sexta-feira, 31 de julho de 2026

EMPINANDO PIPAS


Construir uma pipa era muito mais do que preparar um brinquedo.

 

O menino escolhia cuidadosamente as varetas, colava o papel colorido e sonhava com o momento de vê-la subir ao céu.

 

Quando o vento ajudava, surgia uma alegria difícil de explicar.

 

A cada voo aprendia que paciência, dedicação e esperança também podem ganhar asas.

 

Todo menino sonha em conquistar sua independência.

 

Deseja ganhar as próprias asas e descobrir o mundo por si mesmo.

 

A imaginação alimenta seus sonhos e aponta o caminho do futuro.

 

Sonha em crescer, estudar, trabalhar, conquistar um diploma universitário e constituir uma família.

 

Para ele, cada uma dessas conquistas representa uma nova altura alcançada, como uma pipa vencendo o vento e subindo ao céu.

 

Com o passar dos anos, percebe que a vida está sempre convidando para novas aventuras.

 

Descobre, quase sem perceber, que é preciso construir outras pipas para continuar voando.

 

Ler, viajar e escrever tornaram-se, para mim, as pipas indispensáveis na travessia da vida depois dos oitenta anos.

 

Falar do meu passado não me envergonha.

 

Ao contrário, faz parte da minha história.

 

Apenas sinto que já contei muitas vezes o que vivi.

 

Escrevi crônicas, ministrei palestras e conferências, sobre a rua de Baixo, a rua do Campo, o Rio de Janeiro, e o retorno à minha querida Cuiabá, onde nasceram meus três filhos.

 

Hoje, confesso que já não me entusiasmam entrevistas, podcasts ou visitas motivadas apenas pelas lembranças do passado.

 

Conselhos raramente produzem o efeito desejado.

 

Assim como fabricar uma pipa, exige paciência, dedicação e persistência.

 

Aprender a sonhar começa dentro de casa, seguindo os exemplos silenciosos dos pais.

 

É no lar que se constroem os alicerces da vida.

 

Sempre procurei evitar frases como ‘eu fiz’, ‘eu sou’ ou ‘sigam o meu exemplo’.

 

Prefiro que os outros contem a minha história.

 

Assim me sinto mais à vontade.

 

Sei que participei da realização de sonhos importantes, sempre ao lado de pessoas extraordinárias.

 

Por isso, prefiro guardar a simplicidade do menino que um dia confeccionava suas pipas e se encantava ao vê-las ganhar o céu.

 

Gabriel Novis Neves

28-07-2026




QUINTAIS DA INFÂNCIA


Todo quintal precisava ser varrido para permanecer limpo e acolhedor.

 

Aos poucos, o menino aprendia a manejar a vassoura de galhos, reunindo folhas secas e pequenos gravetos.

 

Não era apenas uma tarefa doméstica.

 

Era uma lição de responsabilidade, paciência e cuidado com o lugar onde vivia, aprendida naturalmente no convívio com a família.

 

O lar é a primeira escola na formação do cidadão.

 

Na escola aprendemos os conhecimentos de uma profissão; em casa, aprendemos os valores que moldam o caráter.

 

Tudo começa na simplicidade do ambiente familiar, onde se formam homens e mulheres para a vida.

 

Varrer o quintal não fazia parte de uma disciplina acadêmica, mas era uma valiosa lição de disciplina, responsabilidade e dedicação.

 

Foi ali que o menino conheceu a vassoura de galhos, instrumento hoje quase desconhecido por muitas crianças que cresceram longe dos quintais.

 

Os pais são os primeiros educadores; nas escolas encontramos os professores.

 

Limpar o quintal, manejando a velha vassoura de galhos, era um dever de casa que ensinava mais do que organização.  

 

Ensinava respeito pelo lugar onde se vivia e pelo trabalho realizado com as próprias mãos.

 

O interior sempre foi um cenário fértil para a formação de grandes brasileiros.

 

Quem vence as dificuldades da infância chega à cidade grande preparado para aprender novas tecnologias e colocar seus conhecimentos a serviço da sociedade.

 

Moral, civismo e respeito aprendem-se, antes de tudo, dentro de casa, pelo exemplo dos pais.

