sábado, 6 de junho de 2026

CORAÇÕES ABERTOS


Antigamente, nos dias de descanso, a porta da casa costumava ficar aberta por mais tempo.

 

Por ela entravam vizinhos, parentes, conhecidos, notícias, conversas e até o vento fresco das tardes cuiabanas.

 

A casa não era uma fortaleza.

 

Era um lugar de encontros. 

 

Hoje, as portas se fecharam mais, por medo ou por costume.

 

Mas a memória ainda guarda aquela sensação acolhedora de casa aberta, quando a vida da rua conversava naturalmente com a vida de dentro.

 

Na casa da rua de Baixo, onde vivi os primeiros anos da minha infância, não me lembro de meu pai fechar a porta que dava para a rua.

 

Naqueles tempos, muitas famílias dormiam com as portas abertas.

 

Eram casas cheias de filhos, e não era raro que algum deles demorasse a voltar para casa depois das brincadeiras ou das visitas aos parentes.

 

Mais tarde, na rua do Campo, a porta permanecia apenas encostada.

 

Nem chave possuía.

 

Quando retornei a Cuiabá, já formado em Medicina, encontrei uma cidade diferente.  Tinha cerca de sessenta mil habitantes e recebia forte corrente migratória, especialmente dos estados do Sul do país.

 

As portas passaram a ser fechadas durante a noite.

 

Surgiram os guardas-noturnos, uniformizados, percorrendo as ruas com seus apitos característicos.

 

Na época da colonização da Grande Cáceres apareceram os primeiros casos da chamada ‘loucura dos caminhões’, fenômeno que estudei no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho.

 

Pequenos agricultores embarcavam com suas famílias nas carrocerias dos caminhões em busca da terra prometida.

 

Encontravam terras férteis e oportunidades, mas também enfrentavam dificuldades, como a ausência de escolas, postos de saúde e infraestrutura básica.

 

A ocupação territorial avançou, Mato Grosso cresceu e se transformou em uma potência agrícola.

 

O poder político também se deslocou para os novos municípios que surgiram com a colonização.

 

Cuiabá deixou de ser apenas a cidade verde e acolhedora de antigamente para assumir o papel de capital de um estado moderno e dinâmico. 

 

Os antigos casarões foram sendo abandonados. Muitas famílias mudaram-se para apartamentos e condomínios fechados, afastando-se do Centro Histórico. 

 

Hoje vivem em espigões de concreto ou atrás de muros protegidos por portarias, câmeras e senhas.

 

As velhas portas voltadas para a rua quase desapareceram.

 

Talvez o progresso tenha trazido mais conforto e segurança.

 

Mas levou consigo um pouco daquela confiança simples que permitia às casas permanecerem abertas e aos vizinhos entrarem sem cerimônia.

 

A cidade cresceu.

 

As portas se fecharam.

 

Mas a saudade continua aberta.

 

Gabriel Novis Neves

05-06-2026




sexta-feira, 5 de junho de 2026

AS NOITES DO CINE TEATRO CUIABÁ


Na década de 1940 ir ao cinema em Cuiabá era um importante acontecimento social. 

 

As famílias se arrumavam com esmero para assistir aos filmes americanos, aos musicais e aos dramas românticos que chegavam com atraso, mas encantavam o público da mesma forma.

 

O Cine Teatro reunia namorados, estudantes e famílias inteiras.

 

As calçadas ficavam movimentadas antes das sessões, num vaivém elegante de pessoas conversando e aguardando o início do espetáculo.

 

Muitos jovens conheceram ali as primeiras histórias de amor, aventura e fantasia.

 

Para uma cidade ainda pequena e distante dos grandes centros, o cinema representava uma janela aberta para o mundo, despertando sonhos em quem jamais havia saído de Mato Grosso.

 

As grandes companhias de teatro também traziam seus artistas à Cuiabá para encenações memoráveis.

 

Ainda menino, ouvi pela primeira vez meu pai convidar minha mãe para assistir Procópio Ferreira interpretando a peça Deus lhe Pague.

 

A obra escrita pelo dramaturgo, jornalista e professor Joracy Camargo, membro da Academia Brasileira de Letras, tornou-se um dos maiores sucessos da dramaturgia nacional.

 

Mais tarde, o Cine Teatro passou a abrigar, nas manhãs de domingo, programas de rádio de entretenimento comandados pelos pioneiros Rabelo Leite, Alves de Oliveira, Salomão Amaral entre outros.

 

O público era formado principalmente por estudantes, embora muita gente preferisse acompanhar as apresentações pelo rádio dentro de casa.

 

Os programas terminavam ao meio-dia, pouco antes das matinés, consideradas o lugar ideal para os namoros juvenis, mesmo sob a vigilância atenta dos lanterninhas.

