Parei diante do espelho por mais tempo do que o habitual.
Observei as marcas do rosto sem julgamento.
Não tentei corrigir nada.
Apenas reconheci o homem que estava ali.
Envelhecer também é aceitar a própria imagem sem pressa de fugir dela.
O mundo moderno está cheio de pessoas em permanente luta contra o tempo.
Combatem rugas, pálpebras caídas, papadas, como se o envelhecimento fosse um erro a ser corrigido.
Criaram até nomes elegantes para suavizar a ideia — harmonização facial.
Homens e mulheres procuram cada vez mais cedo os consultórios de cirurgia plástica, numa tentativa silenciosa de negar aquilo que é inevitável: a passagem dos anos.
O espelho sempre foi um instrumento da vaidade humana.
Houve um tempo em que a calvície era sinal de maturidade e masculinidade.
Hoje, quem pode recorre ao implante capilar.
A cirurgia plástica multiplicou subespecialidades, clínicas e hospitais cheios.
Há, naturalmente, sua face necessária e nobre — a cirurgia reparadora, essencial para grandes queimados, enxertos de pele e reconstruções que devolvem dignidade e sobrevivência.
Nas grandes cidades, bancos de pele humana tornaram-se indispensáveis nos hospitais de urgências.
Era recém-formado em Medicina quando sofri um grave acidente na ambulância em que seguia para prestar socorro.
Como sequela da fratura nasal, fiquei com desvio do septo, com indicação cirúrgica.
Nunca me incomodou o nariz torto que o espelho mostrava.
Estou com noventa e um anos e nunca corrigi esse detalhe.
Aliás, jamais me submeti a procedimentos estéticos — sou o único da família.
No meu quarto há um espelho herdado da família de minha esposa.
Muitas vezes esqueço sua presença.
Não tenho pressa de me observar nem de confirmar o avanço da idade.
Pelo contrário, sinto orgulho de ter chegado até aqui com a mente lúcida e o coração em paz.
Hoje compreendo que o espelho não serve apenas para revelar o que o tempo levou, mas sobretudo para lembrar o que ele permitiu viver.
E assim ele permanece ali, silencioso, mais objeto de memória do que de vaidade — refletindo não a juventude perdida, mas a história inteira que consegui atravessar.
Gabriel Novis Neves
02-09-2026