domingo, 22 de março de 2026

VÉSPERAS DAS PROVAS


Na véspera das provas da faculdade de Medicina o silêncio parecia ganhar outro peso.

 

Não era um silêncio comum, mas aquele carregado de expectativa, ansiedade e responsabilidade.

 

Cada estudante se recolhia ao seu quarto como quem entra em um pequeno mundo próprio, cercado de livros abertos, cadernos marcados e pensamentos inquietos.

 

Era o momento em que tudo o que havíamos aprendido precisava se organizar dentro de nós.

 

Eu passava horas relendo páginas, tentando fixar conceitos e alinhar ideias.

 

Às vezes, o cansaço ameaçava vencer, mas a consciência do compromisso falava mais alto.

 

Sabíamos que aquelas provas não eram apenas avaliações — eram etapas decisivas na construção do futuro médico que sonhávamos ser.

 

Na pensão, os veteranos aconselhavam: era preciso varar noites estudando para evitar a temida segunda época.

 

Pior ainda seria a reprovação, que poderia levar ao jubilamento.

 

Entre conselhos e exageros, ensinavam até a recorrer a medicamentos vendidos na farmácia da esquina para afastar o sono.

 

Muitos colegas se deixaram levar por esse caminho.

 

Eu também experimentei essa dependência passageira, da qual só consegui me libertar ao final do curso —uma pequena vitória silenciosa, entre tantas batalhas pessoais.

 

A rotina era exigente.

 

Aulas pela manhã e à tarde, e, com o avanço do curso, os plantões noturnos se somavam à jornada.

 

Restava pouco tempo para estudar.

 

Nem domingos ou feriados eram suficientes.

 

A solução era reduzir o sono, reunir-se em grupos nas antigas repúblicas estudantis e seguir adiante.

 

Uma garrafa térmica de café preto sem açúcar, tornava-se companheira inseparável.

 

No meu grupo, nem namorada havia — era um pacto silencioso de dedicação integral.

 

Sabíamos que estávamos construindo algo maior do que o presente.

 

No meu caso a responsabilidade tinha ainda outro peso.

 

Como primogênito de uma família numerosa, precisava avançar rápido, abrir caminho para os que vinham depois.

 

Esse pensamento me acompanhava em cada noite mal dormida.

 

Tornei-me médico no tempo previsto.

 

Naquele momento, dois de meus irmãos já estudavam no Rio, pois Cuiabá ainda não possuía Universidade Federal.

 

Tudo havia valido a pena.

 

Gabriel Novis Neves

19-03-2026




sábado, 21 de março de 2026

O PRIMEIRO ESTETOSCÓPIO


Entre todos os instrumentos da Medicina, o estetoscópio sempre me pareceu um símbolo especial da profissão.

 

Recordo com nitidez o dia em que tive o meu primeiro.

 

Era simples, mas, para mim, representava algo grandioso.

 

Segurá-lo nas mãos era como receber um pequeno sinal de que o caminho escolhido começava a se tornar real.

 

Naquele instante compreendi que a Medicina deixava de ser apenas teoria dos livros e passava a se aproximar da prática.

 

Entrava na enfermaria da Santa Casa com ele pendurado no pescoço, auscultando pulmões, coração e abdome.

 

Com o tempo, aprendi a reconhecer estertores nas bases pulmonares, sopros cardíacos e o ritmo do peristaltismo intestinal.

 

Ia ao hospital nos momentos de menor movimento — domingos pela manhã, por exemplo.

 

Levava um pequeno presente ao paciente, geralmente um pacote de biscoitos e permanecia ali por horas, repetindo com paciência: inspire profundamente, prenda a respiração, e expire.

 

Medicina se aprende assim: na prática, pela repetição.

 

O estetoscópio foi inventado por um médico francês no século dezenove, evitando o constrangimento do médico ter que colocar o ouvido diretamente no corpo do paciente.

 

Na minha infância muitos médicos ainda utilizavam uma pequena toalha branca de linho para esse fim — fina, discreta, sempre presente em suas maletas.

 

Comprei meu primeiro estetoscópio, um BIC, no segundo ano do curso.

 

Tivemos excelentes professores e assistentes, que nos orientavam à beira do leito dos internados.

 

O catedrático de cardiologia, Edgard Magalhães Gomes, ainda usava sua toalhinha.

 

E os pacientes — então chamados de indigentes — colaboravam com generosidade.

