quinta-feira, 2 de julho de 2026

ARRUMANDO O QUINTAL


Havia dias reservados para cuidar do quintal.

 

Varriam-se as folhas, aparavam-se as plantas, recolhiam-se os galhos e organizavam-se pequenos cantos esquecidos.

 

Enquanto trabalhavam os moradores conversavam sem pressa e as crianças acabavam participando da tarefa.

 

Ao final da manhã, o quintal parecia agradecer o cuidado recebido, oferecendo novamente seu espaço para brincadeiras, descanso e encontros familiares.

 

Antigamente os quintais eram verdadeiras áreas de lazer das famílias.

 

Vizinhos se reuniam, quitutes eram preparados e os almoços aconteciam ao ar livre.

 

Aquele ambiente diferente quebrava a rotina das refeições dentro de casa.

 

Na época das mangas, era comum um fruto maduro cair bem no centro da mesa improvisada, que nada mais era do que um pedaço de chão coberto por uma toalha.

 

Longe de estragar o piquenique, provocava risos e brincadeiras.

 

Somente uma chuva inesperada interrompia a farra, obrigando todos a recolherem a mesa e levarem o almoço para dentro de casa.

 

O quintal bem cuidado oferecia inúmeras opções de lazer aos moradores.

 

Á noite, tornava-se o lugar ideal para saborear quitutes comidos com as mãos, enquanto histórias eram contadas sob o céu estrelado.

 

As narrativas de assombrações e almas do outro mundo nunca faltavam.

 

Todo quintal parecia guardar um poço de histórias de meter medo.

 

O quintal do vizinho se comunicava com o da minha casa.

 

Nunca tivemos cachorros; já os vizinhos faziam deles vigilantes atentos de seus terrenos.

 

Os quintais terminavam em outra rua, onde um portão permitia a entrada da lenha destinada ao fogão.

 

Com ela muitas vezes chegavam também os temidos escorpiões e as saçuranas, cuja picada provocava intensa dor, febre e íngua.

 

Mesmo com esses riscos, os quintais eram parte essencial das antigas casas cuiabanas.

 

Guardo na memória o prazer de brincar no quintal da minha casa e também no dos vizinhos.  

 

Bastava abrir o portão dos fundos e pedir ao seu Júlio Muller algumas bocaiuvas que ele trazia da Abolição.

 

Tudo passou.

 

Mas há lembranças que continuam florescendo como os quintais da infância.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026




PINTURA NOVA


De tempos em tempos, as casas recebiam uma nova pintura.

 

O cheiro da tinta espalhava-se pelos cômodos, os móveis eram afastados das paredes e a rotina da família mudava por alguns dias.

 

Para as crianças era uma pequena aventura.

 

Ao final, a casa parecia renascer, como se também ganhasse novo ânimo para continuar acolhendo a vida de todos.

 

Pequenas reformas traziam uma alegria difícil de explicar.

 

Quando criança eu gostava de acompanhar minha mãe organizando a pintura da casa.

 

Ela promovia uma verdadeira dança dos cômodos.

 

O que era sala de visitas transformava-se em dormitório.

 

A varanda passava a ser sala de jantar.

 

As paredes internas recebiam novas cores, dando à casa um aspecto completamente diferente.

 

Nunca perguntei à minha mãe por que escolhia tons tão variados nem por que mudava tanto a disposição dos ambientes.

 

Hoje penso que aquela inquietação era apenas sua maneira de fugir da monotonia e renovar o lar.

 

Meu pai jamais interferia nos afazeres da casa.

 

Confiava plenamente no bom gosto e nas decisões de minha mãe.

 

Anos depois, estudando Medicina, aprendi que as cores exercem influência sobre o bem-estar das pessoas, podendo transmitir serenidade ou provocar maior estímulo.

 

Quando dirigi o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, no Coxipó da Ponte, encontrei as enfermarias pintadas com cores fortes e escuras.

 

Disseram-me que assim a sujeira provocada pelos pacientes ficava menos aparente.

 

Determinei que todas fossem repintadas com cores suaves, capazes de proporcionar um ambiente mais tranquilo, acolhedor e digno, sem abrir mão da higiene.

 

Ao regressar do Rio de Janeiro, em 1964, aluguei uma pequena casa cujos cômodos tinham cores diferentes.

