Guardado no bolso ele registra um momento, um deslocamento, uma pressa — e vira memória sem importância.
Todos os meses guardo no bolso da calça um ticket do estacionamento do hospital onde faço a infusão de frascos de imunoglobulina na veia.
Aquele papelzinho marca o tempo de permanência, a pressa em deixar o hospital e, no fim, vira lembrança.
Faço isso há três anos e já tenho material suficiente para escrever uma crônica.
De tão amassado, já o perdi algumas vezes — e fiquei preso no estacionamento, obrigando o gerente a resolver o problema.
Os estacionamentos modernos são totalmente comandados por computadores, e a chave para abrir ou fechar suas traves ou portões é justamente o ticket, que registra entrada, saída e o valor devido.
Tudo hoje é computadorizado, conferindo às finanças do investimento uma precisão quase burocrática.
Quanta importância tem esse papelzinho que recebemos da máquina!
Os manobristas, acostumados ao vai-e-vem de quem chega aflito, logo percebem se o motorista está com pressa ou preocupado.
O manobrista da maternidade, então, conhece como poucos a urgência dos seus passageiros.
E quantas crianças já nasceram ali mesmo, no pátio!
Há, espalhados pela cidade, estacionamentos perigosos, especialmente à noite, quando o motorista deixa o abrigo do carro e se torna alvo fácil.
Lembro-me de quantas vezes — e não foram poucas — tive medo de sair de determinados estacionamentos.
Alguns mantém vigas uniformizados e armados à porta, tentando oferecer alguma segurança.
Hoje existem estacionamentos de todos os tipos, funcionando vinte e quatro horas: hospitalares, comerciais, de entretenimento.
E as lembranças desses lugares, somadas, viram memórias.
A importância delas — ou não — depende sempre de quem narra o fato.
Como tudo na vida, uns episódios são mais felizes que outros.
Com a onda de violência que assola este pais, alguns profissionais liberais ainda podem se dar ao luxo de trabalhar em casa com tranquilidade. Mas são exceções.
Gabriel Novis Neves
22-11-2025







