quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A CHAVE ESQUECIDA NA FECHADURA


 
A chave ficou na fechadura por mais tempo do que devia.
 
Só percebi ao passar novamente pela porta.
 
Girei devagar, retirei-a e guardei no bolso.
 
Nada aconteceu.
 
Mas o susto veio depois.
 
Esquecimentos pequenos se acumulam com a idade.
 
Eles não gritam; apenas avisam, em silêncio, que precisamos andar mais devagar.
 
O envelhecimento, quando chega, traz consigo essas distrações miúdas.
 
Embora eu tenha uma memória que ainda me permite escrever textos diários, vez ou outra ela se esconde de mim.
 
Esconde fatos simples, detalhes banais.
 
Mais adiante, porém, devolve a brincadeira, e eu prossigo com o trabalho, como se nada tivesse ocorrido.
 
O idoso precisa ter cuidado redobrado na Cuiabá de hoje.
 
Com a expectativa de vida aumentando, surgiu uma profissão cada vez mais necessária — a de cuidador.
 
Universidades formam tecnólogos e enfermeiros especializados no acompanhamento de idosos, e, ainda assim, é difícil encontrá-los no mercado.
 
Há oito anos contratei uma cuidadora-enfermeira.
 
Além de me acompanhar nas rotinas médicas, ela me ajuda com a internet, com aplicativos bancários e com a compra e organização dos meus medicamentos —são tantos que memorizo apenas os horários.
 
Pela idade, e para evitar transtornos, ando devagar, quase parando.
 
Assim, empurro a vida para frente.
 
Até onde, não sei.
 
Aceito minhas limitações sem segredo nem disfarce.
 
Agora mesmo, o Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional virá a minha casa gravar um documento audiovisual, de no máximo cinco minutos.
 
Será exibido na abertura oficial das comemorações do seu Jubileu de Ouro, em 09 de abril de 2026.
 
Lembro-me do início do Núcleo, quase por acaso, durante uma viagem a Brasília.
 
Estava com a professora Maria de Lourdes Delamônica Freire.
 
Ela, ex-aluna da UnB, soube da presença de uma pesquisadora portuguesa interessada na história de Cuiabá e sugeriu que oferecêssemos a UFMT como sede para a pesquisa.
 
A professora Maria Cecília Guerreiro de Souza aceitou o convite, mudou-se para Cuiabá e, com os nossos pesquisadores, fundou o NDIHR, hoje cinquentenário.
 
A chave esquecida na fechadura não abriu perigo algum.
 
Abriu lembranças.
 
Se a memória às vezes falha nas miudezas do presente, ela permanece firme guardando aquilo que ajudamos a construir.
 
 E enquanto eu ainda puder girar essa chave — mesmo devagar — continuarei abrindo portas para o que fomos e para o que ainda somos.
 

Gabriel Novis Neves
 
12-02-2026




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