sexta-feira, 12 de junho de 2026

NAS MARGENS DO RIO CUIABÁ


A lembrança mais antiga que guardo do cais do rio Cuiabá é anterior à inauguração da Ponte Júlio Muller, em 1942.

 

Em 1939, viajei com meus pais e meus dois irmãos menores, de hidroavião para visitar minha avó Eugênia no Rio de Janeiro.

 

Recordo que chovia muito.

 

A pequena aeronave era ocupada por nossa família e o comandante da Polícia Militar do Estado, Coronel Máximo Levy, nosso vizinho na rua de Baixo.

 

Eu chorava nos braços de meu pai, enquanto meus irmãos dormiam tranquilamente.

 

Era costume, naquele tempo, quando o comandante da Polícia Militar viajava, executar hinos militares na despedida e chegada das autoridades, mesmo sob chuva intensa.

 

Depois que embarquei e o hidroavião deslizou pelas águas calmas do rio Cuiabá, adormeci. Nada mais me lembro da viagem.

 

Do Rio de Janeiro guardo apenas a lembrança dos brinquedos da praça do Lido, próximo ao Posto 2 de Copacabana.

 

Conservo como uma relíquia uma fotografia tirada em um daqueles brinquedos, ao lado da minha mãe, de Yara e de Pedro.

 

Algum tempo depois, comecei a frequentar o cais do porto, na garupa do cavalo de meu avô Alberto.

 

Ele costumava levar o animal para tomar banho nas águas do rio.

 

Naquele tempo, Cuiabá vivia relativamente isolada do restante do país.

 

Era a chegada dos vapores que quebrava a rotina tranquila das ruas antigas.

 

Meu avô gostava de viajar para Corumbá a bordo dessas embarcações para visitar uma de suas filhas.

 

As famílias acompanhavam parentes e amigos até o cais.

 

As despedidas só terminavam quando o apito do vapor deixava de ecoar sobre as águas.

 

Na memória cuiabana daqueles tempos, o apito das embarcações ficou associado à esperança, à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam de longe. 

 

O apito do vapor entrou para a história dos mais de trezentos anos da cidade, mas o Porto continua emocionando gerações como antiga porta de entrada de Cuiabá. 

 

Foi por ali que chegou meu bisavô, Augusto Novis, baiano, médico da Marinha Imperial, vindo da Bahia. 

 

Veio integrar as forças brasileiras que lutavam para expulsar os paraguaios de Corumbá. 

 

Naquele tempo, havia um ritual para receber visitantes ilustres. 

 

Autoridades, famílias tradicionais e jovens donzelas dirigiam-se ao cais para dar boas-vindas aos recém-chegados. 

 

Os militares eram homenageados e convidados para jantares festivos. 

 

Meu bisavô ficou noivo justamente no jantar de sua chegada.

 

Quis repetir uma dança com a jovem cuiabana que acabara de conhecer, e daquele encontro nasceu uma história de amor. 

 

Terminada a campanha militar, retornou a Cuiabá, casou-se, constituiu uma numerosa família, abriu seu consultório e nunca mais voltou a Salvador. 

 

O tempo passou.

 

Os vapores desapareceram, os aviões encurtaram distâncias e as estradas aproximaram os lugares. 

 

Mas, em certas tardes silenciosas de Cuiabá, ainda parece possível ouvir, ao longe, o velho apito do vapor atravessando as águas do rio e navegando pela memória da cidade. 

 

Gabriel Novis Neves 

28-05-2026
















O PRAZER DE NÃO SEGUIR HORÁRIOS


Não ter horário é um pequeno luxo.

 

Passamos a vida obedecendo relógios: hora de acordar, de trabalhar, de almoçar, de pagar contas, de tomar remédios e de cumprir compromissos.

 

Por isso, quando surge um dia sem obrigação marcada, a alma agradece.

 

Não é preguiça.

 

É apenas o corpo e o espírito pedindo licença para existir sem cobrança, sem pressa e sem um relógio dando ordens.

 

Estou vivendo um dia assim.

 

Foi uma decisão minha.

 

Não quero ter horário para nada.

 

Embora esteja trabalhando no computador do escritório da minha casa, o hábito me faz olhar constantemente para o canto da tela, onde o relógio insiste em marcar a passagem do tempo.

 

Logo surge a lembrança da hora de terminar de escrever.

 

Descansar completamente, sem relógios a nos azucrinar a vida, talvez só no céu.

