segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A XÍCARA TRINCADA


Há objetos que sobrevivem ao tempo como se guardassem alma própria.

 

Entre eles, conservo uma velha xícara de porcelana branca, trincada num dos lados — herança da minha mãe.

 

A rachadura é quase invisível, fina como um fio de cabelo, e parece uma cicatriz desenhada com cuidado pelo tempo.

 

Já pensei em substituí-la por outra, mas sempre desisto.

 

Ela continua firme, mesmo depois de tantos anos e mãos que a tocaram.

 

Foi nessa xícara que minha mãe servia o café coado no pano, fumegante, perfumando a casa nas tardes preguiçosas.

 

O som do café caindo, o tilintar da colher mexendo o açúcar e o aroma espalhando-se pela copa — tudo isso volta à minha memória cada vez que a uso.

 

Quantas conversas nasceram ao redor dela!

 

Era o centro das pausas e o convite para desacelerar a vida.

 

Hoje, quando tomo café nela, sinto que o tempo recua.

 

O gosto é o mesmo — forte, doce e cheio de lembranças.

 

A trinca, longe de ser defeito, é lembrança viva do que resiste.

 

Muitos jogam fora o que quebra.

 

Eu, não.

 

Guardo o que carrega história, mesmo imperfeito.

 

Há objetos — como pessoas — que só revelam sua beleza depois das rachaduras.

 

Na prateleira da minha cozinha, ela reina entre outras novas e reluzentes.

 

Nenhuma, porém, tem a mesma história, o mesmo perfume, o mesmo afeto.

 

Aquela xícara trincada sobreviveu a mimos, quedas e mudanças de casa.

 

Talvez resista até depois de mim.

 

Para alguns, ela é apenas uma lembrança antiga; para mim, é símbolo de permanência.

 

Prova silenciosa de que o amor verdadeiro não se quebra — apenas se marca com o tempo.

 

Gabriel Novis Neves

08-11-2025




sábado, 17 de outubro de 2026

O PÁSSARO QUE SE OLHAVA NA JANELA


O reflexo de um pássaro no vidro revela o mistério da solidão e o voo silencioso da alma.

 

Todas as manhãs, um pequeno pássaro batia no vidro da janela.

 

Talvez visse ali um rival — ou talvez a solidão da própria imagem refletida.

 

Um dia, o vidro quebrou, e o passarinho sumiu.

 

Mesmo depois do conserto, ele nunca mais apareceu.

 

Gostaria de saber por anda esse passarinho.

 

Talvez tenha encontrado outro vidro, na janela de algum prédio mais alto que o meu.

 

Ou, assustado, tenha desaparecido das redondezas e nunca mais voltou a bater no vidro do meu quarto.

 

Estranha ausência — eu que já estava acostumado com aquela batida ritmada nas manhãs.

 

Será que ele nunca mais se olhou no reflexo de nenhuma janela?

 

Ou será que a sua imagem refletida já não é a mesma de antes — nem rival, nem solidão?

 

Acho que o vidro quebrado lhe fez bem. Talvez agora continue pousando em janelas mais altas, cujos vidros já não lhe devolvem o espelho da tristeza.

 

Quem sabe tenha encontrado uma nova companheira, e nela a felicidade que lhe faltava — exorcizando a antiga solidão refletida em si mesmo.

 

Assim mesmo, espero que o passarinho volte a passear na minha janela e veja refletida no vidro uma nova criatura — ele próprio, transformado.

 

Pode ser que, com a mudança do horário de visita, os raios de sol tenham alterado o reflexo, confundindo-lhe a imagem e os sentimentos

 

Quando as pessoas vão à praia, deitam-se na areia, próximas às ondas, e voltam com a pele bronzeada — sinal de vida e de saúde.

 

Em dias sem sol, retornam frustradas sentindo o vazio de uma manhã perdida.

 

Não sei se o passarinho da minha janela refletia no vidro a sua felicidade ou a sua tristeza.

