quinta-feira, 20 de agosto de 2026

OUVINDO HISTÓRIAS


Ao cair da tarde as cadeiras ocupavam as calçadas e as conversas atravessavam a rua.

 

O menino permanecia em silêncio ouvindo causos, lembranças e histórias bem-humoradas dos mais velhos.

 

Sem imaginar, estava recebendo uma herança valiosa: o gosto pela boa conversa e pela arte de contar histórias.

 

Eu ainda sou do tempo em que contar histórias era uma das características dos cuiabanos.

 

E como o menino gostava de ouvir os causos contado pelos mais velhos, sentados em cadeiras nas portas das casas ao entardecer!

 

Assim nascia a arte de contar histórias e o prazer pela boa conversa.

 

Todo mundo, na Cuiabá antiga, tinha uma história para contar.

 

Iam dos acontecimentos do cotidiano às histórias de assombração, com o cemitério e seus mistérios.

 

Nossas babás eram exímias contadoras de histórias de terror: a mula sem cabeça, o saci-pererê, a alma do outro mundo e o defunto que saía do cemitério à meia-noite.

 

Havia também o homem que andava com um saco às costas, falando sem parar coisas incompreensíveis.

 

Meu pai tinha um repertório especial para certas datas, como o primeiro de abril — o Dia da Mentira, conhecido entre nós como o Dia da Peta.

 

Logo que eu acordava, meu pai me informava que a ponte que ligava Cuiabá a Várzea Grande havia caído.

 

Eu me interessava, fazia muitas perguntas, e ele respondia a todas com a maior seriedade, para somente no final revelar:

 

— É peta!

 

Gostava muito das histórias de Papai Noel, que entrava nas casas fechadas pela chaminé da cozinha, carregando um saco cheio de presentes.

 

Outras histórias que ouvia com atenção e emoção eram as da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo.

 

Existiam em Cuiabá muitas ruas e casas mal-assombradas, temidas pelas crianças.

 

Nos dias atuais, já não conheço tantos contadores de histórias, nem mesmo daquelas histórias simples que eram contadas para fazer as crianças dormirem, embaladas pelo suave vai e vem da rede.

 

Talvez por isso eu ainda goste tanto de contar histórias.

 

São as vozes daquela Cuiabá antiga que continuam conversando comigo.

 

Gabriel Novis Neves

18-08-2026




CONTANDO ESTRELAS


Nas noites de céu limpo, quando a iluminação da cidade era discreta, o menino deitava-se no quintal para admirar o infinito.

 

Tentava contar as estrelas, reconhecia algumas constelações e imaginava mundos distantes. Sem perceber, aprendia que a imaginação também era uma forma de viajar sem sair de casa.

 

Contar estrelas não era apenas hábito das crianças.

 

Poetas, compositores e boêmios também procuravam no céu inspiração para seus sonhos.

 

Quando menino, minha mãe estimulava os filhos menores a contar as estrelas, sem saber que estava dando asas à nossa imaginação.

 

O infinito sempre me intrigou.

 

Gostaria de saber o que existia além da linha do horizonte, onde o sol e a lua pareciam se esconder.

 

O sol nascia no horizonte, assim como a lua, e as estrelinhas apareciam nas noites de céu limpo.

 

O resto corria por conta da imaginação, inclusive a imagem de São Jorge montado em seu cavalo na lua.

 

Hoje aos noventa e um anos, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, continuo a contemplar o infinito e seus mistérios, alimentando a mesma imaginação do menino.

 

Não conto mais as estrelas.

 

Agora ensino meus bisnetos a contá-las.

 

Talvez eles também descubram que o céu é grande demais para caber nos números.

 

Se eu estivesse na lua, enxergaria a Terra redonda e, quem sabe, compreenderia melhor a importância da nossa imaginação.

 

Quem escreve precisa de memória, esforço e imaginação.

 

Sem memória, eu não poderia contar que um dia fui um menino que se deitava no quintal para olhar o céu e tentar contar suas estrelas.

 

Eram duas missões impossíveis: contar as estrelas e compreender o infinito.

 

Mesmo assim, tentei as duas.

 

O imaginário do menino pode se transformar com o passar dos anos, mas os encantos da infância permanecem vivos na memória dos adultos.

