segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE QUE MUDOU A CIDADE


Cuiabá era outra cidade antes da chegada da UFMT.

 

A vida universitária ainda era pequena e muitos jovens precisavam sair do Estado para estudar.

 

A implantação da universidade trouxe movimento, novos bairros, ônibus lotados de estudantes e uma juventude cheia de sonhos.

 

Aos poucos, a cidade passou a conviver com professores vindos de várias regiões do Brasil. Surgiram debates, eventos culturais, bibliotecas e novas profissões.

 

A universidade não mudou apenas o ensino: modificou o jeito de pensar de toda uma geração mato-grossense.

 

Muitos cuiabanos ilustres temiam que os filhos da terra não fossem capazes de implantar um projeto tão complexo: uma universidade federal em uma cidade de aproximadamente oitenta mil habitantes, distante dos grandes centros de educação, cultura e artes.

 

Viviam cochichando pela cidade, defendendo a vinda de técnicos do Rio de Janeiro e de São Paulo para executar a missão.

 

Dos três maiores responsáveis pelo trabalho, apenas o reitor havia estudado fora de Cuiabá, onde cursou Medicina.

 

Os vice-reitores acadêmico e administrativo, haviam cursado Direito em nossa Faculdade de Direito.

 

Aos poucos a universidade atraiu professores e pesquisadores de vários estados do Brasil e até do exterior.

 

Muitos ex-alunos foram aproveitados como professores e servidores da instituição federal.

 

Na época da implantação, não possuíamos nenhum professor com pós-graduação.

 

Hoje, todos têm doutorado e muitos pós-doutorado.

 

Ninguém mais precisa sair de Cuiabá para se tornar mestre ou doutor.

 

No início das atividades universitárias, professores eram enviados aos melhores centros de pós-graduação do Brasil e do exterior.

 

A inversão do binômio ensino e pesquisa para pesquisa e ensino foi fundamental para a captação de recursos destinados para o projeto Humboldt, do Ministério do Planejamento.

 

Nossa universidade nasceu como fundação, e não como autarquia, o que favoreceu muito sua instalação no Coxipó da Ponte.

 

Foi protagonista do desenvolvimento de Cuiabá e de toda a região sul da Amazônia.

 

Participou também de momentos decisivos da história de Mato Grosso, inclusive do período que antecedeu a divisão territorial do Estado em 1977.

 

Em 1974 o presidente Ernesto Geisel esteve na universidade e assistiu à nossa palestra, numa sala de aula do primeiro bloco da área tecnológica.

 

Contar a história da UFMT, prestes a completar cinquenta e seis anos, só é possível em conta gotas.

 

São muitas histórias, personagens, sonhos e dificuldades vencidas para caberem numa única crônica.

 

A universidade cresceu junto com Cuiabá.

 

E Cuiabá nunca mais foi a mesma depois dela.

 

Gabriel Novis Neves

22-08-2026









ESPERANDO AS PRIMEIRAS CHUVAS


Depois de muitos meses de céu azul, poeira e calor intenso, o menino começava a procurar no céu os primeiros sinais de chuva.

 

Observava as nuvens, sentia a mudança do vento e esperava, ansioso, ouvir os primeiros trovões.

 

Quando finalmente as gotas grossas batiam no telhado e faziam subir o cheiro da terra molhada, parecia que toda a cidade respirava aliviada.

 

Era o anúncio de um novo tempo, recebido com alegria pelos quintais de Cuiabá.

 

Antigamente as chuvas eram motivo de satisfação para os cuiabanos.

 

Com o crescimento da cidade, nem sempre acompanhado de planejamento e infraestrutura, tornaram-se também motivo de preocupação.

 

Aprendi com os mais antigos que administrador público não gosta de fazer obra enterrada, porque ninguém vê.

 

Talvez por isso sejam tão frequentes os alagamentos, produzindo transtornos no transito e dificultando a chegada do trabalhador ao serviço.

 

Táxis e carros de aplicativos desaparecem das ruas para evitar prejuízos, enquanto o transporte público, insuficiente, agrava ainda mais a situação.

 

A chuva tão esperada de antigamente passou a ser recebida também com receio.

 

A primeira chuva depois de longa estiagem era chamada de chuva das mangas.

 

Parecia que bastavam as primeiras gotas para as mangueiras florescerem e, pouco depois, os frutos começarem a amadurecer.

 

O quintal da minha casa, repleto de mangueiras, transformava-se num espetáculo. Depois das chuvas, eu enchia cestas e até latões de manga para vender nos armazéns da rua do Meio, por preços simbólicos.

