domingo, 4 de outubro de 2026

LENÇO NO BOLSO


Meu pai nunca saía de casa sem um lenço no bolso.

 

Não era apenas um hábito, mas um gesto de elegância de quem estava sempre pronto a oferecer conforto a alguém.

 

A lembrança mais antiga que guardo dele é a de quando se preparava para abrir o bar, nas primeiras horas do dia.

 

Bebia o café em casa e saía a pé, de terno e gravata, com um lenço de seda no bolso superior esquerdo do paletó.

 

Mesmo com o calor de Cuiabá, esse era o seu uniforme de trabalho.

 

Pouco antes de se aposentar, aboliu o paletó, mas manteve as camisas brancas de mangas compridas.

 

Não me recordo de tê-lo visto usando camisas de mangas curtas — nem mesmo seus pijamas fugiam à formalidade: eram sempre de calça e camisa compridas.

 

Revendo álbuns de fotografias antigas de Cuiabá, observo que os homens, mesmo os trabalhadores mais humildes, sempre vestiam ternos.

 

E para um toque de charme, um chapéu panamá completava o traje.

 

Quando criança, ao ver um homem com chapéu panamá, logo o identificava como fazendeiro, usineiro, político — gente rica e importante.

 

Naquele tempo, os médicos usavam terno, gravata e chapéu.

 

Iam à Santa Casa atender seus doentes ou às residências, muitas vezes montados a cavalo.

 

As casas e os hospitais possuíam argolas de ferro nos muros e portais para amarrar o animal.

 

Todos os funcionários públicos — do porteiro ao governador — trajavam terno e gravata.

 

Nas missas de domingo, os homens compareciam impecáveis, em respeito ao ritual e à fé.

 

Como sinto saudades da cidadezinha em que nasci e cresci, tão linda e acolhedora, onde tudo era tão simples!

 

Tudo era perto, e todos pareciam pertencer à mesma grande família, onde a solidariedade era nossa maior moeda.

 

Era uma cidade sem pecados — e a palavra, o nosso PIX.

 

Veio o progresso e suas consequências, afastando de nós a elegância singela de um lenço de seda no bolso do paletó.

 

Gabriel Novis Neves

17-10-2025




O BILHETE DA ESCOLA


Na minha época de estudante o bilhete era o elo entre a escola e os pais.

 

Escrito à mão pela professora, geralmente em papel pautado, era entregue ao aluno com a recomendação de levá-lo “sem perder” para casa.

 

Aquele pequeno papel, dobrado em quatro, carregava respeito, temor e responsabilidade.

 

Nem sempre o conteúdo era motivo de alegria.

 

Quando o aluno se comportava mal, o bilhete vinha com o aviso de que a mãe deveria comparecer à escola.

 

Era o bastante para transformar a travessia até em casa numa caminhada silenciosa, em que o vento parecia mais pesado e o coração batia apressado.

 

Mas também existiam os bilhetes de elogio — o reconhecimento por uma boa redação, uma nota alta ou uma atitude gentil.

 

Esses eram mostrados com orgulho, como medalhas conquistadas com esforço e dedicação.

 

O bilhete representava uma ponte de confiança entre pais e mestres, um diálogo simples e respeitoso.

 

Não havia aplicativos, e-mails ou mensagens instantâneas.

 

Havia apenas o papel, a caneta e o cuidado com as palavras.

 

Mesmo curto, o bilhete era um gesto de atenção e de amor pela educação.

 

Lembro-me do cheiro do papel novo, da letra caprichada da professora e do modo como ela o dobrava, como quem guardava um segredo.

 

Cada bilhete tinha um peso e uma intenção: corrigir, agradecer, elogiar ou simplesmente orientar.

 

A escola de então educava com firmeza, mas também com ternura.

 

O bilhete era a extensão do olhar da professora, que acompanhava o aluno para além dos muros da sala de aula.

 

Talvez por isso aprendíamos melhor — não apenas as lições do quadro, mas também as da vida.

 

Havia emoção nas palavras e responsabilidade em cada recado.

 

Gabriel Novis Neves

Cuiabá, 12 de outubro de 2025




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

LAMPIÃO DE QUEROSENE


Nas noites em que a luz falhava o lampião de querosene era aceso e espalhava seu cheiro inconfundível pela casa.

 

A chama tremeluzente projetava sombras nas paredes, e parecia que a casa ganhava vida própria.

 

As novas gerações não chegaram a conhecer esses lampiões de querosene que foram, durante muito tempo, utilizados nas casas cuiabanas e também na iluminação pública do centro da cidade.

 

Também em casa usávamos lamparinas de querosene e velas em lindos castiçais de cristal, importados da Europa.

 

Esses castiçais eram objetos de luxo.

 

Tenho ainda um par deles na sala de jantar — herança de minha mãe, que os recebeu de seu pai.

 

Devem ter mais de cento e cinquenta anos e estão em perfeitas condições de uso.

 

Não me recordo de tê-los acendido. 