 

E, mesmo lá, quem sabe não apareça um anjo da guarda trazendo alguma tarefa para ocupar a eternidade?

 

Não desejo luxo nem preguiça.

 

Desejo apenas um dia sem obrigações.

 

Existem prazeres que nos levam a viajar, gastar dinheiro e procurar novidades.

 

Mas há outros, muito mais simples, como o prazer de não precisar fazer nada.

 

Fazer nada não tem preço.

 

É apenas o privilégio de estar em paz comigo mesmo.

 

Como médico, eram raros os dias sem responsabilidades.

 

E, quando eles surgiam, logo apareciam as urgências e emergências para preenchê-los.

 

Deve ser difícil viver sem nunca escapar dos horários.

 

Às vezes chego a pensar que os preguiçosos cumprem uma função importante: lembrar aos demais que a vida não foi feita apenas para correr.

 

Alguns religiosos acreditam que, na vida eterna, não haverá obrigações.

 

A alma agradece a ideia de não ter horários a cumprir.

 

Mas será que teremos companhia para uma boa conversa?

 

A dúvida não tem hora para aparecer.

 

Surge de repente e nos desperta.

 

Quantas vezes acordo motivado por uma pergunta, geralmente literária, que insiste em ser respondida?

 

É o espírito chamando o pensamento para trabalhar, mesmo quando o corpo deseja descansar.

 

O prazer de não ter horário é apenas mais um capítulo da filosofia da vida.

 

E talvez uma das maiores recompensas da velhice seja justamente esta: descobrir que, de vez em quando, não fazer nada também é uma forma de viver.

 

Gabriel Novis Neves

06-06-2026




quarta-feira, 10 de junho de 2026

VASSOURAS NOS QUINTAIS


Houve um tempo em que o dia começava ao som da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Era um ruído simples, mas que anunciava o despertar da casa.

 

As folhas eram juntadas em pequenos montes, os canteiros recebiam atenção e a manhã parecia nascer junto com aquele trabalho silencioso.

 

Hoje muitos quintais desapareceram, mas o som da vassoura ainda vive na memória de quem cresceu em casas abertas para a rua e para a vida.

 

Nasci e fui criado em uma casa de portas abertas ouvindo o ruído da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Quis Deus que eu chegasse aos 91 anos morando em um apartamento, com portaria e sem quintal.

 

Mesmo assim, continuo escutando, dentro da memória, o som da vassoura riscando o quintal da minha infância.

 

As crianças educadas nas pequenas cidades do interior cresciam envolvidas pela natureza e só percebiam o valor desse privilégio quando viajavam para centros maiores.

 

Foi doloroso para mim deixar Cuiabá para estudar Medicina no Rio de Janeiro, distante dos cenários que haviam acompanhado a minha infância.

 

Como estudante tinha pouco tempo para apreciar as belezas naturais da cidade.

 

Faltavam-me o cheiro da terra molhada pela chuva e a simplicidade dos quintais cuiabanos.

 

Em vez do som da vassoura varrendo o quintal, eram os amoladores de faca que anunciavam a chegada de um novo dia.

 

Tudo parece diferente quando se compara a natureza com o mundo artificial.

 

Sempre defendi a ideia de que a criança criada em contato com a natureza desenvolve uma relação mais saudável com a vida.

 

Muitos dos nossos grandes estadistas, cientistas, professores, pesquisadores, escritores, poetas, jornalistas, artistas e jogadores de futebol nasceram no interior.

 

Os grandes clubes de futebol do mundo continuam sendo abastecidos por meninos vindos das pequenas cidades ou dos países mais humildes.

 

Quase todos eles despertaram um dia ao som de uma vassoura riscando o chão do quintal de suas casas.

 

Talvez por isso nunca tenham perdido completamente a simplicidade das suas origens.

 

Gabriel Novis Neves

09-06-2026




terça-feira, 9 de junho de 2026

O MOVIMENTO DAS TROPAS


Antes do avanço definitivo dos caminhões, as tropas de burro ainda dominavam parte do transporte em Cuiabá nos anos de 1940.

 

Vinham carregadas de mercadorias, alimentos e produtos do interior.

 

O som dos cascos nas ruas de terra fazia parte da paisagem sonora da cidade.

 

Os tropeiros traziam notícias, histórias e costumes de lugares distantes.

 

Crianças observavam admiradas aqueles homens queimados de sol conduzindo longas filas de animais.

 

Era um tempo em que a velocidade da vida seguia o passo das tropas e o comércio dependia da paciência das estradas.

