quarta-feira, 22 de abril de 2026

A JUVENTUDE QUE ME EMPRESTAM


Uma das muitas manias do nosso tempo é dizer às pessoas envelhecidas que ainda estão jovens.

 

Nunca embarquei nessa canoa furada.

 

Recentemente, fui, pela primeira vez, a um especialista da minha cidade.

 

Antes da consulta, uma jovem funcionária avisou-me que o médico não atendia convênios nem planos de saúde, não aceitava cartão e só recebia por PIX.  

 

O pagamento, acrescentou, deveria ser feito antecipadamente.

 

Tudo acertado, entreguei-lhe meus documentos para a abertura do prontuário.

 

Ela se surpreendeu com o número do meu RG e do meu registro no Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso.

 

Ao ler minha data de nascimento, comentou, admirada, como eu estava bem para a idade.

 

Concluída a parte burocrática, informou o valor da consulta e repetiu o número do PIX.

 

Respondi que pagaria em dinheiro, pois sempre tive dificuldade com aplicativos bancários.

 

Do outro lado do balcão, ela manuseava com admirável destreza um moderno computador.

 

Quando pedi que, ao término da consulta, me fosse emitida a nota fiscal, percebi em seu olhar certa desconfiança, talvez por considerar aquilo pouco compatível com a minha idade, ainda mais sendo eu cadeirante.

 

Se ela tivesse paciência para me ouvir, naquele 12h40 em que fui encaixado, talvez eu pudesse esclarecer algumas de suas dúvidas.

 

Diria que fomos nós que trouxemos e instalamos na UFMT o primeiro computador IBM 11.30.

 

Diria também que o médico da clínica onde ela trabalha estudou numa faculdade que nós ajudamos a criar.

 

Que o primeiro especialista daquela clínica foi meu avô, um médico surdo.

 

Que meu número no Registro Geral da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso é 36, concedido quando fui reitor, no tempo da mudança para esse formato.

 

E que meu registro no Conselho Regional de Medicina lembra os pioneiros da Medicina cuiabana, pois minha titulação veio do Rio de Janeiro, onde me formei.

 

Tão jovem estou, que para me manter de pé gasto, todos os meses, mais de dois salários mínimos em farmácia e conto com duas cuidadoras em tempo integral.

 

Envelheci. E espero, em breve, alcançar o meu centenário.

 

Enquanto isso, continua firme a mania de emprestar juventude aos velhos.

 

E a velhice serena e verdadeira, segue sorrindo em silêncio.

 

Gabriel Novis Neves

22-04-2026




terça-feira, 21 de abril de 2026

CRÔNICAS GUARDADAS


Tenho um estoque de crônicas que daria para publicar um livro impresso.

 

Preciso revisar e esvaziar esse acúmulo de textos, para só então continuar meu trabalho de produção.

 

Mas tornar esse desejo realidade não é simples.

 

Estou condicionado a escrever diariamente, pelo menos uma crônica.

 

Leio de tudo e procuro me manter informado sobre o mundo atual.

 

Neste meu crepúsculo, descobri coisas que jamais imaginei existir.

 

Conversando com um amigo bem mais jovem do que eu, constatei que muitas novidades, para mim espantosas, já eram do seu conhecimento havia muito tempo.

 

Também passei grande parte da vida ocupado e preocupado com minhas obrigações profissionais de médico e administrador público.

 

Pouco me sobrava para cuidar da família, tantas vezes sacrificada, inclusive nos prazeres simples das férias.

 

As crônicas escritas e ainda não publicadas não envelhecem.

 

Mesmo assim, é bom acompanhar o que há de novo.

 

A chamada ‘imortalidade digital’, quase impensável até há pouco tempo já é uma realidade.

 

Os chineses estão vendendo programas de videochamadas para que as pessoas possam conversar com entes queridos falecidos.

 

Isso se torna possível pelo uso da inteligência artificial, hoje tão presente em nossas vidas.

 

O grande número de canais de podcast no YouTube mostra que existe um público enorme interessado nesse veículo de informação.

 

Nos podcasts de relacionamento, por exemplo, aparecem entrevistadas como ‘garota de programa’, ‘atriz pornô’, ou ‘criadora de conteúdo adulto’.

 

São convidadas a falar sobre a própria vida sexual, muitas vezes em detalhes.

 

Tudo isso é facilmente acessível pelo celular.

 

As chamadas ‘questões de gênero’ inundam os meios de comunicação sem causar estranheza aos jovens.

 

Já os idosos, muitas vezes, ficam confusos e acabam sendo obrigados a aceitar essas novas regras de relacionamento afetivo entre homem e mulher.

 

‘O mundo mudou’, como diria a minha mãe.

 

Talvez eu escreva todos os dias justamente para não perder de vista esse mundo globalizado, de informações tão próximas e de valores tão distantes da minha juventude.

 

Gabriel Novis Neves

11-06-2024




segunda-feira, 20 de abril de 2026

MUDANÇA NÃO É REGRA


A mudança esteve diante de mim por muito tempo.

 

Não exigia esforço físico, nem grandes explicações.

