Naquele tempo fazer café era quase um pequeno ritual dentro de casa.
O menino observava a água esquentando, o pó colocado no coador e aquele cheiro gostoso tomando conta da cozinha.
Um dia permitiram que preparasse o café sozinho.
Ficou preocupado com a quantidade de pó, o açúcar e, principalmente, com a opinião dos adultos.
Sem perceber aprendia uma lição que levaria para a vida inteira: as grandes responsabilidades quase sempre começam com coisas pequenas.
Na minha infância, criança não ficava apenas olhando os adultos trabalharem.
Trabalhei no consultório do meu avô, médico, viúvo e surdo.
No bar do meu pai, fui servente e ajudei na sorveteria.
Na igreja do bairro fui sacristão.
Também vendia frutas colhidas no quintal de nossa casa, na rua do Meio, e, durante as férias de dezembro, inventava rifas na porta de casa.
Eram pequenos trabalhos, sem qualquer importância aparente, mas todos me ensinavam alguma coisa.
Aprendi cedo que ninguém nasce sabendo.
Os pais são nossos primeiros professores, quase sempre sem quadro-negro, caderno ou sala de aula.
Ensinavam pelo exemplo e pelas pequenas tarefas do cotidiano.
Até fazer um cafezinho podia ser uma aula.
Era preciso acertar a quantidade de águe e de pó, esperar o momento certo e, depois, enfrentar o julgamento de quem bebia.
Talvez tenha começado ali meu aprendizado de conviver com a opinião dos outros.
Até hoje escrevo conversando comigo mesmo. Mas, quando publico uma crônica, fico curioso para saber o que os leitores acharam.
Também a compartilho com o editor do blog e ouço suas observações.
Continuo, portanto, aprendendo a aceitar a opinião alheia.
Aos noventa e um anos, descubro que certas lições nunca terminam.
E pensar que uma delas começou diante de um coador, quando um menino de Cuiabá tentou fazer sozinho sua primeira xícara de café.
Gabriel Novis Neves
05-09-2026