Subir em árvore era quase um rito de passagem para todo menino do interior.
Primeiro vinha o receio, depois a coragem e, por fim, a alegria de alcançar um galho mais alto.
Lá de cima, o mundo parecia diferente e muito maior.
A natureza oferecia brinquedos gratuitos, enquanto ensinava equilíbrio, prudência e confiança a cada nova tentativa de vencer a altura.
O menino do interior, além dos ensinamentos recebidos dos pais, aprendia muito com a própria natureza.
Na escola, o professor Cesário Neto ensinava gramática utilizando exemplos tirados dela, e seus alunos jamais esqueceram que o verbo subir exige a preposição a.
A frase ‘Subindo ao galho mais alto do pessegueiro’ marcou gerações de estudantes cuiabanos.
Que prazer havia em subir num pé de manga, alcançar o galho mais alto e colher a fruta mais madura para saboreá-la ali mesmo, balançando ao vento, antes até do almoço, logo após chegar da escola.
Naquele instante, o menino tinha a deliciosa impressão de haver conquistado a própria natureza.
Criança não tem medo da natureza.
Muito pelo contrário: brinca com ela, aprende com ela e nela encontra um universo de descobertas.
Quando eu entrava no quintal de casa, esquecia o mundo.
Brincava até ouvir a voz da minha mãe chamando para entrar.
Quantas recordações felizes guardo do quintal da minha casa e dos quintais vizinhos!
O maior tesouro eram as mangueiras, das mais variadas espécies.
A mangueira comum, que ficava logo na entrada do nosso quintal, tinha o tronco grosso, alto e liso.
Ninguém jamais conseguiu escalá-la.
Ninguém ensina um menino a subir em árvore.
Ele aprende movido pela curiosidade, pela coragem e pelo desejo de vencer desafios, assim como aprende a nadar.
Os grandes quintalões cuiabanos foram verdadeiras escolas da vida.
Com o desaparecimento deles, perdemos também um espaço de convivência, aprendizado e liberdade.
E, sem perceber, empobrecemos um pouco como cidade e como lembrança.
Gabriel Novis Neves
22-07-2026