 

A simplicidade de varrer o quintal, reunindo folhas secas e pequenos gravetos, muitas vezes representa o primeiro passo de uma longa caminhada.

 

Tive a felicidade de viver todas essas etapas, estudar, me qualificar e retornar à minha cidade natal para servir à sociedade.

 

O menino não aprendia apenas a varrer o quintal.

 

Aprendia, sobretudo, a construir um caráter forte, capaz de cuidar daqueles que tiveram menos oportunidades.

 

E tudo começava ali, segurando uma simples vassoura de galhos.

 

Gabriel Novis Neves 

29-07-2026




quinta-feira, 30 de julho de 2026

PÉS NA TERRA, CABEÇA NOS SONHOS


Andar descalço fazia parte da rotina do menino do interior.

 

Os pés conheciam a terra quente, a grama úmida e a areia macia sem qualquer estranhamento.

 

Cada passo aproximava a criança da natureza e transformava o quintal em um universo de descobertas.

 

Era uma liberdade tão espontânea que ninguém imaginava que um dia pudesse parecer um costume distante.

 

Andar descalço era um hábito da criança do interior e também dos adultos.

 

Os pés reconheciam e agradeciam tudo aquilo sobre o que pisavam.

 

A sensação era de bem-estar, embora fosse preciso cuidado para evitar pequenos ferimentos.

 

Na casa de meus pais, eu percorria o quintal sempre descalço.

 

Isso facilitava subir aos galhos mais altos das árvores.

 

Lá de cima, além de observar o nosso quintal, desfrutávamos de uma visão privilegiada dos quintais vizinhos.

 

No curso de Medicina, aprendi a importância da observação da planta dos pés.

 

A terra quente, a grama úmida e a areia macia faziam parte da infância; mais tarde compreendi que os pés também revelam importantes sinais de saúde.

 

Muitos diagnósticos dependem do exame clínico, e a sola dos pés pode fornecer informações valiosas.

 

Descobri que era diabético quando surgiram dores persistente nas plantas dos pés.

 

Mesmo fazendo uso dos medicamentos e mantendo a glicemia sob controle, continuo convivendo com essas dores.

 

A diabetes, silenciosa e traiçoeira, já havia comprometido os nervos plantares.

 

As dores apenas me dão trégua quando consigo dormir.

 

Se não fossem elas, e se o sono ainda fosse tranquilo como na infância, talvez eu atravessasse o centenário com muito mais conforto.

 

Difícil é sentir dor o dia inteiro e ainda não conseguir dormir durante a noite.

 

Às vezes tenho vontade de regressar àqueles tempos em que só calçava sapatos para ir à escola.

 

Jamais pisaria calçado sobre a terra, a grama ou as folhas do quintal de minha casa.

 

A criança descalça vivia em íntima comunhão com a natureza e fazia do quintal um universo de descobertas.

 

O adulto, inevitavelmente, sente saudades daquela infância que caminhava descalça e feliz.

 

Gabriel Novis Neves 

27-07-2026




terça-feira, 28 de julho de 2026

O PRIMEIRO CANIVETE


Ganhar o primeiro canivete era motivo de enorme orgulho para muitos meninos do interior.

 

Não era um brinquedo, mas um sinal de confiança dos adultos.

 

Com ele surgiam pequenas responsabilidades e inúmeras utilidades no dia a dia.

 

O objeto era guardado com carinho no bolso, acompanhando caminhadas, pescarias e aventuras que marcariam para sempre a lembrança da infância.

 

Não me lembro exatamente quando ganhei meu primeiro canivete.

 

Achava bonito carregá-lo no bolso da calça enquanto percorria de bicicleta as ruas de Cuiabá.

 

Para mim, era um símbolo de maturidade e responsabilidade.

 

Naquele tempo, muitos o consideravam também um instrumento de defesa, razão pela qual seus portadores eram respeitados e, por vezes, até temidos.

 

Infelizmente, uma briga entre meninos podia terminar em graves ferimentos.

 

O canivete era companheiro indispensável nas caminhadas, nas pescarias, na preparação do cigarro de palha e tantas aventuras que ficaram gravadas na memória.

