quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FERIADÃO QUE ESVAZIAVA A CIDADE


Quando um feriado se juntava ao sábado e ao domingo, parecia que Cuiabá diminuía de tamanho.

 

Algumas famílias viajavam, outras permaneciam em casa descansando.

 

O movimento das ruas mudava, e até os ruídos pareciam menores.

 

Para o menino, feriadão não precisava de viagem nem de programa especial.

 

Bastavam o quintal, os irmãos e algumas horas sem compromisso.

 

Naquele tempo, descansar também era uma forma agradável de aproveitar a vida.

 

Quando volto ao passado, percebo como precisávamos de tão pouco para sermos felizes.

 

Hoje, filhos e netos viajam, às vezes para longe, em busca de alguns dias de descanso.

 

Os tempos são outros, os recursos aumentaram e os costumes também mudaram.

 

Escrevo sabendo que minha filha, netas e bisnetos, viajarão na quinta-feira, aproveitando os dias seguintes até o feriado.

 

Só de imaginar malas, crianças, aeroportos e toda a preparação, já fico cansado.

 

Na minha infância ficar em casa com a família reunida, conversando sem olhar o relógio, era suficiente. 

 

Quando se viajava, não era preciso ir muito longe.

 

Águas Quentes e Chapada dos Guimarães pareciam grandes destinos.

 

Passar o dia no Porto, na casa de parentes ou amigos, já quebrava a rotina.

 

A Cuiabá daquele menino também mudou. Muito do verde cedeu lugar ao cimento, e a algazarra dos pássaros perdeu espaço para o barulho dos automóveis.

 

As cadeiras de balanço desapareceram das calçadas, escondidas atrás dos muros altos.

 

Talvez o tempo não tenha ficado pior.

 

Apenas ficou mais apressado.

 

E ainda sinto saudade dos feriadões em que não fazer nada era fazer tudo.

 

Gabriel Novis Neves

05-10-2026




quarta-feira, 7 de outubro de 2026

TOALHAS DE CROCHÊ


Sobre a mesa da sala, uma toalha de crochê cobria tudo com delicadeza.

 

Era obra das mãos pacientes de minha avó, que trançava fios como quem tecia a própria memória da família.

 

As moças de antigamente eram preparadas para serem as ‘rainhas do lar’ e aprendiam a governar suas casas, embelezando-as com seus trabalhos manuais.

 

Minha mãe era especialmente criativa quando o assunto eram os bordados, rendas e crochês.

 

Todas as mesas e mesinhas da nossa casa eram cobertas por delicadas toalhas, que enchiam o ambiente de graça e aconchego.

 

A casa assim enfeitada propiciava um clima de harmonia — talvez o segredo dos casamentos duradouros de então.

 

A criançada só compreendia a importância daqueles arranjos caseiros das avós e mães quando se tornava adulta.

 

Eu sempre admirei profundamente os trabalhos manuais de minha mãe: havia neles uma poesia silenciosa.

 

Hoje, tudo é comprado em shoppings e lojas.

 

Quase ninguém tem tempo —ou paciência — para confeccionar, por exemplo, uma simples toalha de crochê.

 

Lê-se muito sobre o que é ser feliz, mas tenho certeza de que felicidade não se compra.

 

Os antigos já diziam: o dinheiro ajuda, mas nunca fez da felicidade privilégio dos ricos.

 

Nas casas dos bairros mais afastados e nas da zona rural ainda se encontram toalhas de crochê sobre as mesas e redes de algodão penduradas para o descanso.

 

Naquele tempo tudo era simples e fácil.

 

Tive a felicidade de crescer em um lar humilde, onde nunca faltou o essencial.

 

Éramos nove filhos, todos ajudando nossos pais —da limpeza da casa à fritura dos pastéis do bar.

 

Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dispensando o luxo das babás.

 

Estudar e cursar uma universidade eram compromissos sagrados.

 

Com o tempo, tudo passou a fazer sentido — como a toalha de crochê sobre a mesa da sala, símbolo de amor, trabalho e memória.

 

Gabriel Novis Neves

23-10-2025




terça-feira, 6 de outubro de 2026

RADINHO DE PILHA


Transmitia notícias, partidas de futebol e serenatas, embalando a vizinhança nas tardes de domingo.

 

Descobri o radinho de pilha no Rio de Janeiro, quando estudante de Medicina.

 

Era meu fiel companheiro nas tardes de domingo, para acompanhar os jogos de futebol no Maracanã.

 

Via o jogo, identificava os jogadores e os detalhes dos gols pelos locutores esportivos que ficavam atrás das traves do campo.

 

O narrador da partida permanecia em cabine especial, com visão privilegiada do gramado e o auxílio do comentarista esportivo.

 

Para fugir da aglomeração dos torcedores, eu costumava sentar no último degrau da arquibancada.

 

A visão não era das melhores — ainda mais porque os torcedores ficavam de pé na maior parte do jogo.

 

O que me salvava era o radinho de pilha colado ao ouvido.

