domingo, 12 de julho de 2026

COMPRANDO TECIDOS


Houve um tempo em que comprar tecidos era um verdadeiro acontecimento familiar.

 

As lojas exibiam prateleiras repletas de algodão, linho, chita, cambraia e tantos outros tecidos que despertavam a imaginação.

 

As mães escolhiam cuidadosamente as estampas, enquanto as crianças já tentavam adivinhar como seriam as roupas depois de prontas.

 

Mais do que uma simples compra, aquele momento representava cuidado, economia e expectativa.

 

Cada metro de tecido carregava a promessa de um vestido novo, de uma camisa para uma ocasião especial ou de uma roupa feita sob medida para durar muitos anos.

 

Na minha infância, comprar tecidos fazia parte da rotina da família.

 

Minha mãe conhecia as melhores lojas de Cuiabá e sabia distinguir, apenas pelo toque, a qualidade de cada fazenda.

 

Depois da compra, os cortes eram levados à costureira, que transformava aqueles panos em roupas elegantes.

 

Havia uma alegria silenciosa em acompanhar cada etapa, desde a escolha do tecido até a primeira prova.

 

As roupas não eram descartáveis.

 

Eram usadas com carinho, passavam por pequenos consertos e, muitas vezes, ganhavam nova utilidade quando já não serviam aos filhos mais velhos.

 

Aprendíamos, desde cedo, a valorizar aquilo que possuíamos.

 

Hoje, as vitrines oferecem roupas prontas em abundância, mas desapareceram a espera, a participação da família e o encanto de ver nascer uma peça feita especialmente para nós.

 

Talvez por isso, um simples pedaço de tecido ainda seja capaz de costurar lembranças que o tempo jamais conseguiu desmanchar.

 

Gabriel Novis Neves

10-07-2026




sábado, 11 de julho de 2026

MANHÃS DE DOMINGO


As manhãs de domingo possuíam um ritmo diferente.

 

As ruas despertavam devagar, os sinos das igrejas marcavam o tempo e as famílias prolongavam o café da manhã.

 

Não havia a agitação dos dias úteis.

 

A cidade parecia respirar lentamente, convidando todos a desfrutar da companhia de quem amavam.

 

Era um silêncio sereno que hoje quase desapareceu, mas continua vivo na memória de quem teve o privilégio de vivê-lo.

 

Quanta saudade dos domingos da minha infância!

 

A pequena Cuiabá, com pouco mais de vinte mil habitantes, cabia num abraço.

 

Havia a missa na Matriz pela manhã, o futebol no campinho de terra, almoço com macarronada e galinha caipira.

 

Depois vinha a sesta na rede da varanda, a alegria de ter meu pai em casa durante todo o dia e as visitas que minha mãe recebia com seu jeito acolhedor.

 

Assim eram os domingos que jamais deixaram a minha memória.

 

Poucas coisas são melhores do que ser criança. Crescemos apenas para descobrir que a saudade é a presença daquilo que o tempo levou, mas o coração conservou.

 

Aos 91 anos, sinto-me privilegiado por guardar lembranças tão vivas.

 

O tempo levou pessoas, modificou a cidade e transformou costumes, mas não conseguiu apagar o que realmente importa.

 

O progresso trouxe conforto e facilidades, mas também nos deixou saudades.

 

A cidade que um dia foi o nosso grande brinquedo transformou-se em lembrança.

 

Sempre achei melancólico o entardecer dos domingos.

 

O silêncio voltava a envolver a cidade, anunciando que o descanso chegava ao fim e que uma nova semana estava prestes a começar.

 

Aprendi, ao longo da vida, que os dias só se tornam especiais quando lhes damos significado.

 

Minha mãe compreendia isso como ninguém. Rompia a rotina da casa com pequenas mudanças: pintava as paredes com cores alegres, mudava a disposição dos móveis, promovia encontros familiares e fazia de cada domingo uma oportunidade de aproximar as pessoas.

 

Às vezes sinto vontade de reencontrar os amigos da infância, companheiros das primeiras descobertas.

 

Quase todos seguiram caminhos dos quais não se volta.

 

A biologia venceu os encontros, mas não conseguiu vencer a amizade.

