sábado, 18 de julho de 2026

VISITAS EM CASA


Nas famílias cuiabanas era comum receber parentes vindos de localidades distantes.

 

A chegada era motivo de festa e movimentava a casa inteira.

 

Preparavam-se refeições especiais, organizavam-se os quartos e surgiam longas conversas.

 

Os visitantes traziam notícias, histórias e produtos da região onde viviam.

 

Durante alguns dias a rotina mudava completamente.

 

Essas visitas fortaleciam os laços familiares e criavam memórias que permanecem guardadas por toda a vida.

 

Quando eu era criança meus tios paternos moravam em Cuiabá e no Rio de Janeiro.

 

Por parte de minha mãe, apenas uma tia residia em Cuiabá.

 

Eu tinha um tio fazendeiro no Pantanal, casado com uma de minhas tias maternas.

 

Sempre que vinha a Cuiabá, hospedava-se em nossa casa, na rua do Campo.

 

Minha mãe transformava a sala de visitas em dormitório para recebê-lo.

 

Seria quase uma desonra deixa-lo ficar em pensão ou hotel.

 

Com que alegria ela o acolhia.

 

Eu o ajudava em pequenos serviços e, em troca, recebia generosas gorjetas.

 

Eram visitas sempre muito aguardadas, e o hóspede jamais chegava de mãos abanando.

 

Trazia queijos, rapaduras, carne seca e muitas histórias da fazenda, que nos enchiam de alegria e curiosidade.

 

Minha mãe inventava pratos especiais, tudo para agradar aquele parente que vinha de longe.

 

Com as estradas pavimentadas encurtando distâncias e a aviação facilitando os deslocamentos, as visitas foram se tornando mais rápidas.

 

Hoje é comum um parente chegar a Cuiabá, resolver seus compromissos e retornar no mesmo dia.

 

Aquelas conversas demoradas e alegres, que fortaleciam os laços familiares, foram ficando cada vez mais raras.

 

O convívio alimentado por cartas, recados e visitas prolongadas deu lugar ao celular e às novas tecnologias.  

 

Talvez elas tenham aproximado as pessoas pela comunicação, mas diminuído a convivência.

 

Sinto saudade daquele tempo em que a chegada de um parente transformava a casa e deixava, por muitos dias, um pouco mais de alegria no coração de todos.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2026




sexta-feira, 17 de julho de 2026

ROUPAS NOVAS


Poucas emoções eram tão esperadas quanto vestir uma roupa nova pela primeira vez. Muitas vezes ela ficava guardada durante dias, reservada para um domingo, uma festa ou uma celebração especial.

 

Quando finalmente chegava o momento de usá-la, surgia um orgulho silencioso estampado no sorriso de quem a vestia.

 

A simplicidade daquele gesto transformava a novidade em uma verdadeira comemoração.

 

O meu primeiro terno só fui comprar quando já era estudante no Rio de Janeiro.

 

Em Cuiabá usava roupas simples e os uniformes escolares.

 

Certa ocasião minha mãe foi convidada para o casamento civil da filha única de uma grande amiga.

 

Como havia uma criança pequena em casa e ela não dispunha de roupa adequada para a cerimônia, pediu que eu a representasse.

 

Meu pai era um homem discreto.

 

Sua vida se resumia ao trabalho e à nossa casa.

 

Coube a mim cumprir a missão.

 

Eu tinha apenas onze anos e respondi que não possuía roupa apropriada para uma festa onde estariam presentes tantas autoridades.

 

Ela sorriu e perguntou:

 

— E o bonito uniforme branco do colégio dos padres, feito por alfaiate e ainda sem uso reservado para o desfile de Sete de Setembro?

 

A solução estava encontrada.

 

Aprontei-me e fui para a casa da noiva, que ficava próxima da nossa.

 

Ao chegar, procurei os pais da noiva para justificar a ausência dos meus pais.

 

Em seguida, ofereceram-me uma cadeira.

 

Ali permaneci durante toda a solenidade, sem conversar com ninguém, vestido com o impecável uniforme branco e segurando o boné no colo.

 

O tempo parecia não passar.

