terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

FOTOGRAFIAS ANTIGAS


Abri o celular e encontrei uma foto antiga.

 

Por um instante pensei em apagá-la.

 

Não pela imagem, mas pelo que ela trazia de volta.

 

Fiquei olhando alguns segundos antes de decidir.

 

Guardar ou excluir?

 

Há lembranças que ocupam espaço, mas também sustentam quem somos.

 

No meu celular há inúmeras fotos que preciso apagar, pelo peso que representam no aparelho.

 

É sempre uma escolha difícil.

 

Gosto de guardar todas as lembranças que fizeram parte da minha vida — as boas e as nem tanto.

 

Com a facilidade da câmera no celular, acumulei centenas delas.

 

Costumo abrir uma pasta no notebook para arquivá-las e, assim, aliviar a memória do telefone.

 

É uma espécie de mudança silenciosa: transfiro imagens como quem transfere móveis de uma casa antiga para outra menor.

 

Antes do celular, acumulei inúmeros álbuns impressos.

 

A foto mais antiga deve ser de quando eu tinha quatro anos.

 

O tempo a deteriorou, mas as tecnologias modernas, em estúdios apropriados e com técnicos competentes, conseguiram restaurá-la com dignidade.

 

A fotografia sustenta quem somos.

 

Os antigos, diante dos retratos da família, usavam a palavra ‘traços’ para falar de lembrança e semelhança.

 

Quando criança ouvi muitas vezes de pessoas que não conheceram meus pais, que eu tinha os traços dele ou dela.

 

Hoje tenho um bisneto muito parecido comigo.

 

Não tenho coragem de descartar uma única foto sua.

 

Entre todos os álbuns, guardo com carinho especial as imagens da lua de mel, em Friburgo, no hotel Sans Souci.

 

Ali o tempo parecia caminhar devagar.

 

Agora ele corre — e só para frente —deixando saudades pelo caminho.

 

Na minha família de nove irmãos, conservo fotos de épocas diferentes, todos reunidos, exalando felicidade.

 

Do grupo com meus pais, quatro já partiram impossibilitando nova fotografia.

 

Talvez por isso eu hesite diante do botão ‘apagar’.

 

Algumas fotos não ocupam memória ocupam eternidade.

 

Gabriel Novis Neves

18-02-2026






🎼  NÓS GUARDAMOS ESSE AMOR EM UMA FOTOGRAFIA/


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL


Recebi um pagamento e não senti a antiga euforia.

 

O dinheiro continua necessário, claro.

 

Mas perdeu o brilho que tinha na juventude.

 

Hoje valorizo mais o tempo do que o saldo.

 

Talvez esse seja um dos sinais discretos da maturidade.

 

Na velhice tenho mais dificuldade de lidar com o dinheiro do que na juventude.

 

Sempre tratei o dinheiro com respeito e parcimônia, para não enfrentar humilhações financeiras no fim da vida.

 

Nunca fui de exibir carrões, mansões ou viagens intercontinentais.

 

Fui educado em uma família simples, onde jamais faltou o essencial.

 

Uma das lembranças mais felizes que guardo é de 1958, quando escrevi para minha mãe dizendo que meu pai não precisava mais me enviar mesada.

 

Senti uma euforia que o tempo tratou de suavizar.

 

Mesmo estudando em faculdade pública, com restaurante universitário, havia despesas com pensão, transporte e livros.

 

Fiz concursos e trabalhei como auxiliar acadêmico no Pronto-Socorro Municipal, interno plantonista da Maternidade Pro Matre e monitor de Ginecologia.

 

Todos esses cargos ajudavam, direta ou indiretamente, na minha manutenção.

 

Naquela época, meu irmão Pedro estudava Economia em faculdade particular e ainda recebia mesada, aumentando o peso sobre meu pai — ainda mais com a chegada do meu irmão Inon.

 

Recordar aquela carta ainda hoje me faz bem.

 

Todo o esforço do meu pai valeu a pena: colheu dois médicos e um economista.

 

Eduquei meus filhos, todos com formação universitária, procurando dar o exemplo de uma vida confortável, porém sem excessos.

 

A longevidade aumenta as despesas da casa: médicos, farmácia, cuidadoras.

 

Ontem recebi o dinheiro dos aluguéis sem a euforia da juventude.

