quarta-feira, 7 de outubro de 2026

TOALHAS DE CROCHÊ


Sobre a mesa da sala, uma toalha de crochê cobria tudo com delicadeza.

 

Era obra das mãos pacientes de minha avó, que trançava fios como quem tecia a própria memória da família.

 

As moças de antigamente eram preparadas para serem as ‘rainhas do lar’ e aprendiam a governar suas casas, embelezando-as com seus trabalhos manuais.

 

Minha mãe era especialmente criativa quando o assunto eram os bordados, rendas e crochês.

 

Todas as mesas e mesinhas da nossa casa eram cobertas por delicadas toalhas, que enchiam o ambiente de graça e aconchego.

 

A casa assim enfeitada propiciava um clima de harmonia — talvez o segredo dos casamentos duradouros de então.

 

A criançada só compreendia a importância daqueles arranjos caseiros das avós e mães quando se tornava adulta.

 

Eu sempre admirei profundamente os trabalhos manuais de minha mãe: havia neles uma poesia silenciosa.

 

Hoje, tudo é comprado em shoppings e lojas.

 

Quase ninguém tem tempo —ou paciência — para confeccionar, por exemplo, uma simples toalha de crochê.

 

Lê-se muito sobre o que é ser feliz, mas tenho certeza de que felicidade não se compra.

 

Os antigos já diziam: o dinheiro ajuda, mas nunca fez da felicidade privilégio dos ricos.

 

Nas casas dos bairros mais afastados e nas da zona rural ainda se encontram toalhas de crochê sobre as mesas e redes de algodão penduradas para o descanso.

 

Naquele tempo tudo era simples e fácil.

 

Tive a felicidade de crescer em um lar humilde, onde nunca faltou o essencial.

 

Éramos nove filhos, todos ajudando nossos pais —da limpeza da casa à fritura dos pastéis do bar.

 

Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dispensando o luxo das babás.

 

Estudar e cursar uma universidade eram compromissos sagrados.

 

Com o tempo, tudo passou a fazer sentido — como a toalha de crochê sobre a mesa da sala, símbolo de amor, trabalho e memória.

 

Gabriel Novis Neves

23-10-2025




terça-feira, 6 de outubro de 2026

RADINHO DE PILHA


Transmitia notícias, partidas de futebol e serenatas, embalando a vizinhança nas tardes de domingo.

 

Descobri o radinho de pilha no Rio de Janeiro, quando estudante de Medicina.

 

Era meu fiel companheiro nas tardes de domingo, para acompanhar os jogos de futebol no Maracanã.

 

Via o jogo, identificava os jogadores e os detalhes dos gols pelos locutores esportivos que ficavam atrás das traves do campo.

 

O narrador da partida permanecia em cabine especial, com visão privilegiada do gramado e o auxílio do comentarista esportivo.

 

Para fugir da aglomeração dos torcedores, eu costumava sentar no último degrau da arquibancada.

 

A visão não era das melhores — ainda mais porque os torcedores ficavam de pé na maior parte do jogo.

 

O que me salvava era o radinho de pilha colado ao ouvido.

 

Mesmo hoje, na Arena Pantanal, no camarote mais próximo ao campo, o radinho de pilha continua indispensável.

 

Quem o popularizou foi o Presidente Médici, que assistia aos jogos no Maracanã sempre com o radinho colado no ouvido, para alegria dos fotógrafos — numa época em que quase tudo era proibido.

 

Nos plantões de 24 horas na Maternidade de Cuiabá, aos sábados, eu carregava o meu no bolsinho do jaleco para ouvir música.

 

Ele me acompanhava no Centro Obstétrico e Cirúrgico.

 

Quantas crianças chegaram ao mundo ouvindo melodias suaves!

 

O radinho ajudava o dia passar mais rápido e leve.

 

Quando fui para a Femina, não o abandonei.

 

Com o passar dos anos, ele foi incorporado à rotina do meu trabalho.

