quinta-feira, 9 de abril de 2026

DIAS DE MAIOR ESFORÇO


Havia dias em que a rotina da faculdade se estendia até muito tarde.

 

Entre aulas, estudos e leituras, o tempo passava depressa.

 

Quando eu voltava para a pensão, a noite já havia tomado conta da cidade.

 

O cansaço vinha, mas também a sensação de ter avançado um pouco mais na longa caminhada da formação médica.

 

Antes de dormir, ainda pensava nas tarefas do dia seguinte.

 

A vida de estudante era exigente, mas cheia de esperança.

 

Quando começamos a operar urgências e emergências no Pronto-Socorro, com bons resultados, voltávamos para a pensão aliviados e mais seguros do caminho percorrido.

 

Na Maternidade Pro Matre, o aprendizado seguia em ritmo promissor.

 

O diretor clínico chegou a me convidar para continuar como médico residente, assumindo os plantões de segunda-feira na ausência do titular.

 

Era a esperança começando a ganhar forma.

 

Mas eu queria me preparar melhor para exercer a profissão no interior.

 

Por isso, fui ser médico plantonista no Hospital e Maternidade Álvaro Dias, em Jacarepaguá, então ainda com ares de zona rural do Rio de Janeiro.

 

Ali vivi um episódio que nunca esqueci.

 

Durante um plantão de vinte e quatro horas, acompanhei uma senhora internada há dias em coma diabético.

 

Ao lado dela, o marido permanecia sentado, silencioso, atento a tudo.  

 

Quando fui passar o caso ao colega que me renderia, encontrei a paciente consciente, recuperada e agradecida.

 

O marido, satisfeito, entregou-me seu cartão e pediu que eu lhe telefonasse qualquer dia, menos às segundas-feiras, sua folga.

 

Demorei a ligar.

 

Quando o fiz, disse apenas que queria saber notícias de sua esposa.

 

Ele, muito cordial, respondeu que ela estava bem e então se identificou: era o responsável pela boate do Hotel Copacabana Palace.

 

Convidou-me para jantar, levando minha namorada e um casal de amigos, e assistir ao show em homenagem a Lamartine Babo, produção de Carlos Machado.

 

Fomos.

 

Jantamos e assistimos ao espetáculo perto da mesa do chamado Rei da Noite.

 

Voltei outras vezes, sempre recebido com distinção.

 

Talvez por encantos assim, fui adiando por quase quatro anos meu retorno a Cuiabá.

 

Voltei casado com Regina, já com trinta e cinco semanas de gravidez.

 

Nossa filha nasceu de parto normal na antiga Maternidade de Cuiabá.

 

Apesar da dor da doença traiçoeira que, tantos anos depois, a levou de mim, tudo valeu a pena.

 

Valeu o esforço.

 

Valeu a vida.

 

Gabriel Novis Neves

04-04-2026




quarta-feira, 8 de abril de 2026

JUBILEU DE OURO DO NDIHR


O Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da nossa Universidade Federal de Mato Grosso completa hoje cinquenta anos de criação.

 

A Magnífica Reitora, Professora Doutora Marluce Aparecida Souza e Silva, atenta à preservação da memória institucional, organizou uma série de solenidades alusivas à data.

 

Impossibilitado de comparecer à abertura, gravei um breve depoimento audiovisual, que será exibido no início das comemorações desse Jubileu de Ouro.

 

Recordo-me do surgimento do Núcleo, quase por acaso, durante uma viagem a Brasília, ao lado da professora Maria de Lourdes Delamônica Freire.

 

Ex-aluna da UnB, ela soube da presença de uma pesquisadora portuguesa interessada na história de Cuiabá e sugeriu que a UFMT acolhesse a pesquisa.

 

Assim veio a professora Maria Cecilia Guerreiro de Souza, que se mudou para Cuiabá e, junto aos nossos pesquisadores, deu origem ao NDIHR, hoje cinquentenário.

 

Não sou historiador, mas sempre estive próximo da história.

 

Morei na rua do Campo, entre o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, e as residências dos historiadores Estevão de Mendonça e seu filho Rubens de Mendonça, até partir para o Rio de Janeiro, onde estudei Medicina.

 

Em 1968, como Secretário Estadual de Educação no governo de Pedro Pedrossian, vivi um episódio que nunca esqueci.

 

Certa tarde, sem aviso, recebi em meu gabinete o Padre Wanir Delfino César, do Instituto Histórico de Mato Grosso.