 

Mesmo hoje, na Arena Pantanal, no camarote mais próximo ao campo, o radinho de pilha continua indispensável.

 

Quem o popularizou foi o Presidente Médici, que assistia aos jogos no Maracanã sempre com o radinho colado no ouvido, para alegria dos fotógrafos — numa época em que quase tudo era proibido.

 

Nos plantões de 24 horas na Maternidade de Cuiabá, aos sábados, eu carregava o meu no bolsinho do jaleco para ouvir música.

 

Ele me acompanhava no Centro Obstétrico e Cirúrgico.

 

Quantas crianças chegaram ao mundo ouvindo melodias suaves!

 

O radinho ajudava o dia passar mais rápido e leve.

 

Quando fui para a Femina, não o abandonei.

 

Com o passar dos anos, ele foi incorporado à rotina do meu trabalho.

 

Viajando pelo interior do Estado, nada mais encantador do que o serviço de alto-falantes tocando ao entardecer.

 

Até hoje guardo a lembrança da melodia de Fuscão Preto ecoando nos alto-falantes de Alto Araguaia, sob o pôr do sol.

 

Sinto uma nostalgia gostosa, que dói.

 

Quantos fuscões pretos ouvi nas cidadezinhas do leste de Mato Grosso, lá por 1980!

 

A música para mim funciona como o colírio da alma.

 

Guardo na gaveta da minha cabeceira, o meu último radinho de pilha.

 

De vez em quando o ligo, só para matar as saudades e ouvir: — ‘A saudade mata a gente’!

 

Gabriel Novis Neves

22-10-2025




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O SOM DA CAMPAINHA


O som da campainha já não mais me emociona.

 

Outrora, era o anúncio de alguém querido — um parente, um amigo ou o carteiro trazendo notícias de longe.

 

Quando a campainha tocava em casa, minha mãe sempre atarefada naquele casarão cheio de filhos, pedia ao mais próximo que fosse atender.

 

Seu coração batia acelerado tentando adivinhar quem chegava.

 

Era, talvez, a amiga da esquina vindo pagar uma visita atrasada.

 

A massa do bolo de arroz já estava pronta, e ela colocava nas forminhas para assar.

 

Enquanto o bolo crescia no forno, as duas conversavam na varanda.

 

Os filhos pequenos ficavam sapeando por perto à prosa das adultas.

 

Quando o assunto tomava rumo confidencial, minha mãe mandava a criançada sair dali.

 

A cozinheira então avisava que o bolo estava assado e o café, passado no coador de pano, fumegava sobre o fogão.

 

Era hora de servir o café na xícara pequena, acompanhado do bolo de arroz quentinho.

 

Naquele tempo tudo era mais simples — especialmente quando se tratava de bem receber uma visita.

 

As donas de casa eram verdadeiras artesãs do lar, sempre prontas para acolher, sem precisar recorrer a padarias e confeitarias.

 

Mesmo com poucos recursos, as famílias viviam bem, sustentadas pela simplicidade e generosidade.

 

Quando a visita se despedia, minha mãe costumava distribuir entre as vizinhas o que sobrava da merenda.

 

Cresci nesse ambiente de humildade e solidariedade, e confesso que me custa entender os tempos de agora em que apenas os ricos parecem viver bem.

 

Hoje tudo é feito fora de casa.

 

Receber alguém exige planejamento, compras e encomendas.

 

Um simples almoço de família requer serviços de bufê, e até festas de crianças dependem de empresas especializadas.

 

A sociedade complicou a arte de viver.

 

O som da campainha silenciou — nada mais é espontâneo.  

 

Tudo precisa ser marcado com antecedência, e o porteiro avisado da chegada da visita, substituiu a emoção daquele toque inesperado que, um dia, enchia a casa de alegria.

 

Gabriel Novis Neves

20-10-2025




domingo, 4 de outubro de 2026

LENÇO NO BOLSO


Meu pai nunca saía de casa sem um lenço no bolso.

 

Não era apenas um hábito, mas um gesto de elegância de quem estava sempre pronto a oferecer conforto a alguém.

 

A lembrança mais antiga que guardo dele é a de quando se preparava para abrir o bar, nas primeiras horas do dia.

 

Bebia o café em casa e saía a pé, de terno e gravata, com um lenço de seda no bolso superior esquerdo do paletó.

 

Mesmo com o calor de Cuiabá, esse era o seu uniforme de trabalho.

 

Pouco antes de se aposentar, aboliu o paletó, mas manteve as camisas brancas de mangas compridas.

 

Não me recordo de tê-lo visto usando camisas de mangas curtas — nem mesmo seus pijamas fugiam à formalidade: eram sempre de calça e camisa compridas.

 

Revendo álbuns de fotografias antigas de Cuiabá, observo que os homens, mesmo os trabalhadores mais humildes, sempre vestiam ternos.

 

E para um toque de charme, um chapéu panamá completava o traje.

 

Quando criança, ao ver um homem com chapéu panamá, logo o identificava como fazendeiro, usineiro, político — gente rica e importante.

 

Naquele tempo, os médicos usavam terno, gravata e chapéu.

