domingo, 19 de abril de 2026

FORMAÇÃO DO MÉDICO PARA O INTERIOR


Uma das maiores necessidades dos nossos cursos de Medicina na atualidade é formar médicos para o interior do Brasil.

 

A partir do segundo ano, algumas disciplinas já passavam a ter aulas práticas em hospitais, como a Semiologia Médica.

 

Assim era no meu tempo de estudante, na década de cinquenta.

 

Depois, percorremos os hospitais nas várias especialidades da Medicina.

 

Se naquele tempo elas já eram muitas, imagino quantas se multiplicaram hoje, com o avanço constante das subespecialidades.

 

Naqueles anos, os cursos de Medicina duravam seis anos e eram terminais.

 

Formavam médicos prontos para o exercício da profissão, inclusive nas cidades do interior.

 

Saíamos da faculdade entendendo pouco de muito, mas esse pouco de muito, muitas vezes, era justamente o necessário para começar.

 

Em 1966 dirigi em Cuiabá um hospital psiquiátrico estadual sem jamais ter sido psiquiatra.

 

Tive, porém, excelentes mestres nessa disciplina, como o doutor Manfredini e a professora Nise da Silveira.

 

Foi com os conhecimentos adquiridos no curso que comecei a escrever minha história médica em Cuiabá.

 

Atendia o ambulatório de doenças mentais no Posto de Saúde da rua 13 de Junho e, sem demora fiquei conhecido como psiquiatra.

 

A atendente que trabalhava comigo dona Tanita, era mãe do extraordinário ator cuiabano Liu Arruda, que, ainda menino, costumava acompanhá-la ao serviço.

 

Até hoje encontro antigos pacientes da psiquiatria que me dizem ter sido curados com o meu tratamento, há mais de sessenta anos.

 

Talvez o humanismo na Medicina cure tanto quanto a tecnologia ajuda.

 

Durante os anos de estudante, dediquei-me com afinco a todas as disciplinas do curso, embora com especial inclinação para a ginecologia e obstetrícia.

 

O médico para o interior, cuja falta é sentida em tantos municípios brasileiros, já não está sendo formado como antes por nossas universidades.

 

Essa realidade só começará a mudar quando o governo federal criar e regulamentar o cargo de médico do interior, oferecendo-lhe o mesmo amparo e reconhecimento dados a outras carreiras públicas essenciais, como as do Ministério Público, da Polícia Federal, da Rodoviária e do Ministério da Defesa, com suas Forças Armadas.

 

O interior continua esperando.

 

E o Brasil também.

 

Gabriel Novis Neves

08-04-2026




sábado, 18 de abril de 2026

CERTEZAS QUE ABANDONEI


Houve um tempo em que eu tinha opinião firme sobre quase tudo.

 

Era o período universitário, dos centros acadêmicos no Rio de Janeiro.

 

Hoje carrego mais perguntas do que respostas.

 

Não considero isso fraqueza.

 

É maturidade.

 

Perder certezas pode ser o começo de uma compreensão mais ampla da vida.

 

Imaginamos que opinião nasce do conhecimento acumulado com os anos.

 

A experiência, porém, ensina o contrário: quanto mais sabemos, menos certezas possuímos.

 

O longevo costuma ser visto como depósito de verdades, assim como cabelos brancos são confundidos com sabedoria — e nem sempre são.

 

No início, perder certezas me causou abatimento. 

 

Mais tarde compreendi que estava apenas entendendo melhor a vida, processo lento, que não acontece de um dia para o outro.

 

O ser humano é vaidoso e acredita ter opinião sobre tudo.

 

Entretanto, quanto mais estudamos, mais dúvidas surgem.

 

Basta observar os pesquisadores: passam a existência inteira nos laboratórios e, a cada resposta encontrada, novas perguntas aparecem.  

 

Terminam a vida cercados de interrogações. Talvez a única certeza seja a finitude — e o fato de que a vida permanece um mistério indecifrável.

 

Desde a Idade Média buscamos certezas.

 

A tecnologia alcançou feitos extraordinários, como chegar à Lua.

 

Já na biologia, ainda convivemos com doenças antigas.

 

Não estamos preparados para perder — muito menos para perder certezas.

 

As crianças fazem perguntas esperando respostas definitivas.

 

Crescem descobrindo que elas raramente existem.

 

Hoje, aos noventa anos, tenho menos opiniões e muito mais perguntas.

