terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TOQUE FUGAZ


A campainha tocou uma única vez, curta e decidida.

 

Não insistiu.

 

Levantei devagar, sem pressa, tentando lembrar quem poderia ser àquela hora.

 

Enquanto caminhava até a porta, pensei como certos sons interrompem o silêncio da casa com mais força do que deveriam.

 

Abri esperando alguém, mas encontrei apenas o corredor vazio.

 

Fiquei ali por alguns segundos, escutando o eco daquele toque que já tinha ido embora.

 

Voltei para dentro com a sensação estranha de quem foi chamado e não encontrou resposta.

 

A casa retomou o seu silêncio habitual, interrompido apenas pelo barulho distante da rua e pelo relógio da parede, sempre pontual.  

 

Sentei-me novamente, mas a campainha continuava tocando na memória.

 

Pensei em quantas vezes a vida toca apenas uma vez.

 

Não repete.

 

Não espera.

 

É um aviso breve, quase educado, que pode ser ignorado por distração, cansaço ou simples demora.

 

Há convites que não insistem, pessoas que passam rápido, oportunidades que não batem duas vezes.

 

Lembrei das visitas antigas, quando a campainha era quase um anúncio de conversa longa, café passado na hora e cadeiras puxadas para perto.

 

Hoje, muitas vezes, o toque é seguido de pressa, recados curtos e despedidas apressadas.

 

Talvez aquela campainha tenha sido apenas engano.

 

Um dedo apressado no andar errado.

 

Ou talvez não.

 

Talvez tenha sido só um lembrete silencioso de que nem tudo permanece à espera.

 

Algumas coisas chegam, tocam e sequem adiante.

 

Levantei outra vez, conferi se a porta estava bem fechada e voltei para o meu canto.

 

A campainha não tocou novamente.

 

E eu entendi, sem necessidade de explicação, que certos chamados vêm apenas para testar se ainda estamos atentos ao que acontece do lado de fora — e dentro da gente.

 

Gabriel Novis Neves

28-01-2026




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

TODO CUIDADO É POUCO


Separei a camisa cedo, ainda com o dia clareando.

 

Não estava amassada, mas também não estava perfeita.

 

Decidi usá-la assim mesmo.

 

Abotoei com calma, olhando no espelho sem muita exigência.

 

Lembrei que, por muitos anos, sair de casa exigia roupa passada, sapato limpo e cinto alinhado.

 

Havia um ritual.

 

Uma atenção aos detalhes que hoje parece exagero, mas que fazia parte da rotina.

 

Hoje a camisa cumpre sua função.

 

Não reclama.

 

Não exige ferro quente nem pressa.

 

Caminhei até a sala, peguei os óculos e segui com o dia sem ajustar mais nada.

 

Com os anos passando fiquei menos rigoroso comigo.

 

Não é relaxamento.

 

É um cansaço manso, desses que chegam sem alarde.

 

Deixamos de fazer a barba todos os dias, de engraxar os sapatos antes de sair, de procurar defeitos no espelho.

 

E, sem perceber, estendemos essa falta de cuidado ao corpo.

 

Adiamos consultas, pulamos exames, deixamos o médico para depois.

 

É assim que, de maneira silenciosa, a doença se aproxima.

 

Às vezes chega como uma pneumonia quase sem sintomas.

 

Outras, como a necessidade de trocar uma prótese antiga, esquecida no tempo em que cuidávamos melhor de nós.  

 

Não é apenas a camisa amassada que denuncia o envelhecimento.

 

É a atenção que vai faltando.

 

O zelo que se perde aos poucos.

 

Sabemos que pequenos cuidados fazem diferença para a saúde física e mental.

 

Assim como as camisas sofrem com o uso, o organismo também se desgasta — às vezes cedo demais.

 

A tecnologia criou tecidos que não amassam e cirurgias que salvam vidas ainda no berço.

 

Mas nenhuma inovação substituiu o gesto simples de cuidar de si.

 

Passar a camisa é detalhe.

