quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DENTRE AS MANIAS QUE TENHO / 🎼

 

O copo de água ficou na cabeceira a noite inteira.

 

Acordei e ele ainda estava lá, no mesmo lugar.

 

Não lembrava se havia bebido algum gole antes de dormir.

 

A água parecia limpa, parada, sem sinal de uso.

 

Apoiei o braço na cama, observei por alguns segundos e segui com a rotina.

 

Arrumei o lençol, calcei o chinelo e fui ao banheiro.

 

O copo continuou esperando, como faz todas as noites.

 

Levar um copo de água para o quarto de dormir é uma dessas manias que fui acumulando com o passar dos anos.

 

Hoje é meu companheiro inseparável.

 

Nas poucas noites em que preciso levantar, amenizo a secura dos lábios —agravada pela máscara do CPAP —com um gole breve, quase automático.

 

Lembro da minha mulher, que levava para o dormitório o copo acompanhado da garrafa térmica.

 

Dormir com o copo de água na mesinha da cama é um hábito antigo, transmitido sem ensinamento, absorvido pelas novas gerações.

 

Meus netos e bisnetos mesmo tendo uma mini geladeira no quarto, não dispensam o copo na cabeceira.

 

Segredos entre quatro paredes morrem ali, e o copo d’água, discreto, não fala.

 

Nem sei bem por que escrevo sobre isso, embora faça parte do nosso cotidiano.

 

Talvez porque nada seja mais revelador do que prestar atenção nas coisas simples da vida, aquelas que atravessam o tempo sem pedir explicações.

 

Conversando com um contemporâneo, ele me contou que anotava mudanças trazidas pela modernidade.

 

Citou os antigos comerciantes da minha infância.

 

Quem vendia alimentos tinha venda, depois armazém, mercado, supermercado, atacadista.

 

Chamavam-se comerciantes.

 

Hoje, são empresários.

 

Meu pai, durante cinquenta anos, foi proprietário do Bar Moderno e sempre foi comerciante.

 

Hoje, sem dúvida, seria chamado de empresário.

 

Em quase tudo houve mudança de nome, de forma, de ritmo.

 

Mas o copo de água na cabeceira permanece.

 

Simples, silencioso, fiel.

 

Talvez porque algumas necessidades não envelhecem.

 

E certos hábitos, quando são de cuidado, não precisam ser modernizados.

 

Gabriel Novis Neves

23-01-2025


Com Tônia Carrero
 Inauguração do Teatro da UFMT




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

SAPATOS NA PORTA


Tirei os sapatos assim que entrei.

 

Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.

 

Sempre faço isso sem pensar.

 

O chão estava frio.

 

Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.

 

Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.

 

Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.

 

Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.

 

Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.

 

O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.

 

Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.

 

Havia orgulho no chão bem cuidado.

 

Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.

 

Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.

 

Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.

 

Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.

 

Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.

 

Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.

 

Os sapatos aguardavam na porta.

 

Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.

 

São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

RELÓGIO PARADO NÃO ADIANTA


O relógio da parede do meu apartamento estava parado.

 

Percebi quando olhei as horas e algo não bateu.

 

Os ponteiros não tinham mudado.

 

Fiquei observando por alguns segundos.

 

Não troquei a pilha.

 

Ele continuou ali, marcando um horário que já não existia mais.

 

Segui o dia sem corrigi-lo.

 

Na vida, às vezes imitamos o relógio sem pilha.

 

Paramos de viver quando a família deixa de nos visitar.

 

Ficamos em casa falando conosco mesmos.

 

É quando precisamos nos reinventar para prosseguir, descobrindo uma maneira de não sermos apenas um adorno no velho duplex.

 

Há vinte anos, inventei de escrever pequenos textos marcantes do meu passado.

 

Foi como trocar a pilha do meu envelhecimento.

 

Dizem que recordar é viver, e eu garanto ser a mais pura verdade.

 

Fico pensando que a minha geração, chamada de ferro, já passou.

 

Hoje observo meus netos e bisnetos crescerem em outro tempo.

 

Os futurólogos apelidaram a atual de ‘geração cristal’.

 

Os valores éticos da minha geração já não existem como antes.

 

As antigas revistas encontradas nas salas de espera dos consultórios foram substituídas pelas mídias sociais dos celulares, exibindo excessos, banalizando o corpo e confundindo limites.

 

A oferta é feita sem controle, desgastando lentamente a fibra social dos bons costumes.

 

A sociedade que conheci já não existe mais.

 

A pilha do tempo foi trocada por outra semelhante, mas falsificada.

 

Como dói escrever sobre esses assuntos —eles me revoltam e me fazem mal.

