Uma das aulas mais marcantes do curso de Medicina foi aquela em que tivemos o primeiro contato clínico com pacientes.
Até então, nossos estudos estavam concentrados em livros, desenhos anatômicos e explicações teóricas.
Quando entramos na enfermaria, tudo ganhou outra dimensão.
O corpo humano deixava de ser apenas um capítulo de livro e passava a ser uma realidade viva diante de nós.
Aquela aula abriu uma nova etapa no aprendizado médico.
O professor Cruz Lima ministrava as aulas teóricas da disciplina Semiologia na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.
As atividades práticas ficavam sob a responsabilidade de seus assistentes.
A turma era dividida em grupos, e seguíamos para as amplas enfermarias da Santa Casa, onde aprendíamos a examinar o paciente.
Iniciávamos pela anamnese — a história clínica do doente em seu leito.
Identificação, queixa principal e o registro cuidadoso dos sintomas.
Cada aluno deveria portar um termómetro, aparelho de pressão e estetoscópio.
A partir da queixa principal e de um breve relato da história clínica, iniciávamos o exame físico.
Com uma anamnese bem feita e um exame detalhado, já era possível chega a uma hipótese diagnóstica.
Na década de cinquenta, as enfermarias da Santa Casa estavam frequentemente lotadas de pacientes com esquistossomose.
Isso se devia à intensa migração de nordestinos para o Rio de Janeiro em busca de trabalho.
Muitos permaneciam internados por longos períodos e, de tanto ouvirem as explicações dos professores, acabavam também nos ensinando sobre a própria doença.
Nas provas práticas, não raro, eram eles que nos orientavam nos ensinavam sobre como escrever uma boa anamnese, estabelecer o diagnóstico clínico e indicar o tratamento.
Em Cuiabá, durante sessenta anos de exercício profissional, não atendi um único caso de esquistossomose.
Mas foi ali que aprendi a escrever uma boa anamnese.
Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.
O paciente, que mesmo na doença se dispõe a ensinar, nos mostra que a Medicina começa, antes de tudo, no respeito e na humanidade.
E foi ali que entendi: o verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito.
Gabriel Novis Neves
17-03-2025