 

Talvez por isso, aos noventa e um anos, eu ainda olhe para o céu.

 

E, por alguns instantes, volte a ser o menino que contava estrelas.

 

Gabriel Novis Neves

12-08-2026




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

SABORES ANCESTRAIS


Na cozinha ou no quintal, preparar a mandioca reunia a família.

 

O menino recebia uma faca pequena e, sob os olhos atentos dos mais velhos, aprendia a retirar a casca grossa sem desperdiçar a polpa.

 

Entre conversas e risadas, descobria que cozinhar também era um gesto de carinho.

 

De todos os jeitos que a mandioca era preparada, sempre ficava deliciosa para servir à mesa.

 

Até a farinha, fina e saborosa, era especialidade das populações ribeirinhas, onde muito se cultivava a mandioca.

 

Ainda hoje é encontrada no Mercado Municipal de Cuiabá.

 

Antigamente, cozinhar era considerado um predicado das mulheres.

 

Hoje, muitos dos melhores restaurantes são comandados por homens e a culinária ganhou cursos especializados e formação profissional.

 

Nos bairros da periferia de Cuiabá, os homens também assumiram muitas tarefas que antigamente eram consideradas exclusivas das mulheres, como cozinhar e lavar roupas.

 

Dos meus três filhos, o do meio gosta de cozinhar e prepara muito bem, com prazer e carinho, alguns pratos.

 

Das minhas irmãs, uma tem cozinha profissional, e as outras fazem alguns quitutes.

 

Os homens da família adoram assar uma carninha na brasa.

 

Eu nem café sei fazer.

 

Sábado é o dia do almoço da família, e a cozinha vira uma festa para atender a tantos gostos diferentes.

 

Mas existe uma unanimidade: a mandioca frita!

 

Da copa, observo o carinho com que o almoço é preparado, respeitando até as preferências de cada um.

 

Eu prefiro a mandioca frita ao pastel de carne ou de queijo.

 

Também gosto da mandioca cozida com um pouco de sal.

 

Minha bisneta de nove anos, porém, gosta de almoçar aos sábados apenas pastéis de queijo.

 

Um dia, perguntei o motivo de tamanha preferência. 

 

Ela simplesmente respondeu que, durante a semana, em sua casa, almoça e janta comida normal.

 

Por isso, espera o sábado para almoçar pastel aqui.

 

Naquele instante compreendi que, para ela, o pastel não era apenas comida.

 

Era o sabor do sábado na casa do bisavô. 


Gabriel Novis Neves

13-08-2026






segunda-feira, 17 de agosto de 2026

GALINHAS NA HORTA


A horta era motivo de orgulho da família, mas bastava um descuido para as galinhas transformarem tudo em confusão.

 

O menino corria atrás delas sem machucá-las, protegendo alfaces, couves e temperos.

 

Entre risos e pequenas correrias, aprendia que cuidar exige firmeza, mas também delicadeza.

 

Um dos problemas do quintal da minha casa na rua do Campo, era a promiscuidade entre a horta e o galinheiro.

 

Mesmo cercada com tela, a horta era frequentemente invadida pelas galinhas, que pisavam em tudo o que encontravam, criando uma grande confusão.

 

Como era difícil correr atrás delas sem machucá-las!

 

Mas era motivo de orgulho para os cuiabanos possuir hortas produtivas, que ajudavam suprir as necessidades da cozinha, quase sempre com um galinheiro ao lado.

 

As famílias pouco precisavam ir às feiras, pois os quintais bem cuidados produziam raízes, verduras, temperos, ovos e frutas durante boa parte do ano.

 

No apartamento onde moro, tenho um pequeno jardim.

 

Além de produzir flores e atrair passarinhos, mantenho uma pequena horta doméstica e algumas frutas, como jabuticabas.

 

É um orgulho fotografá-lo e compartilhar suas belezas com os amigos.

 

Tomando conta da horta e do galinheiro, aprendi que cuidar exige firmeza, mas também delicadeza.

 

Nesta retrospectiva do meu tempo de menino, reencontro ensinamentos que estavam adormecidos na memória.

 

Educar exige atenção, paciência e delicadeza, até nas coisas mais simples da vida.

 

Que bela escola era a nossa casa, tendo como primeiros professores o exemplo dos nossos pais!

