Mesmo depois da chegada da televisão e dos modernos meios de comunicação, os programas noturnos de rádio permanecem insubstituíveis e, até hoje, conservam uma fiel audiência.
São companhia para quem está desperto — trabalhando ou não — trazendo notícias, músicas e saudades.
Nos jogos de futebol o radinho de pilha colado ao ouvido, descreve ao torcedor cada detalhe: desde a conversa dos jogadores antes de entrarem em campo até os lances mais emocionantes das partidas.
O árbitro, por sua vez, comunica-se com seus auxiliares e com o VAR por meio de um pequeno microfone de rádio preso à lapela.
Porteiros de edifícios, caminhoneiros, plantonistas de serviços essenciais —todos têm no rádio da madrugada seu fiel companheiro.
Também os que sofrem de insônia encontram nele notícias, músicas e memórias que a madrugada desperta, levando-nos a pensar distante.
Tudo é diferente no rádio da madrugada: a voz serena do locutor, as músicas escolhidas, os recados cheios de saudade enviados a quem está longe.
Quando trabalhava em plantões noturnos nos hospitais da cidade, tinha sempre um radinho de pilha no bolso do jaleco.
Era meu companheiro, até mesmo no centro cirúrgico.
O rádio da madrugada começava ao entardecer e se estendia até às oito da manhã, quando a programação do dia assumia o comando.
O jornal matinal era preparado pelos radialistas que atravessavam a noite acordados.
Muitos jornalistas aprenderam a profissão nesse ofício silencioso e mágico.
Gostava de trabalhar na madrugada, onde tudo parecia mais calmo e acolhedor, desde os tempos de estudante no Rio de Janeiro.
Escrever relatórios de partos ao som do rádio noturno era tarefa que me enchia de paz — e ainda hoje desperta em mim um sentimento de doce nostalgia.
Quando morei no Porto, na rua Major Gama, era convidado a participar do programa da madrugada da Rádio Cultura, bem próxima de minha casa.
Ia e voltava a pé.
O assunto das entrevistas era sempre a criação de novos cursos e as obras da Universidade Federal de Mato Grosso.
Já se passaram cinquenta e cinco anos.
Quanta saudade!
Gabriel Novis Neves
03-10-2025