Antigamente, nos dias de descanso, a porta da casa costumava ficar aberta por mais tempo.
Por ela entravam vizinhos, parentes, conhecidos, notícias, conversas e até o vento fresco das tardes cuiabanas.
A casa não era uma fortaleza.
Era um lugar de encontros.
Hoje, as portas se fecharam mais, por medo ou por costume.
Mas a memória ainda guarda aquela sensação acolhedora de casa aberta, quando a vida da rua conversava naturalmente com a vida de dentro.
Na casa da rua de Baixo, onde vivi os primeiros anos da minha infância, não me lembro de meu pai fechar a porta que dava para a rua.
Naqueles tempos, muitas famílias dormiam com as portas abertas.
Eram casas cheias de filhos, e não era raro que algum deles demorasse a voltar para casa depois das brincadeiras ou das visitas aos parentes.
Mais tarde, na rua do Campo, a porta permanecia apenas encostada.
Nem chave possuía.
Quando retornei a Cuiabá, já formado em Medicina, encontrei uma cidade diferente. Tinha cerca de sessenta mil habitantes e recebia forte corrente migratória, especialmente dos estados do Sul do país.
As portas passaram a ser fechadas durante a noite.
Surgiram os guardas-noturnos, uniformizados, percorrendo as ruas com seus apitos característicos.
Na época da colonização da Grande Cáceres apareceram os primeiros casos da chamada ‘loucura dos caminhões’, fenômeno que estudei no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho.
Pequenos agricultores embarcavam com suas famílias nas carrocerias dos caminhões em busca da terra prometida.
Encontravam terras férteis e oportunidades, mas também enfrentavam dificuldades, como a ausência de escolas, postos de saúde e infraestrutura básica.
A ocupação territorial avançou, Mato Grosso cresceu e se transformou em uma potência agrícola.
O poder político também se deslocou para os novos municípios que surgiram com a colonização.
Cuiabá deixou de ser apenas a cidade verde e acolhedora de antigamente para assumir o papel de capital de um estado moderno e dinâmico.
Os antigos casarões foram sendo abandonados. Muitas famílias mudaram-se para apartamentos e condomínios fechados, afastando-se do Centro Histórico.
Hoje vivem em espigões de concreto ou atrás de muros protegidos por portarias, câmeras e senhas.
As velhas portas voltadas para a rua quase desapareceram.
Talvez o progresso tenha trazido mais conforto e segurança.
Mas levou consigo um pouco daquela confiança simples que permitia às casas permanecerem abertas e aos vizinhos entrarem sem cerimônia.
A cidade cresceu.
As portas se fecharam.
Mas a saudade continua aberta.
Gabriel Novis Neves
05-06-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.