 

Raramente recusavam um estudante; ofereciam seus corpos ao aprendizado, com uma dignidade silenciosa.

 

Hoje, poucos médicos dependem do estetoscópio.

 

Em seu lugar, há laptops, exames laboratoriais e imagens.

 

A Medicina, muitas vezes, se exerce à distância.

 

Mas aprende-se Medicina junto ao enfermo: ouvindo, tocando, examinando.

 

A tecnologia aperfeiçoa — a presença do médico, porém, continua insubstituível.

 

Gabriel Novis Neves

20-03-2026




sexta-feira, 20 de março de 2026

COLEGAS DO INTERIOR


Na turma de Medicina havia estudantes vindos de várias partes do Brasil.

 

Alguns eram cariocas, acostumados ao ritmo da cidade grande.

 

Outros, como eu, vinham do interior e ainda carregavam o jeito mais tranquilo de nossas cidades de origem.

 

Lembro de um colega que também havia deixado sua terra distante para estudar no Rio.

 

Entre conversas sobre a saudade da família e as dificuldades dos estudos, nasceu uma amizade baseada naquele sentimento comum: estávamos longe de casa, tentando construir o futuro.

 

Depois de formados, a maioria dos colegas do interior voltou à sua cidade natal.

 

Alguns permaneceram no Rio de Janeiro para exercer a profissão.

 

No meu caso, meu pai foi o principal responsável pelo retorno.

 

Dizia ele: ‘A fila aqui anda mais rápido’, numa metáfora com a clínica que eu ainda teria que construir.

 

Na cidade grande, a concorrência seria maior; numa cidade menor, as oportunidades surgiriam com mais facilidade.

 

Estava coberto de razão.

 

Ao chegar, fui convidado para ser plantonista na antiga Maternidade de Cuiabá.

 

Também substitui o plantonista do SAMDU e fui muito prestigiado pelos colegas mais antigos.

 

Em um ano e meio, já era diretor de um hospital estadual.

 

Dois anos depois, assumia a Secretaria de Educação do Estado.

 

Antes de completar sete anos em Cuiabá, fui escolhido e depois eleito Reitor Fundador da recém-criada Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Durante onze anos, ao lado de um grupo de jovens professores, implantamos os câmpus de Cuiabá, Rondonópolis, Pontal do Araguaia e Barra do Garças.

 

Exerci ainda o cargo de secretário de Estado, em três governos diferentes, entre 1968 e 2003.

 

Implantei a primeira faculdade de Medicina em universidade particular, sem jamais fechar o consultório, e segui como professor da UFMT até a aposentadoria.

 

Hoje, aos noventa anos, escrevo crônicas diárias e acompanho, com alegria, o crescimento dos meus bisnetos.

 

Voltar foi mais do que uma escolha — foi o caminho que deu sentido a tudo.

 

Gabriel Novis Neves

18-03-2026




quinta-feira, 19 de março de 2026

RESTAURANTE UNIVERSITÁRIO


Nos tempos de estudante o restaurante universitário era parte essencial da rotina.

 

Ali se encontravam alunos de diferentes cursos, todos unidos pela mesma necessidade prática: comer bem e gastar pouco.

 

As filas eram longas, mas também eram momentos de conversa, amizade e troca de ideias.

 

Muitos debates importantes começaram em mesas simples, diante de bandejas metálicas.

 

Hoje percebo que aquele restaurante não alimentava apenas o corpo dos estudantes — alimentava também uma convivência universitária rica e inesquecível.

 

Durante os seis anos em que frequentei o restaurante da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha, o preço da alimentação permaneceu sempre o mesmo.

 

Também o preço do bonde parecia seguir o mesmo exemplo.

 

Naquela época existiam apenas vinte e nove escolas médicas no Brasil, concentradas nas capitais litorâneas e nas grandes cidades, quase todas públicas.

 

No Rio de Janeiro haviam três; em Niterói apenas uma.

 

Alunos do interior de todo o país vinham para o Rio atraídos pela excelência do ensino gratuito, pelo restaurante universitário e pela Casa do Estudante.

 

Os bairros do Catete e da Glória tinham inúmeras pensões para estudantes, com preços acessíveis.

 

Eu morava em um quarto de pensão no Catete e me alimentava no restaurante universitário da Faculdade de Medicina, na Praia Vermelha.

 

Era muito frequentado, e as filas se alongavam especialmente no início das refeições.

