domingo, 9 de agosto de 2026

NAS ÁRVORES, NAS ALTURAS


Subir em árvore era quase um rito de passagem para todo menino do interior.

 

Primeiro vinha o receio, depois a coragem e, por fim, a alegria de alcançar um galho mais alto.

 

Lá de cima, o mundo parecia diferente e muito maior.

 

A natureza oferecia brinquedos gratuitos, enquanto ensinava equilíbrio, prudência e confiança a cada nova tentativa de vencer a altura.

 

O menino do interior, além dos ensinamentos recebidos dos pais, aprendia muito com a própria natureza.

 

Na escola, o professor Cesário Neto ensinava gramática utilizando exemplos tirados dela, e seus alunos jamais esqueceram que o verbo subir exige a preposição a.

 

A frase ‘Subindo ao galho mais alto do pessegueiro’ marcou gerações de estudantes cuiabanos.

 

Que prazer havia em subir num pé de manga, alcançar o galho mais alto e colher a fruta mais madura para saboreá-la ali mesmo, balançando ao vento, antes até do almoço, logo após chegar da escola.

 

Naquele instante, o menino tinha a deliciosa impressão de haver conquistado a própria natureza.

 

Criança não tem medo da natureza.

 

Muito pelo contrário: brinca com ela, aprende com ela e nela encontra um universo de descobertas.

 

Quando eu entrava no quintal de casa, esquecia o mundo.

 

Brincava até ouvir a voz da minha mãe chamando para entrar.

 

Quantas recordações felizes guardo do quintal da minha casa e dos quintais vizinhos!

 

O maior tesouro eram as mangueiras, das mais variadas espécies.

 

A mangueira comum, que ficava logo na entrada do nosso quintal, tinha o tronco grosso, alto e liso.

 

Ninguém jamais conseguiu escalá-la.

 

Ninguém ensina um menino a subir em árvore.

 

Ele aprende movido pela curiosidade, pela coragem e pelo desejo de vencer desafios, assim como aprende a nadar.

 

Os grandes quintalões cuiabanos foram verdadeiras escolas da vida.

 

Com o desaparecimento deles, perdemos também um espaço de convivência, aprendizado e liberdade.

 

E, sem perceber, empobrecemos um pouco como cidade e como lembrança.

 

Gabriel Novis Neves

22-07-2026




sexta-feira, 7 de agosto de 2026

REGANDO A VIDA


Regar as plantas era uma das tarefas mais agradáveis da infância!

 

A água refrescava a terra, espalhava um perfume característico pelo quintal e devolvia o brilho às folhas.

 

Enquanto segurava o regador, o menino compreendia que toda forma de vida depende de cuidado, dedicação e paciência para crescer saudável e bonita.

 

O menino crescia aprendendo a respeitar a natureza.

 

Regar as plantas do quintal e do jardim foi uma das tarefas mais gratificantes da minha infância!

 

Eu acompanhava o crescimento de cada muda, vendo a casa ganhar mais beleza e receber a visita de borboletas coloridas e pequenos pássaros.

 

Havia uma alegria difícil de explicar ao perceber que um simples gesto podia conservar a vida e tornar o ambiente mais bonito.

 

A infância é, talvez, o período mais feliz da existência, porque nela aprendemos a valorizar as pequenas coisas e descobrimos, naturalmente, que toda forma de vida necessita de cuidado, dedicação e paciência.

 

Regar uma planta é um gesto de amor à natureza.

 

As crianças aprendem esse sentimento dentro de casa, observando o exemplo dos pais e participando de pequenas tarefas que ensinam responsabilidade e sensibilidade.

 

Assim nasce o respeito pela vida.

 

Infelizmente, muitas árvores e plantas nativas do cerrado foram desaparecendo aos poucos.

 

A antiga cidade verde cedeu espaço ao concreto e o calor tornou-se cada vez mais intenso.

 

Os ipês, antes abundantes, já não enfeitam as ruas como antigamente, substituídos por edifícios cada vez mais altos.

 

Eu continuo fazendo a minha parte.