 

Meu maior desejo era voltar para casa, livrar-me daquele traje e dar por cumprida a tarefa que minha mãe me confiara.

 

Esse episódio aconteceu há oitenta anos e permanece vivo na minha memória.

 

Hoje percebo que não era apenas uma roupa nova que eu estreava.

 

Estreava também a responsabilidade, a confiança dos meus pais e o respeito que as crianças tinham pelos adultos.

 

Procurei transmitir esses mesmos valores aos meus filhos.

 

Os tempos mudaram, os costumes também, mas certas lembranças continuam vestidas de uma elegância que o tempo jamais consegue desfazer.

 

Gabriel Novis Neves

11-07-2026




LUZ É ESPERANÇA, PROTEÇÃO E VIDA


Quando uma lâmpada queimava a casa parecia perder um pouco da sua alegria.

 

Logo alguém providenciava outra, subia numa escada e devolvia a claridade ao ambiente.

 

Era uma tarefa simples, mas que transmitia a agradável sensação de que tudo voltava ao seu lugar.

 

A luz sempre representou conforto, segurança e acolhimento dentro de casa.

 

Antes da construção da Usina do Manso, as interrupções no fornecimento de energia eram frequentes em Cuiabá, e pouco podíamos fazer além de esperar o restabelecimento da eletricidade.

 

Já quando, apenas uma lâmpada queimava, o problema era facilmente resolvido.

 

Havia sempre uma de reserva guardada no armário da copa, pronta para devolver a claridade ao lar.

 

Até hoje conservo esse hábito.

 

Nunca deixo de ter uma lâmpada nova para qualquer emergência.

 

Quando criança, dormíamos com uma luz acesa no corredor dos quartos.

 

Se a energia faltasse durante a noite, acordávamos assustados, como se a escuridão tornasse o ar mais pesado.

 

Talvez por isso, até hoje preciso de um pequeno ponto luminoso para dormir tranquilamente.

 

Deixo aceso o discreto visor do aparelho de ar-condicionado, cuja luz suave basta para me transmitir serenidade.

 

Mesmo no inverno cuiabano, ele permanece ligado.

 

Conheço, porém, pessoas que fazem exatamente o contrário.

 

Eliminam qualquer pontinho de luz para dormir em completa escuridão.

 

Cada um encontra paz à sua maneira.

 

Desde os tempos mais antigos, a luz simboliza esperança, proteção e vida.

 

Também na tradição bíblica ela aparece como sinal da presença divina, iluminando caminhos e afastando as trevas.

 

A claridade de uma casa bem iluminada transmite uma agradável sensação de limpeza, ordem e bem-estar.

 

Talvez por isso a literatura costume associar as cavernas, a penumbra e a escuridão às dificuldades da existência, enquanto a luz quase sempre representa conhecimento, confiança e renovação.

 

Em Cuiabá, a luminosidade intensa que nos acompanha durante boa parte do ano parece irradiar energia e alegria aos seus habitantes.

 

Já os dias de céu encoberto costumam despertar uma discreta melancolia.

 

Quando chega a noite, a lua e as estrelas devolvem poesia ao céu cuiabano.

 

Não é por acaso que os poetas fizeram da lua a eterna companheira dos enamorados.

 

Talvez seja por isso que uma simples lâmpada acesa nunca ilumine apenas a casa; ela também clareia as nossas lembranças e aquece silenciosamente o coração.

 

Gabriel Novis Neves

14-07-2026


Escadaria do Beco Alto, Cuiabá


quarta-feira, 15 de julho de 2026

SONS PECULIARES

 

Em muitas casas, o som ritmado da máquina de costura fazia parte da música do cotidiano. Enquanto a agulha deslizava sobre o tecido, roupas eram ajustadas, remendadas ou criadas pelas mãos habilidosas das mães e avós.

 

Cada peça carregava dedicação, paciência e carinho.

 

Hoje esse som quase desapareceu, mas continua vivo na memória de quem cresceu ouvindo seu compasso.

 

Revivendo a minha infância, recordo que a antiga Cuiabá tinha sons muito próprios.

