quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O SAPATEIRO DA ESQUINA


Entre o cheiro de cola e de couro, o sapateiro era um artista silencioso.

 

A crônica homenageia esses mestres do ofício que consertavam não só sapatos, mas também histórias gastas pelo tempo.

 

Na Cuiabá antiga os sapatos eram de couro e duravam muitos anos.

 

Quando eu era guri, todos os meus sapatos tinham meia-sola e se aposentavam apenas quando o pé crescia — ou quando o couro, finalmente se rasgava.

 

Tínhamos inúmeros e bons sapateiros, e era difícil encontrar uma quadra sem pelo menos um deles.

 

Suas oficinas ficavam quase sempre na própria casa, ocupando uma salinha de frente para a rua.

 

Ali reinavam o cheiro da cola e do couro, misturados à boa conversa do artesão — o verdadeiro artista silencioso.

 

Fiz amizade com vários, entre eles o seo Atanásio, na rua Voluntários da Pátria, quase esquina com a rua de Cima, em frente à casa do meu avô Alberto.

 

Naquele tempo, sapatos não eram descartáveis como os de agora, e em casa ninguém tinha mais que um par.

 

Para mantê-los sempre limpos, a cidade contava com muitos engraxates —uns de banca fixa, outros ambulantes.

 

Na Praça Alencastro, na da República e na rua de Cima, entre a avenida Presidente Vargas e a rua Cândido Mariano, eles eram encontrados aos montes.

 

Os engraxates pouco conversavam, diferente dos sapateiros, que viviam contando histórias aos fregueses.

 

Muitas das antigas oficinas desapareceram, dando lugar às torres residenciais.

 

Mas a casa do sapateiro da Voluntários da Pátria, com sua oficina de artista silencioso, permanece lá — intacta e fechada.

 

Talvez algum problema jurídico, ligado ao inventário tenha sido o motivo do abandono.

 

Hoje, já não sei se ainda existem sapateiros em nossa cidade.

 

Era um ofício passado de pai para filho, tradição que resistiu por gerações.

 

Com a fundação da Universidade Federal de Mato Grosso, o filho do sapateiro tornou-se doutor — e assim melhoraram as condições sociais de muitas famílias de ofícios artesanais.

 

Gabriel Novis Neves

05-11-2025




quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A CHAVE ESQUECIDA NA PORTA


Um pequeno descuido desperta grandes lembranças.

 

Ao perceber a chave esquecida na porta, fui transportado às memórias da infância — tempo em que a confiança era tanta que ninguém trancava a casa, e o medo ainda não morava nas esquinas.

 

No tempo da minha avó Eugênia, mãe de quinze filhos, ela só fechava a porta da rua depois de contar as crianças espalhadas pelo chão.

 

Às vezes, alguma passava a noite na casa de vizinhos, e isso era comum.

 

Na casa dos meus pais, a porta da rua tinha apenas um trinco — a tranca era usada de vez em quando.

 

Era a maneira inteligente que minha mãe encontrou para controlar a chegada dos filhos.

 

Eles precisavam tocar com os dedos a janela do quarto dela.

 

Então, ela se levantava, retirava a tranca de madeira e abria a porta.

 

Perguntava sobre o horário, cheirava o hálito dos meninos para saber se haviam fumado ou bebido, e em seguida apontava para a varanda, onde um copo de leite os esperava sobre a geladeira.

 

Só depois nos mandava para o quarto.

 

Essa disciplina durou até meus primeiros anos de Medicina, quando eu vinha passar as férias em casa.

 

Nunca tivemos chave.

 

E mesmo depois de formado, nunca fumei nem bebi na frente dos meus pais.

 

Curiosamente, foi meu pai quem passou a me entregar, todos os dias, duas carteiras de cigarro — uma para mim e outra para a Regina.

 

As chaves das casas antigas eram enormes, pesadas, e ninguém as carregava no bolso.

 

A cidade era tão tranquila que ninguém temia ladrões.

 

Quando morei na casa assobradada do avô da Regina, na rua Paissandu, no Rio de Janeiro, ele tinha o hábito de manter a porta sempre trancada, guardando a chave na varanda.

