segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O NATAL CHEGA CADA VEZ MAIS CEDO


Iniciamos novembro, mas o comércio já começa a vestir suas vitrines para dezembro.

 

Árvores iluminadas, enfeites coloridos e promessas de felicidade anunciam um Natal que parece chegar antes da hora.

 

Na minha infância, dezembro era esperado com uma ansiedade deliciosa.

 

Havia tempo para desejar, imaginar e sonhar.

 

Hoje, tenho a impressão de que a pressa comercial está roubando o encanto da espera.

 

Naqueles tempos, os dias pareciam mais longos.

 

Cada semana tinha sua importância, e o amanhã chegava trazendo alguma novidade.

 

Para nós, meninos da velha Cuiabá, dezembro significava festas, alegria e três meses de férias escolares.

 

Eram dias de brincadeiras nos quintais, visitas aos vizinhos e encontros com parentes que moravam longe.

 

Lembro-me da felicidade que sentia quando chegava minha tia de Corumbá, acompanhada das duas filhas.

 

Também vinham os primos do Rio de Janeiro, assustados com os animais que circulavam tranquilamente pelas ruas.

 

Tudo era simples, mas havia uma alegria que não precisava ser comprada.

 

O Natal chegava devagar, permitindo que a imaginação preparasse sua chegada.

 

Hoje, as festas parecem atropelar umas às outras.

 

Mal termina uma comemoração, já estamos preocupados com a seguinte.

 

Novembro nem começou e muita gente já encerrou o ano, programando viagens, fazendo compras e antecipando felicitações.

 

Aos 91 anos, acompanho essa correria com a tranquilidade de quem já viveu muitos dezembros.

 

Meus dias seguem seu ritmo, entre cuidados, consultas médicas, lembranças e o carinho da família.

 

Recebo votos de felicidade em abundância, muitos deles enviados antes mesmo de dezembro chegar.

 

Não reclamo da modernidade.

 

Apenas sinto saudade de quando sabíamos esperar.

 

Porque descobri, depois de tantos Natais, que a felicidade não estava somente na festa.

 

Estava também na alegria de esperar por ela.

 

Gabriel Novis Neves

30-10-2026




domingo, 1 de novembro de 2026

ENVELHECER EM UM MUNDO QUE NÃO PARA


Chegar aos 91 anos é ter o privilégio de acompanhar transformações que pareciam impossíveis na juventude.

 

Vi o mundo trocar cartas por mensagens instantâneas e fotografias de papel por imagens que chegam pelo telefone.

 

Aprendi a conviver com essas novidades.

 

Mas minhas necessidades mais profundas continuam simples: o carinho da família, a amizade e a alegria de estar perto de quem amo.

 

Há vinte anos sem Regina, minha companheira, compreendo ainda melhor o valor dessas presenças.

 

Sinto falta dos filhos, netos e bisnetos.

 

Cada um tem seus compromissos, sua casa, suas responsabilidades.

 

Compreendo tudo isso, embora a compreensão não diminua a saudade.

 

Nas festas de fim de ano, essa falta aumenta.

 

Basta ouvir um cântico de Natal para recordar pessoas, encontros e celebrações.

 

Fico mais sensível.

 

Lembro das vozes que conheci tão bem e gostaria de ouvi-las novamente.

 

 Conheço o sofrimento da distância desde os anos de estudante no Rio de Janeiro.

 

Foram onze anos longe dos meus.

 

Voltei casado para Cuiabá, em 1964, disposto a constituir família e trabalha na Medicina.

 

Naquele tempo a cidade ainda não tinha universidade.

 

Mais tarde, minha filha pôde estudar Direito aqui.

 

Meus filhos partiram: um cursou Odontologia em Brasília; o outro, Medicina no Rio.

 

Durante a formação, os estágios muitas vezes os mantinham longe no Natal e no Ano Novo.

 

Depois vieram os casamentos, os compromissos com outras famílias e a necessidade de dividir as datas.