 

Anos mais tarde, quando construí minha própria residência, escolhi o bege para todas as dependências.

 

Há mais de trinta anos moro em um apartamento cujas paredes continuam da mesma cor.

 

Também nunca mais fiz mudanças radicais nas disposições dos ambientes.

 

O bege sempre me transmitiu tranquilidade, especialmente nas horas silenciosas em que escrevo minhas crônicas.

 

Talvez por isso as construções modernas tenham adotado cores claras e discretas.

 

No fim das contas, descobrimos que uma casa não se renova apenas com tinta nova.

 

Renova-se, sobretudo, pela paz que suas paredes conseguem guardar.

 

Gabriel Novis Neves

26-06-2026




terça-feira, 30 de junho de 2026

"VENDAS" NOS BAIRROS


Antes dos supermercados, as pequenas vendas faziam parte da rotina dos bairros cuiabanos.

 

Ali se comprava de tudo um pouco, desde mantimentos até notícias da vizinhança.

 

As pessoas aguardavam sua vez conversando, trocando informações e comentando os acontecimentos da cidade.

 

O comerciante conhecia cada cliente pelo nome.

 

Mais do que um local de compras, a venda era ponto de encontro e convivência.

 

Muitas amizades nasceram entre sacos de arroz, latas de óleo e balcões de madeira.

 

Eu tinha menos de sete anos, quando conheci e comecei a frequentar a venda do meu bairro, localizada em frente ao córrego da Prainha.

 

Seu proprietário era seu Tingo.

 

As salas da frente da casa eram ocupadas pelo comércio, enquanto ele morava com os filhos nos fundos.

 

Um deles viria a ser o desembargador Odiles de Freitas.

 

Tudo o que se procurava era encontrado ali, mas a especialidade da casa eram as ervas medicinais.

 

Quando surgiam os problemas de saúde da infância, minha mãe recorria à venda do Tingo.

 

Ele vendia fiado, anotando as compras em um caderno para pagamento no fim do mês.

 

Eu gostava de ouvir suas conversas e observar a chegada das encomendas de produtos medicinais.

 

Havia um canto da venda repleto de raízes, folhas e ervas muito procuradas pelos moradores do bairro.

 

 A rua de Baixo, com sua pracinha, tinha de tudo: o estúdio fotográfico do Cháu, a farmácia do seu Campos, o armazém de secos e molhados do seu Abdala Mansur, a Casa Rosa do seu Chicre Motran, a Casa Mansur, a padaria do seu Latorraca, o consultório do Lúcio, dentista prático e o cartório do seu João, pai de Luís Philippe Pereira Leite.

 

O bairro era preferido por imigrantes europeus e do Oriente Médio, que se misturavam harmoniosamente aos habitantes da terra.

 

Nesse cenário, a venda do Tingo era uma verdadeira referência.

 

Nasci ali e me mudei para a rua do Campo no início de 1945.

 

O armazém do Tingo costumava formar filas de fregueses, não apenas pelos produtos que oferecia, mas pela atenção, pelos conselhos e pela agradável convivência que proporcionava. Alguns lugares vendiam mercadorias.

 

A venda do Tingo vendia também amizade, confiança e um sentimento de pertencimento que o tempo jamais conseguiu apagar.

 

Gabriel Novis Neves

19-06-2026




segunda-feira, 29 de junho de 2026

ÁGUA FRESCA DO FILTRO DE BARRO


Muito antes dos purificadores de água modernos o filtro de barro ocupava lugar de destaque na cozinha.

 

Sua água parecia sempre mais fresca, principalmente nos dias quentes de Cuiabá. Bastava levantar a tampa, encher a caneca e sentir o alívio imediato.

 

O filtro fazia parte da rotina das famílias e tornou-se um símbolo silencioso de um tempo em que a simplicidade também era sinônimo de conforto.

 

Nas famílias numerosas, a água era armazenada em grandes potes de barro cobertos por um prato de alumínio, sobre o qual repousava uma pequena toalha de linho bordada.

 

A caneca de alumínio permanecia por cima, sempre pronta para matar a sede de quem chegasse.

 

Na minha casa, o pote ficava num canto da copa, separada da cozinha, onde reinavam o fogão de lenha e o forno de tijolos.

 

Até hoje sinto o frescor daquela água bebida na velha caneca de alumínio.

 

Meus pais não tinham pressa em adotar as novidades.

