sábado, 7 de novembro de 2026

TICKET AMASSADO

 

Guardado no bolso ele registra um momento, um deslocamento, uma pressa — e vira memória sem importância.

 

Todos os meses guardo no bolso da calça um ticket do estacionamento do hospital onde faço a infusão de frascos de imunoglobulina na veia.

 

Aquele papelzinho marca o tempo de permanência, a pressa em deixar o hospital e, no fim, vira lembrança.

 

Faço isso há três anos e já tenho material suficiente para escrever uma crônica.

 

De tão amassado, já o perdi algumas vezes — e fiquei preso no estacionamento, obrigando o gerente a resolver o problema.

 

Os estacionamentos modernos são totalmente comandados por computadores, e a chave para abrir ou fechar suas traves ou portões é justamente o ticket, que registra entrada, saída e o valor devido.

 

Tudo hoje é computadorizado, conferindo às finanças do investimento uma precisão quase burocrática.

 

Quanta importância tem esse papelzinho que recebemos da máquina!

 

Os manobristas, acostumados ao vai-e-vem de quem chega aflito, logo percebem se o motorista está com pressa ou preocupado.

 

O manobrista da maternidade, então, conhece como poucos a urgência dos seus passageiros.

 

E quantas crianças já nasceram ali mesmo, no pátio!

 

Há, espalhados pela cidade, estacionamentos perigosos, especialmente à noite, quando o motorista deixa o abrigo do carro e se torna alvo fácil.  

 

Lembro-me de quantas vezes — e não foram poucas — tive medo de sair de determinados estacionamentos.

 

Alguns mantém vigas uniformizados e armados à porta, tentando oferecer alguma segurança.

 

Hoje existem estacionamentos de todos os tipos, funcionando vinte e quatro horas: hospitalares, comerciais, de entretenimento.

 

E as lembranças desses lugares, somadas, viram memórias.

 

A importância delas — ou não — depende sempre de quem narra o fato.

 

Como tudo na vida, uns episódios são mais felizes que outros.

 

Com a onda de violência que assola este pais, alguns profissionais liberais ainda podem se dar ao luxo de trabalhar em casa com tranquilidade. Mas são exceções.

 

Gabriel Novis Neves

22-11-2025



sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O VASO QUEBROU SOZINHO


Um estalo na sala, um pedaço no chão — e a casa parece suspirar com os objetos que chegam ao fim de sua história.

 

Quantas vezes, na minha longa vida, presenciei cenas como essas.

 

Um discreto vento encanado — pavor dos antigos, que acreditavam ser causa de pneumonia — e, de repente, o barulho de um estalo na sala.

 

Um pedaço no chão, e a casa suspira como se compreendesse o fim silencioso de algo que sempre nos acompanhou.

 

Certos objetos da decoração parecem ter destino próprio.

 

E sentimos suas ausências como se fossem de um de nós.

 

O último baque que me marcou foi o de um lindo vaso que quebrou sozinho, durante a arrumação da sala de visita.

 

É muito triste presenciar o final de um objeto da nossa casa.

 

Nessas horas penso em quantas pessoas também nos deixaram só neste mês.

 

Por que nos apegamos tanto aos bens materiais, se os conhecemos há tão pouco tempo — e partiremos sem eles?

 

O estalo de alguma coisa nunca sai da minha memória.

 

O do sobrado que desabou na ponta da rua onde nasci, é um ruído que não consigo esquecer.

 

E imagino o estalo do vaso que quebrou sozinho na sala, deixando cacos pelo chão.

 

Os racionais têm sentimentos que, às vezes, nós mesmos duvidamos possuir.

 

É difícil administrar os nossos próprios sentimentos — imagino então o do próximo!

 

Viver é uma aventura, e o sofrimento existe.

 

Escrever é uma válvula de escape para as preocupações do cotidiano, uma forma de fazer o tempo passar sem que o percebamos tanto.

