sexta-feira, 11 de setembro de 2026

PASSANDO O CAFÉ


Naquele tempo fazer café era quase um pequeno ritual dentro de casa.

 

O menino observava a água esquentando, o pó colocado no coador e aquele cheiro gostoso tomando conta da cozinha.

 

Um dia permitiram que preparasse o café sozinho.

 

Ficou preocupado com a quantidade de pó, o açúcar e, principalmente, com a opinião dos adultos.

 

Sem perceber aprendia uma lição que levaria para a vida inteira: as grandes responsabilidades quase sempre começam com coisas pequenas.

 

Na minha infância, criança não ficava apenas olhando os adultos trabalharem.

 

Trabalhei no consultório do meu avô, médico, viúvo e surdo.

 

No bar do meu pai, fui servente e ajudei na sorveteria.

 

Na igreja do bairro fui sacristão.

 

Também vendia frutas colhidas no quintal de nossa casa, na rua do Meio, e, durante as férias de dezembro, inventava rifas na porta de casa.

 

Eram pequenos trabalhos, sem qualquer importância aparente, mas todos me ensinavam alguma coisa.

 

Aprendi cedo que ninguém nasce sabendo.

 

Os pais são nossos primeiros professores, quase sempre sem quadro-negro, caderno ou sala de aula.

 

Ensinavam pelo exemplo e pelas pequenas tarefas do cotidiano.

 

Até fazer um cafezinho podia ser uma aula.

 

Era preciso acertar a quantidade de águe e de pó, esperar o momento certo e, depois, enfrentar o julgamento de quem bebia.

 

Talvez tenha começado ali meu aprendizado de conviver com a opinião dos outros.

 

Até hoje escrevo conversando comigo mesmo. Mas, quando publico uma crônica, fico curioso para saber o que os leitores acharam.

 

Também a compartilho com o editor do blog e ouço suas observações.

 

Continuo, portanto, aprendendo a aceitar a opinião alheia.

 

Aos noventa e um anos, descubro que certas lições nunca terminam.

 

E pensar que uma delas começou diante de um coador, quando um menino de Cuiabá tentou fazer sozinho sua primeira xícara de café.

 

Gabriel Novis Neves

05-09-2026




quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CHINELOS BATENDO NO TERREIRO


Os chinelos simples acompanhavam o menino por todos os cantos da casa e do quintal. 

 

Seu barulho seco no terreiro anunciava brincadeiras, pequenas tarefas ou corridas atrás dos amigos. 

 

Eram passos leves, livres de preocupações, que marcavam um tempo em que a felicidade cabia nos gestos mais comuns. 

 

Hoje, aquele som permanece apenas na memória de quem viveu essa infância. 

 

Não sou saudosista, como pode parecer nas linhas desta crônica. 

 

Acontece que os tempos mudaram e, com eles, a própria maneira de encontrar a felicidade. 

 

Como eram simples e felizes aquelas pessoas!

 

Era um prazer andar descalço pela casa e pelo quintal.

 

Eu e meus irmãos só calçávamos os chinelos quando saíamos para alguma visita ou ocasião especial.

 

Seu barulho seco sobre o terreiro anunciava nossa presença antes mesmo de alguém nos ver.

 

Andar descalço exigia atenção.

 

Era preciso evitar espinhos, cacos de vidro e, principalmente pequenos animais que apareciam com frequência nos quintais e, muitas vezes, até dentro de casa.

 

Baratas, escorpiões e aranhas-caranguejeiras despertavam verdadeiro pavor.

 

Quando surgia uma dessas aranhas, a casa inteira entrava em alvoroço.

 

Os adultos tratavam de afastá-la, enquanto as crianças assustadas procuravam refúgio em cima das cadeiras.

 

Apesar desses sustos, tudo era motivo de diversão.

 

Brincávamos pelos cômodos da casa e pelo quintal.

 

Havia jogos de botão, feitos com botões arrancados dos paletós de meu pai, partidas de futebol no quintal ou na rua de trás e animados

 

jogos de bolitas na calçada ainda sem pavimentação.

