domingo, 2 de agosto de 2026

CHUVA NAS MANGUEIRAS


Antes mesmo de a água alcançar o chão, a chuva já anunciava sua chegada pelo som produzido nas copas das mangueiras.

 

O menino parava tudo o que fazia para ouvir aquele concerto da natureza, enquanto o perfume da terra molhada invadia o quintal.

 

Eram momentos de contemplação que ensinavam, sem palavras, o encanto das pequenas coisas e o respeito pelos ritmos da vida.

 

Sempre procurei valorizar as pequenas dádivas que a natureza nos oferece.

 

Aprendi cedo que respeitá-la é também reconhecer sua capacidade de nos emocionar.

 

O som da chuva caindo sobre as copas das mangueiras possui uma beleza única.

 

Quantos compositores encontraram inspiração nesse espetáculo!

 

Basta lembrar Tito Madi, que eternizou em ‘Chove lá fora’, a melodia e a poesia das águas.

 

A natureza merece nosso respeito por tudo o que realiza e compartilha conosco.

 

Tudo tem seu tempo, inclusive o de aprendermos a compreendê-la.

 

De dentro de casa observávamos a chuva cair no quintal, enquanto aquele som tão agradável despertava nossos sentimentos.

 

Ao mesmo tempo, o perfume da terra molhada invadia o ambiente, chegando muitas vezes ao interior da casa.

 

As chuvas da minha infância aproximavam-nos ainda mais da natureza.

 

Era quando o menino saía para brincar nas enxurradas que corriam junto às calçadas, seguindo em direção ao córrego da Prainha.

 

A água batendo nas copas das mangueiras produzia uma música diferente daquela ouvida no córrego, mas ambas eram igualmente encantadoras.

 

Era ali que brincávamos de garimpar pepitas de ouro, imaginando encontrá-las nas proximidades do Palácio das Águias, perto da igreja do Rosário, onde a história conta que os

 

bandeirantes de Sorocaba extraíram grande parte do ouro que deu origem a cidade de Cuiabá.

 

Na grande cidade onde estudei, nunca mais ouvi o barulho da chuva nas mangueiras.

 

Também senti falta do perfume da terra molhada, até o dia que voltei para minha querida Cuiabá dos mangueirais.

 

A janela do meu dormitório ficava de frente para uma mangueira.

 

Foi ali que compreendi que alguns sons não envelhecem.

 

O da chuva batendo em suas folhas continua sendo, para mim, uma das mais belas lembranças da infância.

 

Gabriel Novis Neves

29-07-2026