 

Bastava um passo para o lado, uma palavra dita no momento certo, um hábito abandonado. Pensei nela em silêncio, várias vezes, enquanto a vida seguia seu curso normal.

 

Não houve medo declarado, nem falta de oportunidade.

 

Houve acomodação.

 

A rotina tem esse poder: transforma o incômodo em parte da paisagem, e seguimos convivendo com ele como se fosse natural.

 

Não fiz a mudança porque me acostumei.

 

O que é conhecido, mesmo desconfortável, parece mais seguro do que o novo.

 

Sabemos onde aperta, onde dói, onde incomoda.

 

O desconhecido exige coragem, e a coragem não está disponível todos os dias.

 

Há manhãs em que apenas levantar já é suficiente.

 

Com o tempo, percebi que a mudança não feita também cobra seu preço.

 

Ela aparece em pensamentos soltos, em lembranças inesperadas, em perguntas que surgem antes do sono.

 

Não grita, não acusa, apenas permanece.

 

É uma presença silenciosa, educada, mas insistente.

 

Talvez eu não tenha mudado por respeito ao meu próprio tempo.

 

Aprendi que nem tudo se resolve na pressa. Algumas decisões precisam amadurecer por dentro, como fruta que só cai quando está pronta.

 

A vida me ensinou que errar também cansa, e que nem toda escolha precisa ser heroica.

 

Hoje entendo que não mudar também é uma forma de decisão.

 

Pode não ser a melhor, nem a mais corajosa, mas é humana.

 

Ao escrever sobre ela, organizo o que ficou guardado.

 

A escrita me consola e me ensina: viver é escolher todos os dias, inclusive quando escolhemos permanecer onde estamos, em silêncio, tentando compreender.

 

Gabriel Novis Neves 

12-01-2026




domingo, 19 de abril de 2026

FORMAÇÃO DO MÉDICO PARA O INTERIOR


Uma das maiores necessidades dos nossos cursos de Medicina na atualidade é formar médicos para o interior do Brasil.

 

A partir do segundo ano, algumas disciplinas já passavam a ter aulas práticas em hospitais, como a Semiologia Médica.

 

Assim era no meu tempo de estudante, na década de cinquenta.

 

Depois, percorremos os hospitais nas várias especialidades da Medicina.

 

Se naquele tempo elas já eram muitas, imagino quantas se multiplicaram hoje, com o avanço constante das subespecialidades.

 

Naqueles anos, os cursos de Medicina duravam seis anos e eram terminais.

 

Formavam médicos prontos para o exercício da profissão, inclusive nas cidades do interior.

 

Saíamos da faculdade entendendo pouco de muito, mas esse pouco de muito, muitas vezes, era justamente o necessário para começar.

 

Em 1966 dirigi em Cuiabá um hospital psiquiátrico estadual sem jamais ter sido psiquiatra.

 

Tive, porém, excelentes mestres nessa disciplina, como o doutor Manfredini e a professora Nise da Silveira.

 

Foi com os conhecimentos adquiridos no curso que comecei a escrever minha história médica em Cuiabá.

 

Atendia o ambulatório de doenças mentais no Posto de Saúde da rua 13 de Junho e, sem demora fiquei conhecido como psiquiatra.

 

A atendente que trabalhava comigo dona Tanita, era mãe do extraordinário ator cuiabano Liu Arruda, que, ainda menino, costumava acompanhá-la ao serviço.

 

Até hoje encontro antigos pacientes da psiquiatria que me dizem ter sido curados com o meu tratamento, há mais de sessenta anos.

 

Talvez o humanismo na Medicina cure tanto quanto a tecnologia ajuda.

 

Durante os anos de estudante, dediquei-me com afinco a todas as disciplinas do curso, embora com especial inclinação para a ginecologia e obstetrícia.

 

O médico para o interior, cuja falta é sentida em tantos municípios brasileiros, já não está sendo formado como antes por nossas universidades.

 

Essa realidade só começará a mudar quando o governo federal criar e regulamentar o cargo de médico do interior, oferecendo-lhe o mesmo amparo e reconhecimento dados a outras carreiras públicas essenciais, como as do Ministério Público, da Polícia Federal, da Rodoviária e do Ministério da Defesa, com suas Forças Armadas.

 

O interior continua esperando.

 

E o Brasil também.

 

Gabriel Novis Neves

08-04-2026




sábado, 18 de abril de 2026

CERTEZAS QUE ABANDONEI


Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.

 

Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

 

Hoje carrego mais perguntas do que respostas.

 

Não considero isso fraqueza.

 

É maturidade.

 

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.

 

Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

 

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

 

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

 

No início, perder certezas me causou abatimento. 

 

Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

 

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.

 

Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

 

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

 

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

 

Desde a Idade Média buscamos certezas.

 

A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

 

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

 

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

 

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.

 

Crescem descobrindo que elas raramente existem.

 

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.

 

E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

 

Gabriel Novis Neves

24-02-2026




sexta-feira, 17 de abril de 2026

DESPEDINDO DA VIDA DE ESTUDANTE


Chega um momento em que percebemos, com nitidez, que um ciclo se encerra.

