Esperei pela campainha a manhã inteira.
O porteiro avisou que alguém subiria.
Preparei-me para o som conhecido, aquele toque curto e decidido.
Mas o tempo passou em silêncio.
Sentei, levantei, caminhei pela casa.
Nada.
Quando a campainha finalmente tocou, já não era mais urgente.
Aprendi que a espera muda o peso das coisas.
Assim era na abertura das aulas, quando cursava o primário na escola da praça Ipiranga.
Chegava cedo e, quando o bedel tocava a campainha anunciando o início das aulas, percebia que poderia ter chegado mais tarde.
Já havia esperado um bom tempo.
Poderia ter ficado mais alguns minutos na cama.
Passei então a chegar mais tarde, apenas para logo ser chamado.
A garotada pobre do interior do Brasil costumava formar filas na porta do restaurante universitário antes mesmo da abertura.
A urgência de ser atendido primeiro tinha um motivo simples: garantir as melhores bandejas e mesas.
Assim evitavam as longas filas e o desconforto de sentar-se com desconhecidos.
Também nos encontros amorosos, cheios de expectativa, quando a pessoa atrasava, a urgência perdia o sentido.
A espera muda o peso das coisas.
Quantas histórias poderia contar da minha vida profissional, de médico, especializado na espera de novas vidas!
O trabalho de parto é uma urgência.
A evolução de um parto normal pode durar dez horas.
Quando a criança nasce, o atendimento médico deixa de ser urgente.
E a vida segue seu caminho.
Parar para pensar sobre a vida faz bem.
Descobrimos muitas coisas que, nas urgências, nos passam despercebidas.
Aprendemos também a enfrenta-la como ela é, com mais naturalidade.
No almoço semanal da família, quando alguém se atrasa por motivo fútil, passo mal.
Levanto-me da mesa antes de todos, privado da gostosura dos abraços da despedida.
Gabriel Novis Neves
07-02-2026