sábado, 27 de junho de 2026

OLHANDO AS RUAS


Antes da televisão dominar as atenções, muita diversão acontecia simplesmente observando a rua.

 

Crianças passavam longos períodos sentadas às janelas acompanhando o movimento de pedestres, carroças, bicicletas e vizinhos.

 

Cada pessoa que passava parecia trazer uma novidade.

 

O cotidiano transformava-se em espetáculo.

 

Era uma forma simples de conhecer o mundo e desenvolver a imaginação.

 

Hoje as telas ocupam esse espaço, mas a lembrança continua viva.

 

O progresso foi retirando das casas as janelas voltadas para a rua.

 

Em seu lugar surgiram edifícios de apartamentos e condomínios cercados por altos muros, afastando as pessoas da vida que acontecia do lado de fora.

 

Eu achava bonitas aquelas casas geminadas, sempre com crianças sentadas à janela, observando o movimento da rua.

 

Sem perceber, elas alimentavam a imaginação enquanto aprendiam a conhecer as pessoas e a cidade.

 

Os artistas plásticos da época eternizaram em suas telas esse cenário encantador: crianças à janela contemplando o mundo.

 

Hoje já não se veem crianças nas janelas, e as ruas deixaram de ser aquele grande espetáculo, um verdadeiro parque de diversões.

 

Minha geração brincava livremente nas calçadas e nas ruas, onde raramente passava um automóvel.

 

Muitas amizades, que atravessaram toda a vida, nasceram ali.

 

Na minha rua havia apenas uma mulher que dirigia automóvel.

 

Em toda Cuiabá, recordo-me de apenas mais duas.

 

Por onde passavam despertavam admiração, pois dirigir ainda era considerado uma atividade masculina.

 

As ruas da minha cidade inspiraram escritores, poetas, compositores, fotógrafos e artistas plásticos.

 

Eram cenários vivos, cheios de histórias e personagens.

 

Sentados à janela, as crianças de antigamente, conheciam o mundo pelas conversas de quem passava pelas calçadas.

 

Bastava uma breve parada para uma prosa, e a tarde ganhava um novo encanto.

 

Penso que envelhecer é, em grande parte, aprender a sentir saudade da infância.

 

Se pudesse escolher voltaria a morar numa casa voltada para a rua, sentado à janela, apenas para ver a vida passar.

 

Às vezes, a felicidade mora exatamente nas coisas simples.

 

Gabriel Novis Neves

25-06-2026





sexta-feira, 26 de junho de 2026

O CAMINHÃO DE LEITE


Em muitas manhãs cuiabanas o caminhão de leite anunciava sua chegada pelas ruas ainda silenciosas.

 

As famílias preparavam vasilhas e aguardavam o momento da compra.

 

O movimento fazia parte da rotina diária e marcava o início das atividades da casa.

 

O leite chegava fresco, vindo das propriedades próximas.

 

Pequenos sons do cotidiano desapareceram com o tempo, mas continuam vivos na memória de quem os ouviu durante anos.

 

O leite da minha casa e do bar do meu pai vinham da chácara do seu Mário Esteves, localizada no bairro Grande Terceiro, na região do Porto.

 

Chegava em latões de vinte litros.

 

O funcionário deixava os recipientes na cozinha, onde o leite era fervido no fogão de lenha.

 

Depois, minha mãe retirava parte da nata para o lanche do meu pai e separava o leite destinado ao consumo da família.

 

O restante seguia para a sorveteria do bar.

 

Quando o leite coalhava, era aproveitado na fabricação do sorvete mais saboroso que já experimentei.

 

Ali nada se desperdiçava.

 

O leite era transformado nos mais variados tipos de sorvete, todos feitos de forma artesanal.

 

Até hoje sinto o sabor do sorvete de baunilha, cuja essência era comprada no armazém do seu João Gomes, no Baú.

 

Curiosamente, não me lembro de ver meu pai desfrutando dos produtos da própria sorveteria.

 

Recordo-me dele comprando a matéria-prima, acompanhando a produção e cuidando para que nada faltasse, mas raramente o vi saboreando um sorvete.

 

Até hoje os mais antigos recordam, com saudade, os produtos daquela sorveteria.

 

Ela era muito procurada após as sessões do Cine Teatro Cuiabá, durante os passeios pelo Jardim e também depois da missa na Catedral.

 

Não eram raras as vezes em que o estoque do dia se esgotava completamente.

