quarta-feira, 6 de maio de 2026

HERANÇA DE AMOR


Há emoção difícil de explicar quando os menores repetem nomes da família.

 

Chamam o avô, o bisavô, identificam parentes e começam a compreender, ainda de forma vaga, que pertencem a uma história maior do que eles.

 

Ao ouvir esses nomes na boca infantil, sentimos que a memória ganhou novo abrigo.

 

O que antes parecia apenas passado reaparece no presente com voz nova.

 

E assim a família segue, não apenas no sangue, mas também na lembrança.

 

Dos meus bisnetos, só a caçula de apenas dois anos me chama de biso, e não pelo meu nome próprio.

 

Fico alegre em saber que ela já me reconhece, assim como reconhece tias, tios, primas e primos.

 

Também a pedagogia infantil é bem diferente dos tempos antigos.

 

Outrora, comemorávamos nossos aniversários em casa, com tudo preparado pela mamãe.

 

Hoje, existem empresas especializadas para organizar o aniversário dos pequenos, com palhaços, brinquedos e tema da festa de acordo com a idade do homenageado.

 

Piquenique foi o convite do aniversário do meu último bisneto.

 

Eles ganham muitos presentes comprados nas lojas da cidade.

 

Quando eu era criança, tudo era mais simples, e os presentes, em sua maioria, eram artesanais.

 

Os antigos estavam acostumados com crianças de todas as idades e não achavam estranho ser chamados de pai, avô ou bisavô.

 

Confesso que senti algo especial com a chegada do primeiro neto.

 

Tirei fotografia, escrevi poesia, respondia com ar desconcertado quando me perguntavam sobre ele.

 

Imagine a minha felicidade quando aquela criaturinha descobriu que eu era seu avô!

 

Melhor ainda foi quando ela se entregou em meus braços, demonstrando segurança e carinho.

 

Com os bisnetos, a emoção voltou renovada.

 

Eles chegam depois de uma longa caminhada da vida, como flores tardias no jardim da família.

 

Não sabem ainda o que representam, mas trazem consigo a continuidade do nosso nome, dos nossos afetos e da nossa história.

 

Cada vez que uma criança pronuncia biso, alguma coisa dentro de mim se ilumina.

 

É a vida dizendo, com voz pequena, que ainda há futuro.

 

E assim a família cresce na lembrança, no sangue e no amor.

 

Gabriel Novis Neves 

01-05-2026





terça-feira, 5 de maio de 2026

SILÊNCIO NAS REPARTIÇÕES FECHADAS


Nos feriados e pontos facultativos as repartições públicas fechadas parecem guardar um silêncio especial.

 

Corredores vazios, mesas sem papéis novos, telefones mudos, portas trancadas.

 

Quem trabalhou muitos anos no serviço público conhece bem esse contraste.

 

De um lado, a rotina cheia de demandas, papéis, despachos, assinaturas e telefonemas.

 

De outro, o descanso coletivo, quando até os prédios parecem agradecer a pausa imposta pelo calendário.

 

Como comemoramos muitos feriados, nesses dias que deveriam ser apenas de descanso, acabamos saindo da rotina comum.

 

Muitos aproveitam para viajar, fazer trilhas, procurar riachos, cachoeiras e rios piscosos.

 

Há jogo de baralho para uns, redes estendidas para outros, comida simples, conversa jogada fora e a algazarra boa das crianças brincando.

 

Tudo isso faz um bem danado!

 

Fico lembrando a volta para casa, com todos alegres, queimados de sol, cheios de histórias e muito cansados.

 

Parece que apenas os prédios públicos, com suas portas e janelas fechadas, agradecem o feriado em silêncio quase sepulcral.

 

Tudo fica diferente.

 

O ponto de taxi em frente à repartição não funciona como nos dias comuns, e até as linhas de ônibus parecem circular em outro ritmo.

 

O funcionário zeloso, aquele que tem a chave da repartição, às vezes aproveita o silêncio para colocar o expediente em dia.

 

Leva de casa a marmita e passa parte do feriado trabalhando, talvez porque encontre no prédio vazio uma paz rara.

 

Antigamente tínhamos poucos feriados nacionais.

 

Com o tempo, porém, o comércio, necessitando incrementar suas vendas num mundo consumista, passou a transformar quase tudo em data comemorativa.

 

Estados e municípios também criaram seus feriados, e o calendário foi ficando cada vez mais generoso em pausas.

 

Com o desenvolvimento urbano, as cidades ficaram muito próximas.