 

Já estava todo comprometido com despesas previamente calculadas.

 

Com o encerramento das atividades do consultório, minha renda diminuiu.

 

Talvez por isso o dinheiro tenha perdido o encanto — não a importância.

 

Hoje compreendo: o dinheiro já não emociona como antes, porque o verdadeiro patrimônio passou a ser o tempo vivido.

 

E tempo, diferente do dinheiro, não admite economia — apenas gratidão.

 

Gabriel Novis Neves

21-02-2026




DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL



domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOIS MINUTOS A MAIS...


Notei que o relógio da sala estava dois minutos atrasado.

 

Apenas dois.

 

Mesmo assim, senti necessidade de acertá-lo.

 

O tempo já corre com sua própria velocidade; não convém dar-lhe vantagem.

 

Enquanto girava o ponteiro, pensei em quantas vezes, na vida chegamos atrasados por distração — e quantas por escolha.

 

Houve ocasiões em que optei por chegar alguns minutos depois, especialmente nas reuniões de discursos intermináveis.

 

Pequenas rebeldias silenciosas.

 

Mas, no essencial sempre fui pontual.

 

Aprendi em casa a não atrasar compromissos — de preferência, chegar antes da hora.

 

Essa disciplina ajudou-me muito na carreira médica e nos cargos públicos que ocupei.

 

Horário de médico é sempre delicado. Urgências e emergências não respeitam agenda.

 

Não há relógio que acompanhe o relógio de um parto iminente.

 

Dois minutos podem ser o intervalo entre a espera e o primeiro choro.

 

Dois minutos atrasados podem significar uma criança nascendo sem assistência.

 

Na minha casa éramos nove filhos.

 

Todos nascemos em casa, assistidos por médico.

 

No último parto, porém, ele se atrasou apenas dois minutos — e minha irmã resolveu chegar sozinha ao mundo.

 

Talvez tenha sido a mais apressada de nós.

 

O tempo tem vontade própria.

 

Não admite descuido.

 

Lembro-me também de um médico da década de cinquenta que tinha um programa de rádio muito ouvido: ‘Nada Além de Dois Minutos’. Em cento e vinte segundos ele contava uma história inteira.

 

E bastava.

 

Em dois minutos pode-se decidir uma vida, iniciar uma conversa, pedir desculpas, perdoar.

 

Pode-se fisgar um pacu no rio Cuiabá ou perder a chance de lançá-lo ao anzol.

 

Pode-se desperdiçar o essencial ou salvá-lo.

 

Parece pouco, mas não é.

 

Por isso não deixo o relógio da sala atrasado. Não por rigor exagerado, mas por respeito.

 

Ajustar dois minutos é, no fundo, uma forma de dizer ao tempo que continuo atento.

 

E enquanto eu puder girar os ponteiros —ainda que discretamente — estarei lembrando que a vida não se mede em anos, mas na exatidão dos instantes.

 

Gabriel Novis Neves

18-02-2026




N.E.: 'DOIS MINUTOS A MAIS', da tese de David Allen, no livro Getting Things Done (GTD)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

CONVERSA QUE EVITEI


Hoje evitei uma conversa.

 

Não por medo, mas por cansaço.

 

Percebi que nem todo assunto precisa ser enfrentado imediatamente.

 

Há momentos em que o silêncio também é uma forma de resposta — provisória, mas necessária.

 

Com o tempo, aprendemos que escolher as batalhas é uma forma discreta de sabedoria.

 

Nem sempre consigo evitar conversas, principalmente quando são familiares.

 

E isso, muitas vezes, é um erro, pois algumas terminam em conflitos desnecessários, daqueles que deixam um peso maior do que o próprio assunto.

 

Na minha idade, torna-se cada vez mais difícil encontrar contemporâneos para uma boa conversa de lembranças.

 

A maioria já partiu, deixando apenas recordações espalhadas pela memória.

 

Quando tento esclarecer dúvidas dos meus tempos de juventude, percebo que já não há a quem perguntar.

 

Enquanto a memória me acompanha, continuo conversando todos os dias com antigos amigos através das crônicas que escrevo.

 

São diálogos silenciosos, mas vivos.

 

‘Conversa fiada para boi dormir’ — como dizíamos — nunca precisou ser evitada.

 

Era conversa sem pressa, sem cobranças de respostas, apenas o prazer de estar junto.

