quinta-feira, 14 de maio de 2026

PESO DAS DÚVIDAS


Ainda sentado na cama fiz uma série de perguntas a pessoas e a assuntos diferentes.

 

Tenho mais dúvidas do que certezas.

 

Queria saber do advogado que cuida das questões referentes à universidade quando irei receber parte do meu salário de dezembro, que ficou inscrita em restos a pagar.

 

Também gostaria de ter notícias dos 28,85% retirados dos salários dos antigos professores, cujo processo, há trinta anos, já percorreu todas as instâncias superiores da Justiça do nosso país, sendo aprovado em todas elas.

 

A gerente de um banco privado disse que pediria um novo cartão de crédito para mim.

 

Outra, também de banco privado, informou que o meu novo cartão veio com defeito e que providenciaria outro.

 

Sou isento de pagar imposto de renda nas instituições às quais que tenho vínculo, em razão de uma cirurgia cardíaca realizada anos atrás.

 

Neste ano, um Ministério enviou à Receita Federal, de forma equivocada, o Informe de Rendimentos, esquecendo-se que sou isento do pagamento do imposto, em razão da cirurgia que fiz no coração.

 

São tantas as dúvidas que me cercam, e tantas preocupações que me atormentam, que sozinho já não sei mais o que fazer.

 

Gostaria de viver estes últimos anos como viveu meu pai: com o sentimento sereno do dever cumprido.

 

Continuo lutando pelos meus direitos, pois não tenho corretor nem empresário.

 

Não possuo fortunas, mas procuro estar sempre atento àquilo que conquistei.

 

Lembro-me do avô da minha mulher, que tinha um corretor no banco, responsável por sua vida financeira.

 

Até consultas médicas ele pagava por via bancária, assim como a sua declaração de imposto de renda.

 

Levava uma vida calma, serena, sem nenhum tipo de preocupação.

 

Sempre o invejei por isso, ainda mais agora, beirando os noventa e um anos.

 

Hoje tenho mais dúvidas e preocupações do que quando era jovem e podia me deslocar para resolver os problemas pessoalmente, e não à distância, como agora.

 

Enfim, é isso.

 

No fim da vida, o que mais pesa não é a falta de resposta — é o cansaço de continuar perguntando.

 

Gabriel Novis Neves

03-04-2026




quarta-feira, 13 de maio de 2026

CALENDÁRIOS MARCAM GERAÇÕES


Durante muitos anos o calendário pendurado na parede era consultado com atenção.

 

Ali estavam marcados os feriados, os dias santos, os aniversários, os vencimentos das contas e os compromissos da família.

 

Cada mês virado era quase uma pequena cerimônia doméstica.

 

Hoje os celulares avisam tudo.

 

Mas o velho calendário de parede tinha uma poesia própria, especialmente quando se descobria, com alegria antecipada, um feriado chegando.

 

Conservo o meu na parede do escritório, lugar onde permaneço por mais tempo.

 

Era uma verdadeira agenda, com seus próprios encantos visuais.

 

As lojas comerciais, com a modernidade, deixaram de brindar seus clientes com aqueles utilíssimos calendários de parede, substituídos por agendas de mesa, de gaveta e, depois, pelos aparelhos eletrônicos.

 

As cuidadoras gostaram dessa invencionice, pois ali anotam os pagamentos que uma casa exige.

 

Hoje, dia de muitas contas, observei a destreza da cuidadora-chefe conferindo as anotações da agenda com o auxílio do celular.

 

O paisagista que cuida do meu jardim enviou-me uma mensagem confirmando que virá no primeiro horário.

 

A cuidadora-chefe não estará aqui para fazer o PIX, mas me tranquilizou: a próxima plantonista está habilitada nessa moderna tecnologia.

 

Menos mal.

 

Quando o paisagista ainda era chamado de jardineiro, o calendário de parede tinha também essa missão: lembrar, com antecedência, a data da sua visita.

 

Os religiosos eram cuidadosos na confecção dos seus calendários, sempre muito disputados e recebidos como sinais de fé.

 

Minha mãe os adquiria com antecedência na gráfica do Seminário Episcopal.

 

Minha irmã Ylcléa, até há pouco tempo, sempre me presenteava no Natal com um calendário religioso.

 

De uns anos para cá, deixou de fazê-lo.

 

Não perguntei o motivo, nem ela me explicou.

 

Assim, as tradições vão desaparecendo da parede do meu escritório.

 

Desaparecem como as folhas de ramos, os presépios dos casarões e tantos pequenos costumes da velha Cuiabá.

 

Ficamos mais ricos em tecnologia.

 

E um pouco mais pobres de encantamento.

 

Gabriel Novis Neves

06-05-2026




terça-feira, 12 de maio de 2026

GERÊNCIA DA CASA


Nada é mais complicado para um idoso do que cuidar, sozinho, do espaço onde mora.

 

Cito o meu exemplo.

 

Tenho três funcionárias fixas, sendo duas cuidadoras.

 

Um escritório de contabilidade acompanha toda a legislação trabalhista: boleto mensal, férias, décimo terceiro salário e eSocial.

