domingo, 8 de março de 2026

PASSOS MAIS CURTOS


Percebi que meu passo ficou mais curto.

 

Não foi de um dia para o outro.

 

Apenas aconteceu.

 

Continuo chegando aos mesmos lugares, mas levo mais tempo.

 

Aprendi que a pressa já não me serve como antes.

 

Assim é o envelhecer, tão estudado nos tempos atuais!

 

Muitos insistem em tratá-lo como doença. Engano.

 

Envelhecer é prova de resistência.

 

Só envelhece quem teve saúde suficiente para sustentar a longa caminhada.

 

Os mais frágeis ficam pelo caminho da vida.

 

Com o passo mais curto, compreendo que meu aparelho locomotor trabalhou muito.

 

Agora exige paciência — não heroísmo.

 

Em compensação, o cérebro segue desperto, com memória de guri.

 

Recordo fatos antigos e recentes com nitidez, o que facilita meu ofício de escrever, sentado e sem pressa.

 

Quando o passo encurtou, abdiquei das longas caminhadas diárias.

 

Também das academias, das clínicas de fisioterapia com seus exercícios doloridos e dos consultórios ortopédicos.

 

As infiltrações nos joelhos foram trocadas por um braço amigo nas caminhadas breves.

 

Tudo segue a genética de meu pai: vida longa e passo curto.

 

No tempo dele não havia fisioterapeuta —havia o massagista do time de futebol, e aquilo era sofrimento.

 

Descobri que, ficando em casa, não sinto falta de sair.

 

Saio apenas uma vez por mês.

 

Deixo o quarto em cadeira de rodas, por comodidade.

 

Na garagem, o motorista e a cuidadora me acompanham até o hospital, onde recebo a infusão de imunoglobulinas.

 

Não frequento a casa dos filhos e netos.

 

Meus passos curtos bastam para ir de um cômodo a outro do apartamento, sempre apoiado no braço amigo da cuidadora.

 

Em breve, sairei para representar minha esposa, falecida há vinte anos, na inauguração de uma ala com seu nome no novo Hospital Central de Cuiabá.

 

Ficar lúcido em casa — repito — é sinal de saúde.

 

O passo pode ter encurtado.

 

Mas a consciência continua caminhando longe.

 

Gabriel Novis Neves

27-02-2026




sábado, 7 de março de 2026

CHEGADA AO RIO DE JANEIRO


Chegar ao Rio de Janeiro para estudar Medicina foi como atravessar uma fronteira invisível entre dois mundos.

 

Saí da calma de Cuiabá para encontrar uma cidade vibrante, barulhenta e cheia de movimento.

 

Embarquei em Cuiabá num avião DC3.

 

A decolagem foi às seis horas da manhã.

 

Fizemos escalas em várias cidades e só pousamos no Aeroporto Santos Dumont ao cair da noite.

 

Meu tio Sinhô, irmão caçula do meu pai, e meu primo Carlos Alberto estavam à minha espera. Fui jantar na casa dele, no final do bairro Leblon.

 

O jantar foi servido por um maître e um garçom uniformizados.

 

Eu, que mal sabia lidar com tantos talheres, fiquei constrangido.

 

Resultado: praticamente não jantei.

 

Curiosamente, não me lembro de nenhum passageiro que viajou comigo naquele avião.

 

Deixei o casarão da rua do Campo por um pequeno quarto de pensão.

 

Morei em várias pensões, em quatro bairros diferentes, até retornar a Cuiabá, já casado com uma argentina-brasileira.

 

As ruas pareciam nunca dormir, e as pessoas caminhavam com pressa, como se estivessem sempre atrasadas para algum compromisso importante.

 

No início, tudo me causava surpresa: os bondes, os prédios altos, o mar que eu via pela primeira vez com tanta proximidade.

 

Aos poucos fui entendendo que aquela cidade intensa também faria parte da minha formação.

 

Foi lá que me tornei médico.

 

Foi também lá que me casei com a mãe dos meus filhos, antes de regressar para exercer a profissão em minha cidade natal.

 

Divido a minha permanência no Rio em três períodos: a conclusão do segundo grau no Colégio Anglo Americano e o curso preparatório para o vestibular; os seis anos da Faculdade de Medicina; e um terceiro período enfrentando concursos e trabalhando em hospitais.

