Transmitia notícias, partidas de futebol e serenatas, embalando a vizinhança nas tardes de domingo.
Descobri o radinho de pilha no Rio de Janeiro, quando estudante de Medicina.
Era meu fiel companheiro nas tardes de domingo, para acompanhar os jogos de futebol no Maracanã.
Via o jogo, identificava os jogadores e os detalhes dos gols pelos locutores esportivos que ficavam atrás das traves do campo.
O narrador da partida permanecia em cabine especial, com visão privilegiada do gramado e o auxílio do comentarista esportivo.
Para fugir da aglomeração dos torcedores, eu costumava sentar no último degrau da arquibancada.
A visão não era das melhores — ainda mais porque os torcedores ficavam de pé na maior parte do jogo.
O que me salvava era o radinho de pilha colado ao ouvido.
Mesmo hoje, na Arena Pantanal, no camarote mais próximo ao campo, o radinho de pilha continua indispensável.
Quem o popularizou foi o Presidente Médici, que assistia aos jogos no Maracanã sempre com o radinho colado no ouvido, para alegria dos fotógrafos — numa época em que quase tudo era proibido.
Nos plantões de 24 horas na Maternidade de Cuiabá, aos sábados, eu carregava o meu no bolsinho do jaleco para ouvir música.
Ele me acompanhava no Centro Obstétrico e Cirúrgico.
Quantas crianças chegaram ao mundo ouvindo melodias suaves!
O radinho ajudava o dia passar mais rápido e leve.
Quando fui para a Femina, não o abandonei.
Com o passar dos anos, ele foi incorporado à rotina do meu trabalho.
Viajando pelo interior do Estado, nada mais encantador do que o serviço de alto-falantes tocando ao entardecer.
Até hoje guardo a lembrança da melodia de Fuscão Preto ecoando nos alto-falantes de Alto Araguaia, sob o pôr do sol.
Sinto uma nostalgia gostosa, que dói.
Quantos fuscões pretos ouvi nas cidadezinhas do leste de Mato Grosso, lá por 1980!
A música para mim funciona como o colírio da alma.
Guardo na gaveta da minha cabeceira, o meu último radinho de pilha.
De vez em quando o ligo, só para matar as saudades e ouvir: — ‘A saudade mata a gente’!
Gabriel Novis Neves
22-10-2025