sexta-feira, 27 de março de 2026

PRIMEIRA AULA CLÍNICA


Uma das aulas mais marcantes do curso de Medicina foi aquela em que tivemos o primeiro contato clínico com pacientes.

 

Até então, nossos estudos estavam concentrados em livros, desenhos anatômicos e explicações teóricas.

 

Quando entramos na enfermaria, tudo ganhou outra dimensão.

 

O corpo humano deixava de ser apenas um capítulo de livro e passava a ser uma realidade viva diante de nós.

 

Aquela aula abriu uma nova etapa no aprendizado médico.

 

O professor Cruz Lima ministrava as aulas teóricas da disciplina Semiologia na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

As atividades práticas ficavam sob a responsabilidade de seus assistentes.

 

A turma era dividida em grupos, e seguíamos para as amplas enfermarias da Santa Casa, onde aprendíamos a examinar o paciente.

 

Iniciávamos pela anamnese — a história clínica do doente em seu leito.

 

Identificação, queixa principal e o registro cuidadoso dos sintomas.

 

Cada aluno deveria portar um termómetro, aparelho de pressão e estetoscópio.

 

A partir da queixa principal e de um breve relato da história clínica, iniciávamos o exame físico.

 

Com uma anamnese bem feita e um exame detalhado, já era possível chega a uma hipótese diagnóstica.

 

Na década de cinquenta, as enfermarias da Santa Casa estavam frequentemente lotadas de pacientes com esquistossomose.

 

Isso se devia à intensa migração de nordestinos para o Rio de Janeiro em busca de trabalho.

 

Muitos permaneciam internados por longos períodos e, de tanto ouvirem as explicações dos professores, acabavam também nos ensinando sobre a própria doença.

 

Nas provas práticas, não raro, eram eles que nos orientavam nos ensinavam sobre como escrever uma boa anamnese, estabelecer o diagnóstico clínico e indicar o tratamento.

 

Em Cuiabá, durante sessenta anos de exercício profissional, não atendi um único caso de esquistossomose.

 

Mas foi ali que aprendi a escrever uma boa anamnese.

 

Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.

 

O paciente, que mesmo na doença se dispõe a ensinar, nos mostra que a Medicina começa, antes de tudo, no respeito e na humanidade.

 

E foi ali que entendi: o verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2025




quinta-feira, 26 de março de 2026

CHEIRO DE HOSPITAL


O primeiro contato prolongado com um hospital marca qualquer estudante de Medicina.

 

Ainda jovem, vindo de Cuiabá, estranhei aquele cheiro característico que parecia impregnar todos os corredores.

 

Era uma mistura de éter, desinfetante e ansiedade humana.

 

Caminhava atento, observando médicos apressados, enfermeiras vigilantes e pacientes à espera de notícias.

 

Aos poucos, compreendi que aquele ambiente faria parte constante da minha vida profissional.

 

O hospital não era apenas um prédio repleto de salas e enfermarias — era o lugar onde a fragilidade e a esperança conviviam lado a lado.

 

Na primeira semana de aula, ainda com a cabeça raspada — trote oficial da Medicina da Praia Vermelha — o presidente do Centro Acadêmico pediu licença ao professor que ministrava a aula teórica de Histologia para fazer um convite aos calouros.

 

— Hoje, às 19 horas, no auditório do Hospital e Pronto Socorro Miguel Couto, o professor Nova Monteiro iniciará um curso de Traumatologia.

 

Perguntei aos colegas se aquilo era trote.

 

Disseram que não, que era melhor comparecer.

 

Foi a primeira vez que entrei em um Hospital no Rio de Janeiro.

 

Meu primo, já aluno do quinto ano, viu-me no auditório e se aproximou:

 

— Estou de plantão.

 

Quando terminar a aula, venha comigo.

 

Vou fazer uma apendicectomia e quero que você assista.

 

Pela primeira vez senti o cheiro de um Centro Cirúrgico.

 

Uma enfermeira ajudou-me a vestir o uniforme: a calça, o jaleco, as sapatilhas, o gorro e a máscara, recomendando cuidado para não esbarrar na equipe cirúrgica.

 

O ambiente me envolveu de forma inesperada.

 

Comecei a passar mal.

 

O pior é que, naquele instante, eu não confiava plenamente na perícia do meu primo como cirurgião.