 

Para mim são objetos de contemplação —talvez os mais belos da minha casa.

 

Os castiçais desapareceram das casas atuais, cedendo lugar aos potentes geradores de energia.

 

Depois da inauguração da Usina do Manso melhorou muito o fornecimento de energia elétrica em Cuiabá.

 

De vez em quando ainda temos apagões, logo resolvidos, ocasião em que recorro às três lanternas à pilha, livrando-nos do terrível cheiro do querosene que espalhava pela casa.

 

Quanto ganhamos com o avanço das novas tecnologias a partir da segunda metade do século passado!

 

Foi um estirão de melhorias em todas as áreas do conhecimento humano.

 

Ficaram as lembranças de tempos não muitos distantes assim, despertando nos mais antigos uma doce melancolia.

 

Escrevo uma série de temas sobre objetos que eram obrigatórios nas casas de meus avós e que hoje são desconhecidos pela nova gerações.

 

Ontem publiquei ‘Cadeiras de Palhinha’; hoje ressuscito os antigos castiçais de cristal.

 

Meus contemporâneos, ao lerem, haverão de rever em sua imaginação um antigo filme sobres os castiçais de parede das casas cuiabanas.

 

Farão de tudo para que seus bisnetos compreendam a utilização desses objetos, que não existem mais — a não ser na casa do biso.

 

Gabriel Novis Neves

11-10-2025




quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O CALOR QUE PARECIA PARAR A CIDADE


Havia dias em que o calor de Cuiabá parecia mandar na cidade.

 

Depois do almoço as ruas ficavam quase vazias, as janelas se abriam e qualquer sombra era disputada.

 

O menino procurava o lugar mais fresco da casa, enquanto os adultos reclamavam do tempo.

 

Nem o vento aparecia para ajudar.

 

Tudo parecia parado, à espera de que o sol perdesse a força.

 

Ainda assim, o cuiabano aprendia desde cedo a conviver com aquele calor sufocante.

 

Fui criado sem aparelho de ar-condicionado e, apesar das altas temperaturas, dormia até com cobertor.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, tinha apenas um ventilador no quarto da casinha da rua Marechal Floriano.

 

Para mim, outubro sempre foi o mês mais quente.

 

Costumo brincar que Cuiabá só conhece uma estação: o verão.

 

Talvez por isso tenha estranhado tanto a temperatura mais amena quando deixei minha terra para estudar no Rio de Janeiro.

 

No Colégio Anglo-Americano, na praia de Botafogo, vivia de agasalho, até dentro de casa.

 

Foi ali que me preparei para alcançar meus objetivos e retornar à terra natal, disposto a ser útil à minha cidade e ao meu Estado.

 

O tempo passou, e aquele menino que enfrentava o calor cuiabano sem maiores cerimônias tornou-se intolerante a ele.

 

Hoje durmo em quarto refrigerado, faço as refeições com ar-condicionado e passo as manhãs e as tardes no escritório, também refrigerado.

 

Mudamos nós, e mudou Cuiabá.

 

Os quintais floridos foram desaparecendo.

 

Muitas árvores que ofereciam sombra às calçadas deram lugar ao cimento.

 

Córregos, riachos e tanques, que ajudavam a refrescar a cidade, ficaram apenas na lembrança.

 

A antiga Cidade Verde era realmente verde.

 

Talvez por isso o calor daquele tempo, embora forte, pareça hoje mais suave em minha memória.

 

Ou talvez fosse apenas o menino que sentia menos calor e tinha mais sombras onde se esconder.

 

Gabriel Novis Neves

30-09-2026




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SOMBRAS DAS MANGUEIRAS

 

Esta crônica, como tantas outras que escrevo, é recordação de uma Cuiabá da década de 1940 — cidade que já não existe mais.

 

Minha casa na rua do Campo tinha um enorme quintal, com mangueiras e outras árvores frutíferas, impedindo a penetração direta dos raios solares.

 

Era um verdadeiro parque de diversões, com balanços improvisados nos galhos e a fartura de frutos disputados por crianças e passarinhos.

 

Nos dias quentes, a sombra do mangueiral funcionava como um refresco natural.

 

Assim era Cuiabá há oitenta anos.

 

As mangueiras dos quintais foram substituídas por espigões de concreto, alguns com cinquenta andares, onde os moradores mal se conhecem, rompendo a tradição de se pedir emprestado um simples dente de alho para o almoço.

 

Os de maior poder aquisitivo, por sua vez, se refugiam em luxuosos condomínios afastados da cidade.

 

A sombra da mangueira no quintal tornou-se passado que não volta mais.

 

Imagino meus bisnetos me dizendo: ‘Essas coisas só existiram no seu tempo, biso’.

 

O hoje será o amanhã de ontem, se a humanidade não se preocupar com a sombra do mangueiral e com os passarinhos sem ter o que comer.

 

Certa ocasião, uma professora de antropologia da Universidade Federal, ouvindo meu lamento saudosista, disse-me para reflexão:

 

‘Quando o futuro é incerto, o melhor é voltar ao passado’.

