quarta-feira, 15 de abril de 2026

VOCAÇÃO AFLORADA


Antes mesmo da formatura houve momentos especiais em que senti algo diferente.

 

Talvez tenha sido durante um atendimento, uma orientação a um paciente ou um gesto simples de cuidado.

 

Ainda não havia diploma, mas já existia responsabilidade.

 

Naquele instante percebi que a Medicina começava a fazer parte de mim.

 

Foi um sentimento discreto, porém profundo, como um passo silencioso em direção ao futuro.

 

Em São Cristóvão, havia um pequeno posto de pronto atendimento que funcionava vinte e quatro horas por dia, sempre com um acadêmico de Medicina do Hospital e Pronto-Socorro Souza Aguiar.

 

As gestantes em trabalho de parto ou abortamento eram conduzidas de ambulância à maternidade do bairro.

 

Certa madrugada atendi uma jovem mulher acompanhada do namorado e de uma irmã adolescente.

 

Eu estava no quinto ano de Medicina e a deixei em observação no repouso.

 

Apresentava um quadro convulsivo após o jantar, com vômitos e perda momentânea da consciência.

 

Peguei uma veia periférica do braço e iniciei a hidratação.

 

Sentei-me na poltrona ao lado do leito para acompanhá-la de perto e controlar seus sinais vitais.

 

Temia tratar-se de um acidente vascular cerebral isquêmico transitório.

 

Como o postinho naquela noite, tinha pouco movimento, pude lhe dar toda a atenção possível.

 

O dia foi clareando, e a paciente, já bem melhor, recebeu alta com orientações e o pedido para retornar no meu plantão seguinte.

 

Assim foi feito.

 

Ela voltou.

 

Examinei-a novamente e tive a alegria de lhe dar alta curada.

 

Então me pediu o endereço do meu consultório.

 

Respondi, com simplicidade, que eu ainda não era médico.

 

Mesmo assim, sabendo que me encontraria sempre às quintas-feiras à noite, passou a comparecer levando-me, com delicadeza, a merenda da ceia.

 

Foi nessa ocasião que me senti médico pela primeira vez.

 

Aprendi, ali, que dedicação e carinho muitas vezes são o primeiro remédio que o paciente espera encontrar.

 

Durante todo o longo exercício da Medicina, nunca esqueci aquele plantão de São Cristóvão.

 

Porque, antes do diploma, já havia nascido em mim a vocação.

 

Gabriel Novis Neves

13-04-2026




terça-feira, 14 de abril de 2026

CARTAS QUE DEFINIRAM O DESTINO


Em meio à rotina intensa da faculdade, uma carta recebida de casa teve um efeito inesperado.

 

As palavras simples, escritas com carinho, trouxeram conforto e renovaram minhas forças.

 

Ao lê-la, senti que não estava sozinho naquela jornada.

 

Era como se a distância diminuísse por alguns instantes.

 

Guardei aquela carta, não apenas como lembrança, mas como um apoio silencioso nos dias difíceis.

 

Para quem partiu de Cuiabá, no início dos anos cinquenta, em direção à cidade grande para estudar Medicina, o apoio da família, por meio das cartinhas semanais, era fundamental.

 

Nos primeiros tempos, tudo era difícil.

 

O colégio, a convivência na pensão, a imensidão da cidade grande — tudo causava desconforto a um adolescente do interior, acostumado a uma vida mais simples e acolhedora.

 

O peso da responsabilidade de ser aprovado ao final do ano, para quem sempre se destacava nos estudos, era mais uma novidade que precisei enfrentar.

 

As cartinhas semanais que recebia de minha mãe, sempre escritas com carinho, mostravam que eu não estava sozinho naquela batalha para me tornar médico.

 

Em nenhuma delas percebi pessimismo em relação ao meu futuro.

 

Confesso que às vezes eu lhe escrevia cartas tristes, cheias de preocupação com os estudos, mas ela sempre me respondia com palavras transbordantes de otimismo.

 

Se de um lado, aquilo me acalmava com tamanha solidariedade, de outro, aumentava ainda mais o meu compromisso de vencer: concluir o segundo grau e conquistar a tão sonhada vaga no vestibular de Medicina.

 

Já na faculdade, tive de me esforçar para ser um bom aluno e, mais tarde, um bom médico. Jamais poderia decepcionar meus pais que sempre confiaram em mim e demonstravam esse amor silencioso nas cartas de minha mãe.

 

Elas mudavam o meu ânimo.

