quinta-feira, 17 de setembro de 2026

ATÉ A SOLEIRA


Tirei os sapatos assim que entrei.

 

Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.

 

Sempre faço isso sem pensar.

 

O chão estava frio.

 

Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.

 

Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.

 

Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.

 

Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.

 

Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.

 

O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.

 

Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.

 

Havia orgulho no chão bem cuidado.

 

Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.

 

Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.

 

Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.

 

Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.

 

Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.

 

Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.

 

Os sapatos aguardavam na porta.

 

Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.

 

São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O COPO VIRADO NA PIA


O copo estava virado de cabeça para baixo na pia.

 

Não lembrava de tê-lo lavado naquela hora.

 

Passei por ele algumas vezes durante a manhã.

 

A pia estava seca, a cozinha em ordem.

 

Mesmo assim, o copo chamava atenção.

 

Coisas simples guardam gestos automáticos que fazemos sem perceber.

 

Depois que envelhecemos, começamos a notar esses pequenos movimentos do dia.

 

No envelhecimento passamos parte do tempo lembrando fatos passados, nem sempre agradáveis.

 

Também revisitamos situações antigas que, na época, passaram despercebidas.

 

Os gestos automáticos que realizamos do acordar, ao sair para o trabalho, só se revelam plenamente com a idade.

 

Somos, durante boa parte da vida, como bichos de reflexos condicionados.

 

Bem mais tarde, começamos a notar e a valorizar esses pequenos gestos — como fazer a barba ao acordar.

 

O velho é um zelador de coisas antigas e defensor do passado.

 

Esquece com facilidade o que aconteceu ontem, mas lembra com exatidão o terno da primeira comunhão.

 

Lembra também do almoço na casa do avô, devoto de Nossa Senhora da Conceição: os presentes, os faltosos, a hora e o local do retrato para o álbum da família.

 

Recorda a volta para casa e os preparativos para procissão.

 

Ela saia da Catedral Metropolitana, na Praça da República, percorria as ruas de Cima, Voluntários da Pátria, Sete de Setembro e de Baixo, retornando à Catedral para a reza com Dom Aquino Correa.

 

Consigo lembrar um fato ocorrido há oitenta e quatro anos com riqueza de detalhes, embora não me lembre dos ingredientes do lanche de ontem à noite.

 

Ao envelhecer, reconheço com mais clareza a generosidade do meu pai, sempre me elogiando nas cerimônias de que participava.

 

Só me senti plenamente querido na velhice, embora o amor nunca tenha estado ausente no meu lar.

 

Hoje, noto os mínimos detalhes da minha casa, inclusive o que abastece a geladeira.

 

Quando entro na copa, sei exatamente o que está fora do lugar.

 

Talvez seja isso o envelhecer: perder a pressa do mundo e ganhar intimidade com as pequenas coisas — até com um copo virado na pia, que passa a contar, em silêncio, a história de quem o deixou ali.

 

Gabriel Novis Neves

07-02-2026




FALTAVA AÇÚCAR, MAS NÃO AFETO


Às vezes, no meio do preparo do café ou de alguma sobremesa, alguém descobria que o açúcar havia acabado.

 

Não existiam supermercados abertos a qualquer hora, e o menino recebia uma pequena missão: correr até a venda mais próxima.

 

Levava algumas moedas apertadas na mão e voltava depressa com o embrulho.

 

Eram pequenas tarefas domésticas que faziam as crianças se sentirem importantes e participantes da vida da família.

 

Outras vezes recorria-se ao vizinho de maior intimidade.

 

Um pouco de açúcar, café, sal ou qualquer outra coisa era emprestado sem cerimônia e devolvido depois.

 

Até hoje, no prédio onde moro, esse costume da minha infância permanece vivo.

 

Quando falta alguma coisa, principalmente na cozinha, procura-se um vizinho.

 

E não eram apenas alimentos.

 

Numa emergência, emprestavam-se roupas objetos e até remédios.

 

Na antiga Cuiabá, essas pequenas gentilezas faziam parte da vida entre vizinhos.

 

Talvez por isso as crianças também aprendessem cedo a ajudar.

 

Eu cuidava dos meus irmãos menores e só deixei de fazê-lo quando viajei para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

 

Ajudava no preparo das mamadeiras, esquentava a água para o banho na bacia, escolhia a roupa e os fazia dormir, balançando a rede para que não chorassem.

 

Quando parti, levei comigo a saudade e a agradável sensação de que fazia falta naquela casa.

 

A vizinhança comentava que meus irmãos menores sentiriam minha ausência.

 

Minha mãe, certamente, sentiria ainda mais.

 

Morei onze anos no Rio, com poucas e rápidas visitas a Cuiabá.

 

Quando retornei à minha cidade para exercer a Medicina, já estava casado e fui morar em outra casa.

