terça-feira, 27 de outubro de 2026

O RELÓGIO DO SUPERMERCADO

 

Entre prateleiras e filas apressadas um velho relógio marca as horas de quem não tem tempo.

 

E quantos pequenos dramas e gentilezas acontecem ali, entre o caixa e o carrinho!

 

Os carrinhos abarrotados de alimentos e utensílios parecem carregar, junto com as compras, a pressa de cada um naquela fila interminável — onde não vale furar a ordem, nem mesmo com atestado médico.

 

Todos que aguardam têm compromissos e se guiam pelo relógio do supermercado, que às vezes parece não caminhar.

 

Dramas como o horário de levar as crianças à escola, se repetem diariamente, enquanto a fila insiste em não andar.

 

A gentileza dos caixas, quase sempre pacientes, ampara os aflitos daquelas filas sem fim.

 

Alguns preferem fazer as compras de madrugada, ou longe das datas de pagamento dos servidores públicos, quando o movimento aumenta e o tempo parece apertar ainda mais.

 

E o grande relógio do supermercado segue firme, cumprido sua função de informar a hora exata — lembrança silenciosa de que todos ali têm pressa.

 

O caixa do supermercado parece passar por um teste psicológico diário: trabalhar onde ninguém tem tempo.

 

Precisa demonstrar tranquilidade, oferecer pequenas gentilezas e manter o ritmo, sem deixar escapar o bom humor.

 

Certa vez o relógio parou.

 

Foi um Deus nos acuda.

 

Logo o gerente trouxe outro, restaurando a paz no ambiente.

 

Mas há também os que vão ao supermercado para passear, encontrando amigos que há muito não viam.

 

Encostam-se diante do frigorífico de queijos e, entre uma fatia e outra, colocam a conversa em dia.

 

O estacionamento é outro ponto de prosa, longe dos olhares severos do relógio.

 

Na despedida, trocam números de telefone e seguem felizes para casa.

 

O ser humano tem dificuldade de compreender o tempo — talvez por isso viva tão apressado e intranquilo.

 

Até os silvícolas, hoje, se orientam pelos relógios de pulso.

 

Que poder adquiriu o tempo, com a presença dos relógios!

 

Até os rituais indígenas passaram a ser administrados pelo relógio dos brancos, gerando pressa e estresse.

 

Gabriel Novis Neves

13-11-2025





segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A SOMBRA DO ANTIGO CINEMA


Onde antes se ouviam risadas e aplausos, hoje há silêncio e eco.

 

Mas, quando o sol se põe, parece que as sombras dos antigos espectadores ainda tomam seus lugares.

 

Eu tinha sete anos de idade quando foi inaugurado o Cine Teatro de Cuiabá.  

 

Logo depois, o célebre artista Procópio Ferreira veio com sua companhia teatral encenar a peça Deus lhe pague.

 

Lembro-me como se fosse hoje do meu pai convidando a minha mãe para assistir à peça, de sucesso nacional.

 

Ela não pôde acompanhá-lo — eram quatro filhos, e o menor com pouco mais de um ano, exigia cuidados especiais.

 

Incentivou, porém, o meu para ir. E ele foi só.

 

Morávamos na rua de Baixo.

 

Ali, no Cine Teatro, assistíamos a filmes, peças teatrais e programas de auditório da rádio ‘A Voz do Oeste’.

 

Antes da construção dessa obra por Júlio Muller, existia no local um galpão com cinema.

 

Na ampla sala de espera, meu pai montou o seu bar, em 29 de junho de 1920.

 

O estabelecimento foi registrado na Junta Comercial como Bar Moderno, mas todos o chamavam de Bar do Bugre.

 

Lá eram servidos salgadinhos preparados por minha avó Eugênia, ajudada pelas filhas mais velhas, além de refrigerantes, cervejas, vinhos e conhaques.

 

Anos depois, meu pai comprou um lindo casarão na esquina da rua de Cima, com a avenida Presidente Vargas, de frente para as praças Alencastro e da República, reformando-o para funcionar como bar e sorveteria.

 

Depois vieram outros cinemas: o do Cháu, numa antiga garagem da Rua de Baixo; o

 

Cine Bandeirantes, na rua de Cima; o Cine São Luiz, no Porto; e o Cine Tropical, na rua Barão de Melgaço — o mais luxuoso de Cuiabá.

 

Hoje, os shoppings mantêm confortáveis salas de cinema, e a Universidade Federal inaugurou o seu teatro, com tachos no foyer, em fevereiro de 1982, apresentando Macunaíma com o elenco de Antunes Filho.

 

Funciona também no campus universitário, o Cine Coxiponés, sempre com excelente público.

 

Dos antigos, apenas o Cine Teatro Cuiabá permanece em atividade.