 

Menino, eu adorava participar da fabricação dos sorvetes e picolés, e mais ainda de sua venda.

 

A criança do interior aprende lições que muitas vezes passam despercebidas aos que crescem nas grandes cidades.

 

Quanta coisa aprendi trabalhando no bar do meu pai.

 

Muito do que conquistei na maturidade devo às experiências simples e valiosas dos meus primeiros anos de vida.

 

Hoje, quando a memória me leva de volta àquele tempo, ainda consigo ouvir o caminhão de leite chegando e sentir o perfume dos sorvetes que adoçaram a minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2024




quinta-feira, 25 de junho de 2026

CAFÉ COM PAZ


O café tomado sem pressa tem gosto diferente.

 

Não é apenas a bebida quente na xícara, mas o tempo que lhe dedicamos.

 

Nos dias comuns, o café muitas vezes é engolido às pressas.

 

Nos dias de descanso, transforma-se em companhia.

 

Pode trazer lembranças da infância, da casa dos pais e das manhãs antigas, quando tudo parecia começar com mais calma e menos obrigações. O cérebro do idoso é um território povoado de memórias.

 

Tudo o que vivemos na infância permanece guardado em algum lugar da alma.

 

Na velhice, poucas coisas são tão agradáveis quanto revisitar os caminhos já percorridos.

 

São ruas, pessoas, vizinhos e ruídos que chegam de muito longe.

 

Nada desaparece por completo; apenas adormece por algum tempo.

 

Às vezes, um aroma desperta tudo novamente.

 

O cheiro da terra molhada, por exemplo, ainda me transporta para os dias da infância e me faz um bem danado.

 

Foram tempos em que não havia pressa.

 

O café tomado sem pressa tem gosto diferente porque carrega junto as lembranças da vida.

 

Na velhice, o tempo volta a caminhar devagar, como nos primeiros anos da existência.

 

E talvez por isso ela tenha encantos que a juventude desconhece.

 

Enquanto escrevo, penso com frequência na rua de Baixo, na Voluntários da Pátria, na Escola Modelo Barão de Melgaço, na praça Ipiranga e na inesquecível professora Oló.

 

Eu não tinha pressa, mas aqueles quatro anos passaram como um sopro.

 

Meus colegas do grupo escolar já partiram, e não tenho mais com quem confirmar certas lembranças.

 

Depois vieram o colégio dos padres, o curso de admissão e os quatro anos de ginásio.

 

Desse período restou apenas uma fotografia e a minha memória para contar a história.

 

Hoje compreendo que a vida inteira passou depressa demais.

 

Mas o café da manhã continua me ensinando que a felicidade mora justamente nos momentos em que não temos pressa.

 

Talvez envelhecer seja isso: aprender a saborear o tempo como se saboreia um bom café.

 

Gabriel Novis Neves 

04-06-2026




quarta-feira, 24 de junho de 2026

SOMBRA DAS MANGUEIRAS


As mangueiras sempre fizeram parte da paisagem cuiabana.

 

Em muitas praças suas copas ofereciam abrigo contra o sol forte e criavam pontos naturais de encontro.

 

Pessoas descansavam nos bancos, crianças brincavam e idosos conversavam sem pressa.

 

A sombra das árvores servia de refúgio para quem atravessava a cidade a pé.

 

Mais do que elementos da natureza, as mangueiras ajudaram a construir a identidade afetiva de Cuiabá e continuam despertando recordações.

 

Como era bom percorrer as ruas de Cuiabá sob a sombra das mangueiras e ainda colher seus frutos generosos para levar para casa!

 

Não me esqueço do caminho entre a minha casa e o Grupo Escolar Barão de Melgaço, na Praça Ipiranga.

 

Na ida, os olhos escolhiam as mangas mais maduras entre os galhos carregados.

 

Na volta, colhíamos algumas e chegávamos em casa orgulhosos da pequena colheita, para surpresa de minha mãe.

 

As ruas arborizadas pareciam uma continuação dos quintais.

 

As árvores eram respeitadas e cresciam livres, sem mutilações desnecessárias.

 

As crianças da minha geração encontravam nas ruas sombras acolhedoras para amenizar o calor e frutos saborosos para adoçar a caminhada.

 

As praças, emolduradas por palmeiras imperiais e mangueiras frondosas, tornavam Cuiabá mais bela, humana e aconchegante.