 

Assim acontece em muitas casas.

 

Os filhos crescem, seguem seus caminhos, e os pais aprendem a esperar pelas visitas.

 

Hoje, o mundo continua apressado.

 

Eu caminho devagar e tenho tempo para sentir a ausência da Regina e desejar companhia dos nossos.

 

Quando a família chega, gosto de ouvir as conversas, acompanhar as crianças e prolongar a despedida.

 

Aos 91 anos, ainda peço o mais simples: fiquem mais um pouco.

 

Gabriel Novis Neves

31-10-2026




sábado, 31 de outubro de 2026

O ANO JÁ ESTÁ SE DESPEDINDO

   

Parece que foi ontem que recebemos janeiro de braços abertos, carregados de esperanças e promessas.

 

De repente, outubro se despede, novembro bate à porta e dezembro começa a enfeitar as vitrines.

 

Os anos estão passando com uma pressa que me surpreende!

 

Quando menino, as férias demoravam uma eternidade para chegar.

 

Hoje, mal guardamos os enfeites de Natal e já estamos pensando em retirá-los novamente das caixas.

 

O calendário continua o mesmo.

 

Quem mudou fomos nós.

 

Na juventude, o tempo parecia caminhar de mãos dadas com a nossa impaciência.

 

Recordo meus anos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro.

 

A mesada enviada por meu pai, de Cuiabá, levava uma eternidade de trinta dias para chegar.

 

Contava os dias na folhinha, esperando o primeiro do mês para tomar o bonde até o centro da cidade e retirar o dinheiro no Banco do Brasil.

 

Meu pai jamais se esqueceu daquele compromisso.

 

Guardo com carinho a lembrança da carta que escrevi à minha mãe, pedindo que avisasse a ele que não precisava mais enviar a mesada.

 

Aprovado em dois concursos para acadêmico de Medicina, meus honorários já garantiam minha manutenção.

 

Era hora de ajudar meus irmãos Pedro e Inon, também estudantes no Rio.

 

Naquele tempo, até as férias pareciam intermináveis.

 

Voltava a Cuiabá, matava as saudades da família e, depois de tantos dias, desejava regressar aos estudos.

 

Hoje, novembro chega trazendo os primeiros sinais do Natal.

 

Da janela do meu apartamento, observo o edifício em frente iluminado pelas tradicionais lâmpadas natalinas, que permanecerão acesas até depois do Dia dos Reis.

 

Tudo passa depressa demais.

 

Talvez a vida não esteja correndo mais.

 

Somos nós que, envelhecendo, aprendemos a contar o tempo pelas saudades.

 

Gabriel Novis Neves

01-11-2026





sexta-feira, 30 de outubro de 2026

NOVEMBRO CHEGAVA CHEIO DE FERIADOS


Novembro sempre me pareceu um mês diferente.

 

Mal começava e já trazia feriados que interrompiam a rotina das escolas, das repartições e do comércio.

 

Para o menino, pouco importava a razão escrita no calendário.

 

Feriado significava acordar sem pressa, brincar por mais tempo e encontrar a família reunida.

 

Quando a data caía perto do fim de semana, a alegria aumentava.

 

Era como ganhar alguns dias de presente antes que dezembro chegasse anunciando suas festas.

 

Mas havia um feriado diferente.

 

Logo no segundo dia de novembro chegava o Dia de Finados.

 

Era tempo de visitar os cemitérios, levar flores e deixar que a saudade aproximasse aqueles que já haviam partido.

 

Talvez por isso esse dia sempre tenha feito minhas lembranças caminharem para muito longe.

 

Volto à Cuiabá da minha infância, às ruas estreitas, aos becos, às praças, aos jardins e à sombra generosa dos mangueirais.

 

Vejo meu avô chegando à nossa casa, na rua de Baixo.

 

Colocava-me à sua frente no cavalo e saíamos pela cidade.

