quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O DOMINGO DAS URNAS


No próximo domingo, dia 25, o Brasil voltará às urnas para escolher os seus governantes.

 

Será mais um daqueles dias em que a esperança e a incerteza caminham de mãos dadas.

 

Aos 91 anos, já acompanhei muitas eleições.

 

Vi governos chegarem e partirem, promessas desaparecerem com o vento e sonhos que, contrariando as previsões, conseguiram florescer.

 

O tempo me ensinou que as eleições passam, mas as consequências das escolhas permanecem.

 

Nasci durante a era Vargas e guardo lembranças da sua queda, em outubro de 1945, quando o Brasil se preparava para reencontrar a democracia.

 

Eu era um menino de dez anos, ainda de calças curtas, descobrindo que o destino de um país também se decidia pelo voto.  

 

Na eleição presidencial daquele dezembro, três candidatos disputavam a preferência dos brasileiros: dois militares e um engenheiro civil.

 

O primeiro era o cuiabano Eurico Gaspar Dutra, general do Exército; o segundo, o brigadeiro Eduardo Gomes, da Aeronáutica; e o terceiro o gaúcho Yedo Fiuza, engenheiro civil.

 

Dutra havia construído uma brilhante carreira militar, chegando ao Ministério da Guerra durante o governo Vargas.

 

Nascido em Cuiabá, no bairro Grande Terceiro, foi batizado na capela de Nossa Senhora do Rosário, no Coxipó do Ouro.

 

Casou-se com Carmela Dutra, carioca e católica fervorosa, cuja influência religiosa contribuiu para a decisão presidencial de proibir os jogos de azar e fechar os cassinos brasileiros.

 

Carmela faleceu em 1947.

 

Dutra morreria em 1974, no Rio de Janeiro.

 

Na campanha eleitoral, não faltavam provocações.

 

Enquanto os adversários destacavam a elegância e a condição de solteiro do brigadeiro Eduardo Comes, os adversários de Dutra procuravam conquistar a simpatia dos trabalhadores.

 

Foi nessa disputa que surgiu um episódio curioso.

 

Hugo Borghi, ligado à campanha de Dutra, espalhou a versão de que o brigadeiro não precisava dos votos dos chamados marmiteiros, trabalhadores que levavam suas refeições para as fábricas.

 

A história ganhou as ruas e se transformou em poderosa arma eleitoral.

 

Dutra acabou derrotado em Cuiabá, sua terra natal, mas venceu em Mato Grosso e conquistou a Presidência da República.

 

No ano seguinte, Nereu Ramos seria eleito vice-presidente.

 

A democracia brasileira ensaiava seus primeiros passos depois dos longos anos do Estado Novo.

 

Mas, de todas aquelas lembranças, uma permanece especialmente viva.

 

Assisti a um comício do brigadeiro Eduardo Gomes em Cuiabá.

 

Elegante, de terno e gravata, ele discursava de um dos grandes janelões do casarão do seu Batinga, na Rua do Campo, em frente ao Clube Feminino.

 

Eu observava tudo com a curiosidade de um menino que ainda não compreendia inteiramente a política, mas percebia que alguma coisa importante estava acontecendo.  

 

Meu pai, o seu Bugre, votou em Dutra.

 

No Bar do Bugre, entretanto, evitava declarar sua preferência.

 

Afinal, entre um cafezinho, uma conversa e outra, era preciso preservar a freguesia.

 

Embora, no fundo, todos soubessem em quem ele votaria.

 

Hoje, tantos anos depois, quando se aproxima outro domingo de eleições, volto àquela Cuiabá da minha infância.

 

Mudaram os candidatos, as campanhas e até a maneira de votar.

 

Mas uma coisa permanece.

 

As urnas envelheceram comigo.

 

A esperança, não.

 

Gabriel Novis Neves

19-10-2025




POTE DE BARRO


Abandonado num canto o pote rachado ainda guardava o frescor da água e o mistério de quem o usou pela última vez.

 

Na Cuiabá antiga, todas as casas tinham um pote de barro com água filtrada, colocado sobre uma mesinha de madeira.