 

Foi direto ao ponto:

 

— Precisamos salvar a certidão de nascimento de Cuiabá.

 

Referia-se aos Anais da Fundação de Cuiabá.

 

Contou-me que um amigo restaurador da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, havia examinado o documento e garantira ser possível recuperá-lo, embora o trabalho fosse delicado e demorado.

 

O padre precisava de cinco mil reais.

 

Naquele tempo, era o dobro do salário de um secretário de Estado.

 

Falei com o governador, que autorizou a quantia.

 

O padre Wanir não era homem de papéis nem de prestação de contas — era homem de missão.

 

Meses depois, num 7 de setembro, às três da tarde, entregou-me o documento restaurado na sede da Rádio Cultura, próxima à igreja do Senhor dos Passos.

 

A cerimônia foi transmitida ao vivo.

 

Levei-o para casa e, sem saber onde guardá-lo, ouvi a recomendação mais simples e segura:

 

— No lugar mais protegido que tiver.

 

Ali ficou, por anos, no fundo de um armário, atrás de cobertores, como um tesouro silencioso.

 

Com a criação do NDHIR, entreguei-o aos cuidados dos nossos pesquisadores.

 

Hoje, ao celebrar cinquenta anos dessa instituição, sinto que aquele gesto antigo encontrou seu destino.

 

A memória, quando bem guardada, também sabe esperar.

 

Gabriel Novis Neves 

09-04-2026




terça-feira, 7 de abril de 2026

SAUDADE DE CUIABÁ


Mesmo encantado com a intensidade do Rio de Janeiro, havia momentos em que a saudade de Cuiabá surgia com força inesperada.


Bastava uma tarde mais silenciosa ou uma carta recebida de casa para que as lembranças aparecessem com nitidez.


Eu me recordava das ruas conhecidas, do calor do nosso sol e das conversas em família.


Aquela distância geográfica era também um aprendizado emocional: para crescer, muitas vezes precisamos nos afastar, ainda que temporariamente, das nossas raízes.


Sentia saudade dos meus pais, dos irmãos, dos ruídos e da calmaria da minha cidade.


Durante o dia as aulas preenchiam o tempo e ajudavam a distrair o pensamento.


Mas, à noite, no quarto de pensão, era quando a danada da saudade chegava.


A gente sente saudade — e como é difícil defini-la!


Poetas e compositores da nossa música popular brasileira sempre souberam tratar bem desse sentimento.


O movimento da bossa nova quase esgotou o tema.


Mas, muito antes dela, quantas canções já falavam da saudade com emoção!


Gosto da definição de Alceu Amoroso Lima: — “Saudade é a presença da ausência.”


E, para senti-la, nem sempre a distância é necessária.


Podemos estar ao lado de alguém e ainda assim sentir saudade de um tempo que já não volta. Isso acontece, por exemplo, nos relacionamentos que não deram certo.


Mas a saudade de casa é diferente de todas as outras.


Ela traz de volta o corredor onde jogávamos botão.


A sala de visitas com o telefone preto preso à parede.


O quarto escuro iluminado por uma telha de vidro.


A varanda com suas cadeiras de balanço e a trepadeira florida protegendo do sol da tarde.


A copa, onde fazíamos as refeições e bebíamos água do pote.


A cozinha com o forno de tijolos.


A área cimentada, com o tanque de onde tirávamos água para o banho.


O portão que levava ao quintal e dava saída para outra rua.


Lembrar da casa da minha infância — que já não existe — é revisitar um mundo inteiro guardado dentro de mim.


E é ali que a saudade, em silêncio, continua morando.


Gabriel Novis Neves 

21-03-2026


Rua Engenheiro Ricardo Franco 
(Rua do Meio)


segunda-feira, 6 de abril de 2026

AMOR, ETERNO AMOR


Foi ela a responsável pela minha permanência em Cuiabá como médico. 

 

Se não fosse a barata voadora, não faço a mínima ideia de como, nem onde, estaria hoje. 

 

A história foi assim: 

 

Naquela noite silenciosa, da nossa chegada a Cuiabá, a lampadazinha do abajur do meu quarto de dormir foi desligada. 

 

As dúvidas sobre a minha decisão de voltar para Cuiabá começaram a me consumir. 

 

Os pensamentos iam e vinham, insistentes, como se cobrassem uma resposta que eu ainda não tinha. 

 

De repente, uma barata voadora entrou, em voo desorientado, na escuridão do quarto. 

