A primeira aula de Anatomia causa impacto em qualquer estudante de Medicina.
Ao entrar no laboratório percebemos que a teoria finalmente se aproxima da realidade.
O respeito pelo corpo humano torna-se imediato e profundo.
Lembro do silêncio concentrado dos alunos e da atenção dedicada às explicações do professor.
Aquela aula não era apenas um aprendizado técnico; era também uma iniciação à responsabilidade da profissão.
Ali começávamos a compreender que a Medicina lida diretamente com o mistério da vida.
Álvaro Fróes da Fonseca era o professor catedrático de Anatomia, em 1955, na Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha.
Foi ele quem ministrou a aula inaugural para a minha turma — todos jovens de cabeça raspada e usando uma boina azul, símbolo de aprovação no vestibular.
O trote dos alunos veteranos consistia justamente em raspar a cabeça dos calouros com máquina de barbeiro número zero.
O professor Fróes era também antropólogo e mantinha estreita ligação com o Museu Nacional.
No meu tempo de estudante de Medicina os professores catedráticos — especialmente os dos primeiros anos — raramente estavam presentes nas aulas teóricas e práticas.
Viajavam constantemente para palestras, participavam de bancas examinadoras em universidades públicas e frequentavam congressos no exterior.
O professor Fróes coordenava pesquisas antropológicas no Museu Nacional, a convite do professor Roquete-Pinto.
Estudava a constituição anatômica e fisiológica da população brasileira, buscando estabelecer classificações raciais que interessavam à ciência da época.
Ficou inesquecida sua aula inaugural, quando comparou o tamanho do pênis em diferentes continentes.
Os calouros e calouras sorriram, provocando um discreto burburinho no auditório, o que o obrigou a tocar a pequena campainha sobre a mesa para restabelecer o silêncio.
Com a sala novamente sob controle, o professor — bem-humorado, como costumam ser os mais experientes — sorriu e disse aos alunos que não se preocupassem.
— Eles estavam no continente africano, bem distante da sala de aula.
A sala explodiu em gargalhadas e a aula foi encerrada.
Alguns colegas, curiosos sobre suas pesquisas antropológicas, aproximaram-se do professor para saber mais sobre o trabalho desenvolvido no Museu Nacional.
Anos depois convidei o professor José Carlos Prates, da Escola Paulista de Medicina para ministrar a aula inaugural de Anatomia da Universidade Federal de Mato Grosso.
O primeiro cadáver para estudo veio de São Paulo, em 1980.
Ali, mais uma vez, começava para outros jovens o mesmo encontro solene com o corpo humano — e com o início da Medicina.
Gabriel Novis Neves
11-03-2026
A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
(De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp) pintura a óleo sobre tela de REMBRANDT, em 1632.