 

Eram funcionários encarregados da disciplina do cinema, caminhando discretamente pelos corredores com pequenas lanternas nas mãos.

 

Como ainda não existia televisão em Cuiabá, os cinemas e os passeios pelo Jardim tornaram-se os maiores entretenimentos da cidade, especialmente nas noites de quinta-feira e domingo.

 

Depois surgiu o Cine Tropical.

 

Tinha capacidade para cerca de mil e duzentas pessoas, poltronas revestidas de couro vermelho e enormes cortinas de veludo.

 

Era considerado o único cinema ‘ajardinado’ do país.

 

Exibia as maiores produções mundiais da época e recebia apresentações de grandes artistas nacionais.

 

O glamour era tanto que assistir às sessões transformava-se em verdadeiro acontecimento social, exigindo dos frequentadores roupas elegantes e comportamento refinado.

 

O Cine Bandeirantes, na rua de Cima e o Cine São Luiz, no Porto, também foram salas que deixaram saudades profundas na memória cuiabana.

 

O prédio histórico que melhor resistiu ao tempo foi o Cine Teatro Cuiabá, que permanece em funcionamento até hoje, preservando parte importante da cultura da cidade.

 

Há quarenta anos surgiu também o Teatro da UFMT, inaugurado por Tônia Carrero com a peça Macunaíma, de Mario de Andrade, dirigida por Antunes Filho.

 

Mais tarde, a universidade criou ainda o Cine Clube Coxiponés, ampliando os espaços dedicados à arte e ao cinema em Cuiabá.

 

Os cinemas mudaram, os costumes também.

 

Mas as luzes se apagando antes da sessão continuam iluminando as lembranças de quem viveu aqueles tempos.

 

Gabriel Novis Neves

31-05-2026






 






'PRACINHAS' DE CUIABÁ


Durante a Segunda Guerra Mundial muitos jovens cuiabanos foram convocados para servir ao Exército.

 

Entre 1942 e 1945, famílias acompanhavam apreensivas as notícias vindas do rádio e dos jornais.

 

A guerra parecia distante, mas suas consequências chegavam até as ruas tranquilas de Cuiabá.

 

Havia medo, orgulho e incerteza.

 

Algumas mães rezavam diariamente pelos filhos fardados.

 

A cidade viveu aqueles anos com sentimentos misturados, tentando compreender um conflito mundial que alterava hábitos, preços, comportamentos e a própria visão que o Brasil tinha de si mesmo.

 

Eu fui à despedida dos pracinhas brasileiros, nas escadarias da Catedral.

 

Missas foram celebradas com sermões de Dom Aquino Correa.

 

Políticos e a sociedade participaram daquele que talvez tenha sido o maior evento popular da Cuiabá daquele tempo.

 

Infelizmente, alguns dos nossos heróis não retornaram, tombando nos combates da Itália contra o nazi-fascismo que ameaçava dominar o mundo.

 

Assisti a tudo ao lado do meu pai, da porta da sorveteria do bar, ao lado da Catedral.

 

São lembranças que nunca consegui esquecer.

 

O fim da Segunda Guerra Mundial ocorreu oficialmente em 8 de maio de1945.

 

Foi decretado feriado nacional e fui levar uma bandeja de pastéis ao bar.

 

Naquela época não tínhamos rádio em casa e as notícias da guerra chegavam pelas ruas.

 

No trajeto da minha casa, na rua do Campo, até o bar do meu pai, na Praça Alencastro, vi a cidade diferente.

 

Os cuiabanos ocupavam as ruas, soltavam foguetes e enchiam as mesas dos bares em clima de alegria.

 

Eu era coroinha da Catedral e ajudava na administração da igreja.

 

Encontrei na porta do bar meu colega de escola e igreja, Carlos Eduardo Maciel Epaminondas, filho de um dos médicos mais conhecidos de Cuiabá.

 

Ele me contou que ouvira pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro que a guerra havia terminado e que o povo brasileiro comemorava nas ruas.

 

Os sinos das igrejas repicavam em festa.

 

Os de Cuiabá permaneciam silenciosos.

 

Meu colega perguntou se eu toparia tocar os sinos da Catedral sem autorização das autoridades eclesiásticas.

 

Lembrei dos soldados da Força Expedicionária Brasileira — FEB — e topei.

 

Minutos depois estávamos na torre da Catedral, tocando seus três sinos.

 

Logo outras igrejas fizeram o mesmo.

 

E Cuiabá inteira pareceu sorrir em paz.

 

Gabriel Novis Neves 

29-05-2026





quarta-feira, 3 de junho de 2026

O FERIADO QUE NINGUÉM SABE EXPLICAR


Existem feriados que todos comemoram, mas poucos sabem explicar.