 

Ao anoitecer, conferia cada fechadura e subia para seus aposentos, onde mantinha uma bela biblioteca.

 

Raras eram as noites que não descia para verificar se todas as portas estavam bem fechadas.

 

Eu brincava, chamando-o de neurótico obsessivo.

 

Hoje, no meu apartamento do vigésimo andar, tenho chaves modernas, fechaduras com travas e olho mágico.

 

Ainda assim, confesso: tenho medo de ladrões.

 

Gabriel Novis Neves

01-11-2025




A JANELA DA RUA DE CIMA


É a crônica de uma janela que via tudo: os desfiles, os namoros disfarçados e o passar do tempo — até o dia em que a vista se perdeu entre prédios.

 

Era a aristocrática rua de Cima, dos casarões com lindos sobrados e quintais frutíferos, de sombras generosas que se derramavam pelas calçadas.

 

Ali, por muito tempo, morou a elite da cuiabania.

 

Quando criança, passava com frequência por essa rua curta.

 

Ia da Praça Alencastro até a Praça da Mandioca, onde moravam os capitães- generais em seus belos casarões.

 

Tudo que acontecia em Cuiabá passava pela rua de Cima: procissões, missas na Catedral, desfiles cívico-militares, retretas no Jardim, movimentos no Palácio Alencastro e no Palácio da Instrução.

 

Bares e restaurantes animavam as noites, e das janelas elegantes os moradores observavam tudo — os namoros disfarçados, as festas, a própria vida a desfilar diante deles. Essas janelas eram, para seus privilegiados donos, um verdadeiro parque de diversões.

 

O lugar naquela janela que via tudo era disputado, até mesmo por outros moradores da casa.

 

Mas um dia, a vista se perdeu entre prédios.

 

Os antigos habitantes se mudaram para bairros afastados, o comércio fechou as portas, e as residências desapareceram.

 

A outrora charmosa rua de Cima tornou-se um deserto, com noites tristes e silenciosas.

 

Resta aqui e ali algum comércio resistente, pelas bandas do Bar do Bugre, também com os dias contados.

 

Desconheço qualquer projeto de revitalização do Centro Histórico e Cultural de Cuiabá.

 

As ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo precisam ser salvas — com suas histórias e memórias.

 

Exemplos não faltam em outras cidades: lembro-me da Lapa, no Rio de Janeiro, que não morreu.

 

O progresso empurra Cuiabá para longe da velha capital, para onde antes eram chácaras, sítios e fazendas — hoje tomadas por casas sem janelas, sem varandas, sem o prazer de ver a banda passar.

 

É isso que estamos deixando para as novas gerações: uma cidade sem história.

 

Gabriel Novis Neves

29-10-2025




segunda-feira, 12 de outubro de 2026

CHEIRO DE CHUVA


Não havia nada melhor, nas tardes quentes cuiabanas, do que o cheiro da terra molhada e o som das goteiras.

 

Isto fazia a alma descansar.

 

Como eu gostava dessa combinação entre a chuva batendo nas telhas de barro e o compasso das goteiras!

 

Ainda bem que a minha casa da rua do Campo não era forrada — assim eu podia sentir os borrifos da chuva sobre o corpo.

 

Seo Domingos, velho pedreiro da família, sabia que, depois das chuvas, teria de cimentar as goteiras, especialmente as dos dormitórios.

 

Também cabia a ele desentupir os bueiros da área de serviço, entupidos pelas folhas das plantas da varanda e do quintal.

 

Desde o meu retorno à cidade natal, em 1964, sempre morei em casas com forro — e há trinta anos num apartamento.

 

Mesmo durante um temporal, se estou dormindo, nem percebo que choveu.

 

Aquela alegria sensorial — o cheiro da terra molhada, o som da chuva no telhado, as goteiras e os borrifos — jamais voltarei a sentir.

 

Certos odores da natureza, como o da terra molhada, parecem incompatíveis com o progresso.

 

Não acho que o progresso tenha sequestrado os prazeres simples da vida, ao alcance de todos.