 

Viajando pelo interior do Estado, nada mais encantador do que o serviço de alto-falantes tocando ao entardecer.

 

Até hoje guardo a lembrança da melodia de Fuscão Preto ecoando nos alto-falantes de Alto Araguaia, sob o pôr do sol.

 

Sinto uma nostalgia gostosa, que dói.

 

Quantos fuscões pretos ouvi nas cidadezinhas do leste de Mato Grosso, lá por 1980!

 

A música para mim funciona como o colírio da alma.

 

Guardo na gaveta da minha cabeceira, o meu último radinho de pilha.

 

De vez em quando o ligo, só para matar as saudades e ouvir: — ‘A saudade mata a gente’!

 

Gabriel Novis Neves

22-10-2025




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O SOM DA CAMPAINHA


O som da campainha já não mais me emociona.

 

Outrora, era o anúncio de alguém querido — um parente, um amigo ou o carteiro trazendo notícias de longe.

 

Quando a campainha tocava em casa, minha mãe sempre atarefada naquele casarão cheio de filhos, pedia ao mais próximo que fosse atender.

 

Seu coração batia acelerado tentando adivinhar quem chegava.

 

Era, talvez, a amiga da esquina vindo pagar uma visita atrasada.

 

A massa do bolo de arroz já estava pronta, e ela colocava nas forminhas para assar.

 

Enquanto o bolo crescia no forno, as duas conversavam na varanda.

 

Os filhos pequenos ficavam sapeando por perto à prosa das adultas.

 

Quando o assunto tomava rumo confidencial, minha mãe mandava a criançada sair dali.

 

A cozinheira então avisava que o bolo estava assado e o café, passado no coador de pano, fumegava sobre o fogão.

 

Era hora de servir o café na xícara pequena, acompanhado do bolo de arroz quentinho.

 

Naquele tempo tudo era mais simples — especialmente quando se tratava de bem receber uma visita.

 

As donas de casa eram verdadeiras artesãs do lar, sempre prontas para acolher, sem precisar recorrer a padarias e confeitarias.

 

Mesmo com poucos recursos, as famílias viviam bem, sustentadas pela simplicidade e generosidade.

 

Quando a visita se despedia, minha mãe costumava distribuir entre as vizinhas o que sobrava da merenda.

 

Cresci nesse ambiente de humildade e solidariedade, e confesso que me custa entender os tempos de agora em que apenas os ricos parecem viver bem.

 

Hoje tudo é feito fora de casa.

 

Receber alguém exige planejamento, compras e encomendas.

 

Um simples almoço de família requer serviços de bufê, e até festas de crianças dependem de empresas especializadas.

 

A sociedade complicou a arte de viver.

 

O som da campainha silenciou — nada mais é espontâneo.  

 

Tudo precisa ser marcado com antecedência, e o porteiro avisado da chegada da visita, substituiu a emoção daquele toque inesperado que, um dia, enchia a casa de alegria.

 

Gabriel Novis Neves

20-10-2025




domingo, 4 de outubro de 2026

LENÇO NO BOLSO


Meu pai nunca saía de casa sem um lenço no bolso.

 

Não era apenas um hábito, mas um gesto de elegância de quem estava sempre pronto a oferecer conforto a alguém.

 

A lembrança mais antiga que guardo dele é a de quando se preparava para abrir o bar, nas primeiras horas do dia.

 

Bebia o café em casa e saía a pé, de terno e gravata, com um lenço de seda no bolso superior esquerdo do paletó.

 

Mesmo com o calor de Cuiabá, esse era o seu uniforme de trabalho.

 

Pouco antes de se aposentar, aboliu o paletó, mas manteve as camisas brancas de mangas compridas.

 

Não me recordo de tê-lo visto usando camisas de mangas curtas — nem mesmo seus pijamas fugiam à formalidade: eram sempre de calça e camisa compridas.