 

Quando ele fez a incisão e o sangue apareceu, tive uma lipotimia.

 

Fui retirado do centro cirúrgico, cabeça baixa, água e silêncio.

 

Minha estreia no hospital não poderia ter sido pior.

 

E, no entanto, foi ali que comecei a me tornar médico.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2026




quarta-feira, 25 de março de 2026

DIÁLOGOS DOS CORREDORES E ARREDORES


Nem todas as lições da faculdade de Medicina aconteciam dentro da sala de aula.

 

Muitas vezes aprendíamos mais nas conversas rápidas dos corredores do que em longas exposições teóricas.

 

Ali trocávamos dúvidas, comentávamos casos clínicos e, até compartilhávamos preocupações pessoais.

 

Aqueles encontros improvisados, entre uma aula e outra, ajudavam a criar um espírito de companheirismo entre os estudantes.

 

Percebi cedo que a Medicina também se constrói na troca de experiências.

 

Quantas lições aprendi no bonde que nos levava à faculdade, nas refeições do restaurante universitário e no ambiente simples da pensão!

 

O companheirismo se formava entre os colegas do interior, que usavam o bonde, os suburbanos que vinham de ônibus e voltavam no mesmo dia, e até entre os cariocas, que, mais reservados, nem sempre se misturavam para estudar.

 

Nos plantões, porém, estávamos todos juntos, trocando ideias e aprendendo uns com os outros.

 

Aprendi muito fora das salas de aula, especialmente com colegas mais adiantados, que se tornavam excelentes professores nos centros cirúrgicos e nas enfermarias.

 

Quando cheguei ao sexto ano, também passei a ajudar os mais jovens.

 

O receio do estudante diante de uma assistência domiciliar, sobretudo em áreas mais difíceis, era grande e, em parte, alimentado pelas histórias dos veteranos.

 

Lembro-me de um episódio marcante, no quinto ano, quando a sirene do hospital me chamou para atender uma emergência no Supremo Tribunal Federal.

 

O chamado era para o gabinete do presidente.

 

Encontrei-o deitado em um sofá, ainda de toga.

 

De olhos fechados, percebeu a minha presença.

 

Ali, recebi uma verdadeira aula sobre a síndrome de Ménière.

 

Ao final, orientou com precisão a medicação: glicose hipertônica, vinte mililitros na veia, prontamente preparada e aplicada pelo enfermeiro da ambulância.

 

Foi uma lição inesperada, daquelas que não se esquecem.

 

A Medicina, afinal, se aprende em todos os lugares — e nem sempre com quem imaginamos.

 

Porque, às vezes, a melhor aula acontece no corredor... ou fora dele.

 

Gabriel Novis Neves

22-03-2026




terça-feira, 24 de março de 2026

OS LIVROS MAIS PESADOS


Entre os muitos objetos que acompanharam meus anos de faculdade no Rio, nenhum era tão marcante quanto os grandes livros de Medicina.

 

Eram volumes enormes, pesados, muitas vezes importados, que carregávamos de um lado para outro como verdadeiros tesouros.

 

Lembro-me de abrir aquelas páginas repletas de ilustrações anatômicas e textos densos, tentando decifrar os segredos do corpo humano.

 

Cada capítulo exigia paciência, disciplina e uma certa reverência.

 

Mais do que livros, eram companheiros silenciosos de uma juventude entregue ao estudo.

 

O livro de Anatomia, além de pesado, vinha em dois volumes enormes e era escrito em castelhano.

 

De tanto manuseá-lo suas páginas ficavam ensebadas, marcadas pelo uso constante.

 

Guardei todos os livros que utilizei na faculdade; hoje repousam na biblioteca da minha casa como testemunhas de um tempo que não volta.

 

Tenho um filho e uma neta médicos, de outras gerações.

 

Estudaram pela internet, imprimindo apenas o que lhes interessava.

 

Parece que essa nova forma de relação com o conhecimento científico tem dado certo.

 

Baixam os livras indicados em PDF, nos seus computadores ou celulares.

 

Selecionam os capítulos, imprimem o necessário, estudam com foco e objetividade.

 

Assim se preparam para provas e concursos, com êxito.

 

Minha neta, ginecologista e obstetra, carrega no celular volumes inteiros da sua especialidade.

 

Na sala de espera, suas pacientes também chegam informadas, muitas vezes munidas de aplicativos e dúvidas bem formuladas.