 

Nessas brincadeiras quase sempre os chinelos ficavam de lado.

 

Mas o som seco deles batendo no terreiro continua guardado na minha memória.

 

Quem vive muitos anos aprende visitar o passado com carinho.

 

São lembranças simples, aparentemente sem importância, mas capazes de despertar uma alegria profunda.

 

Alguns sons nunca se calam.

 

O barulho dos chinelos da minha infância ainda ecoa dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

23-07-2026




quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CHEIRO DA LENHA QUEIMANDO


Logo ao amanhecer a fumaça dos fogões a lenha espalhava um aroma que anunciava o início de mais um dia.

 

O menino reconhecia aquele perfume de longe e sabia que o café logo estaria pronto.

 

Alguns cheiros permanecem para sempre guardados na memória e aquecem o coração mesmo depois de muitos anos.

 

Na infância, muitos aromas nos enchiam de prazer anunciando o novo dia.

 

Era o cheiro do pão saindo do forno da padaria, quase vizinha à minha casa, na rua de Baixo.

 

Era o café feito na hora no fogão a lenha.

 

O cheiro da manga madura levada na pasta para a merenda na escola primária, na Praça Ipiranga.

 

Da terra molhada pela chuva da noite.

 

Da abertura do bar para as atividades do dia.

 

Da graxa de sapatos da engraxataria do bar do meu pai.

 

Do perfume da minha mãe sempre borrifado atrás das orelhas.

 

Não sei por que a gente cresce, se, com o passar dos anos, vamos perdendo os aromas da nossa infância.

 

Quanto mais avançamos pela vida e nos distanciamos daqueles cheiros, mais aprendemos que tudo passa.

 

Alguns definem a vida como um sopro.

 

Eu continuo sem entendê-la.

 

Lembro das crianças que pensam muito mais do que falam.

 

Procuro adivinhar aquilo que minhas bisnetas pensam, tão alegres nos almoços de sábado.

 

Nas conversas com elas, tento ler em seus olhares aquilo que ainda não sabem dizer.

 

Enquanto escrevo, lembro daquele cheiro do corpo que me fazia tão bem!

 

Hoje, um dos aromas que me acompanha é o dos livros da minha biblioteca.

 

Aquele cheiro de papel envelhecido, que para mim significa conhecimento e vida guardada.

 

O cheiro da lenha queimando espalhava-se pela vizinhança numa mistura de aromas que pertencia à Cuiabá de antigamente.

 

Nada igual ao cheiro do mate queimado, hoje quase desaparecido das casas cuiabanas.

 

Não sei por que deixamos de usá-lo na primeira refeição do dia, se até hoje é apreciado por todos que o saboreiam.

 

Talvez os cheiros da infância nunca desapareceram de verdade.

 

Ficam adormecidos dentro de nós.

 

Basta um pouco de fumaça de lenha para o menino voltar para casa.

 

Gabriel Novis Neves

17-08-2026




terça-feira, 8 de setembro de 2026

VISITA AO SAPATEIRO


Nem tudo era descartado quando apresentava defeito.

 

Sapatos gastos ganhavam nova vida nas mãos habilidosas do sapateiro.

 

Costuras, solas e saltos eram cuidadosamente recuperados, permitindo que o calçado acompanhasse seu dono por muitos anos.

 

Mais do que consertar sapatos, esses profissionais ensinavam, sem palavras, uma lição de economia, paciência e respeito pelas coisas.

 

Hoje os sapateiros quase desapareceram das ruas, mas continuam caminhando pelas lembranças de quem viveu aquele tempo.

 

A Cuiabá da minha infância possuía inúmeras sapatarias.

 

Esse fato revelava um costume simples: cuidar bem do que se possuía.

 

Fui criado no centro histórico, onde ruas e becos abrigavam pequenas bancas de sapateiros.

 

O som ritmado do martelo, o cheiro do couro e a concentração do artesão faziam parte da paisagem da cidade.

 

Assim fui educado.

 

Em casa aprendíamos a evitar desperdícios e a valorizar cada objeto.

 

Quando retornei à Cuiabá, em 1964, ainda encontrei muitas sapatarias em plena atividade.

