terça-feira, 12 de maio de 2026

GERÊNCIA DA CASA


Nada é mais complicado para um idoso do que cuidar, sozinho, do espaço onde mora.

 

Cito o meu exemplo.

 

Tenho três funcionárias fixas, sendo duas cuidadoras.

 

Um escritório de contabilidade acompanha toda a legislação trabalhista: boleto mensal, férias, décimo terceiro salário e eSocial.

 

Há também o Carnê-Leão mensal.

 

Pago o boleto mensal da Imobiliária que administra o aluguel de meus apartamentos.

 

Ainda pago os honorários mensais do escritório de contabilidade, inclusive para a elaboração do meu Imposto de Renda junto à Receita Federal.

 

O IPTU do apartamento onde moro vem em oito prestações.

 

Há a taxa mensal do condomínio.

 

Pago o paisagista, responsável pela manutenção do jardim da cobertura, que exige cuidados constantes.

 

Pago semanalmente a faxineira.

 

Há ainda o fisioterapeuta domiciliar, a lavanderia, o mercado, a farmácia, a energia elétrica, o Instituto dos Cegos e a Academia de Medicina.

 

Somam-se a isso os cuidados mensais com a saúde, com exames laboratoriais e imunoinfusões no hospital, além da manutenção do apartamento e de seus equipamentos.

 

Se eu não estivesse com a memória em ordem, não conseguiria dar conta de tantas obrigações.

 

Movimento-me entre três bancos comerciais e preciso estar atento aos extratos, às senhas, bem como à renovação de cartões de crédito e débito.

 

No início de julho, pedirei aos gerentes a prova de vida, exigida pelas fontes pagadoras, para provar que continuo vivo.

 

Com o avançar da idade, temo vir a adquirir alguma doença que me invalide para essas tarefas.

 

Pensando nisso, distribui aos meus três filhos a declaração dou meus bens.

 

Isso haverá de facilitar muito o trabalho deles, sobretudo porque, do jeito que minha saúde vai, não considero impossível alcançar o centenário.

 

Sou muito cuidadoso com a alimentação.

 

Não fumo, não bebo álcool e só saio de casa em cadeira de rodas, uma vez por mês.

 

Bala perdida não me encontrará.

 

E, contra as quedas, sigo sempre amparado por um braço amigo.

 

No fim de tudo, administrar a própria vida também é uma forma de coragem.

 

Gabriel Novis Neves

17-04-2026




CADA BISNETO TRAZ UM MUNDO DIFERENTE


Na mesma família, os bisnetos podem crescer em ambientes diversos, estudar em escolas diferentes, falar outros idiomas, viajar mais cedo e usar tecnologias impensáveis para seus avós.

 

Ainda assim, quando se aproximam, alguma coisa os une ao tronco antigo de onde vieram.

 

Cada bisneto traz um mundo diferente dentro de si, mas também carrega um traço invisível da família.

 

É bonito observar como o novo e o antigo se encontram sem briga, apenas convivendo.

 

Tenho essa sensação quando o bisneto nascido e criado Além-Atlântico vem passar as férias em Cuiabá.

 

Ele passa muito tempo distante, mas, quando se encontra com os primos, é como se a separação nunca tivesse existido.

 

Logo começam as brincadeiras comuns a todas as crianças, e o idioma da infância os aproxima com naturalidade.

 

Cada criança traz consigo o seu mundo, e é nele que vai aprendendo a viver.

 

Isso não impede que se adapte à crianças de outras partes do universo, com outras culturas, costumes e línguas diferentes.

 

E isso me encanta nelas!

 

São muito diferentes dos adultos, que, às vezes, mesmo dentro de um mesmo país, encontram dificuldades de relacionamento.

 

Os traços de família que netos e bisnetos carregam os unem de maneira forte e misteriosa.

 

Sem isso, seriam apenas ilustres desconhecidos ligados por traços genéticos.

