quinta-feira, 28 de maio de 2026

EMPRÉSTIMOS AMIGOS


Nas ruas antigas, algumas ferramentas pareciam pertencer ao bairro inteiro.

 

Escadas, martelos, alicates e até formas de bolo circulavam entre vizinhos sem burocracia. Bastava bater palma no portão e pedir emprestado.

 

Havia uma confiança natural entre as pessoas.

 

Nem sempre o objeto voltava rapidamente, mas acabava voltando.

 

Hoje quase tudo ficou individualizado.

 

As casas ganharam muros mais altos e os empréstimos diminuíram.

 

Talvez porque a convivência também tenha ficado mais distante.

 

Fui criado nesse ambiente, na primeira metade do século passado.

 

A confiança era a moeda daquele tempo, quando quase tudo parecia pertencer à coletividade.

 

Cansei de presenciar vizinhos pedindo à minha mãe o açúcar que faltava para o bolo ou a escada para trocar uma lâmpada queimada.

 

Havia a certeza que aquilo que saia emprestado voltaria.

 

Hoje as portas permanecem fechadas, os muros são altos e os vizinhos mal se conhecem.

 

Moro em um edifício de vinte andares, num dos bairros mais valorizados de Cuiabá.

 

A maioria dos moradores é proprietária e amiga entre si, lembrando os antigos bairros da cidade.

 

Por aqui ainda circula a moeda da confiança, e continua sendo comum emprestar alguma coisa.

 

Quando a funcionária me consulta sobre o empréstimo de um ingrediente para o almoço, imediatamente me vêm as lembranças dos tempos antigos.

 

Sei que aquilo voltará e, mais do que isso, sinto-me útil.

 

Recordar o passado faz bem nestes tempos de consumismo desenfreado.

 

Vivíamos em comunidades onde todos se consideravam irmãos, quando não compadres e comadres.

 

Andar pelas calçadas era sempre devagar entre conversas nas portas das casas.

 

Frequentemente surgia um convite, quase sempre aceito, para entrar e tomar um cafezinho ou um refresco que aliviasse o calor cuiabano.

 

À noite, as calçadas eram ocupadas por cadeiras de balanço.

 

Quem tivesse pressa precisava caminhar rápido, de cabeça baixa, pelo meio da rua.

 

Do contrário, acabaria parado nas portas das casas, verdadeiras salas de visitas.

 

Como era bonito recordar a rua do Campo, com as famílias reunidas nas portas, sentadas em cadeiras de balanço!

 

Conheci o Marechal Cândido Mariano sentado numa dessas cadeiras, na porta da casa do seo Álvaro Duarte.

 

Até então eu o conhecia apenas pelos livros escolares e pelo nome de rua em Cuiabá.

 

Meu avô Alberto também me contava histórias sobre ele, um pouco diferentes das dos livros.

 

No fundo, eram tempos em que a confiança passava de mão em mão, como uma velha escada de vizinho.

 

Gabriel Novi Neves

23-05-2026






CORTE DE CABELO


Cortar o cabelo das crianças antigamente era quase uma cerimônia.

 

Algumas iam chorando para a barbearia, enquanto outras aceitavam resignadas o pente e a tesoura.

 

Muitas mães guardavam uma pequena mecha do primeiro corte, como lembrança da infância.

 

Havia também os cortes “de verão”, bem curtos por causa do calor cuiabano.

 

Depois do corte vinham o banho, o talco e a roupa limpa.

 

Pequenos acontecimentos domésticos tinham enorme importância numa época em que a vida corria mais devagar.

 

Comecei a frequentar as barbearias aos sete anos de idade.

 

Até então, minha mãe aparava meus cachos com paciência e cuidado.

 

Mais tarde, meu pai passou a ser o encarregado de me levar aos barbeiros da cidade.

 

Naquele tempo as carteiras das escolas públicas eram coletivas, facilitando a proliferação de piolhos e lêndeas.

 

Muitas crianças tinham pouca higiene com os cabelos: não os lavavam direito, usavam pentes emprestados e trocavam bonés entre colegas.

 

Por isso, era comum os pais pedirem ao barbeiro que raspasse a cabeça dos meninos com máquina número zero ou deixasse apenas uma pequena ‘pastinha’.

