segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O SOM DA CAMPAINHA


O som da campainha já não mais me emociona.

 

Outrora, era o anúncio de alguém querido — um parente, um amigo ou o carteiro trazendo notícias de longe.

 

Quando a campainha tocava em casa, minha mãe sempre atarefada naquele casarão cheio de filhos, pedia ao mais próximo que fosse atender.

 

Seu coração batia acelerado tentando adivinhar quem chegava.

 

Era, talvez, a amiga da esquina vindo pagar uma visita atrasada.

 

A massa do bolo de arroz já estava pronta, e ela colocava nas forminhas para assar.

 

Enquanto o bolo crescia no forno, as duas conversavam na varanda.

 

Os filhos pequenos ficavam sapeando por perto à prosa das adultas.

 

Quando o assunto tomava rumo confidencial, minha mãe mandava a criançada sair dali.

 

A cozinheira então avisava que o bolo estava assado e o café, passado no coador de pano, fumegava sobre o fogão.

 

Era hora de servir o café na xícara pequena, acompanhado do bolo de arroz quentinho.

 

Naquele tempo tudo era mais simples — especialmente quando se tratava de bem receber uma visita.

 

As donas de casa eram verdadeiras artesãs do lar, sempre prontas para acolher, sem precisar recorrer a padarias e confeitarias.

 

Mesmo com poucos recursos, as famílias viviam bem, sustentadas pela simplicidade e generosidade.

 

Quando a visita se despedia, minha mãe costumava distribuir entre as vizinhas o que sobrava da merenda.

 

Cresci nesse ambiente de humildade e solidariedade, e confesso que me custa entender os tempos de agora em que apenas os ricos parecem viver bem.

 

Hoje tudo é feito fora de casa.

 

Receber alguém exige planejamento, compras e encomendas.

 

Um simples almoço de família requer serviços de bufê, e até festas de crianças dependem de empresas especializadas.

 

A sociedade complicou a arte de viver.

 

O som da campainha silenciou — nada mais é espontâneo.  

 

Tudo precisa ser marcado com antecedência, e o porteiro avisado da chegada da visita, substituiu a emoção daquele toque inesperado que, um dia, enchia a casa de alegria.

 

Gabriel Novis Neves

20-10-2025




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