Na casa da minha infância, o chão do quintal era de terra batida.
Depois da chuva, formavam-se pequenas poças onde eu pisava descalço.
Minha mãe reclamava, mas eu voltava sorrindo.
A terra secava rápido sob o sol de Cuiabá.
Hoje penso que aquela poeira fazia parte da nossa liberdade.
As crianças de hoje são criadas entre espigões de concreto.
Desconhecem que as crianças de antigamente eram livres.
Brincávamos descalços nas ruas de terra batida,
tomávamos banho de chuva e voltávamos para casa com a roupa encharcada e a alma leve.
Havia esconde-esconde na pracinha do bairro, procissões acompanhadas com respeito e quermesses cheias de alegria.
Comprávamos tira de queimada, pé de moleque e pirulito.
Tomávamos picolé de groselha no Bar do Bugre e passeávamos pelo Jardim em frente ao Palácio do Governo.
Tenho certeza de que era bom ser criança no meu tempo.
Jogávamos botão pelos corredores das casas, bolita nas calçadas de chão batido e organizávamos rifas na porta de casa.
Pulávamos amarelinha e soltávamos pipas feitas por nós mesmos, muitas vezes com a ajuda paciente de minha mãe.
No sábado de Aleluia malhávamos Judas pregado nos postes das ruas.
Levávamos o turíbulo da Catedral até a casa de dona Elza Nigro para buscar brasas e preparar o incenso das missas.
Era uma honra ser escolhido pelo pároco para ajudar no altar e tocar a campainha no momento da comunhão.
Meninos vendiam jornais nas ruas e chicletes na porta do Cine Teatro Cuiabá.
Havia rivalidades inocentes com os meninos do Porto, caçadas de preá no morro da Prainha,
água fresca bebida direto da bica e banhos no tanque do Baú.
Minha mãe cuidava da saúde dos filhos com zelo — e o óleo de rícino era o grande terror da infância.
Os brinquedos eram inventados, e nos quintais dos casarões construíamos verdadeiras cidades, inspiradas nos presépios de Natal espalhados pela cidade.
Éramos livres.
Éramos donos das ruas.
E talvez, sem saber, éramos profundamente felizes.
Gabriel Novis Neves
26-02-2026
| GABRIEL E YARA |
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