 

Passar por si mesmo, com atenção, é necessidade.

 

Gabriel Novis Neves

01-02-2026




domingo, 1 de fevereiro de 2026

CULTIVANDO AFETOS


Resolvi regar as plantas antes do horário.

 

A terra ainda estava úmida, mas molhei assim mesmo.

 

A água escorreu devagar pelo vaso.

 

Observei por alguns segundos e segui para a próxima.

 

O verde continuou igual.

 

Guardei a mangueira no lugar e lavei as mãos.

 

Pequenos cuidados ocupam bem o tempo.

 

O jardim do terraço do meu apartamento é muito bonito, com suas flores e verdes, que todas as manhãs, ao compartilhar minha crônica, costumo acompanhá-la com a foto de uma rosa colhida ali mesmo.

 

Alguns leitores já manifestaram o desejo de conhecê-lo.

 

Meus filhos gostam da companhia de animais de pequeno porte em casa.

 

Eu prefiro as flores, que não latem, apenas pedem cuidado.

 

Tive a sorte de contar com uma cozinheira apaixonada pelo jardim.

 

Ela cuida dele, fotografa-o para o meu blog e chama o paisagista quando a manutenção se faz necessária.

 

Com as chuvas, as plantas agradecem, devolvendo beleza em cada canto.

 

Tive vários tipos de jardins no terraço do meu duplex.

 

Antigamente, ele dividia espaço com a piscina, muito apreciada por minha mulher, filhos e netos.

 

Os canteiros de terra preta tinham contornos irregulares, marcados por pedrinhas do rio Coxipó.

 

A pérgola era coberta por trepadeiras de flores amarelas, tão comuns em nossa região.

 

Paguei caro a um arquiteto-paisagista para projetar e executar aquele espaço.

 

Bastou a primeira chuva para a água descer pela escada e inundar a sala de visitas.

 

Vieram então novos modelos, pensados por mim, até chegar ao atual: sem piscina, com mais espaço para o jardim, agora pleno de trepadeiras, árvores frutíferas, folhas ornamentais e flores.

 

Herdei essa paixão pelos jardins do meu bisavô paterno, que construiu o primeiro jardim público de Cuiabá, a Praça Alencastro.

 

Por onde passei, deixei um jardim com árvores frondosas — sendo o maior de todos a transformação do cerrado na arborizada Cidade Universitária do Coxipó da Ponte.

 

Talvez por isso eu regue as plantas antes da hora.

 

Não por necessidade, mas por afeto.

 

Gabriel Novis Neves

30-01-2026





sábado, 31 de janeiro de 2026

TOALHAS AO VENTO


Sem ter o que fazer numa manhã de domingo, pus-me a pensar na minha infância distante, na doce Cuiabá.

 

Tudo era simples e exalava poesia naquela casa modesta da rua do Campo.

 

Escrevo agora como quem assiste a um filme comum: estender a toalha ainda úmida na varanda para secar.

 

O sol já batia direto.

 

Pendurei-a com dois prendedores e ajeitei bem o tecido.

 

Ela ficou balançando um pouco com o vento.

 

Voltei para dentro e deixei a porta aberta.

 

De tempos em tempos, olhava para ver se já havia secado.

 

A toalha cumpria sua parte.

 

O resto ficava por conta do sol cuiabano e do vento.

 

Naquele tempo ainda não existiam empresas de lavanderia.

 

O serviço era feito em bacias de alumínio, com água tirada do poço do quintal.

 

Depois de seca na varanda, a toalha era passada no quartinho ao lado da cozinha, com ferro em brasa.

 

Com a família aumentando e a situação financeira do meu pai melhorando, minha mãe terceirizou a lavagem das roupas para as famosas passadeiras e engomadeiras do bairro do Baú.

 

O tanque do Baú atendia as lavadeiras da região.

 

Quantas boas recordações nos trazem esses domingos de solidão!

 

A casa cheia da infância foi se esvaziando com o tempo.