 

Renovando minhas forças para prosseguir.

 

Guardo na memória o retorno ao meu torrão natal, os ensinamentos que ainda recebi de meus pais por longos anos e a felicidade deles diante das nossas conquistas.

 

Valeu a pena.

 

Toda distância, quando sustentada pelo amor, acaba florescendo em vitória.

 

Gabriel Novis Neves

13-04-2026




segunda-feira, 13 de abril de 2026

APRENDER A ENSINAR


Entre tantos colegas, houve um que não se destacava pelas notas, mas pela generosidade.

 

Sempre disposto a ajudar, dividia o pouco que tinha — fosse um livro, uma explicação ou uma palavra de incentivo.

 

Sem perceber, ensinava mais que muitos professores.

 

Com ele aprendi que a Medicina também se constrói com humanidade.

 

E que o verdadeiro conhecimento inclui a capacidade de compartilhar.

 

Minha turma reunia alunos de todos as regiões do Brasil.

 

Naquele tempo havia menos de trinta escolas de Medicina em funcionamento, e o número de estudantes vindos do interior superava o dos cariocas.

 

Meus colegas mais próximos eram, em sua maioria, do interior.

 

Morávamos em pensões, frequentávamos o restaurante universitário e, nos primeiros anos, vivíamos quase exclusivamente para a universidade.

 

As aulas eram essencialmente teóricas e, nas horas vagas, muitos se dedicavam à biblioteca ou aos laboratórios —especialmente o de anatomia.

 

Foi ali que conheci um colega singular, um verdadeiro ‘rato de laboratório’.

 

Assinava presença nas aulas teóricas e seguia direto para dissecar peças anatômicas.

 

Era sempre o último a jantar, quando o restaurante já se preparava para fechar.

 

Sua paixão pela anatomia era tamanha que conquistou a confiança do bedel, até conseguir as chaves do laboratório.

 

Passava noites em claro estudando e, com generosidade, ensinava aos amigos.

 

Logo foi nomeado monitor da disciplina.

 

Suas aulas práticas, muitas vezes, superavam as dos próprios professores.

 

O professor Cavalcante logo o chamou para auxiliá-lo em cirurgias, reconhecendo a excelência de seu conhecimento.

 

Esse colega — que hoje já não está entre nós — sempre me convidava para acompanhar práticas de técnicas operatórias no Instituto Médico Legal, à noite.

 

Sua dedicação à anatomia, às técnicas cirúrgicas e à cirurgia geral impressionava a todos — inclusive quando comparada ao seu desempenho nas demais disciplinas.

 

Havia sido o primeiro colocado no vestibular e permanecia entre os melhores alunos do curso.

 

Ensinava com naturalidade e, mais tarde, casou-se com uma caloura igualmente apaixonada pela anatomia.

 

Costumava dizer, com um brilho nos olhos: — Gostaria de estar na sala dos médicos, e que a irmãzinha do centro cirúrgico da Santa Casa viesse me chamar: ‘Doutor, seu paciente está anestesiado! ’

 

Só então — dizia ele — descobriria qual a cirurgia iria realizar.

 

Ele ensinou a muitos, sem jamais perceber.

 

E a mim, deixou a lição mais bonita: o verdadeiro mestre é aquele que reparte o saber sem saber que ensina.

 

Gabriel Novis Neves

12-04-2026




domingo, 12 de abril de 2026

SAUDADE QUE APERTAVA NAS NOITES CHUVOSAS


Havia noites no Rio de Janeiro em que a chuva parecia trazer Cuiabá para mais perto e, ao mesmo tempo, mais distante.

 

No quarto da pensão, o barulho da água caindo ampliava a saudade da família, das vozes conhecidas, do calor da minha terra.

 

Nessas horas, o estudo perdia força e a memória ganhava espaço.

 

Era uma saudade serena, mas profunda, impossível de ignorar.

 

Hoje, já no início do outono, ao abrir a janela do meu quarto, uma fina garoa molhava o asfalto da rua, retardando o aparecimento do sol.

 

A enfermeira que dorme no quarto voltado para os fundos do edifício, ao me trazer o café, comentou que durante a madrugada, a chuva caiu forte, acordando-a.

 

Bastou isso para que eu voltasse às chuvas do Rio de Janeiro, ao som insistente no telhado da pensão.

 

Vieram, então, as lembranças da cidade onde estudei Medicina e me casei — e de quanto a amo.