 

Às vezes visitava seus clientes; outras, simplesmente passeávamos ou íamos até o rio Cuiabá para dar banho no animal.

 

O menino assistia a tudo encantado, sem imaginar que aquelas cenas ficariam guardadas para sempre.

 

Outras vezes era meu pai que me convidava. Íamos de ônibus até a agência Migueis, no Porto, para saber da chegada das mercadorias destinadas ao bar.

 

Naquele tempo o transporte fluvial ligava Cuiabá ao restante do país.

 

As estradas praticamente não existiam, e nossa cidade vivia distante de tudo. 

 

Durante a seca embarcações maiores nem sempre conseguiam chegar até a capital.

 

Como eu achava bonita a avenida 15 de Novembro, no Porto, com seu canteiro central arborizado e seus antigos casarões!

 

Ali começara uma parte importante da história da cidade, ligada ao rio, ao comércio e aos tempos do ouro.

 

Tudo isso passou.

 

Mas basta novembro chegar para aquelas imagens voltarem.

 

Aos 91 anos descubro que viver muito também é possuir um enorme álbum de lembranças.

 

E algumas delas o tempo não consegue amarelar.

 

Gabriel Novis Neves

02-10-2026




O VESTIDO AZUL NA CORDA


Balançando ao vento ele parecia dançar sozinho.

 

Era o vestido que ninguém mais vestia, mas que ainda guardava o perfume de uma tarde feliz.

 

As coisas não mais usadas devem ser guardadas, como fazia a minha mulher.

 

Seus guarda-roupas e armários ficaram imexíveis por muitos anos após a sua partida prematura para outro plano.

 

Aqueles vestidos e roupas penduradas nos cabides exalavam o perfume e a saudade de quem deveria estar entre nós, e a qualquer momento poderia precisar de uma daquelas roupas, impregnadas de memórias.

 

Com os anos, elas esfarelaram, obrigando-me a esvaziar as roupas dos guarda-roupas.

 

E com que dor realizei esse trabalho.

 

Parecia que parte de mim estava indo para o lixo.

 

Aquela blusa azul que tanto gostava que ela usasse, parceira de tantas lembranças e segredos, terminou no lixo.

 

Doação de roupas em vida eu compreendo e faço.

 

É um desejo comum e me faz bem ajudando ao próximo.

 

Mas quando a ação é única, prefiro que o tempo resolva.

 

Aprendi a entender o tempo e aceitá-lo, como sempre.

 

O vestido balançando ao vento na corda do quintal parecia dançar.

 

Talvez dançasse para mim, como um último aceno da presença que o tempo não conseguiu apagar.

 

Fiquei olhando longamente, como quem tenta conversar com o passado.

 

O vento passava entre os tecidos, levantando a barra leve, e por um instante jurei ver o sorriso dela, vindo da varanda, rindo da minha emoção.

 

Deixei o vestido ali até o fim da tarde.

 

Quando o sol se pôs, a sombra azul se confundiu com o crepúsculo.

 

Recolhi-o com cuidado, dobrando como quem guarda um segredo.

 

E o pendurei novamente, não no varal, mas na memória — o único guarda-roupa que o tempo não consegue esvaziar.

 

Gabriel Novis Neves

12-11-2025




quinta-feira, 29 de outubro de 2026

SILÊNCIO NO ELEVADOR


Entre andares e olhares tímidos, o elevador se transforma em metáfora da convivência moderna. 

 

Um espaço pequeno onde cabem o silêncio, a pressa e, às vezes, um gesto inesperado de humanidade. 

 

Conheci o elevador em 1952, num hotel da avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 2, no Rio de Janeiro.

 

Suas portas eram gradeadas e tinha um ascensorista uniformizado de azul com boné. 

 

Confesso que senti medo na minha primeira viagem até o quarto andar. 

 

Temia que aquelas portas não se abrissem no lugar certo. 

 

Os elevadores eram pequenos e cabiam poucos passageiros. 