 

No nosso caso, surgiu a Grande Cuiabá, um conjunto de cidades irmãs, unidas por pontes, estradas, serviços e costumes.

 

Atravessamos o rio Cuiabá e chegamos a Várzea Grande, a segunda cidade mais populosa do Estado.

 

Mais adiante está Livramento, terra de leite e derivados.

 

Subindo a serra, rumo ao Portão do Inferno, encontramos a turística Chapada dos Guimarães, com sua beleza antiga e sempre renovada.

 

Na estrada de Santo Antônio do Leverger está sendo construído o novo Hospital Universitário da UFMT.

 

Cada uma dessas cidades tem seus feriados, suas tradições e suas pausas.

 

Quando o calendário permite, as pessoas procuram movimento, viagem, lazer e convivência.

 

As repartições, ao contrário, ficam imóveis.

 

Fecham suas portas, calam seus telefones, apagam suas luzes.

 

E, por um dia, parecem respirar em paz.

 

Gabriel Novis Neves

04-05-2026




segunda-feira, 4 de maio de 2026

HISTÓRIAS DA ANTIGA CASA


Na casa antiga o feriado tinha outro sabor.

 

Não havia tanta pressa para viajar, nem tantos compromissos fora.

 

O descanso acontecia dentro de casa, com comida simples, conversa na varanda, rádio ligado e visitas inesperadas.

 

As crianças brincavam por mais tempo, os adultos conversavam sem olhar o relógio, e o dia parecia maior.

 

Era um feriado sem luxo, mas cheio de presença.

 

Neste feriadão minha neta me telefonou, dizendo que não viria almoçar comigo.

 

As amiguinhas de sua filha, junto com as primas, dormiram em sua casa, transformando sua espaçosa residência, com piscina e jardim, em uma verdadeira creche alegre.

 

Daria muito trabalho deslocar toda aquela criançada até aqui para o almoço do sábado.

 

Ela preferiu preparar e comprar comida para as pequenas.

 

Entendi perfeitamente.

 

Quando criança eu amava dormir na casa dos meus amiguinhos das redondezas onde morava.

 

Daquela época apenas uma amiguinha permanece viva em Cuiabá.

 

Mas a amizade ficou distante, e raramente nos vemos.

 

Tudo era diferente quando dormíamos nas casas dos vizinhos.

 

A cama, o travesseiro, o café da manhã com pão feito em casa e até as brincadeiras tinham outro encanto.

 

Com tristeza, eu e minha irmã Yara éramos obrigados a voltar para casa.

 

Compreendo, e até invejo, a alegria da minha bisneta com suas amiguinhas passando o dia na piscina, beliscando um petisco aqui, outro ali, e fingindo almoçar.

 

A infância é um período da vida que passa depressa, mas deixa lembranças de como fomos um dia.

 

Recordo, com saudade, meus primeiros anos na bucólica rua de Baixo, verdadeiro encantamento com sua pracinha, caminho do Morro da Luz, passando pela ponte da Prainha.

 

Criança enxerga a beleza com olhos diferentes dos adultos.

 

O mundo das crianças é bem diferente do mundo dos mais velhos.

 

Como gostaria de ser criança outra vez e participar daquele piquenique na casa da minha bisneta!

 

Mas fico aqui, feliz com a alegria dela.

 

Também é uma forma de brincar: lembrar.

 

Gabriel Novis Neves

03-05-2026




domingo, 3 de maio de 2026

FAMÍLIA GRANDE E LONGEVA


Um bisneto correndo pela casa é mais do que uma criança em movimento.

 

É a continuação visível de uma história antiga, iniciada muito antes de seu nascimento.

 

Ele ainda não sabe, mas carrega no rosto, nos gestos ou no simples fato de existir, a vitória silenciosa de uma família que atravessou décadas.

 

Enquanto brinca, sem consciência disso, oferece aos mais velhos uma espécie de consolo: a certeza de que o amor doméstico não termina conosco.

 

Pertencem à sétima geração dos Novis de Cuiabá.

 

Uma das cenas mais lindas da minha vida é receber meus bisnetos nos almoços de sábado!

 

Tenho cinco bisnetos: quatro moram em Cuiabá e um em Portugal

 

Em Cuiabá vivem três meninas e um menino.

 

A mais velha tem nove anos, a caçula apenas dois.

 

Cada um tem seu jeito de me cumprimentar, sempre com muito carinho, demonstrando todo o amor que sente pelo biso.

 

A menorzinha, sempre risonha, me abraça e me beija na boca, repetindo o gesto várias vezes, como se quisesse guardar aquele momento.