 

Era uma festa voltar para casa, com algumas moedas no bolso, fruto daquele pequeno comércio da infância.

 

Assim era agosto: tempo das primeiras chuvas e das mangas.

 

Depois vinham as chuvas de caju, obedecendo ao nosso antigo calendário folclórico.

 

Na Cuiabá de antigamente, tudo tinha apelido. Até as chuvas.

 

O cheiro da terra molhada permanece como uma das lembranças mais bonitas que guardo da infância.

 

Naqueles dias, depois de meses de poeira e calor, parecia que as pessoas, as árvores, os passarinhos e a própria cidade respiravam aliviados.

 

Hoje, muitas vezes, sei que choveu pelos noticiários da televisão.

 

Tudo passa.

 

Tudo muda.

 

Mas, quando a memória traz de volta o cheiro da terra molhada, ainda escuto a primeira chuva caindo no quintal da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

20-08-2026




domingo, 23 de agosto de 2026

AGOSTO NÃO ACABA


Agosto chegava trazendo dias secos, poeira nas ruas e um céu quase sempre sem nuvens.

 

O menino não conhecia umidade do ar nem previsão do tempo, mas percebia tudo pelo corpo e pela natureza.

 

As folhas ficavam cobertas de pó, os quintais pediam água e todos procuravam uma sombra. Naquele tempo, cada mês possuía sua própria personalidade, e agosto parecia comprido, quente e cheio de histórias.

 

Popularmente conhecido como o mês do desgosto, tinha ainda um dia cercado de temores: o treze.

 

E, quando caía numa sexta-feira, muita gente achava melhor ficar em casa.

 

Eram superstições da antiga Cuiabá que, curiosamente, ainda sobrevivem na memória e no receio de muita gente.

 

Meu pai nasceu no dia 23 de agosto de 1894, numa quinta-feira, e foi muito feliz.

 

Brincava dizendo que, embora tivesse nascido no mês do desgosto, fora presenteado com uma vida tranquila e sentia orgulho daquilo que havia plantado.

 

Já uma irmã, também nascida em agosto, nos deixou prematuramente.

 

Conheci homens públicos vitoriosos, nascidos nesse mês, entre eles Fernando Corrêa da Costa e Pedro Pedrossian, que governaram nosso Estado.

 

Para os estudantes, agosto sempre pareceu um mês antipático e comprido, talvez porque chegasse logo depois das férias de julho.

 

Todos os meses têm suas histórias, mas agosto ficou especialmente ligado às superstições. Ganhou até a fama de ‘mês do cachorro louco’.

 

Mas agosto também trazia coisas bonitas.

 

Era tempo de mangas.

 

Os grandes quintais cuiabanos exibiam mangueiras com galhos arqueados pelo peso dos frutos, que também apareciam nas árvores das ruas.

 

Colhi muita manga madura quando voltava da escola primária, na Praça Ipiranga.

 

O menino daquele tempo usava a funda para acertar o talo da manga escolhida e corria para apará-la antes que tocasse o chão e se amassasse.

 

Havia também os cajueiros, que cresciam quase como mato pelos quintais e pelas ruas.

 

Com o passar dos anos, descobri que existem meses até mais difíceis.

 

Outubro, por exemplo, costuma castigar Cuiabá com a qualidade ruim do ar e a dificuldade para respirar.

 

Mas é agosto que continua carregando a fama de pior mês do ano.

 

Talvez seja uma injustiça.

 

Afinal, um mês que nos dava mangas maduras, cajus nos quintais e tardes inteiras de infância não poderia ser apenas o mês do desgosto.

 

Na memória do menino, agosto tinha também gosto de manga.

 

Gabriel Novis Neves

21-08-2026




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE NO MEIO DO MATO


Quando começaram as obras da Universidade Federal de Mato Grosso, muita gente estranhou a escolha do lugar.

 

Diziam que o campus ficava longe demais da cidade, cercado apenas por mato, poeira e silêncio.

 

Poucos imaginavam que ali surgiria uma das maiores transformações culturais e educacionais do Estado.

 

Os primeiros prédios eram simples, as dificuldades enormes, mas existia entusiasmo entre professores, estudantes e servidores.

 

A universidade nascia cercada de esperança e coragem, como acontece com quase todas as grandes obras humanas.

 

Foi implantada em parte do terreno da antiga chácara do doutor Melo, um engenheiro que morava na avenida 15 de Novembro, no Porto.

 

 A escolha do local foi do governador, engenheiro Pedro Pedrossian.

 

Ficava à margem de uma estrada ainda não asfaltada, que seguia em direção ao sul do Brasil.