 

Por que não voltou mesmo depois da troca do vidro?

 

Ou teria vindo às escondidas e não mais reconheceu a própria imagem, agora transformada em espelho?

 

Mistérios que só descobrimos vivendo — mesmo que não sejamos um simples passarinho.

 

Gabriel Novis Neves

06-11-2025




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O BARBEIRO CEGO


Há quem veja com os olhos, e há quem enxergue com o coração.

 

Na velha barbearia da rua do Meio, um homem sem visão cortava cabelos — e tocava almas.

 

Cortava cabelos de olhos fechados, mas parecia enxergar as almas.

 

Suas mãos sabiam onde o pente devia passar — como se guiassem memórias, e não fios de cabelo.

 

Deus sabe o que faz.

 

Tira um sentido e aperfeiçoa outros.

 

Nunca cortei cabelos ou fiz a barba com barbeiros cegos.

 

Os antigos dizem que chegaram a cortar cabelos com profissionais sem visão.

 

Eram caprichosos ao extremo e muito inteligentes, direcionando as conversas com humor e sabedoria.

 

Sua freguesia era composta quase que só de vizinhos de rua.

 

Os fregueses diziam que aquele homem via com as mãos.

 

Sabia quem estava triste ou feliz apenas pelo toque leve do pente sobre a cabeça.

 

Sentia quando o cliente vinha preocupado, e logo puxava assunto para aliviar o coração.

 

Falava de futebol, das notícias do dia, das namoradas e da política local.

 

Era o confessor de todos, e a barbearia uma espécie de templo da amizade.

 

A cadeira de couro, já gasta pelo tempo, guardava histórias que ele jamais revelava.

 

O espelho, limpo e brilhante, refletia a vaidade dos outros —mas não a dele.

 

Cego, parecia enxergar mais longe que todos nós.

 

Enxergava com o coração.

 

Quando a tesoura silenciava, o freguês levantava-se leve, como se tivesse deixado ali não apenas os cabelos cortados, mas também os pensamentos pesados.

 

E antes de ir embora, pagava e dizia: ‘Até a próxima, mestre’.

 

Ele sorria, virando o rosto em direção à voz.

 

Sabia exatamente quem era.

 

Dizem que um dia, já velho, deixou de cortar cabelos, mas continuou frequentando a barbearia apenas para conversar.

 

E até hoje, quem passa por ali jura ouvir o som da tesoura no ar — lembrança viva de um barbeiro cego que via melhor do que todos nós.

 

Gabriel Novis Neves

06-11-2025




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O SAPATEIRO DA ESQUINA


Entre o cheiro de cola e de couro, o sapateiro era um artista silencioso.

 

A crônica homenageia esses mestres do ofício que consertavam não só sapatos, mas também histórias gastas pelo tempo.

 

Na Cuiabá antiga os sapatos eram de couro e duravam muitos anos.

 

Quando eu era guri, todos os meus sapatos tinham meia-sola e se aposentavam apenas quando o pé crescia — ou quando o couro, finalmente se rasgava.

 

Tínhamos inúmeros e bons sapateiros, e era difícil encontrar uma quadra sem pelo menos um deles.

 

Suas oficinas ficavam quase sempre na própria casa, ocupando uma salinha de frente para a rua.

 

Ali reinavam o cheiro da cola e do couro, misturados à boa conversa do artesão — o verdadeiro artista silencioso.

 

Fiz amizade com vários, entre eles o seo Atanásio, na rua Voluntários da Pátria, quase esquina com a rua de Cima, em frente à casa do meu avô Alberto.

 

Naquele tempo, sapatos não eram descartáveis como os de agora, e em casa ninguém tinha mais que um par.

 

Para mantê-los sempre limpos, a cidade contava com muitos engraxates —uns de banca fixa, outros ambulantes.