 

Na antiga Cuiabá, conversar era um hábito social.

 

Após o jantar, as famílias sentavam-se nas portas das casas e falavam com quem passasse.

 

Lembro da figura carismática do Marechal Rondon batendo papo com Álvaro Duarte, acomodado em sua cadeira de balanço na rua do Campo.

 

O historiador Estevão de Mendonça preferia conversar da janela do quarto, observando a vida passar devagar.

 

Na minha casa, ao escurecer, todos ocupávamos as cadeiras na porta da rua.

 

Personalidades ilustres, como o governador Fernando Correa da Costa, muitas vezes paravam para uma conversa simples, como se todos fossem velhos conhecidos.

 

As calçadas dos antigos casarões eram as verdadeiras salas de visita da Cuiabá de ontem — espaços onde as cadeiras de balanço ficavam apinhadas de gente conversando sem pressa e sem maldade.

 

Hoje, aos sábados, quando recebo a criançada para o almoço da família, volto à cadeira de balanço.

 

Converso, abraço, beijo e me deixo fotografar ao lado de filhos, netos e bisnetos.

 

Ali percebo que algumas tradições ainda resistem.

 

O progresso retirou as cadeiras das calçadas e as levou para dentro dos espigões de concreto.

 

Mas a necessidade de conversar — essa não desapareceu.

 

Ela apenas mudou de lugar.

 

E talvez, no fundo, eu continue conversando com todos aqueles que já se foram, sempre que escolho o silêncio para escutar a memória falar.

 

Gabriel Novis Neves

20-02-2026




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SÍSIFO CARREGAVA PEDRA


Hoje não fiz nada importante.

 

Nenhuma tarefa grandiosa, nenhum compromisso marcante.

 

Apenas vivi o dia como ele veio.

 

No início senti culpa.

 

Depois, um certo alívio.

 

Será que sempre precisamos produzir algo para justificar a existência?

 

Esse raciocínio juvenil já me fez sofrer muito.

 

Fui educado a ‘aproveitar o tempo’, produzindo alguma coisa — avançando nos estudos ou ajudando meus pais nos afazeres domésticos.

 

Mesmo aos domingos e feriados, era preciso fazer algo útil.

 

O descanso completo parecia quase uma falha de caráter.

 

Até hoje só me concedo o luxo de não fazer nada que julgue produtivo durante metade do dia.

 

Do contrário, surge o remorso silencioso.

 

Com o passar do tempo, mudaram apenas as tarefas consideradas grandiosas.

 

Hoje, minha meta é escrever ao menos uma crônica diária.

 

Quando isso não acontece — como nos dias de infusão — sinto que o dia ficou incompleto, como uma página em branco.

 

A educação recebida no berço continua orientando o comportamento na vida adulta.

 

Meus pais eram profundamente comprometidos com a ideia de aproveitar o dia trabalhando.

 

Detestavam a vadiagem e nos ensinaram que o tempo precisava ter propósito.

 

Na velhice, porém, todo dia se parece um pouco com domingo ou feriado.

 

Já não preciso provar nada a ninguém.

 

A vida, prestes ao seu entardecer, pede menos justificativas e mais aceitação.

 

Trabalhei muito na juventude para não precisar explicar minha existência agora.

 

A tarefa que escolhi neste ocaso —escrever — tornou-se uma maneira suave de não ver o tempo passar.

 

Também me sinto útil conversando com amigos, trocando lembranças e pensamentos.

 

Enquanto houver disposição para escrever e a memória permanecer fiel, seguirei cumprindo essa tarefa simples, sem grandiosidade, mas também sem vazio.

 

Se não tivesse essa habilidade, talvez estivesse, como dizia a minha mãe, ‘num mato sem cachorro’.

 

A escrita diária passou a ocupar meus dias com serenidade.

 

E hoje percebo que não fazer nada importante, às vezes, é apenas permitir que a vida respire dentro de nós — em silêncio, sem cobrança, mas cheia de sentido.  

 

Gabriel Novis Neves

19-02-2026




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SENSIBILIDADES


Troquei o travesseiro de lado sem perceber.

 

Só notei quando deitei novamente à tarde.

 

Parecia o mesmo, mas não era.

 

O conforto mudou um pouco.

 

A cabeça estranhou.

