segunda-feira, 2 de março de 2026

REMÉDIOS NA HORA CERTA


A cuidadora organiza os remédios do dia com atenção.

 

Cada comprimido tem seu horário e sua função.

 

Não reclamo.

 

É o preço da continuidade.

 

Cuidar do corpo virou tarefa diária, quase um ritual de respeito à vida.

 

Sempre fui saudável.

 

Comecei a tomar remédios depois dos cinquenta anos.

 

Ao longo do tempo, fui fazendo pequenos ajustes na medicação.

 

Tudo começou para controlar uma pressão arterial levemente elevada.

 

Quantos mais anos acumulei, maior se tornou o número de comprimidos.

 

Hoje memorizo os horários, mas a administração ficou sob responsabilidade da cuidadora de plantão.

 

No café da manhã são onze comprimidos. 

 

Assim prossigo no almoço, no lanche, antes do jantar — geralmente um prato de sopa de legumes com carne moída de boi ou frango batida no liquidificador—e, por fim, ao deitar.

 

Respeito a vida cuidando do meu corpo, tomando os remédios receitados pelos especialistas.

 

Enquanto isso, meu bisneto de quatro anos realizou uma endoscopia digestiva alta — exame esse que fiz apenas depois dos setenta.

 

Recentemente ofereci-me como voluntário para servir de ‘cobaia’ em uma bateria de testes conduzidos por uma psicóloga, interessada em avaliar minha saúde mental.

 

Ela concluiu uma pós-graduação na área, adquiriu o material necessário e precisava de alguém para validar seus conhecimentos.

 

Avisou-me que o processo será demorado; talvez sejam necessárias três manhãs de avaliações.

 

Depois saberei mais sobre o funcionamento global do meu cérebro.

 

Farei uma avaliação neuropsicológica.

 

Muitas pessoas convivem com cansaço mental, dificuldade de foco ou sobrecarga emocional sem compreender exatamente o que acontece.

 

A avaliação ajuda a entender isso de forma técnica e estruturada.

 

Quanto ao meu cérebro, descobri ter disautonomia, em duas avaliações por ultrassonografia cerebral, realizadas

 

em anos diferentes, nos dois hospitais mais conhecidos de São Paulo.

 

Em Cuiabá ainda não dispomos desse aparelho nem de neurologista habilitado para esse exame.

 

Fiz fisioterapia específica, importei medicamentos e os utilizei por anos, em doses máximas.

 

É uma doença sem cura, mas que não mata.

 

Provoca sintomas neurológicos ligados ao equilíbrio, dificultando minha locomoção.

 

A psicóloga que iniciou o estudo do meu cérebro já conhece esse distúrbio.

 

Espero que, ao menos, consigamos diminuir os sintomas.

 

Porque envelhecer também é isso: aprender a tomar o remédio na hora certa — e continuar confiando na vida.

 

Gabriel Novis Neves

01-03-2026




domingo, 1 de março de 2026

PENSAMENTO COMPLEXO


Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.

 

Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

 

Hoje carrego mais perguntas do que respostas.

 

Não considero isso fraqueza.

 

É maturidade.

 

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.

 

Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

 

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

 

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

 

No início, perder certezas me causou abatimento. 

 

Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

 

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.

 

Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

 

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

 

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

 

Desde a Idade Média buscamos certezas.

 

A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

 

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

 

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

 

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.

 

Crescem descobrindo que elas raramente existem.

 

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.

 

E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

 

Gabriel Novis Neves

24-02-2026




sábado, 28 de fevereiro de 2026

PÉ SEM PAR


Encontrei um sapato sozinho no armário.

 

O outro não estava ali.

 

Procurei sem pressa, em outros cantos.

 

Nada.

 

Deixei o solitário onde estava.

 

Há coisas que se perdem sem drama.

 

O sapato fora do par me lembrou que nem tudo precisa estar completo o tempo todo para continuar existindo.

 

Tenho o hábito do perfeccionismo.

 

Considero isso uma doença que me faz sofrer e empreender esforços desnecessários.

 

Desde criança sou assim; essa mania se exacerbou na adolescência.

 

Morando em pensão, no Rio de Janeiro, convivendo com outros colegas, essa característica ficou evidente para mim.

 

Aos domingos, quando todos saíam, eu ficava estudando.

 

Nem por isso tinha as melhores notas na universidade.

 

Cheguei a criar um complexo de inferioridade em relação à minha inteligência.

 

A imaturidade emocional é criadora de verdadeiros monstros.

 

Faz-nos acreditar que tudo precisa estar completo o tempo todo.

 

Mas a vida anda — e aprendemos que há perdas que não fazem barulho.

 

Que nem tudo precisa estar inteiro para continuar fazendo sentido.

 

Hoje, desde que acordei, já consultei várias vezes o meu saldo bancário.

 

Sei que é uma atitude neurótica-obsessiva, talvez merecedora de tratamento.

