domingo, 15 de março de 2026

CARTAS PARA CASA


Antes dos celulares e da internet, a comunicação com a família acontecia por cartas.

 

Durante os anos no Rio de Janeiro, escrevia com frequência para meus pais em Cuiabá.

 

Contava novidades da faculdade, dificuldades dos estudos e pequenas histórias do cotidiano.

 

Esperar a resposta era um exercício de paciência.

 

Quando a carta finalmente chegava, parecia trazer consigo um pedaço da casa distante.

 

Hoje percebo que aquelas correspondências eram também um elo emocional que mantinha viva a ligação com minhas origens.

 

Uma das tarefas mais agradáveis que executei em minha vida era responder às cartas que semanalmente recebia de minha mãe.

 

Mulher inteligente, sempre tinha novidades a contar.

 

Mesmo morando em uma cidade pequena, cheia de crianças para cuidar, nunca deixei de receber sua esperada carta das quartas-feiras.

 

A dona da pensão a recebia e a deixava cuidadosamente repousando sobre a minha cama.

 

Ao chegar da faculdade, eu ia direto ao quarto para aquele reencontro silencioso com minhas origens.

 

Lia a carta duas ou três vezes e depois a guardava na gaveta da pequena mesa de estudos, ao lado da cama.

 

Religiosamente, aos sábados, antes de sair para jantar no restaurante universitário, passava na agência dos Correios e despachava minha resposta.

 

Sempre escrevia boas notícias sobre os estudos, desde a aprovação no concorrido vestibular da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha até a formatura no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Também recebia notícias da família: o crescimento das crianças e, certo dia, a alegria de saber que eu ganharia mais uma irmã.

 

Quando ela nasceu — de parto normal em casa, como todos os seus nove filhos — eu já era estudante de Medicina.

 

Nas minhas cartas também semeei boas notícias: aprovações em concursos, a dispensa da mesada que meu pai me enviava e o anúncio do meu noivado com uma argentina-brasileira.

 

Com as constantes mudanças de pensão, perdi as cartas que recebi de minha mãe.

 

E as que escrevi também se perderam nas mudanças de casa que ela precisou fazer depois de viúva.

 

Como eu gostaria de ter hoje aquelas cartas comigo!

 

Talvez nelas estivesse guardada uma parte essencial da minha própria história.

 

Gabriel Novis Neves

13-03-2026




sábado, 14 de março de 2026

A PRIMEIRA AULA DE ANATOMIA


A primeira aula de Anatomia causa impacto em qualquer estudante de Medicina.

 

Ao entrar no laboratório percebemos que a teoria finalmente se aproxima da realidade.

 

O respeito pelo corpo humano torna-se imediato e profundo.

 

Lembro do silêncio concentrado dos alunos e da atenção dedicada às explicações do professor.

 

Aquela aula não era apenas um aprendizado técnico; era também uma iniciação à responsabilidade da profissão.

 

Ali começávamos a compreender que a Medicina lida diretamente com o mistério da vida.

 

Álvaro Fróes da Fonseca era o professor catedrático de Anatomia, em 1955, na Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha.

 

Foi ele quem ministrou a aula inaugural para a minha turma — todos jovens de cabeça raspada e usando uma boina azul, símbolo de aprovação no vestibular.

 

O trote dos alunos veteranos consistia justamente em raspar a cabeça dos calouros com máquina de barbeiro número zero.

 

O professor Fróes era também antropólogo e mantinha estreita ligação com o Museu Nacional.

 

No meu tempo de estudante de Medicina os professores catedráticos — especialmente os dos primeiros anos — raramente estavam presentes nas aulas teóricas e práticas.

 

Viajavam constantemente para palestras, participavam de bancas examinadoras em universidades públicas e frequentavam congressos no exterior.

 

O professor Fróes coordenava pesquisas antropológicas no Museu Nacional, a convite do professor Roquete-Pinto.

 

Estudava a constituição anatômica e fisiológica da população brasileira, buscando estabelecer classificações raciais que interessavam à ciência da época.

 

Ficou inesquecida sua aula inaugural, quando comparou o tamanho do pênis em diferentes continentes.

 

Os calouros e calouras sorriram, provocando um discreto burburinho no auditório, o que o obrigou a tocar a pequena campainha sobre a mesa para restabelecer o silêncio.

 

Com a sala novamente sob controle, o professor — bem-humorado, como costumam ser os mais experientes — sorriu e disse aos alunos que não se preocupassem.

 

— Eles estavam no continente africano, bem distante da sala de aula.

 

A sala explodiu em gargalhadas e a aula foi encerrada.

 

Alguns colegas, curiosos sobre suas pesquisas antropológicas, aproximaram-se do professor para saber mais sobre o trabalho desenvolvido no Museu Nacional.

 

Anos depois convidei o professor José Carlos Prates, da Escola Paulista de Medicina para ministrar a aula inaugural de Anatomia da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

O primeiro cadáver para estudo veio de São Paulo, em 1980.

 

Ali, mais uma vez, começava para outros jovens o mesmo encontro solene com o corpo humano — e com o início da Medicina.

