Durante muitos anos, o calor era combatido com leques, abanadores e janelas abertas.
Quando surgia o primeiro ventilador da casa, ele se transformava numa espécie de celebridade doméstica.
Todos disputavam o lugar mais próximo.
Seu barulho constante parecia música para quem sofria com as altas temperaturas.
O aparelho funcionava dia e noite, trazendo conforto e novidade.
Pequenos avanços tecnológicos costumavam provocar grande encantamento nas famílias daquela época.
Não me recordo exatamente quando nossa casa adquiriu o primeiro ventilador.
Até viajar para estudar, convivi naturalmente com o calor de Cuiabá e dormia tranquilamente sem sentir falta de qualquer aparelho.
Quando retornei, onze anos depois, o ventilador já fazia parte do meu dormitório.
Sem ele, tinha dificuldade para dormir.
Os salões do bar de meu pai recebiam o sol forte da tarde e, mesmo aconselhado por mim, ele jamais instalou ventiladores de teto.
Justificava sua decisão dizendo que, sem ventiladores, vendia mais cerveja.
Era uma lógica curiosa, mas que lhe parecia bastante convincente.
Com o passar do tempo, porém, a cuiabania acabou cedendo às novas tecnologias.
Vieram os aparelhos de ar-condicionado e os ventiladores perderam espaço.
Hoje, poucas casas deixam de possuir algum sistema de refrigeração.
A sociedade absorve rapidamente as inovações.
Foi assim com o computador, que substituiu as máquinas de datilografia, hoje transformadas em peças de museu.
Foi assim com a telefonia móvel e com o celular, pequeno computador que cabe na palma da mão.
Essa invenção revolucionou a comunicação, aproximou pessoas, facilitou serviços e transformou hábitos do cotidiano, inclusive as operações bancárias.
As novas tecnologias melhoraram a vida dos cuiabanos em praticamente todas as áreas do conhecimento.
Os idosos, porém, muitas vezes encontram dificuldades para acompanhar tantas mudanças que surgem quase diariamente. Também apareceram novas formas de crime praticadas pela internet, tornando os mais velhos alvos frequentes dos golpistas.
E, entre tantas novidades que transformaram o mundo, ainda me faço uma pergunta sem resposta: afinal, em que dia meu pai comprou o primeiro ventilador da nossa casa?
Talvez a memória tenha esquecido a data.
Mas não esqueceu a sensação agradável daquele vento simples, girando devagar nas noites quentes da velha Cuiabá.
Gabriel Novis Neves
21-06-2026