 

Ouvi o barulho seco do seu corpo batendo no guarda-roupa. 

 

Minha companheira, assustada, acendeu o abajur. 

 

Expliquei-lhe o motivo do ruído, que hoje chamo de barulho da salvação. 

 

Ali estava, no chão, a barata voadora. 

 

Aquele instante despertou em Regina um misto de medo e solidariedade. 

 

Em mim, nasceu a certeza de que eu havia escolhido o caminho certo. 

 

Enquanto conversávamos, a barata desapareceu. 

 

Gostaria, se pudesse, de demonstrar a ela o meu carinho e o meu agradecimento pela ajuda prestada no momento em que eu mais precisava. 

 

Jamais esqueci o som do seu choque no guarda-roupa. 

 

A mãe dos meus filhos, presente em todos os momentos delicados que a vida nos ofereceu, está ausente há vinte anos. 

 

Tenho certeza de que, no céu, Regina estará lendo esta declaração de gratidão à barata voadora. 

 

Foi ela, afinal, que a fez decidir adotar Cuiabá para sempre. 

 

Era o grande desafio do desconhecido. 

 

 —Eu nunca soube que barata voasse – disse Regina. 

 

Foi aquele episódio que me revelou, de uma vez por todas, a solidariedade, a coragem e a confiança da minha jovem companheira —qualidades que a acompanharam por toda a nossa vida em comum. 

 

Sentimentos que só florescem, de verdade, entre pessoas que se amam.

 

E até uma barata, naquela noite, ajudou o amor a escolher seu destino.

 

Gabriel Novis Neves

07-04-2026




domingo, 5 de abril de 2026

CAFÉ DA MANHÃ NA PENSÃO


Nos meus tempos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro, o dia começava cedo na pensão onde eu morava.

 

O café da manhã era simples, mas sempre bem-vindo antes das longas horas de aula.

 

A mesa reunia estudantes de diferentes cursos, ainda meio sonolentos, preparando-se para enfrentar mais um dia de estudo.

 

Entre uma xícara de café e um pedaço de pão, surgiam conversas rápidas sobre provas, professores e pequenas histórias da vida universitária.

 

Em algumas pensões onde morei, havia apenas o direito ao quarto e ao banheiro.

 

Certa vez consegui vaga na cama do meio.

 

O pior era não conhecer os vizinhos, que tinham horários diferentes.

 

Foi um dos momentos mais desconfortáveis dos meus anos no Rio.

 

Levantava cedo, tomava banho e seguia de bonde até o ponto final da linha 4, onde havia uma pequena cantina.

 

Ali encontrava colegas para o café com leite e pão com manteiga.

 

Depois, caminhávamos juntos até a faculdade.

 

Com o avanço do curso e os plantões, o café da manhã e o almoço passaram a ser feitos nos hospitais ou em cantinas próximas.

 

A rotina tornava-se mais exigente, mas também mais rica em aprendizado.

 

No quarto ano fui morar em uma pensão de migrantes judeus, refugiados da Segunda Grande Guerra Mundial.

 

A dona da casa mostrou-me um bom quarto na avenida Atlântica, número 1880.

 

Tinha direito à roupa de cama, ao banheiro e à água da geladeira.

 

No primeiro dia cheguei mais tarde, quando o casal já havia se recolhido.

 

Ao abrir a geladeira, chamou-me a atenção um pires com uma rodela de tomate e uma pequena folha de alface, cuidadosamente guardados.

 

Imediatamente me lembrei de casa, em Cuiabá.

 

Ao lado da porta da cozinha, havia um grande latão destinado às sobras das refeições.

 

Todas as manhãs, amigas de minha mãe vinham busca-las para alimentar seus porcos.

 

Pequenos gestos, em lugares tão diferentes, ensinavam a mesma lição silenciosa sobre o valor das coisas.

 

E foi assim, entre cafés modestos e lembranças distantes que aprendi que a simplicidade também educa.

 

Gabriel Novis Neves

25-03-2026





CALOR DO CORAÇÃO CARIOCA


Para quem vinha de Cuiabá, o calor não era novidade.

 

Ainda assim, o clima do Rio de Janeiro tinha suas próprias exigências.

 

Havia dias em que o sol parecia pesar sobre a cidade inteira, como um manto luminoso e insistente.

 

Caminhar entre uma aula e outra pedia paciência e disposição.

 

Muitas vezes eu chegava à sala já vencido pelo calor carioca.