 

E o que dizer das consultas à distância?

 

Eu mesmo já me consultei por vídeo, com médicos em São Paulo e nos Estados Unidos.

 

Fico a pensar: como estará a Semiologia nos dias atuais?

 

O exame físico terá perdido espaço diante das telas?

 

Não tenho dúvidas de que os médicos de hoje dispõem de mais conhecimento científico que os de antigamente.

 

As especialidades e subespecialidades fragmentaram o saber de tal forma que já não existem mais, como antes, o clínico ou o cirurgião geral que acompanhavam toda uma família.

 

Esse médico eu conheci apenas na infância.

 

Naquele tempo, havia menos de dez faculdades de Medicina no Brasil.

 

Hoje, são centenas.

 

Em Mato Grosso, multiplicam-se pelas cidades.

 

E, ainda assim, faltam médicos.

 

No fim das contas, talvez o livro mais pesado não fosse o de Anatomia.

 

Era o peso da responsabilidade que começava a ser aprendido em cada página virada.

 

Gabriel Novis Neves

18-03-2026




segunda-feira, 23 de março de 2026

LIVROS EMPRESTADOS


Entre estudantes de Medicina era comum emprestar livros uns aos outros.

 

Nem todos tinham condições de comprar todos os volumes necessários.

 

Muitas vezes um colega avisava que havia conseguido um livro importante, e logo vários se organizavam para consultá-lo.

 

Eu mesmo recorri a muitos livros emprestados durante os anos de faculdade. 

 

Aquela troca silenciosa de materiais mostrava como o espírito de cooperação ajudava a enfrentar as dificuldades do curso.

 

Na entrada lateral do prédio da Faculdade de Medicina, em frente ao restaurante universitário, havia um enorme salão.

 

O porteiro vestia terno e gravata e ostentava uma cabeleira branca, sempre bem tratada.

 

Quem não o conhecia imaginava tratar-se do próprio diretor da faculdade.

 

À esquerda do salão funcionava uma banca de engraxates e, logo adiante, um armário envidraçado onde Luís, o livreiro, expunha livros de Medicina que vendia aos estudantes.

 

Naquela época, Luís confiava plenamente nos alunos e facilitava o pagamento em várias prestações, sem juros nem correção monetária.

 

Tudo era combinado de palavra, sem recibo ou qualquer documento escrito.

 

O grande salão também servia como ponto de convivência.

 

Antes do início das aulas, os estudantes se espalhavam pelos bancos de concreto conversando e trocando impressões sobre as disciplinas.

 

Vez por outra, um professor se aproximava e participava da conversa.

 

Luís, o livreiro, era tão querido pelos estudantes que acabou se tornando merecedor de homenagens.

 

Quando algum pagamento atrasava, ele compreendia.

 

Sabia que muitos de nossos pais, lá no interior do Brasil, enfrentavam dificuldades financeiras e apenas aguardava com paciência.

 

O espírito de solidariedade entre os alunos também era marcante.

 

Recordo que um colega amazonense comprou de um bedel do laboratório de Anatomia um saco de ossos humanos e um cérebro conservado no formol, para estudar Anatomia Descritiva e Neuroanatomia.

 

Ele escondia o material no armário do quarto da pensão, longe dos olhos da dona da casa.

 

À noite reunia um pequeno grupo de colegas e, com a porta trancada, estudávamos aquelas peças anatômicas com grande interesse.

 

Essa solidariedade entre estudantes nos acompanhou durante os seis anos do curso.

 

Depois da colação de grau a turma se dispersou pelo vasto território brasileiro.

 

Mas algumas lembranças permanecem vivas — como aqueles livros emprestados que ajudaram a formar médicos e amizades.

 

Gabriel Novis Neves

16-03-2026




domingo, 22 de março de 2026

VÉSPERAS DAS PROVAS


Na véspera das provas da faculdade de Medicina o silêncio parecia ganhar outro peso.

 

Não era um silêncio comum, mas aquele carregado de expectativa, ansiedade e responsabilidade.

 

Cada estudante se recolhia ao seu quarto como quem entra em um pequeno mundo próprio, cercado de livros abertos, cadernos marcados e pensamentos inquietos.

 

Era o momento em que tudo o que havíamos aprendido precisava se organizar dentro de nós.

 

Eu passava horas relendo páginas, tentando fixar conceitos e alinhar ideias.

