Nas noites em que a luz falhava o lampião de querosene era aceso e espalhava seu cheiro inconfundível pela casa.
A chama tremeluzente projetava sombras nas paredes, e parecia que a casa ganhava vida própria.
As novas gerações não chegaram a conhecer esses lampiões de querosene que foram, durante muito tempo, utilizados nas casas cuiabanas e também na iluminação pública do centro da cidade.
Também em casa usávamos lamparinas de querosene e velas em lindos castiçais de cristal, importados da Europa.
Esses castiçais eram objetos de luxo.
Tenho ainda um par deles na sala de jantar — herança de minha mãe, que os recebeu de seu pai.
Devem ter mais de cento e cinquenta anos e estão em perfeitas condições de uso.
Não me recordo de tê-los acendido.
Para mim são objetos de contemplação —talvez os mais belos da minha casa.
Os castiçais desapareceram das casas atuais, cedendo lugar aos potentes geradores de energia.
Depois da inauguração da Usina do Manso melhorou muito o fornecimento de energia elétrica em Cuiabá.
De vez em quando ainda temos apagões, logo resolvidos, ocasião em que recorro às três lanternas à pilha, livrando-nos do terrível cheiro do querosene que espalhava pela casa.
Quanto ganhamos com o avanço das novas tecnologias a partir da segunda metade do século passado!
Foi um estirão de melhorias em todas as áreas do conhecimento humano.
Ficaram as lembranças de tempos não muitos distantes assim, despertando nos mais antigos uma doce melancolia.
Escrevo uma série de temas sobre objetos que eram obrigatórios nas casas de meus avós e que hoje são desconhecidos pela nova gerações.
Ontem publiquei ‘Cadeiras de Palhinha’; hoje ressuscito os antigos castiçais de cristal.
Meus contemporâneos, ao lerem, haverão de rever em sua imaginação um antigo filme sobres os castiçais de parede das casas cuiabanas.
Farão de tudo para que seus bisnetos compreendam a utilização desses objetos, que não existem mais — a não ser na casa do biso.
Gabriel Novis Neves
11-10-2025