 

Mas a juventude, generosa, logo restaurava as forças, e voltávamos atentos às explicações dos professores.

 

Durante os anos em que estudei no Rio, nunca tive ar-condicionado no quarto da pensão.

 

Resolvi com um pequeno ventilador e o hábito de estudar sem camisa.

 

O verão carioca, em muitos momentos, me lembrava Cuiabá.

 

A diferença estava na forma de enfrentá-lo

 

Era curioso observar o comportamento dos cariocas diante do sol intenso.

 

Em vez de fugir dele, buscavam-no.

 

Iam às praias, e permaneciam deitados por horas, entregues ao bronzeado —alguns sequer molhavam os pés.

 

Diziam, com certo humor, que a pele dourada realçava a beleza e disfarçava imperfeições.

 

No Rio não era difícil reconhecer quem vinha do interior — pela cor da pele, pelo jeito de falar.

 

Lembro-me de que quando fui à agência central do Banco do Brasil retirar a mesada enviada por meu pai.

 

O gerente, ao examinar minha identidade, perguntou seu eu viera prestar vestibular.

 

Respondi que sim.

 

Ele sorriu e disse que já imaginava, pela minha pele ainda clara, sobretudo sendo de Cuiabá.

 

Com o tempo, aprendi que o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas também de costume.

 

Cuiabá é uma das cidades mais quentes do Brasil, e, ainda assim, quem nasce ali aprende a conviver com o sol — até a ponto de jogar futebol nas tardes ardentes.

 

Hoje a tecnologia nos oferece conforto: ar-condicionado em escolas, lojas, igrejas, casas e apartamentos.

 

No meu, instalei aparelhos em todos os cômodos.

 

Já não tenho qualquer desejo de enfrentar o sol das praias ou piscinas.

 

O tempo muda também nossas preferências.

 

Na cobertura onde moro, retirei a piscina para ampliar o jardim.

 

No lugar da água, cultivei rosas do deserto, resistentes e silenciosas, que florescem sob o mesmo sol que um dia me acompanhou no Rio.

 

No fim, percebi que não foi o calor que mudou — fui eu.

 

Gabriel Novis Neves

27-03-2026




sexta-feira, 3 de abril de 2026

CARTAS AMOROSAS


Durante os anos em que morei no Rio, uma das minhas maiores alegrias era receber cartas de casa.

 

Quando a dona da pensão avisava que havia correspondência para mim, o dia ganhava outro significado.

 

Abrir o envelope era como diminuir a distância entre o Rio de Janeiro e Cuiabá.

 

Nas palavras da família vinham notícias, conselhos e muito carinho.

 

Aqueles papéis simples tinham o poder de renovar meu ânimo para continuar os estudos.

 

Quantos ensinamentos traziam aquelas cartas!

 

Gostaria de guardar, ao menos algumas delas nesta altura da vida.

 

Com certeza eu saberia usufruí-las melhor, tal a riqueza de experiências que continham.

 

Minha mãe escrevia muito bem e, quantas vezes, depois da leitura, eu me deitava no quarto e permanecia ainda por longo tempo com a carta sobre o peito, enquanto o pensamento percorria distâncias sem fim.

 

Aquela carta carregava o peso da ausência e, ao mesmo tempo, a doçura da presença.

 

Quanta expectativa havia no retorno do filho médico, formado, em 1960, na melhor Faculdade de Medicina do Brasil.

 

E meus pais tinham toda a razão.

 

Quanto orgulho sentiram de mim ao verem minha ascensão no consultório e nos cargos públicos que ocupei.

 

Senti-me recompensado pelos longos anos que passei distante de casa.

 

Tive ainda a felicidade de me casar com uma mulher argentina-carioca, tão do agrado deles!

 

A convivência com meus cinco irmãos mais novos começou, de fato, quando a caçula tinha apenas nove anos.

 

Tive a oportunidade de ajudar a todos, e também a meus pais.

 

Às vezes penso no que teria acontecido se eu houvesse permanecido aqui.

 

Talvez tivesse acumulado fortuna, sucedendo meu pai no comércio.

 

Desconfio disso, embora me faltasse talento para o comércio.

 

Acertei, sem arrependimento, na escolha da cidade para viver.

 

Hoje, já não escrevo cartas.

 

Escrevo lembranças transformadas em crônicas.

 

E nelas, de algum modo, continuo respondendo às cartas que o tempo guardou.

 

Gabriel Novis Neves 

01-04-2026