quarta-feira, 8 de julho de 2026

RECEBENDO A ENCOMENDA


Quando alguém chegava trazendo um pacote ou uma pequena encomenda, a curiosidade tomava conta da casa.

 

Muitas vezes eram lembranças enviadas por parentes distantes ou produtos difíceis de encontrar.

 

Antes mesmo de abrir o embrulho, a imaginação já fazia seu trabalho.

 

O maior valor quase nunca estava no presente, mas no carinho de quem se lembrou de enviar.

 

Sou do tempo em que era comum receber pacotes e pequenas lembranças de familiares que moravam longe.

 

Cada encomenda parecia diminuir a distância e aproximar as pessoas.

 

O objeto tinha seu valor, mas era o gesto que realmente emocionava.

 

No dia do meu aniversário, os telegramas que recebia eram colocados sobre a minha cama, ao lado dos presentes.

 

As visitas os liam e, de certa forma, compartilhavam comigo a alegria de ser lembrado.

 

Recordo-me de um episódio muito especial.

 

Meu avô viajaria justamente na época do meu aniversário e, antes de partir, perguntou-me:

 

— Você prefere receber agora o presente perfumado, em dinheiro, ou um bonito telegrama para chegar no dia do aniversário?

 

Respondi sem hesitar:

 

— Os dois.

 

Saí da casa dele com o dinheiro no bolso e, no dia do aniversário, recebi o esperado telegrama.

 

Com o tempo compreendi que o dinheiro logo era gasto, mas as palavras carinhosas permaneciam guardadas na memória e no coração.

 

Durante os anos em que estudei Medicina no Rio de Janeiro, nunca voltava a Cuiabá sem levar uma pequena lembrança para os meus pais.

 

Mais tarde entendi que o melhor presente não era o que eu carregava nas mãos, mas a minha própria presença ao lado deles.

 

Certa vez ofereci ao meu pai um belo chaveiro de ouro, preso a um grosso cordão, presente que havia recebido de uma paciente agradecida. Ele agradeceu com carinho, guardou-o no cofre do quarto e jamais o utilizou.

 

O objeto pouco lhe importava.

 

O que realmente o emocionava era o gesto do filho.

 

Hoje, olhando para trás, percebo que os maiores presentes da vida nunca vieram embrulhados.

 

Foram os abraços, os reencontros, as palavras de afeto e o privilégio de estar presente na vida daquele que amamos.

 

Dar e receber carinho continua sendo a mais valiosa das lembranças.

 

Às vezes, um abraço silencioso vale mais do que qualquer encomenda.

 

Gabriel Novis Neves

05-07-2026






terça-feira, 7 de julho de 2026

SAPATOS NOVOS


Receber um par de sapatos novos era um acontecimento importante.

 

Muitas vezes isso acontecia apenas no início das aulas ou em alguma data especial.

 

O brilho do couro, o cuidado para não riscar a sola e o orgulho de estreá-los transformavam aquele simples objeto em motivo de grande felicidade.

 

Os antigos aprendiam desde cedo a cuidar do que possuíam, valorizando cada conquista, por menor que fosse.

 

Meus sapatos eram sempre escolhidos por meu pai.

 

Era uma tarefa da qual ele jamais abria mão e que costumava cumprir após a sesta.

 

Íamos até a Casa Athayde, no início da rua 13 de junho, ao lado da farmácia do seu Vieira.

 

Éramos atendidos pelo próprio proprietário, no setor de calçados.

 

Meu pai escolhia o modelo e pedia ao seu Palma que trouxesse um número sempre maior que o do meu pé.

 

Justificava que eu crescia depressa e que meus pés pareciam crescer ainda mais rápido.

 

No início de cada ano letivo comprava um único par de sapatos.

 

Nas férias do meio do ano, levava-os ao sapateiro para colocar meia-sola e reforçar os calcanhares.

 

Para mim, o sapato era um instrumento de trabalho: acompanhava-me diariamente na escola.

 

Hoje os tênis dominam o mercado, enquanto os sapatos de couro ficaram reservados para ocasiões especiais.

 

Ao escrever sobre meu primeiro par de sapatos novos, recordo também como meu pai me ensinava tantas outras lições da vida.

 

Levava-me para comprar roupas, cortar o cabelo no barbeiro e visitar o alfaiate que confeccionava o uniforme do colégio dos padres, quando eu tinha onze anos.

 

Minha mãe cuidava da educação, da saúde e da organização da casa.