 

Mas aquele aprendizado nunca me abandonou. Hoje percebo que buscar um pouco de açúcar na venda, embalar um irmão na rede ou ajudar minha mãe eram pequenas tarefas apenas na aparência.

 

Foi assim, nas coisas mais simples, que aprendi a alegria de ser útil a quem amamos.

 

Gabriel Novis Neves

08-09-2026




terça-feira, 15 de setembro de 2026

SILÊNCIO NA CASA VAZIA


A casa parece maior agora.

 

Os cômodos ecoam um pouco mais.

 

Não é tristeza — é apenas mudança.

 

As vozes diminuíram, os passos também.

 

O silêncio deixou de ser incômodo e passou a ser companhia.

 

Os casarões cuiabanos da minha infância eram enormes, muitos deles assobradados.

 

As famílias também eram numerosas — e haja cômodos para abrigar tanta gente.

 

Na família do meu pai eram quinze filhos.

 

Cresceram, casaram-se, foram morar longe, e os casarões se esvaziaram.

 

A casa parece maior agora.

 

O jeito foi dividi-la ou transformá-la em ponto comercial.

 

Muitos desapareceram da anatomia da cidade.

 

Os que resistiram tornaram-se ruinas silenciosas ou estacionamentos de veículos.

 

Quem quiser conhecer os velhos casarões talvez precise recorrer à inteligência artificial.

 

A memória já não anda pelas calçadas como antes.

 

Morei por um período no sobrado do casarão do meu avô Alberto Novis na rua Voluntários da Pátria.

 

Lembro-me da rotina daquela casa, onde as vozes eram altas — por causa da surdez do meu avô — e a vida corria em ritmo próprio.

 

Não esqueci nada.

 

Meu irmão Inon foi para lá beber leite de cabra ordenhada com alegria pelo avô.

 

Havia um poço no quintal, de onde se tirava água para a cozinha e para a limpeza.

 

Na estrebaria morava o cavalo, também cuidado por ele.

 

O leite era medicinal.

 

O cavalo, instrumento de trabalho.

 

Naquele tempo, para ser médico, era preciso saber montar.

 

A cidade cresceu em outras direções.

 

O Centro Histórico silenciou em suas fachadas feridas.

 

A antiga região ficou desabitada, entregue à própria memória.

 

Nasci ali.

 

Minha formação cultural e intelectual devo a esse pedaço de chão de terra batida.

 

Hoje a pressa aumentou — mas o silêncio da casa grande ainda me chama pelo nome.

 

Gabriel Novis Neves

28-02-2026




domingo, 13 de setembro de 2026

GARRAFAS DE VIDRO


Antes das embalagens descartáveis, as garrafas de vidro eram cuidadosamente lavadas e reaproveitadas.

 

Havia um verdadeiro capricho em deixá-las limpas, brilhando à luz da cozinha, prontas para receber água fresca, leite ainda morno, sucos ou outros líquidos.

 

Era um costume que ensinava economia sem discursos, mostrando que os objetos podiam ter longa vida quando tratados com atenção e respeito.

 

Quem pertence à minha geração certamente guarda alguma história envolvendo as antigas garrafinhas de leite deixadas, ainda de madrugada, à porta dos apartamentos, com o frio da manhã ainda preso no vidro.

 

Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, esse era um dos assuntos mais comentados nas pensões estudantis.

 

Os veteranos ensinavam, em tom de brincadeira, que o calouro só estaria realmente adaptado à cidade grande depois de beber o leite dessas garrafinhas e aprender a saltar do bonde da Light ainda em movimento, sentido o vento no rosto e o coração acelerado.

 

Era uma travessia típica da juventude, contada com orgulho e muito bom humor.

 

Para nós, representava uma curiosa combinação de economia estudantil: garantia uma boa dose de proteína e ainda poupava o dinheiro da passagem do bonde.

 

Em casa, porém, a relação com as garrafas de vidro era bem diferente.

 

Minha mãe tinha um cuidado especial com sua lavagem, esfregando cada uma com paciência, como se polisse pequenas joias.

 

Nada era desperdiçado.

 

Depois de limpas, voltavam a servir para guardar água filtrada, leite ou qualquer outro líquido.

 

Nossa geladeira vivia repleta delas, alinhadas como sentinelas silenciosas.

 

Não foram poucas as vezes em que, ao abrir a porta, uma ou duas escorregavam e se espatifavam no chão da copa, o estalo seco do vidro quebrando o silêncio da casa e provocando um susto seguido de correria.

 

Hoje quase tudo é descartável.

 

As garrafas de vidro perderam espaço para embalagens plásticas de vida curta.

 

Ao escrever sobre essas pequenas lembranças, percebo que também reencontro parte da minha juventude, com seus cheiros, sons e pequenas aventuras.