 

Guardo ainda na memória o cheiro do pão francês assado no refeitório daquele modesto hotel. 

 

Nunca conversava com ninguém e torcia para que o trajeto fosse o mais rápido possível, sem sobressaltos. 

 

Só mais tarde conheci os grandes elevadores sempre apinhados de gente, um colado ao outro. 

 

Havia um silêncio respeitoso, quebrado apenas por palavras simples. 

 

Certa vez, um deles enguiçou entre andares, despertando o terror dos passageiros. 

 

Felizmente, o pessoal da portaria sabia lidar com esses pequenos incidentes. 

 

Lembro-me também da trágica morte de Anísio Teixeira, grande educador brasileiro, encontrado no fosso do elevador de um prédio na avenida Rui Barbosa, no Rio. 

 

A versão oficial foi de acidente: a porta interna estaria aberta, e ele, distraído, teria caído. 

 

Casos semelhantes eram comentados, aumentando a desconfiança sobre a segurança sesses aparelhos. 

 

Quase sempre, porém, tratava-se de distração ao abrir a porta sem que o elevador estivesse no andar. 

 

O primeiro elevador em prédio residencial de Cuiabá, foi instalado no Edifício Maria Joaquina, de quinze andares. 

 

O elevador do Palácio Alencastro, que hoje abriga a Prefeitura de Cuiabá, também é dessa época, nos anos sessenta. 

 

Hoje, as crianças cuiabanas conhecem o elevador ao deixar a maternidade. 

 

Gabriel Novis Neves 

15-11-2025




terça-feira, 27 de outubro de 2026

O RELÓGIO DO SUPERMERCADO

 

Entre prateleiras e filas apressadas um velho relógio marca as horas de quem não tem tempo.

 

E quantos pequenos dramas e gentilezas acontecem ali, entre o caixa e o carrinho!

 

Os carrinhos abarrotados de alimentos e utensílios parecem carregar, junto com as compras, a pressa de cada um naquela fila interminável — onde não vale furar a ordem, nem mesmo com atestado médico.

 

Todos que aguardam têm compromissos e se guiam pelo relógio do supermercado, que às vezes parece não caminhar.

 

Dramas como o horário de levar as crianças à escola, se repetem diariamente, enquanto a fila insiste em não andar.

 

A gentileza dos caixas, quase sempre pacientes, ampara os aflitos daquelas filas sem fim.

 

Alguns preferem fazer as compras de madrugada, ou longe das datas de pagamento dos servidores públicos, quando o movimento aumenta e o tempo parece apertar ainda mais.

 

E o grande relógio do supermercado segue firme, cumprido sua função de informar a hora exata — lembrança silenciosa de que todos ali têm pressa.

 

O caixa do supermercado parece passar por um teste psicológico diário: trabalhar onde ninguém tem tempo.

 

Precisa demonstrar tranquilidade, oferecer pequenas gentilezas e manter o ritmo, sem deixar escapar o bom humor.

 

Certa vez o relógio parou.

 

Foi um Deus nos acuda.

 

Logo o gerente trouxe outro, restaurando a paz no ambiente.

 

Mas há também os que vão ao supermercado para passear, encontrando amigos que há muito não viam.

 

Encostam-se diante do frigorífico de queijos e, entre uma fatia e outra, colocam a conversa em dia.

 

O estacionamento é outro ponto de prosa, longe dos olhares severos do relógio.

 

Na despedida, trocam números de telefone e seguem felizes para casa.

 

O ser humano tem dificuldade de compreender o tempo — talvez por isso viva tão apressado e intranquilo.

 

Até os silvícolas, hoje, se orientam pelos relógios de pulso.

 

Que poder adquiriu o tempo, com a presença dos relógios!

 

Até os rituais indígenas passaram a ser administrados pelo relógio dos brancos, gerando pressa e estresse.

 

Gabriel Novis Neves

13-11-2025