 

Descansamos, viajamos, adiamos compromissos, mas quase nunca lembramos a origem da data.

 

O calendário vai acumulando nomes, santos, heróis, lutas e acontecimentos.

 

Com o tempo, o significado se apaga, mas o descanso permanece.

 

Talvez por isso seja bom, de vez em quando, perguntar o que aquele dia realmente representa.

 

Aos noventa anos, confesso que ainda tenho muito a perguntar sobre certos feriados.

 

O mês de junho, por exemplo, quase inteiro pertence aos santos festeiros: Santo Antônio, São João e São Pedro.

 

No primeiro domingo de julho acontece a tradicional festa de São Benedito, que muitos confundem como o padroeiro de Cuiabá.

 

Na baixada cuiabana, essas festas atravessam junho, julho e às vezes chegam até agosto.

 

Como era gostoso receber convites para comemorações em bairros distantes ou chácaras iluminadas por fogueiras!

 

Havia música ao vivo, dança, fogos de artifício, comida da roça e gente animada até a madrugada.

 

Homens e mulheres vestidos para a festa acompanhavam a procissão do santo no andor, muitas vezes seguidas do banho no rio.

 

Hoje, essa tradição sobrevive em algumas famílias e comunidades mais antigas.

 

A igreja continua celebrando seus santos com missas de madrugada, procissões e quermesses.

 

Meus pais festejavam São Pedro, no dia vinte e nove de junho.

 

Meu pai levava a imagem do santo até a igreja para a missa.

 

Depois, em nossa casa da rua do Campo, servia-se chá com bolo e queima de fogos de artifício.

 

Havia almoço para a família, amigos íntimos e, mais tarde, fogueira acessa no quintal.

 

Meu pai amava fogos de artifício.

 

Trazia caixas de tric-trac, foguetes, pistolões, busca-pés, balões e até fósforos de palitos coloridos, que encantavam as crianças.

 

O mate queimado acompanhado dos bolinhos feitos no forno da cozinha completava a festa.

 

Tudo terminava vencido pelo cansaço feliz dos convidados.

 

As festas juninas foram se descaracterizando com o tempo.

 

Hoje sobrevivem, principalmente, nos pátios das escolas e na lembrança das famílias tradicionais.

 

Mas basta o cheiro da fogueira ou o estampido de um foguete distante para que junho inteiro volte a viver dentro de nós.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2026




terça-feira, 2 de junho de 2026

DIA ESQUISITO


Hoje parecia um dia comum.

 

Acordei cedo para minha ida mensal ao hospital, às sete horas, para as infusões de imunoglobulinas.

 

Tudo dentro da rotina que a idade e a disciplina me impuseram.

 

No trajeto telefonei ao meu amigo da ótica.

 

Uma pequena parte da armação do lado esquerdo dos meus óculos estava se soltando.

 

Perguntei se poderia levá-lo para conserto.

 

Ele pediu que aguardasse até as dez horas.

 

A loja havia sido assaltada e ele tentava resolver o prejuízo.

 

Depois do meio-dia, já de volta para casa, o motorista me entregou a armação perfeita.

 

Perguntei se tinham trocado a peça danificada.

 

Ele respondeu que não.

 

O dono da ótica passara quase uma hora no laboratório, resolvendo o problema.

 

Fez uma verdadeira cirurgia plástica na armação dos meus óculos.

 

Telefonei para agradecer e elogiar o trabalho.

 

Perguntei o valor do serviço.

 

A resposta veio simples e elegante:

 

— Para o senhor, nada.

 

O dia seguiu.

 

Depois de mais de dez anos, assinei um contrato de prestação de serviços com o escritório de contabilidade — exigência do Conselho Regional de Contabilidade.

 

Para mim, nada muda; para eles, seis folhas de papel.

 

O advogado que cuida dos meus interesses junto à UFMT pediu os holerites de dezembro e janeiro. 

 

Graças à enfermeira cuidadora, consegui providenciar.

 

Minha filha enviou a lista da farmácia, do mercado e dos presentes.

 

Pagarei em prestações.

 

Só em medicamentos foram cinco mil reais.

 

Viver com saúde custa caro.

 

Com tanta movimentação, perdi o sono.

 

Mas o essencial permanece: estou feliz e com saúde.

 

Vivo a expectativa do almoço de sábado, com a família reunida — já somos dezessete quase dezoito.

 

E também aguardo meu próximo holerite em ordem.

 

Sonhos ainda tenho muitos.

 

A realização de alguns dependerá de pelo menos dois anos, segundo o advogado.

 

Será preciso ter a paciência de Jacó, esperando Labão conceder a mão de Raquel.

 

A vida ensina que dias esquisitos não são desordem.

 

São apenas capítulos mais movimentados de uma história que continua sendo boa de viver.

