A mudança esteve diante de mim por muito tempo.
Não exigia esforço físico, nem grandes explicações.
Bastava um passo para o lado, uma palavra dita no momento certo, um hábito abandonado. Pensei nela em silêncio, várias vezes, enquanto a vida seguia seu curso normal.
Não houve medo declarado, nem falta de oportunidade.
Houve acomodação.
A rotina tem esse poder: transforma o incômodo em parte da paisagem, e seguimos convivendo com ele como se fosse natural.
Não fiz a mudança porque me acostumei.
O que é conhecido, mesmo desconfortável, parece mais seguro do que o novo.
Sabemos onde aperta, onde dói, onde incomoda.
O desconhecido exige coragem, e a coragem não está disponível todos os dias.
Há manhãs em que apenas levantar já é suficiente.
Com o tempo, percebi que a mudança não feita também cobra seu preço.
Ela aparece em pensamentos soltos, em lembranças inesperadas, em perguntas que surgem antes do sono.
Não grita, não acusa, apenas permanece.
É uma presença silenciosa, educada, mas insistente.
Talvez eu não tenha mudado por respeito ao meu próprio tempo.
Aprendi que nem tudo se resolve na pressa. Algumas decisões precisam amadurecer por dentro, como fruta que só cai quando está pronta.
A vida me ensinou que errar também cansa, e que nem toda escolha precisa ser heroica.
Hoje entendo que não mudar também é uma forma de decisão.
Pode não ser a melhor, nem a mais corajosa, mas é humana.
Ao escrever sobre ela, organizo o que ficou guardado.
A escrita me consola e me ensina: viver é escolher todos os dias, inclusive quando escolhemos permanecer onde estamos, em silêncio, tentando compreender.
Gabriel Novis Neves
12-01-2026