 

Servia para descascar as frutas maduras encontradas nas árvores à beira das estradas, limpar os peixes recém-pescados e resolver pequenas necessidades do cotidiano.

 

Hoje é raro encontrar alguém carregando um canivete.

 

Nas regiões rurais, porém, ele ainda conserva seu prestígio, assim como a velha funda usada para caçar passarinhos, ambos retratos de um tempo que lentamente desaparece.

 

Confesso que, muitas vezes, tenho vontade de morar na roça, longe da agitação da chamada civilização.

 

Despertar ao som dos passarinhos, continua sendo um dos meus maiores sonhos.

 

Caminhar pelas matas de um sítio, com um canivete no bolso, é quase um retorno à infância e um reencontro com a simplicidade da vida.

 

A lembrança desse canivete marcou minha juventude tanto quanto a alegria de ganhar minha primeira bicicleta, aos quinze anos.

 

No passeio inaugural, acompanhado por um grupo de colegas, seguimos até o cais do Porto.

 

Na descida da rua Quinze de Novembro, apertei apenas o freio da roda dianteira para diminuir a velocidade.

 

O resultado foi um tombo espetacular, com escoriações pelo corpo inteiro.

 

No entanto, nada foi capaz de diminuir a felicidade daqueles dias.

 

Revisitar o passado é redescobrir tesouros que o tempo guardou silenciosamente na memória.

 

São essas pequenas lembranças que continuam iluminando o presente.

 

Gabriel Novis Neves

25-07-2026




segunda-feira, 27 de julho de 2026

NINHOS AMOROSOS


Poucas descobertas encantavam tanto um menino quanto encontrar um ninho escondido entre os galhos.

 

Aproximava-se devagar, quase prendendo a respiração para não assustar a pequena família de pássaros.

 

O momento despertava curiosidade e admiração pela natureza.

 

Sem perceber, aprendia que a vida floresce nos lugares mais simples e merece sempre cuidado e respeito.

 

A construção da casa do joão-de-barro era acompanhada com curiosidade e encantamento.

 

Quanta sabedoria escondida naquela pequena obra da natureza!

 

Basta observar essa joia do reino animal para nos encantarmos com a perfeição da engenharia dos pássaros.

 

Eles aprendem cedo os instintos da sobrevivência e, quando formam um casal, já sabem construir um abrigo seguro e protegido.

 

O que mais me encanta na casa do joão-de-barro são as suas divisórias internas, planejadas com admirável inteligência.

 

Ali os filhotes nascem, são alimentados pelos pais e permanecem protegidos dos predadores.

 

Quando chega o tempo certo, aprendem a voar e deixam o ninho, prontos para viver de forma independente.

 

Encontrar um ninho de passarinho escondido entre os galhos de uma árvore também era uma descoberta que me ensinava a respeitar a natureza e todas as formas de vida.

 

Era bem mais simples que a casa do joão-de- barro, mas possuía o essencial: um ninho cuidadosamente construído para abrigar os ovos e proteger os filhotes.

 

Ali a fêmea botava os ovos, chocava-os e, com a ajuda do macho preparava os pequenos para ganhar o céu, obedecendo às perfeitas leis da natureza.

 

Aprendi ainda menino, que a vida floresce nos lugares mais simples, subindo aos galhos mais altos das arvores do quintal de minha casa.

 

Também acordava com o concerto dos passarinhos, cada espécie com seu canto característico.

 

Sanhaços, pica-paus, periquitos, sabiás-laranjeiras, canários-da-terra, bem-te-vis, joões-de-barro transformavam a manhã em uma verdadeira sintonia. 

 

Cantavam para marcar território, atrair a companheira e celebrar mais um dia de vida.

 

Ainda bem que moro em uma área de reflorestamento.

 

Todas as manhãs continuo despertando ao som dos pássaros, especialmente dos bem-te-vis.

 

Sempre que os ouço, tenho a impressão de que a natureza ainda encontra um jeito delicado de conversar conosco.

 

Gabriel Novis Neves

24-07-2026




domingo, 26 de julho de 2026

ASSOBIO PARA CHAMAR CACHORRO


Antes das coleiras sofisticadas e dos adestramentos modernos, bastava um assobio para o cachorro aparecer correndo.