 

Aliás, segundo a história, a humanidade veio de um mesmo tronco.

 

As guerras, os interesses e as vaidades foram separando os homens, o que não deveria acontecer dentro das famílias.

 

Embora os bisnetos sejam de mundos diferentes, trazem, invisíveis dentro de si, sinais de uma mesma origem.

 

E isso, na maioria das vezes, os mantém unidos.

 

Família significa união, embora, como toda a regra, também tenha suas exceções.

 

Assim como é lindo ver um bisneto brincando com outro bisneto, é doloroso imaginar um irmão morrendo sem falar com o outro.

 

Esse é um dos momentos mais tristes da instituição familiar.

 

São desastres silenciosos, rupturas dolorosas de troncos antigos que deveriam continuar florescendo.

 

Por isso, quando vejo meus bisnetos brincando juntos, vindos de mundos diferentes, sinto que a família ainda cumpre sua missão mais bonita.

 

A de lembrar que ninguém nasce sozinho.

 

Todos viemos de alguém.

 

E, enquanto houver uma criança chamando outra para brincar, ainda haverá esperança de união no coração da família.

 

Gabriel Novis Neves

28-04-2026




domingo, 10 de maio de 2026

CURIOSIDADE INFANTIL


As crianças pequenas perguntam sem cerimônia e, por isso mesmo, alcançam verdades que os adultos já aprenderam a contornar.

 

Um bisneto, com sua curiosidade limpa, pode transformar uma tarde comum em espanto e ternura.

 

Pergunta sobre a idade do bisavô, sobre objetos antigos, sobre retratos, sobre palavras esquecidas.

 

E cada pergunta parece abrir uma gaveta da memória.

 

Ao responder, o mais velho não ensina apenas: revive, reorganiza e repartilha a própria história.

 

Os pequenos têm ânsia de saber.

 

Por isso perguntam tanto.

 

Também ainda não conhecem a inibição que tanto atrapalha os adultos.

 

Casa barulhenta é casa com crianças.

 

Na pressa de saber sobre suas origens e tirar suas dúvidas, fazem perguntas em voz alta, muitas vezes todas ao mesmo tempo.

 

Não há censura nas perguntas dos bisnetos. Elas transformam nossos encontros em verdadeiras aulas de conhecimento e afeto.

 

Meus bisnetos perguntam sobre tudo o que veem e ouvem.

 

Procuram respostas nos mais antigos, deixando-nos, às vezes, desconcertados.

 

Fazem muitas perguntas sobre pequenos animais, que vivem tão perto deles em suas casas, algumas vezes dividindo o mesmo quarto e até a mesma cama.

 

Fui criado em casa sem animais, embora meu avô possuísse em sua residência um verdadeiro zoológico doméstico.

 

As crianças recebem muitos estímulos visuais, embora ainda desconheçam o significado de quase tudo.

 

Têm curiosidade sem limites.

 

Tudo o que encontram em minha casa aguça essa vontade de saber: álbuns de fotografias, objetos antigos, plantas, quadros de pintores, esculturas, móveis da minha biblioteca e do meu consultório de terapia visual.

 

Cada coisa vira motivo de espanto.

 

Cada detalhe pede uma explicação.

 

Não saberia viver sem crianças ao meu redor.

 

Sendo o primogênito de nove filhos, sempre tive crianças por perto, até minha ida para o Rio de Janeiro, onde fui estudar Medicina.

 

Na minha ausência, nasceu minha irmã caçula.

 

Talvez eu tenha escolhido a Ginecologia e a Obstetrícia para continuar perto do começo da vida.

 

As crianças sempre foram, para mim, uma fonte permanente de aprendizado.

 

Elas perguntam porque confiam.

 

E, sem saber, nos ensinam a responder com amor.

 

Gabriel Novis Neves

29-04-2026




SEMPRE COM AS MÃES


O Dia das Mães nunca passa em branco dentro da gente.

