Setembro chegava quase sem pedir licença.
Algumas árvores perdiam as folhas, outras começavam a florescer, e o menino percebia pequenas mudanças na paisagem da cidade.
Não havia necessidade de consultar o calendário para saber que o ano caminhava depressa.
Bastava observar os quintais, as praças e o comportamento dos passarinhos.
A natureza possuía seu próprio relógio e, silenciosamente, avisava que mais uma estação estava chegando à velha Cuiabá.
A nova estação chegava cheia de novidades, especialmente para os costureiros, que preparavam roupas mais leves e coloridas para a sociedade cuiabana.
Setembro também era considerado o mês das noivas e dos casamentos elegantes.
Hoje, muitos deles são realizados longe da residência dos noivos, em cidades litorâneas ou até no exterior.
Os pais das noivas costumam justificar que sai mais barato do que uma grande recepção nos salões da cidade natal.
Para mim, setembro sempre foi um mês muito ligado à família.
É o mês de aniversário da minha mãe, de um irmão, de dois dos meus três filhos, de uma neta e de dois bisnetos.
É também o mês que anuncia a primavera e nos lembra que o fim do ano já não está tão distante.
Logo chegarão dezembro, as férias escolares, as festas de formatura, o Natal e o Ano-Novo.
Chegarão também as chuvas de verão, lavando a poeira das folhas e devolvendo aos quintais aquele verde vivo de dá alegria à cidade.
Nas férias, algumas famílias viajam para cidades distantes.
Outras permanecem por aqui, aproveitando as riquezas que a natureza colocou tão perto de nós: o Pantanal, a Chapada dos Guimarães, a Serra de São Vicente.
Temos rios, riachos, córregos, peixes, árvores frutíferas e tantos lugares bonitos para contemplar que, às vezes me pergunto por que procuramos tão longe as belezas que moram ao nosso lado.
Talvez o menino já soubesse disso.
Em setembro ele não precisava viajar para descobrir um mundo novo.
Bastava abrir a janela.
As árvores mudavam a paisagem, os passarinhos festejavam entre os galhos e Cuiabá costumava a vestir novamente o seu verde.
O mesmo verde que acompanhou a minha infância e que, tantos setembros depois, ainda floresce dentro de mim.
Gabriel Novis Neves
24-08-2026