 

Revendo álbuns de fotografias antigas de Cuiabá, observo que os homens, mesmo os trabalhadores mais humildes, sempre vestiam ternos.

 

E para um toque de charme, um chapéu panamá completava o traje.

 

Quando criança, ao ver um homem com chapéu panamá, logo o identificava como fazendeiro, usineiro, político — gente rica e importante.

 

Naquele tempo, os médicos usavam terno, gravata e chapéu.

 

Iam à Santa Casa atender seus doentes ou às residências, muitas vezes montados a cavalo.

 

As casas e os hospitais possuíam argolas de ferro nos muros e portais para amarrar o animal.

 

Todos os funcionários públicos — do porteiro ao governador — trajavam terno e gravata.

 

Nas missas de domingo, os homens compareciam impecáveis, em respeito ao ritual e à fé.

 

Como sinto saudades da cidadezinha em que nasci e cresci, tão linda e acolhedora, onde tudo era tão simples!

 

Tudo era perto, e todos pareciam pertencer à mesma grande família, onde a solidariedade era nossa maior moeda.

 

Era uma cidade sem pecados — e a palavra, o nosso PIX.

 

Veio o progresso e suas consequências, afastando de nós a elegância singela de um lenço de seda no bolso do paletó.

 

Gabriel Novis Neves

17-10-2025




O BILHETE DA ESCOLA


Na minha época de estudante o bilhete era o elo entre a escola e os pais.

 

Escrito à mão pela professora, geralmente em papel pautado, era entregue ao aluno com a recomendação de levá-lo “sem perder” para casa.

 

Aquele pequeno papel, dobrado em quatro, carregava respeito, temor e responsabilidade.

 

Nem sempre o conteúdo era motivo de alegria.

 

Quando o aluno se comportava mal, o bilhete vinha com o aviso de que a mãe deveria comparecer à escola.

 

Era o bastante para transformar a travessia até em casa numa caminhada silenciosa, em que o vento parecia mais pesado e o coração batia apressado.

 

Mas também existiam os bilhetes de elogio — o reconhecimento por uma boa redação, uma nota alta ou uma atitude gentil.

 

Esses eram mostrados com orgulho, como medalhas conquistadas com esforço e dedicação.

 

O bilhete representava uma ponte de confiança entre pais e mestres, um diálogo simples e respeitoso.

 

Não havia aplicativos, e-mails ou mensagens instantâneas.

 

Havia apenas o papel, a caneta e o cuidado com as palavras.

 

Mesmo curto, o bilhete era um gesto de atenção e de amor pela educação.

 

Lembro-me do cheiro do papel novo, da letra caprichada da professora e do modo como ela o dobrava, como quem guardava um segredo.

 

Cada bilhete tinha um peso e uma intenção: corrigir, agradecer, elogiar ou simplesmente orientar.

 

A escola de então educava com firmeza, mas também com ternura.

 

O bilhete era a extensão do olhar da professora, que acompanhava o aluno para além dos muros da sala de aula.

 

Talvez por isso aprendíamos melhor — não apenas as lições do quadro, mas também as da vida.

 

Havia emoção nas palavras e responsabilidade em cada recado.

 

Gabriel Novis Neves

Cuiabá, 12 de outubro de 2025




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

LAMPIÃO DE QUEROSENE


Nas noites em que a luz falhava o lampião de querosene era aceso e espalhava seu cheiro inconfundível pela casa.

 

A chama tremeluzente projetava sombras nas paredes, e parecia que a casa ganhava vida própria.

 

As novas gerações não chegaram a conhecer esses lampiões de querosene que foram, durante muito tempo, utilizados nas casas cuiabanas e também na iluminação pública do centro da cidade.

 

Também em casa usávamos lamparinas de querosene e velas em lindos castiçais de cristal, importados da Europa.

 

Esses castiçais eram objetos de luxo.

