quinta-feira, 23 de julho de 2026

COLHEITAS EM CASA


Houve um tempo em que buscar os ovos no galinheiro era uma das primeiras tarefas do dia.

 

O menino caminhava devagar para não assustar as galinhas, observando cada ninho com a curiosidade de quem procurava pequenos tesouros.

 

O ovo ainda morno, recém-botado, era recebido com alegria e cuidado.

 

A simplicidade daquele gesto ensinava responsabilidade, paciência e respeito pelo ritmo da vida no interior.

 

Na minha infância, morávamos em uma casa com amplo quintal, onde meus pais criavam galinhas.

 

Desde cedo aprendi a visitar o galinheiro e recolher os ovos que abasteciam a mesa da família.

 

A vida era muito simples e generosa.

 

O quintal oferecia quase tudo de que precisávamos: alface, rúcula, agrião, couve, espinafre, abóbora, batata doce, berinjela, beterraba, cenoura, pepino, pimentão, rabanete, tomate, caqui.

 

Havia também cabras e porcos.

 

Não era necessário muito dinheiro para viver bem; a própria terra sustentava a cozinha e aproximava a família da natureza.

 

Buscar os ovos era uma das primeiras obrigações do dia, antes mesmo de ir para a escola, quando a manhã ainda despertava.

 

Meu avô Alberto, médico, também mantinha em seu quintal uma vaca e uma cabra.

 

Naquele tempo, o leite fresco era considerado um importante alimento para fortalecer os doentes.

 

Quando meu irmão Inon adoeceu gravemente, meu avô foi examiná-lo em nossa casa na rua de Baixo.

 

Depois da consulta, recomendou que ele fosse levado para a sua residência, na rua Voluntários da Pátria, onde tomaria três vezes ao dia leite recém-tirado da cabra.  

 

A penicilina ainda não havia chegado a Cuiabá, e os recursos eram poucos.

 

Eu tinha apenas seis anos.

 

Ainda não era alfabetizado, mas acompanhava meu avô na rotina de tirar o leite, recolher os ovos do galinheiro e cuidar do quintal.

 

Naqueles dias aprendi também minhas primeiras jogadas de xadrez e, talvez sem perceber, nasceu em mim o desejo de estudar Medicina.

 

Meses depois, meu irmão recuperou plenamente a saúde.

 

Hoje, aos oitenta e cinco anos, continua entre nós, com uma bela lembrança de que, muitas vezes, o amor, o cuidado e a dedicação também fazem parte da cura.

 

Gabriel Novis Neves

20-07-2026




quarta-feira, 22 de julho de 2026

PASSOU O TEMPO DO ABANICO


Durante muitos anos, o calor era combatido com leques, abanadores e janelas abertas.

 

Quando surgia o primeiro ventilador da casa, ele se transformava numa espécie de celebridade doméstica.

 

Todos disputavam o lugar mais próximo.

 

Seu barulho constante parecia música para quem sofria com as altas temperaturas.

 

O aparelho funcionava dia e noite, trazendo conforto e novidade.

 

Pequenos avanços tecnológicos costumavam provocar grande encantamento nas famílias daquela época.

 

Não me recordo exatamente quando nossa casa adquiriu o primeiro ventilador.

 

Até viajar para estudar, convivi naturalmente com o calor de Cuiabá e dormia tranquilamente sem sentir falta de qualquer aparelho.

 

Quando retornei, onze anos depois, o ventilador já fazia parte do meu dormitório.

 

Sem ele, tinha dificuldade para dormir.

 

Os salões do bar de meu pai recebiam o sol forte da tarde e, mesmo aconselhado por mim, ele jamais instalou ventiladores de teto.

 

Justificava sua decisão dizendo que, sem ventiladores, vendia mais cerveja.

 

Era uma lógica curiosa, mas que lhe parecia bastante convincente.

 

Com o passar do tempo, porém, a cuiabania acabou cedendo às novas tecnologias.

 

Vieram os aparelhos de ar-condicionado e os ventiladores perderam espaço.

 

Hoje, poucas casas deixam de possuir algum sistema de refrigeração.

 

A sociedade absorve rapidamente as inovações.

 

Foi assim com o computador, que substituiu as máquinas de datilografia, hoje transformadas em peças de museu.

 

Foi assim com a telefonia móvel e com o celular, pequeno computador que cabe na palma da mão.

