sábado, 2 de maio de 2026

ALMOÇO EM TRÊS GERAÇÕES


Poucas cenas me parecem tão comoventes quanto uma mesa em torno da qual se reúnem filhos, netos e bisnetos!

 

Nesses momentos o tempo deixa de ser calendário e se transforma em presença viva.

 

Cada geração fala sua língua, tem suas pressas, seus costumes e suas memórias.

 

Mas a mesa realiza o milagre do encontro.

 

Enquanto uns recordam o passado, outros vivem intensamente o presente, e os menores, sem saber, anunciam em seus gestos o futuro da família.

 

No almoço semanal da nossa família, sou o mais velho, com noventa e um anos, e a mais nova é minha bisneta, com apenas dois.

 

Eu quase sempre apenas ouço, pois ninguém me pergunta muita coisa.

 

Talvez imaginem que, pela idade, já falei bastante na vida.

 

Filhos e netos conversam ao mesmo tempo sobre os mais variados assuntos.

 

Fotografam os personagens da reunião de todas as posições possíveis, quase sempre com foco nos menores.

 

Estes, por sua vez, costumam trazer amiguinhos para almoçar na casa do biso, aumentando ainda mais a alegria da mesa.

 

O almoço conta com o apoio de uma mesa auxiliar, para que todas as gerações possam usufruir melhor do encontro.

 

Pela ocupação das cadeiras, com o patriarca na cabeceira, fica nítida uma antiga tendência familiar: de um lado os homens; de outro, as mulheres e as crianças.

 

A mesa auxiliar acolhe especialmente as mulheres e os pequenos.

 

Podemos dizer que essa distribuição é voluntária. É ali que os bisnetos ficam mais à vontade, entre risos, brincadeiras e pequenas travessuras.

 

Depois do almoço, na hora da sobremesa, termina essa organização.

 

Começa então, uma verdadeira dança de cadeiras.

 

Muitos adultos deixam seus lugares por não apreciarem doces ou por obedecerem às dietas que a idade e os exames impõem.

 

Os bisnetos, felizes, ocupam esses espaços.

 

Ainda não sabem que os adultos, às vezes, abrem mão das melhores alegrias da mesa: as sobremesas, os sorvetes, os doces da infância.

 

Eles não fazem economia nesse momento.

 

Para mim, o ponto mais emocionante acontece quando me levanto da mesa para descansar.

 

Meus netos e bisnetos logo oferecem o seu ‘braço amigo’ para me acompanhar até o dormitório.

 

Esperam que eu me acomode e retornam ao salão do almoço, onde a conversa continua, animada e familiar.

 

Fico sozinho por alguns instantes, mas não me sinto só.

 

Levo comigo o ruído bom da casa cheia, o carinho dos meus descendentes e a certeza que a vida continua ao redor da mesa.

 

E, em silêncio, já começo a esperar o próximo almoço.  

 

Gabriel Novis Neves

24-04-2025