 

Por cima, uma bandeja de alumínio e uma toalha branca bordada o protegiam do pó.

 

Ao lado, o inseparável caneco de alumínio.

 

O correto era tirar a água do pote e colocá-la num copo de vidro para beber.

 

Na minha casa ainda não havia geladeira, mas a água guardada naquele recipiente de barro, era deliciosamente fresca.

 

Até hoje sinto o gosto daquela água.

 

Escrevo vendo o pote na copa da minha infância, com a meninada enfileirada, bebendo água retirada com aquele caneco de alumínio.

 

Quando viajei para estudar Medicina no Rio de Janeiro, todas as casas cuiabanas ainda tinham potes.

 

No meu regresso, onze anos depois, comprei um filtro de cerâmica e uma geladeira.

 

Naquele tempo, com o calorão da cidade, era comum recomendar: ‘tome água do pote ou do filtro’, deixando a geladeira para os produtos perecíveis.

 

Tudo isso hoje é história.

 

Ninguém consegue mais viver nesta cidade sem aparelhos de refrigeração — até nos banheiros.

 

E a água boa, agora, tem que ser estupidamente gelada.

 

Não consigo dormir se a o ar-condicionado do quarto não estiver regulado em dezenove graus!

 

Meus netos e bisnetos não conheceram o pote.

 

Gostaria de saber que fim levou o da minha casa.

 

Será que a minha mãe o deu para alguma de suas amigas — a Maria Chica, lavadeira, a dona Vitória, cozinheira, ou a Maria Grandona, faxineira?

 

Depois de tantos anos, ainda existirá algum pote sendo usado nas famílias mais simples?

 

Minhas funcionárias que moram em bairros populares, dizem que não conhecem o pote nem ninguém que ainda o use.

 

O pote de barro da minha infância embelezava o cenário das casas cuiabanas

 

E guardava, além da água fresca, a pureza de um tempo que já se foi.

 

Gabriel Novis Neves

10-11-2025




segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O RELÓGIO NA ESTANTE


Há relógios que não marcam apenas as horas — contam histórias.

 

O da minha estante é um deles.

 

Já não funciona, mas continua lá, como se ainda tivesse o poder de medir o tempo das lembranças.

 

Foi herança de família, desses que passam de geração em geração, acompanhando as mudanças de casa e de vida.

 

Seu tique-taque era a trilha sonora das noites tranquilas da minha infância.

 

Hoje, o silêncio dele é outro tipo de música — uma melodia feita de memória.

 

O ponteiro parou há muitos anos, num horário que ninguém se lembra ao certo.

 

Mas eu gosto de pensar que ele parou de propósito, para guardar aquele instante em que o tempo parecia mais amigo.

 

O relógio da estante não se importa com a pressa do mundo.

 

Permanece ali, sereno, olhando a sala, as visitas, os dias que passam devagar.

 

De vez em quando, limpo-lhe o vidro com cuidado, como quem acaricia um rosto antigo.

 

Ainda vejo o reflexo de minha mãe passando pela sala, ajeitando flores no vaso.

 

Era ela quem dava corda no relógio todas as manhãs, com um gesto quase ritual.

 

Parecia conversar com ele, pedindo que o dia fosse generoso com todos nós.

 

Hoje, ninguém mais lhe dá corda, mas ele continua cumprindo sua função — a de lembrar.

 

Na casa, é o guardião do tempo vivido.

 

Não mede segundos nem minutos: mede afetos.

 

Enquanto o relógio repousa imóvel na estante, sinto que é o tempo quem se movimenta ao redor dele.

 

E cada vez que olho para aquele mostrador parado, percebo que há relógios que continuam batendo — não no mecanismo, mas dentro da gente.

 

Gabriel Novis Neves

07-11- 2025




A XÍCARA TRINCADA


Há objetos que sobrevivem ao tempo como se guardassem alma própria.

 

Entre eles, conservo uma velha xícara de porcelana branca, trincada num dos lados — herança da minha mãe.

 

A rachadura é quase invisível, fina como um fio de cabelo, e parece uma cicatriz desenhada com cuidado pelo tempo.

 

Já pensei em substituí-la por outra, mas sempre desisto.