 

Essa invenção revolucionou a comunicação, aproximou pessoas, facilitou serviços e transformou hábitos do cotidiano, inclusive as operações bancárias.

 

As novas tecnologias melhoraram a vida dos cuiabanos em praticamente todas as áreas do conhecimento.

 

Os idosos, porém, muitas vezes encontram dificuldades para acompanhar tantas mudanças que surgem quase diariamente. Também apareceram novas formas de crime praticadas pela internet, tornando os mais velhos alvos frequentes dos golpistas.

 

E, entre tantas novidades que transformaram o mundo, ainda me faço uma pergunta sem resposta: afinal, em que dia meu pai comprou o primeiro ventilador da nossa casa?

 

Talvez a memória tenha esquecido a data.

 

Mas não esqueceu a sensação agradável daquele vento simples, girando devagar nas noites quentes da velha Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

21-06-2026




terça-feira, 21 de julho de 2026

BANHO DE MANGUEIRA


Os dias quentes de Cuiabá sempre inspiraram soluções simples para enfrentar o calor.

 

Uma delas era o inesquecível banho de mangueira no quintal.

 

As crianças passavam horas correndo sob os jatos de água, transformando o espaço da casa em um verdadeiro parque de diversões.

 

Não havia brinquedos sofisticados nem tecnologia.

 

Bastavam água, alegria e imaginação.

 

Hoje esse costume quase desapareceu, mas permanece como uma das recordações mais felizes da infância de muitas gerações cuiabanas.

 

Afinal, o banho de mangueira continua sendo uma forma simples e divertida de enfrentar o calor, algo que ainda encanta as crianças nos dias mais quentes.

 

O melhor de tudo era que minha mãe participava da brincadeira com entusiasmo juvenil.

 

Enquanto isso meu pai, sempre ocupado com o trabalho no bar, raramente estava presente nesses momentos.

 

O banho de mangueira no quintal ficou guardado na memória afetiva de gerações de cuiabanos.

 

Ao escrever estas crônicas saudosistas, não pretendo comparar a felicidade do passado com a do presente.

 

Cada época tem seus encantos.

 

Mas é impossível não reconhecer que as crianças de antigamente criavam suas próprias diversões, quase sempre simples e cheias de encanto.

 

Havia o banho de mangueira no quintal, o banho de chuva na rua, os mergulhos no córrego da Prainha e os banhos no tanque do Baú.

 

Eram brincadeiras que alegravam a juventude e deixavam lembranças que o tempo não consegue apagar.

 

Hoje os brinquedos são comprados em lojas, existem espaços especializadas para recreação e profissionais preparados para entreter as crianças.

 

Tudo isso tem seu valor.

 

Mas, naquele tempo, muito se aprendia com os mais velhos e com a convivência diária.

 

Hoje há escolas de natação, dança, tênis, futebol e canto.

 

Na minha infância, porém, o quintal de casa era uma verdadeira escola de descobertas.

 

Passávamos ali boa parte das férias escolares.

 

Subíamos aos galhos mais altos das mangueiras para colher os frutos maduros com as próprias mãos.

 

Fazíamos o mesmo com a pitangueira e a cajazeira.

 

E quando a chuva chegava, tomar banho entre aquelas árvores era uma felicidade difícil de descrever.

 

Cuiabá com seu calor generoso, ensinava as suas crianças a inventar maneiras simples de se refrescar.

 

Ora procurávamos a sombra acolhedora dos mangueirais.

 

Ora buscávamos as águas abundantes que brotavam do solo da cidade para transformar o calor em brincadeira.

 

Hoje, quando a memória abre as portas do quintal da infância, ainda sinto os respingos da mangueira e a alegria daqueles dias que o tempo levou, mas o coração guardou.

 

Gabriel Novis Neves

20-06-2025




segunda-feira, 20 de julho de 2026

CIGARRO DE PALHA

 

Durante muitos anos o cigarro de palha fez parte da paisagem humana de Cuiabá.

 

Era presença constante nas conversas à porta das casas, nas viagens pelo interior e nos intervalos do trabalho.

 

Preparado artesanalmente, carregava um modo de viver marcado pela simplicidade e pelos costumes antigos.

 

Hoje quase desapareceu, mas continua aceso na lembrança de quem conheceu aquele tempo.

 

Quase todos os armazéns e vendas espalhados pelos bairros comercializavam o tradicional fumo de rolo.

