quarta-feira, 7 de outubro de 2026

TOALHAS DE CROCHÊ


Sobre a mesa da sala, uma toalha de crochê cobria tudo com delicadeza.

 

Era obra das mãos pacientes de minha avó, que trançava fios como quem tecia a própria memória da família.

 

As moças de antigamente eram preparadas para serem as ‘rainhas do lar’ e aprendiam a governar suas casas, embelezando-as com seus trabalhos manuais.

 

Minha mãe era especialmente criativa quando o assunto eram os bordados, rendas e crochês.

 

Todas as mesas e mesinhas da nossa casa eram cobertas por delicadas toalhas, que enchiam o ambiente de graça e aconchego.

 

A casa assim enfeitada propiciava um clima de harmonia — talvez o segredo dos casamentos duradouros de então.

 

A criançada só compreendia a importância daqueles arranjos caseiros das avós e mães quando se tornava adulta.

 

Eu sempre admirei profundamente os trabalhos manuais de minha mãe: havia neles uma poesia silenciosa.

 

Hoje, tudo é comprado em shoppings e lojas.

 

Quase ninguém tem tempo —ou paciência — para confeccionar, por exemplo, uma simples toalha de crochê.

 

Lê-se muito sobre o que é ser feliz, mas tenho certeza de que felicidade não se compra.

 

Os antigos já diziam: o dinheiro ajuda, mas nunca fez da felicidade privilégio dos ricos.

 

Nas casas dos bairros mais afastados e nas da zona rural ainda se encontram toalhas de crochê sobre as mesas e redes de algodão penduradas para o descanso.

 

Naquele tempo tudo era simples e fácil.

 

Tive a felicidade de crescer em um lar humilde, onde nunca faltou o essencial.

 

Éramos nove filhos, todos ajudando nossos pais —da limpeza da casa à fritura dos pastéis do bar.

 

Os mais velhos cuidavam dos mais novos, dispensando o luxo das babás.

 

Estudar e cursar uma universidade eram compromissos sagrados.

 

Com o tempo, tudo passou a fazer sentido — como a toalha de crochê sobre a mesa da sala, símbolo de amor, trabalho e memória.

 

Gabriel Novis Neves

23-10-2025




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