 

Tenho ainda um par deles na sala de jantar — herança de minha mãe, que os recebeu de seu pai.

 

Devem ter mais de cento e cinquenta anos e estão em perfeitas condições de uso.

 

Não me recordo de tê-los acendido. 

 

Para mim são objetos de contemplação —talvez os mais belos da minha casa.

 

Os castiçais desapareceram das casas atuais, cedendo lugar aos potentes geradores de energia.

 

Depois da inauguração da Usina do Manso melhorou muito o fornecimento de energia elétrica em Cuiabá.

 

De vez em quando ainda temos apagões, logo resolvidos, ocasião em que recorro às três lanternas à pilha, livrando-nos do terrível cheiro do querosene que espalhava pela casa.

 

Quanto ganhamos com o avanço das novas tecnologias a partir da segunda metade do século passado!

 

Foi um estirão de melhorias em todas as áreas do conhecimento humano.

 

Ficaram as lembranças de tempos não muitos distantes assim, despertando nos mais antigos uma doce melancolia.

 

Escrevo uma série de temas sobre objetos que eram obrigatórios nas casas de meus avós e que hoje são desconhecidos pela nova gerações.

 

Ontem publiquei ‘Cadeiras de Palhinha’; hoje ressuscito os antigos castiçais de cristal.

 

Meus contemporâneos, ao lerem, haverão de rever em sua imaginação um antigo filme sobres os castiçais de parede das casas cuiabanas.

 

Farão de tudo para que seus bisnetos compreendam a utilização desses objetos, que não existem mais — a não ser na casa do biso.

 

Gabriel Novis Neves

11-10-2025




quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O CALOR QUE PARECIA PARAR A CIDADE


Havia dias em que o calor de Cuiabá parecia mandar na cidade.

 

Depois do almoço as ruas ficavam quase vazias, as janelas se abriam e qualquer sombra era disputada.

 

O menino procurava o lugar mais fresco da casa, enquanto os adultos reclamavam do tempo.

 

Nem o vento aparecia para ajudar.

 

Tudo parecia parado, à espera de que o sol perdesse a força.

 

Ainda assim, o cuiabano aprendia desde cedo a conviver com aquele calor sufocante.

 

Fui criado sem aparelho de ar-condicionado e, apesar das altas temperaturas, dormia até com cobertor.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, tinha apenas um ventilador no quarto da casinha da rua Marechal Floriano.

 

Para mim, outubro sempre foi o mês mais quente.

 

Costumo brincar que Cuiabá só conhece uma estação: o verão.

 

Talvez por isso tenha estranhado tanto a temperatura mais amena quando deixei minha terra para estudar no Rio de Janeiro.

 

No Colégio Anglo-Americano, na praia de Botafogo, vivia de agasalho, até dentro de casa.

 

Foi ali que me preparei para alcançar meus objetivos e retornar à terra natal, disposto a ser útil à minha cidade e ao meu Estado.

 

O tempo passou, e aquele menino que enfrentava o calor cuiabano sem maiores cerimônias tornou-se intolerante a ele.

 

Hoje durmo em quarto refrigerado, faço as refeições com ar-condicionado e passo as manhãs e as tardes no escritório, também refrigerado.

 

Mudamos nós, e mudou Cuiabá.

 

Os quintais floridos foram desaparecendo.

 

Muitas árvores que ofereciam sombra às calçadas deram lugar ao cimento.

 

Córregos, riachos e tanques, que ajudavam a refrescar a cidade, ficaram apenas na lembrança.

 

A antiga Cidade Verde era realmente verde.

 

Talvez por isso o calor daquele tempo, embora forte, pareça hoje mais suave em minha memória.

 

Ou talvez fosse apenas o menino que sentia menos calor e tinha mais sombras onde se esconder.

 

Gabriel Novis Neves

30-09-2026




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SOMBRAS DAS MANGUEIRAS

 

Esta crônica, como tantas outras que escrevo, é recordação de uma Cuiabá da década de 1940 — cidade que já não existe mais.