 

O idoso vive cercado de histórias, e conta-las é uma maneira de manter o passado vivo e de aproximar as pessoas.

 

As garrafas desapareceram das cozinhas, mas continuam intactas na memória de quem aprendeu que cuidar das coisas era também uma forma de cuidar da vida.

 

Gabriel Novis Neves

12-07-2026




sábado, 12 de setembro de 2026

SOMBRAS DAS ÁRVORES


Nas tardes quentes do interior, nenhuma invenção era mais valiosa do que a sombra generosa de uma grande árvore.

 

O menino descobria ali um refúgio para descansar, conversar ou simplesmente observar o movimento da natureza.

 

Enquanto o vento balançava os galhos, o tempo parecia caminhar devagar.

 

Era um abrigo simples, capaz de transformar o calor intenso em momentos de paz e imaginação.

 

Nos bancos de concreto das praças, aposentados liam discretamente jornais já amarelados pelo tempo.

 

Outros, silenciosos e pensativos, apenas contemplavam o balançar dos galhos, como quem deixava a vida seguir sem pressa.  

 

As crianças brincavam despreocupadas, aproveitando a sombra acolhedora das árvores.

 

A natureza protegia a todos.

 

O calor das tardes cuiabanas continua intenso, talvez até mais do que antigamente.

 

As árvores que ofereciam sombra e amenizavam a temperatura foram sendo derrubadas, sem que houvesse uma política permanente de replantio.

 

Em muitos de seus lugares surgiram edifícios de concreto, ampliando a sensação de calor.

 

Transformaram Cuiabá, de uma cidade quente, mas repleta de sombras generosas nas ruas e praças, em uma verdadeira cidade de brasa.

 

As grandes árvores que embelezavam a cidade desapareceram aos poucos.

 

O antigo centro histórico, antes intensamente arborizado, com palmeiras imperiais e frondosos mangueirais, perdeu grande parte de sua vegetação.

 

Muitos moradores mudaram-se para bairros mais distantes.

 

Casas foram abandonadas e, em diversos casos, deram lugar a estacionamentos.

 

Ruas tradicionais, como a rua de Cima, exibem hoje uma sucessão de imóveis fechados, transmitindo a sensação do fim de um importante ciclo da cidade.

 

A sombra das árvores, que durante tantos anos refrescou as tardes cuiabanas e inspirou poetas, permanece apenas na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.  

 

Quem viveu esse tempo sabe que uma cidade não é feita apenas de concreto, mas também da sombra generosa de suas árvores, onde a vida encontrava repouso, beleza e esperança. 


Gabriel Novis Neves

21-07-2026




sexta-feira, 11 de setembro de 2026

PASSANDO O CAFÉ


Naquele tempo fazer café era quase um pequeno ritual dentro de casa.

 

O menino observava a água esquentando, o pó colocado no coador e aquele cheiro gostoso tomando conta da cozinha.

 

Um dia permitiram que preparasse o café sozinho.

 

Ficou preocupado com a quantidade de pó, o açúcar e, principalmente, com a opinião dos adultos.

 

Sem perceber aprendia uma lição que levaria para a vida inteira: as grandes responsabilidades quase sempre começam com coisas pequenas.

 

Na minha infância, criança não ficava apenas olhando os adultos trabalharem.

 

Trabalhei no consultório do meu avô, médico, viúvo e surdo.

 

No bar do meu pai, fui servente e ajudei na sorveteria.

 

Na igreja do bairro fui sacristão.

 

Também vendia frutas colhidas no quintal de nossa casa, na rua do Meio, e, durante as férias de dezembro, inventava rifas na porta de casa.

 

Eram pequenos trabalhos, sem qualquer importância aparente, mas todos me ensinavam alguma coisa.

 

Aprendi cedo que ninguém nasce sabendo.

 

Os pais são nossos primeiros professores, quase sempre sem quadro-negro, caderno ou sala de aula.

 

Ensinavam pelo exemplo e pelas pequenas tarefas do cotidiano.

 

Até fazer um cafezinho podia ser uma aula.

 

Era preciso acertar a quantidade de águe e de pó, esperar o momento certo e, depois, enfrentar o julgamento de quem bebia.

 

Talvez tenha começado ali meu aprendizado de conviver com a opinião dos outros.

 

Até hoje escrevo conversando comigo mesmo. Mas, quando publico uma crônica, fico curioso para saber o que os leitores acharam.

 

Também a compartilho com o editor do blog e ouço suas observações.

 

Continuo, portanto, aprendendo a aceitar a opinião alheia.

 

Aos noventa e um anos, descubro que certas lições nunca terminam.

 

E pensar que uma delas começou diante de um coador, quando um menino de Cuiabá tentou fazer sozinho sua primeira xícara de café.

 

Gabriel Novis Neves

05-09-2026