Esta crônica, como tantas outras que escrevo, é recordação de uma Cuiabá da década de 1940 — cidade que já não existe mais.
Minha casa na rua do Campo tinha um enorme quintal, com mangueiras e outras árvores frutíferas, impedindo a penetração direta dos raios solares.
Era um verdadeiro parque de diversões, com balanços improvisados nos galhos e a fartura de frutos disputados por crianças e passarinhos.
Nos dias quentes, a sombra do mangueiral funcionava como um refresco natural.
Assim era Cuiabá há oitenta anos.
As mangueiras dos quintais foram substituídas por espigões de concreto, alguns com cinquenta andares, onde os moradores mal se conhecem, rompendo a tradição de se pedir emprestado um simples dente de alho para o almoço.
Os de maior poder aquisitivo, por sua vez, se refugiam em luxuosos condomínios afastados da cidade.
A sombra da mangueira no quintal tornou-se passado que não volta mais.
Imagino meus bisnetos me dizendo: ‘Essas coisas só existiram no seu tempo, biso’.
O hoje será o amanhã de ontem, se a humanidade não se preocupar com a sombra do mangueiral e com os passarinhos sem ter o que comer.
Certa ocasião, uma professora de antropologia da Universidade Federal, ouvindo meu lamento saudosista, disse-me para reflexão:
‘Quando o futuro é incerto, o melhor é voltar ao passado’.
Repliquei que o meu futuro era o melhor possível, sem temer a tecnologia que eu mesmo ajudava a implantar naquela cidade de antigos quintalões.
Tínhamos era que aprender a viver com a modernidade — ainda que sem os mangueirais.
Cuiabá de setecentos mil habitantes é bem diferente da pequena cidade de trinta mil habitantes que eu nasci.
A vida, afinal, é um eterno jogo, onde se perde e se ganha.
O que nos importa é saber ganhar com qualidade.
A Faculdade de Medicina foi um ganho de qualidade, já o desaparecimento da sombra das mangueiras nos quintais cuiabanos uma perda irreparável.
Gabriel Novis Neves
08-10-2025