 

Difícil mesmo era livrar as meninas dos piolhos.

 

As mães passavam horas numa verdadeira caça aos bichinhos, penteando longos cabelos com pente-fino e esmagando lêndeas entre as unhas.

 

Algumas aplicavam remédios fortes e depois enrolavam a cabeça das filhas com lenços ou fraldas.

 

Meu pai me levava ao barbeiro da rua do Meio e pedia que raspasse bem a cabeça, para o cabelo demorar mais a crescer.

 

Na adolescência, peregrinei pelos barbeiros mais conhecidos de Cuiabá.

 

Fui cliente do João Galinha, ao lado do Palácio Alencastro, Joãozinho e seu irmão Pedroso, na rua do Meio, e do Gentil Esteves, dono do corte mais rápido da cidade.

 

Passei onze anos estudando Medicina no Rio de Janeiro.

 

Quando voltei, encontrei outro ambiente e descobri que os barbeiros mais admirados eram os portugueses e espanhóis.

 

Hoje, ao ver crianças nos modernos salões de beleza, lembro daqueles antigos barbeiros, onde o corte de cabelo era simples, rápido e fazia parte da educação da infância.

 

No fundo, cada corte levava embora um pouco da meninice e deixava chegando, devagarinho, a vida adulta.

 

Gabriel Novis Neves

22-05-2026




terça-feira, 26 de maio de 2026

ROUPAS NOVAS


Ganhar roupa nova antigamente era um acontecimento importante.

 

Muitas crianças recebiam peças apenas em aniversários, Natais ou festas especiais.

 

Havia recomendações rigorosas para não rasgar, não manchar e não brincar demais.

 

A roupa nova carregava certo orgulho familiar.

 

Algumas crianças até dormiam pensando no dia seguinte, ansiosas para estrear o presente.

 

Hoje o consumo tornou tudo mais rápido e abundante.

 

Talvez por isso certas roupas tenham perdido o valor afetivo que antes possuíam.

 

Quando criança gostava de ganhar roupas novas, mas muito mais brinquedos.

 

A criança nasce sem roupa e logo começa a brincar com o mamilo da mãe e as chupetas.

 

Com o passar do tempo, os brinquedos ficam mais sofisticados.

 

O interesse pela roupa nova surge mais tarde, já na fase escolar, quando começa a usar o uniforme do jardim da infância ou do pré-escolar.

 

Nessa fase aparecem também as recomendações de cuidado, principalmente quando as roupas eram presentes de aniversários, datas especiais ou Natais.

 

Meu bisneto completou cinco anos e ganhou mais brinquedos do que roupas.

 

Nessa idade já aparece certa vaidade: prefere camisetas sem gola.

 

As roupas que ganhávamos antigamente eram feitas por costureiras, abundantes na cidade, quando não pelas próprias mães.

 

Ganhar roupa nova vinha acompanhado de uma série de recomendações:

 

— Só usar na missa de domingo.

 

— Cuidado para não rasgar.

 

— Não vá sujar a roupa brincando.

 

Só tive uma roupa feita por alfaiate em mil novecentos e quarenta e seis: o uniforme branco do colégio dos padres, onde cursei o ginásio.

 

Minha mãe costurou os uniformes do Grupo Escolar e do Colégio Estadual.

 

O alfaiate era o seo Pedroso, que tinha seu ateliê na rua Candido Mariano, quase esquina com a rua do Meio, nos fundos da Casa Rosa, na rua de Baixo.

 

Costumava tomar cerveja, de pé, na área de serviço do bar do meu pai, até seu fechamento, em mil novecentos e setenta.

 

Papai trabalhava sempre de terno e gravata. Naquele tempo ainda não existiam ternos prontos em Cuiabá.

 

Hoje a profissão de alfaiate quase desapareceu com a industrialização das roupas.

 

O terno já vem pronto, aguardando apenas pequenos ajustes.

 

Comprei meu primeiro terno na loja Ducal, no Rio de Janeiro, que também desapareceu com o tempo.

 

Hoje encontro ternos com facilidade, prontos para vestir.

 

Mas nenhum deles traz o mesmo orgulho silencioso das roupas da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

21-05-2026




segunda-feira, 25 de maio de 2026

PÃES QUENTES


Durante muitos anos uma cena comum das manhãs brasileiras era alguém voltando da padaria com a sacola de pão balançando na mão.

