terça-feira, 21 de julho de 2026

BANHO DE MANGUEIRA


Os dias quentes de Cuiabá sempre inspiraram soluções simples para enfrentar o calor.

 

Uma delas era o inesquecível banho de mangueira no quintal.

 

As crianças passavam horas correndo sob os jatos de água, transformando o espaço da casa em um verdadeiro parque de diversões.

 

Não havia brinquedos sofisticados nem tecnologia.

 

Bastavam água, alegria e imaginação.

 

Hoje esse costume quase desapareceu, mas permanece como uma das recordações mais felizes da infância de muitas gerações cuiabanas.

 

Afinal, o banho de mangueira continua sendo uma forma simples e divertida de enfrentar o calor, algo que ainda encanta as crianças nos dias mais quentes.

 

O melhor de tudo era que minha mãe participava da brincadeira com entusiasmo juvenil.

 

Enquanto isso meu pai, sempre ocupado com o trabalho no bar, raramente estava presente nesses momentos.

 

O banho de mangueira no quintal ficou guardado na memória afetiva de gerações de cuiabanos.

 

Ao escrever estas crônicas saudosistas, não pretendo comparar a felicidade do passado com a do presente.

 

Cada época tem seus encantos.

 

Mas é impossível não reconhecer que as crianças de antigamente criavam suas próprias diversões, quase sempre simples e cheias de encanto.

 

Havia o banho de mangueira no quintal, o banho de chuva na rua, os mergulhos no córrego da Prainha e os banhos no tanque do Baú.

 

Eram brincadeiras que alegravam a juventude e deixavam lembranças que o tempo não consegue apagar.

 

Hoje os brinquedos são comprados em lojas, existem espaços especializadas para recreação e profissionais preparados para entreter as crianças.

 

Tudo isso tem seu valor.

 

Mas, naquele tempo, muito se aprendia com os mais velhos e com a convivência diária.

 

Hoje há escolas de natação, dança, tênis, futebol e canto.

 

Na minha infância, porém, o quintal de casa era uma verdadeira escola de descobertas.

 

Passávamos ali boa parte das férias escolares.

 

Subíamos aos galhos mais altos das mangueiras para colher os frutos maduros com as próprias mãos.

 

Fazíamos o mesmo com a pitangueira e a cajazeira.

 

E quando a chuva chegava, tomar banho entre aquelas árvores era uma felicidade difícil de descrever.

 

Cuiabá com seu calor generoso, ensinava as suas crianças a inventar maneiras simples de se refrescar.

 

Ora procurávamos a sombra acolhedora dos mangueirais.

 

Ora buscávamos as águas abundantes que brotavam do solo da cidade para transformar o calor em brincadeira.

 

Hoje, quando a memória abre as portas do quintal da infância, ainda sinto os respingos da mangueira e a alegria daqueles dias que o tempo levou, mas o coração guardou.

 

Gabriel Novis Neves

20-06-2025




segunda-feira, 20 de julho de 2026

CIGARRO DE PALHA

 

Durante muitos anos o cigarro de palha fez parte da paisagem humana de Cuiabá.

 

Era presença constante nas conversas à porta das casas, nas viagens pelo interior e nos intervalos do trabalho.

 

Preparado artesanalmente, carregava um modo de viver marcado pela simplicidade e pelos costumes antigos.

 

Hoje quase desapareceu, mas continua aceso na lembrança de quem conheceu aquele tempo.

 

Quase todos os armazéns e vendas espalhados pelos bairros comercializavam o tradicional fumo de rolo.

 

O cigarro de palha era confeccionado manualmente.

 

Abria-se a palha de milho, já seca e macia, colocava-se uma pequena porção de fumo

 

desfiado, distribuindo-o de maneira uniforme.

 

Em seguida, enrolava-se a palha com delicadeza, apertando-a entre os dedos até adquirir o formato desejado.

 

A ponta era torcida para que o fumo não escapasse, e o cigarro estava pronto para ser aceso.

 

Havia quem preparasse vários de uma só vez, guardando-os na algibeira da camisa ou no bolso da calça para serem fumados ao longo do dia.

 

As lavadeiras, com a praticidade de quem trabalha sem descanso, costumavam guardá-los dentro do sutiã.

 

No Bar do Bugre, de meu pai, vendiam-se apenas cigarros industrializados, das mais diversas marcas nacionais e estrangeiras.

