Meu pai nunca saía de casa sem um lenço no bolso.
Não era apenas um hábito, mas um gesto de elegância de quem estava sempre pronto a oferecer conforto a alguém.
A lembrança mais antiga que guardo dele é a de quando se preparava para abrir o bar, nas primeiras horas do dia.
Bebia o café em casa e saía a pé, de terno e gravata, com um lenço de seda no bolso superior esquerdo do paletó.
Mesmo com o calor de Cuiabá, esse era o seu uniforme de trabalho.
Pouco antes de se aposentar, aboliu o paletó, mas manteve as camisas brancas de mangas compridas.
Não me recordo de tê-lo visto usando camisas de mangas curtas — nem mesmo seus pijamas fugiam à formalidade: eram sempre de calça e camisa compridas.
Revendo álbuns de fotografias antigas de Cuiabá, observo que os homens, mesmo os trabalhadores mais humildes, sempre vestiam ternos.
E para um toque de charme, um chapéu panamá completava o traje.
Quando criança, ao ver um homem com chapéu panamá, logo o identificava como fazendeiro, usineiro, político — gente rica e importante.
Naquele tempo, os médicos usavam terno, gravata e chapéu.
Iam à Santa Casa atender seus doentes ou às residências, muitas vezes montados a cavalo.
As casas e os hospitais possuíam argolas de ferro nos muros e portais para amarrar o animal.
Todos os funcionários públicos — do porteiro ao governador — trajavam terno e gravata.
Nas missas de domingo, os homens compareciam impecáveis, em respeito ao ritual e à fé.
Como sinto saudades da cidadezinha em que nasci e cresci, tão linda e acolhedora, onde tudo era tão simples!
Tudo era perto, e todos pareciam pertencer à mesma grande família, onde a solidariedade era nossa maior moeda.
Era uma cidade sem pecados — e a palavra, o nosso PIX.
Veio o progresso e suas consequências, afastando de nós a elegância singela de um lenço de seda no bolso do paletó.
Gabriel Novis Neves
17-10-2025