quarta-feira, 3 de junho de 2026

O FERIADO QUE NINGUÉM SABE EXPLICAR


Existem feriados que todos comemoram, mas poucos sabem explicar.

 

Descansamos, viajamos, adiamos compromissos, mas quase nunca lembramos a origem da data.

 

O calendário vai acumulando nomes, santos, heróis, lutas e acontecimentos.

 

Com o tempo, o significado se apaga, mas o descanso permanece.

 

Talvez por isso seja bom, de vez em quando, perguntar o que aquele dia realmente representa.

 

Aos noventa anos, confesso que ainda tenho muito a perguntar sobre certos feriados.

 

O mês de junho, por exemplo, quase inteiro pertence aos santos festeiros: Santo Antônio, São João e São Pedro.

 

No primeiro domingo de julho acontece a tradicional festa de São Benedito, que muitos confundem como o padroeiro de Cuiabá.

 

Na baixada cuiabana, essas festas atravessam junho, julho e às vezes chegam até agosto.

 

Como era gostoso receber convites para comemorações em bairros distantes ou chácaras iluminadas por fogueiras!

 

Havia música ao vivo, dança, fogos de artifício, comida da roça e gente animada até a madrugada.

 

Homens e mulheres vestidos para a festa acompanhavam a procissão do santo no andor, muitas vezes seguidas do banho no rio.

 

Hoje, essa tradição sobrevive em algumas famílias e comunidades mais antigas.

 

A igreja continua celebrando seus santos com missas de madrugada, procissões e quermesses.

 

Meus pais festejavam São Pedro, no dia vinte e nove de junho.

 

Meu pai levava a imagem do santo até a igreja para a missa.

 

Depois, em nossa casa da rua do Campo, servia-se chá com bolo e queima de fogos de artifício.

 

Havia almoço para a família, amigos íntimos e, mais tarde, fogueira acessa no quintal.

 

Meu pai amava fogos de artifício.

 

Trazia caixas de tric-trac, foguetes, pistolões, busca-pés, balões e até fósforos de palitos coloridos, que encantavam as crianças.

 

O mate queimado acompanhado dos bolinhos feitos no forno da cozinha completava a festa.

 

Tudo terminava vencido pelo cansaço feliz dos convidados.

 

As festas juninas foram se descaracterizando com o tempo.

 

Hoje sobrevivem, principalmente, nos pátios das escolas e na lembrança das famílias tradicionais.

 

Mas basta o cheiro da fogueira ou o estampido de um foguete distante para que junho inteiro volte a viver dentro de nós.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2026




terça-feira, 2 de junho de 2026

DIA ESQUISITO


Hoje parecia um dia comum.

 

Acordei cedo para minha ida mensal ao hospital, às sete horas, para as infusões de imunoglobulinas.

 

Tudo dentro da rotina que a idade e a disciplina me impuseram.

 

No trajeto telefonei ao meu amigo da ótica.

 

Uma pequena parte da armação do lado esquerdo dos meus óculos estava se soltando.

 

Perguntei se poderia levá-lo para conserto.

 

Ele pediu que aguardasse até as dez horas.

 

A loja havia sido assaltada e ele tentava resolver o prejuízo.

 

Depois do meio-dia, já de volta para casa, o motorista me entregou a armação perfeita.

 

Perguntei se tinham trocado a peça danificada.

 

Ele respondeu que não.

 

O dono da ótica passara quase uma hora no laboratório, resolvendo o problema.

 

Fez uma verdadeira cirurgia plástica na armação dos meus óculos.

 

Telefonei para agradecer e elogiar o trabalho.

 

Perguntei o valor do serviço.

 

A resposta veio simples e elegante:

 

— Para o senhor, nada.

 

O dia seguiu.

 

Depois de mais de dez anos, assinei um contrato de prestação de serviços com o escritório de contabilidade — exigência do Conselho Regional de Contabilidade.

 

Para mim, nada muda; para eles, seis folhas de papel.

 

O advogado que cuida dos meus interesses junto à UFMT pediu os holerites de dezembro e janeiro. 

 

Graças à enfermeira cuidadora, consegui providenciar.

 

Minha filha enviou a lista da farmácia, do mercado e dos presentes.