 

Os especialistas afirmam que um cigarro de palha pode equivaler a três ou quatro cigarros industrializados.

 

Durante muitos anos, homens e mulheres fumavam com frequência, e, em determinados ambientes, o hábito era até considerado elegante.  

 

Com o avanço dos estudos sobre os males produzidos pelo tabagismo, campanhas de conscientização ganharam força em todo o mundo.

 

Aos poucos, o cigarro perdeu prestígio de outras épocas, e o número de fumantes diminuiu consideravelmente.

 

Hoje, o cigarro de palha pertence quase exclusivamente à paisagem rural, onde também se tornou cada vez mais raro.  

 

Meus filhos e netos nunca fumaram.

 

Meu genro abandonou o cigarro há muitos anos.

 

Eu fumei durante vinte anos, por insegurança da juventude, e deixei o hábito sem sofrimento. Regina fez o mesmo.

 

O cigarro de palha desapareceu das mãos de muita gente, mas permanece vivo como lembrança de um tempo que já virou história.

 

Gabriel Novis Neves

16-07-2026







LENÇÓIS DOBRADOS


Dobrar lençóis recém-lavados exigia paciência, habilidade e certo talento.

 

Muitas vezes duas pessoas seguravam as extremidades para que tudo ficasse perfeitamente alinhado.

 

Depois eram cuidadosamente dobrados e guardados no armário, levando consigo o perfume do sabão e do sol.

 

Eram pequenos rituais domésticos que transmitiam ordem, cuidado e bem-estar.

 

Hoje esse trabalho quase sempre é realizado pelas lavanderias.

 

Os lençóis seguem em sacos plásticos e retornam limpos, passados e dobrados, prontos para serem novamente usados.

 

Na minha infância, porém, era diferente.

 

As antigas lavadeiras, que moravam longe do centro de Cuiabá, vinham semanalmente buscar as roupas das famílias.

 

Caminhavam descalças, mascando fumo de rolo, equilibrando sobre a cabeça grandes trouxas envolvidas em lençóis.

 

Eu admirava a segurança com que carregavam aqueles pesados embrulhos.

 

Moravam em regiões ricas em córregos e riachos, onde as roupas eram lavadas com água corrente e muito esforço.

 

De volta à cidade, as passadeiras, com seus ferros aquecidos à brasa, deixavam cada peça impecável.

 

Os lençóis eram então dobrados com capricho e guardados para o próximo uso.

 

Nunca me esqueci de Dona Maria Chica, a lavadeira da minha infância.

 

Gostava quando ela me pedia para comprar um pedaço de fumo de rolo na Casa do Fumo Bom, do seu Dutra, entre a Rua do Campo e a Cândido Mariano.

 

As lavadeiras desapareceram, os costumes mudaram e a modernidade tornou tudo mais prático.

 

Mas nenhum serviço substitui a lembrança de um lençol lavado no córrego, passado a ferro de brasa e dobrado com carinho.

 

São perfumes da infância que o tempo jamais consegue apagar.

 

Gabriel Novis Neves

15-07-2026




sábado, 18 de julho de 2026

VISITAS EM CASA


Nas famílias cuiabanas era comum receber parentes vindos de localidades distantes.

 

A chegada era motivo de festa e movimentava a casa inteira.

 

Preparavam-se refeições especiais, organizavam-se os quartos e surgiam longas conversas.

 

Os visitantes traziam notícias, histórias e produtos da região onde viviam.

 

Durante alguns dias a rotina mudava completamente.

 

Essas visitas fortaleciam os laços familiares e criavam memórias que permanecem guardadas por toda a vida.

 

Quando eu era criança meus tios paternos moravam em Cuiabá e no Rio de Janeiro.

 

Por parte de minha mãe, apenas uma tia residia em Cuiabá.

 

Eu tinha um tio fazendeiro no Pantanal, casado com uma de minhas tias maternas.

 

Sempre que vinha a Cuiabá, hospedava-se em nossa casa, na rua do Campo.

 

Minha mãe transformava a sala de visitas em dormitório para recebê-lo.

 

Seria quase uma desonra deixa-lo ficar em pensão ou hotel.

 

Com que alegria ela o acolhia.

 

Eu o ajudava em pequenos serviços e, em troca, recebia generosas gorjetas.

 

Eram visitas sempre muito aguardadas, e o hóspede jamais chegava de mãos abanando.