 

Assim é a velhice.

 

Vivemos cercados por lembranças, e nelas descobrimos que alguns domingos nunca terminam.

 

Gabriel Novis Neves 

07-07-2026






sexta-feira, 10 de julho de 2026

VARAL COLORIDO


Nada parecia mais comum do que estender toalhas lavadas no varal.

 

Ao balançarem com o vento, enchiam o quintal de movimento e deixavam no ar o perfume do sabão.

 

As crianças passavam entre elas como se atravessassem um pequeno labirinto de panos coloridos.

 

Quando voltavam para dentro de casa, traziam o cheiro do sol e da brisa.

 

Pequenos gestos como esse transformavam a rotina em lembranças que resistem ao tempo.

 

Hoje muitas toalhas são lavadas em lavanderias, as famílias moram em apartamentos e as casas, em grande parte, estão dentro de condomínios fechados.

 

As crianças de agora dificilmente imaginam que seus pais e avós brincavam entre toalhas recém-lavadas estendidas nos varais dos quintais.

 

Era um cenário de panos coloridos, iluminados pelo sol e embalados pelo vento.

 

Fecho os olhos e ainda vejo o varal do quintal da minha casa, na rua do Campo, repleto de toalhas lavadas com sabão, secando ao calor do sol cuiabano.

 

Minha mãe em voz alta, advertia as crianças que brincavam por perto para que não encostassem nas toalhas ainda úmidas.

 

Bastava o aviso para que todos respeitassem aquela pequena regra da casa.

 

Esse universo de recordações continua a nos encantar.

 

São lembranças simples, mas carregadas de ensinamentos que permanecem vivos até hoje.

 

Foi assim que acumulamos lições úteis para a vida inteira.

 

Naquele tempo a primeira escola era o próprio lar.

 

Pai e mãe eram os primeiros mestres, ensinando pelo exemplo, pelos conselhos e pelas pequenas tarefas do cotidiano.

 

Quando entrei para a escola pública ainda não sabia escrever o meu nome.

 

Em compensação, já jogava xadrez, aprendido com meu avô.

 

Também não conhecia a tabuada, mas já compreendia o valor de cada peça do tabuleiro e a importância de planejar cada jogada.

 

Esses ensinamentos silenciosos acompanharam toda minha vida acadêmica e profissional.

 

Aprendi cedo que pensar antes de agir costuma ser o melhor caminho.

 

Ouvir os mais velhos continua sendo uma das maiores demonstrações de sabedoria.

 

Às vezes, uma simples toalha secando no varal ensina muito mais do que imaginamos.

 

Gabriel Novis Neves

09-07-2026




quinta-feira, 9 de julho de 2026

O BARULHO DA CHUVA


Poucos sons são tão acolhedores quanto o da chuva caindo sobre um telhado de telhas de barro!

 

As conversas diminuíam, o cheiro da terra molhada invadia a casa e todos acompanhavam, sem pressa, a força da água.

 

A chuva transformava o ambiente num refúgio de paz, onde bastava observar o tempo passar para perceber que a vida também sabia descansar.

 

Até hoje considero um dos mais belos espetáculos da natureza ouvir a chuva tamborilar sobres as telhas antigas, enquanto o perfume da terra molhada invade a casa.

 

Nesses momentos, o silêncio parece indispensável.

 

Ele permite que a alma acompanhe o cair da água, os pingos escorrendo pelos beirais e o suave murmúrio das enxurradas seguindo seu caminho.

 

Era bonito ver as águas deslizarem pelas ruas ainda sem pavimentação.

 

A terra absorvia parte da chuva, as poças refletiam o céu e tudo parecia respirar aliviado depois do calor.

 

Certa vez perguntaram-me se o asfalto seria o responsável pelo aumento da temperatura em Cuiabá.

 

Respondi que acreditava ser muito maior o efeito do desaparecimento das árvores.

 

A Cuiabá da minha infância fazia jus ao apelido de Cidade Verde.  

 

Suas ruas eram generosamente arborizadas, e os quintais, repletos de mangueiras, cajueiros e

 

outras árvores frondosas, impediam a entrada do sol, distribuindo sombras pelas calçadas e refrescando o ambiente.