 

Cada etapa trouxe um novo aprendizado.

 

Nunca adoeci.

 

Lembro-me do meu primeiro mergulho nas águas salgadas da praia de Copacabana —curioso, mas sem grande emoção.

 

O que realmente me impressionou foi o movimento das ruas do centro, especialmente da elegante rua do Ouvidor.

 

Mas nunca esqueci a sensação daquele primeiro dia.

 

Era o começo de uma longa travessia de vida.

 

E toda travessia começa assim: com um jovem do interior chegando a uma cidade imensa — e sem saber que ali começava o seu destino.

 

Gabriel Novis Neves

05-03-2026




sexta-feira, 6 de março de 2026

SENHAS NA MEMÓRIA


Criar uma senha parece um gesto simples.

 

O problema começa depois, quando ela insiste em ser lembrada.

 

A senha não tem rosto nem barulho.

 

Não avisa que chegou, não pede licença.

 

Apenas surge na tela, exigente, fria, impessoal: digite sua senha.

 

Digito.

 

Erro.

 

A máquina não se comove.

 

Não quer saber que acordei cedo, se a letra está trêmula ou se a memória anda fazendo pausas.

 

Ela só aceita acertos.

 

O resto é exclusão temporária do mundo.

 

Antigamente, bastava dizer o nome.

 

Às vezes nem isso.

 

Todos se conheciam.

 

A porta abria, a conversa começava e ninguém perguntava por códigos secretos.

 

Hoje, para entrar no banco, no telefone no e-mail ou até na própria fotografia, é preciso provar que ainda somos nós.

 

E a prova é uma sequência de números, letras maiúsculas, sinais e confirmações repetidas.

 

Tenho tantas senhas que já não sei qual é de quê.

 

São parecidas, quase irmãs, mas não idênticas.

 

Se errar uma letra, tudo desaba.

 

O mais curioso é que a senha fui eu quem criou.

 

E esquecê-la é como não reconhecer a própria caligrafia ou estranhar o próprio reflexo no espelho.

 

Quando erro duas vezes, sou advertido.

 

Quando erro mais uma, sou bloqueado.

 

Fico do lado de fora, olhando para a tela como quem encara uma porta fechada, sem campainha e sem chave reserva.

 

Depois de algum esforço, consigo recuperar o acesso.

 

A vitória é pequena, mas reconfortante.

 

Sorrio sozinho, como quem reencontra um objeto perdido.

 

No fundo, a senha me ensina algo simples: envelhecer é reaprender a conviver com o esquecimento — e aceitar que nem tudo o que é importante cabe na memória.

 

Gabriel Novis Neves

10-12-2025




quinta-feira, 5 de março de 2026

ROUPAS QUE NÃO SERVEM MAIS


Experimentei uma roupa antiga.

 

Não serviu.

 

Ri sozinho diante da constatação.

 

O corpo muda, a vida muda, e o armário precisa acompanhar.

 

Há coisas que deixam de caber — e não apenas no corpo.

 

Chamei meu irmão caçula e afilhado, muito parecido comigo, apenas quinze anos mais novo.

 

Abri o guarda-roupas para que escolhesse as camisas que já não me serviam.

 

Fiquei deitado na cama enquanto ele fazia a seleção.

 

Trouxe cerca de vinte camisas, quase sem uso.

 

A cuidadora, que o ajudava, dobrou cada uma com carinho e colocou tudo num grande sacolão de plástico.

 

Sorridente, disse que em casa provaria as camisas diante da esposa, para o julgamento final.

 

Mais tarde, satisfeito com a escolha, ligou por vídeo para mostrar a camisa que usará na festa dos oitenta anos da irmã e do cunhado.

 

Aquela, creio, nem cheguei a estrear.

 

Há quase oito anos, sem sair praticamente de casa, meu uniforme passou a ser simples: calção e camiseta.

 

Natal, aniversários, Dia dos Pais, do avô, do bisavô —e até lembranças de viagens — sempre chegam em forma de camisas novas.

 

Já daria para abrir um pequeno brechó com o que permanece guardado sem uso.

