Nem todos os domingos eram de passeio para os estudantes de Medicina.
Muitas vezes, o dia era reservado para colocar a matéria em dia.
Eu ficava no quarto da pensão lendo livros e revisando as anotações da semana.
O silêncio dominical ajudava na concentração.
Às vezes, eu parava um pouco, olhava pela janela e pensava na família distante.
Depois, voltava aos livros, sabendo que aquele esforço fazia parte do caminho que eu havia escolhido.
Que profissão era a Medicina, exigindo tamanha dedicação de seus alunos!
Na pensão, uns estimulavam os outros ao estudo continuado.
No nosso grupo, porém, um deles deixou de nos acompanhar, vítima fatal de um acidente de bonde, ao saltar com ele ainda em movimento.
Sofreu traumatismo de crâneo, no quarto ano da faculdade.
Durante o tempo de estudante soube também do suicídio de dois colegas: um no início do curso e o outro no sexto ano, com quem tive mais convivência, pois éramos plantonistas no mesmo hospital.
A responsabilidade de nos tornarmos bons médicos era um peso que alguns não suportaram, a ponto de abandonarem a própria vida.
Apesar dessas dores, a minha turma espalhou bons profissionais por esse Brasil.
Naquele tempo, existiam poucas escolas de Medicina no país, quase todas públicas, situadas em cidades banhadas por água salgada.
No início da década de 1950, o Brasil contava com cerca de treze escolas médicas, todas públicas.
Naquela mesma década, houve crescimento, e mais catorze escolas foram criadas, sendo cinco particulares.
Hoje, existem em funcionando quinhentas e treze escolas de Medicina no Brasil, das quais trezentas e noventas são particulares.
Nosso Estado possui seis faculdades de Medicina, duas delas particulares.
Hoje, já não é preciso deixar o próprio Estado para estudar Medicina.
Cuiabá, com suas três faculdades, vêm formando excelentes médicos.
Tenho disso um belo exemplo em minha própria família: uma neta e o marido estudaram em escola particular e se tornaram excelentes profissionais.
Estudar longe de casa tornou-se tema frequente das minhas crônicas.
E talvez porque, no silêncio de um quarto de pensão, a saudade também ajudasse a formar o homem que o médico viria a ser.
Gabriel Novis Neves
02-04-2026