 

Mesmo quando a casa está cheia, as vozes se misturam, as crianças correm e a mesa parece festa, há sempre um instante silencioso em que a memória se senta ao nosso lado.

 

Minha mãe chamava-se Irene.

 

Foi uma mulher forte, longeva, dessas mães antigas que sustentavam a família mais pelo exemplo do que pelas palavras.

 

Sou o primogênito de nove filhos e aprendi cedo a dividir cuidados, afetos e responsabilidades.

 

Mamãe Irene carregava a casa inteira no olhar atento e nas mãos sempre ocupadas.

 

A outra mãe da minha vida foi Regina, mãe dos meus três filhos.

 

Regina partiu ainda em plena maturidade, quando a vida parecia ter muito caminho pela frente.

 

O destino, com suas estranhas coincidências, levou Irene e Regina no mesmo ano.

 

Perdi duas referências de afeto quase ao mesmo tempo.

 

A vida, porém, ensina silenciosamente que ninguém consegue viver sem mãe.

 

Talvez por isso eu tenha adotado minha filha única, Mônica, como mãe.

 

É ela quem cuida, aconselha, pergunta, protege e vigia discretamente meus passos.

 

O tempo vai mudando os papéis sem pedir licença.

 

E o amor aprende novas maneiras de permanecer vivo.

 

O Dia das Mães, para mim, é muito mais saudade do que tristeza.

 

Saudade das vozes, dos gestos simples, dos cuidados invisíveis, das presenças que ajudaram a construir a família que hoje vejo crescer à minha volta.

 

As mães não desaparecem completamente.

 

Continuam vivendo nos filhos, nos netos, nos bisnetos e na delicadeza dos cuidados que atravessam as gerações.

 

Talvez seja essa a verdadeira eternidade das mães.

 

Gabriel Novis Neves

10-05-2026






sexta-feira, 8 de maio de 2026

A JUVENTUDE QUE NOS DEVOLVEM


Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.

 

Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas.

 

Ao lado deles a vida parece menos pesada.

 

Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo.

 

Como é bom receber a visitas dos netos!

 

Tudo parece reflorir.

 

Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto.

 

Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto.

 

Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades.

 

Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude.

 

Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento.

 

Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica.

 

O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica.

 

Fica mais leve.

 

Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós.

 

Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo.

 

E é bom que seja assim.

 

O tempo não volta para trás.

 

O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos.

 

Nem todas as mudanças são boas.

 

Algumas assustam.

 

Outras encantam.

 

Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas.

 

Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda.

 

É como se a família ganhasse nova luz.

 

Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece.

 

Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio.

 

Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura.

 

Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva.

 

E agradeço.

 

Porque a juventude que os netos nos devolvem não está no corpo.

 

Está no coração.

 

E o coração, quando ama, nunca envelhece.

 

Gabriel Novis Neves

27-04-2026




A FAMÍLIA SEGUINDO ADIANTE


Uma das maiores recompensas da velhice é olhar para a família e perceber que ela seguiu adiante.

 

Os filhos construíram suas vidas, os netos abriram caminhos, os bisnetos chegaram trazendo novas promessas.

 

Nada foi perfeito, como nunca é.

 

Mas houve continuidade.

 

E essa continuidade tem uma beleza serena.

 

Ver os nossos caminhando com as próprias pernas, enfrentando o mundo com coragem, é como assistir, em paz, ao desdobramento de uma semente plantada há muito tempo.

 

Não me tornei rei do dinheiro fácil, tampouco acertei na loteria.

 

Mas tive uma recompensa maior: olhar para a minha família e perceber que ela avançou.

 

São duas gerações de profissionais liberais, trabalhadores, sem penduricalhos em órgãos governamentais.

 

Cada um seguiu seu caminho, com esforço próprio, sem dever favores a ninguém.

 

Isso, para mim, é um privilégio que dá vontade de viver.

 

Lamento apenas não ter tempo suficiente para ver meus bisnetos adultos, trazendo plenamente suas novas promessas.