 

Geladeira, rádio, ventilador, forro nos cômodos e até banheiro na parte íntima da casa chegaram lentamente.

 

As conquistas tecnológicas eram recebidas no seu devido tempo.

 

Anos mais tarde compreendi que a verdadeira riqueza estava justamente na simplicidade de beber água fresca retirada do pote de barro.

 

No calor de Cuiabá, o filtro acabou cedendo lugar às garrafas dentro da geladeira.

 

Também éramos consumidores do artesanato cuiabano.

 

As redes, estendidas nos dormitórios, embalavam as tardes com o ranger suave de suas cordas.

 

Naquele tempo o comércio fechava para o almoço.

 

A cidade mergulhava no silêncio, interrompido apenas pelo balanço das redes anunciando a hora da sesta.

 

Hoje poucas casas ainda conservam esse costume, e o ranger das redes tornou-se mais um dos sons que desapareceram com o tempo.

 

Alguns dizem que elas foram substituídas pelas cadeiras de balanço.

 

A única coisa que a tecnologia jamais conseguiu resolver foi diminuir o calor de Cuiabá.

 

Quando eu era menino as temperaturas pareciam mais amenas, as chuvas mais frequentes e, nas noites frias dormíamos

 

cobertos por cobertores, sem ventiladores ou quartos refrigerados.

 

Talvez por isso eu ainda acredite que algumas águas jamais deixam de ser frescas: são aquelas que continuam brotando da fonte inesgotável da memória.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




domingo, 28 de junho de 2026

PONTO FACULTATIVO, COSTUME NACIONAL


O ponto facultativo nasceu como uma concessão administrativa, mas, com o tempo, passou a fazer parte da vida brasileira.

 

Muita gente espera por ele como quem aguarda um pequeno prêmio no meio da rotina.

 

Nem sempre é feriado oficial, mas produz efeito semelhante: repartições fechadas, serviços reduzidos, famílias se organizando e a sensação de que o calendário abriu uma fresta para o descanso.

 

O brasileiro costuma transformar hábitos passageiros em costumes permanentes.

 

Assim aconteceu também com o ponto facultativo, que acabou incorporado ao cotidiano de muitas cidades e instituições.

 

Há setores que realmente param.

 

Outros continuam funcionando discretamente, sustentados por profissionais que seguem trabalhando enquanto muitos descansam.

 

Nos hospitais, portarias, aeroportos, delegacias, farmácias e tantos outros serviços essenciais, sempre existe alguém cumprindo seu dever.

 

Quem trabalhou a vida inteira sabe que o país não pode parar completamente.

 

Ao mesmo tempo, o descanso coletivo produz mudanças curiosas na paisagem humana.

 

O trânsito diminui, as ruas ficam mais silenciosas, os prédios públicos permanecem fechados e a cidade parece respirar mais devagar.

 

As famílias aproveitam para viajar, visitar parentes, descansar ou simplesmente permanecer em casa, sem a correria habitual dos dias úteis.

 

Antigamente os pontos facultativos eram aguardados com entusiasmo pelas crianças, que viam nesses dias uma oportunidade rara de prolongar as brincadeiras e aproveitar mais a presença dos pais.

 

Os adultos também pareciam diferentes.

 

Conversavam mais, acordavam mais tarde e deixavam a vida seguir num ritmo menos severo.

 

Os pontos facultativos acabaram criando uma cultura própria, quase uma extensão natural dos feriados.

 

Talvez porque, no fundo, todos precisem de pausas.

 

A vida moderna cansou as pessoas.

 

E qualquer intervalo no meio das obrigações acaba sendo recebido como um pequeno alívio.

 

Gabriel Novis Neves

08-05-2026






sábado, 27 de junho de 2026

OLHANDO AS RUAS


Antes da televisão dominar as atenções, muita diversão acontecia simplesmente observando a rua.

 

Crianças passavam longos períodos sentadas às janelas acompanhando o movimento de pedestres, carroças, bicicletas e vizinhos.

 

Cada pessoa que passava parecia trazer uma novidade.

 

O cotidiano transformava-se em espetáculo.

 

Era uma forma simples de conhecer o mundo e desenvolver a imaginação.

 

Hoje as telas ocupam esse espaço, mas a lembrança continua viva.

 

O progresso foi retirando das casas as janelas voltadas para a rua.