 

Ela continua firme, mesmo depois de tantos anos e mãos que a tocaram.

 

Foi nessa xícara que minha mãe servia o café coado no pano, fumegante, perfumando a casa nas tardes preguiçosas.

 

O som do café caindo, o tilintar da colher mexendo o açúcar e o aroma espalhando-se pela copa — tudo isso volta à minha memória cada vez que a uso.

 

Quantas conversas nasceram ao redor dela!

 

Era o centro das pausas e o convite para desacelerar a vida.

 

Hoje, quando tomo café nela, sinto que o tempo recua.

 

O gosto é o mesmo — forte, doce e cheio de lembranças.

 

A trinca, longe de ser defeito, é lembrança viva do que resiste.

 

Muitos jogam fora o que quebra.

 

Eu, não.

 

Guardo o que carrega história, mesmo imperfeito.

 

Há objetos — como pessoas — que só revelam sua beleza depois das rachaduras.

 

Na prateleira da minha cozinha, ela reina entre outras novas e reluzentes.

 

Nenhuma, porém, tem a mesma história, o mesmo perfume, o mesmo afeto.

 

Aquela xícara trincada sobreviveu a mimos, quedas e mudanças de casa.

 

Talvez resista até depois de mim.

 

Para alguns, ela é apenas uma lembrança antiga; para mim, é símbolo de permanência.

 

Prova silenciosa de que o amor verdadeiro não se quebra — apenas se marca com o tempo.

 

Gabriel Novis Neves

08-11-2025




sábado, 17 de outubro de 2026

O PÁSSARO QUE SE OLHAVA NA JANELA


O reflexo de um pássaro no vidro revela o mistério da solidão e o voo silencioso da alma.

 

Todas as manhãs, um pequeno pássaro batia no vidro da janela.

 

Talvez visse ali um rival — ou talvez a solidão da própria imagem refletida.

 

Um dia, o vidro quebrou, e o passarinho sumiu.

 

Mesmo depois do conserto, ele nunca mais apareceu.

 

Gostaria de saber por anda esse passarinho.

 

Talvez tenha encontrado outro vidro, na janela de algum prédio mais alto que o meu.

 

Ou, assustado, tenha desaparecido das redondezas e nunca mais voltou a bater no vidro do meu quarto.

 

Estranha ausência — eu que já estava acostumado com aquela batida ritmada nas manhãs.

 

Será que ele nunca mais se olhou no reflexo de nenhuma janela?

 

Ou será que a sua imagem refletida já não é a mesma de antes — nem rival, nem solidão?

 

Acho que o vidro quebrado lhe fez bem. Talvez agora continue pousando em janelas mais altas, cujos vidros já não lhe devolvem o espelho da tristeza.

 

Quem sabe tenha encontrado uma nova companheira, e nela a felicidade que lhe faltava — exorcizando a antiga solidão refletida em si mesmo.

 

Assim mesmo, espero que o passarinho volte a passear na minha janela e veja refletida no vidro uma nova criatura — ele próprio, transformado.

 

Pode ser que, com a mudança do horário de visita, os raios de sol tenham alterado o reflexo, confundindo-lhe a imagem e os sentimentos

 

Quando as pessoas vão à praia, deitam-se na areia, próximas às ondas, e voltam com a pele bronzeada — sinal de vida e de saúde.

 

Em dias sem sol, retornam frustradas sentindo o vazio de uma manhã perdida.

 

Não sei se o passarinho da minha janela refletia no vidro a sua felicidade ou a sua tristeza.

 

Por que não voltou mesmo depois da troca do vidro?

 

Ou teria vindo às escondidas e não mais reconheceu a própria imagem, agora transformada em espelho?

 

Mistérios que só descobrimos vivendo — mesmo que não sejamos um simples passarinho.

 

Gabriel Novis Neves

06-11-2025




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O BARBEIRO CEGO


Há quem veja com os olhos, e há quem enxergue com o coração.

 

Na velha barbearia da rua do Meio, um homem sem visão cortava cabelos — e tocava almas.

 

Cortava cabelos de olhos fechados, mas parecia enxergar as almas.

