Hoje o portão rangeu diferente — mais longo, mais fundo.
Parei por um instante antes de sair.
Nada estava quebrado.
Era apenas o desgaste do tempo.
Portões envelhecem como as pessoas.
Continuam cumprindo sua função, mas avisam, em cada ruído, que carregam histórias acumuladas nos movimentos repetidos.
Saí com a enfermeira-cuidadora.
Fui à ótica em carro dirigido por ela com delicadeza e paciência.
A dor nos joelhos e na sola dos pés aumentou com os anos.
No retorno, fiz fisioterapia aos trancos.
Tomei um comprimido de novalgina, recebi massagem nos pés com spray de cataflan.
Só assim consegui chegar ao escritório para escrever esta crônica.
Estou bem.
Sofro apenas os males naturais do envelhecimento.
Lembro-me de quando tudo começou.
Esqueci que estava envelhecendo e procurei um neurologista.
Já era tarde: a idade havia lesionado os nervos da sola dos pés.
Tentei aliviar a dor trocando sapatos de couro por tênis esportivos, sapato-tênis, chinelos, meias térmicas.
Nada resolveu.
Pensei até em cauterização — procedimento que exigiria desligar o marca-passo cardíaco.
Não encontrei quem o dispusesse.
Minha terapia, além dos medicamentos, é recordar.
Recordar o tempo em que não sentia dor alguma, quando o corpo obedecia sem negociação e os passos eram dados sem cálculo.
Tudo começou sorrateiramente.
Após os cinquenta, vieram o oftalmologista e o cardiologista.
Depois dos setenta, a convivência com especialistas tornou-se rotina.
Estou envelhecido, mas com a memória preservada.
Ao acordar, a primeira lembrança é da locomoção difícil, que desanima a sair de casa.
Mesmo apaixonado por eles, raramente visito meus bisnetos, e já não tenho condições de receber visitas.
Meu espaço resume-se ao dormitório, ao escritório e à copa.
Conversar com dores nos membros inferiores não é agradável.
Por isso recolho-me.
Sinto-me, às vezes enferrujado como o portão.
Mas, assim como ele, continuo abrindo e fechando meus dias.
Range, é verdade — mas ainda assim sustenta a passagem da vida.
E enquanto eu puder atravessar esse vão, mesmo devagar, estarei inteiro.
Gabriel Novis Neves
16-02-2026
Rangendo, Rangendo; a torre dos pecados purificados
como a luz, ela passará através deste mundo.
Balançando, balançando; a torre em nossa espinha.
aqueles que cairão seremos nós, ou o céu?
TITE KUBO (Noriaki Kubo), nos "poemas de volume" ou "poemas de abertura" da obra Bleach (mangá)