Quem viveu na Cuiabá das ruas sem pavimentação conhece um perfume impossível de esquecer.
Bastavam os primeiros pingos de chuva para surgir o cheiro da terra molhada, anunciando o alívio do calor e a chegada de momentos mais amenos.
As crianças corriam para as janelas, os adultos levantavam os olhos para o céu e a cidade parecia respirar diferente.
Era uma sensação simples, mas capaz de transformar o humor das pessoas.
Algumas lembranças permanecem vivas justamente porque chegam acompanhadas de aromas que nunca abandonam a memória.
Hoje moro em uma rua pavimentada, no vigésimo andar de um edifício.
Muitas vezes fico sabendo que choveu pela internet, sem ouvir o tamborilar das gotas nem sentir o perfume que subia da terra encharcada.
Aquele aroma dos pingos de chuva caindo sobre o chão batido da minha infância continua guardado dentro de mim, como uma fotografia invisível que o tempo não conseguiu apagar.
Como gostaria de compartilhar com meus netos e bisnetos o cheiro da chuva no chão de terra, tão diferente dos perfumes artificiais que nos cercam hoje!
Depois das pancadas de chuva que refrescavam a cidade, nada era mais prazeroso para os meninos do que correr para o córrego da Prainha, levando consigo a alegria de viver e aquele perfume inesquecível espalhado pelo ar. Às vezes me pergunto por que crescemos, por que as cidades se modernizam, se tantas coisas simples e belas acabam ficando para trás.
Eu daria muito para voltar a ser criança por algumas horas e caminhar novamente pelas ruas de chão batido da minha pequena Cuiabá.
Recordo as crianças nas janelas observando a chuva cair, o calorão desaparecendo aos poucos, as conversas do meu pai sobre as enchentes do rio Cuiabá e a movimentação que a chuva provocava na cidade.
O bar ficava cheio.
As mesas eram ocupadas por fregueses que aproveitavam a pausa forçada para conversar.
Muitas visitas acabavam ficando para o jantar, enquanto esperavam a chuva passar.
Já o ponto de taxi ao lado do bar esvaziava-se rapidamente, levando para casa aqueles que não queriam enfrentar as ruas molhadas.
Tudo isso pertence ao passado.
Mas o perfume da terra úmida, despertado pelas primeiras gotas de chuva, continua intacto.
Não existe mais nas ruas da cidade como antigamente.
Hoje ele vive apenas na memória.
E talvez seja justamente por isso que tenha se tornado tão precioso.
Gabriel Novis Neves
18-06-2026