terça-feira, 30 de junho de 2026

"VENDAS" NOS BAIRROS


Antes dos supermercados, as pequenas vendas faziam parte da rotina dos bairros cuiabanos.

 

Ali se comprava de tudo um pouco, desde mantimentos até notícias da vizinhança.

 

As pessoas aguardavam sua vez conversando, trocando informações e comentando os acontecimentos da cidade.

 

O comerciante conhecia cada cliente pelo nome.

 

Mais do que um local de compras, a venda era ponto de encontro e convivência.

 

Muitas amizades nasceram entre sacos de arroz, latas de óleo e balcões de madeira.

 

Eu tinha menos de sete anos, quando conheci e comecei a frequentar a venda do meu bairro, localizada em frente ao córrego da Prainha.

 

Seu proprietário era seu Tingo.

 

As salas da frente da casa eram ocupadas pelo comércio, enquanto ele morava com os filhos nos fundos.

 

Um deles viria a ser o desembargador Odiles de Freitas.

 

Tudo o que se procurava era encontrado ali, mas a especialidade da casa eram as ervas medicinais.

 

Quando surgiam os problemas de saúde da infância, minha mãe recorria à venda do Tingo.

 

Ele vendia fiado, anotando as compras em um caderno para pagamento no fim do mês.

 

Eu gostava de ouvir suas conversas e observar a chegada das encomendas de produtos medicinais.

 

Havia um canto da venda repleto de raízes, folhas e ervas muito procuradas pelos moradores do bairro.

 

 A rua de Baixo, com sua pracinha, tinha de tudo: o estúdio fotográfico do Cháu, a farmácia do seu Campos, o armazém de secos e molhados do seu Abdala Mansur, a Casa Rosa do seu Chicre Motran, a Casa Mansur, a padaria do seu Latorraca, o consultório do Lúcio, dentista prático e o cartório do seu João, pai de Luís Philippe Pereira Leite.

 

O bairro era preferido por imigrantes europeus e do Oriente Médio, que se misturavam harmoniosamente aos habitantes da terra.

 

Nesse cenário, a venda do Tingo era uma verdadeira referência.

 

Nasci ali e me mudei para a rua do Campo no início de 1945.

 

O armazém do Tingo costumava formar filas de fregueses, não apenas pelos produtos que oferecia, mas pela atenção, pelos conselhos e pela agradável convivência que proporcionava. Alguns lugares vendiam mercadorias.

 

A venda do Tingo vendia também amizade, confiança e um sentimento de pertencimento que o tempo jamais conseguiu apagar.

 

Gabriel Novis Neves

19-06-2026




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