O primeiro trovão era recebido como uma notícia importante.
Depois de meses de calor, poeira e céu limpo, aquele barulho distante fazia todos olharem para cima.
O menino corria para o quintal à procura das nuvens carregadas.
Os adultos recolhiam as roupas do varal e fechavam algumas janelas.
Pouco depois vinha a chuva, lavando telhados, árvores e ruas.
Parecia que a própria cidade tomava um grande banho para começar outra vez.
A chuva tão esperada numa cidade quente, era uma festa desejada por todos.
As crianças descalças molhavam os pés nas correntezas que se formavam pelas ruas.
Era uma das brincadeiras preferidas da meninada daquele tempo.
Às vezes, porém, algum pé encontrava um caco de garrafa, e a brincadeira terminava com choro e sangue.
A hemostasia era feita com teia de aranha, abundante nos velhos casarões cuiabanos.
No bar do meu pai ela fazia parte dos recursos de primeiros socorros, pois a quebra de copos era frequente.
Não me lembro de ninguém que tenha contraído tétano por causa daqueles improvisados curativos.
O trovão não significa necessariamente que vai chover, mas, nas tempestades da minha infância, parecia sempre anunciar a chegada das águas.
Sempre tive medo dos trovões acompanhados de raios.
Já presenciei a queda de raios muito próximos de mim, na região amazônica de Mato Grosso.
Estava em terra, ao lado de um pequeno avião, quando assisti aquele impressionante espetáculo da natureza.
Confesso que senti medo —e ainda hoje me recordo daquela cena.
Em Mato Grosso os raios continuam representando perigo, especialmente para quem se encontra em áreas abertas durante as tempestades.
Apesar do medo, é belo observar, de um lugar protegido e à distância, o céu iluminado pelos relâmpagos e ouvir o estrondo dos trovões, anunciando a força da natureza.
Morando em apartamento e sem viajar para o interior, há muito tempo não vejo de perto uma tempestade como aquelas.
Hoje, quando escuto um trovão distante, ainda procuro o céu.
E, por alguns instantes, volto a ser o menino que corria para o quintal esperando a primeira chuva cair sobre a velha Cuiabá.
Gabriel Novis Neves
28-08-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.