O café tomado sem pressa tem gosto diferente.
Não é apenas a bebida quente na xícara, mas o tempo que lhe dedicamos.
Nos dias comuns, o café muitas vezes é engolido às pressas.
Nos dias de descanso, transforma-se em companhia.
Pode trazer lembranças da infância, da casa dos pais e das manhãs antigas, quando tudo parecia começar com mais calma e menos obrigações. O cérebro do idoso é um território povoado de memórias.
Tudo o que vivemos na infância permanece guardado em algum lugar da alma.
Na velhice, poucas coisas são tão agradáveis quanto revisitar os caminhos já percorridos.
São ruas, pessoas, vizinhos e ruídos que chegam de muito longe.
Nada desaparece por completo; apenas adormece por algum tempo.
Às vezes, um aroma desperta tudo novamente.
O cheiro da terra molhada, por exemplo, ainda me transporta para os dias da infância e me faz um bem danado.
Foram tempos em que não havia pressa.
O café tomado sem pressa tem gosto diferente porque carrega junto as lembranças da vida.
Na velhice, o tempo volta a caminhar devagar, como nos primeiros anos da existência.
E talvez por isso ela tenha encantos que a juventude desconhece.
Enquanto escrevo, penso com frequência na rua de Baixo, na Voluntários da Pátria, na Escola Modelo Barão de Melgaço, na praça Ipiranga e na inesquecível professora Oló.
Eu não tinha pressa, mas aqueles quatro anos passaram como um sopro.
Meus colegas do grupo escolar já partiram, e não tenho mais com quem confirmar certas lembranças.
Depois vieram o colégio dos padres, o curso de admissão e os quatro anos de ginásio.
Desse período restou apenas uma fotografia e a minha memória para contar a história.
Hoje compreendo que a vida inteira passou depressa demais.
Mas o café da manhã continua me ensinando que a felicidade mora justamente nos momentos em que não temos pressa.
Talvez envelhecer seja isso: aprender a saborear o tempo como se saboreia um bom café.
Gabriel Novis Neves
04-06-2026