 

Dizia-se que o pacu, abundante nas águas do rio Cuiabá, era uma das razões que faziam o visitante permanecer na cidade.

 

Eu acrescentaria, sem hesitar, as sombras das mangueiras.

 

Cuiabá nasceu entre largos que mais tarde se transformaram em praças bem arborizadas.

 

Por isso, era possível atravessar boa parte da cidade a pé, protegido pelo verde.

 

Morei na rua do Campo e frequentei o curso de admissão e o ginásio no colégio dos padres.

 

Ia e voltava caminhando, atravessando até o córrego da Prainha em minhas aventuras de estudante.

 

O calor parecia menos intenso sob aquele túnel de sombras que acompanhava nossos passos.

 

Muitas vezes, ao sair das aulas, parávamos na Praça Ipiranga, para conversar, trocar novidades ou saber notícias dos colegas que haviam faltado.

 

O progresso transformou a cidade e modificou sua paisagem.

 

Mas, sempre que me lembro da sombra das mangueiras, reencontro a Cuiabá da minha infância.

 

Há lembranças que permanecem verdes para sempre.   

 

Gabriel Novis Neves

23-06-2026




segunda-feira, 22 de junho de 2026

FERIADOS VIVIDOS EM CASA

 

Nem todo feriado precisa de estrada, mala ou viagem.

 

Alguns dos melhores acontecem dentro de casa.

 

Uma cadeira confortável, uma comida conhecida, uma visita querida, uma flor no jardim, uma música antiga, uma lembrança que aparece sem ser chamada.

 

O feriado dentro de casa tem a vantagem de não exigir preparação.

 

Ele apenas pede disponibilidade para perceber que o descanso também mora perto de nós.

 

Os melhores feriados que passei, foi em casa com mulher e filhos adolescentes.

 

Nosso mundo se resumia a uma pequena volta de automóvel após o jantar.

 

Íamos até o porto, apreciando a beleza da rua 15 de Novembro, com seu canteiro central arborizado e florido, seus lindos casarões coloniais, alguns assobradados e seus moradores sentados em cadeiras de balanço, observando o movimento das ruas.

 

Sou um apaixonado do porto, sala de visitas de Cuiabá.

 

Tudo começava pelo porto, com o seu lindo rio, piscoso e barcos de pescadores e da população ribeirinha.

 

Minha mãe nasceu antes de chegar a Cuiabá, no município de Santo Antônio de Leverger, na Usina de Itaicy, em 1913.

 

Meu avô, foi com a mulher que não sabia estar gravida, à Europa.

 

Foi consultar com os mestres da Medicina, sobre a sua surdez precoce.

 

Lá chegando, minha avó começou a sentir mal.

 

Foi consultar com o doutor Pinar, professor conhecido da Faculdade de Medicina de Paris, inventor do primeiro estetoscópio obstétrico.

 

Ele fez o diagnóstico de gravidez, ouvindo os batimentos cardíacos do feto.

 

Recomendou o seu retorno imediato a Cuiabá, temendo que o tempo de viagem não fosse suficiente para chegar ao seu destino.

 

Para não nascer no vapor, meu avô, médico, conseguiu que o comandante da embarcação aproximasse das beiras da usina.

 

Minha avó foi carregada em rede até a usina, onde foi realizado o parto.

 

Minha mãe foi a mais cuiabana das cuiabanas, sem ser.

 

Como gostaria de receber da Câmara dos Vereadores de Cuiabá, o título de cidadã cuiabana.

 

Assim era o nosso feriado dentro de casa, plantando memórias.

 

Gabriel Novis Neves

08-06-2026






domingo, 21 de junho de 2026

SILÊNCIO DAS RUAS


A rua em dia de descanso mostra outra fisionomia.

 

As lojas fechadas parecem cochilar, as calçadas ficam mais livres, os passos diminuem e os conhecidos aparecem sem a correria habitual.

 

Quem observa bem percebe que a rua também tem humor.

 

Nos dias úteis, ela é apressada.

 

Nos feriados, parece mais humana.

 

Talvez porque, sem tanta gente correndo, possamos finalmente enxergá-la.

 

Nas ruas movimentadas das grandes cidades, muita beleza passa despercebida.

 

Só nos dias de descanso, quando elas ficam mais vazias e silenciosas, conseguimos notar detalhes que a pressa esconde.

 

Nada é mais curioso do que uma rua sem movimento.