 

Não sei se um dia me despedirei por completo do Rio, mas guardo nítida a memória da minha última visita, há seis anos.

 

Refiz o caminho de tantas idas e vindas: da avenida Vieira Souto, em Ipanema, pela orla até a avenida Princesa Isabel; dali, o Túnel Novo, a avenida Pasteur, as praias de Botafogo e do Flamengo, até o aeroporto Santos Dummont. Era o mesmo percurso que, um dia me acolheu como estudante vindo de Cuiabá. 

 

Ali permaneci por onze anos.

 

No Leme, tive um apartamento onde descansei e onde meu filho morou ao estudar Medicina, assim como a minha neta, ao cursar Direito.

 

Talvez por saber que não voltaria mais, no ano passado o vendi.

 

Curiosa é a saudade que a chuva desperta em mim.

 

Quando morava no Rio, a chuva me fazia sentir saudade de Cuiabá — da família, das ruas, das praças.

 

Hoje, em Cuiabá, quando chove, é o Rio que me visita: o quarto da pensão, a maresia, o asfalto brilhante por onde deslizavam ambulâncias — e uma madrugada em que quase perdi a vida.

 

A saudade é assim: aproxima o que ficou longe e nunca nos deixa partir por inteiro.

 

Gabriel Novis Neves

10-04-2026




sábado, 11 de abril de 2026

DESISTIR, JAMAIS


Nem tudo era certeza durante a faculdade.

 

Houve uma noite longa e silenciosa em que o cansaço e as dúvidas pareceram maiores que o sonho.

 

Os livros abertos sobre a mesa não respondiam às minhas inquietações.

 

Perguntei a mim mesmo se estava, de fato, no caminho certo.

 

Foi um momento íntimo, sem testemunhas, em que precisei buscar dentro de mim forças para continuar.

 

Até o quarto ano da faculdade pensei em desistir do curso, como tantos outros que conheci.

 

Consegui vencer aquele momento — um dos mais difíceis da minha vida acadêmica — e seguir até o fim.

 

Passados tantos anos, tenho a certeza que tomei a decisão correta.

 

Meu pai tinha sessenta e seis anos quando conclui o curso de Medicina.

 

Ver o filho primogênito exercendo a profissão em Cuiabá amenizou os seus últimos anos.

 

Quanto a mim, vivi a Medicina com alegria até os oitenta anos, quando uma grave cardiopatia me obrigou a encerrar a carreira.

 

As noites de dúvidas ficaram para trás.

 

Hoje são apenas lembranças sem sequelas, embora, no começo, tenham me feito sofrer muito.

 

Talvez justamente por ser verdadeiro o sonho de me tornar médico, ele viesse acompanhado de tantas noites mal dormidas.

 

Não sei ao certo de onde vieram as forças para prosseguir por um caminho tão longo e exigente. Sei apenas que elas vieram.

 

E isso bastou.

 

Esse fato, que agora escrevo, não teve testemunhas.  

 

Nunca contei a ninguém.

 

Guardei esse segredo por mais de setenta anos e só agora resolvi partilhá-lo, como um gesto de compreensão aos jovens que enfrentam as angústias dos cursos longos e das escolhas precoces.

 

Na adolescência escolher uma profissão nunca foi simples, nem mesmo com ajuda especializada.

 

É nessa idade que, muitas vezes, decidimos o rumo de toda a vida.

 

Também não é diferente com a jovem que escolhe o companheiro com quem deseja seguir adiante.

 

Nunca foi fácil decidir.

 

Mas, às vezes, é justamente na noite mais escura que o destino se revela.

 

Gabriel Novis Neves

09-04-2026




sexta-feira, 10 de abril de 2026

O OFÍCIO DE APRENDER


 
Durante a faculdade meu caderno estava sempre cheio de anotações.
 

Escrevia com atenção cada detalhe das aulas, procurando não perder nenhuma informação importante.
 

Com o passar do tempo, aquelas páginas tornaram-se um registro fiel do meu aprendizado.
 

Mais do que simples apontamentos, eram uma forma de organizar o pensamento e fixar o conhecimento adquirido.
 

Os cadernos dos estudantes de Medicina eram verdadeiras preciosidades e, durante os seis anos do curso, foram meus fiéis companheiros.
 
Um colega maranhense, excelente aluno, fazia suas anotações a lápis, com uma borracha escolar sempre à mão.
 

Corrigia os erros com delicadeza e depois soprava sobre a página os vestígios da borracha, para meu encanto, preservando um hábito dos tempos do ensino primário.
 