 

Outros teatros e centros de cultura surgiram como o Teatro Zulmira Canavarros, da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

 

A televisão, porém, retirou grande parte do público das antigas salas.

 

E quando o sol se põe, parece mesmo que as sombras dos antigos espectadores voltam a ocupar seus lugares.

 

Os outros não suportaram o progresso — e onde antes ecoavam risadas e aplausos, hoje restam apenas o silêncio e a memória.

 

Gabriel Novis Neves

11-11-2025






domingo, 25 de outubro de 2026

DEPOIS DO MEIO-DIA DA VIDA


A vida também tem suas horas.

 

A infância é o amanhecer; a juventude, a manhã ensolarada; e a maturidade chega quando o sol alcança o ponto mais alto do céu.

 

Depois do meio-dia as sombras começam a se alongarem, os passos ficam mais lentos e o tempo parece correr cada vez mais depressa.

 

É então que aprendemos a beleza de viver sem pressa, valorizando as lembranças e os pequenos encantos que ainda florescem pelo caminho.

 

Gosto dessa metáfora para representar a vida depois dos cinquentas anos, quando passamos a compreender melhor o valor das coisas simples.

 

Aos noventa e um anos, sei o que significa despertar para mais um dia, encontrar os sinais vitais em ordem e sentir a alegria silenciosa de continuar vivendo.

 

Por isso, cada amanhecer representa uma pequena vitória.

 

Realizei meus sonhos, alcancei minhas metas e já não tenho pressa de chegar a lugar algum.

 

Se pudesse, pediria ao tempo que andasse mais devagar, apenas para acompanhar o crescimento dos meus bisnetos, que parecem ter tanta pressa de crescer.

 

Mesmo depois do meio-dia, a vida continua oferecendo seus altos e baixos, suas alegrias e suas inevitáveis despedidas.

 

Depois dos noventa, cada dia é uma dádiva, embora saibamos que a tarde avança lentamente em direção ao entardecer.

 

Conhecemos o ciclo da existência, mas nunca estamos inteiramente preparados para o seu desfecho.

 

Talvez a fé nos ajude a enfrentar com serenidade os mistérios da vida e da morte.

 

Confesso que não gosto dos rituais de despedida, dos velórios, das velas, dos caixões e dos cemitérios.

 

Prefiro voltar o olhar para a vida enquanto ela acontece, enquanto há luz e presença.

 

Talvez por isso eu me lembre tanto de como era bom ser criança, quando a maior preocupação era encontrar tempo para brincar!

 

Naquela época, a estrada parecia interminável, e cada dia trazia uma descoberta.

 

Hoje, olhando para trás, procuro aquele menino que um dia fui.

 

E descubro que ele ainda mora em mim, esperando o próximo amanhecer.

 

Gabriel Novis Neves

17-10-2026




DOMINGO DIFERENTE


De dois em dois anos o Brasil vive um domingo diferente.

 

É dia de eleições, quando milhões de brasileiros deixam suas casas para exercer o direito de escolher seus governantes.

 

Desde cedo as ruas ganham movimento. Eleitores procuram suas seções eleitorais e, cumprido o dever cívico, aproveitam o restante do domingo para descansar ou passear.

 

Em Cuiabá, muitos seguem para Chapada dos Guimarães, Manso, Coxipó do Ouro ou outros recantos agradáveis da nossa região.

 

Ao regressarem, provavelmente já conhecerão os vencedores das urnas.

 

Meu domingo eleitoral tem um ritual próprio.

 

Por volta das dez horas, meu filho Ricardo, acompanhado de seu genro e de uma cuidadora, levam-me até uma escola próxima de casa onde voto.

 

Dispensado das filas pela idade, rapidamente cumpro minha obrigação e retorno ao sossego do lar.

 

Almoço, desfruto de uma boa sesta e, ao despertar, ligo a televisão para acompanhar o noticiário.

 

A apuração eletrônica transformou as eleições.

 

Aquela antiga demora na contagem dos votos foi substituída pela rapidez dos resultados.

 

Às dezenove horas de Brasília, dezoito de Cuiabá, começa a divulgação dos números que decidirão o futuro político do país.

 

Desta vez não pretendo escrever minha crônica dominical.

 

Reservarei meu tempo para acompanhar as análises políticas das principais emissoras.

 

Confesso, entretanto, que minha paciência anda curta com certos comentaristas.

 

Alguns parecem mais preocupados em defender suas preferências do que em esclarecer os acontecimentos.

 

No futebol, acontece coisa semelhante.

 

Há narradores e comentaristas que mal conseguem esconder o clube do coração.

 

E olha que, como botafoguense apaixonado, entendo muito bem o significado de uma paixão!

 

Mas eleição é assunto sério.

 

Entre comemorações e decepções, o domingo terminará deixando vencedores e vencidos.