 

Nos últimos dias de faculdade, caminhei pelos mesmos corredores com um olhar diferente. Cada sala, cada colega, cada rotina adquiria um significado especial.

 

Já não eram apenas espaços e pessoas —eram lembranças em formação.

 

Sabia, no íntimo, que aquele tempo não voltaria.

 

Era uma despedida silenciosa, sem cerimônia, mas profundamente carregada de emoção e gratidão por tudo o que vivi.

 

A despedida formal aconteceu quase por acaso, após a solenidade de colação de grau no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1960.

 

Fizemos o juramento de Hipócrates e, ao final, tínhamos a certeza de que aquela seria a nossa última reunião como estudantes.

 

Um pequeno grupo de colegas mais próximos, todos sem namoradas, decidiu prolongar aquele instante.

 

Fomos à boate Balalaika, na rua Siqueira Campos, em Copacabana.

 

Não me recordo quantos éramos.

 

Era um dia de semana, e a casa estava quase vazia.

 

Jantamos um sanduiche com chope.

 

A música era ao vivo, mas tímida; havia poucas mulheres para dançar — talvez mais interessadas em outros programas.

 

O conjunto musical, sob o nosso leve protesto, logo se despediu.

 

E as mulheres percebendo que daquele grupo nada se aproveitaria, também se afastaram.

 

Seguimos ali, conversando e bebendo, como quem tenta prolongar o que se despedia.  

 

O único garçom, paciente e discreto, abriu as cortinas ainda escuras do salão.

 

A manhã já havia chegado.

 

Do lado de fora, a cidade despertava: banhistas a caminho da praia, bondes e ônibus em movimento, vozes de feirantes e vendedores ambulantes misturando-se ao som do novo dia.

 

Pagamos a conta e permanecemos por alguns minutos na calçada, como se aquele instante pedisse mais um pouco de nós.    

 

Era a despedida de jovens médicos vindos de várias partes do Brasil, que durante seis anos compartilharam os mesmos caminhos, movidos por um ideal comum.

 

Voltamos em silencio, de bonde para a pensão. Havia em nós a serenidade do dever cumprido e a consciência de que aquele fora, de fato, o último encontro.

 

Depois disso, cada um seguiria para a sua origem, levando consigo o que o tempo não apaga.

 

E assim, sem perceber, deixávamos de ser estudantes — para começar a ser história.

 

Gabriel Novis Neves

15-04-2026




quinta-feira, 16 de abril de 2026

A AULA QUE NINGUÉM ESQUECEU


Algumas aulas passam depressa pela memória dos estudantes.

 

Outras permanecem vivas por toda a vida.

 

Durante meus anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, assisti a muitas aulas importantes, mas algumas ficaram gravadas de maneira muito especial.

 

Não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como os professores conduziam suas explicações.

 

Havia momentos em que a sala inteira parecia compreender, de repente, a grandeza da profissão médica e a responsabilidade que ela exige.

 

Todas as aulas do curso de Medicina eram importantes e, de certo modo, inesquecíveis. Por isso mesmo, é difícil apontar uma única aula que ninguém esqueceu.

 

Começamos pela anatomia descritiva, pela neuroanatomia e pela anatomia topográfica.

 

As aulas práticas, muitas vezes, eram insuficientes.

 

Para suprir essa deficiência, nosso grupo de estudantes, comprava do bedel da faculdade um esqueleto e peças de neuroanatomia guardadas em latões com formol, que levávamos para estudar no quarto da pensão, longe das vistas da dona da casa.

 

Eram estudos inesquecíveis.

 

Também é impossível esquecer as aulas de Fisiologia, no segundo ano, quando começávamos a compreender o funcionamento do corpo humano.

 

Aprendemos, na Semiologia, a extrair a história do paciente e a chegar a uma hipótese diagnóstica.

 

Recordo também um carismático professor de Cardiologia da Santa Casa, muito respeitado pelos alunos, que dava aula sobre os males da nicotina no sistema cardiorrespiratório com um cigarro na ponta da boca, enquanto as cinzas caíam sobre seu avental branco.

 

Era uma contradição viva, e talvez por isso mesmo, inesquecível.

 

O professor de cirurgia da tireoide ministrava aulas no próprio centro cirúrgico.

 

Antes de iniciar o procedimento, perguntava se gostaríamos de vê-lo operar com a mão esquerda ou com a direita.

 

Operava bem, com rapidez e segurança.

 

O chefe da clínica cirúrgica da Santa Casa, por sua vez, operava com elegância.

 

Assisti a professores velozes em cirurgia, e a outros lentos, quase solenes.

 

Mas as aulas mais valorizadas eram aquelas em que os pacientes se faziam presentes.

 

Eram elas que nos mostravam o quando havíamos avançados no conhecimento da Medicina desde a aula inaugural.

 

Já não éramos apenas estudantes.

 

Éramos quase médicos.

 

E talvez seja isso o que nunca se esquece: o instante em que o sonho começa a ganhar corpo.

 

Gabriel Novis Neves

06-04-2026