 

Hoje quase não as vejo.

 

Vivemos numa época em que grande parte dos produtos nasce com vida curta, tornando-se mais fácil substituí-los do que consertá-los. Sempre admirei a imagem de um sapateiro trabalhando.

 

Há nela algo de profundamente humano.

 

Curvado sobre a bancada, concentrado em seu ofício, ele me fez lembrar a figura de São José, exercendo com dignidade o trabalho silencioso das mãos.

 

A economia doméstica, que meus pais ensinavam naturalmente pelo exemplo, hoje é estudada em universidades.

 

Muitas profissões artesanais desapareceram, levadas pelo avanço da tecnologia e pelos novos hábitos de consumo.

 

Ainda assim, acredito que o verdadeiro valor das coisas, continua sendo o mesmo: cuidar, conservar e agradecer pelo que temos.

 

Talvez essa seja a mais duradoura lição deixada pelos velhos sapateiros.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026




segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ACORDANDO DEVAGAR


Há dias em que a casa parece acordar mais devagar.

 

Ninguém corre para sair, o café demora um pouco mais na mesa, as portas se abrem sem pressa e até a luz da manhã entra com delicadeza.

 

São dias raros, quase sempre ligados ao descanso.

 

Neles, percebemos que a vida não precisa ser sempre atropelada.

 

Às vezes, basta diminuir o passo para sentir melhor a própria existência.

 

Durante grande parte da minha vida eu já acordava atrasado.

 

Era a pressa da juventude, dos compromissos, das responsabilidades e dos sonhos que pareciam exigir urgência permanente.

 

Os dias começavam correndo e terminavam da mesma forma.

 

Havia sempre uma reunião, uma aula, uma consulta, uma viagem ou um problema esperando solução.

 

Hoje a vida segue outro ritmo.

 

Ainda acordo com sono e custo a me levantar para tomar o café, enquanto a cidade já desperta em pleno movimento.

 

A correria de antigamente desapareceu como num passe de mágica.

 

A fase que vivo é uma etapa de reencontro comigo mesmo, algo que talvez só a longevidade seja capaz de proporcionar.

 

Não trago arrependimentos e talvez não sinto falta da antiga pressa.

 

Cresci ouvindo os mais velhos repetirem que a pressa é inimiga da perfeição.

 

Com o passar dos anos, descobri que ela também pode ser inimiga da contemplação.

 

Acordar mais devagar está ligado ao descanso, à aceitação dos limites e à sabedoria de compreender que cada idade possui seu próprio compasso.

 

O homem da roça aprende com a natureza.  Dorme cedo, acorda com a claridade e inicia o dia com seu quebra-torto reforçado.

 

Eu, por minha vez procuro ajustar os horários dos medicamentos para dormir e despertar mais disposto.

 

Nem sempre consigo.

 

As cuidadoras me ajudam nos primeiros passos pela casa, enquanto observo as mudanças que o tempo trouxe à minha locomoção.

 

Mas, curiosamente, também percebo algo que a juventude não enxergava: a beleza das pequenas coisas.

 

Hoje, quando a casa acorda mais devagar, eu também desperto para a gratidão.

 

Porque viver sem pressa é um privilégio.

 

E agradecer por mais um amanhecer é uma forma de felicidade.

 

Cada novo dia é um presente que chega devagar.

 

Gabriel Novis Neves

03-06-2026




domingo, 6 de setembro de 2026

CHEIRO DE TERRA MOLHADA


Nas tardes mais quentes, bastava jogar alguns baldes de água sobre o chão para o quintal ganhar outro perfume.

 

O cheiro da terra molhada espalhava-se pela casa, trazendo uma agradável sensação de frescor.

 

Era um aroma impossível de fabricar, guardado apenas na memória de quem viveu aquele tempo simples.

 

Quando menino, nos dias de sol mais intenso, minha mãe pedia que eu molhasse o chão do quintal.

 

Os quintais cuiabanos possuíam poços e tanques, garantindo água abundante para refrescar a terra e atender às necessidades da casa, onde, quase sempre, moravam famílias numerosas e seus empregados.