 

Na cobertura do meu apartamento mantenho um pequeno jardim, com flores e árvores de pequeno porte.

 

Todos os dias ele recebe água, carinho e atenção.

 

Quando a terra se umedece e o perfume do jardim se espalha pelo ar, as folhas recuperam o brilho, as borboletas reaparecem e o menino que vive dentro de mim volta a descobrir o encantamento das coisas simples da natureza.

 

Gabriel Novis Neves

O3-08-2026




ABRIR A JANELA


As manhãs começavam com um gesto simples: abrir as janelas da casa.

 

A claridade entrava lentamente, trazendo o ar fresco, o canto dos pássaros e o movimento da rua ainda silenciosa.

 

Parecia que o dia inteiro respirava junto com a família, enchendo os ambientes de esperança e renovando a disposição para viver.

 

As casas antigas abriam suas janelas diretamente para a rua.

 

Não eram protegidas por muros altos.

 

A luz da manhã invadia os cômodos, acompanhada da brisa fresca e do alegre canto dos pássaros.

 

Depois do café passado na hora, era um prazer permanecer debruçado no parapeito da janela, conversando com os vizinhos e com aqueles que seguiam pelas calçadas rumo ao trabalho.

 

Era um costume do cuiabano levantar antes mesmo de o dia clarear para ouvir os noticiários das emissoras de rádio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

 

Bem informado, transmitia as novidades aos madrugadores da rua.

 

Curiosamente, as grandes notícias pareciam acontecer sempre durante a madrugada.

 

Nasci durante a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, quando eu ainda era menino.

 

O conflito começou na Europa e, pouco a pouco, envolveu quase todo o planeta.

 

Por causa da diferença de fuso horário entre Cuiabá e a Europa, muitos acontecimentos ocorriam enquanto dormíamos.

 

Daí a importância de acordar cedo para conhecer as novidades que chegavam pelo rádio.

 

Naquele tempo também era comum as donzelas fugirem de madrugada para se casar contra a vontade dos pais.

 

A ausência só era percebida com a claridade do dia, assim como muitos crimes ocorridos no baixo meretrício, descobertos apenas ao amanhecer.

 

As notícias locais chegavam pela voz dos primeiros transeuntes que cruzavam a rua.

 

Era um jornal falado, espontâneo e confiável, transmitido por trabalhadores que iniciavam cedo a sua jornada.

 

Hoje restam apenas as lembranças.

 

Abrir a janela ao amanhecer era muito mais do que deixar a luz entrar em casa.

 

Era abrir espaço para a vida, para as conversas, para as notícias e para a esperança de um novo dia.

 

São cenas simples que o tempo transformou em histórias, mas que permanecem abertas na janela da memória.

 

Gabriel Novis Neves

03-08-2026






quarta-feira, 5 de agosto de 2026

OBSERVAR A NATUREZA


Poucos passavam por um carreiro de formigas sem lhes dar atenção.

 

O menino, porém, parava para observar aquela organização impressionante.

 

Via cada uma transportando pequenas folhas ou sementes, sempre em perfeita ordem.

 

Sem saber, recebia da natureza uma verdadeira lição de trabalho, disciplina e cooperação.

 

A natureza é a maior professora da vida, e poucas criaturas ensinam tanto quanto as formigas.

 

Quando menino, passava horas deitado na varanda de minha casa, observando, encantado, o incessante movimento de ida e volta desses seres aparentemente tão frágeis.

 

Foi ali que comecei a descobrir a admirável organização existente dentro de um formigueiro.

 

Aprendi que há a rainha, as operárias e os machos, cada qual desempenhando uma função indispensável à sobrevivência da colônia.

 

As operárias trabalham sem descanso.

 

Buscam alimento, cuidam das larvas, ampliam e conservam o formigueiro, demonstrando disciplina e cooperação exemplares.

 

A rainha dedica-se à reprodução, garantido a continuidade da espécie.

 

Os machos têm vida breve.

 

Sua missão é fecundar a rainha durante o voo nupcial.