 

Quantas vezes me surpreendo sonhando com coisas que inevitavelmente se perderão.

 

Os velhos têm essa mania de procurar.

 

Pode ser o par do sapato escondido no fundo do armário.

 

Ou a meia desgarrada que nunca mais aparece.

 

A vida nos ensina que a perfeição não é condição para viver bem.

 

Ela se dilui, sem traumas, com o tempo.

 

O tempo é um mestre paciente.

 

Muito aprendemos com ele.

 

Entender a vida é aceitar que tudo é passageiro — inclusive nós.

 

E, ainda assim, continuamos existindo.

 

Mesmo incompletos.

 

Talvez o sapato sem par não seja sinal de perda, mas de lembrança.

 

Lembrança de que já caminhamos acompanhados.

 

E de que, embora falte o outro, o passo pode continuar.

 

Assim é a vida.

 

E o sapato solitário, guardado no armário, ensina com humildade aquilo que só o tempo nos faz compreender.

 

Gabriel Novis Neves

11-02-2026




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

TEMORES URBANOS


Descobri que certos medos já não me visitam.

 

Preocupações que antes tiravam meu sono, hoje parecem menores.

 

Não é coragem excessiva.

 

É perspectiva.

 

O tempo ensina a medir o tamanho real das ameaças.

 

Todas as crianças da minha geração tinham medos.

 

Ouvíamos de babás e adultos histórias de terror que povoavam a imaginação.

 

A infância amplia os temores que os anos, pacientemente, acabam dissolvendo.

 

Hoje a educação é outra, e a cidade grande substituiu aqueles medos imaginários por perigos concretos.

 

A mula-sem-cabeça da minha infância foi trocada pelo assaltante a mão armada —ameaça que nenhum aprendizado do tempo consegue diminuir.

 

Meu genro, na calçada de um edifício em São Paulo, aguardava o Uber quando atendeu ao celular.

 

Um motorista que passava rente ao meio-fio estendeu o braço pela janela, arrancou o aparelho e fugiu acelerando.

 

Em segundos, ganhou o dia.

 

Meu filho, no Guarujá, saiu do hotel apenas para comprar um tubo de pasta de dente.

 

Atravessou a rua e foi assaltado a mão armada. Perdeu o celular para preservar a própria vida.

 

Os medos de hoje são diferentes dos de ontem.

 

Ouvi histórias de lobisomem quando menino; hoje, às vezes, temo simplesmente sair de casa.

 

Morei onze anos no Rio de Janeiro e mantive, por cinquenta anos um apartamento no Leme, vendido no ano passado de porteira fechada.

 

Usei bondes, ônibus, lotações e trens da Central do Brasil.

 

Nunca pensei em assaltos — e jamais fui assaltado.

 

O Rio, cercado por morros transformados em favelas, tornou-se uma cidade que exige coragem para morar ou visitar.

 

Ali, o medo não diminuiu com o passar dos anos.

 

Talvez seja essa a maior mudança do tempo: os monstros deixaram de ser imaginários.

 

Gabriel Novis Neves

23-02-2026




SILÊNCIOS VAZIOS


A porta velha se anuncia antes de abrir, como se pedisse licença para entrar no presente.

 

Da varanda da minha casa, minha mãe sabia que alguém estava chegando pelo barulho da fechadura da porta da rua.

 

Não precisava olhar, nem perguntar.

 

Cada volta da chave tinha dono, tinha pressa ou calma, tinha história.

 

Antigamente os objetos tinham um prazo de validade bastante elástico, como se nunca acabassem.

 

A indústria trabalhava com esse objetivo, bem diferente dos dias atuais, em que tudo já nasce com data marcada para virar lixo.

 

Hoje são raras as casas com fechaduras de chaves, que foram substituídas por senhas silenciosas, digitais ou cartões.

 

Abrem sem ruído, sem aviso, sem memória.

 

É o presente tentando apagar as antiguidades que, no fundo, ainda foram ontem.

 

Revendo meus papéis esquecidos nas gavetas do escritório, encontrei anotações sobre uma série de objetos, agora em desuso: máquina de escrever, vitrola, rádio de válvula, ferro a carvão, telefone de disco.

 

E, entre eles, a velha fechadura da porta da frente.

 

Cada item desses carregava som, peso e presença.

 

A fechadura tinha personalidade.

 

Rangia no frio, reclamava da pressa, denunciava visitas inesperadas.

 

Minha mãe distinguia o passo do carteiro, o atraso do meu pai, a chegada de uma visita querida.

 

Tudo começava naquele barulho metálico que ecoava pela casa.

 

Era impossível entrar despercebido.

 

A casa participava da chegada.

 

Hoje, mal percebemos quando alguém entra ou sai.

 

As portas se abrem em silêncio, como se pedissem desculpas por existir.

 

As casas modernas perderam o direito de escutar quem chega.

 

Ganharam segurança, conforto, rapidez — mas, perderam cumplicidade.