 

E talvez seja exatamente isso que eu chamo de maturidade.

 

Gabriel Novis Neves

24-02-2026




sexta-feira, 17 de abril de 2026

DESPEDINDO DA VIDA DE ESTUDANTE


Chega um momento em que percebemos, com nitidez, que um ciclo se encerra.

 

Nos últimos dias de faculdade, caminhei pelos mesmos corredores com um olhar diferente. Cada sala, cada colega, cada rotina adquiria um significado especial.

 

Já não eram apenas espaços e pessoas —eram lembranças em formação.

 

Sabia, no íntimo, que aquele tempo não voltaria.

 

Era uma despedida silenciosa, sem cerimônia, mas profundamente carregada de emoção e gratidão por tudo o que vivi.

 

A despedida formal aconteceu quase por acaso, após a solenidade de colação de grau no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1960.

 

Fizemos o juramento de Hipócrates e, ao final, tínhamos a certeza de que aquela seria a nossa última reunião como estudantes.

 

Um pequeno grupo de colegas mais próximos, todos sem namoradas, decidiu prolongar aquele instante.

 

Fomos à boate Balalaika, na rua Siqueira Campos, em Copacabana.

 

Não me recordo quantos éramos.

 

Era um dia de semana, e a casa estava quase vazia.

 

Jantamos um sanduiche com chope.

 

A música era ao vivo, mas tímida; havia poucas mulheres para dançar — talvez mais interessadas em outros programas.

 

O conjunto musical, sob o nosso leve protesto, logo se despediu.

 

E as mulheres percebendo que daquele grupo nada se aproveitaria, também se afastaram.

 

Seguimos ali, conversando e bebendo, como quem tenta prolongar o que se despedia.  

 

O único garçom, paciente e discreto, abriu as cortinas ainda escuras do salão.

 

A manhã já havia chegado.

 

Do lado de fora, a cidade despertava: banhistas a caminho da praia, bondes e ônibus em movimento, vozes de feirantes e vendedores ambulantes misturando-se ao som do novo dia.

 

Pagamos a conta e permanecemos por alguns minutos na calçada, como se aquele instante pedisse mais um pouco de nós.    

 

Era a despedida de jovens médicos vindos de várias partes do Brasil, que durante seis anos compartilharam os mesmos caminhos, movidos por um ideal comum.

 

Voltamos em silencio, de bonde para a pensão. Havia em nós a serenidade do dever cumprido e a consciência de que aquele fora, de fato, o último encontro.

 

Depois disso, cada um seguiria para a sua origem, levando consigo o que o tempo não apaga.

 

E assim, sem perceber, deixávamos de ser estudantes — para começar a ser história.

 

Gabriel Novis Neves

15-04-2026




quinta-feira, 16 de abril de 2026

A AULA QUE NINGUÉM ESQUECEU


Algumas aulas passam depressa pela memória dos estudantes.

 

Outras permanecem vivas por toda a vida.

 

Durante meus anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, assisti a muitas aulas importantes, mas algumas ficaram gravadas de maneira muito especial.

 

Não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como os professores conduziam suas explicações.

 

Havia momentos em que a sala inteira parecia compreender, de repente, a grandeza da profissão médica e a responsabilidade que ela exige.

 

Todas as aulas do curso de Medicina eram importantes e, de certo modo, inesquecíveis. Por isso mesmo, é difícil apontar uma única aula que ninguém esqueceu.

 

Começamos pela anatomia descritiva, pela neuroanatomia e pela anatomia topográfica.

 

As aulas práticas, muitas vezes, eram insuficientes.

 

Para suprir essa deficiência, nosso grupo de estudantes, comprava do bedel da faculdade um esqueleto e peças de neuroanatomia guardadas em latões com formol, que levávamos para estudar no quarto da pensão, longe das vistas da dona da casa.

 

Eram estudos inesquecíveis.

 

Também é impossível esquecer as aulas de Fisiologia, no segundo ano, quando começávamos a compreender o funcionamento do corpo humano.

 

Aprendemos, na Semiologia, a extrair a história do paciente e a chegar a uma hipótese diagnóstica.

 

Recordo também um carismático professor de Cardiologia da Santa Casa, muito respeitado pelos alunos, que dava aula sobre os males da nicotina no sistema cardiorrespiratório com um cigarro na ponta da boca, enquanto as cinzas caíam sobre seu avental branco.