 

Depois disso, morrem.

 

A fêmea fecundada perde as asas, procura um local seguro, escava a primeira câmara do futuro formigueiro e inicia uma nova colônia.

 

Segundo os cientistas, algumas rainhas podem viver até trinta anos, uma longevidade impressionante para um inseto.

 

Quanto mais observava as formigas, mais me encantava com a perfeita organização desses pequenos seres.

 

Era impossível não pensar na sabedoria da natureza, que distribui funções tão bem definidas e fez da cooperação o segredo da sobrevivência.

 

O que para o menino era simples diversão transformou-se, com o passar dos anos, em uma inesquecível aula de história natural.

 

Gabriel Novis Neves

04-08-2026




terça-feira, 4 de agosto de 2026

BORBOLETAS


Encontrar uma borboleta colorida era suficiente para interromper qualquer brincadeira.

 

O menino acompanhava seu voo leve entre flores, arbustos e árvores, admirando a delicadeza daquele pequeno ser.

 

Sem perceber, aprendia que a natureza oferecia espetáculos gratuitos todos os dias, bastando ter tempo, curiosidade e olhos atentos para descobri-los.

 

No terraço do meu apartamento mantenho um jardim bastante florido, que atrai borboletas das mais variadas cores.

 

Gosto de apreciar a dança delicada desses pequenos seres, que distribuem vida e beleza pelo jardim.

 

É um espetáculo que a mãe natureza nos oferece gratuitamente, todos os dias.

 

O meu encantamento pelas borboletas começou muito cedo.

 

Morava na rua de Baixo quando conheci e passei a frequentar o Museu da Borboleta.

 

Ele ficava no início da rua dos Porcos.

 

Seu proprietário era o juiz federal Dr. Eufrásio, pernambucano que veio servir em Cuiabá.

 

Minha mãe, dona Irene, logo fez amizade com sua esposa, e as duas se tornaram grandes amigas.

 

Nas visitas frequentes, eu sempre a acompanhava.

 

Foi nessa época que conheci o museu e me apaixonei pela beleza das borboletas coloridas.

 

O museu ocupava a sala da frente da casa, à esquerda do corredor de entrada.

 

Dr. Eufrásio tinha a paciência de conversar com um menino de apenas seis anos de idade sobre a vida das borboletas.

 

Também era conhecido como um dedicado colecionador, preservando com extremo cuidado os exemplares que enriqueciam seu belo museu.

 

Ao aposentar-se, retornou à sua cidade natal, a distante Recife.

 

Nunca mais tive notícias daquele museu.

 

Desconheço qualquer iniciativa pública semelhante em nossa cidade.

 

A universidade possui vários museus, mas não sei se existe um dedicado às borboletas.

 

Tenho a impressão de que o antigo curso de História Natural mantinha algo parecido.

 

O zoológico da universidade, tão apreciado por pesquisadores e crianças, foi fechado por falta de recursos federais.  

 

Quem sabe um Museu das Borboletas pudesse surgir para humanizar ainda mais o campus e despertar, nas novas gerações, o mesmo encantamento que despertou em mim quando era menino.

 

Fica a minha sugestão.

 

Gabriel Novis Neves

30-07-2026




segunda-feira, 3 de agosto de 2026

BARQUINHOS DE PAPEL


Bastava uma folha de papel e um pouco de imaginação para nascer um pequeno barco.

 

Depois da chuva o menino corria até a enxurrada para acompanhar sua viagem pelas águas.

 

Cada curva parecia uma grande aventura.

 

A felicidade morava naquela embarcação frágil, construída pelas próprias mãos e conduzida pelos sonhos de uma infância livre e criativa.

 

Quantos barquinhos de papel construí na minha infância, sob orientação paciente da minha mãe!

 

Com que alegria depois da chuva o barquinho era lançado na enxurrada para seguir sua viagem entre as águas.

 

Às vezes, eu acompanhava seu trajeto até que ele se desmanchasse.

 

Seu prazo de validade era curto, mas suficiente para nos fazer sonhar.