 

A comida era servida em grandes bandejões.

 

Ali vivi um dos maiores centros de convivência da minha juventude.

 

Aprendi muito com colegas vindos de todos os estados brasileiros.

 

Anos depois, ao retornar à minha cidade natal, tive a oportunidade — como Secretário Estadual de Educação — de criar o Restaurante Maria Aparecida Pedrossian, o REMAP, destinado a atender alunos do interior do Estado.

 

Mais tarde, como primeiro reitor da UFMT, criei o restaurante universitário no câmpus de Cuiabá.

 

A cena que eu vivera no Rio de Janeiro repetia-se agora em meu torrão natal.

 

Assistia às refeições no nosso RU com a alegria silenciosa de quem reconhece uma lição aprendida na juventude.

 

Porque, no fundo, aqueles bandejões da Praia Vermelha também ajudaram a construir o futuro.

 

Gabriel Novis Neves

09-03-2026




quarta-feira, 18 de março de 2026

O ÔNIBUS PASSOU VAZIO


Observei um ônibus passar quase vazio numa manhã de semana.

 

Lembrei-me de quando viajar sentado era privilégio raro.

 

O tempo muda fluxos, as rotinas e as prioridades.

 

O veículo seguiu em seu trajeto habitual, mas a cena trouxe a sensação de que as cidades também envelhecem conosco.

 

O ônibus fez parte da minha infância, num tempo em que não tinha janelas, mas bancos de madeira e duas grandes aberturas laterais.

 

Meu pai, quase todas as semanas, ia de ônibus ao Porto para saber, na Agência Migueis, notícias sobre a chegada dos pequenos navios que vinham de Corumbá trazendo sacos de cerveja de São Paulo.

 

Naquela época, o transporte de pessoas e cargas para o Rio de Janeiro e outras partes do Brasil era feito pelo rio Cuiabá até Corumbá, continuando pelo rio Paraguai, em navios maiores até a bacia do Prata.

 

Para que eu pudesse passear meu pai me levava até o Porto.

 

A parada do ônibus ficava em frente ao Palácio da Instrução.

 

Não havia cobrador, e a buzina ficava ao lado esquerdo do motorista.

 

Durante o percurso havia placas pregadas nos postes de iluminação indicando os locais de embarque e desembarque.

 

O ônibus descia pela rua em frente aos Correios, entrava na Treze de Junho, dobrava à esquerda e logo alcançava a bela avenida Quinze de Novembro.

 

Era duplicada, com canteiro central e muito arborizada.

 

Na época da seca, a navegação até Cuiabá ficava impedida na região de Santo Antônio de Leverger, chamada de Aricá.

 

O baixo nível das águas formava bancos de areia e pedras.

 

A Agência Migueis então era obrigada a contratar caminhões para trazer os sacos de cerveja até o bar do meu pai.

 

Durante o período da seca, quase todas as semanas meu pai ia ao Porto para saber notícias de suas mercadorias — e me levava junto para conhecer a beleza daquele lugar.

 

Cuiabá envelheceu.

 

O transporte pesado passou a ser feito por caminhões, e a cidade continua esperando a chegada do trem, cujos trilhos pararam em Rondonópolis.

 

Hoje alguns pontos de ônibus têm até ar-condicionado.

 

Mesmo assim, quase nunca estão vazios e atendem mal a população da periferia.

 

Os trajetos mudaram.

 

Meus netos e bisnetos nunca passearam de ônibus.

 

A Agência Migueis também já pertence à memória da cidade.

 

E aquele ônibus quase vazio que vi passar me lembrou que, às vezes, uma cidade inteira cabe dentro de uma simples lembrança.

 

Gabriel Novis Neves

15-03-2026




terça-feira, 17 de março de 2026

A BIBLIOTECA SILENCIOSA


A biblioteca da Faculdade de Medicina era um verdadeiro refúgio de concentração.

 

Entre estantes altas e mesas silenciosas, os estudantes mergulhavam em livros que pareciam guardar os segredos do corpo humano.

 

Passava horas ali consultando atlas de anatomia e textos médicos complexos.

 

O silêncio era tão profundo que o simples virar de uma página parecia um acontecimento sonoro.

 

Hoje percebo que aquelas horas de estudo silencioso ajudaram a formar não apenas o médico, mas também o homem paciente diante do conhecimento.

 

A biblioteca da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha ocupava toda a parte superior do belo prédio que, anos depois, seria vendido e demolido.