 

Lembro-me de ficar agachado, deslumbrado, observando aqueles homens fortes, conduzindo as filas de animais que abasteciam a cidade.

 

A Cuiabá rural que conheci tinha o som dos cascos ecoando nas ruas de terra batida.

 

As tropas eram conduzidas pelos chamados tropeiros, figuras respeitadas e indispensáveis naquele tempo.

 

Ao chegarem à cidade, armavam barracas em praças afastadas do centro.

 

Ali preparavam a comida, dormiam em redes e cuidavam dos animais, sempre atentos para que nenhum burro se soltasse durante a noite.

 

O desfile das tropas parecia um espetáculo silencioso e fascinante.

 

Quando partiam de volta para os sítios e povoados do interior, deixavam uma sensação de vazio, como se a cidade perdesse um pouco do seu movimento e da sua alma.

 

O Brasil rural possuía uma riqueza humana e visual difícil de descrever.

 

Depois vieram os caminhões, as estradas e a pressa moderna, desalojando lentamente os burros dos caminhos antigos.

 

Até o linguajar do cuiabano mudou com o tempo.

 

Tenho certeza de que meus bisnetos, se encontrassem hoje uma tropa de burros atravessando a cidade, olhariam a cena com espanto.

 

Chegamos ao progresso atual graças também à força daqueles primeiros companheiros da agricultura e do transporte.

 

Com a modernidade, o homem do campo ganhou novas ferramentas e transformou Mato Grosso em potência do agronegócio.

 

Hoje, muitos dos antigos caminhos das tropas são percorridos por caminhonetes e até jatinhos.

 

Mas, dentro da memória de quem viveu naquele tempo, o som dos cascos ainda continua passando lentamente pelas ruas de Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

01-06-2026







segunda-feira, 8 de junho de 2026

CUIABÁ NO BREU


Entre os anos de 1942 e 1950 a energia elétrica em Cuiabá ainda era instável.

 

Bastava uma pane ou uma chuva mais forte para boa parte da cidade mergulhar na escuridão.

 

As famílias recorriam então aos lampiões, às velas e às conversas nas varandas.

 

Curiosamente, muita gente guarda aquelas noites com carinho.

 

Sem rádio e sem luz, os vizinhos se aproximavam mais.

 

As crianças ouviam histórias dos mais velhos e a cidade parecia desacelerar completamente.

 

A falta de energia, que hoje irrita e impacienta, naquele tempo criava momentos inesperados de convivência e intimidade familiar.

 

A usina que abastecia Cuiabá ficava no rio da Casca, na região da Chapada dos Guimarães.

 

Meu pai era tão treinado para diagnosticar a origem dos apagões que, pelas condições do tempo, conseguia dizer com absoluta segurança se o problema estava no gerador de Cuiabá, instalado no morro da Prainha, ou na distante usina do rio da Casca.

 

Quando o defeito era no gerador da Prainha, a luz logo voltava graças aos especialistas da própria cidade.

 

Mas, quando o problema vinha do rio da Casca, o apagão podia durar dias.

 

Quantas vezes meu pai, já de pijama, depois do lanche da noite, sentado na cadeira de balanço na calçada da nossa casa, via de repente tudo escurecer.

 

Era nesse instante que fazia o diagnóstico certeiro da origem do defeito.

 

As velas eram acessas e todos acabavam se recolhendo cedo.

 

Naquele tempo, o cuiabano estava acostumado ao calor e às interrupções de energia.

 

Meu pai havia comprado um pequeno gerador movido a querosene para manter a sorveteria funcionando e a cerveja sempre gelada.

 

Com a chegada da tecnologia moderna e da Usina do Manso, a falta de energia tornou-se rara em Cuiabá.

 

Também desapareceram as grandes enchentes do rio Cuiabá, sendo a última grande cheia registrada em março de 1974, quando bairros ribeirinhos praticamente desapareceram sob as águas.

 

Hoje a cidade permanece iluminada quase o tempo inteiro.

 

Mas, no silêncio daqueles antigos apagões, muitas famílias acabavam se enxergando mais de perto.

 

Gabriel Novis Neves

01-06-2026










domingo, 7 de junho de 2026

O APITO DA EMBARCAÇÃO


Até os anos cinquenta, o apito das embarcações no rio Cuiabá ainda emocionava muita gente.

 

A cidade vivia num relativo isolamento geográfico, e a chegada dos vapores quebrava a rotina calma das ruas antigas.

 

Mercadorias, jornais, cartas e passageiros traziam notícias do mundo distante.