 

Na segunda-feira o país despertará com a inevitável ressaca eleitoral.

 

Uns estarão felizes.

 

Outros, contrariados.

 

Todos, porém, continuarão brasileiros, dividindo as mesmas esperanças.

 

Daqui a dois anos, estaremos novamente diante das urnas.

 

Porque a democracia tem essa beleza: os governos passam, as eleições se repetem, mas a esperança de um país melhor permanece.   

 

Gabriel Novis Neves

22-10-2026




sábado, 24 de outubro de 2026

QUANDO A FÉ REUNIA A CIDADE


A Cuiabá da minha infância tinha uma maneira muito própria de conversar com Deus.

 

A fé não morava apenas nos altares.

 

Caminhava pelas ruas, acompanhava as procissões, entrava nas casas e participava da vida das famílias.

 

Cada santo tinha seu dia, cada igreja sua celebração, cada devoto uma promessa guardada no coração.

 

O menino cresceu naquele ambiente de religiosidade, sem compreender inteiramente o significado dos rituais.

 

Apenas os vivia, com naturalidade de quem aprende a acreditar antes mesmo de aprender a perguntar.

 

As festas religiosas eram também encontros da cidade consigo mesma.

 

As procissões reuniam conhecidos, aproximavam vizinhos e transformavam a devoção em sentimento coletivo.

 

Naquele tempo, a missa era celebrada em latim, com o sacerdote voltado para o altar.

 

A confissão antecedia a comunhão, a hóstia era recebida diretamente na língua e o jejum fazia parte da preparação espiritual.

 

Os padres usavam batinas, e as igrejas permaneciam abertas para quem desejasse uma conversa silenciosa com Deus.

 

Com os anos, muita coisa mudou.

 

A cidade cresceu, novas denominações religiosas surgiram, os costumes se modificaram e a própria liturgia católica ganhou outras formas.

 

As antigas igrejas, concentradas no centro histórico, ficaram distantes de muitos moradores.

 

Até a Catedral, que parecia acolher permanentemente os passos dos fiéis, passou a obedecer aos horários de suas celebrações.

 

Não pretendo julgar as mudanças.

 

Cada geração encontra sua maneira de manifestar a fé.

 

Mas confesso sentir saudade daquele tempo em que a religiosidade parecia abraçar a cidade inteira.

 

Talvez não fossem apenas os sinos que chamassem os fiéis.

 

Era a própria Cuiabá que se reunia para conversar com Deus.

 

Gabriel Novis Neves

16-10-2026




sexta-feira, 23 de outubro de 2026

ENCONTRO COM OS PRESIDENCIÁVEIS DE 1945


A vida guarda certas coincidências que só o tempo, com sua lenta sabedoria nos permite compreender.

 

Ainda menino, em Cuiabá, tive a oportunidade de conhecer dois homens que, em 1945, disputariam a Presidência da República: o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Eurico Gaspar Dutra.

 

O primeiro encontro aconteceu na rua do Campo, diante do Clube Feminino, pouco antes das eleições de dezembro daquele ano.

 

O brigadeiro discursava de um dos janelões do casarão do seu Batinga.

 

Lá embaixo, na rua, cerca de cento e cinquenta pessoas acompanhavam suas palavras.

 

Cuiabá era então uma cidade de aproximadamente cinquenta e cinco mil habitantes, e os acontecimentos políticos ainda pareciam caber na intimidade de suas ruas.

 

Muito anos depois, já estudante de Medicina no Rio de Janeiro, voltei a cruzar o caminho daquele personagem.

 

Minha última residência na capital federal ficava na rua Senador Vergueiro, no Flamengo.

 

Católico praticante, o brigadeiro costumava assistir aos domingos à missa na Igreja da Santíssima Trindade, inaugurada em 1945.

 

A proximidade entre a casa e a igreja fazia com que sua presença tornasse parte da paisagem cotidiana do bairro. 

 

O general Eurico Gaspar Dutra conheci quando ele já ocupava a Presidência da República, durante uma visita à sua terra natal.

 

Dessa passagem por Cuiabá nasceram recursos para importantes obras, entre elas o Estádio General Dutra, nosso querido Dutrinha, e o primeiro conjunto habitacional do bairro Popular.

 

Eram marcas concretas de uma visita presencial que permaneceu na memória da cidade.

 

Em 1954, quando frequentava o cursinho do professor Galotti, na rua Álvaro Alvim, na Cinelândia, era comum encontrar o ex-presidente caminhando tranquilamente pelas ruas.

 

Vestia terno, gravata e chapéu.

 

Ia ao cinema ou ao teatro, sem acompanhantes, seguranças ou qualquer sinal de que carregasse sobre os ombros a antiga autoridade de um chefe de Estado.