 

Essas pequenas mudanças acontecem no dia a dia sem alarde.

 

O corpo percebe antes da razão.

 

Com o tempo, aprendemos que até o descanso exige adaptação.

 

Na cama de casal, o lado direito sempre foi o meu.

 

Até hoje não consigo dormir do lado esquerdo.

 

Nem tento mais.

 

Talvez por ser destro, acostumei-me a dormir desse lado da cama.

 

Também não consigo dormir de bruços ou de barriga para cima.

 

Para assistir futebol na cama, preciso de três travesseiros de tamanhos diferentes como apoio.

 

Sempre dormi depois do almoço.

 

Casei com uma mulher que não tinha esse hábito.

 

Com o tempo, ela aprendeu a descansar após o almoço.

 

O corpo dela reconheceu a necessidade antes da razão.

 

Com a idade, aprendi o que comer antes de dormir para ter um sono reconfortante.

 

Do contrário, o sono demora, e uma pequena refeição acaba sendo necessária para que ele chegue.

 

Nem sempre, quando abro o laptop, vem a inspiração para escrever.

 

Assim como numa conversa entre amigos, o corpo reconhece antes da razão o momento certo.

 

Escrever, para mim, é uma forma de descanso quando o corpo pede.

 

Mas não estou acostumado a trabalhar no computador num domingo à tarde.

 

A cabeça estranhou.

 

E o conforto mudou de dia.

 

Entender essas pequenas mudanças que acontecem silenciosamente exige atenção e paciência.

 

Fico pensando se a vida precisa ser compreendida ou vivida.

 

Acredito que o importante seja viver bem nesse emaranhado de emoções e razão.

 

A razão reconhece o que o corpo oferece.

 

E o corpo precisa das emoções para sobreviver.

 

Os estudiosos da mente humana talvez estejam buscando respostas para isso.

 

Será que a ciência consegue explicar?

 

Fico por aqui.

 

Vou ao futebol.

 

Amanhã retorno ao texto.

 

Talvez descubra o caminho para encerrá-lo.

 

Ou escreva outro.

 

Gabriel Novis Neves

08-02-2026




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CARTAS SEM RESPOSTA


A carta ficou sobre a mesa por dias.

 

Li mais de uma vez, dobrei com cuidado e deixei ali.

 

Não era difícil responder, mas também não era simples.

 

O silêncio acabou ocupando o lugar da resposta.

 

Às vezes, não é falta de palavras.

 

É excesso de sentimentos misturados.

 

O tempo passa, e a carta continua esperando, como quem entende a demora.

 

Durante muitos anos escrevi e recebi cartas no período em que vivi no Rio de Janeiro, estudando Medicina.

 

Com o retorno à minha cidade natal e o surgimento de novas tecnologias de comunicação, deixei de escrever cartas.

 

Sempre respondi a todas, com satisfação.

 

Entretanto, houve uma que, por covardia ou imaturidade, não respondi.

 

E o silêncio foi a resposta.

 

Muito tempo depois, a portadora da carta me telefonou.

 

Nossas vidas seguiram caminhos opostos, em cidades diferentes.

 

E ninguém comentou sobre a carta não respondida.

 

Também não sei se a pessoa que escreveu ainda está entre nós.

 

Tive dificuldade, entre centenas, em escrever uma carta para a minha mãe.

 

Mas ela leu e respondeu.

 

Até hoje, agradeço por isso.

 

As cartas que recebi vinham impregnadas de sentimentos.

 

E lidar com sentimentos é mexer com emoções.

 

Lembro até hoje da carta que não respondi e penso que, naquele momento, o meu silêncio talvez tenha sido a melhor resposta.

 

Essa carta fiz questão de não guardar, embora na minha biblioteca existam algumas cartas históricas que também não respondi.

 

Achei difícil respondê-las, por envolverem religiosidade e política partidária.

 

Essas cartas, um dia, poderão se alojar no Núcleo de Documentação Histórica Regional.

 

Ali, estudiosos e pesquisadores encontrarão elementos de uma fase da história moderna do Brasil, sem fantasias.

 

Grandes mitos poderão ser compreendidos em sua intimidade ideológica, revelados por meio de cartas simples.

 

Já o restante da nossa história recente corre o risco de se perder, dissolvido na oralidade e no esquecimento.

 

Gabriel Novis Neves

09-02-2026