 

Pagarei em prestações.

 

Só em medicamentos foram cinco mil reais.

 

Viver com saúde custa caro.

 

Com tanta movimentação, perdi o sono.

 

Mas o essencial permanece: estou feliz e com saúde.

 

Vivo a expectativa do almoço de sábado, com a família reunida — já somos dezessete quase dezoito.

 

E também aguardo meu próximo holerite em ordem.

 

Sonhos ainda tenho muitos.

 

A realização de alguns dependerá de pelo menos dois anos, segundo o advogado.

 

Será preciso ter a paciência de Jacó, esperando Labão conceder a mão de Raquel.

 

A vida ensina que dias esquisitos não são desordem.

 

São apenas capítulos mais movimentados de uma história que continua sendo boa de viver.

 

Gabriel Novis Neves

10-02-2026




segunda-feira, 1 de junho de 2026

A MEMÓRIA QUE ESCOLHE


Percebo que a memória anda seletiva.

 

Esqueço nomes recentes, mas guardo, intactos, detalhes da juventude.

 

Recordo ruas, vozes e cheiros de décadas atrás.

 

O passado se apresenta com nitidez surpreendente.

 

Talvez envelhecer seja também reorganizar as lembranças.

 

O velho conversa com prazer sobre o que já viveu.

 

Seu presente, por vezes, parece feito de passado.

 

Gosta de contar histórias da família, da cidade, das conquistas.

 

E quase sempre encontra ouvintes atentos, sobretudo entre os mais jovens.

 

Envelhecer é privilégio de poucos —sobreviver aos impropérios do tempo não é façanha comum.

 

Nunca imaginei chegar onde cheguei, com a memória ainda íntegra, lembrando fatos antigos e recentes.

 

Aproveito essa dádiva para escrever sobre o cotidiano, quase sempre com os pés firmados no ontem.

 

Aprendi a ouvir meu avô.

 

Suas histórias enriqueceram meu presente.

 

A oralidade raramente está nos livros; é nela que pulsa a verdade sentida dos fatos.

 

Muito do que sei sobre a história de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil devo às conversas com o historiador Estevão de Mendonça e seu filho, também historiador, Rubens de Mendonça.

 

Foram meus vizinhos na rua do Campo,  respeitados pela gurizada do meu tempo.

 

Com que entusiasmo narravam episódios da Guerra do Paraguai e os feitos de seus heróis!

 

Sim, o velho reorganiza as lembranças.

 

Recordo, com emoção, os longos anos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro.

 

Hoje parecem sonho.

 

O prédio histórico da faculdade foi demolido; resta-nos a fotografia.

 

A boate Casablanca, no térreo da estação do bondinho para o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, que conheci em 1952, vive apenas na memória.

 

Assistir aos ensaios das bailarinas era um espetáculo à parte.

 

A Casa do Estudante de Medicina, escondida atrás da faculdade, o restaurante universitário, o auditório do Centro Acadêmico, as noites dançantes que alegravam estudantes do interior e moças suburbanas — tudo reaparece quando fecho os olhos.

 

Do alto dos meus noventa anos, compreendo: a memória não falha — ela escolhe.

 

E escolhe, quase sempre, aquilo que fez o coração bater mais forte.

 

Gabriel Novis Neves

02-03-2026




domingo, 31 de maio de 2026

QUEM É VOCÊ NA FILA DO PAO?


Entrei na fila sem pressa.

 

Havia poucas pessoas à minha frente.

 

Mesmo assim, o atendimento parecia demorado.

 

Observei os rostos, os gestos, os suspiros discretos.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre é o tamanho da fila que nos inquieta — é o tempo dentro de nós.

 

Quando eu era jovem enfrentei muitas filas.

 

Fila para a escola, para o recreio, para a missa, para a agência do Banco do Brasil, para assistir às partidas de futebol, para o cinema.

 

Acabei me acostumando com as filas, a ponto de sentir certa falta delas.

 

As tecnologias modernas reduziram muitas dessas esperas.

 

O laptop resolveu parte dos problemas.

 

Eu, que sou da geração pré-internet, hoje resolvo boa parte dessas filas pelo celular, computador ou até televisão.