 

No terreno foi colocada uma enorme placa:

 

‘Futuras instalações da Universidade Federal de Mato Grosso. ’

 

Pedrossian estudara Engenharia em São Paulo e eu, seu secretário de Educação, Medicina no Rio de Janeiro.

 

Naquela época as cidades universitárias ainda eram novidade no Brasil.

 

Oscar Niemeyer havia projetado a Universitária de Brasília, e o governador desejava que ele também projetasse a futura cidade universitária de Cuiabá.

 

Pedrossian procurou o escritório de Niemeyer no Rio de Janeiro.

 

O arquiteto, entretanto, estava trabalhando fora do Brasil, em razão da situação política do país.

 

Não existiam celulares, internet ou vídeo chamadas.  

 

A comunicação a distância era difícil e demorada.

 

Depois de longa espera, o encontro entre o governador e o arquiteto finalmente aconteceu.

 

Ao ouvir de Pedrossian o desejo de que projetasse a cidade universitária de Cuiabá, Niemeyer perguntou:

 

—A universidade é particular?

 

Ao saber que era do Governo Federal, explicou que estava exilado e trabalhando em Argel, na Argélia, onde projetava uma universidade.

 

Como ficaria aquele trabalho?

 

Pedrossian respondeu, com a firmeza que lhe era característica, que não haveria problema. Meses depois, o escritório de Niemeyer, no Rio de Janeiro, encaminhou o belo anteprojeto do campus de Cuiabá.

 

Era uma obra extraordinária, porém economicamente inviável.

 

Somente um dos grandes edifícios, apelidado de ‘minhocão’ tinha orçamento superior ao do próprio Estado de Mato Grosso.

 

O sonho precisou adaptar-se à realidade.

 

Pedrossian assumiu o comando do projeto de implantação da UFMT até 10-12-1970, quando a Universidade foi oficialmente criada.

 

Depois, coube a mim continuar aquela caminhada.

 

Durante anos vi o mato desaparecer, os prédios surgirem, os estudantes chegarem e a Universidade crescer.

 

Continuei escrevendo essa história até fevereiro de 1982.

 

Hoje, quando recordo aquele terreno distante, coberto de mato e marcado apenas por uma grande placa, penso em quantos sonhos nasceram ali.

 

Onde muito enxergavam apenas mato, nós enxergávamos uma Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

18-08-2026










quinta-feira, 20 de agosto de 2026

OUVINDO HISTÓRIAS


Ao cair da tarde as cadeiras ocupavam as calçadas e as conversas atravessavam a rua.

 

O menino permanecia em silêncio ouvindo causos, lembranças e histórias bem-humoradas dos mais velhos.

 

Sem imaginar, estava recebendo uma herança valiosa: o gosto pela boa conversa e pela arte de contar histórias.

 

Eu ainda sou do tempo em que contar histórias era uma das características dos cuiabanos.

 

E como o menino gostava de ouvir os causos contado pelos mais velhos, sentados em cadeiras nas portas das casas ao entardecer!

 

Assim nascia a arte de contar histórias e o prazer pela boa conversa.

 

Todo mundo, na Cuiabá antiga, tinha uma história para contar.

 

Iam dos acontecimentos do cotidiano às histórias de assombração, com o cemitério e seus mistérios.

 

Nossas babás eram exímias contadoras de histórias de terror: a mula sem cabeça, o saci-pererê, a alma do outro mundo e o defunto que saía do cemitério à meia-noite.

 

Havia também o homem que andava com um saco às costas, falando sem parar coisas incompreensíveis.

 

Meu pai tinha um repertório especial para certas datas, como o primeiro de abril — o Dia da Mentira, conhecido entre nós como o Dia da Peta.

 

Logo que eu acordava, meu pai me informava que a ponte que ligava Cuiabá a Várzea Grande havia caído.

 

Eu me interessava, fazia muitas perguntas, e ele respondia a todas com a maior seriedade, para somente no final revelar:

 

— É peta!

 

Gostava muito das histórias de Papai Noel, que entrava nas casas fechadas pela chaminé da cozinha, carregando um saco cheio de presentes.

 

Outras histórias que ouvia com atenção e emoção eram as da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo.

 

Existiam em Cuiabá muitas ruas e casas mal-assombradas, temidas pelas crianças.

 

Nos dias atuais, já não conheço tantos contadores de histórias, nem mesmo daquelas histórias simples que eram contadas para fazer as crianças dormirem, embaladas pelo suave vai e vem da rede.

 

Talvez por isso eu ainda goste tanto de contar histórias.