 

O cigarro de palha era confeccionado manualmente.

 

Abria-se a palha de milho, já seca e macia, colocava-se uma pequena porção de fumo

 

desfiado, distribuindo-o de maneira uniforme.

 

Em seguida, enrolava-se a palha com delicadeza, apertando-a entre os dedos até adquirir o formato desejado.

 

A ponta era torcida para que o fumo não escapasse, e o cigarro estava pronto para ser aceso.

 

Havia quem preparasse vários de uma só vez, guardando-os na algibeira da camisa ou no bolso da calça para serem fumados ao longo do dia.

 

As lavadeiras, com a praticidade de quem trabalha sem descanso, costumavam guardá-los dentro do sutiã.

 

No Bar do Bugre, de meu pai, vendiam-se apenas cigarros industrializados, das mais diversas marcas nacionais e estrangeiras.

 

Os especialistas afirmam que um cigarro de palha pode equivaler a três ou quatro cigarros industrializados.

 

Durante muitos anos, homens e mulheres fumavam com frequência, e, em determinados ambientes, o hábito era até considerado elegante.  

 

Com o avanço dos estudos sobre os males produzidos pelo tabagismo, campanhas de conscientização ganharam força em todo o mundo.

 

Aos poucos, o cigarro perdeu prestígio de outras épocas, e o número de fumantes diminuiu consideravelmente.

 

Hoje, o cigarro de palha pertence quase exclusivamente à paisagem rural, onde também se tornou cada vez mais raro.  

 

Meus filhos e netos nunca fumaram.

 

Meu genro abandonou o cigarro há muitos anos.

 

Eu fumei durante vinte anos, por insegurança da juventude, e deixei o hábito sem sofrimento. Regina fez o mesmo.

 

O cigarro de palha desapareceu das mãos de muita gente, mas permanece vivo como lembrança de um tempo que já virou história.

 

Gabriel Novis Neves

16-07-2026







LENÇÓIS DOBRADOS


Dobrar lençóis recém-lavados exigia paciência, habilidade e certo talento.

 

Muitas vezes duas pessoas seguravam as extremidades para que tudo ficasse perfeitamente alinhado.

 

Depois eram cuidadosamente dobrados e guardados no armário, levando consigo o perfume do sabão e do sol.

 

Eram pequenos rituais domésticos que transmitiam ordem, cuidado e bem-estar.

 

Hoje esse trabalho quase sempre é realizado pelas lavanderias.

 

Os lençóis seguem em sacos plásticos e retornam limpos, passados e dobrados, prontos para serem novamente usados.

 

Na minha infância, porém, era diferente.

 

As antigas lavadeiras, que moravam longe do centro de Cuiabá, vinham semanalmente buscar as roupas das famílias.

 

Caminhavam descalças, mascando fumo de rolo, equilibrando sobre a cabeça grandes trouxas envolvidas em lençóis.

 

Eu admirava a segurança com que carregavam aqueles pesados embrulhos.

 

Moravam em regiões ricas em córregos e riachos, onde as roupas eram lavadas com água corrente e muito esforço.

 

De volta à cidade, as passadeiras, com seus ferros aquecidos à brasa, deixavam cada peça impecável.

 

Os lençóis eram então dobrados com capricho e guardados para o próximo uso.

 

Nunca me esqueci de Dona Maria Chica, a lavadeira da minha infância.

 

Gostava quando ela me pedia para comprar um pedaço de fumo de rolo na Casa do Fumo Bom, do seu Dutra, entre a Rua do Campo e a Cândido Mariano.

 

As lavadeiras desapareceram, os costumes mudaram e a modernidade tornou tudo mais prático.

 

Mas nenhum serviço substitui a lembrança de um lençol lavado no córrego, passado a ferro de brasa e dobrado com carinho.

 

São perfumes da infância que o tempo jamais consegue apagar.

 

Gabriel Novis Neves

15-07-2026




sábado, 18 de julho de 2026

VISITAS EM CASA


Nas famílias cuiabanas era comum receber parentes vindos de localidades distantes.

 

A chegada era motivo de festa e movimentava a casa inteira.

 

Preparavam-se refeições especiais, organizavam-se os quartos e surgiam longas conversas.

 

Os visitantes traziam notícias, histórias e produtos da região onde viviam.

 

Durante alguns dias a rotina mudava completamente.