 

Trazia queijos, rapaduras, carne seca e muitas histórias da fazenda, que nos enchiam de alegria e curiosidade.

 

Minha mãe inventava pratos especiais, tudo para agradar aquele parente que vinha de longe.

 

Com as estradas pavimentadas encurtando distâncias e a aviação facilitando os deslocamentos, as visitas foram se tornando mais rápidas.

 

Hoje é comum um parente chegar a Cuiabá, resolver seus compromissos e retornar no mesmo dia.

 

Aquelas conversas demoradas e alegres, que fortaleciam os laços familiares, foram ficando cada vez mais raras.

 

O convívio alimentado por cartas, recados e visitas prolongadas deu lugar ao celular e às novas tecnologias.  

 

Talvez elas tenham aproximado as pessoas pela comunicação, mas diminuído a convivência.

 

Sinto saudade daquele tempo em que a chegada de um parente transformava a casa e deixava, por muitos dias, um pouco mais de alegria no coração de todos.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2026




sexta-feira, 17 de julho de 2026

ROUPAS NOVAS


Poucas emoções eram tão esperadas quanto vestir uma roupa nova pela primeira vez. Muitas vezes ela ficava guardada durante dias, reservada para um domingo, uma festa ou uma celebração especial.

 

Quando finalmente chegava o momento de usá-la, surgia um orgulho silencioso estampado no sorriso de quem a vestia.

 

A simplicidade daquele gesto transformava a novidade em uma verdadeira comemoração.

 

O meu primeiro terno só fui comprar quando já era estudante no Rio de Janeiro.

 

Em Cuiabá usava roupas simples e os uniformes escolares.

 

Certa ocasião minha mãe foi convidada para o casamento civil da filha única de uma grande amiga.

 

Como havia uma criança pequena em casa e ela não dispunha de roupa adequada para a cerimônia, pediu que eu a representasse.

 

Meu pai era um homem discreto.

 

Sua vida se resumia ao trabalho e à nossa casa.

 

Coube a mim cumprir a missão.

 

Eu tinha apenas onze anos e respondi que não possuía roupa apropriada para uma festa onde estariam presentes tantas autoridades.

 

Ela sorriu e perguntou:

 

— E o bonito uniforme branco do colégio dos padres, feito por alfaiate e ainda sem uso reservado para o desfile de Sete de Setembro?

 

A solução estava encontrada.

 

Aprontei-me e fui para a casa da noiva, que ficava próxima da nossa.

 

Ao chegar, procurei os pais da noiva para justificar a ausência dos meus pais.

 

Em seguida, ofereceram-me uma cadeira.

 

Ali permaneci durante toda a solenidade, sem conversar com ninguém, vestido com o impecável uniforme branco e segurando o boné no colo.

 

O tempo parecia não passar.

 

Meu maior desejo era voltar para casa, livrar-me daquele traje e dar por cumprida a tarefa que minha mãe me confiara.

 

Esse episódio aconteceu há oitenta anos e permanece vivo na minha memória.

 

Hoje percebo que não era apenas uma roupa nova que eu estreava.

 

Estreava também a responsabilidade, a confiança dos meus pais e o respeito que as crianças tinham pelos adultos.

 

Procurei transmitir esses mesmos valores aos meus filhos.

 

Os tempos mudaram, os costumes também, mas certas lembranças continuam vestidas de uma elegância que o tempo jamais consegue desfazer.

 

Gabriel Novis Neves

11-07-2026




LUZ É ESPERANÇA, PROTEÇÃO E VIDA


Quando uma lâmpada queimava a casa parecia perder um pouco da sua alegria.

 

Logo alguém providenciava outra, subia numa escada e devolvia a claridade ao ambiente.

 

Era uma tarefa simples, mas que transmitia a agradável sensação de que tudo voltava ao seu lugar.

 

A luz sempre representou conforto, segurança e acolhimento dentro de casa.

 

Antes da construção da Usina do Manso, as interrupções no fornecimento de energia eram frequentes em Cuiabá, e pouco podíamos fazer além de esperar o restabelecimento da eletricidade.

 

Já quando, apenas uma lâmpada queimava, o problema era facilmente resolvido.

 

Havia sempre uma de reserva guardada no armário da copa, pronta para devolver a claridade ao lar.

 

Até hoje conservo esse hábito.

 

Nunca deixo de ter uma lâmpada nova para qualquer emergência.