 

Suas mãos sabiam onde o pente devia passar — como se guiassem memórias, e não fios de cabelo.

 

Deus sabe o que faz.

 

Tira um sentido e aperfeiçoa outros.

 

Nunca cortei cabelos ou fiz a barba com barbeiros cegos.

 

Os antigos dizem que chegaram a cortar cabelos com profissionais sem visão.

 

Eram caprichosos ao extremo e muito inteligentes, direcionando as conversas com humor e sabedoria.

 

Sua freguesia era composta quase que só de vizinhos de rua.

 

Os fregueses diziam que aquele homem via com as mãos.

 

Sabia quem estava triste ou feliz apenas pelo toque leve do pente sobre a cabeça.

 

Sentia quando o cliente vinha preocupado, e logo puxava assunto para aliviar o coração.

 

Falava de futebol, das notícias do dia, das namoradas e da política local.

 

Era o confessor de todos, e a barbearia uma espécie de templo da amizade.

 

A cadeira de couro, já gasta pelo tempo, guardava histórias que ele jamais revelava.

 

O espelho, limpo e brilhante, refletia a vaidade dos outros —mas não a dele.

 

Cego, parecia enxergar mais longe que todos nós.

 

Enxergava com o coração.

 

Quando a tesoura silenciava, o freguês levantava-se leve, como se tivesse deixado ali não apenas os cabelos cortados, mas também os pensamentos pesados.

 

E antes de ir embora, pagava e dizia: ‘Até a próxima, mestre’.

 

Ele sorria, virando o rosto em direção à voz.

 

Sabia exatamente quem era.

 

Dizem que um dia, já velho, deixou de cortar cabelos, mas continuou frequentando a barbearia apenas para conversar.

 

E até hoje, quem passa por ali jura ouvir o som da tesoura no ar — lembrança viva de um barbeiro cego que via melhor do que todos nós.

 

Gabriel Novis Neves

06-11-2025




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O SAPATEIRO DA ESQUINA


Entre o cheiro de cola e de couro, o sapateiro era um artista silencioso.

 

A crônica homenageia esses mestres do ofício que consertavam não só sapatos, mas também histórias gastas pelo tempo.

 

Na Cuiabá antiga os sapatos eram de couro e duravam muitos anos.

 

Quando eu era guri, todos os meus sapatos tinham meia-sola e se aposentavam apenas quando o pé crescia — ou quando o couro, finalmente se rasgava.

 

Tínhamos inúmeros e bons sapateiros, e era difícil encontrar uma quadra sem pelo menos um deles.

 

Suas oficinas ficavam quase sempre na própria casa, ocupando uma salinha de frente para a rua.

 

Ali reinavam o cheiro da cola e do couro, misturados à boa conversa do artesão — o verdadeiro artista silencioso.

 

Fiz amizade com vários, entre eles o seo Atanásio, na rua Voluntários da Pátria, quase esquina com a rua de Cima, em frente à casa do meu avô Alberto.

 

Naquele tempo, sapatos não eram descartáveis como os de agora, e em casa ninguém tinha mais que um par.

 

Para mantê-los sempre limpos, a cidade contava com muitos engraxates —uns de banca fixa, outros ambulantes.

 

Na Praça Alencastro, na da República e na rua de Cima, entre a avenida Presidente Vargas e a rua Cândido Mariano, eles eram encontrados aos montes.

 

Os engraxates pouco conversavam, diferente dos sapateiros, que viviam contando histórias aos fregueses.

 

Muitas das antigas oficinas desapareceram, dando lugar às torres residenciais.

 

Mas a casa do sapateiro da Voluntários da Pátria, com sua oficina de artista silencioso, permanece lá — intacta e fechada.

 

Talvez algum problema jurídico, ligado ao inventário tenha sido o motivo do abandono.

 

Hoje, já não sei se ainda existem sapateiros em nossa cidade.

 

Era um ofício passado de pai para filho, tradição que resistiu por gerações.

 

Com a fundação da Universidade Federal de Mato Grosso, o filho do sapateiro tornou-se doutor — e assim melhoraram as condições sociais de muitas famílias de ofícios artesanais.

 

Gabriel Novis Neves

05-11-2025