 

Às vezes, o cansaço ameaçava vencer, mas a consciência do compromisso falava mais alto.

 

Sabíamos que aquelas provas não eram apenas avaliações — eram etapas decisivas na construção do futuro médico que sonhávamos ser.

 

Na pensão, os veteranos aconselhavam: era preciso varar noites estudando para evitar a temida segunda época.

 

Pior ainda seria a reprovação, que poderia levar ao jubilamento.

 

Entre conselhos e exageros, ensinavam até a recorrer a medicamentos vendidos na farmácia da esquina para afastar o sono.

 

Muitos colegas se deixaram levar por esse caminho.

 

Eu também experimentei essa dependência passageira, da qual só consegui me libertar ao final do curso —uma pequena vitória silenciosa, entre tantas batalhas pessoais.

 

A rotina era exigente.

 

Aulas pela manhã e à tarde, e, com o avanço do curso, os plantões noturnos se somavam à jornada.

 

Restava pouco tempo para estudar.

 

Nem domingos ou feriados eram suficientes.

 

A solução era reduzir o sono, reunir-se em grupos nas antigas repúblicas estudantis e seguir adiante.

 

Uma garrafa térmica de café preto sem açúcar, tornava-se companheira inseparável.

 

No meu grupo, nem namorada havia — era um pacto silencioso de dedicação integral.

 

Sabíamos que estávamos construindo algo maior do que o presente.

 

No meu caso a responsabilidade tinha ainda outro peso.

 

Como primogênito de uma família numerosa, precisava avançar rápido, abrir caminho para os que vinham depois.

 

Esse pensamento me acompanhava em cada noite mal dormida.

 

Tornei-me médico no tempo previsto.

 

Naquele momento, dois de meus irmãos já estudavam no Rio, pois Cuiabá ainda não possuía Universidade Federal.

 

Tudo havia valido a pena.

 

Gabriel Novis Neves

19-03-2026




sábado, 21 de março de 2026

O PRIMEIRO ESTETOSCÓPIO


Entre todos os instrumentos da Medicina, o estetoscópio sempre me pareceu um símbolo especial da profissão.

 

Recordo com nitidez o dia em que tive o meu primeiro.

 

Era simples, mas, para mim, representava algo grandioso.

 

Segurá-lo nas mãos era como receber um pequeno sinal de que o caminho escolhido começava a se tornar real.

 

Naquele instante compreendi que a Medicina deixava de ser apenas teoria dos livros e passava a se aproximar da prática.

 

Entrava na enfermaria da Santa Casa com ele pendurado no pescoço, auscultando pulmões, coração e abdome.

 

Com o tempo, aprendi a reconhecer estertores nas bases pulmonares, sopros cardíacos e o ritmo do peristaltismo intestinal.

 

Ia ao hospital nos momentos de menor movimento — domingos pela manhã, por exemplo.

 

Levava um pequeno presente ao paciente, geralmente um pacote de biscoitos e permanecia ali por horas, repetindo com paciência: inspire profundamente, prenda a respiração, e expire.

 

Medicina se aprende assim: na prática, pela repetição.

 

O estetoscópio foi inventado por um médico francês no século dezenove, evitando o constrangimento do médico ter que colocar o ouvido diretamente no corpo do paciente.

 

Na minha infância muitos médicos ainda utilizavam uma pequena toalha branca de linho para esse fim — fina, discreta, sempre presente em suas maletas.

 

Comprei meu primeiro estetoscópio, um BIC, no segundo ano do curso.

 

Tivemos excelentes professores e assistentes, que nos orientavam à beira do leito dos internados.

 

O catedrático de cardiologia, Edgard Magalhães Gomes, ainda usava sua toalhinha.

 

E os pacientes — então chamados de indigentes — colaboravam com generosidade.

 

Raramente recusavam um estudante; ofereciam seus corpos ao aprendizado, com uma dignidade silenciosa.

 

Hoje, poucos médicos dependem do estetoscópio.

 

Em seu lugar, há laptops, exames laboratoriais e imagens.

 

A Medicina, muitas vezes, se exerce à distância.

 

Mas aprende-se Medicina junto ao enfermo: ouvindo, tocando, examinando.

 

A tecnologia aperfeiçoa — a presença do médico, porém, continua insubstituível.

 

Gabriel Novis Neves

20-03-2026