 

Havia as conversas na varanda, nas portas das casas e junto às janelas.

 

Os quintais eram verdadeiros centros de convivência e lazer da família.

 

Havia os sinos das igrejas e as batidas do relógio da Matriz.

 

O dia da Primeira Comunhão, quando o jejum era absoluto.

 

As procissões pelas ruas da cidade.

 

O rio Cuiabá e suas enchentes.

 

O córrego da Prainha, com sua bica de água fresca, ajudando a abastecer o centro da cidade.

 

Tudo ensinava alguma coisa.

 

Até as galinhas que invadiam a horta.

 

Foi observando essas coisas simples que o menino do interior aprendeu a viver.

 

Gabriel Novis Neves

14-08-2026




domingo, 16 de agosto de 2026

MANGUEIRAS FLORIDAS


Antes dos frutos chegarem, surgiam as pequenas flores que perfumavam o quintal.

 

O menino observava aquele espetáculo silencioso, aguardando o tempo certo da colheita.

 

Aprendia, ainda criança, que a natureza não conhece pressa e recompensa apenas aqueles que sabem esperar.

 

No mundo atual, esqueceram-se as lições da mãe natureza e até os velhos desaprenderam a esperar.

 

É uma correria desenfreada, onde muitas vezes termina em uma UTI de um hospital da cidade ou no consultório de um psiquiatra.

 

Quando não em uma delegacia de polícia.

 

Meu pai só estudou os quatro anos do antigo ensino primário.

 

Esperou vinte anos para montar o seu negócio: o bar e sorveteria.

 

Mais vinte para se casar com uma mulher vinte anos mais nova.

 

Outros vinte anos para ser pai de nove filhos.

 

Acompanhou seus filhos concluírem os cursos universitários e se casarem.

 

Esperou seu filho mais velho retornar à Cuiabá, para implantar a Universidade Federal de Mato Grosso, como seu primeiro reitor.

 

Meu pai nunca teve pressa.

 

Viu a família florescer, para partir deste mundo no tempo certo.

 

Assim era antigamente, bem diferente dos tempos atuais da pressa, quando tudo tem que ser feito ontem.

 

Eu nunca tive pressa, mas tudo na minha vida aconteceu antes que eu esperasse.

 

Minha carreira administrativa iniciou pelo fim, como diretor de um hospital do Estado.

 

Não era professor e assumi a Secretaria Estadual de Educação.

 

Não tinha curso de pós-graduação e fui escolhido pelo Ministério da Educação para implantar a Universidade Federal de Mato Grosso e ser o seu primeiro reitor, tarefa que demorei onze anos.

 

Fui um dos fundadores da Academia de Medicina de Mato Grosso e seu primeiro presidente, hoje Membro Emérito.

 

Nunca havia lecionado em universidade particular e logo fui convidado para ser o primeiro diretor e implantar o seu curso de Medicina.

 

Não tenho pressa em ter um livro impresso, embora em meu blog tenha publicado mais de quatro mil crônicas.

 

Quando tive pressa acreditando em promessas, não me dei bem.

 

Gabriel Novis Neves

14-08-2026




CUIDANDO DOS PASSARINHOS


Os passarinhos faziam parte da rotina das casas antigas.

 

O menino colocava água limpa nos bebedouros, espalhava sementes e esperava, em silêncio, a visita daqueles pequenos visitantes.

 

Aos poucos descobria que cuidar dos animais era também uma forma de aprender respeito, paciência e carinho pela natureza.

 

O quintal da minha casa só ficava em silêncio durante a noite, quando os passarinhos recolhiam-se para dormir.

 

Bastava o dia clarear para que saíssem em busca de sua alimentação preferida: goiabas, cajus e mangas maduras.

 

Faziam uma alegre algazarra enquanto se alimentavam e entoavam seus cantos para atrair as fêmeas na época do acasalamento.

 

Seu canto enchia a casa de vida, formando uma verdadeira orquestra da natureza.

 

De vez em quando, aves de maior porte, como as pombas, apareciam para beber água ou construir seus ninhos.

 

Cuidar dos passarinhos nunca significou aprisioná-los em gaiolas.     

 

Eles nasceram para voar livremente, espalhando sementes pelos caminhos e contribuindo para o equilíbrio da natureza.