 

Minha casa na rua do Campo tinha um enorme quintal, com mangueiras e outras árvores frutíferas, impedindo a penetração direta dos raios solares.

 

Era um verdadeiro parque de diversões, com balanços improvisados nos galhos e a fartura de frutos disputados por crianças e passarinhos.

 

Nos dias quentes, a sombra do mangueiral funcionava como um refresco natural.

 

Assim era Cuiabá há oitenta anos.

 

As mangueiras dos quintais foram substituídas por espigões de concreto, alguns com cinquenta andares, onde os moradores mal se conhecem, rompendo a tradição de se pedir emprestado um simples dente de alho para o almoço.

 

Os de maior poder aquisitivo, por sua vez, se refugiam em luxuosos condomínios afastados da cidade.

 

A sombra da mangueira no quintal tornou-se passado que não volta mais.

 

Imagino meus bisnetos me dizendo: ‘Essas coisas só existiram no seu tempo, biso’.

 

O hoje será o amanhã de ontem, se a humanidade não se preocupar com a sombra do mangueiral e com os passarinhos sem ter o que comer.

 

Certa ocasião, uma professora de antropologia da Universidade Federal, ouvindo meu lamento saudosista, disse-me para reflexão:

 

‘Quando o futuro é incerto, o melhor é voltar ao passado’.

 

Repliquei que o meu futuro era o melhor possível, sem temer a tecnologia que eu mesmo ajudava a implantar naquela cidade de antigos quintalões.

 

Tínhamos era que aprender a viver com a modernidade — ainda que sem os mangueirais.

 

Cuiabá de setecentos mil habitantes é bem diferente da pequena cidade de trinta mil habitantes que eu nasci.

 

A vida, afinal, é um eterno jogo, onde se perde e se ganha.

 

O que nos importa é saber ganhar com qualidade.

 

A Faculdade de Medicina foi um ganho de qualidade, já o desaparecimento da sombra das mangueiras nos quintais cuiabanos uma perda irreparável.

 

Gabriel Novis Neves

08-10-2025



terça-feira, 29 de setembro de 2026

CHIADO NAS PANELAS


No plantão da cuidadora de domingo, ela entrou no quarto para me levar os medicamentos, enquanto eu acompanhava pela televisão uma partida de futebol.

 

De repente, apenas ela ouviu o chiado da panela que havia deixado no fogão.

 

Saiu apressada, sem nada dizer, e correu para desligar o fogão.

 

Até então eu nada sabia.

 

Nem sequer percebi o som.

 

Ao retornar, explicou-me que estava cozinhando arroz integral e que aquele chiado forte era o sinal que já estava na hora de desligar a panela.

 

Esse som constante dominava as cozinhas das antigas casas cuiabanas.

 

Era um ruído que misturava ansiedade, fome e a certeza de que o feijão logo estaria pronto.

 

Naquele tempo, a cozinha ficava próxima à varanda, e sabíamos que o almoço estava prestes a ser servido pelos sons que vinham de lá.

 

Haverá som mais espalhafatoso que o de um bife fritando na frigideira?

 

Trabalhar com gordura quente é arriscar bolhas no dorso das mãos.

 

Mas tudo que é frito, convenhamos, tem um sabor irresistível.

 

E o que dizer dos sons produzidos por uma churrascaria?

 

De longe já se ouvem vozes misturadas ao estalar das brasas e ao ambiente enfumaçado.

 

Ao sair, carregamos impregnado na roupa o perfume da carne assada.

 

Hoje, muitos restaurantes preferem cozinhas blindadas, com possantes exaustores antirruídos, como acontecia na Casa Suíça.

 

Onde todas as mesas ficavam em área descoberta.

 

Curioso: o som da panela de pressão é chamado de chiado, o mesmo termo usado para descrever uma crise de asma brônquica — perceptível até sem estetoscópio.