 

Tudo nas casas produzia uma melodia discreta: a máquina de costura trabalhando num ritmo constante, o ventilador de teto girando lentamente, o relógio da varanda marcando as horas com suas badaladas.

 

Até a rede, embalando as crianças nas tardes quentes, parecia cantar uma canção de ninar.

 

Talvez por isso tantas famílias cuiabanas cultivassem o gosto pela música.

 

Não era raro encontrar um piano, um violino ou um violão dentro de casa.

 

Aprender um instrumento fazia parte da boa educação, e quem passava pelas calçadas frequentemente ouvia melodias que escapavam pelas janelas abertas.

 

Meu pai comprou um piano para minha irmã mais velha e contratou um professor particular.

 

Apesar de todo incentivo, ela abandonou as aulas e pouco tempo depois o piano foi vendido.

 

Meu irmão mais novo, ao contrário, era um autodidata.

 

Tocava piano em qualquer lugar onde encontrasse um instrumento.

 

Eu cresci num ambiente de jogadores de xadrez.

 

Aprendi cedo os segredos daquele jogo fascinante, ainda antes de ser alfabetizado.

 

Mas sempre guardei a vontade de aprender música, desejo que nunca consegui realizar plenamente.

 

Mais tarde comprei um violão para minha filha. Ela também não se interessou pelo instrumento, que acabou sendo doado.

 

Anos depois, recebi outro violão como presente de aniversário e comecei a ter aulas três vezes por semana em casa.

 

Durante as aulas eu progredia.

 

O desafio surgia quando precisava estudar sozinho.

 

Sem disciplina para os exercícios de memorização, abandonei novamente o violão, que até hoje permanece guardado no meu guarda-roupa.

 

Talvez alguns sonhos não tenham sido feitos para palcos.

 

Basta-nos conservar, no coração, a música das lembranças.

 

Gabriel Novis Neves

12-07-2026



terça-feira, 14 de julho de 2026

HÁBITOS DOMÉSTICOS


Durante muitos anos existia o costume de virar o colchão de tempos em tempos para aumentar sua durabilidade.

 

Era uma tarefa doméstica que exigia esforço e, muitas vezes, a ajuda de toda a família. Aproveitava-se a ocasião para limpar o quarto e reorganizar os móveis.

 

Hoje quase ninguém conserva esse hábito, mas ele revela o cuidado que havia com os objetos e o desejo de fazê-los durar por muitos anos.

 

Na minha casa, as cuidadoras preservam esse costume a cada seis meses.

 

Como durmo sozinho numa cama de casal, é natural que um dos lados fique mais marcado pelo uso.

 

Por isso, elas fazem a rotatividade do colchão melhorando sua conservação, a higiene e aumentando sua vida útil.

 

Até pouco tempo, as camas de madeira eram baixas, ficando a poucos palmos do chão.

 

Hoje são mais altas e confortáveis.

 

Também os colchões evoluíram muito, tornando-se mais resistentes.

 

Mesmo assim, o hábito de virá-los de tempos em tempos continua fazendo sentido.

 

Quando eu era criança, dormia em camas baixas e colchões de capim.

 

Não me lembro em que época passei a usar colchões de espuma ou de molas.

 

Meu pai comprava os colchões na fábrica da rua do Meio, pertencente à família do seu Mário Palma.

 

Lembro-me de três de seus filhos, sendo um deles médico.

 

Com o passar dos anos, os colchões foram sendo aperfeiçoados para atender às necessidades de cada freguês.

 

Mudaram os materiais, a tecnologia e o conforto.

 

Mudou também a maneira de fabricar.

 

Mas alguns costumes resistem ao tempo.

 

Virar um colchão é mais do que o cuidado com um objeto.

 

É uma pequena demonstração de respeito pelo que se possui e um lembrete de que tudo aquilo que recebe atenção costuma durar mais.

 

Talvez essa seja uma boa lição para própria a vida.

 

Também nós precisamos, de vez em quando, mudar de posição, renovar os ares e aliviar o peso sempre carregado pelo mesmo lado.

 

Há gestos simples que prolongam a vida das coisas.

 

E há hábitos antigos que continuam ensinando a viver.

