Os dias quentes de Cuiabá sempre inspiraram soluções simples para enfrentar o calor.
Uma delas era o inesquecível banho de mangueira no quintal.
As crianças passavam horas correndo sob os jatos de água, transformando o espaço da casa em um verdadeiro parque de diversões.
Não havia brinquedos sofisticados nem tecnologia.
Bastavam água, alegria e imaginação.
Hoje esse costume quase desapareceu, mas permanece como uma das recordações mais felizes da infância de muitas gerações cuiabanas.
Afinal, o banho de mangueira continua sendo uma forma simples e divertida de enfrentar o calor, algo que ainda encanta as crianças nos dias mais quentes.
O melhor de tudo era que minha mãe participava da brincadeira com entusiasmo juvenil.
Enquanto isso meu pai, sempre ocupado com o trabalho no bar, raramente estava presente nesses momentos.
O banho de mangueira no quintal ficou guardado na memória afetiva de gerações de cuiabanos.
Ao escrever estas crônicas saudosistas, não pretendo comparar a felicidade do passado com a do presente.
Cada época tem seus encantos.
Mas é impossível não reconhecer que as crianças de antigamente criavam suas próprias diversões, quase sempre simples e cheias de encanto.
Havia o banho de mangueira no quintal, o banho de chuva na rua, os mergulhos no córrego da Prainha e os banhos no tanque do Baú.
Eram brincadeiras que alegravam a juventude e deixavam lembranças que o tempo não consegue apagar.
Hoje os brinquedos são comprados em lojas, existem espaços especializadas para recreação e profissionais preparados para entreter as crianças.
Tudo isso tem seu valor.
Mas, naquele tempo, muito se aprendia com os mais velhos e com a convivência diária.
Hoje há escolas de natação, dança, tênis, futebol e canto.
Na minha infância, porém, o quintal de casa era uma verdadeira escola de descobertas.
Passávamos ali boa parte das férias escolares.
Subíamos aos galhos mais altos das mangueiras para colher os frutos maduros com as próprias mãos.
Fazíamos o mesmo com a pitangueira e a cajazeira.
E quando a chuva chegava, tomar banho entre aquelas árvores era uma felicidade difícil de descrever.
Cuiabá com seu calor generoso, ensinava as suas crianças a inventar maneiras simples de se refrescar.
Ora procurávamos a sombra acolhedora dos mangueirais.
Ora buscávamos as águas abundantes que brotavam do solo da cidade para transformar o calor em brincadeira.
Hoje, quando a memória abre as portas do quintal da infância, ainda sinto os respingos da mangueira e a alegria daqueles dias que o tempo levou, mas o coração guardou.
Gabriel Novis Neves
20-06-2025