Algumas aulas passam depressa pela memória dos estudantes.
Outras permanecem vivas por toda a vida.
Durante meus anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, assisti a muitas aulas importantes, mas algumas ficaram gravadas de maneira muito especial.
Não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como os professores conduziam suas explicações.
Havia momentos em que a sala inteira parecia compreender, de repente, a grandeza da profissão médica e a responsabilidade que ela exige.
Todas as aulas do curso de Medicina eram importantes e, de certo modo, inesquecíveis. Por isso mesmo, é difícil apontar uma única aula que ninguém esqueceu.
Começamos pela anatomia descritiva, pela neuroanatomia e pela anatomia topográfica.
As aulas práticas, muitas vezes, eram insuficientes.
Para suprir essa deficiência, nosso grupo de estudantes, comprava do bedel da faculdade um esqueleto e peças de neuroanatomia guardadas em latões com formol, que levávamos para estudar no quarto da pensão, longe das vistas da dona da casa.
Eram estudos inesquecíveis.
Também é impossível esquecer as aulas de Fisiologia, no segundo ano, quando começávamos a compreender o funcionamento do corpo humano.
Aprendemos, na Semiologia, a extrair a história do paciente e a chegar a uma hipótese diagnóstica.
Recordo também um carismático professor de Cardiologia da Santa Casa, muito respeitado pelos alunos, que dava aula sobre os males da nicotina no sistema cardiorrespiratório com um cigarro na ponta da boca, enquanto as cinzas caíam sobre seu avental branco.
Era uma contradição viva, e talvez por isso mesmo, inesquecível.
O professor de cirurgia da tireoide ministrava aulas no próprio centro cirúrgico.
Antes de iniciar o procedimento, perguntava se gostaríamos de vê-lo operar com a mão esquerda ou com a direita.
Operava bem, com rapidez e segurança.
O chefe da clínica cirúrgica da Santa Casa, por sua vez, operava com elegância.
Assisti a professores velozes em cirurgia, e a outros lentos, quase solenes.
Mas as aulas mais valorizadas eram aquelas em que os pacientes se faziam presentes.
Eram elas que nos mostravam o quando havíamos avançados no conhecimento da Medicina desde a aula inaugural.
Já não éramos apenas estudantes.
Éramos quase médicos.
E talvez seja isso o que nunca se esquece: o instante em que o sonho começa a ganhar corpo.
Gabriel Novis Neves
06-04-2026