 

O cheiro do pão quente escapava pelo papel fino.

 

Em algumas casas, o café só começava quando o pão chegava.

 

Havia algo de ritual naquela pequena caminhada diária.

 

Hoje aplicativos entregam tudo rapidamente.

 

Mas talvez nenhuma entrega moderna consiga substituir completamente o prazer simples de voltar da rua trazendo pão fresco para casa.

 

Nasci e fui criado na vizinhança da Padaria Latorraca na rua de Baixo.

 

Da minha casa sentia o aroma do pão saindo do forno.

 

De calças curtas e dinheiro contado na mão, cedo fui encarregado pelo meu pai para trazer o pão quentinho para o café.

 

Essa tarefa à tarde era feita por ele, que nunca teve o hábito de jantar.

 

Ele saía do bar trazendo queijo, salaminho, presunto e salsichas.

 

Um copo grande com nata de leite e açúcar completavam a sua refeição.

 

Todos os dias pela manhã, a charrete da chácara do ‘seo’ Mario Esteves, deixava em minha casa, vinte litros de leite, que eram fervidos.

 

Uma porção ficava em casa e o restante era levado para a sorveteria do bar.

 

Quem cuidava da sorveteria era meu tio Ioiô.

 

Eu já crescido comprava baunilha do quintal da casa do ‘seo’ João Gomes, no Baú.

 

Papai comprava frutas frescas da terra, nas carrocinhas na porta do bar.

 

Uma das lembranças da minha infância, foi a chegada da nova e moderna máquina de sorvete.

 

Tinha sete anos de idade e fiquei encantado com o seu desembarque.

 

Era enorme e fabricava picolés e sorvetes deliciosos.

 

Estudantes das escolas próximas, do Jardim e cinema eram seus maiores frequentadores.

 

Os longevos até hoje lembram da sorveteria e, de quantos namoros iniciaram ali com final feliz.

 

Gabriel Novis Neves

19-05-2026




domingo, 24 de maio de 2026

DESCANSO QUE TAMBÉM CANSA


Curiosamente há descansos que também cansam.

 

Feriados com viagens longas, filas, malas, trânsito, aeroportos, compromissos familiares e excesso de programação podem deixar a pessoa mais exausta do que antes.

 

O verdadeiro descanso talvez seja mais simples. Às vezes, ele está em ficar quieto, ouvir uma música antiga, olhar uma planta, conversar pouco ou apenas permitir que o corpo permaneça em paz.

 

Ultimamente, para descansar, prefiro ficar em casa, escrevendo, assistindo ao futebol ou simplesmente deixando o corpo repousar na cama, fingindo dormir.

 

Nunca fui homem de sair para descansar. Sempre gostei da tranquilidade da casa, mesmo nos dias sem visitas.

 

Com a idade avançada, meu lazer predileto passou a ser o repouso silencioso do dormitório.

 

Minha verdadeira sala de visitas é o quarto.

 

Recebo os amigos deitado na cama, enquanto eles se acomodam nas cadeiras de balanço ou, quando são familiares mais íntimos, sentam-se ao meu lado para longas conversas sem pressa.

 

Esse é o descanso que mais me agrada.

 

Arrumar e desarrumar malas, enfrentar aeroportos e esperas já não me seduz.

 

Hoje, sinto que o melhor das viagens continua sendo a volta para casa.

 

As gerações modernas gostam de viver na rua. Tudo parece motivo para sair, viajar ou circular pela cidade.

 

Moram em condomínios distantes e, para chegar ao centro, enfrentam deslocamentos demorados.

 

Nasci e sempre vivi no centro de Cuiabá, onde tudo ficava perto: hospitais, consultórios, farmácias, padarias, igrejas, restaurantes.

 

Antes das artroses nos joelhos, eu fazia quase tudo a pé.

 

Meu pai nunca teve automóvel.

 

Meu avô se deslocava a cavalo até o Porto ou ao Coxipó.

 

Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que a proximidade também é uma forma de descanso.

 

Na velhice fui descobrindo que descansar não é fugir do mundo.

 

É encontrar paz dentro da própria casa.

