terça-feira, 29 de setembro de 2026

A VOZ DO RÁDIO NA MADRUGADA


Mesmo depois da chegada da televisão e dos modernos meios de comunicação, os programas noturnos de rádio permanecem insubstituíveis e, até hoje, conservam uma fiel audiência.

 

São companhia para quem está desperto — trabalhando ou não — trazendo notícias, músicas e saudades.

 

Nos jogos de futebol o radinho de pilha colado ao ouvido, descreve ao torcedor cada detalhe: desde a conversa dos jogadores antes de entrarem em campo até os lances mais emocionantes das partidas.

 

O árbitro, por sua vez, comunica-se com seus auxiliares e com o VAR por meio de um pequeno microfone de rádio preso à lapela.

 

Porteiros de edifícios, caminhoneiros, plantonistas de serviços essenciais —todos têm no rádio da madrugada seu fiel companheiro.

 

Também os que sofrem de insônia encontram nele notícias, músicas e memórias que a madrugada desperta, levando-nos a pensar distante.

 

Tudo é diferente no rádio da madrugada: a voz serena do locutor, as músicas escolhidas, os recados cheios de saudade enviados a quem está longe.

 

Quando trabalhava em plantões noturnos nos hospitais da cidade, tinha sempre um radinho de pilha no bolso do jaleco.

 

Era meu companheiro, até mesmo no centro cirúrgico.

 

O rádio da madrugada começava ao entardecer e se estendia até às oito da manhã, quando a programação do dia assumia o comando.

 

O jornal matinal era preparado pelos radialistas que atravessavam a noite acordados.

 

Muitos jornalistas aprenderam a profissão nesse ofício silencioso e mágico.

 

Gostava de trabalhar na madrugada, onde tudo parecia mais calmo e acolhedor, desde os tempos de estudante no Rio de Janeiro.

 

Escrever relatórios de partos ao som do rádio noturno era tarefa que me enchia de paz — e ainda hoje desperta em mim um sentimento de doce nostalgia.

 

Quando morei no Porto, na rua Major Gama, era convidado a participar do programa da madrugada da Rádio Cultura, bem próxima de minha casa.

 

Ia e voltava a pé.

 

O assunto das entrevistas era sempre a criação de novos cursos e as obras da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Já se passaram cinquenta e cinco anos.

 

Quanta saudade!

 

Gabriel Novis Neves

03-10-2025




domingo, 27 de setembro de 2026

LUZ AMARELA DOS POSTES


Durante muitos anos Cuiabá padeceu com a falta de energia elétrica.

 

Quando menino lembro-me de um gerador instalado no morro da Prainha, e que sustentava a cidade.

 

O censo demográfico realizado pelo IBGE em 1980 já registrava mais de duzentos mil habitantes quando a Universidade Federal de Mato Grosso completava dez anos de funcionamento.

 

Em 1945, porém, não havia dados precisos.

 

A população não deveria passar de cinquenta mil almas, no máximo.

 

A energia vinha do rio da Casca, na região da Chapada dos Guimarães e sua distribuição era irregular.

 

Para aliviar o problema o governo do Estado instalou um possante gerador, no morro da Prainha, socorrendo a capital.

 

Clubes esportivos e instituições particulares seguiram o mesmo caminho.

 

O bar do meu pai, por exemplo, não podia sobreviver sem energia para a sorveteria e o setor de bebidas.

 

A iluminação pública vinha de postes altos, mas sua luz era fraca, amarelada.

 

Inspirava medos, brincadeiras e também encontros amorosos ao cair da noite.

 

Bastava um relâmpago sobre o rio da Casca e a cidade inteira mergulhava na escuridão, até o gerador do morro da Prainha assumir seu papel.

 

Mesmo assim, a claridade era pálida e insuficiente, obrigando muitos a se recolherem em casa, temendo assaltos.

 

Outros, porém, viam ali a chance perfeita para viver namoros proibidos, sob a cumplicidade da penumbra.