 

Se começo a pensar nos meus filhos, netos e bisnetos, fico remoendo o futuro deles — e isso me inquieta.

 

Já passei por muitos estalos existenciais, e todos eu venci.

 

Sei que o vaso da minha vida está no seu limiar e, a qualquer hora, pode também quebrar.

 

Enfim, escrevi sobre a vida sem fantasia.

 

Gabriel Novis Neves

20-11-2025




quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A CADEIRA DO BARBEIRO


Mesmo vazia, ela conserva ecos de risadas, conselhos e vaidades de outras épocas.

 

A barbearia é um daqueles lugares que continuam vivos, mesmo depois que as vozes se calam.

 

Sempre gostei de frequentar esses salões.

 

Seus melhores profissionais estavam concentrados no Rio e em São Paulo, e geralmente eram portugueses.

 

Encontrei alguns bons profissionais em Brasília: nordestinos que se aventuraram na nova capital e se deram bem.

 

Esses fatos ocorreram há cinquenta e cinco anos, quando era chique os homens pintarem as unhas com esmalte neutro.

 

Com a globalização, os salões de barbeiros — hoje mais chamados de cabelereiros unissex — mantêm a mesma eficiência e qualidade.

 

Os homens de hoje parecem mais vaidosos que os de antigamente e gastam uma fortuna para serem atendidos.

 

Muitos escondem os fios brancos, pintando-os.

 

Artistas e jogadores de futebol descolorem os cabelos e inventam cortes cada vez mais ousados.

 

Com a mania de jovens e adultos, usarem bigodes, cavanhaques e barbas — como na época do Império dos Barões —, o ambiente das barbearias mudou completamente.

 

Aquele ar sonolento das barbearias da rua do Meio foi substituído pelos burburinhos dos tempos atuais, onde os bons salões ficam nos shoppings.

 

Quando, em 1970, estávamos iniciando o projeto de implantação da nossa Universidade Federal, eu recebia sempre a visita de muitos técnicos do Ministério da Educação.

 

Um deles, recém-chegado da Europa, com pós-doutorado em letras e sociologia, aconselhou-me a não cortar mais o cabelo em Cuiabá.

 

Da próxima vez que eu fosse a Brasília, que o procurasse: ele me levaria a um bom cabelereiro, que segundo ele, daria um jeito no meu corte de cabelo.

 

Justificou dizendo que eu precisava melhorar a minha fisionomia de ‘matuto do interior do Brasil’.

 

Em Brasília, afirmava ele, quem não tivesse uma ‘cara boa’, não teria sucesso nas necessárias reivindicações.

 

Ora, a nossa Universidade nem orçamento tinha!

 

Então, apelei para o salão do barbeiro que cortava cabelos com tesoura de ouro, recomendado por ministros e até pelo Presidente de República.

 

Gabriel Novis Neves

18-11-2025




quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O CALOR QUE NÃO PEDE LICENÇA


Cuiabá sempre teve uma intimidade antiga com o calor.

 

Um calor generoso, atrevido, que chega sem bater à porta e se instala como dono da casa.

 

Ultimamente, porém, parece que os termômetros resolveram disputar uma corrida para descobrir quem sobe mais.

 

Outubro chega com tardes sufocantes, ventiladores exaustos e aparelhos de ar-condicionado promovidos à condição de membros indispensáveis da família.

 

Mas nem sempre foi assim.

 

Na Cuiabá da minha infância, o calor parecia mais educado.

 

Dormíamos sem ventiladores ou aparelhos de ar condicionado, muitas vezes protegidos pelos cobertores das Casas Pernambucanas.

 

As casas de adobe, cobertas com telhas de barro, guardavam uma agradável frescura.

 

Os quintais arborizados impediam que o sol penetrasse com sua habitual valentia.

 

Os telhados avançavam sobre as calçadas, formando os conhecidos cachorrões, que protegiam as paredes do sol do meio-dia.

