Percebo que a memória anda seletiva.
Esqueço nomes recentes, mas guardo, intactos, detalhes da juventude.
Recordo ruas, vozes e cheiros de décadas atrás.
O passado se apresenta com nitidez surpreendente.
Talvez envelhecer seja também reorganizar as lembranças.
O velho conversa com prazer sobre o que já viveu.
Seu presente, por vezes, parece feito de passado.
Gosta de contar histórias da família, da cidade, das conquistas.
E quase sempre encontra ouvintes atentos, sobretudo entre os mais jovens.
Envelhecer é privilégio de poucos —sobreviver aos impropérios do tempo não é façanha comum.
Nunca imaginei chegar onde cheguei, com a memória ainda íntegra, lembrando fatos antigos e recentes.
Aproveito essa dádiva para escrever sobre o cotidiano, quase sempre com os pés firmados no ontem.
Aprendi a ouvir meu avô.
Suas histórias enriqueceram meu presente.
A oralidade raramente está nos livros; é nela que pulsa a verdade sentida dos fatos.
Muito do que sei sobre a história de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil devo às conversas com o historiador Estevão de Mendonça e seu filho, também historiador, Rubens de Mendonça.
Foram meus vizinhos na rua do Campo, respeitados pela gurizada do meu tempo.
Com que entusiasmo narravam episódios da Guerra do Paraguai e os feitos de seus heróis!
Sim, o velho reorganiza as lembranças.
Recordo, com emoção, os longos anos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro.
Hoje parecem sonho.
O prédio histórico da faculdade foi demolido; resta-nos a fotografia.
A boate Casablanca, no térreo da estação do bondinho para o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, que conheci em 1952, vive apenas na memória.
Assistir aos ensaios das bailarinas era um espetáculo à parte.
A Casa do Estudante de Medicina, escondida atrás da faculdade, o restaurante universitário, o auditório do Centro Acadêmico, as noites dançantes que alegravam estudantes do interior e moças suburbanas — tudo reaparece quando fecho os olhos.
Do alto dos meus noventa anos, compreendo: a memória não falha — ela escolhe.
E escolhe, quase sempre, aquilo que fez o coração bater mais forte.
Gabriel Novis Neves
02-03-2026