 

Que saudade tenho de um chiado: dos dias ensolarados, da alegria de um passado que permanece dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

06-10-2025




A VOZ DO RÁDIO NA MADRUGADA


Mesmo depois da chegada da televisão e dos modernos meios de comunicação, os programas noturnos de rádio permanecem insubstituíveis e, até hoje, conservam uma fiel audiência.

 

São companhia para quem está desperto — trabalhando ou não — trazendo notícias, músicas e saudades.

 

Nos jogos de futebol o radinho de pilha colado ao ouvido, descreve ao torcedor cada detalhe: desde a conversa dos jogadores antes de entrarem em campo até os lances mais emocionantes das partidas.

 

O árbitro, por sua vez, comunica-se com seus auxiliares e com o VAR por meio de um pequeno microfone de rádio preso à lapela.

 

Porteiros de edifícios, caminhoneiros, plantonistas de serviços essenciais —todos têm no rádio da madrugada seu fiel companheiro.

 

Também os que sofrem de insônia encontram nele notícias, músicas e memórias que a madrugada desperta, levando-nos a pensar distante.

 

Tudo é diferente no rádio da madrugada: a voz serena do locutor, as músicas escolhidas, os recados cheios de saudade enviados a quem está longe.

 

Quando trabalhava em plantões noturnos nos hospitais da cidade, tinha sempre um radinho de pilha no bolso do jaleco.

 

Era meu companheiro, até mesmo no centro cirúrgico.

 

O rádio da madrugada começava ao entardecer e se estendia até às oito da manhã, quando a programação do dia assumia o comando.

 

O jornal matinal era preparado pelos radialistas que atravessavam a noite acordados.

 

Muitos jornalistas aprenderam a profissão nesse ofício silencioso e mágico.

 

Gostava de trabalhar na madrugada, onde tudo parecia mais calmo e acolhedor, desde os tempos de estudante no Rio de Janeiro.

 

Escrever relatórios de partos ao som do rádio noturno era tarefa que me enchia de paz — e ainda hoje desperta em mim um sentimento de doce nostalgia.

 

Quando morei no Porto, na rua Major Gama, era convidado a participar do programa da madrugada da Rádio Cultura, bem próxima de minha casa.

 

Ia e voltava a pé.

 

O assunto das entrevistas era sempre a criação de novos cursos e as obras da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Já se passaram cinquenta e cinco anos.

 

Quanta saudade!

 

Gabriel Novis Neves

03-10-2025




domingo, 27 de setembro de 2026

LUZ AMARELA DOS POSTES


Durante muitos anos Cuiabá padeceu com a falta de energia elétrica.

 

Quando menino lembro-me de um gerador instalado no morro da Prainha, e que sustentava a cidade.

 

O censo demográfico realizado pelo IBGE em 1980 já registrava mais de duzentos mil habitantes quando a Universidade Federal de Mato Grosso completava dez anos de funcionamento.

 

Em 1945, porém, não havia dados precisos.

 

A população não deveria passar de cinquenta mil almas, no máximo.

 

A energia vinha do rio da Casca, na região da Chapada dos Guimarães e sua distribuição era irregular.

 

Para aliviar o problema o governo do Estado instalou um possante gerador, no morro da Prainha, socorrendo a capital.

 

Clubes esportivos e instituições particulares seguiram o mesmo caminho.

 

O bar do meu pai, por exemplo, não podia sobreviver sem energia para a sorveteria e o setor de bebidas.

 

A iluminação pública vinha de postes altos, mas sua luz era fraca, amarelada.

 

Inspirava medos, brincadeiras e também encontros amorosos ao cair da noite.

 

Bastava um relâmpago sobre o rio da Casca e a cidade inteira mergulhava na escuridão, até o gerador do morro da Prainha assumir seu papel.