 

Gabriel Novis Neves

11-03-2026


A Lição de Anatomia do Dr. Tulp
(De Anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp)  pintura a óleo sobre tela de REMBRANDT, em 1632.


sexta-feira, 13 de março de 2026

AMIGOS DA FACULDADE


A faculdade de Medicina também foi um lugar de amizades profundas. 

 

Entre provas difíceis, noites de estudo e momentos de descontração, formavam-se laços que ultrapassavam o ambiente acadêmico. 

 

Compartilhávamos livros, preocupações e sonhos profissionais. 

 

Cada colega trazia uma história diferente, vinda de diversas regiões do país. 

 

A convivência ampliava nosso olhar sobre o Brasil e sobre as pessoas. 

 

Até hoje guardo lembranças vivas daqueles companheiros de jornada. 

 

Passados sessenta e quatro anos da colação de grau, de uma turma com mais de duzentos médicos, mantenho contato com apenas três: dois no Rio de Janeiro e um em São Paulo. 

 

Os dois colegas cuiabanos já partiram. 

 

Evito lembrar daqueles companheiros que nos deixaram cedo demais. 

 

O longevo que ultrapassa os noventa anos chega a um momento da vida em que já não tem com quem conversar longamente, trocar ideias ou simplesmente sentar nas cadeiras de balanço da antiga sala de visitas. 

 

Da minha turma, dois se dedicaram à pesquisa no Instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro. 

 

Outros se espalharam por todo o território brasileiro. 

 

Alguns se entregaram ao ensino universitário, como eu; outros tiveram sucesso na clínica privada ou na saúde pública. 

 

Também houve aqueles que abandonaram a Medicina em busca de atividades mais rentáveis. 

 

Como éramos muitos alunos, os grupos se formavam naturalmente. 

 

Havia o grupo do CPOR — Centro de Preparações de Oficiais da Reserva. 

 

Era muito unido. 

 

Nos acampamentos de Gericinó dividíamos barracas e sanitários. 

 

Outro grupo vinha dos hospitais do Estado, ocupando os dias da semana em plantões. 

 

Nunca tivemos o pessoal da praia, mas havia o grupo do cinema e do teatro. 

 

Depois de seis anos tudo se dissolveu. 

 

Naquela época não existia telefonia móvel, que hoje encurta distâncias e aproxima as pessoas. 

 

Talvez hoje tivéssemos criado um grupo chamado ‘Medicina 1960’ no celular — e continuaríamos juntos. 

 

Para os três colegas que ainda restam da turma de sessenta, envio todos os dias um bom-dia, acompanhado de uma crônica minha e uma flor do meu jardim. 

 

Quase nunca respondem. 

 

De vez em quando recebo uma mensagem do Rio. 

 

O de São Paulo às vezes me liga. 

 

O terceiro está com Alzheimer. 

 

Assim seguem os amigos da faculdade. 

 

Na memória, porém, continuamos todos jovens. 

 

Gabriel Novis Neves 

11-03-2026




quinta-feira, 12 de março de 2026

QUARTO DE PENSÃO


Durante os anos de estudante morei em um quarto simples de pensão no Rio de Janeiro.

 

Era pequeno, com móveis modestos e uma janela por onde entrava, sem pedir licença, o barulho constante da cidade.

 

Ali eu estudava, lia os livros de Medicina e escrevia cartas para a família em Cuiabá.

 

Às vezes, o silêncio do quarto contrastava com o movimento das ruas lá fora.

 

Aquela pensão era mais do que um lugar de dormir — era o território onde eu organizava sonhos, preocupações e esperanças de um jovem que começava a construir o próprio futuro.

 

No início pensei que teria dificuldade em viver em tão poucos metros quadrados.

 

Acostumei-me.

 

Passei onze anos assim.

 

Quando retornei à minha cidade natal, já casado e com um filho prestes a nascer, fui morar numa pequena casa de oitenta metros quadrados.

 

Curiosamente, o meu quarto era menor que o da pensão do Rio — e nele o sol quase não entrava.

 

Mesmo assim, lembro com alegria daqueles anos em quartos que mal comportavam a minha cama.

 

Foram tempos em que os sonhos começavam, pouco a pouco, a transformar-se em realidade.

 

Deixei o casarão da rua do Campo, percorri quartos de pensão no Rio e continuei a viver em espaços pequenos enquanto a vida se organizava.

 

Quando finalmente consegui um casarão no Porto, meu destino já estava consolidado.

 

Foram dezesseis anos para que os sonhos da juventude se transformassem em realidade.

 

A vida, porém, gosta de fazer curvas.

 

Há mais de trinta anos vivo sozinho em um amplo duplex.

 

E hoje passo a maior parte do tempo em um quarto claro, onde a luz da manhã me desperta.

 

Penso então como a vida é curiosa.

 

Cresci numa casa cheia de crianças.

 

Depois vieram onze anos num quarto de pensão.

 

Mais tarde, uma pequena casa.

 

Durante cinquenta anos habitei espaços cheios de gente, movimento e vozes.