 

Naquele tempo, ninguém falava em economia de água.

 

A cidade era privilegiada pelo rio Cuiabá, pelos córregos, tanques e bicas que abasteciam a população com generosidade.

 

Bastavam alguns baldes lançados sobre a terra para que um perfume inconfundível tomasse conta do ambiente.

 

O calor parecia diminuir e a casa inteira respirava outro ar.

 

Nos dias mais quentes, o córrego da Prainha transformava-se na alegria dos meninos.

 

Mergulhávamos em suas águas para aliviar o calor e prolongar a felicidade das férias.

 

Até hoje sinto falta do cheiro da terra molhada do quintal da casa onde vivi minha infância.

 

Depois que deixei a casa da rua do Campo para estudar no Rio de Janeiro, nunca mais encontrei aquele perfume.

 

Era o cheiro da minha terra, da minha infância e da minha família.

 

Um aroma que nenhuma indústria conseguiu reproduzir.  

 

Meus filhos, netos e bisnetos pertencem a uma geração que cresceu sem quintais.

 

Por isso talvez nunca venham a conhecer essa sensação tão simples e tão marcante!

 

Mas o filme de quase um século atrás permanece intacto em minha memória.

 

Nas antigas casas coloniais, os largos beirais protegiam as paredes e as calçadas do sol e das chuvas.

 

Sustentados pelos chamados cachorros —peças de madeira em balanço, popularmente conhecidas em Cuiabá como cachorrões — proporcionavam sombras generosas que completavam o encanto daquelas casas.

 

Tudo era simples.

 

E talvez por isso mesma fosse tão inesquecível.

 

Gabriel Novis Neves

05-08-2026




sábado, 5 de setembro de 2026

A PONTE DOS FERIADOS


A ponte do feriado é uma invenção brasileira muito apreciada.

 

Basta um feriado cair na terça ou na quinta-feira para a segunda ou a sexta ganharem outro significado.

 

A palavra ‘ponte’ sugere passagem, descanso, viagem, fuga da rotina.

 

Uns aproveitam para sair.

 

Outros preferem ficar em casa.

 

Mas todos sentem que aqueles dias extras têm um sabor diferente, como se fossem emprestados ao calendário.

 

A arte de mexer no calendário acabou incorporada nos costumes brasileiros.

 

Quando o feriado cai numa terça ou quinta-feira, logo surge a famosa ‘ponte’, transformando a semana em descanso prolongado e quebrando a rotina.

 

Alguns feriados do meu tempo de criança desapareceram.

 

O treze de maio, data da Abolição da Escravidão, já foi muito lembrado.

 

Em compensação, o Brasil passou a celebrar oficialmente o Dia da Consciência Negra, em vinte de novembro.

 

Vinte e quatro de fevereiro também foi um feriado importante: comemorava-se a primeira Constituição Republicana, promulgada em 1891, mas a data caiu em desuso ao longo do século passado.

 

Durante o regime militar, o 31 de março era celebrado oficialmente, mas perdeu qualquer sentido comemorativo após a redemocratização.

 

Há outras datas históricas que deixaram de ser feriado nacional, como o vinte e dois de abril, Dia do Descobrimento do Brasil.

 

A bandeira brasileira criada em 19 de novembro de 1889, logo após a Proclamação da República, também não transformou sua data em feriado nacional.

 

No dezenove de abril, o país celebra o Dia dos Povos Indígenas.

 

Temos feriados nacionais, estaduais, municipais, pontos facultativos e datas comemorativas.

 

Tudo isso acaba criando inúmeras ‘pontes’, aumentando os momentos de pausa e descanso.

 

Mas o feriado mais esperado pelos cuiabanos continua sendo a queda da temperatura.

 

Como isso é raro numa cidade calorenta, nesses dias ninguém tem vontade de abandonar a cama, o cobertor e o banho quente.

 

Eu mesmo estou aproveitando esse veranico com meias, calça comprida e casaco de moletom, permanecendo mais tempo na cama e com o ar refrigerado desligado.

 

Nessas horas, até o frio passageiro parece feriado.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2026