A rua em dia de descanso mostra outra fisionomia.
As lojas fechadas parecem cochilar, as calçadas ficam mais livres, os passos diminuem e os conhecidos aparecem sem a correria habitual.
Quem observa bem percebe que a rua também tem humor.
Nos dias úteis, ela é apressada.
Nos feriados, parece mais humana.
Talvez porque, sem tanta gente correndo, possamos finalmente enxergá-la.
Nas ruas movimentadas das grandes cidades, muita beleza passa despercebida.
Só nos dias de descanso, quando elas ficam mais vazias e silenciosas, conseguimos notar detalhes que a pressa esconde.
Nada é mais curioso do que uma rua sem movimento.
Com as lojas, bares e lanchonetes fechados, ouvimos melhor as conversas, os pássaros e até os próprios pensamentos.
Nasci no Centro Histórico de Cuiabá, onde o comércio fervilhava de gente.
Mesmo nos dias de descanso, havia sempre grupos conversando nas esquinas, quebrando o silêncio dos feriados.
Quantas vezes visitei o centro do Rio de Janeiro, nos meus tempos de estudante de Medicina, em domingos e feriados, e tive a impressão de estar em outra cidade!
As ruas vazias e o comércio fechado revelavam uma face diferente da metrópole, como se sua alma finalmente aparecesse.
Nesses momentos, vinha a saudade da Cuiabá que deixei para completar os estudos.
Sempre achei os domingos um pouco tristes por retirarem as pessoas da rua.
Rua tem vida.
E sua vida é o movimento.
Antigamente o centro era o principal ponto de encontro da cidade.
Todos o procuravam para passear, conversar, namorar ou simplesmente ver o movimento.
O Jardim era o grande palco desses encontros, especialmente nas noites de retretas.
Vinham pessoas de todos os bairros de Cuiabá e até de municípios vizinhos.
Era ali que muitas moças escolhiam seus namorados e muitos casamentos começaram sob o som da banda tocando ao ar livre.
As mães mais zelosas costumavam advertir as filhas contra os aviadores e representantes comerciais, considerados excessivamente namoradores e sem paradeiro certo.
Assim era a rua em dia de descanso.
Menos apressada, mais silenciosa e cheia de lembranças.
Talvez por isso ela ainda caminha comigo, mesmo quando já não passo por ela.
Gabriel Novis Neves
07-06-2026
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