 

Mesmo assim, a claridade era pálida e insuficiente, obrigando muitos a se recolherem em casa, temendo assaltos.

 

Outros, porém, viam ali a chance perfeita para viver namoros proibidos, sob a cumplicidade da penumbra.

 

O fornecimento regular de energia elétrica só veio com a construção da barragem do Manso, também na Chapada, e com o incentivo às micro usinas que atraíram grandes empresários.

 

Mesmo hoje, com hospitais, quartéis, edifícios, shoppings, restaurantes, hotéis e clubes contando com seus próprios geradores de emergência, a cidade já não teme o escuro.

 

Cuiabá, com seus mais de setecentos mil habitantes, ilumina-se com postes de luz clara. E ninguém mais namora na rua.

 

Fica em casa, às claras.

 

O velho gerador do morro da Prainha deixou apenas a lembrança de um tempo e o apelido carinhoso: ‘Casinha do Morro da Luz. ’

 

Gabriel Novis Neves

04-10-2025




sábado, 26 de setembro de 2026

O TOQUE DO FERRO DE PASSAR


O ferro de passar de minha infância era o de brasa, pesado, acompanhado sempre do cheiro de roupa limpa e bem cuidada.

 

Quase todas as famílias cuiabanas tinham suas lavadeiras e passadeiras de confiança.

 

As da minha casa vinham do bairro do Baú.

 

Elas lavavam nos tanques, passavam e engomavam em suas próprias casas.

 

A goma dos ternos brancos era orgulho dos fregueses, exibidos aos domingos nas missas e nas retretas da Praça Alencastro.

 

Seus donos não ousavam sentar-se, para que o vinco não quebrasse nem amassasse — o mesmo cuidado tinhas as moças com as suas saias plissadas.

 

As lavadeiras eram respeitadas e bem tratadas, afinal, perder uma freguesia era prejuízo.

 

O trabalho de lavar as roupas era artesanal; já o ato de passá-las, exigia o ferro a brasa, que deixava no ar aquele perfume de roupa bem cuidada.

 

Meu uniforme de gala do Colégio Salesiano São Gonçalo, era branco.

 

Usava-o apenas em solenidades: velórios de autoridades ou desfiles escolares.

 

Retornava invariavelmente amassado e logo era enviado à lavadeira.

 

Em 1946, era também a minha melhor roupa — uniforme branco impecável, acompanhado de quepe militar.

 

Recordo-me de certa ocasião em que minha mãe, com tantos filhos a cuidar, pediu que eu a representasse no casamento de amigos.

 

Respondi que não tinha roupas adequadas.

 

Ela retrucou: ‘E o uniforme do colégio dos padres, engomado que está no meu guarda-roupa?’

 

E lá fui eu, menino, de uniforme de gala a uma festa de adultos — morrendo de vergonha.

 

Até hoje guardo na memória aquele acontecimento inusitado. 

 

Vieram depois os ferros elétricos e, mais tarde as lavanderias.

 

Hoje, minhas roupas leves, são lavadas na lavanderia do meu apartamento e passadas com ferro elétrico pela cuidadora.

 

As peças mais pesadas —ternos, calças, camisas de manga comprida, edredons e cobertores vão para as tinturarias.

 

O velho ferro a brasa, que já reinou em tantas casas cuiabanas, hoje é apenas peça de museu em um mundo dominado pela tecnologia.

 

Gabriel Novis Neves

02-10-2025




sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BILHETE ESQUECIDO NO BOLSO DO PALETÓ


Uma frase curta, rabiscada às pressas, pode revelar emoções e segredos de um tempo que não volta.

 

Hoje ninguém mais escreve bilhetes — eles são digitados no celular e, por isso, nunca se perdem nos bolsos.

 

Outrora, o lápis exercia inúmeras funções e todos o tinham ao alcance: nos bolsos ou atrás da orelha, como faziam os comerciantes.

 

As gavetas das casas guardavam sempre um lápis para anotar alguma emergência.