 

O fornecimento regular de energia elétrica só veio com a construção da barragem do Manso, também na Chapada, e com o incentivo às micro usinas que atraíram grandes empresários.

 

Mesmo hoje, com hospitais, quartéis, edifícios, shoppings, restaurantes, hotéis e clubes contando com seus próprios geradores de emergência, a cidade já não teme o escuro.

 

Cuiabá, com seus mais de setecentos mil habitantes, ilumina-se com postes de luz clara. E ninguém mais namora na rua.

 

Fica em casa, às claras.

 

O velho gerador do morro da Prainha deixou apenas a lembrança de um tempo e o apelido carinhoso: ‘Casinha do Morro da Luz. ’

 

Gabriel Novis Neves

04-10-2025




sábado, 26 de setembro de 2026

O TOQUE DO FERRO DE PASSAR


O ferro de passar de minha infância era o de brasa, pesado, acompanhado sempre do cheiro de roupa limpa e bem cuidada.

 

Quase todas as famílias cuiabanas tinham suas lavadeiras e passadeiras de confiança.

 

As da minha casa vinham do bairro do Baú.

 

Elas lavavam nos tanques, passavam e engomavam em suas próprias casas.

 

A goma dos ternos brancos era orgulho dos fregueses, exibidos aos domingos nas missas e nas retretas da Praça Alencastro.

 

Seus donos não ousavam sentar-se, para que o vinco não quebrasse nem amassasse — o mesmo cuidado tinhas as moças com as suas saias plissadas.

 

As lavadeiras eram respeitadas e bem tratadas, afinal, perder uma freguesia era prejuízo.

 

O trabalho de lavar as roupas era artesanal; já o ato de passá-las, exigia o ferro a brasa, que deixava no ar aquele perfume de roupa bem cuidada.

 

Meu uniforme de gala do Colégio Salesiano São Gonçalo, era branco.

 

Usava-o apenas em solenidades: velórios de autoridades ou desfiles escolares.

 

Retornava invariavelmente amassado e logo era enviado à lavadeira.

 

Em 1946, era também a minha melhor roupa — uniforme branco impecável, acompanhado de quepe militar.

 

Recordo-me de certa ocasião em que minha mãe, com tantos filhos a cuidar, pediu que eu a representasse no casamento de amigos.

 

Respondi que não tinha roupas adequadas.

 

Ela retrucou: ‘E o uniforme do colégio dos padres, engomado que está no meu guarda-roupa?’

 

E lá fui eu, menino, de uniforme de gala a uma festa de adultos — morrendo de vergonha.

 

Até hoje guardo na memória aquele acontecimento inusitado. 

 

Vieram depois os ferros elétricos e, mais tarde as lavanderias.

 

Hoje, minhas roupas leves, são lavadas na lavanderia do meu apartamento e passadas com ferro elétrico pela cuidadora.

 

As peças mais pesadas —ternos, calças, camisas de manga comprida, edredons e cobertores vão para as tinturarias.

 

O velho ferro a brasa, que já reinou em tantas casas cuiabanas, hoje é apenas peça de museu em um mundo dominado pela tecnologia.

 

Gabriel Novis Neves

02-10-2025




sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BILHETE ESQUECIDO NO BOLSO DO PALETÓ


Uma frase curta, rabiscada às pressas, pode revelar emoções e segredos de um tempo que não volta.

 

Hoje ninguém mais escreve bilhetes — eles são digitados no celular e, por isso, nunca se perdem nos bolsos.

 

Outrora, o lápis exercia inúmeras funções e todos o tinham ao alcance: nos bolsos ou atrás da orelha, como faziam os comerciantes.

 

As gavetas das casas guardavam sempre um lápis para anotar alguma emergência.

 

Já os médicos usavam as modernas canetas-tinteiro para receitar em seus blocos próprios.

 

Eram verdadeiros rabiscos, compreendidos apenas pelos farmacêuticos experientes.

 

Aquela frase curta, rabiscada às pressas, que podia revelar emoções e segredos de um tempo que não volta mais, serve apenas de lembrança saudosa.