 

Quando criança, dormíamos com uma luz acesa no corredor dos quartos.

 

Se a energia faltasse durante a noite, acordávamos assustados, como se a escuridão tornasse o ar mais pesado.

 

Talvez por isso, até hoje preciso de um pequeno ponto luminoso para dormir tranquilamente.

 

Deixo aceso o discreto visor do aparelho de ar-condicionado, cuja luz suave basta para me transmitir serenidade.

 

Mesmo no inverno cuiabano, ele permanece ligado.

 

Conheço, porém, pessoas que fazem exatamente o contrário.

 

Eliminam qualquer pontinho de luz para dormir em completa escuridão.

 

Cada um encontra paz à sua maneira.

 

Desde os tempos mais antigos, a luz simboliza esperança, proteção e vida.

 

Também na tradição bíblica ela aparece como sinal da presença divina, iluminando caminhos e afastando as trevas.

 

A claridade de uma casa bem iluminada transmite uma agradável sensação de limpeza, ordem e bem-estar.

 

Talvez por isso a literatura costume associar as cavernas, a penumbra e a escuridão às dificuldades da existência, enquanto a luz quase sempre representa conhecimento, confiança e renovação.

 

Em Cuiabá, a luminosidade intensa que nos acompanha durante boa parte do ano parece irradiar energia e alegria aos seus habitantes.

 

Já os dias de céu encoberto costumam despertar uma discreta melancolia.

 

Quando chega a noite, a lua e as estrelas devolvem poesia ao céu cuiabano.

 

Não é por acaso que os poetas fizeram da lua a eterna companheira dos enamorados.

 

Talvez seja por isso que uma simples lâmpada acesa nunca ilumine apenas a casa; ela também clareia as nossas lembranças e aquece silenciosamente o coração.

 

Gabriel Novis Neves

14-07-2026


Escadaria do Beco Alto, Cuiabá


quarta-feira, 15 de julho de 2026

SONS PECULIARES

 

Em muitas casas, o som ritmado da máquina de costura fazia parte da música do cotidiano. Enquanto a agulha deslizava sobre o tecido, roupas eram ajustadas, remendadas ou criadas pelas mãos habilidosas das mães e avós.

 

Cada peça carregava dedicação, paciência e carinho.

 

Hoje esse som quase desapareceu, mas continua vivo na memória de quem cresceu ouvindo seu compasso.

 

Revivendo a minha infância, recordo que a antiga Cuiabá tinha sons muito próprios.

 

Tudo nas casas produzia uma melodia discreta: a máquina de costura trabalhando num ritmo constante, o ventilador de teto girando lentamente, o relógio da varanda marcando as horas com suas badaladas.

 

Até a rede, embalando as crianças nas tardes quentes, parecia cantar uma canção de ninar.

 

Talvez por isso tantas famílias cuiabanas cultivassem o gosto pela música.

 

Não era raro encontrar um piano, um violino ou um violão dentro de casa.

 

Aprender um instrumento fazia parte da boa educação, e quem passava pelas calçadas frequentemente ouvia melodias que escapavam pelas janelas abertas.

 

Meu pai comprou um piano para minha irmã mais velha e contratou um professor particular.

 

Apesar de todo incentivo, ela abandonou as aulas e pouco tempo depois o piano foi vendido.

 

Meu irmão mais novo, ao contrário, era um autodidata.

 

Tocava piano em qualquer lugar onde encontrasse um instrumento.

 

Eu cresci num ambiente de jogadores de xadrez.

 

Aprendi cedo os segredos daquele jogo fascinante, ainda antes de ser alfabetizado.

 

Mas sempre guardei a vontade de aprender música, desejo que nunca consegui realizar plenamente.

 

Mais tarde comprei um violão para minha filha. Ela também não se interessou pelo instrumento, que acabou sendo doado.

 

Anos depois, recebi outro violão como presente de aniversário e comecei a ter aulas três vezes por semana em casa.

 

Durante as aulas eu progredia.

 

O desafio surgia quando precisava estudar sozinho.

 

Sem disciplina para os exercícios de memorização, abandonei novamente o violão, que até hoje permanece guardado no meu guarda-roupa.

 

Talvez alguns sonhos não tenham sido feitos para palcos.

 

Basta-nos conservar, no coração, a música das lembranças.

 

Gabriel Novis Neves

12-07-2026