Durante a Segunda Guerra Mundial muitos jovens cuiabanos foram convocados para servir ao Exército.
Entre 1942 e 1945, famílias acompanhavam apreensivas as notícias vindas do rádio e dos jornais.
A guerra parecia distante, mas suas consequências chegavam até as ruas tranquilas de Cuiabá.
Havia medo, orgulho e incerteza.
Algumas mães rezavam diariamente pelos filhos fardados.
A cidade viveu aqueles anos com sentimentos misturados, tentando compreender um conflito mundial que alterava hábitos, preços, comportamentos e a própria visão que o Brasil tinha de si mesmo.
Eu fui à despedida dos pracinhas brasileiros, nas escadarias da Catedral.
Missas foram celebradas com sermões de Dom Aquino Correa.
Políticos e a sociedade participaram daquele que talvez tenha sido o maior evento popular da Cuiabá daquele tempo.
Infelizmente, alguns dos nossos heróis não retornaram, tombando nos combates da Itália contra o nazi-fascismo que ameaçava dominar o mundo.
Assisti a tudo ao lado do meu pai, da porta da sorveteria do bar, ao lado da Catedral.
São lembranças que nunca consegui esquecer.
O fim da Segunda Guerra Mundial ocorreu oficialmente em 8 de maio de1945.
Foi decretado feriado nacional e fui levar uma bandeja de pastéis ao bar.
Naquela época não tínhamos rádio em casa e as notícias da guerra chegavam pelas ruas.
No trajeto da minha casa, na rua do Campo, até o bar do meu pai, na Praça Alencastro, vi a cidade diferente.
Os cuiabanos ocupavam as ruas, soltavam foguetes e enchiam as mesas dos bares em clima de alegria.
Eu era coroinha da Catedral e ajudava na administração da igreja.
Encontrei na porta do bar meu colega de escola e igreja, Carlos Eduardo Maciel Epaminondas, filho de um dos médicos mais conhecidos de Cuiabá.
Ele me contou que ouvira pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro que a guerra havia terminado e que o povo brasileiro comemorava nas ruas.
Os sinos das igrejas repicavam em festa.
Os de Cuiabá permaneciam silenciosos.
Meu colega perguntou se eu toparia tocar os sinos da Catedral sem autorização das autoridades eclesiásticas.
Lembrei dos soldados da Força Expedicionária Brasileira — FEB — e topei.
Minutos depois estávamos na torre da Catedral, tocando seus três sinos.
Logo outras igrejas fizeram o mesmo.
E Cuiabá inteira pareceu sorrir em paz.
Gabriel Novis Neves
29-05-2026
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