 

Naquele tempo não precisávamos comprar brinquedos.

 

Nós os fabricávamos em casa e nos divertíamos.

 

Fazíamos aviãozinhos com folhas de caderno escolar.

 

Quando encontravam uma corrente de ar favorável, alcançavam grandes alturas para nossa alegria.

 

Até hoje faço esses aviãozinhos e os lanço do vigésimo andar do edifício onde moro.

 

Fico extasiado acompanhando sua trajetória, até desaparecerem na linha do horizonte.

 

Também desenvolvíamos trabalhos manuais com a ajuda de minha mãe e dos amigos.

 

Fazíamos bola de futebol com a meia longa de seda de minha mãe.

 

Construíamos pipas de papel celofane, com varetas de bambu e cola preparada na cozinha de casa.

 

Esconde-esconde, cabra-cega e me-dá-um canto, eram as brincadeiras preferidas da minha infância.

 

Quando fui estudar no Rio de Janeiro, passei a me divertir com as ondas calmas do mar, com o futebol na praia e com as noites dançantes no diretório acadêmico.

 

Os brinquedos mudam de acordo com a nossa idade.

 

Hoje brinco de escrever crônicas sobre o cotidiano.

 

Antes, divertia-me construindo centros educacionais e participando da implantação da Cidade Universitária, em Cuiabá.

 

Filosofando: a vida é uma eterna brincadeira. Enquanto conservamos a capacidade de brincar, também preservamos a alegria de viver.

 

Gabriel Novis Neves

27-07-2026




domingo, 2 de agosto de 2026

CHUVA NAS MANGUEIRAS


Antes mesmo de a água alcançar o chão, a chuva já anunciava sua chegada pelo som produzido nas copas das mangueiras.

 

O menino parava tudo o que fazia para ouvir aquele concerto da natureza, enquanto o perfume da terra molhada invadia o quintal.

 

Eram momentos de contemplação que ensinavam, sem palavras, o encanto das pequenas coisas e o respeito pelos ritmos da vida.

 

Sempre procurei valorizar as pequenas dádivas que a natureza nos oferece.

 

Aprendi cedo que respeitá-la é também reconhecer sua capacidade de nos emocionar.

 

O som da chuva caindo sobre as copas das mangueiras possui uma beleza única.

 

Quantos compositores encontraram inspiração nesse espetáculo!

 

Basta lembrar Tito Madi, que eternizou em ‘Chove lá fora’, a melodia e a poesia das águas.

 

A natureza merece nosso respeito por tudo o que realiza e compartilha conosco.

 

Tudo tem seu tempo, inclusive o de aprendermos a compreendê-la.

 

De dentro de casa observávamos a chuva cair no quintal, enquanto aquele som tão agradável despertava nossos sentimentos.

 

Ao mesmo tempo, o perfume da terra molhada invadia o ambiente, chegando muitas vezes ao interior da casa.

 

As chuvas da minha infância aproximavam-nos ainda mais da natureza.

 

Era quando o menino saía para brincar nas enxurradas que corriam junto às calçadas, seguindo em direção ao córrego da Prainha.

 

A água batendo nas copas das mangueiras produzia uma música diferente daquela ouvida no córrego, mas ambas eram igualmente encantadoras.

 

Era ali que brincávamos de garimpar pepitas de ouro, imaginando encontrá-las nas proximidades do Palácio das Águias, perto da igreja do Rosário, onde a história conta que os

 

bandeirantes de Sorocaba extraíram grande parte do ouro que deu origem a cidade de Cuiabá.

 

Na grande cidade onde estudei, nunca mais ouvi o barulho da chuva nas mangueiras.

 

Também senti falta do perfume da terra molhada, até o dia que voltei para minha querida Cuiabá dos mangueirais.

 

A janela do meu dormitório ficava de frente para uma mangueira.

 

Foi ali que compreendi que alguns sons não envelhecem.

 

O da chuva batendo em suas folhas continua sendo, para mim, uma das mais belas lembranças da infância.

 

Gabriel Novis Neves

29-07-2026