 

Essas visitas fortaleciam os laços familiares e criavam memórias que permanecem guardadas por toda a vida.

 

Quando eu era criança meus tios paternos moravam em Cuiabá e no Rio de Janeiro.

 

Por parte de minha mãe, apenas uma tia residia em Cuiabá.

 

Eu tinha um tio fazendeiro no Pantanal, casado com uma de minhas tias maternas.

 

Sempre que vinha a Cuiabá, hospedava-se em nossa casa, na rua do Campo.

 

Minha mãe transformava a sala de visitas em dormitório para recebê-lo.

 

Seria quase uma desonra deixa-lo ficar em pensão ou hotel.

 

Com que alegria ela o acolhia.

 

Eu o ajudava em pequenos serviços e, em troca, recebia generosas gorjetas.

 

Eram visitas sempre muito aguardadas, e o hóspede jamais chegava de mãos abanando.

 

Trazia queijos, rapaduras, carne seca e muitas histórias da fazenda, que nos enchiam de alegria e curiosidade.

 

Minha mãe inventava pratos especiais, tudo para agradar aquele parente que vinha de longe.

 

Com as estradas pavimentadas encurtando distâncias e a aviação facilitando os deslocamentos, as visitas foram se tornando mais rápidas.

 

Hoje é comum um parente chegar a Cuiabá, resolver seus compromissos e retornar no mesmo dia.

 

Aquelas conversas demoradas e alegres, que fortaleciam os laços familiares, foram ficando cada vez mais raras.

 

O convívio alimentado por cartas, recados e visitas prolongadas deu lugar ao celular e às novas tecnologias.  

 

Talvez elas tenham aproximado as pessoas pela comunicação, mas diminuído a convivência.

 

Sinto saudade daquele tempo em que a chegada de um parente transformava a casa e deixava, por muitos dias, um pouco mais de alegria no coração de todos.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2026




sexta-feira, 17 de julho de 2026

ROUPAS NOVAS


Poucas emoções eram tão esperadas quanto vestir uma roupa nova pela primeira vez. Muitas vezes ela ficava guardada durante dias, reservada para um domingo, uma festa ou uma celebração especial.

 

Quando finalmente chegava o momento de usá-la, surgia um orgulho silencioso estampado no sorriso de quem a vestia.

 

A simplicidade daquele gesto transformava a novidade em uma verdadeira comemoração.

 

O meu primeiro terno só fui comprar quando já era estudante no Rio de Janeiro.

 

Em Cuiabá usava roupas simples e os uniformes escolares.

 

Certa ocasião minha mãe foi convidada para o casamento civil da filha única de uma grande amiga.

 

Como havia uma criança pequena em casa e ela não dispunha de roupa adequada para a cerimônia, pediu que eu a representasse.

 

Meu pai era um homem discreto.

 

Sua vida se resumia ao trabalho e à nossa casa.

 

Coube a mim cumprir a missão.

 

Eu tinha apenas onze anos e respondi que não possuía roupa apropriada para uma festa onde estariam presentes tantas autoridades.

 

Ela sorriu e perguntou:

 

— E o bonito uniforme branco do colégio dos padres, feito por alfaiate e ainda sem uso reservado para o desfile de Sete de Setembro?

 

A solução estava encontrada.

 

Aprontei-me e fui para a casa da noiva, que ficava próxima da nossa.

 

Ao chegar, procurei os pais da noiva para justificar a ausência dos meus pais.

 

Em seguida, ofereceram-me uma cadeira.

 

Ali permaneci durante toda a solenidade, sem conversar com ninguém, vestido com o impecável uniforme branco e segurando o boné no colo.

 

O tempo parecia não passar.

 

Meu maior desejo era voltar para casa, livrar-me daquele traje e dar por cumprida a tarefa que minha mãe me confiara.

 

Esse episódio aconteceu há oitenta anos e permanece vivo na minha memória.

 

Hoje percebo que não era apenas uma roupa nova que eu estreava.

 

Estreava também a responsabilidade, a confiança dos meus pais e o respeito que as crianças tinham pelos adultos.

 

Procurei transmitir esses mesmos valores aos meus filhos.

 

Os tempos mudaram, os costumes também, mas certas lembranças continuam vestidas de uma elegância que o tempo jamais consegue desfazer.

 

Gabriel Novis Neves

11-07-2026