 

E chegamos sozinhos à velhice.

 

Já não moramos mais em casas com varanda para estender toalhas ao sol.

 

No apartamento, o quarto por onde entra a claridade é proibido para esse fim, por normas do condomínio.

 

Penso no que passa pela cabeça da minha bisneta de dois anos, esquiando na Suíça.

 

Que recordação ela guardará desse passeio quando tiver a minha idade?

 

O mundo em que nasci e fui criado era tão pequeno, que se resumia ao antigo Centro Histórico de Cuiabá: as praças da República e Alencastro, as ruas de Baixo, do Meio, de Cima e do Campo.

 

Tudo passou depressa demais.

 

E hoje, com mais de noventa anos, sigo vivendo de lembranças — como quem ainda estende, em pensamento, uma toalha na varanda da memória, esperando que o tempo a seque com cuidado.

 

Gabriel Novis Neves

26-01-2026






sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ENVELHECER COM SABEDORIA


Só percebi depois de andar um pouco.

 

Um chinelo era de um par diferente.

 

Voltei, troquei e segui.

 

Pequenos descuidos acontecem sem aviso.

 

Continuei caminhando pela casa, como sempre faço.

 

Nos últimos anos, cai quatro vezes no meu dormitório.

 

Não tive fraturas, mas fiquei com hematomas.

 

Uma dessas quedas aconteceu por causa do chinelo trocado.

 

As outras, pela disautonomia.

 

Hoje, só me levanto da cama para caminhar depois que a cuidadora atende ao chamado da campainha.

 

Só ando pela casa apoiado no braço forte da cuidadora ou de alguém por perto.

 

Para sair, apenas de cadeira de rodas.

 

Bengala e andador são auxílios contraindicados para mim, e o chinelo trocado virou sinônimo de queda.

 

Uma das três principais causas de morte em idosos é a queda.

 

Por isso, pequenos cuidados são indispensáveis.

 

Um deles é caminhar pela casa sempre apoiado no braço de alguém.

 

Faço fisioterapia duas vezes por semana para fortalecer os músculos das pernas e não sinto melhoras significativas.

 

Na minha rotina, ou estou sentado na cadeira de rodas do meu escritório, ou deitado na cama.

 

Já pensei em colocar próteses nos dois joelhos para melhorar minha qualidade de vida.

 

Assim, me livraria das artroses e voltaria a caminhar.

 

A cirurgia é realizada com sucesso e costuma apresentar bons resultados.

 

Mas temo a minha idade avançada e não me animo a arriscar.

 

Com os anos, acumulei uma série de ‘doenças chatas’, que não matam e não têm cura.

 

Sei que minha qualidade de vida melhoraria muito, se eu conseguisse andar o suficiente para, ao menos, almoçar na casa de um filho.

 

Graças a Deus,não tenho nenhuma doença de base maligna e estou bem, sem sintomas graves.

 

Arriscar uma cirurgia a esta altura da vida seria brincar com a sorte.

 

Por isso, sigo atento aos detalhes.

 

Não trocar os chinelos, pedir ajuda, aceitar o braço amigo.

 

Às vezes, envelhecer é isso: aprender que continuar de pé depende menos das pernas e mais do cuidado — próprio e dos outros.

 

Gabriel Novis Neves

28-01-2026




A ALEGRIA DE CHEGAR ANTES


Chegar antes é um privilégio silencioso. 

 

É entrar quando a sala ainda respira vazia, quando as cadeiras guardam o formato de quem ainda não sentou. 

 

Chegar antes permite observar sem pressa, escolher o lugar, acomodar o corpo e o pensamento. 

 

A vida, por vezes, recompensa quem não corre.

 

Há uma alegria discreta em antecipar o tempo, como se o relógio, por alguns minutos, resolvesse nos obedecer. 

 

Ninguém percebe, mas ali já começou um instante de felicidade mansa, dessas que não fazem barulho. 

 

Sempre gostei de chegar antes. 