 

Gabriel Novis Neves

11-05-2026




sábado, 23 de maio de 2026

A CIDADE SEM BUZINAS


Uma cidade sem buzinas parece outra cidade.

 

O mesmo asfalto, as mesmas esquinas, os mesmos prédios, mas com uma alma diferente.

 

O silêncio permite ouvir sons esquecidos: uma ave, uma vassoura riscando a calçada, uma conversa baixa, o vento passando pelas árvores.

 

Quem viveu a Cuiabá antiga sabe que a cidade também tinha seus barulhos, mas eram sons humanos, reconhecíveis, quase familiares.

 

As buzinas dos automóveis, que durante a semana tanto incomodam, formam uma espécie de orquestra desordenada da vida moderna.

 

Curiosamente, quando desaparecem, sentimos que falta alguma coisa.

 

Escrevo do escritório no vigésimo andar de um edifício, em uma manhã de domingo e percebo essa ausência.  

 

Estou condicionado ao ruído da cidade.

 

Vou até a janela e tudo parece diferente.

 

As ruas estão quase vazias.

 

Não há vozes, passos apressados, motores impacientes.

 

Até as folhas das árvores parecem imóveis.

 

Não temos em Cuiabá o apito dos trens nem das embarcações dos grandes portos.

 

Os sons que chegam até a mim aos domingos são outros: um portão abrindo devagar, uma conversa distante, o canto de uma ave solitária. É um silêncio que devolve à cidade uma alma antiga.

 

Percebo, então, que o barulho também é vida. 

 

Criança saudável nasce gritando.

 

O silêncio, naquele instante, preocupa. Aniversário faz barulho.

 

Quando tudo silencia, sabemos que a festa terminou.

 

O próprio corpo humano produz seus ruídos: o coração pulsa, os pulmões respiram, o estômago reclama, a vida se anuncia pelos sons.

 

Também a cidade fala através deles.

 

Precisamos aprender a conviver com a linguagem do ruído e do silêncio.

 

Uma cidade completamente silenciosa parece perder parte da própria identidade.

 

Talvez precisemos das buzinas, dos passos, das vozes e dos pequenos ruídos cotidianos para sentirmos que a vida continua circulando entre nós.

 

No fundo, é o equilíbrio entre o silêncio e o barulho que dá alma às cidades — e também às pessoas.

 

Gabriel Novis Neves

18-05-2026




ALMOÇOS SEM HORA PARA ACABAR


Há almoços que terminam depressa, quase por obrigação.

 

E há aqueles que se prolongam naturalmente, porque ninguém deseja deixar a mesa.

 

Nos feriados e fins de semana isso acontecia com mais facilidade.

 

A comida já havia sido servida, os pratos esfriaram devagar, mas a conversa continuava viva.

 

Um assunto puxava outro.

 

Uma lembrança chamava outra.

 

E, sem percebemos, a mesa deixava de ser apenas lugar de comer: transformava-se em abrigo de família.

 

Agora, na velhice, observo melhor os almoços familiares.

 

Sou quase sempre o primeiro a levantar para a soneca estatutária.

 

Do dormitório ainda escuto o barulho bom dos filhos, netos e bisnetos reunidos em volta da mesa.

 

Depois do breve descanso, volto à sala e encontro a mesma cena: a mesa ainda ocupada, as conversas correndo soltas, as risadas misturadas às lembranças.

 

São nesses momentos que percebo como esse antigo hábito de reunir a família aos fins de semana vai desaparecendo aos poucos.

 

As desculpas são muitas.

 

A correria da vida moderna parece engolir os encontros familiares.

 

Antigamente, chegava-se cedo ao almoço.

 

Havia tempo para conversar antes da comida, comer um pastel, beliscar um aperitivo e colocar a conversa em dia.

 

Hoje, muitos chegam apressados, alguns quando a refeição já começou.

 

E o almoço, às vezes, termina tão rápido, que mais parece um lanche de esquina!

 

Nas famílias antigas, especialmente em Cuiabá, os almoços não tinham hora para acabar.

 

Quando o ambiente era alegre, o almoço atravessava a tarde e, não raro, emendava com o jantar.

 

E como era bom permanecer ali, entre conversas, brincadeiras e afetos silenciosos.

 

Talvez a felicidade morasse justamente nisso: numa mesa cheia e sem pressa de terminar.

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2026