 

Era uma contradição viva, e talvez por isso mesmo, inesquecível.

 

O professor de cirurgia da tireoide ministrava aulas no próprio centro cirúrgico.

 

Antes de iniciar o procedimento, perguntava se gostaríamos de vê-lo operar com a mão esquerda ou com a direita.

 

Operava bem, com rapidez e segurança.

 

O chefe da clínica cirúrgica da Santa Casa, por sua vez, operava com elegância.

 

Assisti a professores velozes em cirurgia, e a outros lentos, quase solenes.

 

Mas as aulas mais valorizadas eram aquelas em que os pacientes se faziam presentes.

 

Eram elas que nos mostravam o quando havíamos avançados no conhecimento da Medicina desde a aula inaugural.

 

Já não éramos apenas estudantes.

 

Éramos quase médicos.

 

E talvez seja isso o que nunca se esquece: o instante em que o sonho começa a ganhar corpo.

 

Gabriel Novis Neves

06-04-2026




quarta-feira, 15 de abril de 2026

VOCAÇÃO AFLORADA


Antes mesmo da formatura houve momentos especiais em que senti algo diferente.

 

Talvez tenha sido durante um atendimento, uma orientação a um paciente ou um gesto simples de cuidado.

 

Ainda não havia diploma, mas já existia responsabilidade.

 

Naquele instante percebi que a Medicina começava a fazer parte de mim.

 

Foi um sentimento discreto, porém profundo, como um passo silencioso em direção ao futuro.

 

Em São Cristóvão, havia um pequeno posto de pronto atendimento que funcionava vinte e quatro horas por dia, sempre com um acadêmico de Medicina do Hospital e Pronto-Socorro Souza Aguiar.

 

As gestantes em trabalho de parto ou abortamento eram conduzidas de ambulância à maternidade do bairro.

 

Certa madrugada atendi uma jovem mulher acompanhada do namorado e de uma irmã adolescente.

 

Eu estava no quinto ano de Medicina e a deixei em observação no repouso.

 

Apresentava um quadro convulsivo após o jantar, com vômitos e perda momentânea da consciência.

 

Peguei uma veia periférica do braço e iniciei a hidratação.

 

Sentei-me na poltrona ao lado do leito para acompanhá-la de perto e controlar seus sinais vitais.

 

Temia tratar-se de um acidente vascular cerebral isquêmico transitório.

 

Como o postinho naquela noite, tinha pouco movimento, pude lhe dar toda a atenção possível.

 

O dia foi clareando, e a paciente, já bem melhor, recebeu alta com orientações e o pedido para retornar no meu plantão seguinte.

 

Assim foi feito.

 

Ela voltou.

 

Examinei-a novamente e tive a alegria de lhe dar alta curada.

 

Então me pediu o endereço do meu consultório.

 

Respondi, com simplicidade, que eu ainda não era médico.

 

Mesmo assim, sabendo que me encontraria sempre às quintas-feiras à noite, passou a comparecer levando-me, com delicadeza, a merenda da ceia.

 

Foi nessa ocasião que me senti médico pela primeira vez.

 

Aprendi, ali, que dedicação e carinho muitas vezes são o primeiro remédio que o paciente espera encontrar.

 

Durante todo o longo exercício da Medicina, nunca esqueci aquele plantão de São Cristóvão.

 

Porque, antes do diploma, já havia nascido em mim a vocação.

 

Gabriel Novis Neves

13-04-2026




terça-feira, 14 de abril de 2026

CARTAS QUE DEFINIRAM O DESTINO


Em meio à rotina intensa da faculdade, uma carta recebida de casa teve um efeito inesperado.

 

As palavras simples, escritas com carinho, trouxeram conforto e renovaram minhas forças.

 

Ao lê-la, senti que não estava sozinho naquela jornada.

 

Era como se a distância diminuísse por alguns instantes.

 

Guardei aquela carta, não apenas como lembrança, mas como um apoio silencioso nos dias difíceis.

 

Para quem partiu de Cuiabá, no início dos anos cinquenta, em direção à cidade grande para estudar Medicina, o apoio da família, por meio das cartinhas semanais, era fundamental.

 

Nos primeiros tempos, tudo era difícil.

 

O colégio, a convivência na pensão, a imensidão da cidade grande — tudo causava desconforto a um adolescente do interior, acostumado a uma vida mais simples e acolhedora.

