terça-feira, 8 de setembro de 2026

VISITA AO SAPATEIRO


Nem tudo era descartado quando apresentava defeito.

 

Sapatos gastos ganhavam nova vida nas mãos habilidosas do sapateiro.

 

Costuras, solas e saltos eram cuidadosamente recuperados, permitindo que o calçado acompanhasse seu dono por muitos anos.

 

Mais do que consertar sapatos, esses profissionais ensinavam, sem palavras, uma lição de economia, paciência e respeito pelas coisas.

 

Hoje os sapateiros quase desapareceram das ruas, mas continuam caminhando pelas lembranças de quem viveu aquele tempo.

 

A Cuiabá da minha infância possuía inúmeras sapatarias.

 

Esse fato revelava um costume simples: cuidar bem do que se possuía.

 

Fui criado no centro histórico, onde ruas e becos abrigavam pequenas bancas de sapateiros.

 

O som ritmado do martelo, o cheiro do couro e a concentração do artesão faziam parte da paisagem da cidade.

 

Assim fui educado.

 

Em casa aprendíamos a evitar desperdícios e a valorizar cada objeto.

 

Quando retornei à Cuiabá, em 1964, ainda encontrei muitas sapatarias em plena atividade.

 

Hoje quase não as vejo.

 

Vivemos numa época em que grande parte dos produtos nasce com vida curta, tornando-se mais fácil substituí-los do que consertá-los. Sempre admirei a imagem de um sapateiro trabalhando.

 

Há nela algo de profundamente humano.

 

Curvado sobre a bancada, concentrado em seu ofício, ele me fez lembrar a figura de São José, exercendo com dignidade o trabalho silencioso das mãos.

 

A economia doméstica, que meus pais ensinavam naturalmente pelo exemplo, hoje é estudada em universidades.

 

Muitas profissões artesanais desapareceram, levadas pelo avanço da tecnologia e pelos novos hábitos de consumo.

 

Ainda assim, acredito que o verdadeiro valor das coisas, continua sendo o mesmo: cuidar, conservar e agradecer pelo que temos.

 

Talvez essa seja a mais duradoura lição deixada pelos velhos sapateiros.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026




segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ACORDANDO DEVAGAR


Há dias em que a casa parece acordar mais devagar.

 

Ninguém corre para sair, o café demora um pouco mais na mesa, as portas se abrem sem pressa e até a luz da manhã entra com delicadeza.

 

São dias raros, quase sempre ligados ao descanso.

 

Neles, percebemos que a vida não precisa ser sempre atropelada.

 

Às vezes, basta diminuir o passo para sentir melhor a própria existência.

 

Durante grande parte da minha vida eu já acordava atrasado.

 

Era a pressa da juventude, dos compromissos, das responsabilidades e dos sonhos que pareciam exigir urgência permanente.

 

Os dias começavam correndo e terminavam da mesma forma.

 

Havia sempre uma reunião, uma aula, uma consulta, uma viagem ou um problema esperando solução.

 

Hoje a vida segue outro ritmo.

 

Ainda acordo com sono e custo a me levantar para tomar o café, enquanto a cidade já desperta em pleno movimento.

 

A correria de antigamente desapareceu como num passe de mágica.

 

A fase que vivo é uma etapa de reencontro comigo mesmo, algo que talvez só a longevidade seja capaz de proporcionar.

 

Não trago arrependimentos e talvez não sinto falta da antiga pressa.

 

Cresci ouvindo os mais velhos repetirem que a pressa é inimiga da perfeição.

 

Com o passar dos anos, descobri que ela também pode ser inimiga da contemplação.

 

Acordar mais devagar está ligado ao descanso, à aceitação dos limites e à sabedoria de compreender que cada idade possui seu próprio compasso.

 

O homem da roça aprende com a natureza.  Dorme cedo, acorda com a claridade e inicia o dia com seu quebra-torto reforçado.

 

Eu, por minha vez procuro ajustar os horários dos medicamentos para dormir e despertar mais disposto.

 

Nem sempre consigo.

 

As cuidadoras me ajudam nos primeiros passos pela casa, enquanto observo as mudanças que o tempo trouxe à minha locomoção.