 

Há também o Carnê-Leão mensal.

 

Pago o boleto mensal da Imobiliária que administra o aluguel de meus apartamentos.

 

Ainda pago os honorários mensais do escritório de contabilidade, inclusive para a elaboração do meu Imposto de Renda junto à Receita Federal.

 

O IPTU do apartamento onde moro vem em oito prestações.

 

Há a taxa mensal do condomínio.

 

Pago o paisagista, responsável pela manutenção do jardim da cobertura, que exige cuidados constantes.

 

Pago semanalmente a faxineira.

 

Há ainda o fisioterapeuta domiciliar, a lavanderia, o mercado, a farmácia, a energia elétrica, o Instituto dos Cegos e a Academia de Medicina.

 

Somam-se a isso os cuidados mensais com a saúde, com exames laboratoriais e imunoinfusões no hospital, além da manutenção do apartamento e de seus equipamentos.

 

Se eu não estivesse com a memória em ordem, não conseguiria dar conta de tantas obrigações.

 

Movimento-me entre três bancos comerciais e preciso estar atento aos extratos, às senhas, bem como à renovação de cartões de crédito e débito.

 

No início de julho, pedirei aos gerentes a prova de vida, exigida pelas fontes pagadoras, para provar que continuo vivo.

 

Com o avançar da idade, temo vir a adquirir alguma doença que me invalide para essas tarefas.

 

Pensando nisso, distribui aos meus três filhos a declaração dou meus bens.

 

Isso haverá de facilitar muito o trabalho deles, sobretudo porque, do jeito que minha saúde vai, não considero impossível alcançar o centenário.

 

Sou muito cuidadoso com a alimentação.

 

Não fumo, não bebo álcool e só saio de casa em cadeira de rodas, uma vez por mês.

 

Bala perdida não me encontrará.

 

E, contra as quedas, sigo sempre amparado por um braço amigo.

 

No fim de tudo, administrar a própria vida também é uma forma de coragem.

 

Gabriel Novis Neves

17-04-2026




CADA BISNETO TRAZ UM MUNDO DIFERENTE


Na mesma família, os bisnetos podem crescer em ambientes diversos, estudar em escolas diferentes, falar outros idiomas, viajar mais cedo e usar tecnologias impensáveis para seus avós.

 

Ainda assim, quando se aproximam, alguma coisa os une ao tronco antigo de onde vieram.

 

Cada bisneto traz um mundo diferente dentro de si, mas também carrega um traço invisível da família.

 

É bonito observar como o novo e o antigo se encontram sem briga, apenas convivendo.

 

Tenho essa sensação quando o bisneto nascido e criado Além-Atlântico vem passar as férias em Cuiabá.

 

Ele passa muito tempo distante, mas, quando se encontra com os primos, é como se a separação nunca tivesse existido.

 

Logo começam as brincadeiras comuns a todas as crianças, e o idioma da infância os aproxima com naturalidade.

 

Cada criança traz consigo o seu mundo, e é nele que vai aprendendo a viver.

 

Isso não impede que se adapte à crianças de outras partes do universo, com outras culturas, costumes e línguas diferentes.

 

E isso me encanta nelas!

 

São muito diferentes dos adultos, que, às vezes, mesmo dentro de um mesmo país, encontram dificuldades de relacionamento.

 

Os traços de família que netos e bisnetos carregam os unem de maneira forte e misteriosa.

 

Sem isso, seriam apenas ilustres desconhecidos ligados por traços genéticos.

 

Aliás, segundo a história, a humanidade veio de um mesmo tronco.

 

As guerras, os interesses e as vaidades foram separando os homens, o que não deveria acontecer dentro das famílias.

 

Embora os bisnetos sejam de mundos diferentes, trazem, invisíveis dentro de si, sinais de uma mesma origem.

 

E isso, na maioria das vezes, os mantém unidos.

 

Família significa união, embora, como toda a regra, também tenha suas exceções.

 

Assim como é lindo ver um bisneto brincando com outro bisneto, é doloroso imaginar um irmão morrendo sem falar com o outro.

 

Esse é um dos momentos mais tristes da instituição familiar.

 

São desastres silenciosos, rupturas dolorosas de troncos antigos que deveriam continuar florescendo.

 

Por isso, quando vejo meus bisnetos brincando juntos, vindos de mundos diferentes, sinto que a família ainda cumpre sua missão mais bonita.

 

A de lembrar que ninguém nasce sozinho.

 

Todos viemos de alguém.

 

E, enquanto houver uma criança chamando outra para brincar, ainda haverá esperança de união no coração da família.

 

Gabriel Novis Neves

28-04-2026




domingo, 10 de maio de 2026

CURIOSIDADE INFANTIL


As crianças pequenas perguntam sem cerimônia e, por isso mesmo, alcançam verdades que os adultos já aprenderam a contornar.

 

Um bisneto, com sua curiosidade limpa, pode transformar uma tarde comum em espanto e ternura.

 

Pergunta sobre a idade do bisavô, sobre objetos antigos, sobre retratos, sobre palavras esquecidas.