 

Repliquei que o meu futuro era o melhor possível, sem temer a tecnologia que eu mesmo ajudava a implantar naquela cidade de antigos quintalões.

 

Tínhamos era que aprender a viver com a modernidade — ainda que sem os mangueirais.

 

Cuiabá de setecentos mil habitantes é bem diferente da pequena cidade de trinta mil habitantes que eu nasci.

 

A vida, afinal, é um eterno jogo, onde se perde e se ganha.

 

O que nos importa é saber ganhar com qualidade.

 

A Faculdade de Medicina foi um ganho de qualidade, já o desaparecimento da sombra das mangueiras nos quintais cuiabanos uma perda irreparável.

 

Gabriel Novis Neves

08-10-2025



terça-feira, 29 de setembro de 2026

CHIADO NAS PANELAS


No plantão da cuidadora de domingo, ela entrou no quarto para me levar os medicamentos, enquanto eu acompanhava pela televisão uma partida de futebol.

 

De repente, apenas ela ouviu o chiado da panela que havia deixado no fogão.

 

Saiu apressada, sem nada dizer, e correu para desligar o fogão.

 

Até então eu nada sabia.

 

Nem sequer percebi o som.

 

Ao retornar, explicou-me que estava cozinhando arroz integral e que aquele chiado forte era o sinal que já estava na hora de desligar a panela.

 

Esse som constante dominava as cozinhas das antigas casas cuiabanas.

 

Era um ruído que misturava ansiedade, fome e a certeza de que o feijão logo estaria pronto.

 

Naquele tempo, a cozinha ficava próxima à varanda, e sabíamos que o almoço estava prestes a ser servido pelos sons que vinham de lá.

 

Haverá som mais espalhafatoso que o de um bife fritando na frigideira?

 

Trabalhar com gordura quente é arriscar bolhas no dorso das mãos.

 

Mas tudo que é frito, convenhamos, tem um sabor irresistível.

 

E o que dizer dos sons produzidos por uma churrascaria?

 

De longe já se ouvem vozes misturadas ao estalar das brasas e ao ambiente enfumaçado.

 

Ao sair, carregamos impregnado na roupa o perfume da carne assada.

 

Hoje, muitos restaurantes preferem cozinhas blindadas, com possantes exaustores antirruídos, como acontecia na Casa Suíça.

 

Onde todas as mesas ficavam em área descoberta.

 

Curioso: o som da panela de pressão é chamado de chiado, o mesmo termo usado para descrever uma crise de asma brônquica — perceptível até sem estetoscópio.

 

Que saudade tenho de um chiado: dos dias ensolarados, da alegria de um passado que permanece dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

06-10-2025




A VOZ DO RÁDIO NA MADRUGADA


Mesmo depois da chegada da televisão e dos modernos meios de comunicação, os programas noturnos de rádio permanecem insubstituíveis e, até hoje, conservam uma fiel audiência.

 

São companhia para quem está desperto — trabalhando ou não — trazendo notícias, músicas e saudades.

 

Nos jogos de futebol o radinho de pilha colado ao ouvido, descreve ao torcedor cada detalhe: desde a conversa dos jogadores antes de entrarem em campo até os lances mais emocionantes das partidas.

 

O árbitro, por sua vez, comunica-se com seus auxiliares e com o VAR por meio de um pequeno microfone de rádio preso à lapela.

 

Porteiros de edifícios, caminhoneiros, plantonistas de serviços essenciais —todos têm no rádio da madrugada seu fiel companheiro.

 

Também os que sofrem de insônia encontram nele notícias, músicas e memórias que a madrugada desperta, levando-nos a pensar distante.

 

Tudo é diferente no rádio da madrugada: a voz serena do locutor, as músicas escolhidas, os recados cheios de saudade enviados a quem está longe.

 

Quando trabalhava em plantões noturnos nos hospitais da cidade, tinha sempre um radinho de pilha no bolso do jaleco.

 

Era meu companheiro, até mesmo no centro cirúrgico.

 

O rádio da madrugada começava ao entardecer e se estendia até às oito da manhã, quando a programação do dia assumia o comando.

 

O jornal matinal era preparado pelos radialistas que atravessavam a noite acordados.

 

Muitos jornalistas aprenderam a profissão nesse ofício silencioso e mágico.

 

Gostava de trabalhar na madrugada, onde tudo parecia mais calmo e acolhedor, desde os tempos de estudante no Rio de Janeiro.

 

Escrever relatórios de partos ao som do rádio noturno era tarefa que me enchia de paz — e ainda hoje desperta em mim um sentimento de doce nostalgia.

 

Quando morei no Porto, na rua Major Gama, era convidado a participar do programa da madrugada da Rádio Cultura, bem próxima de minha casa.

 

Ia e voltava a pé.

 

O assunto das entrevistas era sempre a criação de novos cursos e as obras da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Já se passaram cinquenta e cinco anos.

 

Quanta saudade!

 

Gabriel Novis Neves

03-10-2025