 

Sinto falta do aviso da fechadura antiga, daquele barulho que preparava o coração antes do encontro.

 

Ele dava tempo para ajeitar o corpo, o sorriso e a alma.

 

Talvez por isso o silêncio das portas de hoje pareça tão vazio!

 

O barulho da fechadura antiga não abria apenas a porta da rua.

 

Abriu, durante anos, a porta da memória — e essa, felizmente, ainda resiste ao tempo.

 

Gabriel Novis Neves

27-11-2025




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ESPERAR CANSA


Esperei pela campainha a manhã inteira.

 

O porteiro avisou que alguém subiria.

 

Preparei-me para o som conhecido, aquele toque curto e decidido.

 

Mas o tempo passou em silêncio.

 

Sentei, levantei, caminhei pela casa.

 

Nada.

 

Quando a campainha finalmente tocou, já não era mais urgente.

 

Aprendi que a espera muda o peso das coisas.

 

Assim era na abertura das aulas, quando cursava o primário na escola da praça Ipiranga.

 

Chegava cedo e, quando o bedel tocava a campainha anunciando o início das aulas, percebia que poderia ter chegado mais tarde.

 

Já havia esperado um bom tempo.

 

Poderia ter ficado mais alguns minutos na cama.

 

Passei então a chegar mais tarde, apenas para logo ser chamado.

 

A garotada pobre do interior do Brasil costumava formar filas na porta do restaurante universitário antes mesmo da abertura.

 

A urgência de ser atendido primeiro tinha um motivo simples: garantir as melhores bandejas e mesas.

 

Assim evitavam as longas filas e o desconforto de sentar-se com desconhecidos.

 

Também nos encontros amorosos, cheios de expectativa, quando a pessoa atrasava, a urgência perdia o sentido.

 

A espera muda o peso das coisas.

 

Quantas histórias poderia contar da minha vida profissional, de médico, especializado na espera de novas vidas!

 

O trabalho de parto é uma urgência.

 

A evolução de um parto normal pode durar dez horas.

 

Quando a criança nasce, o atendimento médico deixa de ser urgente.

 

E a vida segue seu caminho.

 

Parar para pensar sobre a vida faz bem.

 

Descobrimos muitas coisas que, nas urgências, nos passam despercebidas.

 

Aprendemos também a enfrenta-la como ela é, com mais naturalidade.

 

No almoço semanal da família, quando alguém se atrasa por motivo fútil, passo mal.

 

Levanto-me da mesa antes de todos, privado da gostosura dos abraços da despedida.

 

Gabriel Novis Neves

07-02-2026




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

FOTOGRAFIAS ANTIGAS


Abri o celular e encontrei uma foto antiga.

 

Por um instante pensei em apagá-la.

 

Não pela imagem, mas pelo que ela trazia de volta.

 

Fiquei olhando alguns segundos antes de decidir.

 

Guardar ou excluir?

 

Há lembranças que ocupam espaço, mas também sustentam quem somos.

 

No meu celular há inúmeras fotos que preciso apagar, pelo peso que representam no aparelho.

 

É sempre uma escolha difícil.

 

Gosto de guardar todas as lembranças que fizeram parte da minha vida — as boas e as nem tanto.

 

Com a facilidade da câmera no celular, acumulei centenas delas.

 

Costumo abrir uma pasta no notebook para arquivá-las e, assim, aliviar a memória do telefone.

 

É uma espécie de mudança silenciosa: transfiro imagens como quem transfere móveis de uma casa antiga para outra menor.

 

Antes do celular, acumulei inúmeros álbuns impressos.

 

A foto mais antiga deve ser de quando eu tinha quatro anos.

 

O tempo a deteriorou, mas as tecnologias modernas, em estúdios apropriados e com técnicos competentes, conseguiram restaurá-la com dignidade.

 

A fotografia sustenta quem somos.

 

Os antigos, diante dos retratos da família, usavam a palavra ‘traços’ para falar de lembrança e semelhança.

 

Quando criança ouvi muitas vezes de pessoas que não conheceram meus pais, que eu tinha os traços dele ou dela.

 

Hoje tenho um bisneto muito parecido comigo.

 

Não tenho coragem de descartar uma única foto sua.

 

Entre todos os álbuns, guardo com carinho especial as imagens da lua de mel, em Friburgo, no hotel Sans Souci.

 

Ali o tempo parecia caminhar devagar.

 

Agora ele corre — e só para frente —deixando saudades pelo caminho.

 

Na minha família de nove irmãos, conservo fotos de épocas diferentes, todos reunidos, exalando felicidade.

 

Do grupo com meus pais, quatro já partiram impossibilitando nova fotografia.

 

Talvez por isso eu hesite diante do botão ‘apagar’.

 

Algumas fotos não ocupam memória ocupam eternidade.

 

Gabriel Novis Neves

18-02-2026






🎼  NÓS GUARDAMOS ESSE AMOR EM UMA FOTOGRAFIA/