 

Ao consultório, à missa, ao compromisso social, à sala de aula. 

 

Chegar depois me causava certo constrangimento, como se eu interrompesse algo que já seguia seu curso. 

 

Chegar antes era diferente: dava tempo para respirar, para olhar em volta, para reconhecer os detalhes que se perdem na pressa. 

 

O banco vazio, a janela aberta, o ventilador desligado esperando ser acionado. 

 

Chegar antes também é uma forma de respeito — com o outro e comigo mesmo. 

 

Não obriga ninguém a esperar, não pede desculpas pela entrada apressada, não traz justificativas. 

 

É um gesto simples, quase invisível, mas cheio de significado. 

 

Quem chega antes carrega menos culpa e mais serenidade. 

 

Com o passar dos anos, percebi que chegar antes não é apenas uma questão de relógio. 

 

É um estado de espírito. 

 

É preparar o coração para o encontro, seja ele com pessoas, ideias ou lembranças. 

 

É chegar antes até mesmo às próprias emoções, percebendo-as quando ainda são suaves, antes que endureçam. 

 

Hoje, aos noventa anos, continuo chegando antes. 

 

Não por obrigação, mas por escolha. 

 

Gosto desse tempo que sobra, dessa espera tranquila. 

 

Chegar antes me ensinou que a vida não exige corrida. 

 

Às vezes, basta estar presente um pouco antes do mundo chegar. 

 

Gabriel Novis Neves 

09-01-2026




quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

CONSELHO BOM SE VENDE


Ouvi atentamente. 

 

A pessoa falava, talvez esperando uma orientação, uma palavra final. 

 

Desta vez não dei conselho. 

 

Fiquei em silêncio, apenas acompanhando. 

 

Percebi como temos mania de ensinar, corrigir, orientar. 

 

Como se soubéssemos sempre o melhor caminho. 

 

Naquele dia, escolhi apenas escutar. 

 

Não foi omissão. 

 

Foi respeito. 

 

Cada um tem seu tempo de entender. 

 

Ao sair, senti que o silêncio havia sido mais honesto do que qualquer conselho apressado.

 

Os antigos, mais do que hoje, tinham essa mania de dar conselhos.

 

Os livros escolares de História Geral estão repletos de conselheiros de reis e rainhas.

 

O Brasil Império teve inúmeros conselheiros, pessoas preparadas para orientar decisões.

 

Os reis de Portugal eram cercados por conselheiros, cuja sabedoria ajudava a decidir destinos.

 

Os conselheiros do Império eram figuras respeitadas, presença obrigatória nas grandes decisões.

 

Ensinar, corrigir e orientar, com o tempo, tornou-se missão dos pais e professores.

 

Mas os brasileiros — e os cuiabanos, em especial — gostam de ouvir conselhos sobre os mais variados assuntos.

 

Aprendi que ouvir atentamente também é uma forma de aconselhar.

 

Quando completei quinze anos, minha mãe pediu que eu ouvisse Dom Aquino Correa sobre minha pretensão de ser médico.

 

Dom Aquino foi o grande conselheiro dos cuiabanos, dono de uma sabedoria múltipla.

 

Gostava de aconselhar no Palácio Episcopal.

 

Recebia à tarde jovens e idosos, de todas as classes sociais.

 

Aconselhou-me a não cursar o segundo grau no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e aceitei.

 

Mais tarde, descobri que ele tinha toda a razão.

 

Quanto a ser médico do corpo ou da alma, não segui seu conselho.

 

Durante sessenta e cinco anos, fui médico do corpo e, muitas vezes, também da alma, sem exercer o sacerdócio.

 

Trabalhei em vários conselhos — de ensino, de pesquisa, de educação — e sempre admirei o Tribunal de Contas com seus conselheiros.

 

Hoje sei que nem todo conselho precisa ser dado.

 

Às vezes, o melhor gesto é ouvir em silêncio e deixar que o outro encontre, sozinho, o próprio caminho.

 

Gabriel Novis Neves

22-01-2026