Poucos sons são tão acolhedores quanto o da chuva caindo sobre um telhado de telhas de barro!
As conversas diminuíam, o cheiro da terra molhada invadia a casa e todos acompanhavam, sem pressa, a força da água.
A chuva transformava o ambiente num refúgio de paz, onde bastava observar o tempo passar para perceber que a vida também sabia descansar.
Até hoje considero um dos mais belos espetáculos da natureza ouvir a chuva tamborilar sobres as telhas antigas, enquanto o perfume da terra molhada invade a casa.
Nesses momentos, o silêncio parece indispensável.
Ele permite que a alma acompanhe o cair da água, os pingos escorrendo pelos beirais e o suave murmúrio das enxurradas seguindo seu caminho.
Era bonito ver as águas deslizarem pelas ruas ainda sem pavimentação.
A terra absorvia parte da chuva, as poças refletiam o céu e tudo parecia respirar aliviado depois do calor.
Certa vez perguntaram-me se o asfalto seria o responsável pelo aumento da temperatura em Cuiabá.
Respondi que acreditava ser muito maior o efeito do desaparecimento das árvores.
A Cuiabá da minha infância fazia jus ao apelido de Cidade Verde.
Suas ruas eram generosamente arborizadas, e os quintais, repletos de mangueiras, cajueiros e
outras árvores frondosas, impediam a entrada do sol, distribuindo sombras pelas calçadas e refrescando o ambiente.
Naquele tempo, as três cidades mais importantes de Mato Grosso eram conhecidas por seus apelidos: Cuiabá era a Cidade Verde, pela exuberante arborização; Corumbá, a Cidade Branca, pela riqueza de seus calcários; e Campo Grande, a Cidade Morena, pela poeira avermelhada que cobria suas ruas.
Os apelidos desapareceram com o passar dos anos.
Perderam-se também os nomes carinhosos dados às pessoas, às ruas, aos becos e às ladeiras.
Na casa de meu pai, eram dez irmãos, e todos possuíam um ou mais apelidos.
Alguns tinhas dois e até três apelidos.
Faziam parte da intimidade da família e da identidade de cada um.
Assim também era a cidade.
Talvez por isso, quando ouço a chuva bater num velho telhado de barro, tenho a impressão de que ela desperta lembranças que o tempo nunca conseguiu levar.
Gabriel Novis Neves
01-07-2026