Antes da televisão dominar as atenções, muita diversão acontecia simplesmente observando a rua.
Crianças passavam longos períodos sentadas às janelas acompanhando o movimento de pedestres, carroças, bicicletas e vizinhos.
Cada pessoa que passava parecia trazer uma novidade.
O cotidiano transformava-se em espetáculo.
Era uma forma simples de conhecer o mundo e desenvolver a imaginação.
Hoje as telas ocupam esse espaço, mas a lembrança continua viva.
O progresso foi retirando das casas as janelas voltadas para a rua.
Em seu lugar surgiram edifícios de apartamentos e condomínios cercados por altos muros, afastando as pessoas da vida que acontecia do lado de fora.
Eu achava bonitas aquelas casas geminadas, sempre com crianças sentadas à janela, observando o movimento da rua.
Sem perceber, elas alimentavam a imaginação enquanto aprendiam a conhecer as pessoas e a cidade.
Os artistas plásticos da época eternizaram em suas telas esse cenário encantador: crianças à janela contemplando o mundo.
Hoje já não se veem crianças nas janelas, e as ruas deixaram de ser aquele grande espetáculo, um verdadeiro parque de diversões.
Minha geração brincava livremente nas calçadas e nas ruas, onde raramente passava um automóvel.
Muitas amizades, que atravessaram toda a vida, nasceram ali.
Na minha rua havia apenas uma mulher que dirigia automóvel.
Em toda Cuiabá, recordo-me de apenas mais duas.
Por onde passavam despertavam admiração, pois dirigir ainda era considerado uma atividade masculina.
As ruas da minha cidade inspiraram escritores, poetas, compositores, fotógrafos e artistas plásticos.
Eram cenários vivos, cheios de histórias e personagens.
Sentados à janela, as crianças de antigamente, conheciam o mundo pelas conversas de quem passava pelas calçadas.
Bastava uma breve parada para uma prosa, e a tarde ganhava um novo encanto.
Penso que envelhecer é, em grande parte, aprender a sentir saudade da infância.
Se pudesse escolher voltaria a morar numa casa voltada para a rua, sentado à janela, apenas para ver a vida passar.
Às vezes, a felicidade mora exatamente nas coisas simples.
Gabriel Novis Neves
25-06-2026