 

Mas as cidades tornaram-se mais embrutecidas, sem a beleza da água escorrendo em direção aos córregos.

 

Perdemos a poesia e o encanto do córrego da Prainha transformado em avenida; do Barbado, do 8 de Abril e do Quintal Grande — este último, totalmente canalizado, corre agora sob a pela região da Avenida Mato Grosso.

 

O tanque do Baú foi aterrado para dar lugar a prédios públicos e a uma clínica famosa.

 

Cuiabá tem vinte e oito córregos — e a maioria está escondida sob o asfalto.

 

Sem o devido cuidado na canalização, a cidade sofre com as inundações.

 

As chuvas tão aguardadas na cidade mais quente do Brasil trazem, junto com o alívio, os horrores das enchentes.

 

A velha capital do Estado nasceu num vale, onde toda a água das chuvas, sem drenagem, transforma as ruas em rios.

 

Gabriel Novis Neves

29-10-2025






domingo, 11 de outubro de 2026

BAR DO BUGRE EM ANIVERSÁRIO


No dia 12 de outubro de 2009, Dia das Crianças, ganhei um presente que jamais imaginei que me acompanharia por tantos anos.

 

O Dr. João Nunes da Cunha Neto criou para mim o blog Bar do Bugre e G.N.N. Cultura.

 

Escolhi o primeiro nome para abrigar minhas crônicas do cotidiano.

 

Além de mais simples, era uma homenagem ao meu pai e ao seu Bar do Bugre, onde trabalhou durante meio século e que faz parte da memória de Cuiabá.

 

Ao amigo que me deu o presente, impus outra missão: seria também editor e responsável pelas ilustrações.

 

Convidei Cristina Meirelles para revisar os textos.

 

Estava formada a pequena equipe que permanece comigo nessa aventura.

 

Foi João quem me convenceu de que minhas lembranças não deveriam ficar guardadas.

 

Publicá-las seria uma maneira de impedir que histórias, personagens e costumes da velha Cuiabá desaparecessem com o tempo.

 

Dezessete anos depois, o blog ultrapassou quatro mil crônicas.

 

Se fossem reunidas em volumes de cem textos, dariam mais de quarenta livros.

 

Tudo começou depois da minha viuvez e do casamento dos meus filhos.

 

Sozinho no apartamento procurei alguma coisa que ocupasse o tempo e, principalmente, a cabeça.

 

Descobri a escrita.

 

Costumo dizer que todo médico traz escondido um pouco de cronista.

 

Desde o curso de Medicina aprendemos a ouvir e registrar histórias.

 

Primeiro, nas anamneses.

 

Depois, no consultório, acompanhando a história de cada paciente.

 

Comecei a escrever pequenas crônicas e a enviá-las ao Dr. João, sem cobrar resposta.

 

Ele lia e guardava.

 

Quando já eram mais de sessenta, veio a surpresa: no Dia das Crianças, presenteou este velho menino com um blog.

 

Hoje, aos 91 anos, continuo escrevendo.

 

Tenho mais de cem crônicas esperando publicação.

 

Quando passo um dia sem escrever, parece que ficou faltando alguma coisa.

 

Meus textos já passaram por jornais, revistas, sites e pelo inseparável Bar do Bugre.

 

Alguns leitores ainda me cobram um livro impresso.

 

Talvez um dia ele venha.

 

Se não pelas minhas mãos, pelas mãos dos meus herdeiros.

 

Enquanto isso, continuo escrevendo.

 

Porque descobri que as lembranças também envelhecem — mas, quando viram palavras, aprendem a ficar.

 

Gabriel Novis Neves

12-10-2026




sábado, 10 de outubro de 2026

CADERNO DE CALIGRAFIA


Relembra os tempos da escola — o cheiro do lápis, o esforço para desenhar as letras bonitas e a paciência das professoras com o “pau de giz”.

 

Deixei os quintais das brincadeiras infantis para ocupar um banco da escola pública, onde me alfabetizei.

 

Não conhecia o caderno de caligrafia, não sabia segurar no lápis, tampouco tinha coordenação motora.

 

Foi a professora Oló quem, com paciência e carinho, segurava a minha mão para desenhar as letras bonitas.