 

Já os médicos usavam as modernas canetas-tinteiro para receitar em seus blocos próprios.

 

Eram verdadeiros rabiscos, compreendidos apenas pelos farmacêuticos experientes.

 

Aquela frase curta, rabiscada às pressas, que podia revelar emoções e segredos de um tempo que não volta mais, serve apenas de lembrança saudosa.

 

Os antigos viviam mergulhados em emoções, segredos, pequenos mistérios incompreendidos nos dias de hoje.

 

Agora esses sentimentos se transformaram em produtos mercadológicos.

 

O bilhete esquecido no bolso do paletó já não é encontrado, nem mesmo na nossa imaginação.

 

Encontrar poesia — ou filosofar sobre a simplicidade daquilo que um dia já foi luxo — é sonhar com um passado distante.

 

E parece que muitos não gostam de ser chamados de saudosistas, como se o termo fosse depreciativo ou pejorativo.

 

Mas o que há de errado em revelar emoções? Até mesmo em um bilhete esquecido no bolso do paletó pode se esconder um segredo.

 

O passado encontrava poesia em tudo; o presente, ao contrário, tornou-se materialista.

 

Venho de quase um século atrás e me considero sem pudor, um saudosista das coisas que perdi: o lápis, o caderno de caligrafia, o caderno do armazém onde tudo era comprado fiado e pago no fim do mês.

 

A máquina fotográfica japonesa foi substituída pelo celular em cores.

 

Em compensação, ganhamos o ensino superior em nossa própria cidade, sem precisar viajar para ter um curso universitário e ser chamado de ‘doutor’.

 

O ritual da despedida também era lindo: visitas formais, abraços demorados e troca de cartas, reveladoras de emoções e segredos.

 

Gabriel Novis Neves

29-09-2025




quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O JORNAL DOBRADO


O jornal abandonado pode revelar muito: notícias antigas, o cheiro do papel e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.

 

Sempre tive fascínio por notícias antigas.

 

Na juventude fazia as compras de casa nos armazéns, e quase tudo vinha embrulhado em folhas de jornal, mais baratas que o papel próprio para o comércio.

 

Meu pai lia os jornais da cidade e um do Rio de Janeiro.

 

Depois guardava-os no quarto de despejo.

 

Eu os vendia nos armazéns, pelo preço que o comerciante estipulava.

 

Saía satisfeito e, com o dinheiro, comprava queimadas e pirulitos na casa do seu Freitas.

 

Gostava de reler aquelas páginas, especialmente as notícias antigas da Segunda Guerra Mundial e as de futebol do Rio.

 

Apesar de estarmos mais próximos de São Paulo, nossa identidade cultural sempre esteve ligada ao Rio de Janeiro.

 

Hoje isso mudou: procuramos São Paulo para tudo, sobretudo pelos serviços médicos.

 

Vendi o apartamento que tinha no Rio; minha filha mantém um em São Paulo.

 

Muitos não têm coragem de jogar fora um velho jornal.

 

Alguns preferem dobrá-lo e deixá-lo sobre o banco da praça — esse espaço unanimemente presente nas cidades brasileiras, nascidas ao redor delas, respiradores sociais do lazer popular.

 

O jornal esquecido na praça, porém, guarda segredos: notícias que o leitor ocasional desconhece, o perfume do papel que nos transporta ao passado e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.

 

Ali, como donos do nosso passado, ressuscitamos vivências.

 

Sou um admirador privilegiado das praças Alencastro e da República, onde passei boa parte da minha juventude.

 

Vi muitos jornais dobrados em seus bancos.

 

Poucos se aventuraram a abri-los.

 

Hoje moro próximo à praça Popular, com suas árvores frondosas e bancos.

 

Quase sempre encontro, esquecido por alguém, um jornal dobrado à espera de um novo olhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-09-2025


Jardim Alencastro

Praça da República