Há objetos que sobrevivem ao tempo como se guardassem alma própria.
Entre eles, conservo uma velha xícara de porcelana branca, trincada num dos lados — herança da minha mãe.
A rachadura é quase invisível, fina como um fio de cabelo, e parece uma cicatriz desenhada com cuidado pelo tempo.
Já pensei em substituí-la por outra, mas sempre desisto.
Ela continua firme, mesmo depois de tantos anos e mãos que a tocaram.
Foi nessa xícara que minha mãe servia o café coado no pano, fumegante, perfumando a casa nas tardes preguiçosas.
O som do café caindo, o tilintar da colher mexendo o açúcar e o aroma espalhando-se pela copa — tudo isso volta à minha memória cada vez que a uso.
Quantas conversas nasceram ao redor dela!
Era o centro das pausas e o convite para desacelerar a vida.
Hoje, quando tomo café nela, sinto que o tempo recua.
O gosto é o mesmo — forte, doce e cheio de lembranças.
A trinca, longe de ser defeito, é lembrança viva do que resiste.
Muitos jogam fora o que quebra.
Eu, não.
Guardo o que carrega história, mesmo imperfeito.
Há objetos — como pessoas — que só revelam sua beleza depois das rachaduras.
Na prateleira da minha cozinha, ela reina entre outras novas e reluzentes.
Nenhuma, porém, tem a mesma história, o mesmo perfume, o mesmo afeto.
Aquela xícara trincada sobreviveu a mimos, quedas e mudanças de casa.
Talvez resista até depois de mim.
Para alguns, ela é apenas uma lembrança antiga; para mim, é símbolo de permanência.
Prova silenciosa de que o amor verdadeiro não se quebra — apenas se marca com o tempo.
Gabriel Novis Neves
08-11-2025