 

Filas inevitáveis ainda existem: as dos aeroportos ou as dos benefícios do INSS.

 

São locais ideais para tirar uma pequena soneca, mesmo sendo atendimento preferencial.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre o que nos incomoda é o tamanho da fila, mas o tempo dentro de nós.

 

É quando o cérebro mede o tempo de maneira diferente e reclama que a fila anda devagar.

 

Como o ser humano é difícil de entender!

 

As filas faziam parte do cenário das cidades.

 

Quando morei no Rio de Janeiro, conheci novas filas: a do pão, a do bonde, a do restaurante universitário.

 

Fila para escolher um lugar perto das ondas do mar, apenas para bronzear.

 

Fila para pegar o bondinho da Praia Vermelha até o Morro da Urca e o Pão de Açúcar.

 

Fila para admirar as belezas da baia da Guanabara.

 

Também, imitando os paulistanos, filas para assistir ao pouso e à decolagem das aeronaves no Aeroporto Santos Dumont, ainda antes da chegada dos jatos.

 

O Presidente JK tinha um moderníssimo Avro.

 

Essas são as filas que ficaram guardadas na minha memória.

 

Hoje entendo melhor: às vezes a fila não anda devagar — é o nosso tempo interior que caminha mais depressa.

 

Gabriel Novis Neves

04-03-2026




DELICADEZAS PARA VISITANTES


Em muitas casas existia um pacote de bolachas reservado especialmente para as visitas.

 

Ficava escondido no armário da cozinha e ninguém podia abrir antes da hora.

 

Quando alguém chegava, surgia o prato arrumado ao lado do café passado na hora.

 

Era um gesto simples de hospitalidade.

 

Mesmo famílias humildes gostavam de oferecer alguma coisa.

 

Hoje as visitas diminuíram e os armários mudaram.

 

Mas a vontade de acolher continua sendo uma das mais bonitas tradições domésticas.

 

Lembro dessas cenas do meu tempo de menino, guardadas com nitidez na memória e transformadas, agora em crônicas.

 

Foi escrevendo sobre pequenas coisas da vida que descobri o quanto fui feliz.

 

As pessoas tinham o hábito de visitar umas às outras.

 

As casas permaneciam prontas para receber.

 

No armário da cozinha existia sempre um pacote de bolachas escondido, reservado para as visitas.

 

Eu acompanhava minha mãe em muitas dessas visitas, inclusive às casas mais humildes de lavadeiras, cozinheiras e faxineiras, nos bairros distantes de Cuiabá.

 

Mal chegávamos e já apareciam a toalha na mesa, o café passado na hora e as bolachas retiradas do armário.

 

Era um gesto simples, mas cheio de delicadeza. Naquele tempo, oferecer café e bolacha era quase uma obrigação afetiva.

 

Hoje muita coisa mudou.

 

As visitas ficaram mais raras e os encontros mais rápidos.

 

Alguns recorrem ao celular para pedir salgadinhos e pagar por PIX.

 

A modernidade trouxe conforto, mas também silenciosos afastamentos.

 

Mesmo assim, acredito que a hospitalidade não desapareceu.

 

Ela apenas ficou escondida, como aquele antigo pacote de bolachas guardado no armário da cozinha, esperando alguém chegar.  

 

Gabriel Novis Neves

26-05-2026




sábado, 30 de maio de 2026

INFÂNCIA LÚDICA


Nem sempre a diversão infantil dependia de brinquedos caros.

 

Muitas crianças passavam horas brincando com caixas de papelão, pedaços de madeira ou latas vazias.

 

A imaginação fazia o resto.

 

O tempo mudou muita coisa, mas não conseguiu diminuir a criatividade das crianças.

 

Quando menino eu mesmo construía meus brinquedos.

 

Hoje observo que meus bisnetos possuem a mesma capacidade de inventar mundos.

 

Num almoço de família fiquei olhando uma bisneta de dois anos sentada sobre um pedaço de papelão, sendo arrastada pela sala na maior felicidade.

 

Era o carrinho mais simples e, talvez, o mais gostoso que ela já tivera.

 

Na minha infância surgiam brinquedos feitos com latas vazias de massa de tomate, cabos de vassoura, bonecos de barro e jogos de botão arrancados dos casacos de meu pai.