 

Meu pai preparava os filhos para a vida prática.

 

Assim, juntos, criaram nove filhos — cinco mulheres e quatro homens — cada um seguindo seu próprio caminho, sempre sustentado pelos valores aprendidos dentro de casa.

 

Não me lembro de ter recebido sapatos de presente de aniversário.

 

Talvez porque, para meu pai, mais importante do que presentear era ensinar a caminhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




CADEIRAS NA CALÇADA


Quase toda casa possuía um banco ou algumas cadeiras na calçada.

 

Ali os moradores conversavam ao cair da tarde, cumprimentavam os vizinhos e acompanhavam o movimento da rua.

 

Era um espaço simples, mas cheio de convivência.

 

Antes que os portões altos e os muros fechassem as casas, aquele banco aproximava as pessoas e transformava vizinhos em verdadeiros amigos.

 

Foi assim, ainda menino, que conheci pessoas importantes da história de Cuiabá.

 

As cadeiras na porta das casas eram um costume das famílias cuiabanas.

 

Depois do jantar, todos se reuniam para conversar com os vizinhos e cumprimentar quem passava pela calçada.

 

A boa prosa logo surgia.

 

Não demoravam a aparecer o café passado na hora, o bolo caseiro e as risadas.

 

Até o calor parecia perder a força diante da alegria daqueles encontros.

 

As cadeiras da calçada transformavam-se num verdadeiro ponto de encontro da vizinhança.

 

Eu me sentava no batente da porta e ouvia, com curiosidade e atenção, a conversa dos adultos.

 

Era o grande jornal falado da cidade.

 

Naquele tempo era comum ouvir histórias de donzelas que fugiam de casa para se casar, despertando comentários sobre a coragem de jovens apaixonados.

 

Também circulavam notícias da gravidez da empregada que morava com a família, assunto que alimentava a inevitável bisbilhotice daqueles encontros.

 

Quantas lições aprendi apenas ouvindo!

 

Criança não participava da conversa.

 

Ouvia, aprendia e guardava.

 

Na falta de outras diversões, as famílias ocupavam as calçadas.

 

Quem saía com pressa depois do jantar dificilmente conseguia chegar ao destino sem parar em uma ou outra porta para colocar a conversa em dia.

 

Havia também os que saiam de casa apenas para saber das novidades.

 

Numa cidade pequena, sem rádio em muitos lares e muito antes da televisão, eram as calçadas que mantinham a cidade informada. Assim se vivia, com simplicidade, amizade e tempo para as pessoas.

 

O retorno de um filho da terra trazendo um diploma universitário era motivo de orgulho coletivo.

 

A conquista de um era celebrada por todos.

 

Talvez aquele banco da frente da casa tenha sido a primeira escola de convivência de muitas gerações cuiabanas.

 

Nele aprendíamos que uma boa conversa também é uma forma de construir uma comunidade.

 

Gabriel Novis Neves

02-07-2026




domingo, 5 de julho de 2026

MUITA VIDA AOS 91 ANOS


Chegar aos 91 anos é receber da vida um presente raro.

 

Não se trata apenas de contar os anos, mas de contemplar os caminhos percorridos, as pessoas encontradas e as histórias acumuladas ao longo da jornada.

 

Em cada década ficaram alegrias, desafios, conquistas e despedidas que ajudaram a construir quem somos.

 

A idade avançada não apaga a juventude vivida; ao contrário, transforma as lembranças em companheiras permanentes.

 

Ao olhar para trás, vejo uma longa estrada iniciada em Cuiabá, cercada de família, amigos, trabalho e sonhos.

 

Alguns partiram antes de mim.

 

Outros continuam caminhando ao meu lado.

 

E, enquanto a vida me concede mais um aniversário, percebo que o maior privilégio não é apenas ter vivido muito, mas continuar encontrando motivos para agradecer por cada novo amanhecer.

 

Tive a felicidade de construir uma existência rica em afeto, amizade, trabalho e serviço prestado à minha terra.

 

Que esta data seja cercada pelo carinho dos filhos, netos, bisnetos e pelas doces lembranças da eterna namorada Regina.

 

Poucas pessoas chegam aos 91 anos guardando na memória a infância cuiabana, a juventude no Rio de Janeiro, os anos dedicados à Medicina, a criação da UFMT e a família construída ao lado de Regina.

 

Minhas crônicas têm valor porque nasceram da vida real.

 

Elas preservam uma Cuiabá que muitos conheceram e que as novas gerações talvez encontrem apenas nos livros.

