Houve um tempo em Cuiabá em que o gelo era artigo precioso.
Antes das geladeiras modernas, vendedores percorriam as ruas transportando em carrinho de mão grandes barras envolvidas em serragem.
As famílias compravam pedaços para conservar alimentos e refrescar bebidas.
A chegada do vendedor era aguardada com expectativa, especialmente nos dias mais quentes.
Hoje quase ninguém imagina essa rotina, mas ela fez parte da vida doméstica de muitas famílias cuiabanas e permanece viva na memória dos mais antigos.
Lembro-me de seu Silvino de Arruda e de sua fábrica de guaraná Zênite, na rua 13 de junho, em frente à antiga Maternidade de Cuiabá.
Além dos refrigerantes, ele fabricava e vendia barras de gelo, muito apreciadas numa cidade quente como a nossa.
Quantas vezes acompanhei funcionários do bar de meu pai para comprar gelo naquela fábrica da rua 13 de junho!
São recordações que hoje parecem quase inacreditáveis, mas que o tempo não conseguiu apagar.
Não fui fundador de Cuiabá, mas acompanhei e participei de parte importante do seu desenvolvimento.
Por isso, a Cuiabá isolada do restante do país não deve ser esquecida pelas novas gerações.
Gostaria de ver a surpresa de um dos meus bisnetos ao descobrir que a cidade possuía uma fábrica de gelo pertencente a um parente distante e que muitas crianças ainda nasciam em casa.
Profissões comuns na minha infância desapareceram com o progresso e hoje sobrevivem apenas como curiosidades históricas.
Cuiabá sempre foi uma cidade de temperaturas elevadas.
Mesmo assim, sua população seguia costumes europeus no modo de vestir.
Os homens trabalhavam de terno de casimira inglesa, enquanto as mulheres usavam blusas de mangas compridas e saias abaixo dos joelhos.
E, curiosamente, pareciam não sentir calor.
À noite, dormiam até com cobertores.
Eu já era um menino crescido quando chegou a primeira geladeira à nossa casa.
Minha mãe vivia às voltas com as frequentes interrupções de energia elétrica, tão comuns naquele tempo.
Muitas vezes os alimentos se estragavam, obrigando as famílias a comprar apenas o necessário para poucos dias.
Por isso a geladeira de nossa casa jamais ficava cheia de mantimentos.
Era outro tempo.
Um tempo em que o gelo chegava à porta de casa empurrado pelas mãos de um homem.
Gabriel Novis Neves
18-06-2036