 

Agora somos apenas dois: eu e a cuidadora.

 

Talvez a vida esteja fechando o círculo.

 

Voltei, serenamente, ao meu quarto de pensão.

 

Gabriel Novis Neves

07-03-2026




quarta-feira, 11 de março de 2026

SINTONIA DELICADA


O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.


Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.


Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.


Não mexi mais.


Fiquei ouvindo.


A sintonia exige paciência.


Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco. Bastava um toque descuidado e o chiado voltava. Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.


Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar? Pequenos avisos que deixamos passar. Às vezes melhoram sozinhos. Outras vezes pedem atenção. Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.


Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice. Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade. São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.


Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa. Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel. Não podia respirar forte. Qualquer movimento traria o chiado de volta.


Assim escutei a final da Copa de 1950.


Imóvel.


O rádio no colo.


O coração na boca.


Perdemos o jogo.


Mas ganhei uma memória eterna.


Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos. Nem sempre acertamos de primeira. Há interferências, perdas, silêncios.


Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.


Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.


Está em manter firme a sintonia do coração.


Gabriel Novis Neves

13-02-2025




terça-feira, 10 de março de 2026

DESEJOS OCULTOS


Havia uma lata de biscoitos guardada no alto do armário.

 

Sabíamos exatamente onde ficava.

 

Minha mãe dizia que era para as visitas.

 

Mesmo assim, às vezes conseguíamos um escondido.

 

O gosto parecia melhor justamente porque vinha acompanhado de risco.

 

Quantos riscos atravessei ao longo da caminhada.

 

Um deles, foi quando minha vida esteve na ponta de uma arma, bem distante daqui.

 

Outros ficaram apenas na ameaça.

 

Chamava tudo isso de estripulias da juventude.

 

Andava em favelas perigosas prestando assistência médica.

 

Frequentava bairros distantes, marcados pela violência.

 

Trabalhei em hospitais na Penha, na Ilha do Fundão e em Jacarepaguá.

 

Namorar escondido também era arriscado.

 

Tudo que é proibido tem sabor de aventura.

 

Ir ao cinema e temer o lanterninha flagrar um beijo roubado.

 

Ou namorar na sala, enquanto os pais da moça saiam para uma visita rápida nas proximidades.

 

Nessas horas, eu pensava na lata de biscoito lá de casa, escondida no alto do armário.

 

As grandes emoções nascem do risco — e como são desejadas!

 

A tempestade a bordo de um avião é risco puro, que se transforma em imensa felicidade quando pousamos em segurança.

 

Dizem até que o melhor da viagem é chegar em casa e tirar os sapatos.

 

O risco muda o sabor das coisas.

 

Torna-as mais intensas.

 

Nós nascemos da união de duas células —uma masculina e outra feminina.

 

Cada vez que penso no processo da reprodução humana, mais acredito no milagre que é existir. O gosto do risco parece sempre superar o medo.

 

Talvez por isso o mundo continue a se multiplicar.

 

No reino animal, em certas espécies, o risco da procriação é fatal.

 

Ainda assim, a vida insiste.

 

Desde que há vida, é assim.

 

E continuará sendo.

 

Como a lata de biscoito no alto do armário — sempre guardada, sempre tentadora, sempre nos ensinando que o sabor aumenta quando há um pouco de risco.

 

Gabriel Novis Neves

27-02-2026




CADEIRAS DE BALANÇO


Toda casa antiga parecia ter uma cadeira de balanço.

 

Ela ficava quase sempre na sala ou na varanda.

 

Era um móvel simples, mas cheio de presença.

 

Na minha infância, aquela cadeira parecia pertencer naturalmente aos mais velhos.

 

Os avós se sentavam nela com uma calma que as crianças ainda não compreendiam.

 

O movimento lento para frente e para trás parecia acompanhar o ritmo das conversas.

 

Enquanto a cadeira balançava, surgiam histórias.

 

Histórias da família.

 

Histórias da cidade.

 

Histórias de um tempo que já havia passado.

 

As crianças escutavam com curiosidade.

 

Às vezes sem entender tudo.

 

Mas guardando aquelas narrativas em algum lugar da memória.

 

A cadeira de balanço também servia para momentos de silêncio.

 

Ali alguém podia pensar, descansar ou simplesmente observar a tarde passando.

 

O ranger discreto da madeira fazia parte da casa.

 

Era um som doméstico, familiar.

 

Com o tempo muitas dessas cadeiras desapareceram.

 

As casas mudaram.

 

Os móveis ficaram modernos.

 

Mas poucos conseguiram substituir aquele velho balanço.

 

Hoje, quando vejo uma cadeira assim, lembro imediatamente da minha infância.

 

Percebo que ela não era apenas um móvel.

 

Era quase um ponto de encontro entre gerações.

 

Ali o tempo parecia caminhar mais devagar.

 

Talvez por isso as histórias fossem tão boas.

 

A cadeira de balanço ensinava uma coisa simples:

 

Às vezes a vida precisa apenas de um pequeno movimento para continuar seguindo em frente.

 

Gabriel Novis Neves

05-03-2026