Abri o celular e encontrei uma foto antiga.
Por um instante pensei em apagá-la.
Não pela imagem, mas pelo que ela trazia de volta.
Fiquei olhando alguns segundos antes de decidir.
Guardar ou excluir?
Há lembranças que ocupam espaço, mas também sustentam quem somos.
No meu celular há inúmeras fotos que preciso apagar, pelo peso que representam no aparelho.
É sempre uma escolha difícil.
Gosto de guardar todas as lembranças que fizeram parte da minha vida — as boas e as nem tanto.
Com a facilidade da câmera no celular, acumulei centenas delas.
Costumo abrir uma pasta no notebook para arquivá-las e, assim, aliviar a memória do telefone.
É uma espécie de mudança silenciosa: transfiro imagens como quem transfere móveis de uma casa antiga para outra menor.
Antes do celular, acumulei inúmeros álbuns impressos.
A foto mais antiga deve ser de quando eu tinha quatro anos.
O tempo a deteriorou, mas as tecnologias modernas, em estúdios apropriados e com técnicos competentes, conseguiram restaurá-la com dignidade.
A fotografia sustenta quem somos.
Os antigos, diante dos retratos da família, usavam a palavra ‘traços’ para falar de lembrança e semelhança.
Quando criança ouvi muitas vezes de pessoas que não conheceram meus pais, que eu tinha os traços dele ou dela.
Hoje tenho um bisneto muito parecido comigo.
Não tenho coragem de descartar uma única foto sua.
Entre todos os álbuns, guardo com carinho especial as imagens da lua de mel, em Friburgo, no hotel Sans Souci.
Ali o tempo parecia caminhar devagar.
Agora ele corre — e só para frente —deixando saudades pelo caminho.
Na minha família de nove irmãos, conservo fotos de épocas diferentes, todos reunidos, exalando felicidade.
Do grupo com meus pais, quatro já partiram impossibilitando nova fotografia.
Talvez por isso eu hesite diante do botão ‘apagar’.
Algumas fotos não ocupam memória ocupam eternidade.
Gabriel Novis Neves
18-02-2026