segunda-feira, 1 de junho de 2026

A MEMÓRIA QUE ESCOLHE


Percebo que a memória anda seletiva.

 

Esqueço nomes recentes, mas guardo, intactos, detalhes da juventude.

 

Recordo ruas, vozes e cheiros de décadas atrás.

 

O passado se apresenta com nitidez surpreendente.

 

Talvez envelhecer seja também reorganizar as lembranças.

 

O velho conversa com prazer sobre o que já viveu.

 

Seu presente, por vezes, parece feito de passado.

 

Gosta de contar histórias da família, da cidade, das conquistas.

 

E quase sempre encontra ouvintes atentos, sobretudo entre os mais jovens.

 

Envelhecer é privilégio de poucos —sobreviver aos impropérios do tempo não é façanha comum.

 

Nunca imaginei chegar onde cheguei, com a memória ainda íntegra, lembrando fatos antigos e recentes.

 

Aproveito essa dádiva para escrever sobre o cotidiano, quase sempre com os pés firmados no ontem.

 

Aprendi a ouvir meu avô.

 

Suas histórias enriqueceram meu presente.

 

A oralidade raramente está nos livros; é nela que pulsa a verdade sentida dos fatos.

 

Muito do que sei sobre a história de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil devo às conversas com o historiador Estevão de Mendonça e seu filho, também historiador, Rubens de Mendonça.

 

Foram meus vizinhos na rua do Campo,  respeitados pela gurizada do meu tempo.

 

Com que entusiasmo narravam episódios da Guerra do Paraguai e os feitos de seus heróis!

 

Sim, o velho reorganiza as lembranças.

 

Recordo, com emoção, os longos anos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro.

 

Hoje parecem sonho.

 

O prédio histórico da faculdade foi demolido; resta-nos a fotografia.

 

A boate Casablanca, no térreo da estação do bondinho para o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, que conheci em 1952, vive apenas na memória.

 

Assistir aos ensaios das bailarinas era um espetáculo à parte.

 

A Casa do Estudante de Medicina, escondida atrás da faculdade, o restaurante universitário, o auditório do Centro Acadêmico, as noites dançantes que alegravam estudantes do interior e moças suburbanas — tudo reaparece quando fecho os olhos.

 

Do alto dos meus noventa anos, compreendo: a memória não falha — ela escolhe.

 

E escolhe, quase sempre, aquilo que fez o coração bater mais forte.

 

Gabriel Novis Neves

02-03-2026