Quando uma lâmpada queimava a casa parecia perder um pouco da sua alegria.
Logo alguém providenciava outra, subia numa escada e devolvia a claridade ao ambiente.
Era uma tarefa simples, mas que transmitia a agradável sensação de que tudo voltava ao seu lugar.
A luz sempre representou conforto, segurança e acolhimento dentro de casa.
Antes da construção da Usina do Manso, as interrupções no fornecimento de energia eram frequentes em Cuiabá, e pouco podíamos fazer além de esperar o restabelecimento da eletricidade.
Já quando, apenas uma lâmpada queimava, o problema era facilmente resolvido.
Havia sempre uma de reserva guardada no armário da copa, pronta para devolver a claridade ao lar.
Até hoje conservo esse hábito.
Nunca deixo de ter uma lâmpada nova para qualquer emergência.
Quando criança, dormíamos com uma luz acesa no corredor dos quartos.
Se a energia faltasse durante a noite, acordávamos assustados, como se a escuridão tornasse o ar mais pesado.
Talvez por isso, até hoje preciso de um pequeno ponto luminoso para dormir tranquilamente.
Deixo aceso o discreto visor do aparelho de ar-condicionado, cuja luz suave basta para me transmitir serenidade.
Mesmo no inverno cuiabano, ele permanece ligado.
Conheço, porém, pessoas que fazem exatamente o contrário.
Eliminam qualquer pontinho de luz para dormir em completa escuridão.
Cada um encontra paz à sua maneira.
Desde os tempos mais antigos, a luz simboliza esperança, proteção e vida.
Também na tradição bíblica ela aparece como sinal da presença divina, iluminando caminhos e afastando as trevas.
A claridade de uma casa bem iluminada transmite uma agradável sensação de limpeza, ordem e bem-estar.
Talvez por isso a literatura costume associar as cavernas, a penumbra e a escuridão às dificuldades da existência, enquanto a luz quase sempre representa conhecimento, confiança e renovação.
Em Cuiabá, a luminosidade intensa que nos acompanha durante boa parte do ano parece irradiar energia e alegria aos seus habitantes.
Já os dias de céu encoberto costumam despertar uma discreta melancolia.
Quando chega a noite, a lua e as estrelas devolvem poesia ao céu cuiabano.
Não é por acaso que os poetas fizeram da lua a eterna companheira dos enamorados.
Talvez seja por isso que uma simples lâmpada acesa nunca ilumine apenas a casa; ela também clareia as nossas lembranças e aquece silenciosamente o coração.
Gabriel Novis Neves
14-07-2026