 

Tomo um gole de água gelada do copo ao meu lado, tentando esfriar a mente aquecida pelas lembranças da sociedade que vi nascer.

 

O telefone toca.

 

Talvez me faça bem, desviando a atenção desse problema tão sério que é cuidar das crianças desta nação!

 

Não podemos deixar parado o relógio do tempo.

 

É preciso trocar as pilhas, antes que ele pare de vez — ignorando que o tempo, indiferente a nós, continua andando.

 

Gabriel Novis Neves

26-01-2026




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

RESISTÊNCIAS SUTIS


A gaveta emperrou logo cedo.

 

Puxei com cuidado.

 

Ela resistiu.

 

Tentei de novo, um pouco mais forte, e só então cedeu.

 

Nada estava fora do lugar.

 

Talheres alinhados, panos dobrados, tudo como sempre.

 

Fiquei alguns segundos parado, olhando para aquele pequeno esforço desnecessário.

 

Há coisas que funcionam a vida inteira e, sem aviso, começam a pedir mais paciência.

 

Recentemente fui obrigado a trocar o armário do banheiro.

 

O trabalho foi tão bem-feito que agora não preciso fazer esforço algum para abrir ou fechar as gavetas.

 

O antigo exigia força, quase um tranco.

 

Passei a observar em mim o mesmo processo. Tenho aprendido a ter paciência para caminhar, mesmo dentro de casa.

 

De andarilho pelas calçadas da cidade, passei a contar passos curtos entre um cômodo e outro.

 

O pior é que eles doem e exigem, quase sempre, um braço amigo.

 

A velhice precisa ser compreendida.

 

Sem essa compreensão, ela facilmente se transforma em doença.

 

No meu caso, não chegou de repente.

 

Veio insidiosa, pedindo pequenos esforços quase imperceptíveis.

 

O acúmulo deles me obrigou a fazer movimentos antes desnecessários, levando-me a me reinventar para continuar.

 

Se a parte intelectual segue invejável, não posso dizer o mesmo de outras áreas do meu organismo.

 

Algumas gavetas do meu corpo já não funcionam nem com esforço ou tranco.

 

E não conheço técnico habilitado para esse tipo de conserto.

 

São órgãos que ficaram enferrujados com o tempo.

 

Resta, então, muita paciência para esse finzinho de vida.

 

Procuro compensar o desgaste das dobradiças do meu organismo me apegando aos filhos, netos e bisnetos.

 

Quando estou agarrado a eles — especialmente aos bisnetos — o tempo deixa de ter pressa.  Ouço com calma, sorrio sem economia e esqueço as pequenas limitações.

 

Assim, deixo de perder paciência com esforços que um dia foram desnecessários e passo a valorizar aquilo que ainda abre fácil: o afeto.

 

Gabriel Novis Neves

06-02-2026




domingo, 8 de fevereiro de 2026

PEQUENAS MUDANÇAS


Arrastei a cadeira alguns centímetros.

 

Não foi por necessidade, apenas por conforto.

 

O barulho foi curto, seco.

 

Sentei novamente e testei a posição.

 

Ficou melhor assim.

 

A mesa continuou a mesma, o ambiente também.

 

Às vezes, um ajuste simples resolve o resto do dia.

 

Quantas vezes, no decorrer da nossa existência, pequenos ajustes melhoraram a nossa vida?

 

Escrevendo, então, esses ajustes são quase necessários.

 

Redijo meus textos com atenção, e deixo-os ‘esfriar’.

 

Na revisão, quase sempre faço adequações.

 

São simples arranjos que os tornam mais musicais, tornando a leitura mais agradável.

 

Um ponto de exclamação pode mudar o ritmo do texto.

 

E é tão simples!

 

Trabalho para entregar ao leitor do Bar do Bugre um produto o mais agradável possível.

 

Para isso, conto com o auxílio de uma experiente revisora e com o formato final do editor.

 

Ambos têm total autonomia para as adequações e até alteração do título da crônica.

 

Quase sempre acho que ficou melhor assim.

 

A vaidade não permite essa experiência de ajustar a pequena posição de uma cadeira, ou de adequar uma curta frase ou título de uma crônica.

 

Essa rigidez de posição é contrária à experiência.

 

Sempre trabalhei com pessoas inexperientes, que se aconselhavam com as experientes.

 

Escrevo o que fiz.

 

Em todos os cargos públicos que ocupei na minha vida, eu não tinha experiência prévia para ocupá-los.

 

Procurei, então, convidar os melhores para me ajudar.

 

Foi assim que conseguimos implantar uma universidade moderna, em pleno Centro-Oeste, nos anos setenta, quando as dificuldades eram enormes.

 

Tenho certeza de que muitos dos meus escolhidos não seriam aceitos hoje, nem eu mesmo, por não possuir doutorado e eles curso superior.

