tenha estado ausente no meu lar.

 

Hoje, noto os mínimos detalhes da minha casa, inclusive o que abastece a geladeira.

 

Quando entro na copa, sei exatamente o que está fora do lugar.

 

Talvez seja isso o envelhecer: perder a pressa do mundo e ganhar intimidade com as pequenas coisas — até com um copo virado na pia, que passa a contar, em silêncio, a história de quem o deixou ali.

 

Gabriel Novis Neves

07-02-2026