 

A culpa é da biologia, que precisamos respeitar.

 

Gostaria de ver um bisneto na universidade.

 

Seria como enxergar aquela sementinha plantada lá atrás florescendo também no coração do biso.

 

Família unida não significa família igual.

 

Cada filho, cada neto, cada bisneto tem seu temperamento, suas escolhas, suas diferenças.

 

Cabe aos pais compreenderem essas diferenças e educarem para o mesmo objetivo: seguir em frente com dignidade.

 

Parece coisa simples, mas é difícil de construir, de entender e, muitas vezes, de valorizar.

 

Para uma família simples, subir na vida exige educação, trabalho e dedicação.

 

Nada vem pronto.

 

Nada cai do céu.

 

É preciso furar a onda do desenvolvimento com esforço próprio, honestidade e exemplo.

 

Creio no exemplo dos pais como força maior nessa construção.

 

Os filhos observam mais do que escutam. Aprendem no silêncio da convivência, na disciplina diária, na forma como os mais velhos enfrentam as dificuldades sem perder a decência.

 

Por isso, quando vejo minha família seguindo adiante, sinto que alguma coisa valeu a pena.

 

Não é vaidade.

 

É gratidão.

 

A vida passa, mas a família continua.

 

E, quando continua pelo caminho do trabalho e da dignidade, deixa no coração do velho uma alegria mansa.

 

Um orgulho bonito de carregar.

 

Gabriel Novis Neves 

01-05-2026




quarta-feira, 6 de maio de 2026

HERANÇA DE AMOR


Há emoção difícil de explicar quando os menores repetem nomes da família.

 

Chamam o avô, o bisavô, identificam parentes e começam a compreender, ainda de forma vaga, que pertencem a uma história maior do que eles.

 

Ao ouvir esses nomes na boca infantil, sentimos que a memória ganhou novo abrigo.

 

O que antes parecia apenas passado reaparece no presente com voz nova.

 

E assim a família segue, não apenas no sangue, mas também na lembrança.

 

Dos meus bisnetos, só a caçula de apenas dois anos me chama de biso, e não pelo meu nome próprio.

 

Fico alegre em saber que ela já me reconhece, assim como reconhece tias, tios, primas e primos.

 

Também a pedagogia infantil é bem diferente dos tempos antigos.

 

Outrora, comemorávamos nossos aniversários em casa, com tudo preparado pela mamãe.

 

Hoje, existem empresas especializadas para organizar o aniversário dos pequenos, com palhaços, brinquedos e tema da festa de acordo com a idade do homenageado.

 

Piquenique foi o convite do aniversário do meu último bisneto.

 

Eles ganham muitos presentes comprados nas lojas da cidade.

 

Quando eu era criança, tudo era mais simples, e os presentes, em sua maioria, eram artesanais.

 

Os antigos estavam acostumados com crianças de todas as idades e não achavam estranho ser chamados de pai, avô ou bisavô.

 

Confesso que senti algo especial com a chegada do primeiro neto.

 

Tirei fotografia, escrevi poesia, respondia com ar desconcertado quando me perguntavam sobre ele.

 

Imagine a minha felicidade quando aquela criaturinha descobriu que eu era seu avô!

 

Melhor ainda foi quando ela se entregou em meus braços, demonstrando segurança e carinho.

 

Com os bisnetos, a emoção voltou renovada.

 

Eles chegam depois de uma longa caminhada da vida, como flores tardias no jardim da família.

 

Não sabem ainda o que representam, mas trazem consigo a continuidade do nosso nome, dos nossos afetos e da nossa história.

 

Cada vez que uma criança pronuncia biso, alguma coisa dentro de mim se ilumina.

 

É a vida dizendo, com voz pequena, que ainda há futuro.

 

E assim a família cresce na lembrança, no sangue e no amor.

 

Gabriel Novis Neves 

01-05-2026