 

Na Praça Alencastro, na da República e na rua de Cima, entre a avenida Presidente Vargas e a rua Cândido Mariano, eles eram encontrados aos montes.

 

Os engraxates pouco conversavam, diferente dos sapateiros, que viviam contando histórias aos fregueses.

 

Muitas das antigas oficinas desapareceram, dando lugar às torres residenciais.

 

Mas a casa do sapateiro da Voluntários da Pátria, com sua oficina de artista silencioso, permanece lá — intacta e fechada.

 

Talvez algum problema jurídico, ligado ao inventário tenha sido o motivo do abandono.

 

Hoje, já não sei se ainda existem sapateiros em nossa cidade.

 

Era um ofício passado de pai para filho, tradição que resistiu por gerações.

 

Com a fundação da Universidade Federal de Mato Grosso, o filho do sapateiro tornou-se doutor — e assim melhoraram as condições sociais de muitas famílias de ofícios artesanais.

 

Gabriel Novis Neves

05-11-2025




quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A CHAVE ESQUECIDA NA PORTA


Um pequeno descuido desperta grandes lembranças.

 

Ao perceber a chave esquecida na porta, fui transportado às memórias da infância — tempo em que a confiança era tanta que ninguém trancava a casa, e o medo ainda não morava nas esquinas.

 

No tempo da minha avó Eugênia, mãe de quinze filhos, ela só fechava a porta da rua depois de contar as crianças espalhadas pelo chão.

 

Às vezes, alguma passava a noite na casa de vizinhos, e isso era comum.

 

Na casa dos meus pais, a porta da rua tinha apenas um trinco — a tranca era usada de vez em quando.

 

Era a maneira inteligente que minha mãe encontrou para controlar a chegada dos filhos.

 

Eles precisavam tocar com os dedos a janela do quarto dela.

 

Então, ela se levantava, retirava a tranca de madeira e abria a porta.

 

Perguntava sobre o horário, cheirava o hálito dos meninos para saber se haviam fumado ou bebido, e em seguida apontava para a varanda, onde um copo de leite os esperava sobre a geladeira.

 

Só depois nos mandava para o quarto.

 

Essa disciplina durou até meus primeiros anos de Medicina, quando eu vinha passar as férias em casa.

 

Nunca tivemos chave.

 

E mesmo depois de formado, nunca fumei nem bebi na frente dos meus pais.

 

Curiosamente, foi meu pai quem passou a me entregar, todos os dias, duas carteiras de cigarro — uma para mim e outra para a Regina.

 

As chaves das casas antigas eram enormes, pesadas, e ninguém as carregava no bolso.

 

A cidade era tão tranquila que ninguém temia ladrões.

 

Quando morei na casa assobradada do avô da Regina, na rua Paissandu, no Rio de Janeiro, ele tinha o hábito de manter a porta sempre trancada, guardando a chave na varanda.

 

Ao anoitecer, conferia cada fechadura e subia para seus aposentos, onde mantinha uma bela biblioteca.

 

Raras eram as noites que não descia para verificar se todas as portas estavam bem fechadas.

 

Eu brincava, chamando-o de neurótico obsessivo.

 

Hoje, no meu apartamento do vigésimo andar, tenho chaves modernas, fechaduras com travas e olho mágico.

 

Ainda assim, confesso: tenho medo de ladrões.

 

Gabriel Novis Neves

01-11-2025




A JANELA DA RUA DE CIMA


É a crônica de uma janela que via tudo: os desfiles, os namoros disfarçados e o passar do tempo — até o dia em que a vista se perdeu entre prédios.

 

Era a aristocrática rua de Cima, dos casarões com lindos sobrados e quintais frutíferos, de sombras generosas que se derramavam pelas calçadas.

 

Ali, por muito tempo, morou a elite da cuiabania.

 

Quando criança, passava com frequência por essa rua curta.

 

Ia da Praça Alencastro até a Praça da Mandioca, onde moravam os capitães- generais em seus belos casarões.

