Dobrar lençóis recém-lavados exigia paciência, habilidade e certo talento.
Muitas vezes duas pessoas seguravam as extremidades para que tudo ficasse perfeitamente alinhado.
Depois eram cuidadosamente dobrados e guardados no armário, levando consigo o perfume do sabão e do sol.
Eram pequenos rituais domésticos que transmitiam ordem, cuidado e bem-estar.
Hoje esse trabalho quase sempre é realizado pelas lavanderias.
Os lençóis seguem em sacos plásticos e retornam limpos, passados e dobrados, prontos para serem novamente usados.
Na minha infância, porém, era diferente.
As antigas lavadeiras, que moravam longe do centro de Cuiabá, vinham semanalmente buscar as roupas das famílias.
Caminhavam descalças, mascando fumo de rolo, equilibrando sobre a cabeça grandes trouxas envolvidas em lençóis.
Eu admirava a segurança com que carregavam aqueles pesados embrulhos.
Moravam em regiões ricas em córregos e riachos, onde as roupas eram lavadas com água corrente e muito esforço.
De volta à cidade, as passadeiras, com seus ferros aquecidos à brasa, deixavam cada peça impecável.
Os lençóis eram então dobrados com capricho e guardados para o próximo uso.
Nunca me esqueci de Dona Maria Chica, a lavadeira da minha infância.
Gostava quando ela me pedia para comprar um pedaço de fumo de rolo na Casa do Fumo Bom, do seu Dutra, entre a Rua do Campo e a Cândido Mariano.
As lavadeiras desapareceram, os costumes mudaram e a modernidade tornou tudo mais prático.
Mas nenhum serviço substitui a lembrança de um lençol lavado no córrego, passado a ferro de brasa e dobrado com carinho.
São perfumes da infância que o tempo jamais consegue apagar.
Gabriel Novis Neves
15-07-2026