 

Os antigos viviam mergulhados em emoções, segredos, pequenos mistérios incompreendidos nos dias de hoje.

 

Agora esses sentimentos se transformaram em produtos mercadológicos.

 

O bilhete esquecido no bolso do paletó já não é encontrado, nem mesmo na nossa imaginação.

 

Encontrar poesia — ou filosofar sobre a simplicidade daquilo que um dia já foi luxo — é sonhar com um passado distante.

 

E parece que muitos não gostam de ser chamados de saudosistas, como se o termo fosse depreciativo ou pejorativo.

 

Mas o que há de errado em revelar emoções? Até mesmo em um bilhete esquecido no bolso do paletó pode se esconder um segredo.

 

O passado encontrava poesia em tudo; o presente, ao contrário, tornou-se materialista.

 

Venho de quase um século atrás e me considero sem pudor, um saudosista das coisas que perdi: o lápis, o caderno de caligrafia, o caderno do armazém onde tudo era comprado fiado e pago no fim do mês.

 

A máquina fotográfica japonesa foi substituída pelo celular em cores.

 

Em compensação, ganhamos o ensino superior em nossa própria cidade, sem precisar viajar para ter um curso universitário e ser chamado de ‘doutor’.

 

O ritual da despedida também era lindo: visitas formais, abraços demorados e troca de cartas, reveladoras de emoções e segredos.

 

Gabriel Novis Neves

29-09-2025




quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O JORNAL DOBRADO


O jornal abandonado pode revelar muito: notícias antigas, o cheiro do papel e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.

 

Sempre tive fascínio por notícias antigas.

 

Na juventude fazia as compras de casa nos armazéns, e quase tudo vinha embrulhado em folhas de jornal, mais baratas que o papel próprio para o comércio.

 

Meu pai lia os jornais da cidade e um do Rio de Janeiro.

 

Depois guardava-os no quarto de despejo.

 

Eu os vendia nos armazéns, pelo preço que o comerciante estipulava.

 

Saía satisfeito e, com o dinheiro, comprava queimadas e pirulitos na casa do seu Freitas.

 

Gostava de reler aquelas páginas, especialmente as notícias antigas da Segunda Guerra Mundial e as de futebol do Rio.

 

Apesar de estarmos mais próximos de São Paulo, nossa identidade cultural sempre esteve ligada ao Rio de Janeiro.

 

Hoje isso mudou: procuramos São Paulo para tudo, sobretudo pelos serviços médicos.

 

Vendi o apartamento que tinha no Rio; minha filha mantém um em São Paulo.

 

Muitos não têm coragem de jogar fora um velho jornal.

 

Alguns preferem dobrá-lo e deixá-lo sobre o banco da praça — esse espaço unanimemente presente nas cidades brasileiras, nascidas ao redor delas, respiradores sociais do lazer popular.

 

O jornal esquecido na praça, porém, guarda segredos: notícias que o leitor ocasional desconhece, o perfume do papel que nos transporta ao passado e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.

 

Ali, como donos do nosso passado, ressuscitamos vivências.

 

Sou um admirador privilegiado das praças Alencastro e da República, onde passei boa parte da minha juventude.

 

Vi muitos jornais dobrados em seus bancos.

 

Poucos se aventuraram a abri-los.

 

Hoje moro próximo à praça Popular, com suas árvores frondosas e bancos.

 

Quase sempre encontro, esquecido por alguém, um jornal dobrado à espera de um novo olhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-09-2025


Jardim Alencastro

Praça da República 


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O GUARDA-CHUVA NUNCA VOLTOU


Não faço a mínima ideia de quantos guarda-chuvas emprestei e nunca retornaram.

 

São objetos de pouco valor comercial, mas o seu desaparecimento desperta reflexões sobre confiança, perdas e pequenos desapegos.

 

Como é difícil compreender, em profundidade, o que significa ter confiança.

 

Vale, então, o velho ditado popular: confiar, desconfiando.

 

Confiar de olhos fechados em alguém sempre envolve riscos.