 

São as vozes daquela Cuiabá antiga que continuam conversando comigo.

 

Gabriel Novis Neves

18-08-2026




CONTANDO ESTRELAS


Nas noites de céu limpo, quando a iluminação da cidade era discreta, o menino deitava-se no quintal para admirar o infinito.

 

Tentava contar as estrelas, reconhecia algumas constelações e imaginava mundos distantes. Sem perceber, aprendia que a imaginação também era uma forma de viajar sem sair de casa.

 

Contar estrelas não era apenas hábito das crianças.

 

Poetas, compositores e boêmios também procuravam no céu inspiração para seus sonhos.

 

Quando menino, minha mãe estimulava os filhos menores a contar as estrelas, sem saber que estava dando asas à nossa imaginação.

 

O infinito sempre me intrigou.

 

Gostaria de saber o que existia além da linha do horizonte, onde o sol e a lua pareciam se esconder.

 

O sol nascia no horizonte, assim como a lua, e as estrelinhas apareciam nas noites de céu limpo.

 

O resto corria por conta da imaginação, inclusive a imagem de São Jorge montado em seu cavalo na lua.

 

Hoje aos noventa e um anos, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, continuo a contemplar o infinito e seus mistérios, alimentando a mesma imaginação do menino.

 

Não conto mais as estrelas.

 

Agora ensino meus bisnetos a contá-las.

 

Talvez eles também descubram que o céu é grande demais para caber nos números.

 

Se eu estivesse na lua, enxergaria a Terra redonda e, quem sabe, compreenderia melhor a importância da nossa imaginação.

 

Quem escreve precisa de memória, esforço e imaginação.

 

Sem memória, eu não poderia contar que um dia fui um menino que se deitava no quintal para olhar o céu e tentar contar suas estrelas.

 

Eram duas missões impossíveis: contar as estrelas e compreender o infinito.

 

Mesmo assim, tentei as duas.

 

O imaginário do menino pode se transformar com o passar dos anos, mas os encantos da infância permanecem vivos na memória dos adultos.

 

Talvez por isso, aos noventa e um anos, eu ainda olhe para o céu.

 

E, por alguns instantes, volte a ser o menino que contava estrelas.

 

Gabriel Novis Neves

12-08-2026




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

SABORES ANCESTRAIS


Na cozinha ou no quintal, preparar a mandioca reunia a família.

 

O menino recebia uma faca pequena e, sob os olhos atentos dos mais velhos, aprendia a retirar a casca grossa sem desperdiçar a polpa.

 

Entre conversas e risadas, descobria que cozinhar também era um gesto de carinho.

 

De todos os jeitos que a mandioca era preparada, sempre ficava deliciosa para servir à mesa.

 

Até a farinha, fina e saborosa, era especialidade das populações ribeirinhas, onde muito se cultivava a mandioca.

 

Ainda hoje é encontrada no Mercado Municipal de Cuiabá.

 

Antigamente, cozinhar era considerado um predicado das mulheres.

 

Hoje, muitos dos melhores restaurantes são comandados por homens e a culinária ganhou cursos especializados e formação profissional.

 

Nos bairros da periferia de Cuiabá, os homens também assumiram muitas tarefas que antigamente eram consideradas exclusivas das mulheres, como cozinhar e lavar roupas.

 

Dos meus três filhos, o do meio gosta de cozinhar e prepara muito bem, com prazer e carinho, alguns pratos.

 

Das minhas irmãs, uma tem cozinha profissional, e as outras fazem alguns quitutes.

 

Os homens da família adoram assar uma carninha na brasa.

 

Eu nem café sei fazer.

 

Sábado é o dia do almoço da família, e a cozinha vira uma festa para atender a tantos gostos diferentes.

 

Mas existe uma unanimidade: a mandioca frita!

 

Da copa, observo o carinho com que o almoço é preparado, respeitando até as preferências de cada um.

 

Eu prefiro a mandioca frita ao pastel de carne ou de queijo.

 

Também gosto da mandioca cozida com um pouco de sal.

 

Minha bisneta de nove anos, porém, gosta de almoçar aos sábados apenas pastéis de queijo.

 

Um dia, perguntei o motivo de tamanha preferência. 

 

Ela simplesmente respondeu que, durante a semana, em sua casa, almoça e janta comida normal.

 

Por isso, espera o sábado para almoçar pastel aqui.

 

Naquele instante compreendi que, para ela, o pastel não era apenas comida.

 

Era o sabor do sábado na casa do bisavô. 


Gabriel Novis Neves

13-08-2026