 

As ruas ofereciam sombras generosas, presentes gratuitos das árvores.

 

Depois, o progresso chegou trazendo cimento, asfalto e construções que expulsaram o verde. A cidade cresceu, mas perdeu parte de sua sombra.

 

Recordo minha escola primária, com enormes janelões abertos para o Jardim Ipiranga, onde as palmeiras imperiais ajudavam a refrescar nossas manhãs.   

 

Mais tarde, frequentei o Colégio Estadual, recém-inaugurado, numa região chamada de Bosque, onde até o nome parecia prometer temperaturas mais amenas.

 

Naquele tempo, crianças acometidas de coqueluche eram levadas pelos pais, antes do amanhecer, para respirar o ar fresco da madrugada, numa esperança de alívio.

 

Assim cresci, sem imaginar que um dia me tornaria prisioneiro do ar-condicionado.

 

Hoje, Cuiabá ganhou o apelido de Cuiabrasa, cidade onde o verão parece ter adquirido residência permanente.

 

Dizem que ninguém se acostuma verdadeiramente ao nosso calor.

 

Talvez seja verdade.

 

Mas desconfio que o calor não tenha aumentado sozinho.

 

Fomos nós que, derrubando as árvores, deixamos nossa velha Cuiabá sem o direito de procurar uma sombra.

 

Gabriel Novis Neves

23-10-2026




RUAS ENFEITADAS PARA A PROCISSÃO


Na Cuiabá da minha infância havia dias em que as ruas pareciam vestir roupas de festa.

 

Eram os dias das grandes procissões religiosas, quando a cidade se preparava para receber a passagem dos santos, numa demonstração coletiva de fé e respeito.

 

As fachadas ganhavam cuidados especiais.

 

Bandeirolas atravessavam as ruas, os meios-fios recebiam caiação e as janelas permaneciam abertas, enfeitadas com toalhas brancas bordadas e vasos de flores.

 

O menino que fui acompanhava, encantado, aquela transformação.

 

Quando surgiam a cruz, os acompanhantes e a imagem do santo, o movimento diminuía, as conversas silenciavam e os moradores manifestavam sua devoção.

 

Por alguns instantes, a rua deixava de ser rua e se transformava numa igreja a céu aberto.

 

De todas, guardo especial lembrança da procissão de Corpus Christi, quando flores enfeitavam o caminho por onde passaria o Santíssimo Sacramento.

 

O tempo passou e a cidade cresceu.

 

A pequena Cuiabá de vinte mil habitantes transformou-se numa capital populosa, espalhada por bairros distantes e condomínios cercados de altos muros.

 

O antigo centro histórico, onde nasci e cresci, perdeu moradores, movimento e parte de sua antiga convivência.

 

As igrejas permaneceram, mas as procissões já não percorrem com a mesma frequência, aquelas ruas que conheci.

 

Hoje, muitos fiéis chegam de automóvel, vindos de bairros distantes.

 

Até as avós precisam atravessar a cidade para transmitir aos netos os ensinamentos religiosos que receberam na infância.

 

A fé permanece embora seus caminhos tenham mudado.

 

E eu continuo guardando, entre as lembranças mais bonitas da minha Cuiabá, aquelas ruas floridas por onde a fé passava devagar.

 

Gabriel Novis Neves

15-10-2026





segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O NATAL CHEGA CADA VEZ MAIS CEDO


Iniciamos novembro, mas o comércio já começa a vestir suas vitrines para dezembro.

 

Árvores iluminadas, enfeites coloridos e promessas de felicidade anunciam um Natal que parece chegar antes da hora.

 

Na minha infância, dezembro era esperado com uma ansiedade deliciosa.

 

Havia tempo para desejar, imaginar e sonhar.

 

Hoje, tenho a impressão de que a pressa comercial está roubando o encanto da espera.

 

Naqueles tempos, os dias pareciam mais longos.

