Antes da televisão ocupar tanto espaço na vida das famílias, muita gente passava alguns minutos do dia observando a rua pela janela.
Dali acompanhava-se o movimento dos vizinhos, das crianças brincando e dos vendedores ambulantes.
A janela era uma espécie de jornal cotidiano, sempre trazendo alguma novidade.
Quem se sentava no parapeito acabava participando da vida do bairro sem sair de casa.
Tive o privilégio de passar horas nas janelas da minha casa até viajar para o Rio de Janeiro para estudar Medicina.
À tarde, fazia os deveres escolares, tomava banho com água retirada do tanque de cimento nos fundos da casa, vestia calção e camiseta, penteava os cabelos com Gumex e ficava vendo o tempo passar.
Via meu pai surgir na esquina das ruas Cândido Mariano e do Campo, trazendo sacolas com pão ainda quente para o lanche da tarde.
Conversava com quem passava e, sem perceber, ficava sabendo das novidades da cidade.
Todas as casas da minha rua tinham grandes janelas ocupadas durante boa parte do dia.
Depois que a região onde morei foi tombada pelo patrimônio histórico e cultural, seus moradores mudaram-se aos poucos.
Alguns casarões foram demolidos outros transformados em estacionamentos.
As janelas da minha infância eram verdadeiros instrumentos de comunicação com a comunidade, dividindo essa função com as cadeiras de balanço colocadas à porta das casas.
Estas ganhavam vida ao entardecer, quando o calor diminuía.
As janelas, porém, despertavam junto com o dia.
Quantas compras minha mãe fez sem sair de casa, negociando pela janela com os vendedores ambulantes.
Nasci em um tempo em que verduras, frutas, peixes, rapaduras, farinha de mandioca e galinhas, eram vendidos de porta em porta transportado em pequenos carros de madeira com uma única roda dianteira.
As mercadorias vinham do rio Cuiabá, dos sítios e das chácaras que cercavam a cidade.
Era uma Cuiabá simples, humana e próxima. Uma cidade que o tempo levou consigo, deixando apenas lembranças guardadas na memória de quem viveu.
Hoje, quando olho uma janela antiga, não vejo apenas a rua.
Vejo um pedaço da minha infância ainda acenando para mim.
Gabriel Novis Neves
10-06-2026
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