 

Certa vez, meu pai ganhou uma linda arara que falava muito e chamava cada pessoa da casa pelo nome.

 

Para evitar que fugisse, colocaram-na em uma bela gaiola, instalada junto à porta da cozinha.

 

A experiência, porém, não deu certo.

 

A arara acabou sendo doada a um colecionador, e nunca mais soube qual foi o destino daquela gaiola.

 

Hoje moro em um apartamento de cobertura, onde mantenho um pequeno jardim.

 

Ali continuo recebendo a visita de passarinhos que vêm beber água e algumas vezes, até construir seus ninhos.

 

Durante muitos anos, era comum o cuiabano criar passarinhos em casa.

 

Quase todos os antigos casarões exibiam gaiolas penduradas nas varandas e corredores.

 

Inesquecível, porém, era a coleção de Raul José Vieira, filho do deputado Augusto Mário Vieira.

 

Havia tantas gaiolas que algumas ocupavam até o seu dormitório.

 

O amor de Raul pelos pássaros era tão grande, que o levei para a Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Com o apoio científico da professora Mirami Macedo, foi criado o zoológico da universidade, em uma área ao lado da reitoria.

 

Infelizmente, hoje ele está desativado por falta de recursos.

 

Raul José formou-se em Biologia pela UFMT e, já aposentado, continua ministrando cursos para estudantes da UFMT e de escolas de Cuiabá.

 

Uma vida inteira dedicada ao estudo, à preservação e ao amor pelos passarinhos.

 

Gabriel Novis Neves

06-08-2026





Socó-boi e Galinha d'água em fotografias de
Raul José Vieira Neto (@netorauljosevieira) no Instagram 

sábado, 15 de agosto de 2026

TIRANDO ÁGUA DO POÇO


Nas casas antigas buscar água fazia parte da rotina diária.

 

O menino segurava a corda, observava o balde descer lentamente e esperava o momento de puxá-lo de volta, cheio de água fresca.

 

Era uma tarefa simples que ensinava esforço, colaboração e o verdadeiro valor de um bem tão precioso.

 

O poço fazia parte dos quintais quando eu era menino.

 

Além de fornecer água fresca aos moradores da casa, nas festas de Santo Antônio era imprescindível para as brincadeiras das moças casamenteiras.

 

Era no quintal, morada do poço, que aconteciam as danças, todos vestidos de caipiras.

 

Entre as brincadeiras mais procuradas estavam a de fincar a faca na bananeira e a de olhar para o fundo do poço.

 

As moças casamenteiras acreditavam descobrir ali o rosto do futuro namorado.

 

Os rapazes divertiam-se no pau de sebo.

 

O quintal sempre foi um lugar de lazer para toda a família.

 

Além de guardar aquele tesouro de água fresca, era o lugar ideal para armar uma rede e passar a tarde balançando, sem fazer nada, apenas brincando com os próprios pensamentos.

 

Gostava de acompanhar os pedreiros perfurando um poço e observar o capricho com que concluíram a obra, cercando sua abertura com segurança.

 

Um dos prazeres da minha infância era retirar água do poço da casa do meu avô.

 

Encostava-me na mureta e olhava bem lá no fundo, acompanhando o balde amarrado à corda até tocar a água.

 

Depois vinha o esforço de trazê-lo novamente à superfície, carregado daquele líquido precioso. Enchia o latão de vinte litros e o levava até a cozinha.

 

Estava terminada a minha tarefa.

 

Cuiabá nasceu numa baixada, e o lençol freático era superficial.

 

Durante muitos anos as casas não possuíam água tratada nem rede de esgoto.

 

O poço, portanto, não era apenas parte da paisagem dos quintais: era indispensável à vida das famílias.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, formado em Medicina e casado, morei numa casa de oitenta metros quadrados, sem quintal e com a fossa na garagem.

 

O tempo levou os poços, os grandes quintais e muitas daquelas antigas brincadeiras.

 

Mas não levou da minha memória o menino debruçado sobre a mureta, vendo um balde desaparecer na escuridão e voltar trazendo água fresca.

 

Naquele tempo, até tirar água do poço era uma maneira de aprender a viver.

 

Gabriel Novis Neves

12-08-2026