 

Tudo que acontecia em Cuiabá passava pela rua de Cima: procissões, missas na Catedral, desfiles cívico-militares, retretas no Jardim, movimentos no Palácio Alencastro e no Palácio da Instrução.

 

Bares e restaurantes animavam as noites, e das janelas elegantes os moradores observavam tudo — os namoros disfarçados, as festas, a própria vida a desfilar diante deles. Essas janelas eram, para seus privilegiados donos, um verdadeiro parque de diversões.

 

O lugar naquela janela que via tudo era disputado, até mesmo por outros moradores da casa.

 

Mas um dia, a vista se perdeu entre prédios.

 

Os antigos habitantes se mudaram para bairros afastados, o comércio fechou as portas, e as residências desapareceram.

 

A outrora charmosa rua de Cima tornou-se um deserto, com noites tristes e silenciosas.

 

Resta aqui e ali algum comércio resistente, pelas bandas do Bar do Bugre, também com os dias contados.

 

Desconheço qualquer projeto de revitalização do Centro Histórico e Cultural de Cuiabá.

 

As ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo precisam ser salvas — com suas histórias e memórias.

 

Exemplos não faltam em outras cidades: lembro-me da Lapa, no Rio de Janeiro, que não morreu.

 

O progresso empurra Cuiabá para longe da velha capital, para onde antes eram chácaras, sítios e fazendas — hoje tomadas por casas sem janelas, sem varandas, sem o prazer de ver a banda passar.

 

É isso que estamos deixando para as novas gerações: uma cidade sem história.

 

Gabriel Novis Neves

29-10-2025




segunda-feira, 12 de outubro de 2026

CHEIRO DE CHUVA


Não havia nada melhor, nas tardes quentes cuiabanas, do que o cheiro da terra molhada e o som das goteiras.

 

Isto fazia a alma descansar.

 

Como eu gostava dessa combinação entre a chuva batendo nas telhas de barro e o compasso das goteiras!

 

Ainda bem que a minha casa da rua do Campo não era forrada — assim eu podia sentir os borrifos da chuva sobre o corpo.

 

Seo Domingos, velho pedreiro da família, sabia que, depois das chuvas, teria de cimentar as goteiras, especialmente as dos dormitórios.

 

Também cabia a ele desentupir os bueiros da área de serviço, entupidos pelas folhas das plantas da varanda e do quintal.

 

Desde o meu retorno à cidade natal, em 1964, sempre morei em casas com forro — e há trinta anos num apartamento.

 

Mesmo durante um temporal, se estou dormindo, nem percebo que choveu.

 

Aquela alegria sensorial — o cheiro da terra molhada, o som da chuva no telhado, as goteiras e os borrifos — jamais voltarei a sentir.

 

Certos odores da natureza, como o da terra molhada, parecem incompatíveis com o progresso.

 

Não acho que o progresso tenha sequestrado os prazeres simples da vida, ao alcance de todos.

 

Mas as cidades tornaram-se mais embrutecidas, sem a beleza da água escorrendo em direção aos córregos.

 

Perdemos a poesia e o encanto do córrego da Prainha transformado em avenida; do Barbado, do 8 de Abril e do Quintal Grande — este último, totalmente canalizado, corre agora sob a pela região da Avenida Mato Grosso.

 

O tanque do Baú foi aterrado para dar lugar a prédios públicos e a uma clínica famosa.

 

Cuiabá tem vinte e oito córregos — e a maioria está escondida sob o asfalto.

 

Sem o devido cuidado na canalização, a cidade sofre com as inundações.

 

As chuvas tão aguardadas na cidade mais quente do Brasil trazem, junto com o alívio, os horrores das enchentes.

 

A velha capital do Estado nasceu num vale, onde toda a água das chuvas, sem drenagem, transforma as ruas em rios.

 

Gabriel Novis Neves

29-10-2025