 

Com as lojas, bares e lanchonetes fechados, ouvimos melhor as conversas, os pássaros e até os próprios pensamentos.

 

Nasci no Centro Histórico de Cuiabá, onde o comércio fervilhava de gente.

 

Mesmo nos dias de descanso, havia sempre grupos conversando nas esquinas, quebrando o silêncio dos feriados.

 

Quantas vezes visitei o centro do Rio de Janeiro, nos meus tempos de estudante de Medicina, em domingos e feriados, e tive a impressão de estar em outra cidade!

 

As ruas vazias e o comércio fechado revelavam uma face diferente da metrópole, como se sua alma finalmente aparecesse.

 

Nesses momentos, vinha a saudade da Cuiabá que deixei para completar os estudos.

 

Sempre achei os domingos um pouco tristes por retirarem as pessoas da rua.

 

Rua tem vida.

 

E sua vida é o movimento.

 

Antigamente o centro era o principal ponto de encontro da cidade.

 

Todos o procuravam para passear, conversar, namorar ou simplesmente ver o movimento.

 

O Jardim era o grande palco desses encontros, especialmente nas noites de retretas.

 

Vinham pessoas de todos os bairros de Cuiabá e até de municípios vizinhos.

 

Era ali que muitas moças escolhiam seus namorados e muitos casamentos começaram sob o som da banda tocando ao ar livre.

 

As mães mais zelosas costumavam advertir as filhas contra os aviadores e representantes comerciais, considerados excessivamente namoradores e sem paradeiro certo.

 

Assim era a rua em dia de descanso.

 

Menos apressada, mais silenciosa e cheia de lembranças.

 

Talvez por isso ela ainda caminha comigo, mesmo quando já não passo por ela.

 

Gabriel Novis Neves

07-06-2026





TERRA MOLHADA

 

Quem viveu na Cuiabá das ruas sem pavimentação conhece um perfume impossível de esquecer.

 

Bastavam os primeiros pingos de chuva para surgir o cheiro da terra molhada, anunciando o alívio do calor e a chegada de momentos mais amenos.

 

As crianças corriam para as janelas, os adultos levantavam os olhos para o céu e a cidade parecia respirar diferente.

 

Era uma sensação simples, mas capaz de transformar o humor das pessoas.

 

Algumas lembranças permanecem vivas justamente porque chegam acompanhadas de aromas que nunca abandonam a memória.

 

Hoje moro em uma rua pavimentada, no vigésimo andar de um edifício.

 

Muitas vezes fico sabendo que choveu pela internet, sem ouvir o tamborilar das gotas nem sentir o perfume que subia da terra encharcada.

 

Aquele aroma dos pingos de chuva caindo sobre o chão batido da minha infância continua guardado dentro de mim, como uma fotografia invisível que o tempo não conseguiu apagar.

 

Como gostaria de compartilhar com meus netos e bisnetos o cheiro da chuva no chão de terra, tão diferente dos perfumes artificiais que nos cercam hoje!

 

Depois das pancadas de chuva que refrescavam a cidade, nada era mais prazeroso para os meninos do que correr para o córrego da Prainha, levando consigo a alegria de viver e aquele perfume inesquecível espalhado pelo ar. Às vezes me pergunto por que crescemos, por que as cidades se modernizam, se tantas coisas simples e belas acabam ficando para trás.

 

Eu daria muito para voltar a ser criança por algumas horas e caminhar novamente pelas ruas de chão batido da minha pequena Cuiabá.

 

Recordo as crianças nas janelas observando a chuva cair, o calorão desaparecendo aos poucos, as conversas do meu pai sobre as enchentes do rio Cuiabá e a movimentação que a chuva provocava na cidade.

 

O bar ficava cheio.

 

As mesas eram ocupadas por fregueses que aproveitavam a pausa forçada para conversar.

 

Muitas visitas acabavam ficando para o jantar, enquanto esperavam a chuva passar.

 

Já o ponto de taxi ao lado do bar esvaziava-se rapidamente, levando para casa aqueles que não queriam enfrentar as ruas molhadas.

 

Tudo isso pertence ao passado.

 

Mas o perfume da terra úmida, despertado pelas primeiras gotas de chuva, continua intacto.

 

Não existe mais nas ruas da cidade como antigamente.

 

Hoje ele vive apenas na memória.

 

E talvez seja justamente por isso que tenha se tornado tão precioso.

 

Gabriel Novis Neves

18-06-2026