Em muitas casas existia um pacote de bolachas reservado especialmente para as visitas.
Ficava escondido no armário da cozinha e ninguém podia abrir antes da hora.
Quando alguém chegava, surgia o prato arrumado ao lado do café passado na hora.
Era um gesto simples de hospitalidade.
Mesmo famílias humildes gostavam de oferecer alguma coisa.
Hoje as visitas diminuíram e os armários mudaram.
Mas a vontade de acolher continua sendo uma das mais bonitas tradições domésticas.
Lembro dessas cenas do meu tempo de menino, guardadas com nitidez na memória e transformadas, agora em crônicas.
Foi escrevendo sobre pequenas coisas da vida que descobri o quanto fui feliz.
As pessoas tinham o hábito de visitar umas às outras.
As casas permaneciam prontas para receber.
No armário da cozinha existia sempre um pacote de bolachas escondido, reservado para as visitas.
Eu acompanhava minha mãe em muitas dessas visitas, inclusive às casas mais humildes de lavadeiras, cozinheiras e faxineiras, nos bairros distantes de Cuiabá.
Mal chegávamos e já apareciam a toalha na mesa, o café passado na hora e as bolachas retiradas do armário.
Era um gesto simples, mas cheio de delicadeza. Naquele tempo, oferecer café e bolacha era quase uma obrigação afetiva.
Hoje muita coisa mudou.
As visitas ficaram mais raras e os encontros mais rápidos.
Alguns recorrem ao celular para pedir salgadinhos e pagar por PIX.
A modernidade trouxe conforto, mas também silenciosos afastamentos.
Mesmo assim, acredito que a hospitalidade não desapareceu.
Ela apenas ficou escondida, como aquele antigo pacote de bolachas guardado no armário da cozinha, esperando alguém chegar.
Gabriel Novis Neves
26-05-2026