 

O peso da responsabilidade de ser aprovado ao final do ano, para quem sempre se destacava nos estudos, era mais uma novidade que precisei enfrentar.

 

As cartinhas semanais que recebia de minha mãe, sempre escritas com carinho, mostravam que eu não estava sozinho naquela batalha para me tornar médico.

 

Em nenhuma delas percebi pessimismo em relação ao meu futuro.

 

Confesso que às vezes eu lhe escrevia cartas tristes, cheias de preocupação com os estudos, mas ela sempre me respondia com palavras transbordantes de otimismo.

 

Se de um lado, aquilo me acalmava com tamanha solidariedade, de outro, aumentava ainda mais o meu compromisso de vencer: concluir o segundo grau e conquistar a tão sonhada vaga no vestibular de Medicina.

 

Já na faculdade, tive de me esforçar para ser um bom aluno e, mais tarde, um bom médico. Jamais poderia decepcionar meus pais que sempre confiaram em mim e demonstravam esse amor silencioso nas cartas de minha mãe.

 

Elas mudavam o meu ânimo.

 

Renovando minhas forças para prosseguir.

 

Guardo na memória o retorno ao meu torrão natal, os ensinamentos que ainda recebi de meus pais por longos anos e a felicidade deles diante das nossas conquistas.

 

Valeu a pena.

 

Toda distância, quando sustentada pelo amor, acaba florescendo em vitória.

 

Gabriel Novis Neves

13-04-2026




segunda-feira, 13 de abril de 2026

APRENDER A ENSINAR


Entre tantos colegas, houve um que não se destacava pelas notas, mas pela generosidade.

 

Sempre disposto a ajudar, dividia o pouco que tinha — fosse um livro, uma explicação ou uma palavra de incentivo.

 

Sem perceber, ensinava mais que muitos professores.

 

Com ele aprendi que a Medicina também se constrói com humanidade.

 

E que o verdadeiro conhecimento inclui a capacidade de compartilhar.

 

Minha turma reunia alunos de todos as regiões do Brasil.

 

Naquele tempo havia menos de trinta escolas de Medicina em funcionamento, e o número de estudantes vindos do interior superava o dos cariocas.

 

Meus colegas mais próximos eram, em sua maioria, do interior.

 

Morávamos em pensões, frequentávamos o restaurante universitário e, nos primeiros anos, vivíamos quase exclusivamente para a universidade.

 

As aulas eram essencialmente teóricas e, nas horas vagas, muitos se dedicavam à biblioteca ou aos laboratórios —especialmente o de anatomia.

 

Foi ali que conheci um colega singular, um verdadeiro ‘rato de laboratório’.

 

Assinava presença nas aulas teóricas e seguia direto para dissecar peças anatômicas.

 

Era sempre o último a jantar, quando o restaurante já se preparava para fechar.

 

Sua paixão pela anatomia era tamanha que conquistou a confiança do bedel, até conseguir as chaves do laboratório.

 

Passava noites em claro estudando e, com generosidade, ensinava aos amigos.

 

Logo foi nomeado monitor da disciplina.

 

Suas aulas práticas, muitas vezes, superavam as dos próprios professores.

 

O professor Cavalcante logo o chamou para auxiliá-lo em cirurgias, reconhecendo a excelência de seu conhecimento.

 

Esse colega — que hoje já não está entre nós — sempre me convidava para acompanhar práticas de técnicas operatórias no Instituto Médico Legal, à noite.

 

Sua dedicação à anatomia, às técnicas cirúrgicas e à cirurgia geral impressionava a todos — inclusive quando comparada ao seu desempenho nas demais disciplinas.

 

Havia sido o primeiro colocado no vestibular e permanecia entre os melhores alunos do curso.

 

Ensinava com naturalidade e, mais tarde, casou-se com uma caloura igualmente apaixonada pela anatomia.

 

Costumava dizer, com um brilho nos olhos: — Gostaria de estar na sala dos médicos, e que a irmãzinha do centro cirúrgico da Santa Casa viesse me chamar: ‘Doutor, seu paciente está anestesiado! ’

 

Só então — dizia ele — descobriria qual a cirurgia iria realizar.

 

Ele ensinou a muitos, sem jamais perceber.

 

E a mim, deixou a lição mais bonita: o verdadeiro mestre é aquele que reparte o saber sem saber que ensina.

 

Gabriel Novis Neves

12-04-2026