 

Mas, curiosamente, também percebo algo que a juventude não enxergava: a beleza das pequenas coisas.

 

Hoje, quando a casa acorda mais devagar, eu também desperto para a gratidão.

 

Porque viver sem pressa é um privilégio.

 

E agradecer por mais um amanhecer é uma forma de felicidade.

 

Cada novo dia é um presente que chega devagar.

 

Gabriel Novis Neves

03-06-2026




domingo, 6 de setembro de 2026

CHEIRO DE TERRA MOLHADA


Nas tardes mais quentes, bastava jogar alguns baldes de água sobre o chão para o quintal ganhar outro perfume.

 

O cheiro da terra molhada espalhava-se pela casa, trazendo uma agradável sensação de frescor.

 

Era um aroma impossível de fabricar, guardado apenas na memória de quem viveu aquele tempo simples.

 

Quando menino, nos dias de sol mais intenso, minha mãe pedia que eu molhasse o chão do quintal.

 

Os quintais cuiabanos possuíam poços e tanques, garantindo água abundante para refrescar a terra e atender às necessidades da casa, onde, quase sempre, moravam famílias numerosas e seus empregados.

 

Naquele tempo, ninguém falava em economia de água.

 

A cidade era privilegiada pelo rio Cuiabá, pelos córregos, tanques e bicas que abasteciam a população com generosidade.

 

Bastavam alguns baldes lançados sobre a terra para que um perfume inconfundível tomasse conta do ambiente.

 

O calor parecia diminuir e a casa inteira respirava outro ar.

 

Nos dias mais quentes, o córrego da Prainha transformava-se na alegria dos meninos.

 

Mergulhávamos em suas águas para aliviar o calor e prolongar a felicidade das férias.

 

Até hoje sinto falta do cheiro da terra molhada do quintal da casa onde vivi minha infância.

 

Depois que deixei a casa da rua do Campo para estudar no Rio de Janeiro, nunca mais encontrei aquele perfume.

 

Era o cheiro da minha terra, da minha infância e da minha família.

 

Um aroma que nenhuma indústria conseguiu reproduzir.  

 

Meus filhos, netos e bisnetos pertencem a uma geração que cresceu sem quintais.

 

Por isso talvez nunca venham a conhecer essa sensação tão simples e tão marcante!

 

Mas o filme de quase um século atrás permanece intacto em minha memória.

 

Nas antigas casas coloniais, os largos beirais protegiam as paredes e as calçadas do sol e das chuvas.

 

Sustentados pelos chamados cachorros —peças de madeira em balanço, popularmente conhecidas em Cuiabá como cachorrões — proporcionavam sombras generosas que completavam o encanto daquelas casas.

 

Tudo era simples.

 

E talvez por isso mesma fosse tão inesquecível.

 

Gabriel Novis Neves

05-08-2026




sábado, 5 de setembro de 2026

A PONTE DOS FERIADOS


A ponte do feriado é uma invenção brasileira muito apreciada.

 

Basta um feriado cair na terça ou na quinta-feira para a segunda ou a sexta ganharem outro significado.

 

A palavra ‘ponte’ sugere passagem, descanso, viagem, fuga da rotina.

 

Uns aproveitam para sair.

 

Outros preferem ficar em casa.

 

Mas todos sentem que aqueles dias extras têm um sabor diferente, como se fossem emprestados ao calendário.

 

A arte de mexer no calendário acabou incorporada nos costumes brasileiros.

 

Quando o feriado cai numa terça ou quinta-feira, logo surge a famosa ‘ponte’, transformando a semana em descanso prolongado e quebrando a rotina.

 

Alguns feriados do meu tempo de criança desapareceram.

 

O treze de maio, data da Abolição da Escravidão, já foi muito lembrado.

 

Em compensação, o Brasil passou a celebrar oficialmente o Dia da Consciência Negra, em vinte de novembro.

 

Vinte e quatro de fevereiro também foi um feriado importante: comemorava-se a primeira Constituição Republicana, promulgada em 1891, mas a data caiu em desuso ao longo do século passado.

 

Durante o regime militar, o 31 de março era celebrado oficialmente, mas perdeu qualquer sentido comemorativo após a redemocratização.