 

A mais velha me abraça com ternura e responde às perguntas que lhe faço, com certa maturidade de menina crescida.

 

Sua prima de oito anos se aproxima de onde estou para receber meus beijos na bochecha.

 

O menino de cinco anos, alegre e brincalhão, também tem seu modo único de demonstrar carinho ao seu biso.

 

O bisneto que mora em Portugal fala comigo por vídeochamada e gostaria muito de morar aqui para brincar com seus primos.

 

Sentado na cadeira de balanço, observo a correria e a alegria dos bisnetos pelo salão do apartamento.

 

Nesses momentos, lembro-me de meus pais, de meus avós e de como começou a nossa história.

 

De um lado, Salvador, na Bahia.

 

Do outro, Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

 

Meus pais me contaram essa linda história de amor, iniciada há quase dois séculos, e que, certamente, continuará por muitos outros.

 

Esta é a parte riquíssima que ainda sei contar. Depois de mim, outros continuarão a viver e a narrar essa história.

 

Porque uma família não termina.

 

Apenas muda de mãos.

 

Gabriel Novis Neves

28-04-2026




sábado, 2 de maio de 2026

CASA REPLETA


Há um silêncio particular que se instala na casa depois que filhos, netos e bisnetos se despedem.

 

Durante algumas horas, tudo foi ruído bom: passos, vozes, risos, brinquedos, pratos, chamados e abraços.

 

Depois, a porta se fecha, e a casa vai retomando, devagar, a sua quietude habitual.

 

Mas não volta a ser a mesma.

 

Ficam no ar os vestígios da visita, como um perfume de afeto.

 

E o silêncio, em vez de vazio, passa a ser lembrança repousada.

 

Resta a esperança de que, na semana seguinte, tudo se repita.

 

Quando somos crianças, os dias demoram a passar.

 

Na vida adulta, parecem voar, dando até a impressão de que encurtaram.

 

Isso faz bem ao idoso, que ainda sente pela casa o perfume do afeto, sinal de que filhos, netos e bisnetos voltarão.

 

Mais uma manhã de algazarra, alegria e brincadeiras, com a certeza de que tudo que é bom dura pouco, mas deixa marcas longas.

 

As famílias de antigamente tinham muitas crianças, e isso dava às casas um jeito permanente de festa.

 

A família de meu pai era formada por dez meninos e cinco meninas.

 

A de minha mãe, por sete meninas e um único menino.

 

Na minha casa de infância éramos cinco meninas e quatro meninos, deixando tudo sempre barulhento, com aquele ruído gostoso de se ouvir.

 

As pessoas que leem minhas crônicas diárias comentam que sou saudosista, sempre preso às lembranças do passado.

 

Como não recordar aquilo que passou por nós e nos fez bem?

 

Com Regina construí uma família de três filhos e seis netos, o mesmo número de filhos que tiveram meus pais.

 

Com a chegada dos cinco bisnetos, o silêncio se despediu.

 

Pelo menos nas reuniões de sábado, a casa voltou a ser como nos meus tempos de criança: alegre, cheia e ruidosa.

 

Hoje, fico na dependência do calendário para saborear novamente aquela gostosura antiga, sem o silêncio perturbador da casa vazia.

 

Quando todos vão embora, recolho devagar os ecos da manhã.

 

E fico esperando o próximo sábado.

 

Gabriel Novis Neves

30-04-2026




ALMOÇO EM TRÊS GERAÇÕES


Poucas cenas me parecem tão comoventes quanto uma mesa em torno da qual se reúnem filhos, netos e bisnetos!

 

Nesses momentos o tempo deixa de ser calendário e se transforma em presença viva.

 

Cada geração fala sua língua, tem suas pressas, seus costumes e suas memórias.

 

Mas a mesa realiza o milagre do encontro.

 

Enquanto uns recordam o passado, outros vivem intensamente o presente, e os menores, sem saber, anunciam em seus gestos o futuro da família.

 

No almoço semanal da nossa família, sou o mais velho, com noventa e um anos, e a mais nova é minha bisneta, com apenas dois.

 

Eu quase sempre apenas ouço, pois ninguém me pergunta muita coisa.

 

Talvez imaginem que, pela idade, já falei bastante na vida.

 

Filhos e netos conversam ao mesmo tempo sobre os mais variados assuntos.

 

Fotografam os personagens da reunião de todas as posições possíveis, quase sempre com foco nos menores.

 

Estes, por sua vez, costumam trazer amiguinhos para almoçar na casa do biso, aumentando ainda mais a alegria da mesa.