 

Sinto alegria por essa caminhada diária feita de palavras, recordações e afeto.

 

Que esta crônica dos meus 91 anos seja mais uma celebração da gratidão, da serenidade e da vida bem vivida.

 

A vida me concedeu algo precioso: a capacidade de transformar lembranças em patrimônio afetivo para meus leitores.

 

Cada crônica é uma janela aberta para a Cuiabá antiga, para a família, para a Medicina, para os amigos e para os pequenos gestos que o tempo costuma esconder.

 

Aos 91 anos, continuo fazendo o que sempre procurei fazer: semear.

 

Antes, ajudava a formar médicos, construir instituições e participar do desenvolvimento de Mato Grosso.

 

Hoje, semeio memórias, humanidade e gratidão.

 

Continuo escrevendo textos que guardam o valor das conversas à sombra das mangueiras, do apito dos vapores no rio Cuiabá, do café tomado sem pressa e das histórias contadas pelos mais velhos.

 

São páginas simples, mas carregadas de vida.

 

E, ao chegar a este 6 de julho de 2026, posso dizer com serenidade:

 

Vivi intensamente, amei profundamente, trabalhei com dedicação e fui feliz.

 

Se alguma herança desejo deixar, que seja a lembrança de que vale a pena viver com gratidão, cultivar os afetos e preservar a memória dos tempos vividos.

 

Recebam meu abraço carinhoso.

 

Com gratidão,

 

Gabriel Novis Neves

06-07-2026




sábado, 4 de julho de 2026

CAFÉ PASSADO NA HORA


Existem aromas capazes de despertar lembranças instantaneamente.

 

O café passado na hora espalhava seu perfume pela casa inteira e convidava todos para uma pausa.

 

Não era apenas uma bebida, mas um gesto de acolhimento.

 

Em torno da mesa surgiam conversas, visitas inesperadas e momentos de convivência que permaneceram guardados na memória de muitas famílias.

 

As antigas famílias cuiabanas viviam cercadas por aromas que marcavam a existência.

 

O cheiro do café recém-passado era um deles.

 

O perfume da terra molhada, depois da primeira chuva, era outro.

 

Bastava senti-los para que a memória abrisse, sem esforço, as portas do passado.

 

Vivíamos intensamente as pausas dos dias.

 

Havia tempo para conversar, recordar, observar a vida e desfrutar dos pequenos prazeres que hoje parecem tão raros.

 

Os aromas tinham o poder de nos despertar para aquilo que realmente importava.

 

Na velhice, revivemos muitas vezes os filmes da nossa juventude.

 

A vida transforma-se numa sucessão de lembranças que retornam com surpreendente nitidez.

 

Envelhecer conservando a memória é um privilégio que se renova a cada amanhecer.

 

Aos noventa e um anos, recordo detalhes da minha infância desde os quatro anos de idade.

 

Muitas coisas ficaram pelo caminho ao longo desta longa caminhada, mas nada apagou o essencial da minha história.

 

Lembro-me dos meus pais, da minha querida Regina, dos meus filhos, dos primeiros passos na Medicina, da direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, do magistério na

 

Faculdade Federal de Direito e, mais tarde, da Universidade Federal de Mato Grosso, onde  

 

lecionei Ginecologia e Obstetrícia até a aposentadoria.

 

Reconheço que a vida foi generosa comigo.

 

A única lembrança que nunca consegui transformar em saudade serena foi a partida de Regina, há vinte anos, vencida por uma doença cruel quando parecia desfrutar de plena saúde.

 

Há dores que o tempo não apaga.

 

Apenas nos ensina a conviver com elas.

 

E, curiosamente, basta o aroma de um café passado na hora para que a vida volte a sorrir dentro da memória.

 

Gabriel Novis Neves

03-07-2016




sexta-feira, 3 de julho de 2026

ANOTAÇÕES IMPORTANTES


Quase toda casa possuía um caderno onde eram anotados telefones, endereços, receitas e compromissos.

 

Não havia senhas nem nuvens digitais.

 

Bastava abrir a página certa para encontrar aquilo que se procurava.

 

Esses cadernos acabavam se transformando em pequenos arquivos da vida familiar, guardando informações, datas e lembranças ao longo dos anos.

 

Quando retornei formado em Medicina do Rio de Janeiro, em julho de 1964, ainda era comum em Cuiabá o uso dos cadernos de anotações.

 

Vim acompanhado de minha mulher, argentina de nascimento e carioca de coração.