 

Aquela simplicidade me impressionava.

 

Havia algo de profundamente humano em ver um ex-presidente misturado à multidão, seguindo seus passos pela cidade sem a distância que hoje parece inseparável do poder.  

 

Os tempos mudaram.

 

Hoje, até autoridades de pequenas cidades circulam cercadas de proteção.

 

A violência política transformou a proximidade entre governantes e cidadãos motivo de apreensão.

 

O encontro casual, que antes podia ser apenas uma lembrança, tornou-se uma possibilidade cercada de riscos.

 

Não pretendo idealizar o passado.

 

Aqueles anos também conheceram intolerâncias, conflitos e injustiças.

 

Mas guardo uma imagem que o tempo não conseguiu apagar: a de um presidente caminhando pelas ruas como qualquer cidadão.

 

Houve dias em que isso era possível.

 

E essa simples lembrança, por si só, diz muito sobre aqueles tempos.

 

Gabriel Novis Neves

20-10-2026




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O DOMINGO DAS URNAS


No próximo domingo, dia 25, o Brasil voltará às urnas para escolher os seus governantes.

 

Será mais um daqueles dias em que a esperança e a incerteza caminham de mãos dadas.

 

Aos 91 anos, já acompanhei muitas eleições.

 

Vi governos chegarem e partirem, promessas desaparecerem com o vento e sonhos que, contrariando as previsões, conseguiram florescer.

 

O tempo me ensinou que as eleições passam, mas as consequências das escolhas permanecem.

 

Nasci durante a era Vargas e guardo lembranças da sua queda, em outubro de 1945, quando o Brasil se preparava para reencontrar a democracia.

 

Eu era um menino de dez anos, ainda de calças curtas, descobrindo que o destino de um país também se decidia pelo voto.  

 

Na eleição presidencial daquele dezembro, três candidatos disputavam a preferência dos brasileiros: dois militares e um engenheiro civil.

 

O primeiro era o cuiabano Eurico Gaspar Dutra, general do Exército; o segundo, o brigadeiro Eduardo Gomes, da Aeronáutica; e o terceiro o gaúcho Yedo Fiuza, engenheiro civil.

 

Dutra havia construído uma brilhante carreira militar, chegando ao Ministério da Guerra durante o governo Vargas.

 

Nascido em Cuiabá, no bairro Grande Terceiro, foi batizado na capela de Nossa Senhora do Rosário, no Coxipó do Ouro.

 

Casou-se com Carmela Dutra, carioca e católica fervorosa, cuja influência religiosa contribuiu para a decisão presidencial de proibir os jogos de azar e fechar os cassinos brasileiros.

 

Carmela faleceu em 1947.

 

Dutra morreria em 1974, no Rio de Janeiro.

 

Na campanha eleitoral, não faltavam provocações.

 

Enquanto os adversários destacavam a elegância e a condição de solteiro do brigadeiro Eduardo Comes, os adversários de Dutra procuravam conquistar a simpatia dos trabalhadores.

 

Foi nessa disputa que surgiu um episódio curioso.

 

Hugo Borghi, ligado à campanha de Dutra, espalhou a versão de que o brigadeiro não precisava dos votos dos chamados marmiteiros, trabalhadores que levavam suas refeições para as fábricas.

 

A história ganhou as ruas e se transformou em poderosa arma eleitoral.

 

Dutra acabou derrotado em Cuiabá, sua terra natal, mas venceu em Mato Grosso e conquistou a Presidência da República.

 

No ano seguinte, Nereu Ramos seria eleito vice-presidente.

 

A democracia brasileira ensaiava seus primeiros passos depois dos longos anos do Estado Novo.

 

Mas, de todas aquelas lembranças, uma permanece especialmente viva.

 

Assisti a um comício do brigadeiro Eduardo Gomes em Cuiabá.

 

Elegante, de terno e gravata, ele discursava de um dos grandes janelões do casarão do seu Batinga, na Rua do Campo, em frente ao Clube Feminino.

 

Eu observava tudo com a curiosidade de um menino que ainda não compreendia inteiramente a política, mas percebia que alguma coisa importante estava acontecendo.  

 

Meu pai, o seu Bugre, votou em Dutra.

 

No Bar do Bugre, entretanto, evitava declarar sua preferência.

 

Afinal, entre um cafezinho, uma conversa e outra, era preciso preservar a freguesia.

 

Embora, no fundo, todos soubessem em quem ele votaria.

 

Hoje, tantos anos depois, quando se aproxima outro domingo de eleições, volto àquela Cuiabá da minha infância.

 

Mudaram os candidatos, as campanhas e até a maneira de votar.

 

Mas uma coisa permanece.

 

As urnas envelheceram comigo.

 

A esperança, não.

 

Gabriel Novis Neves

19-10-2025