 

Cada semana tinha sua importância, e o amanhã chegava trazendo alguma novidade.

 

Para nós, meninos da velha Cuiabá, dezembro significava festas, alegria e três meses de férias escolares.

 

Eram dias de brincadeiras nos quintais, visitas aos vizinhos e encontros com parentes que moravam longe.

 

Lembro-me da felicidade que sentia quando chegava minha tia de Corumbá, acompanhada das duas filhas.

 

Também vinham os primos do Rio de Janeiro, assustados com os animais que circulavam tranquilamente pelas ruas.

 

Tudo era simples, mas havia uma alegria que não precisava ser comprada.

 

O Natal chegava devagar, permitindo que a imaginação preparasse sua chegada.

 

Hoje, as festas parecem atropelar umas às outras.

 

Mal termina uma comemoração, já estamos preocupados com a seguinte.

 

Novembro nem começou e muita gente já encerrou o ano, programando viagens, fazendo compras e antecipando felicitações.

 

Aos 91 anos, acompanho essa correria com a tranquilidade de quem já viveu muitos dezembros.

 

Meus dias seguem seu ritmo, entre cuidados, consultas médicas, lembranças e o carinho da família.

 

Recebo votos de felicidade em abundância, muitos deles enviados antes mesmo de dezembro chegar.

 

Não reclamo da modernidade.

 

Apenas sinto saudade de quando sabíamos esperar.

 

Porque descobri, depois de tantos Natais, que a felicidade não estava somente na festa.

 

Estava também na alegria de esperar por ela.

 

Gabriel Novis Neves

30-10-2026




domingo, 1 de novembro de 2026

ENVELHECER EM UM MUNDO QUE NÃO PARA


Chegar aos 91 anos é ter o privilégio de acompanhar transformações que pareciam impossíveis na juventude.

 

Vi o mundo trocar cartas por mensagens instantâneas e fotografias de papel por imagens que chegam pelo telefone.

 

Aprendi a conviver com essas novidades.

 

Mas minhas necessidades mais profundas continuam simples: o carinho da família, a amizade e a alegria de estar perto de quem amo.

 

Há vinte anos sem Regina, minha companheira, compreendo ainda melhor o valor dessas presenças.

 

Sinto falta dos filhos, netos e bisnetos.

 

Cada um tem seus compromissos, sua casa, suas responsabilidades.

 

Compreendo tudo isso, embora a compreensão não diminua a saudade.

 

Nas festas de fim de ano, essa falta aumenta.

 

Basta ouvir um cântico de Natal para recordar pessoas, encontros e celebrações.

 

Fico mais sensível.

 

Lembro das vozes que conheci tão bem e gostaria de ouvi-las novamente.

 

 Conheço o sofrimento da distância desde os anos de estudante no Rio de Janeiro.

 

Foram onze anos longe dos meus.

 

Voltei casado para Cuiabá, em 1964, disposto a constituir família e trabalha na Medicina.

 

Naquele tempo a cidade ainda não tinha universidade.

 

Mais tarde, minha filha pôde estudar Direito aqui.

 

Meus filhos partiram: um cursou Odontologia em Brasília; o outro, Medicina no Rio.

 

Durante a formação, os estágios muitas vezes os mantinham longe no Natal e no Ano Novo.

 

Depois vieram os casamentos, os compromissos com outras famílias e a necessidade de dividir as datas.

 

Assim acontece em muitas casas.

 

Os filhos crescem, seguem seus caminhos, e os pais aprendem a esperar pelas visitas.

 

Hoje, o mundo continua apressado.

 

Eu caminho devagar e tenho tempo para sentir a ausência da Regina e desejar companhia dos nossos.

 

Quando a família chega, gosto de ouvir as conversas, acompanhar as crianças e prolongar a despedida.

 

Aos 91 anos, ainda peço o mais simples: fiquem mais um pouco.

 

Gabriel Novis Neves

31-10-2026