 

Não é à toa que até no organograma do serviço público existem os cargos de confiança — funções ocupadas sem concurso, quase sempre melhor remuneradas.

 

É preciso coragem para emprestar um guarda-chuva e esperar sua devolução nesses meios, salvo honrosas exceções.

 

Em certas secretarias de Estado, a maioria dos cargos de confiança não é de fato, da confiança do secretário; e há secretários que, por sua vez, não gozam da confiança do próprio governador.

 

Todos sabem disso.

 

Assim começa a erosão do valor da confiança.

 

Sempre observei com cautela os ocupantes desses cargos, pois quase sempre são fruto de indicações políticas e devem lealdade a quem os nomeou.

 

Mas houve uma exceção marcante: na implantação da Universidade Federal, todos os colaboradores eram, sim, da confiança da Reitoria — apesar de alguns pecados veniais.

 

Ali, eu poderia emprestar um guarda-chuva certo de que ele voltaria.

 

Perdas, materiais ou imateriais, fazem parte da vida.

 

Nem sempre, porém, são aceitas com naturalidade.

 

Apesar da idade, confesso que ainda não aprendi a lidar bem com elas.

 

Já sofri muitas, nos dois planos: o material e o imaterial.

 

Deixei de me lançar em tantas aventuras, por medo da desventura de uma perda — e, assim, acabei, por vezes, caindo no poço da mediocridade.

 

Em contrapartida, quando enfrentei de frente certas perdas, fui surpreendido pela boa avaliação dos meus pares, que acabaram definindo rumos do meu destino.

 

Nunca me seduziram os pequenos desapegos.

 

Não perco o sono pensando no guarda-chuva que emprestei e nunca mais voltou.

 

A vida modesta que levo é diferente da de muitos contemporâneos, desde cedo envolvidos em apegos materiais.

 

No fim, a história do guarda-chuva que não voltou acaba servindo como metáfora para refletirmos sobre valores essenciais do nosso cotidiano — valores que, muitas vezes, deixamos de lembrar e de cultivar.

 

Gabriel Novis Neves

26-09-2025




A POLTRONA VAZIA


Nas varandas dos antigos casarões cuiabanos — não sei se por acaso ou por tradição — sempre havia uma poltrona vazia em um dos cantos.

 

Esse objeto simples guardava um profundo simbolismo: era sinal de ausência, mas também de esperança.

 

Representava o espaço reservado às memórias, à espera silenciosa de quem já partiu ou, quem sabe, de quem ainda pode chegar.

 

Na sala de visitas do meu apartamento, conservo uma dessas poltronas antigas, herança de família.

 

Ela repousa próxima ao oratório, iluminada por um janelão.

 

Apesar de confortável, quase nunca é usada.

 

Os bisnetos preferem a cadeira de balanço, onde encontram o embalo dos meus braços.

 

Entretanto, minha mulher sempre escolhia aquela poltrona.

 

Ali se jogava para descansar, para ouvir histórias ou para confidenciar segredos.

 

Ninguém mais da família adotou o mesmo hábito, e desde então ela permanece vazia, mesmo nos dias festivos em que a casa se enche de vozes e risos.

 

Talvez essa poltrona continue esperando por ela.

 

Para mim, não está desocupada: conserva sua presença invisível, sua memória viva.

 

Quase vinte anos já se passaram desde a sua partida, e ainda assim acredito que um dia ela pode voltar para se refestelar novamente e ouvir as novidades que guardo para lhe contar.

 

Como é bom sonhar, inventar cenários que poderiam ser verdadeiros!

 

Afinal, viver não é apenas acrescentar dias ao calendário, mas aprender a lidar com essas presenças silenciosas que nos acompanham. Todos nós, ao longo da vida, encontramos uma poltrona vazia em nossa varanda interior. Símbolo de saudade, de passagem e de continuidade, ela atravessa gerações, ensinando que a ausência também pode ser companhia.

 

Assim é a poltrona da minha sala: ocupando um espaço reservado às memórias.

 

Gabriel Novis Neves

25-09-2025