Os alunos que usavam cadernos, nem sempre eram bem vistos por parte da turma, que preferia consultar apenas os livros.
 

Mas o conhecimento médico é vasto demais, e anotar o que os professores ensinavam nas aulas teóricas e práticas, era uma necessidade.
 

Essas anotações, a que chamávamos de macetes, tornavam-se resumos valiosos das lições recebidas.
 

Entender e guardar o que líamos nos grossos livros de Medicina sempre foi um processo lento.
 

Ainda mais para aqueles que, no ensino básico, haviam aprendido mais a decorar do que a compreender.
 

Nos bondes que me levavam à faculdade e aos hospitais, eu levava o caderno para rever lições anteriores e manter o estudo em dia.
 

Quando estava sem ele, anotava o que julgava importante nos espaços em branco do livro que carregava.


Fixar o conhecimento me obrigava a reler sempre o que já havia aprendido.
 

O médico é, por natureza, um eterno estudante: de livros, revistas científicas, seminários, simpósios e reuniões clínicas.
 

Com a globalização, a internet, passou a despejar, vinte e quatro horas por dia, novos conhecimentos médicos.
 

Tornou-se impossível, mesmo com o auxílio das anotações, saber tudo sobre a arte de curar.
 

Daí nasceram as especialidades e subespecialidades.
 

E o caderno sempre cheio, companheiro de tantos anos, acabou cedendo lugar ao celular.
 

Mudaram os instrumentos.
 

Mas o ofício de aprender continuou o mesmo.

 

Gabriel Novis Neves
 
09-04-2026




quinta-feira, 9 de abril de 2026

DIAS DE MAIOR ESFORÇO


Havia dias em que a rotina da faculdade se estendia até muito tarde.

 

Entre aulas, estudos e leituras, o tempo passava depressa.

 

Quando eu voltava para a pensão, a noite já havia tomado conta da cidade.

 

O cansaço vinha, mas também a sensação de ter avançado um pouco mais na longa caminhada da formação médica.

 

Antes de dormir, ainda pensava nas tarefas do dia seguinte.

 

A vida de estudante era exigente, mas cheia de esperança.

 

Quando começamos a operar urgências e emergências no Pronto-Socorro, com bons resultados, voltávamos para a pensão aliviados e mais seguros do caminho percorrido.

 

Na Maternidade Pro Matre, o aprendizado seguia em ritmo promissor.

 

O diretor clínico chegou a me convidar para continuar como médico residente, assumindo os plantões de segunda-feira na ausência do titular.

 

Era a esperança começando a ganhar forma.

 

Mas eu queria me preparar melhor para exercer a profissão no interior.

 

Por isso, fui ser médico plantonista no Hospital e Maternidade Álvaro Dias, em Jacarepaguá, então ainda com ares de zona rural do Rio de Janeiro.

 

Ali vivi um episódio que nunca esqueci.

 

Durante um plantão de vinte e quatro horas, acompanhei uma senhora internada há dias em coma diabético.

 

Ao lado dela, o marido permanecia sentado, silencioso, atento a tudo.  

 

Quando fui passar o caso ao colega que me renderia, encontrei a paciente consciente, recuperada e agradecida.

 

O marido, satisfeito, entregou-me seu cartão e pediu que eu lhe telefonasse qualquer dia, menos às segundas-feiras, sua folga.

 

Demorei a ligar.

 

Quando o fiz, disse apenas que queria saber notícias de sua esposa.

 

Ele, muito cordial, respondeu que ela estava bem e então se identificou: era o responsável pela boate do Hotel Copacabana Palace.

 

Convidou-me para jantar, levando minha namorada e um casal de amigos, e assistir ao show em homenagem a Lamartine Babo, produção de Carlos Machado.

 

Fomos.

 

Jantamos e assistimos ao espetáculo perto da mesa do chamado Rei da Noite.

 

Voltei outras vezes, sempre recebido com distinção.

 

Talvez por encantos assim, fui adiando por quase quatro anos meu retorno a Cuiabá.

 

Voltei casado com Regina, já com trinta e cinco semanas de gravidez.

 

Nossa filha nasceu de parto normal na antiga Maternidade de Cuiabá.

 

Apesar da dor da doença traiçoeira que, tantos anos depois, a levou de mim, tudo valeu a pena.

 

Valeu o esforço.

 

Valeu a vida.

 

Gabriel Novis Neves

04-04-2026