 

Há outras datas históricas que deixaram de ser feriado nacional, como o vinte e dois de abril, Dia do Descobrimento do Brasil.

 

A bandeira brasileira criada em 19 de novembro de 1889, logo após a Proclamação da República, também não transformou sua data em feriado nacional.

 

No dezenove de abril, o país celebra o Dia dos Povos Indígenas.

 

Temos feriados nacionais, estaduais, municipais, pontos facultativos e datas comemorativas.

 

Tudo isso acaba criando inúmeras ‘pontes’, aumentando os momentos de pausa e descanso.

 

Mas o feriado mais esperado pelos cuiabanos continua sendo a queda da temperatura.

 

Como isso é raro numa cidade calorenta, nesses dias ninguém tem vontade de abandonar a cama, o cobertor e o banho quente.

 

Eu mesmo estou aproveitando esse veranico com meias, calça comprida e casaco de moletom, permanecendo mais tempo na cama e com o ar refrigerado desligado.

 

Nessas horas, até o frio passageiro parece feriado.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2026




sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ESPELHO SEM PRESSA


Parei diante do espelho por mais tempo do que o habitual. 

 

Observei as marcas do rosto sem julgamento. 

 

Não tentei corrigir nada. 

 

Apenas reconheci o homem que estava ali. 

 

Envelhecer também é aceitar a própria imagem sem pressa de fugir dela. 

 

O mundo moderno está cheio de pessoas em permanente luta contra o tempo. 

 

Combatem rugas, pálpebras caídas, papadas, como se o envelhecimento fosse um erro a ser corrigido. 

 

Criaram até nomes elegantes para suavizar a ideia — harmonização facial. 

 

Homens e mulheres procuram cada vez mais cedo os consultórios de cirurgia plástica, numa tentativa silenciosa de negar aquilo que é inevitável: a passagem dos anos. 

 

O espelho sempre foi um instrumento da vaidade humana. 

 

Houve um tempo em que a calvície era sinal de maturidade e masculinidade. 

 

Hoje, quem pode recorre ao implante capilar. 

 

A cirurgia plástica multiplicou subespecialidades, clínicas e hospitais cheios. 

 

Há, naturalmente, sua face necessária e nobre — a cirurgia reparadora, essencial para grandes queimados, enxertos de pele e reconstruções que devolvem dignidade e sobrevivência. 

 

Nas grandes cidades, bancos de pele humana tornaram-se indispensáveis nos hospitais de urgências. 

 

Era recém-formado em Medicina quando sofri um grave acidente na ambulância em que seguia para prestar socorro. 

 

Como sequela da fratura nasal, fiquei com desvio do septo, com indicação cirúrgica. 

 

Nunca me incomodou o nariz torto que o espelho mostrava. 

 

Estou com noventa e um anos e nunca corrigi esse detalhe. 

 

Aliás, jamais me submeti a procedimentos estéticos — sou o único da família. 

 

No meu quarto há um espelho herdado da família de minha esposa. 

 

Muitas vezes esqueço sua presença. 

 

Não tenho pressa de me observar nem de confirmar o avanço da idade. 

 

Pelo contrário, sinto orgulho de ter chegado até aqui com a mente lúcida e o coração em paz. 

 

Hoje compreendo que o espelho não serve apenas para revelar o que o tempo levou, mas sobretudo para lembrar o que ele permitiu viver. 

 

E assim ele permanece ali, silencioso, mais objeto de memória do que de vaidade — refletindo não a juventude perdida, mas a história inteira que consegui atravessar. 

 

Gabriel Novis Neves 

02-09-2026




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

CHÃO DE TERRA BATIDA


Na casa da minha infância, o chão do quintal era de terra batida. 

 

Depois da chuva, formavam-se pequenas poças onde eu pisava descalço. 

 

Minha mãe reclamava, mas eu voltava sorrindo. 

 

A terra secava rápido sob o sol de Cuiabá. 

 

Hoje penso que aquela poeira fazia parte da nossa liberdade. 

 

As crianças de hoje são criadas entre espigões de concreto. 

 

Desconhecem que as crianças de antigamente eram livres. 