 

O menino aprendia cedo aquele chamado especial que somente o animal reconhecia.

 

De longe surgia o companheiro de todas as aventuras, abanando o rabo como se reencontrasse um velho amigo.

 

Entre os dois existia uma amizade silenciosa, construída diariamente pelos caminhos, quintais e brincadeiras da infância.

 

Na roça, o assobio sempre foi uma forma simples e eficiente de comunicação entre pessoas e animais.

 

Até hoje, técnicos de futebol utilizam o assobio e gestos para orientar seus jogadores durante as partidas.

 

E, pelo visto, eles entendem perfeitamente o recado.

 

Havia diversas maneiras de assobiar.

 

Alguns usavam dois dedos, um de cada mão; outros dois dedos da mesma mão.

 

O som era forte e podia ser ouvido à grande distância.

 

Aprendi cedo a assobiar, imitando os mais velhos durante as brincadeiras no mato, quando aquele som ajudava a reunir o grupo ou evitava que alguém se perdesse.

 

Nunca consegui, porém, fazer o famoso assobio com os dedos nos cantos da boca, capaz de produzir um som ainda mais potente.

 

O assobio continua vivo em nosso cotidiano. Chama pessoas, reúne cães, imita o canto dos pássaros, serve de alerta, acompanha canções e até faz parte de partituras musicais.

 

Conheci maestros que, enquanto regiam uma orquestra, assobiavam discretamente acompanhando a melodia.

 

Quando o assobio imita um pássaro, muitas vezes provoca o voo imediato das aves mais próximas.

 

Poucas habilidades eram aprendidas tão cedo quanto assobiar.

 

Um gesto simples, sem custo algum, que atravessou gerações sem perder sua utilidade.

 

A tecnologia transformou quase tudo ao nosso redor, mas não conseguiu substituir esse antigo costume.

 

E, para chamar um cachorro amigo, continua bastando um bom assobio.

 

Gabriel Novis Neves

21-07-2026




MIRANDO O CÉU


Antes que as telas ocupassem o tempo livre, era comum interromper as atividades apenas para observar o céu ao entardecer.

 

As cores mudavam lentamente, os pássaros retornavam aos ninhos e a temperatura se tornava mais amena.

 

Sem perceber, as pessoas contemplavam um espetáculo diário oferecido pela natureza.

 

Era um momento de serenidade que encerrava o dia com beleza e esperança.

 

Os antigos olhavam o céu várias vezes ao dia e acompanhavam o movimento das nuvens, procurando nelas sinais, formas e significados.

 

O céu sempre foi fonte de inspiração para poetas, compositores e também para os políticos.

 

Havia quem dissesse que as nuvens se pareciam com eles: num instante apresentavam uma forma e, pouco depois, já eram completamente diferentes.

 

Esse era o espetáculo silencioso e permanente da natureza.

 

Hoje, quase ninguém encontra tempo para olhar o céu, especialmente ao entardecer.

 

Muitos se recolhem diante da televisão para assistir ao futebol; outros preferem as mesas dos bares, onde desfrutam da companhia dos amigos.

 

Enquanto isso, o sol se despede na linha do horizonte, oferecendo um dos mais belos espetáculos da criação.

 

Assim como o arco-íris, sua beleza só pertence àqueles que levantam os olhos.

 

A natureza continua oferecendo maravilhas que passam despercebidas por quem vive apressado entre ruas e avenidas, sempre atento ao trânsito e aos compromissos. Também desapareceram muitos costumes, como o de contar histórias sobre o céu.

 

Quem da minha geração não ouviu falar de São Jorge montado em seu cavalo, desenhado na lua?

 

Sentados à porta das casas, os adultos conversavam, as crianças ouviam encantadas e a imaginação voava mais alto que as nuvens.

 

Com o desaparecimento das cadeiras nas calçadas, as famílias se recolheram para dentro de casa, e aquelas histórias ficaram guardadas apenas na memória.

 

Não sou contra o progresso.

 

Ao contrário, reconheço tudo que ele nos trouxe.

 

Mas confesso que sinto saudades do tempo em que bastava erguer os olhos para o céu e deixar a imaginação caminhar junto com as nuvens.

 

Gabriel Novis Neves

19-07-2026