 

Havia também pular corda, amarelinha, cabra-cega, esconde-esconde e pipas fabricadas em casa.

 

A imaginação das crianças nunca teve limites, principalmente quando era estimulada pela convivência familiar.

 

Os brinquedos caros das lojas nem sempre eram os mais queridos ou duradouros.

 

Os mais admirados eram aqueles construídos no fundo do quintal, imitando as cidades dos presépios natalinos.

 

Ali a criatividade atingia o máximo: ruas, rios, pontes, estradas, casas e moradores tirando água do poço.

 

Havia pracinha com coreto, chafariz e bancos de barro ou madeira.

 

As crianças da vizinhança vinham visitar aquelas cidades imaginárias construídas pelas mãos dos amigos.

 

O universo infantil nunca conheceu fronteiras. Os brinquedos simples continuam sobrevivendo pela tradição oral, pelo exemplo dos pais e pela alegria das famílias unidas. 

 

Minha mãe gostava de brincar conosco e ensinava tudo sorrindo.

 

Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que a infância é o território onde a tristeza deveria entrar o menos possível.

 

Gabriel Novis Neves

25-05-2025




quinta-feira, 28 de maio de 2026

EMPRÉSTIMOS AMIGOS


Nas ruas antigas, algumas ferramentas pareciam pertencer ao bairro inteiro.

 

Escadas, martelos, alicates e até formas de bolo circulavam entre vizinhos sem burocracia. Bastava bater palma no portão e pedir emprestado.

 

Havia uma confiança natural entre as pessoas.

 

Nem sempre o objeto voltava rapidamente, mas acabava voltando.

 

Hoje quase tudo ficou individualizado.

 

As casas ganharam muros mais altos e os empréstimos diminuíram.

 

Talvez porque a convivência também tenha ficado mais distante.

 

Fui criado nesse ambiente, na primeira metade do século passado.

 

A confiança era a moeda daquele tempo, quando quase tudo parecia pertencer à coletividade.

 

Cansei de presenciar vizinhos pedindo à minha mãe o açúcar que faltava para o bolo ou a escada para trocar uma lâmpada queimada.

 

Havia a certeza que aquilo que saia emprestado voltaria.

 

Hoje as portas permanecem fechadas, os muros são altos e os vizinhos mal se conhecem.

 

Moro em um edifício de vinte andares, num dos bairros mais valorizados de Cuiabá.

 

A maioria dos moradores é proprietária e amiga entre si, lembrando os antigos bairros da cidade.

 

Por aqui ainda circula a moeda da confiança, e continua sendo comum emprestar alguma coisa.

 

Quando a funcionária me consulta sobre o empréstimo de um ingrediente para o almoço, imediatamente me vêm as lembranças dos tempos antigos.

 

Sei que aquilo voltará e, mais do que isso, sinto-me útil.

 

Recordar o passado faz bem nestes tempos de consumismo desenfreado.

 

Vivíamos em comunidades onde todos se consideravam irmãos, quando não compadres e comadres.

 

Andar pelas calçadas era sempre devagar entre conversas nas portas das casas.

 

Frequentemente surgia um convite, quase sempre aceito, para entrar e tomar um cafezinho ou um refresco que aliviasse o calor cuiabano.

 

À noite, as calçadas eram ocupadas por cadeiras de balanço.

 

Quem tivesse pressa precisava caminhar rápido, de cabeça baixa, pelo meio da rua.

 

Do contrário, acabaria parado nas portas das casas, verdadeiras salas de visitas.

 

Como era bonito recordar a rua do Campo, com as famílias reunidas nas portas, sentadas em cadeiras de balanço!

 

Conheci o Marechal Cândido Mariano sentado numa dessas cadeiras, na porta da casa do seo Álvaro Duarte.

 

Até então eu o conhecia apenas pelos livros escolares e pelo nome de rua em Cuiabá.

 

Meu avô Alberto também me contava histórias sobre ele, um pouco diferentes das dos livros.

 

No fundo, eram tempos em que a confiança passava de mão em mão, como uma velha escada de vizinho.

 

Gabriel Novi Neves

23-05-2026