 

Iam à Santa Casa atender seus doentes ou às residências, muitas vezes montados a cavalo.

 

As casas e os hospitais possuíam argolas de ferro nos muros e portais para amarrar o animal.

 

Todos os funcionários públicos — do porteiro ao governador — trajavam terno e gravata.

 

Nas missas de domingo, os homens compareciam impecáveis, em respeito ao ritual e à fé.

 

Como sinto saudades da cidadezinha em que nasci e cresci, tão linda e acolhedora, onde tudo era tão simples!

 

Tudo era perto, e todos pareciam pertencer à mesma grande família, onde a solidariedade era nossa maior moeda.

 

Era uma cidade sem pecados — e a palavra, o nosso PIX.

 

Veio o progresso e suas consequências, afastando de nós a elegância singela de um lenço de seda no bolso do paletó.

 

Gabriel Novis Neves

17-10-2025




O BILHETE DA ESCOLA


Na minha época de estudante o bilhete era o elo entre a escola e os pais.

 

Escrito à mão pela professora, geralmente em papel pautado, era entregue ao aluno com a recomendação de levá-lo “sem perder” para casa.

 

Aquele pequeno papel, dobrado em quatro, carregava respeito, temor e responsabilidade.

 

Nem sempre o conteúdo era motivo de alegria.

 

Quando o aluno se comportava mal, o bilhete vinha com o aviso de que a mãe deveria comparecer à escola.

 

Era o bastante para transformar a travessia até em casa numa caminhada silenciosa, em que o vento parecia mais pesado e o coração batia apressado.

 

Mas também existiam os bilhetes de elogio — o reconhecimento por uma boa redação, uma nota alta ou uma atitude gentil.

 

Esses eram mostrados com orgulho, como medalhas conquistadas com esforço e dedicação.

 

O bilhete representava uma ponte de confiança entre pais e mestres, um diálogo simples e respeitoso.

 

Não havia aplicativos, e-mails ou mensagens instantâneas.

 

Havia apenas o papel, a caneta e o cuidado com as palavras.

 

Mesmo curto, o bilhete era um gesto de atenção e de amor pela educação.

 

Lembro-me do cheiro do papel novo, da letra caprichada da professora e do modo como ela o dobrava, como quem guardava um segredo.

 

Cada bilhete tinha um peso e uma intenção: corrigir, agradecer, elogiar ou simplesmente orientar.

 

A escola de então educava com firmeza, mas também com ternura.

 

O bilhete era a extensão do olhar da professora, que acompanhava o aluno para além dos muros da sala de aula.

 

Talvez por isso aprendíamos melhor — não apenas as lições do quadro, mas também as da vida.

 

Havia emoção nas palavras e responsabilidade em cada recado.

 

Gabriel Novis Neves

Cuiabá, 12 de outubro de 2025




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

LAMPIÃO DE QUEROSENE


Nas noites em que a luz falhava o lampião de querosene era aceso e espalhava seu cheiro inconfundível pela casa.

 

A chama tremeluzente projetava sombras nas paredes, e parecia que a casa ganhava vida própria.

 

As novas gerações não chegaram a conhecer esses lampiões de querosene que foram, durante muito tempo, utilizados nas casas cuiabanas e também na iluminação pública do centro da cidade.

 

Também em casa usávamos lamparinas de querosene e velas em lindos castiçais de cristal, importados da Europa.

 

Esses castiçais eram objetos de luxo.

 

Tenho ainda um par deles na sala de jantar — herança de minha mãe, que os recebeu de seu pai.

 

Devem ter mais de cento e cinquenta anos e estão em perfeitas condições de uso.

 

Não me recordo de tê-los acendido. 

 

Para mim são objetos de contemplação —talvez os mais belos da minha casa.

 

Os castiçais desapareceram das casas atuais, cedendo lugar aos potentes geradores de energia.

 

Depois da inauguração da Usina do Manso melhorou muito o fornecimento de energia elétrica em Cuiabá.

 

De vez em quando ainda temos apagões, logo resolvidos, ocasião em que recorro às três lanternas à pilha, livrando-nos do terrível cheiro do querosene que espalhava pela casa.

 

Quanto ganhamos com o avanço das novas tecnologias a partir da segunda metade do século passado!

 

Foi um estirão de melhorias em todas as áreas do conhecimento humano.

 

Ficaram as lembranças de tempos não muitos distantes assim, despertando nos mais antigos uma doce melancolia.

 

Escrevo uma série de temas sobre objetos que eram obrigatórios nas casas de meus avós e que hoje são desconhecidos pela nova gerações.

 

Ontem publiquei ‘Cadeiras de Palhinha’; hoje ressuscito os antigos castiçais de cristal.

 

Meus contemporâneos, ao lerem, haverão de rever em sua imaginação um antigo filme sobres os castiçais de parede das casas cuiabanas.

 

Farão de tudo para que seus bisnetos compreendam a utilização desses objetos, que não existem mais — a não ser na casa do biso.

 

Gabriel Novis Neves

11-10-2025