 

Guardar roupa sem vestir é uma forma silenciosa de desperdiço.

 

De tempos em tempos faço o que fiz naquele dia: reparto o excesso.

 

Quando meu irmão saiu carregando o sacolão, senti um alivio inesperado, como se tivesse retirado um peso das costas.

 

Lembrei-me então da velha mala de papelão, reforçada por tiras de madeira, com a qual viajei para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.

 

Dentro dela cabiam apenas meia dúzia de camisas e duas calças.

 

E, curiosamente, foi quando tinha menos roupas que me senti mais leve para viver.

 

Porque, no fim, não são as roupas que nos servem — somos nós que aprendemos a caber na vida que ficou.

 

Gabriel Novis Neves

23-02-2026




quarta-feira, 4 de março de 2026

DEUS AJUDA QUEM CEDO MADRUGA


Acordo mais cedo do que gostaria.

 

O corpo desperta antes do relógio.

 

A casa ainda dorme.

 

Gosto desse tempo silencioso da madrugada

 

Envelhecer também é descobrir novos horários dentro do mesmo dia.

 

Sempre fui madrugador.

 

De uns tempos para cá o corpo pede cama até quase a hora do almoço.

 

É como se houvesse uma inversão discreta nos ponteiros internos.

 

Só fico produtivo no período da tarde, quando desperto de fato.

 

A cuidadora que sempre trabalhou com idosos me animou.

 

Disse que eles costumam passar quase toda a parte da manhã na cama.

 

Parecem recém-nascidos que gostam de trocar o dia pela noite.

 

Atualmente passo mais da metade do dia com o corpo pedindo cama.

 

Descobrir novos horários dentro do mesmo dia é uma verdade.

 

Desde que nascemos, não somos mais os mesmos.

 

Sofremos mudanças, não só nos nossos horários, mas também nos nossos hábitos e comportamentos.

 

Tantas coisas que gostava e não gosto ou posso mais!

 

Até a paixão pelo futebol está arrefecida, não contando com os noticiários da televisão que não suporto mais, muito pela parcialidade ideológica do seu jornalismo.

 

Hoje gostaria de despertar com o dia nascendo, e com mais tempo para gozar.

 

A culpa debito ao meu aparelho locomotor que dificulta minha saída para longas caminhadas, um exercício de sociabilidade.

 

Encontro com amigos e velhos conhecidos, sempre com uma conversa na ponta da língua.

 

Ficava sabendo das notícias da cidade e das estúpidas guerras no Oriente Médio, de Israel e Estados Unidos da América do Norte contra o Irã. 


As batalhas são travadas à distância; drones com armas atômicas, misseis atingindo os alvos com precisão milimétrica.

 

Hoje, a internet do computador do escritório, me passa essas notícias com imagens.

 

O mundo cabe no laptop — e eu, cada vez mais, entre a cama e a cadeira.

 

Percebo que o sedentarismo me rouba movimento, mas não me rouba consciência.

 

O dia começa mais cedo — e talvez isso seja apenas o convite para vivê-lo de outro modo.

 

Se o corpo desacelera, a alma continua acordando antes do relógio.

 

Gabriel Novis Neves

03-03-2026




terça-feira, 3 de março de 2026

ENGULA AS PALAVRAS!


Durante uma conversa quase respondi de forma impulsiva.

 

A frase subiu pronta, inteira, querendo sair.

 

Mas eu a engoli.

 

Fiquei em silêncio.

 

Minutos depois, percebi que fiz bem.

 

Nem toda verdade precisa nascer no primeiro impulso.

 

‘Em boca fechada não entra mosca’ — era o provérbio preferido do meu pai.

 

Homens de poucas palavras, raramente respondiam de imediato às perguntas que lhe faziam. 

 

Na infância eu não entendia; hoje reconheço ali uma forma silenciosa de sabedoria.

 

Responder impulsivamente quase nunca é aconselhável.

 

Muitas vezes evitamos dissabores simplesmente deixando certas frases repousarem dentro de nós.

 

Quantas amizades já foram preservadas pelo cuidado com as respostas!

 

Frases engolidas não faz mal à saúde — ao contrário, costumam proteger relações.

 

Já presenciei conflitos graves nascerem de palavras ditas sem freio.

