Nas famílias cuiabanas era comum receber parentes vindos de localidades distantes.
A chegada era motivo de festa e movimentava a casa inteira.
Preparavam-se refeições especiais, organizavam-se os quartos e surgiam longas conversas.
Os visitantes traziam notícias, histórias e produtos da região onde viviam.
Durante alguns dias a rotina mudava completamente.
Essas visitas fortaleciam os laços familiares e criavam memórias que permanecem guardadas por toda a vida.
Quando eu era criança meus tios paternos moravam em Cuiabá e no Rio de Janeiro.
Por parte de minha mãe, apenas uma tia residia em Cuiabá.
Eu tinha um tio fazendeiro no Pantanal, casado com uma de minhas tias maternas.
Sempre que vinha a Cuiabá, hospedava-se em nossa casa, na rua do Campo.
Minha mãe transformava a sala de visitas em dormitório para recebê-lo.
Seria quase uma desonra deixa-lo ficar em pensão ou hotel.
Com que alegria ela o acolhia.
Eu o ajudava em pequenos serviços e, em troca, recebia generosas gorjetas.
Eram visitas sempre muito aguardadas, e o hóspede jamais chegava de mãos abanando.
Trazia queijos, rapaduras, carne seca e muitas histórias da fazenda, que nos enchiam de alegria e curiosidade.
Minha mãe inventava pratos especiais, tudo para agradar aquele parente que vinha de longe.
Com as estradas pavimentadas encurtando distâncias e a aviação facilitando os deslocamentos, as visitas foram se tornando mais rápidas.
Hoje é comum um parente chegar a Cuiabá, resolver seus compromissos e retornar no mesmo dia.
Aquelas conversas demoradas e alegres, que fortaleciam os laços familiares, foram ficando cada vez mais raras.
O convívio alimentado por cartas, recados e visitas prolongadas deu lugar ao celular e às novas tecnologias.
Talvez elas tenham aproximado as pessoas pela comunicação, mas diminuído a convivência.
Sinto saudade daquele tempo em que a chegada de um parente transformava a casa e deixava, por muitos dias, um pouco mais de alegria no coração de todos.
Gabriel Novis Neves
24-06-2026