Havia dias em que a rotina da faculdade se estendia até muito tarde.
Entre aulas, estudos e leituras, o tempo passava depressa.
Quando eu voltava para a pensão, a noite já havia tomado conta da cidade.
O cansaço vinha, mas também a sensação de ter avançado um pouco mais na longa caminhada da formação médica.
Antes de dormir, ainda pensava nas tarefas do dia seguinte.
A vida de estudante era exigente, mas cheia de esperança.
Quando começamos a operar urgências e emergências no Pronto-Socorro, com bons resultados, voltávamos para a pensão aliviados e mais seguros do caminho percorrido.
Na Maternidade Pro Matre, o aprendizado seguia em ritmo promissor.
O diretor clínico chegou a me convidar para continuar como médico residente, assumindo os plantões de segunda-feira na ausência do titular.
Era a esperança começando a ganhar forma.
Mas eu queria me preparar melhor para exercer a profissão no interior.
Por isso, fui ser médico plantonista no Hospital e Maternidade Álvaro Dias, em Jacarepaguá, então ainda com ares de zona rural do Rio de Janeiro.
Ali vivi um episódio que nunca esqueci.
Durante um plantão de vinte e quatro horas, acompanhei uma senhora internada há dias em coma diabético.
Ao lado dela, o marido permanecia sentado, silencioso, atento a tudo.
Quando fui passar o caso ao colega que me renderia, encontrei a paciente consciente, recuperada e agradecida.
O marido, satisfeito, entregou-me seu cartão e pediu que eu lhe telefonasse qualquer dia, menos às segundas-feiras, sua folga.
Demorei a ligar.
Quando o fiz, disse apenas que queria saber notícias de sua esposa.
Ele, muito cordial, respondeu que ela estava bem e então se identificou: era o responsável pela boate do Hotel Copacabana Palace.
Convidou-me para jantar, levando minha namorada e um casal de amigos, e assistir ao show em homenagem a Lamartine Babo, produção de Carlos Machado.
Fomos.
Jantamos e assistimos ao espetáculo perto da mesa do chamado Rei da Noite.
Voltei outras vezes, sempre recebido com distinção.
Talvez por encantos assim, fui adiando por quase quatro anos meu retorno a Cuiabá.
Voltei casado com Regina, já com trinta e cinco semanas de gravidez.
Nossa filha nasceu de parto normal na antiga Maternidade de Cuiabá.
Apesar da dor da doença traiçoeira que, tantos anos depois, a levou de mim, tudo valeu a pena.
Valeu o esforço.
Valeu a vida.
Gabriel Novis Neves
04-04-2026