Uma frase curta, rabiscada às pressas, pode revelar emoções e segredos de um tempo que não volta.
Hoje ninguém mais escreve bilhetes — eles são digitados no celular e, por isso, nunca se perdem nos bolsos.
Outrora, o lápis exercia inúmeras funções e todos o tinham ao alcance: nos bolsos ou atrás da orelha, como faziam os comerciantes.
As gavetas das casas guardavam sempre um lápis para anotar alguma emergência.
Já os médicos usavam as modernas canetas-tinteiro para receitar em seus blocos próprios.
Eram verdadeiros rabiscos, compreendidos apenas pelos farmacêuticos experientes.
Aquela frase curta, rabiscada às pressas, que podia revelar emoções e segredos de um tempo que não volta mais, serve apenas de lembrança saudosa.
Os antigos viviam mergulhados em emoções, segredos, pequenos mistérios incompreendidos nos dias de hoje.
Agora esses sentimentos se transformaram em produtos mercadológicos.
O bilhete esquecido no bolso do paletó já não é encontrado, nem mesmo na nossa imaginação.
Encontrar poesia — ou filosofar sobre a simplicidade daquilo que um dia já foi luxo — é sonhar com um passado distante.
E parece que muitos não gostam de ser chamados de saudosistas, como se o termo fosse depreciativo ou pejorativo.
Mas o que há de errado em revelar emoções? Até mesmo em um bilhete esquecido no bolso do paletó pode se esconder um segredo.
O passado encontrava poesia em tudo; o presente, ao contrário, tornou-se materialista.
Venho de quase um século atrás e me considero sem pudor, um saudosista das coisas que perdi: o lápis, o caderno de caligrafia, o caderno do armazém onde tudo era comprado fiado e pago no fim do mês.
A máquina fotográfica japonesa foi substituída pelo celular em cores.
Em compensação, ganhamos o ensino superior em nossa própria cidade, sem precisar viajar para ter um curso universitário e ser chamado de ‘doutor’.
O ritual da despedida também era lindo: visitas formais, abraços demorados e troca de cartas, reveladoras de emoções e segredos.
Gabriel Novis Neves
29-09-2025
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