 

Brincávamos descalços nas ruas de terra batida,  

 

tomávamos banho de chuva e voltávamos para casa com a roupa encharcada e a alma leve. 

 

Havia esconde-esconde na pracinha do bairro, procissões acompanhadas com respeito e quermesses cheias de alegria. 

 

Comprávamos tira de queimada, pé de moleque e pirulito. 

 

Tomávamos picolé de groselha no Bar do Bugre e passeávamos pelo Jardim em frente ao Palácio do Governo.

 

Tenho certeza de que era bom ser criança no meu tempo.

 

Jogávamos botão pelos corredores das casas, bolita nas calçadas de chão batido e organizávamos rifas na porta de casa.

 

Pulávamos amarelinha e soltávamos pipas feitas por nós mesmos, muitas vezes com a ajuda paciente de minha mãe.

 

No sábado de Aleluia malhávamos Judas pregado nos postes das ruas.

 

Levávamos o turíbulo da Catedral até a casa de dona Elza Nigro para buscar brasas e preparar o incenso das missas.

 

Era uma honra ser escolhido pelo pároco para ajudar no altar e tocar a campainha no momento da comunhão.

 

Meninos vendiam jornais nas ruas e chicletes na porta do Cine Teatro Cuiabá.

 

Havia rivalidades inocentes com os meninos do Porto, caçadas de preá no morro da Prainha,

 

água fresca bebida direto da bica e banhos no tanque do Baú.  

 

Minha mãe cuidava da saúde dos filhos com zelo — e o óleo de rícino era o grande terror da infância. 

 

Os brinquedos eram inventados, e nos quintais dos casarões construíamos verdadeiras cidades, inspiradas nos presépios de Natal espalhados pela cidade.

 

Éramos livres.

 

Éramos donos das ruas.

 

E talvez, sem saber, éramos profundamente felizes.  

 

Gabriel Novis Neves

26-02-2026


GABRIEL E YARA


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O PRIMEIRO TROVÃO DEPOIS DE MESES DE SECA


O primeiro trovão era recebido como uma notícia importante.

 

Depois de meses de calor, poeira e céu limpo, aquele barulho distante fazia todos olharem para cima.

 

O menino corria para o quintal à procura das nuvens carregadas.

 

Os adultos recolhiam as roupas do varal e fechavam algumas janelas.

 

Pouco depois vinha a chuva, lavando telhados, árvores e ruas.

 

Parecia que a própria cidade tomava um grande banho para começar outra vez.

 

A chuva tão esperada numa cidade quente, era uma festa desejada por todos.

 

As crianças descalças molhavam os pés nas correntezas que se formavam pelas ruas.

 

Era uma das brincadeiras preferidas da meninada daquele tempo.

 

Às vezes, porém, algum pé encontrava um caco de garrafa, e a brincadeira terminava com choro e sangue.

 

A hemostasia era feita com teia de aranha, abundante nos velhos casarões cuiabanos.

 

No bar do meu pai ela fazia parte dos recursos de primeiros socorros, pois a quebra de copos era frequente.

 

Não me lembro de ninguém que tenha contraído tétano por causa daqueles improvisados curativos.

 

O trovão não significa necessariamente que vai chover, mas, nas tempestades da minha infância, parecia sempre anunciar a chegada das águas.

 

Sempre tive medo dos trovões acompanhados de raios.

 

Já presenciei a queda de raios muito próximos de mim, na região amazônica de Mato Grosso.

 

Estava em terra, ao lado de um pequeno avião, quando assisti aquele impressionante espetáculo da natureza.

 

Confesso que senti medo —e ainda hoje me recordo daquela cena.

 

Em Mato Grosso os raios continuam representando perigo, especialmente para quem se encontra em áreas abertas durante as tempestades.

 

Apesar do medo, é belo observar, de um lugar protegido e à distância, o céu iluminado pelos relâmpagos e ouvir o estrondo dos trovões, anunciando a força da natureza.

 

Morando em apartamento e sem viajar para o interior, há muito tempo não vejo de perto uma tempestade como aquelas.

 

Hoje, quando escuto um trovão distante, ainda procuro o céu.

 

E, por alguns instantes, volto a ser o menino que corria para o quintal esperando a primeira chuva cair sobre a velha Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

28-08-2026