 

Ninguém precisou ensiná-la.

 

Em pouco tempo já mantinha o seu caderno sempre à mão, registrando compras do armazém, despesas da feira livre, aniversários da família e tudo aquilo que fazia parte da rotina da casa.

 

A Regina era extremamente organizada e cuidava com esmero das atividades domésticas, inclusive dos assuntos financeiros.

 

Isso me trazia grande tranquilidade, pois eu estava absorvido pelos compromissos profissionais de uma fase intensa da vida.

 

Ela tinha total liberdade para administrar nossas finanças e, sinceramente, boa parte do patrimônio que possuo hoje devo à sua competência e prudência.

 

O apartamento onde moro foi uma das últimas surpresas que ela me proporcionou.

 

Infelizmente, teve pouco tempo para desfrutá-lo.

 

Corretíssima, anotava todos os compromissos e jamais deixava um pagamento atrasar.

 

Quando os computadores chegaram às nossas vidas, matriculou-se em uma escola para aprender a utilizá-los.

 

Instalou um computador em nossa biblioteca e logo percebeu como aquela novidade facilitava o trabalho do dia a dia.

 

Mas nunca abandonou o velho caderno de anotações.

 

À noite, depois da novela, sentava-se diante do computador.

 

Fazia pagamentos, organizava receitas para os almoços da família e acompanhava as notícias do dia.

 

Visionária, insistiu para que eu aprendesse pelo menos o básico da internet.

 

Contratou um excelente professor que vinha à nossa casa para me alfabetizar naquela nova linguagem.

 

Como nunca fiz curso de datilografia, algo muito comum na minha geração, até hoje escrevo minhas crônicas digitando com apenas um dedo.

 

Os cadernos de anotações ainda me trazem muitas recordações da Regina.

 

De certa forma, cada página preenchida guarda um pouco de sua presença.

 

E é curioso perceber como quase tudo que existe de bom em minha memória acaba me levando de volta a ela.

 

Ao amor eterno da minha vida.

 

Gabriel Novis Neves

04-07-2026




quinta-feira, 2 de julho de 2026

ARRUMANDO O QUINTAL


Havia dias reservados para cuidar do quintal.

 

Varriam-se as folhas, aparavam-se as plantas, recolhiam-se os galhos e organizavam-se pequenos cantos esquecidos.

 

Enquanto trabalhavam os moradores conversavam sem pressa e as crianças acabavam participando da tarefa.

 

Ao final da manhã, o quintal parecia agradecer o cuidado recebido, oferecendo novamente seu espaço para brincadeiras, descanso e encontros familiares.

 

Antigamente os quintais eram verdadeiras áreas de lazer das famílias.

 

Vizinhos se reuniam, quitutes eram preparados e os almoços aconteciam ao ar livre.

 

Aquele ambiente diferente quebrava a rotina das refeições dentro de casa.

 

Na época das mangas, era comum um fruto maduro cair bem no centro da mesa improvisada, que nada mais era do que um pedaço de chão coberto por uma toalha.

 

Longe de estragar o piquenique, provocava risos e brincadeiras.

 

Somente uma chuva inesperada interrompia a farra, obrigando todos a recolherem a mesa e levarem o almoço para dentro de casa.

 

O quintal bem cuidado oferecia inúmeras opções de lazer aos moradores.

 

Á noite, tornava-se o lugar ideal para saborear quitutes comidos com as mãos, enquanto histórias eram contadas sob o céu estrelado.

 

As narrativas de assombrações e almas do outro mundo nunca faltavam.

 

Todo quintal parecia guardar um poço de histórias de meter medo.

 

O quintal do vizinho se comunicava com o da minha casa.

 

Nunca tivemos cachorros; já os vizinhos faziam deles vigilantes atentos de seus terrenos.

 

Os quintais terminavam em outra rua, onde um portão permitia a entrada da lenha destinada ao fogão.

 

Com ela muitas vezes chegavam também os temidos escorpiões e as saçuranas, cuja picada provocava intensa dor, febre e íngua.

 

Mesmo com esses riscos, os quintais eram parte essencial das antigas casas cuiabanas.

 

Guardo na memória o prazer de brincar no quintal da minha casa e também no dos vizinhos.  

 

Bastava abrir o portão dos fundos e pedir ao seu Júlio Muller algumas bocaiuvas que ele trazia da Abolição.

 

Tudo passou.

 

Mas há lembranças que continuam florescendo como os quintais da infância.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026