 

O almoço conta com o apoio de uma mesa auxiliar, para que todas as gerações possam usufruir melhor do encontro.

 

Pela ocupação das cadeiras, com o patriarca na cabeceira, fica nítida uma antiga tendência familiar: de um lado os homens; de outro, as mulheres e as crianças.

 

A mesa auxiliar acolhe especialmente as mulheres e os pequenos.

 

Podemos dizer que essa distribuição é voluntária. É ali que os bisnetos ficam mais à vontade, entre risos, brincadeiras e pequenas travessuras.

 

Depois do almoço, na hora da sobremesa, termina essa organização.

 

Começa então, uma verdadeira dança de cadeiras.

 

Muitos adultos deixam seus lugares por não apreciarem doces ou por obedecerem às dietas que a idade e os exames impõem.

 

Os bisnetos, felizes, ocupam esses espaços.

 

Ainda não sabem que os adultos, às vezes, abrem mão das melhores alegrias da mesa: as sobremesas, os sorvetes, os doces da infância.

 

Eles não fazem economia nesse momento.

 

Para mim, o ponto mais emocionante acontece quando me levanto da mesa para descansar.

 

Meus netos e bisnetos logo oferecem o seu ‘braço amigo’ para me acompanhar até o dormitório.

 

Esperam que eu me acomode e retornam ao salão do almoço, onde a conversa continua, animada e familiar.

 

Fico sozinho por alguns instantes, mas não me sinto só.

 

Levo comigo o ruído bom da casa cheia, o carinho dos meus descendentes e a certeza que a vida continua ao redor da mesa.

 

E, em silêncio, já começo a esperar o próximo almoço.  

 

Gabriel Novis Neves

24-04-2025




quinta-feira, 30 de abril de 2026

MUITOS MODOS DE AMAR


Pai nenhum demora a perceber que os filhos não amam todos da mesma forma.

 

Um demonstra no cuidado prático; outro, na palavra carinhosa; outro, na presença discreta; outro, no telefonema inesperado.

 

O amor, mesmo dentro da mesma casa ou da mesma família, nunca veste roupa igual.

 

Com o tempo, aprendemos a reconhecer a linguagem própria de cada filho e a entender que, por trás de modos tão diferentes, pulsa o mesmo sentimento verdadeiro.

 

O cuiabano, muitas vezes, usa seu próprio vocabulário para demonstrar o sentimento de amar: encabulado, envergonhado, tímido, quase incapaz de pronunciar uma palavra de carinho.

 

O pai entente isso e procura tratar cada filho da mesma maneira, sempre com muito amor.

 

Com o crescimento das crianças podem ocorrer mudanças radicais nesse comportamento afetivo, principalmente

 

quando elas permanecem, por longos períodos, distantes do seu núcleo familiar.

 

A criança tem um poder de imitação incrível.

 

Bastaram seis meses morando no Rio de Janeiro para algumas retornarem com sotaque carioca.

 

Este sotaque é rico em chiados ao pronunciar as palavras, fazendo esquecer, às vezes por completo, o nosso linguajar cuiabano, que acho tão bonito e cheio de ensinamentos!

 

Ele nos dá noções de distância e até nos ajuda a respirar melhor quando a conversa acontece numa cidade de clima quente como Cuiabá. Também aprendem a exteriorizar sentimentos antes inibidos.

 

Os estudiosos procuram explicar a dificuldade da população cuiabana em demonstrar seus sentimentos mais nobres.

 

Desde crianças, éramos obrigados a pedir benção aos nossos pais.

 

Com o crescimento, muitos abandonam essa manifestação.

 

Eu não me lembro de ter sido beijado pelo meu pai, nem de tê-lo beijado.

 

Talvez fosse pela nossa diferença de idade.

 

Quando nasci, ele já era idoso.

 

Com minha mãe, o tratamento afetivo foi totalmente diferente.

 

Havia mais proximidade, mais doçura, mais liberdade para o carinho.

 

Na minha casa, cada filho tem seu modo próprio de amar os pais.

 

Uns falam pouco, mas estão sempre atentos.

 

Outros demostram afeto em pequenos gestos.

 

Há os que telefonam, os que visitam, os que resolvem problemas, os que se preocupam em silêncio.

 

Aprendi, com a idade, que o amor dos filhos não deve ser medido pelo barulho que faz.

 

Às vezes, ele mora numa palavra breve, num olhar de cuidado.

 

Cada filho ama do jeito que sabe.

 

E o coração de um pai aprende a entender todos esses idiomas.

 

Gabriel Novis Neves

26-04-2026