 

Em seu lugar surgiram edifícios de apartamentos e condomínios cercados por altos muros, afastando as pessoas da vida que acontecia do lado de fora.

 

Eu achava bonitas aquelas casas geminadas, sempre com crianças sentadas à janela, observando o movimento da rua.

 

Sem perceber, elas alimentavam a imaginação enquanto aprendiam a conhecer as pessoas e a cidade.

 

Os artistas plásticos da época eternizaram em suas telas esse cenário encantador: crianças à janela contemplando o mundo.

 

Hoje já não se veem crianças nas janelas, e as ruas deixaram de ser aquele grande espetáculo, um verdadeiro parque de diversões.

 

Minha geração brincava livremente nas calçadas e nas ruas, onde raramente passava um automóvel.

 

Muitas amizades, que atravessaram toda a vida, nasceram ali.

 

Na minha rua havia apenas uma mulher que dirigia automóvel.

 

Em toda Cuiabá, recordo-me de apenas mais duas.

 

Por onde passavam despertavam admiração, pois dirigir ainda era considerado uma atividade masculina.

 

As ruas da minha cidade inspiraram escritores, poetas, compositores, fotógrafos e artistas plásticos.

 

Eram cenários vivos, cheios de histórias e personagens.

 

Sentados à janela, as crianças de antigamente, conheciam o mundo pelas conversas de quem passava pelas calçadas.

 

Bastava uma breve parada para uma prosa, e a tarde ganhava um novo encanto.

 

Penso que envelhecer é, em grande parte, aprender a sentir saudade da infância.

 

Se pudesse escolher voltaria a morar numa casa voltada para a rua, sentado à janela, apenas para ver a vida passar.

 

Às vezes, a felicidade mora exatamente nas coisas simples.

 

Gabriel Novis Neves

25-06-2026





sexta-feira, 26 de junho de 2026

O CAMINHÃO DE LEITE


Em muitas manhãs cuiabanas o caminhão de leite anunciava sua chegada pelas ruas ainda silenciosas.

 

As famílias preparavam vasilhas e aguardavam o momento da compra.

 

O movimento fazia parte da rotina diária e marcava o início das atividades da casa.

 

O leite chegava fresco, vindo das propriedades próximas.

 

Pequenos sons do cotidiano desapareceram com o tempo, mas continuam vivos na memória de quem os ouviu durante anos.

 

O leite da minha casa e do bar do meu pai vinham da chácara do seu Mário Esteves, localizada no bairro Grande Terceiro, na região do Porto.

 

Chegava em latões de vinte litros.

 

O funcionário deixava os recipientes na cozinha, onde o leite era fervido no fogão de lenha.

 

Depois, minha mãe retirava parte da nata para o lanche do meu pai e separava o leite destinado ao consumo da família.

 

O restante seguia para a sorveteria do bar.

 

Quando o leite coalhava, era aproveitado na fabricação do sorvete mais saboroso que já experimentei.

 

Ali nada se desperdiçava.

 

O leite era transformado nos mais variados tipos de sorvete, todos feitos de forma artesanal.

 

Até hoje sinto o sabor do sorvete de baunilha, cuja essência era comprada no armazém do seu João Gomes, no Baú.

 

Curiosamente, não me lembro de ver meu pai desfrutando dos produtos da própria sorveteria.

 

Recordo-me dele comprando a matéria-prima, acompanhando a produção e cuidando para que nada faltasse, mas raramente o vi saboreando um sorvete.

 

Até hoje os mais antigos recordam, com saudade, os produtos daquela sorveteria.

 

Ela era muito procurada após as sessões do Cine Teatro Cuiabá, durante os passeios pelo Jardim e também depois da missa na Catedral.

 

Não eram raras as vezes em que o estoque do dia se esgotava completamente.

 

Menino, eu adorava participar da fabricação dos sorvetes e picolés, e mais ainda de sua venda.

 

A criança do interior aprende lições que muitas vezes passam despercebidas aos que crescem nas grandes cidades.

 

Quanta coisa aprendi trabalhando no bar do meu pai.

 

Muito do que conquistei na maturidade devo às experiências simples e valiosas dos meus primeiros anos de vida.

 

Hoje, quando a memória me leva de volta àquele tempo, ainda consigo ouvir o caminhão de leite chegando e sentir o perfume dos sorvetes que adoçaram a minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2024