Sobre a mesa da sala, uma toalha de crochê cobria tudo com delicadeza.
Era obra das mãos pacientes de minha avó, que trançava fios como quem tecia a própria memória da família.
As moças de antigamente eram preparadas para serem as ‘rainhas do lar’ e aprendiam a governar suas casas, embelezando-as com seus trabalhos manuais.
Minha mãe era especialmente criativa quando o assunto eram os bordados, rendas e crochês.
Todas as mesas e mesinhas da nossa casa eram cobertas por delicadas toalhas, que enchiam o ambiente de graça e aconchego.
A casa assim enfeitada propiciava um clima de harmonia — talvez o segredo dos casamentos duradouros de então.
A criançada só compreendia a importância daqueles arranjos caseiros das avós e mães quando se tornava adulta.
Eu sempre admirei profundamente os trabalhos manuais de minha mãe: havia neles uma poesia silenciosa.
Hoje, tudo é comprado em shoppings e lojas.
Quase ninguém tem tempo —ou paciência — para confeccionar, por exemplo, uma simples toalha de crochê.
Lê-se muito sobre o que é ser feliz, mas tenho certeza de que felicidade não se compra.
Os antigos já diziam: o dinheiro ajuda, mas nunca fez da felicidade privilégio dos ricos.
Nas casas dos bairros mais afastados e nas da zona rural ainda se encontram toalhas de crochê sobre as mesas e redes de algodão penduradas para o descanso.
Naquele tempo tudo era simples e fácil.
Tive a felicidade de crescer em um lar humilde, onde nunca faltou o essencial.
Éramos nove filhos, todos ajudando nossos pais —da limpeza da casa à fritura dos pastéis do bar.
Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dispensando o luxo das babás.
Estudar e cursar uma universidade eram compromissos sagrados.
Com o tempo, tudo passou a fazer sentido — como a toalha de crochê sobre a mesa da sala, símbolo de amor, trabalho e memória.
Gabriel Novis Neves
23-10-2025