 

Às vezes, basta uma resposta atravessada para mudar destinos.

 

O calado quase sempre, permanece em paz com os que o cercam.

 

Nunca fui impulsivo, e isso me ajudou muito na minha vida.

 

Aprendi cedo a ouvir mais do que falar.

 

Muitas vezes passei por ingênuo — quase um bobo — numa espécie de teatro consciente.

 

Enquanto os outros se apressavam, eu aguardava.

 

E foi assim que consegui implantar projetos importantes e alcançar bons resultados.

 

Há quem chame isso de estratégia.

 

Outros, de prudência.

 

Prefiro chamar de disciplina.

 

Engolir a frase que está na ponta da língua exige esforço.

 

É um exercício diário de domínio próprio.

 

Nem toda a verdade precisa ser dita imediatamente; algumas amadurecem melhor no silêncio.

 

 Nas negociações, inclusive, é útil ter ao lado alguém impulsivo — desde que tudo esteja previamente combinado.

 

O silêncio também fala, e às vezes diz mais do que qualquer argumento.

 

Hoje entendo: ficar calado não é fraqueza.

 

É apenas escolher o momento certo de falar.

 

E, muitas vezes, a paz começa exatamente na palavra que decidimos não dizer.

 

Gabriel Novis Neves

22-02-2026




segunda-feira, 2 de março de 2026

REMÉDIOS NA HORA CERTA


A cuidadora organiza os remédios do dia com atenção.

 

Cada comprimido tem seu horário e sua função.

 

Não reclamo.

 

É o preço da continuidade.

 

Cuidar do corpo virou tarefa diária, quase um ritual de respeito à vida.

 

Sempre fui saudável.

 

Comecei a tomar remédios depois dos cinquenta anos.

 

Ao longo do tempo, fui fazendo pequenos ajustes na medicação.

 

Tudo começou para controlar uma pressão arterial levemente elevada.

 

Quantos mais anos acumulei, maior se tornou o número de comprimidos.

 

Hoje memorizo os horários, mas a administração ficou sob responsabilidade da cuidadora de plantão.

 

No café da manhã são onze comprimidos. 

 

Assim prossigo no almoço, no lanche, antes do jantar — geralmente um prato de sopa de legumes com carne moída de boi ou frango batida no liquidificador—e, por fim, ao deitar.

 

Respeito a vida cuidando do meu corpo, tomando os remédios receitados pelos especialistas.

 

Enquanto isso, meu bisneto de quatro anos realizou uma endoscopia digestiva alta — exame esse que fiz apenas depois dos setenta.

 

Recentemente ofereci-me como voluntário para servir de ‘cobaia’ em uma bateria de testes conduzidos por uma psicóloga, interessada em avaliar minha saúde mental.

 

Ela concluiu uma pós-graduação na área, adquiriu o material necessário e precisava de alguém para validar seus conhecimentos.

 

Avisou-me que o processo será demorado; talvez sejam necessárias três manhãs de avaliações.

 

Depois saberei mais sobre o funcionamento global do meu cérebro.

 

Farei uma avaliação neuropsicológica.

 

Muitas pessoas convivem com cansaço mental, dificuldade de foco ou sobrecarga emocional sem compreender exatamente o que acontece.

 

A avaliação ajuda a entender isso de forma técnica e estruturada.

 

Quanto ao meu cérebro, descobri ter disautonomia, em duas avaliações por ultrassonografia cerebral, realizadas

 

em anos diferentes, nos dois hospitais mais conhecidos de São Paulo.

 

Em Cuiabá ainda não dispomos desse aparelho nem de neurologista habilitado para esse exame.

 

Fiz fisioterapia específica, importei medicamentos e os utilizei por anos, em doses máximas.

 

É uma doença sem cura, mas que não mata.

 

Provoca sintomas neurológicos ligados ao equilíbrio, dificultando minha locomoção.

 

A psicóloga que iniciou o estudo do meu cérebro já conhece esse distúrbio.

 

Espero que, ao menos, consigamos diminuir os sintomas.

 

Porque envelhecer também é isso: aprender a tomar o remédio na hora certa — e continuar confiando na vida.

 

Gabriel Novis Neves

01-03-2026