domingo, 21 de junho de 2026

SILÊNCIO DAS RUAS


A rua em dia de descanso mostra outra fisionomia.

 

As lojas fechadas parecem cochilar, as calçadas ficam mais livres, os passos diminuem e os conhecidos aparecem sem a correria habitual.

 

Quem observa bem percebe que a rua também tem humor.

 

Nos dias úteis, ela é apressada.

 

Nos feriados, parece mais humana.

 

Talvez porque, sem tanta gente correndo, possamos finalmente enxergá-la.

 

Nas ruas movimentadas das grandes cidades, muita beleza passa despercebida.

 

Só nos dias de descanso, quando elas ficam mais vazias e silenciosas, conseguimos notar detalhes que a pressa esconde.

 

Nada é mais curioso do que uma rua sem movimento.

 

Com as lojas, bares e lanchonetes fechados, ouvimos melhor as conversas, os pássaros e até os próprios pensamentos.

 

Nasci no Centro Histórico de Cuiabá, onde o comércio fervilhava de gente.

 

Mesmo nos dias de descanso, havia sempre grupos conversando nas esquinas, quebrando o silêncio dos feriados.

 

Quantas vezes visitei o centro do Rio de Janeiro, nos meus tempos de estudante de Medicina, em domingos e feriados, e tive a impressão de estar em outra cidade!

 

As ruas vazias e o comércio fechado revelavam uma face diferente da metrópole, como se sua alma finalmente aparecesse.

 

Nesses momentos, vinha a saudade da Cuiabá que deixei para completar os estudos.

 

Sempre achei os domingos um pouco tristes por retirarem as pessoas da rua.

 

Rua tem vida.

 

E sua vida é o movimento.

 

Antigamente o centro era o principal ponto de encontro da cidade.

 

Todos o procuravam para passear, conversar, namorar ou simplesmente ver o movimento.

 

O Jardim era o grande palco desses encontros, especialmente nas noites de retretas.

 

Vinham pessoas de todos os bairros de Cuiabá e até de municípios vizinhos.

 

Era ali que muitas moças escolhiam seus namorados e muitos casamentos começaram sob o som da banda tocando ao ar livre.

 

As mães mais zelosas costumavam advertir as filhas contra os aviadores e representantes comerciais, considerados excessivamente namoradores e sem paradeiro certo.

 

Assim era a rua em dia de descanso.

 

Menos apressada, mais silenciosa e cheia de lembranças.

 

Talvez por isso ela ainda caminha comigo, mesmo quando já não passo por ela.

 

Gabriel Novis Neves

07-06-2026





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