 

Um jornalista me pergunto se hoje eu exerceria o cargo de reitor.

 

Disse que não, por não possuir pós-graduação e poder contratar sábios sem curso superior.

 

Meu professor de Medicina, Pedro Nava, definia a experiência como dois faróis de automóvel virados para trás: só iluminavam o passado.

 

Gabriel Novis Neves

06-02-2026




sábado, 7 de fevereiro de 2026

INCÔMODO SILÊNCIO

 

O telefone ficou em silêncio a manhã inteira.

 

Passei perto algumas vezes, olhei a tela apagada e segui adiante.

 

Nenhuma chamada, nenhuma mensagem.

 

O aparelho permaneceu ali, imóvel, enquanto o dia corria do mesmo jeito.

 

Almocei, caminhei pela casa e só no fim da tarde percebi que ele continuava exatamente como estava.

 

Senti, então, que estava aposentado como médico e velho também.

 

Por mais de meio século, o telefone foi para mim um importante instrumento de trabalho.

 

Como médico parteiro, ele me chamava o dia todo.

 

Também era por ele que se organizava minha intensa vida social.

 

Hoje, permanece mudo quase o tempo inteiro.

 

Como dizia minha mãe, Irene: ‘eu morri para o mundo’.

 

As pessoas na plenitude da vida profissional não têm tempo de atender telefone.

 

Essa função fica para os secretários.

 

Raramente falam com subordinados, a não ser quando o assunto lhes interessa.

 

Quando uma autoridade atende pessoalmente, sentimo-nos homenageados, de tão raro que é.

 

Hoje, meu telefone fica em silêncio quase o dia todo, fazendo-me companhia enquanto escrevo.

 

A cuidadora só fala comigo quando pergunto, e acho melhor assim.

 

Como a vida dá voltas em todos os setores da nossa existência!

 

Faço uma regressão aos meus primeiros anos e, como num filme, chego aos dias atuais.

 

Tudo passou rápido como um sopro.

 

E o que passou, passou.

 

O telefone continua mudo, agora me incomodando.

 

Como seria bom se ele tocasse!

 

O seu ruído seria entendido como coisa nova, sinal de alguém interessado em conversar comigo.

 

É só depois que perdemos os chamados do telefone, que passamos a valorizar o antigamente.

 

Geralmente é assim: damos mais valor ao que perdemos.

 

As perdas são sempre supervalorizadas.

 

Gostaria de terminar este texto com o meu telefone, hoje mudo, chamando sem parar.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

LUZES ACESAS


A luz da sala ficou acesa sem necessidade.

 

Só percebi quando o sol já estava alto.

 

Fui até o interruptor e desliguei.

 

A claridade entrou pela janela sem pedir licença.

 

A casa mudou de tom.

 

Voltei para a cadeira e continuei sentado.

 

Às vezes, pequenos descuidos fazem parte da rotina e acabam pesando no bolso.

 

Outros, atingem diretamente a saúde.

 

Hoje acordei mais cedo para que a cuidadora me aplicasse a injeção semanal de controle da diabete.

 

Aproveitei também para completar a lista dos medicamentos de uso mensal.

 

Graças a esses cuidados, minha saúde está em ordem, segundo os últimos exames laboratoriais.

 

Quem administra a própria casa, como eu, sabe muito bem o que representa esquecer uma lâmpada acesa durante o dia.

 

Para as finanças pesa.

 

Os antigos eram mais atentos a essas pequenas coisas.

 

Até hoje ouço minha mãe, em voz alta, chamando a atenção para a torneira do tanque da área de serviço, transbordando água.

 

Completava sempre:

 

—Isso é dinheiro e não pode ser desperdiçado.

 

Bem mais tarde, já como secretário de Educação do Estado, em 1968, tomei conhecimento da existência de um curso universitário de Economia Doméstica.

 

A primeira cuiabana formada nesse curso, em Minas Gerais, eu a contratei.

 

Depois, levei-a para a recém-criada Universidade Federal de Mato Grosso, onde prestou relevantes serviços até a sua aposentadoria.

 

Em nome da ideologia do não desperdício, grandes obras foram realizadas.

 

O cuidado era tamanho que eu mesmo, pela manhã, percorria as salas desligando interruptores esquecidos.

 

À noite, porém, o câmpus permanecia iluminado.

 

As lâmpadas dos postes ficavam acesas.

 

Beleza também tem seu preço.

 

Como era bonito passear à noite pelo câmpus e contemplar seus oitenta hectares iluminados, mesmo gastando dinheiro.

 

Mas beleza tem preço, não é?

 

Gabriel Novis Neves

05-02-2026