Tirei os sapatos assim que entrei.
Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.
Sempre faço isso sem pensar.
O chão estava frio.
Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.
Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.
Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.
Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.
Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.
O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.
Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.
Havia orgulho no chão bem cuidado.
Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.
Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.
Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.
Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.
Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.
Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.
Os sapatos aguardavam na porta.
Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.
São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.
Gabriel Novis Neves
04-02-2026