 

Gabriel Novis Neves

08-07-2026




segunda-feira, 13 de julho de 2026

PAREDES BRANCAS


As casas antigas costumavam receber uma nova camada de cal nos muros e nos troncos das árvores.

 

Além de embelezar o quintal, acreditava-se que a caiação contribuía para a conservação e transmitia uma agradável sensação de limpeza.

 

O branco renovava o aspecto da casa e parecia anunciar que tudo estava em ordem.

 

Pequenas providências como essa faziam parte do calendário doméstico e eram aguardadas com naturalidade por toda a família.

 

Há muitos anos moro em apartamento e raramente saio de casa.

 

Por isso, não sei se esse costume ainda permanece vivo em nossa cidade.

 

Na minha infância, lembro-me perfeitamente dos muros das casas cuiabanas e dos troncos das árvores dos quintais cobertos por uma nova camada de cal.

 

Sempre imaginei que aquele gesto tivesse, antes de tudo, o propósito de embelezar o ambiente.

 

Cuiabá era uma cidade intensamente arborizada.

 

De tempos em tempos, a Prefeitura também caiava os troncos das árvores das ruas e os meios-fios das calçadas.

 

A paisagem adquiria um aspecto de limpeza que transmitia alegria e, de certo modo, um ar de festa.

 

Também era mais fácil cuidar de uma cidade ainda pequena, com suas ruas concentradas no centro histórico, onde nasci e vivi os primeiros anos da minha vida.

 

Nunca me explicaram a verdadeira relação entre a cal e a beleza.

 

Ainda assim, sempre associei aquele branco luminoso às comemorações.

 

Nas datas cívicas e nos desfiles escolares, os meios-fios e os troncos das árvores amanheciam caiados, tornando a cidade mais bonita, acolhedora e festiva.

 

Recentemente conversando com uma cuidadora que mora em um bairro mais distante, perguntei se esse hábito ainda existia. Ela respondeu que, por ocasião dos jogos da Copa do Mundo, seu bairro inteiro recebeu uma nova camada de cal nos meios-fios, nos muros e no tronco das árvores.

 

Fiquei feliz ao saber que algumas tradições continuam resistindo ao tempo.

 

Enquanto houver um muro caiado e uma árvore de tronco branco, haverá também um pouco da velha Cuiabá iluminando a nossa memória.

 

Gabriel Novis Neves

10-07-2026




domingo, 12 de julho de 2026

COMPRANDO TECIDOS


Houve um tempo em que comprar tecidos era um verdadeiro acontecimento familiar.

 

As lojas exibiam prateleiras repletas de algodão, linho, chita, cambraia e tantos outros tecidos que despertavam a imaginação.

 

As mães escolhiam cuidadosamente as estampas, enquanto as crianças já tentavam adivinhar como seriam as roupas depois de prontas.

 

Mais do que uma simples compra, aquele momento representava cuidado, economia e expectativa.

 

Cada metro de tecido carregava a promessa de um vestido novo, de uma camisa para uma ocasião especial ou de uma roupa feita sob medida para durar muitos anos.

 

Na minha infância, comprar tecidos fazia parte da rotina da família.

 

Minha mãe conhecia as melhores lojas de Cuiabá e sabia distinguir, apenas pelo toque, a qualidade de cada fazenda.

 

Depois da compra, os cortes eram levados à costureira, que transformava aqueles panos em roupas elegantes.

 

Havia uma alegria silenciosa em acompanhar cada etapa, desde a escolha do tecido até a primeira prova.

 

As roupas não eram descartáveis.

 

Eram usadas com carinho, passavam por pequenos consertos e, muitas vezes, ganhavam nova utilidade quando já não serviam aos filhos mais velhos.

 

Aprendíamos, desde cedo, a valorizar aquilo que possuíamos.

 

Hoje, as vitrines oferecem roupas prontas em abundância, mas desapareceram a espera, a participação da família e o encanto de ver nascer uma peça feita especialmente para nós.

 

Talvez por isso, um simples pedaço de tecido ainda seja capaz de costurar lembranças que o tempo jamais conseguiu desmanchar.

 

Gabriel Novis Neves

10-07-2026