 

Quando o apito ecoava sobre as águas, parecia que a cidade inteira despertava.

 

Crianças corriam para ver o movimento no porto, enquanto adultos aguardavam encomendas, parentes ou simples novidades. O vapor representava progresso para uma população acostumada às dificuldades das longas distâncias mato-grossenses.

 

Na memória cuiabana daquele tempo, o apito das embarcações ficou associado à esperança à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam lentamente ao coração de Mato Grosso.

 

Com a abertura das rodovias asfaltadas e a inauguração do aeroporto de Várzea Grande, no fim dos anos sessenta e início dos setenta, a navegação perdeu importância para Cuiabá.

 

Os barcos continuaram sustentando muitas cidades ribeirinhas até Corumbá, hoje no Mato Grosso do Sul, mas o velho movimento do porto foi diminuindo aos poucos.

 

Os trilhos da ferrovia aproximaram ainda mais o restante do país.

 

O isolamento foi desparecendo e, com ele, parte daquele romantismo ligado aos rios.

 

Mas certas lembranças não envelhecem.

 

Ainda hoje, quando escuto ao longe o apito de alguma embarcação, imediatamente retorno à velha Cuiabá da minha infância.

 

Vejo o rio movimentado, os homens descarregando mercadorias, as famílias aguardando visitas e as crianças observando tudo com encantamento.

 

O apito do vapor não anunciava apenas uma chegada.

 

Anunciava movimento, esperança e a sensação de que o mundo, mesmo distante, finalmente estava chegando até nós.

 

Gabriel Novis Neves

28-05-2026









sábado, 6 de junho de 2026

CORAÇÕES ABERTOS


Antigamente, nos dias de descanso, a porta da casa costumava ficar aberta por mais tempo.

 

Por ela entravam vizinhos, parentes, conhecidos, notícias, conversas e até o vento fresco das tardes cuiabanas.

 

A casa não era uma fortaleza.

 

Era um lugar de encontros. 

 

Hoje, as portas se fecharam mais, por medo ou por costume.

 

Mas a memória ainda guarda aquela sensação acolhedora de casa aberta, quando a vida da rua conversava naturalmente com a vida de dentro.

 

Na casa da rua de Baixo, onde vivi os primeiros anos da minha infância, não me lembro de meu pai fechar a porta que dava para a rua.

 

Naqueles tempos, muitas famílias dormiam com as portas abertas.

 

Eram casas cheias de filhos, e não era raro que algum deles demorasse a voltar para casa depois das brincadeiras ou das visitas aos parentes.

 

Mais tarde, na rua do Campo, a porta permanecia apenas encostada.

 

Nem chave possuía.

 

Quando retornei a Cuiabá, já formado em Medicina, encontrei uma cidade diferente.  Tinha cerca de sessenta mil habitantes e recebia forte corrente migratória, especialmente dos estados do Sul do país.

 

As portas passaram a ser fechadas durante a noite.

 

Surgiram os guardas-noturnos, uniformizados, percorrendo as ruas com seus apitos característicos.

 

Na época da colonização da Grande Cáceres apareceram os primeiros casos da chamada ‘loucura dos caminhões’, fenômeno que estudei no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho.

 

Pequenos agricultores embarcavam com suas famílias nas carrocerias dos caminhões em busca da terra prometida.

 

Encontravam terras férteis e oportunidades, mas também enfrentavam dificuldades, como a ausência de escolas, postos de saúde e infraestrutura básica.

 

A ocupação territorial avançou, Mato Grosso cresceu e se transformou em uma potência agrícola.

 

O poder político também se deslocou para os novos municípios que surgiram com a colonização.

 

Cuiabá deixou de ser apenas a cidade verde e acolhedora de antigamente para assumir o papel de capital de um estado moderno e dinâmico. 

 

Os antigos casarões foram sendo abandonados. Muitas famílias mudaram-se para apartamentos e condomínios fechados, afastando-se do Centro Histórico. 

 

Hoje vivem em espigões de concreto ou atrás de muros protegidos por portarias, câmeras e senhas.

 

As velhas portas voltadas para a rua quase desapareceram.

 

Talvez o progresso tenha trazido mais conforto e segurança.

 

Mas levou consigo um pouco daquela confiança simples que permitia às casas permanecerem abertas e aos vizinhos entrarem sem cerimônia.

 

A cidade cresceu.

 

As portas se fecharam.

 

Mas a saudade continua aberta.

 

Gabriel Novis Neves

05-06-2026