 

E cada pergunta parece abrir uma gaveta da memória.

 

Ao responder, o mais velho não ensina apenas: revive, reorganiza e repartilha a própria história.

 

Os pequenos têm ânsia de saber.

 

Por isso perguntam tanto.

 

Também ainda não conhecem a inibição que tanto atrapalha os adultos.

 

Casa barulhenta é casa com crianças.

 

Na pressa de saber sobre suas origens e tirar suas dúvidas, fazem perguntas em voz alta, muitas vezes todas ao mesmo tempo.

 

Não há censura nas perguntas dos bisnetos. Elas transformam nossos encontros em verdadeiras aulas de conhecimento e afeto.

 

Meus bisnetos perguntam sobre tudo o que veem e ouvem.

 

Procuram respostas nos mais antigos, deixando-nos, às vezes, desconcertados.

 

Fazem muitas perguntas sobre pequenos animais, que vivem tão perto deles em suas casas, algumas vezes dividindo o mesmo quarto e até a mesma cama.

 

Fui criado em casa sem animais, embora meu avô possuísse em sua residência um verdadeiro zoológico doméstico.

 

As crianças recebem muitos estímulos visuais, embora ainda desconheçam o significado de quase tudo.

 

Têm curiosidade sem limites.

 

Tudo o que encontram em minha casa aguça essa vontade de saber: álbuns de fotografias, objetos antigos, plantas, quadros de pintores, esculturas, móveis da minha biblioteca e do meu consultório de terapia visual.

 

Cada coisa vira motivo de espanto.

 

Cada detalhe pede uma explicação.

 

Não saberia viver sem crianças ao meu redor.

 

Sendo o primogênito de nove filhos, sempre tive crianças por perto, até minha ida para o Rio de Janeiro, onde fui estudar Medicina.

 

Na minha ausência, nasceu minha irmã caçula.

 

Talvez eu tenha escolhido a Ginecologia e a Obstetrícia para continuar perto do começo da vida.

 

As crianças sempre foram, para mim, uma fonte permanente de aprendizado.

 

Elas perguntam porque confiam.

 

E, sem saber, nos ensinam a responder com amor.

 

Gabriel Novis Neves

29-04-2026




SEMPRE COM AS MÃES


O Dia das Mães nunca passa em branco dentro da gente.

 

Mesmo quando a casa está cheia, as vozes se misturam, as crianças correm e a mesa parece festa, há sempre um instante silencioso em que a memória se senta ao nosso lado.

 

Minha mãe chamava-se Irene.

 

Foi uma mulher forte, longeva, dessas mães antigas que sustentavam a família mais pelo exemplo do que pelas palavras.

 

Sou o primogênito de nove filhos e aprendi cedo a dividir cuidados, afetos e responsabilidades.

 

Mamãe Irene carregava a casa inteira no olhar atento e nas mãos sempre ocupadas.

 

A outra mãe da minha vida foi Regina, mãe dos meus três filhos.

 

Regina partiu ainda em plena maturidade, quando a vida parecia ter muito caminho pela frente.

 

O destino, com suas estranhas coincidências, levou Irene e Regina no mesmo ano.

 

Perdi duas referências de afeto quase ao mesmo tempo.

 

A vida, porém, ensina silenciosamente que ninguém consegue viver sem mãe.

 

Talvez por isso eu tenha adotado minha filha única, Mônica, como mãe.

 

É ela quem cuida, aconselha, pergunta, protege e vigia discretamente meus passos.

 

O tempo vai mudando os papéis sem pedir licença.

 

E o amor aprende novas maneiras de permanecer vivo.

 

O Dia das Mães, para mim, é muito mais saudade do que tristeza.

 

Saudade das vozes, dos gestos simples, dos cuidados invisíveis, das presenças que ajudaram a construir a família que hoje vejo crescer à minha volta.

 

As mães não desaparecem completamente.

 

Continuam vivendo nos filhos, nos netos, nos bisnetos e na delicadeza dos cuidados que atravessam as gerações.

 

Talvez seja essa a verdadeira eternidade das mães.

 

Gabriel Novis Neves

10-05-2026






sexta-feira, 8 de maio de 2026

A JUVENTUDE QUE NOS DEVOLVEM


Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.

 

Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas.

 

Ao lado deles a vida parece menos pesada.

 

Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo.

 

Como é bom receber a visitas dos netos!

 

Tudo parece reflorir.

 

Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto.

 

Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto.

 

Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades.

 

Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude.

 

Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento.

 

Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica.

 

O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica.

 

Fica mais leve.

 

Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós.

 

Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo.

 

E é bom que seja assim.

 

O tempo não volta para trás.

 

O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos.

 

Nem todas as mudanças são boas.

 

Algumas assustam.

 

Outras encantam.

 

Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas.

 

Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda.

 

É como se a família ganhasse nova luz.

 

Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece.

 

Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio.

 

Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura.

 

Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva.

 

E agradeço.

 

Porque a juventude que os netos nos devolvem não está no corpo.

 

Está no coração.

 

E o coração, quando ama, nunca envelhece.

 

Gabriel Novis Neves

27-04-2026