No pequeno quarto da pensão havia uma mesa simples, onde eu passava grande parte do meu tempo.
Sobre ela se acumulavam livros, cadernos e anotações da faculdade.
Era ali que eu revisava as aulas do dia e me preparava para provas que nunca pareciam poucas.
Muitas noites avançavam silenciosas enquanto eu percorria páginas e mais páginas de Medicina.
Aquela mesa modesta acabou se tornando uma fiel companheira da minha vida de estudante.
Eu lia com os olhos e compreendia, enquanto alguns colegas preferiam estudar em voz baixa.
Havia os que varavam a noite inteira, e outros que dormiam cedo para estudar na madrugada.
No período do vestibular, os estudos se tornaram ainda mais intensos.
A formação ginasial e científica em Cuiabá deixava lacunas, sobretudo quando comparada à dos colegas do Rio, vindos de colégios como Santo Inácio ou Pedro II.
Muitos deles sequer precisavam de cursinho para enfrentar o disputadíssimo vestibular de Medicina.
Lembro-me bem da pequena mesa onde estudava, saindo apenas para o cursinho na Cinelândia.
O trauma do vestibular foi tão grande que, por momentos, cheguei a imaginar um acidente que me livrasse daquela pressão.
Eu era o primogênito e carregava, em silêncio, a obrigação de ser aprovado —ainda mais com a confiança que meus pais depositavam em mim.
Durante anos sonhei com o vestibular.
Eram pesadelos que me despertavam no meio da noite.
Mas a vida segue, e as preocupações apenas mudam de nome.
Vieram os desafios do exercício da Medicina no interior, ainda carente de recursos.
A ultrassonografia gestacional, hoje tão comum, só chegou duas décadas depois do meu retorno a Cuiabá.
Naquele tempo, atendíamos pacientes indigentes e pagantes em consultórios simples, com os meios que tínhamos.
Depois vieram as preocupações com os filhos, os netos e os bisnetos.
Agora, chegam as reflexões sobre a própria velhice e os cuidados que ela exige, mesmo quando a saúde se mantém firme.
Hoje, no escritório do meu apartamento, diante da mesa do computador, volto a passar grande parte do meu tempo.
Já não estudo para provas — estudo a memória.
E transformo lembranças em crônicas.
No fim, a mesa mudou.
Mas continuo o mesmo aprendiz da vida.
Gabriel Novis Neves
26-03-2026