 

Ainda hoje sinto o cheiro do lápis recém-apontado e recordo o som do ‘pau de giz’ riscando o quadro negro da Escola Modelo Barão de Melgaço — em frente à Praça Ipiranga, ainda sem o coreto e o chafariz que vieram da Praça Alencastro.

 

Conclui o antigo curso primário, de quatro anos, sabendo ler e escrever com uma bela caligrafia — graças aos exercícios diários no caderno de caligrafia.

 

Tudo começou em 1942, quando fui alfabetizado, e culminou com a minha posse como Secretário Estadual de Educação, em 1968.

 

Muita água correu debaixo da ponte nesses 26 anos.

 

Fiz o antigo curso ginasial com exame de admissão no Colégio Salesiano.

 

Depois, dois anos do científico no Colégio Estadual de Mato Grosso e o último ano no Colégio Anglo-Americano, no Rio de Janeiro.

 

Seguiu-se um ano de preparatório para o vestibular de Medicina, no Curso Galloti, na Cinelândia.

 

Aprovado no vestibular da Praia Vermelha, vieram seis anos de faculdade, mais quatro de especialização.

 

Regressei à minha cidade natal no final de 1964.

 

Em 1968, ingressei na Educação como Secretário de Estado e saí, em 1982, como Reitor Fundador da UFMT.

 

Continuei como docente de Medicina, até a minha aposentadoria da UFMT.

 

Implantei o Curso de Medicina da UNIC, sendo o seu primeiro diretor.

 

Tudo isso, talvez, tenha começado lá atrás — quando aprendi a segurar o lápis e tracei minhas primeiras letras no velho caderno de caligrafia.

 

Gabriel Novis Neves

29-10-2025




FORMIGAS NO AÇUCAREIRO

 

As famílias cuiabanas travavam uma eterna luta para proteger o açúcar das formigas — e o quanto essa pequena ‘guerra doméstica’ unia a casa.

 

Uma das diversões da criançada era observar o vai e vem das formigas na varanda, carregando alimentos para o formigueiro.

 

Que organização e união!

 

Pareciam até conversar entre si.

 

Minha mãe aproveitava esses momentos para nos ensinar sobre a hierarquia das formigas, sua admirável organização social e os abrigos que comportavam milhares delas.

 

Pequenas, mas extraordinariamente organizadas, viviam em colônias onde cada uma tinha sua função bem definida: operárias, soldadas, rainhas e machos reprodutores.

 

Trabalham em silêncio e harmonia, construindo verdadeiras cidades subterrâneas, com túneis e câmaras — símbolos de esforço, disciplina e cooperação.

 

Mesmo minúsculas, carregavam pesos muito maiores que o próprio corpo, movidas por uma força coletiva admirável.

 

Nas manhãs quentes, era comum vê-las em fila, transportando pedaços de folhas, grãos e restos de alimentos, numa coreografia perfeita da natureza.

 

As formigas ensinam que a união faz a força, que o esforço contínuo gera resultados e que até o menor dos seres pode transformar o ambiente ao seu redor.

 

A colônia pode viver muitos anos, especialmente se a rainha for longeva.

 

Além de tudo, as formigas beneficiam o solo ao arejá-lo e ajudam a controlar pragas.

 

Gostam tanto de açúcar porque necessitam da energia rápida dos carboidratos.

 

Reproduzem-se por ovos colocados pela rainha, que dão origem às operárias, aos machos e às novas rainhas.

 

Quando morrem, são levadas para fora do formigueiro pelas companheiras, que mantêm o ninho limpo e saudável.

 

Nos campos de agricultura encontramos inúmeros formigueiros — verdadeiras habitações verticais da natureza.

 

Podem ser boas, quando contribuem para o equilíbrio do solo, ou más, quando danificam as plantações.

 

Hoje, poucos lares ainda guardam açucareiros.

 

O café passou a ser adoçado com adoçantes.

 

Os lindos açucareiros que conservo em casa já não saem dos armários.

 

Como os hábitos — e o mundo — mudaram!

 

Gabriel Novis Neves

26-10-2035