 

A faculdade havia se transferido para a Cidade Universitária da Ilha do Fundão.

 

Tentei várias vezes estudar naquela biblioteca, que reunia mais de cem mil livros e revistas especializadas.

 

Foi ali que floresceu parte da moderna medicina brasileira, fortemente influenciada pelo humanismo da escola francesa.

 

Mas a verdade é que nunca consegui estudar em bibliotecas.

 

Aprendi a estudar lendo em voz alta, método que facilita decorar um texto —embora nem sempre ajude a compreendê-lo.

 

E aquilo que apenas se decora costuma desaparecer da memória com a mesma rapidez.

 

Tive colegas que liam em voz alta e, numa única tarde conseguiam memorizar páginas inteiras das apostilas do cursinho do vestibular.

 

Até a matemática do segundo grau era, muitas vezes, decorada.

 

Grandes cientistas brasileiros, como Carlos Chagas Filho — que chegou a ser consultor médico do Papa — estudaram naquela biblioteca que jamais deveria ter sido demolida.

 

Perdemos ali um dos marcos da ciência médica em nosso país, vítima da miopia das decisões governamentais.

 

Quantas vezes tentei me concentrar naquele silêncio absoluto!

 

Era difícil para quem vinha de uma geração acostumada mais a decorar do que a compreender — hábito facilmente observado nas pensões de estudantes cuiabanos no bairro do Catete.

 

Curiosamente, um dos projetos arquitetônicos mais belos do nosso câmpus da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, é justamente o da biblioteca.

 

Talvez porque a beleza também ensine.

 

E porque os livros, silenciosamente, continuam humanizando o homem.

 

Gabriel Novis Neves

10-03-2026




segunda-feira, 16 de março de 2026

A AULA QUE NINGUÉM ESQUECEU


Algumas aulas passam rapidamente pela memória dos estudantes.

 

Outras permanecem vivas por toda a vida.

 

Durante meus anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, assisti a muitas aulas importantes, mas algumas ficaram gravadas de maneira especial.

 

Não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como o professor conduzia a explicação.

 

Havia momentos em que a sala inteira parecia compreender, de repente, a grandeza da profissão médica e a responsabilidade que ela exige.

 

Eu estava no quarto ano de Medicina quando as aulas teóricas e práticas de Clínica Médica eram ministradas na Santa Casa de Misericórdia.

 

O professor era o médico, escritor, poeta e grande memorialista da literatura brasileira: Pedro Nava.

 

Foi ele também quem introduziu a disciplina de Reumatologia no currículo das faculdades de Medicina.

 

Certa ocasião, durante uma aula teórica, apresentou um caso clínico e perguntou aos alunos qual seria a hipótese diagnóstica.

 

Silêncio geral.

 

Então passou a apontar para alguns estudantes, pedindo opiniões.

 

O primeiro colega respondeu que o caso era muito difícil.

 

Outro confessou que não tinha a menor ideia do diagnóstico.

 

Com paciência, o professor continuou perguntando.

 

Nada.

 

Tentou ajudar lembrando que todos nós já trabalhávamos em hospitais, sobretudo em serviços de urgência e emergência.

 

Disse que, com certeza, já havíamos visto aquele quadro e até participado do seu tratamento.

 

Mesmo assim, ninguém se arriscava.

 

Incansável, dirigiu a pergunta a um aluno sentado nos fundos do anfiteatro.

 

O colega respondeu com sinceridade: —Professor, só um médico muito experiente poderia responder.

 

Pedro Nava então mudou a pergunta:

 

— E o que você entende por médico experiente?

 

O estudante respondeu:

 

— Alguém como o senhor, que estuda e leciona essa disciplina há mais de trinta anos.

 

Nava sorriu e disse:

 

— Errado.

 

Pessoa experiente é como farol virado para trás: só ilumina o caminho que já passou.

 

 A sala inteira silenciou.

 

O poeta queria dizer que a vida é uma escola permanente, onde sempre estamos aprendendo.

 

O caso apresentado naquela aula era um acidente vascular cerebral — o temível AVC — cujo diagnóstico hoje até leigos conseguem reconhecer.

 

Desde então aprendi uma lição simples.

 

Mesmo aos noventa anos, não me considero experiente.

 

Prefiro continuar sendo apenas um aluno da vida.

 

Gabriel Novis Neves

15-03-2026