 

Naquele tempo, as três cidades mais importantes de Mato Grosso eram conhecidas por seus apelidos: Cuiabá era a Cidade Verde, pela exuberante arborização; Corumbá, a Cidade Branca, pela riqueza de seus calcários; e Campo Grande, a Cidade Morena, pela poeira avermelhada que cobria suas ruas.

 

Os apelidos desapareceram com o passar dos anos.

 

Perderam-se também os nomes carinhosos dados às pessoas, às ruas, aos becos e às ladeiras.

 

Na casa de meu pai, eram dez irmãos, e todos possuíam um ou mais apelidos.

 

Alguns tinhas dois e até três apelidos.

 

Faziam parte da intimidade da família e da identidade de cada um.

 

Assim também era a cidade.

 

Talvez por isso, quando ouço a chuva bater num velho telhado de barro, tenho a impressão de que ela desperta lembranças que o tempo nunca conseguiu levar.

 

Gabriel Novis Neves

01-07-2026




quarta-feira, 8 de julho de 2026

RECEBENDO A ENCOMENDA


Quando alguém chegava trazendo um pacote ou uma pequena encomenda, a curiosidade tomava conta da casa.

 

Muitas vezes eram lembranças enviadas por parentes distantes ou produtos difíceis de encontrar.

 

Antes mesmo de abrir o embrulho, a imaginação já fazia seu trabalho.

 

O maior valor quase nunca estava no presente, mas no carinho de quem se lembrou de enviar.

 

Sou do tempo em que era comum receber pacotes e pequenas lembranças de familiares que moravam longe.

 

Cada encomenda parecia diminuir a distância e aproximar as pessoas.

 

O objeto tinha seu valor, mas era o gesto que realmente emocionava.

 

No dia do meu aniversário, os telegramas que recebia eram colocados sobre a minha cama, ao lado dos presentes.

 

As visitas os liam e, de certa forma, compartilhavam comigo a alegria de ser lembrado.

 

Recordo-me de um episódio muito especial.

 

Meu avô viajaria justamente na época do meu aniversário e, antes de partir, perguntou-me:

 

— Você prefere receber agora o presente perfumado, em dinheiro, ou um bonito telegrama para chegar no dia do aniversário?

 

Respondi sem hesitar:

 

— Os dois.

 

Saí da casa dele com o dinheiro no bolso e, no dia do aniversário, recebi o esperado telegrama.

 

Com o tempo compreendi que o dinheiro logo era gasto, mas as palavras carinhosas permaneciam guardadas na memória e no coração.

 

Durante os anos em que estudei Medicina no Rio de Janeiro, nunca voltava a Cuiabá sem levar uma pequena lembrança para os meus pais.

 

Mais tarde entendi que o melhor presente não era o que eu carregava nas mãos, mas a minha própria presença ao lado deles.

 

Certa vez ofereci ao meu pai um belo chaveiro de ouro, preso a um grosso cordão, presente que havia recebido de uma paciente agradecida. Ele agradeceu com carinho, guardou-o no cofre do quarto e jamais o utilizou.

 

O objeto pouco lhe importava.

 

O que realmente o emocionava era o gesto do filho.

 

Hoje, olhando para trás, percebo que os maiores presentes da vida nunca vieram embrulhados.

 

Foram os abraços, os reencontros, as palavras de afeto e o privilégio de estar presente na vida daquele que amamos.

 

Dar e receber carinho continua sendo a mais valiosa das lembranças.

 

Às vezes, um abraço silencioso vale mais do que qualquer encomenda.

 

Gabriel Novis Neves

05-07-2026






terça-feira, 7 de julho de 2026

SAPATOS NOVOS


Receber um par de sapatos novos era um acontecimento importante.

 

Muitas vezes isso acontecia apenas no início das aulas ou em alguma data especial.

 

O brilho do couro, o cuidado para não riscar a sola e o orgulho de estreá-los transformavam aquele simples objeto em motivo de grande felicidade.

 

Os antigos aprendiam desde cedo a cuidar do que possuíam, valorizando cada conquista, por menor que fosse.

 

Meus sapatos eram sempre escolhidos por meu pai.