 

Gabriel Novis Neves

10-02-2026




segunda-feira, 1 de junho de 2026

A MEMÓRIA QUE ESCOLHE


Percebo que a memória anda seletiva.

 

Esqueço nomes recentes, mas guardo, intactos, detalhes da juventude.

 

Recordo ruas, vozes e cheiros de décadas atrás.

 

O passado se apresenta com nitidez surpreendente.

 

Talvez envelhecer seja também reorganizar as lembranças.

 

O velho conversa com prazer sobre o que já viveu.

 

Seu presente, por vezes, parece feito de passado.

 

Gosta de contar histórias da família, da cidade, das conquistas.

 

E quase sempre encontra ouvintes atentos, sobretudo entre os mais jovens.

 

Envelhecer é privilégio de poucos —sobreviver aos impropérios do tempo não é façanha comum.

 

Nunca imaginei chegar onde cheguei, com a memória ainda íntegra, lembrando fatos antigos e recentes.

 

Aproveito essa dádiva para escrever sobre o cotidiano, quase sempre com os pés firmados no ontem.

 

Aprendi a ouvir meu avô.

 

Suas histórias enriqueceram meu presente.

 

A oralidade raramente está nos livros; é nela que pulsa a verdade sentida dos fatos.

 

Muito do que sei sobre a história de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil devo às conversas com o historiador Estevão de Mendonça e seu filho, também historiador, Rubens de Mendonça.

 

Foram meus vizinhos na rua do Campo,  respeitados pela gurizada do meu tempo.

 

Com que entusiasmo narravam episódios da Guerra do Paraguai e os feitos de seus heróis!

 

Sim, o velho reorganiza as lembranças.

 

Recordo, com emoção, os longos anos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro.

 

Hoje parecem sonho.

 

O prédio histórico da faculdade foi demolido; resta-nos a fotografia.

 

A boate Casablanca, no térreo da estação do bondinho para o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, que conheci em 1952, vive apenas na memória.

 

Assistir aos ensaios das bailarinas era um espetáculo à parte.

 

A Casa do Estudante de Medicina, escondida atrás da faculdade, o restaurante universitário, o auditório do Centro Acadêmico, as noites dançantes que alegravam estudantes do interior e moças suburbanas — tudo reaparece quando fecho os olhos.

 

Do alto dos meus noventa anos, compreendo: a memória não falha — ela escolhe.

 

E escolhe, quase sempre, aquilo que fez o coração bater mais forte.

 

Gabriel Novis Neves

02-03-2026




domingo, 31 de maio de 2026

QUEM É VOCÊ NA FILA DO PAO?


Entrei na fila sem pressa.

 

Havia poucas pessoas à minha frente.

 

Mesmo assim, o atendimento parecia demorado.

 

Observei os rostos, os gestos, os suspiros discretos.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre é o tamanho da fila que nos inquieta — é o tempo dentro de nós.

 

Quando eu era jovem enfrentei muitas filas.

 

Fila para a escola, para o recreio, para a missa, para a agência do Banco do Brasil, para assistir às partidas de futebol, para o cinema.

 

Acabei me acostumando com as filas, a ponto de sentir certa falta delas.

 

As tecnologias modernas reduziram muitas dessas esperas.

 

O laptop resolveu parte dos problemas.

 

Eu, que sou da geração pré-internet, hoje resolvo boa parte dessas filas pelo celular, computador ou até televisão.

 

Filas inevitáveis ainda existem: as dos aeroportos ou as dos benefícios do INSS.

 

São locais ideais para tirar uma pequena soneca, mesmo sendo atendimento preferencial.

 

A vida ensina muito nas pequenas esperas.

 

Nem sempre o que nos incomoda é o tamanho da fila, mas o tempo dentro de nós.

 

É quando o cérebro mede o tempo de maneira diferente e reclama que a fila anda devagar.

 

Como o ser humano é difícil de entender!

 

As filas faziam parte do cenário das cidades.

 

Quando morei no Rio de Janeiro, conheci novas filas: a do pão, a do bonde, a do restaurante universitário.

 

Fila para escolher um lugar perto das ondas do mar, apenas para bronzear.

 

Fila para pegar o bondinho da Praia Vermelha até o Morro da Urca e o Pão de Açúcar.

 

Fila para admirar as belezas da baia da Guanabara.

 

Também, imitando os paulistanos, filas para assistir ao pouso e à decolagem das aeronaves no Aeroporto Santos Dumont, ainda antes da chegada dos jatos.

 

O Presidente JK tinha um moderníssimo Avro.

 

Essas são as filas que ficaram guardadas na minha memória.

 

Hoje entendo melhor: às vezes a fila não anda devagar — é o nosso tempo interior que caminha mais depressa.

 

Gabriel Novis Neves

04-03-2026