segunda-feira, 29 de junho de 2026

ÁGUA FRESCA DO FILTRO DE BARRO


Muito antes dos purificadores de água modernos o filtro de barro ocupava lugar de destaque na cozinha.

 

Sua água parecia sempre mais fresca, principalmente nos dias quentes de Cuiabá. Bastava levantar a tampa, encher a caneca e sentir o alívio imediato.

 

O filtro fazia parte da rotina das famílias e tornou-se um símbolo silencioso de um tempo em que a simplicidade também era sinônimo de conforto.

 

Nas famílias numerosas, a água era armazenada em grandes potes de barro cobertos por um prato de alumínio, sobre o qual repousava uma pequena toalha de linho bordada.

 

A caneca de alumínio permanecia por cima, sempre pronta para matar a sede de quem chegasse.

 

Na minha casa, o pote ficava num canto da copa, separada da cozinha, onde reinavam o fogão de lenha e o forno de tijolos.

 

Até hoje sinto o frescor daquela água bebida na velha caneca de alumínio.

 

Meus pais não tinham pressa em adotar as novidades.

 

Geladeira, rádio, ventilador, forro nos cômodos e até banheiro na parte íntima da casa chegaram lentamente.

 

As conquistas tecnológicas eram recebidas no seu devido tempo.

 

Anos mais tarde compreendi que a verdadeira riqueza estava justamente na simplicidade de beber água fresca retirada do pote de barro.

 

No calor de Cuiabá, o filtro acabou cedendo lugar às garrafas dentro da geladeira.

 

Também éramos consumidores do artesanato cuiabano.

 

As redes, estendidas nos dormitórios, embalavam as tardes com o ranger suave de suas cordas.

 

Naquele tempo o comércio fechava para o almoço.

 

A cidade mergulhava no silêncio, interrompido apenas pelo balanço das redes anunciando a hora da sesta.

 

Hoje poucas casas ainda conservam esse costume, e o ranger das redes tornou-se mais um dos sons que desapareceram com o tempo.

 

Alguns dizem que elas foram substituídas pelas cadeiras de balanço.

 

A única coisa que a tecnologia jamais conseguiu resolver foi diminuir o calor de Cuiabá.

 

Quando eu era menino as temperaturas pareciam mais amenas, as chuvas mais frequentes e, nas noites frias dormíamos

 

cobertos por cobertores, sem ventiladores ou quartos refrigerados.

 

Talvez por isso eu ainda acredite que algumas águas jamais deixam de ser frescas: são aquelas que continuam brotando da fonte inesgotável da memória.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




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