 

Era uma tarefa da qual ele jamais abria mão e que costumava cumprir após a sesta.

 

Íamos até a Casa Athayde, no início da rua 13 de junho, ao lado da farmácia do seu Vieira.

 

Éramos atendidos pelo próprio proprietário, no setor de calçados.

 

Meu pai escolhia o modelo e pedia ao seu Palma que trouxesse um número sempre maior que o do meu pé.

 

Justificava que eu crescia depressa e que meus pés pareciam crescer ainda mais rápido.

 

No início de cada ano letivo comprava um único par de sapatos.

 

Nas férias do meio do ano, levava-os ao sapateiro para colocar meia-sola e reforçar os calcanhares.

 

Para mim, o sapato era um instrumento de trabalho: acompanhava-me diariamente na escola.

 

Hoje os tênis dominam o mercado, enquanto os sapatos de couro ficaram reservados para ocasiões especiais.

 

Ao escrever sobre meu primeiro par de sapatos novos, recordo também como meu pai me ensinava tantas outras lições da vida.

 

Levava-me para comprar roupas, cortar o cabelo no barbeiro e visitar o alfaiate que confeccionava o uniforme do colégio dos padres, quando eu tinha onze anos.

 

Minha mãe cuidava da educação, da saúde e da organização da casa.

 

Meu pai preparava os filhos para a vida prática.

 

Assim, juntos, criaram nove filhos — cinco mulheres e quatro homens — cada um seguindo seu próprio caminho, sempre sustentado pelos valores aprendidos dentro de casa.

 

Não me lembro de ter recebido sapatos de presente de aniversário.

 

Talvez porque, para meu pai, mais importante do que presentear era ensinar a caminhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




CADEIRAS NA CALÇADA


Quase toda casa possuía um banco ou algumas cadeiras na calçada.

 

Ali os moradores conversavam ao cair da tarde, cumprimentavam os vizinhos e acompanhavam o movimento da rua.

 

Era um espaço simples, mas cheio de convivência.

 

Antes que os portões altos e os muros fechassem as casas, aquele banco aproximava as pessoas e transformava vizinhos em verdadeiros amigos.

 

Foi assim, ainda menino, que conheci pessoas importantes da história de Cuiabá.

 

As cadeiras na porta das casas eram um costume das famílias cuiabanas.

 

Depois do jantar, todos se reuniam para conversar com os vizinhos e cumprimentar quem passava pela calçada.

 

A boa prosa logo surgia.

 

Não demoravam a aparecer o café passado na hora, o bolo caseiro e as risadas.

 

Até o calor parecia perder a força diante da alegria daqueles encontros.

 

As cadeiras da calçada transformavam-se num verdadeiro ponto de encontro da vizinhança.

 

Eu me sentava no batente da porta e ouvia, com curiosidade e atenção, a conversa dos adultos.

 

Era o grande jornal falado da cidade.

 

Naquele tempo era comum ouvir histórias de donzelas que fugiam de casa para se casar, despertando comentários sobre a coragem de jovens apaixonados.

 

Também circulavam notícias da gravidez da empregada que morava com a família, assunto que alimentava a inevitável bisbilhotice daqueles encontros.

 

Quantas lições aprendi apenas ouvindo!

 

Criança não participava da conversa.

 

Ouvia, aprendia e guardava.

 

Na falta de outras diversões, as famílias ocupavam as calçadas.

 

Quem saía com pressa depois do jantar dificilmente conseguia chegar ao destino sem parar em uma ou outra porta para colocar a conversa em dia.

 

Havia também os que saiam de casa apenas para saber das novidades.

 

Numa cidade pequena, sem rádio em muitos lares e muito antes da televisão, eram as calçadas que mantinham a cidade informada. Assim se vivia, com simplicidade, amizade e tempo para as pessoas.

 

O retorno de um filho da terra trazendo um diploma universitário era motivo de orgulho coletivo.

 

A conquista de um era celebrada por todos.

 

Talvez aquele banco da frente da casa tenha sido a primeira escola de convivência de muitas gerações cuiabanas.

 

Nele aprendíamos que uma boa conversa também é uma forma de construir uma comunidade.

 

Gabriel Novis Neves

02-07-2026