segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A TOALHA DOBRADA


Hoje encontrei a toalha dobrada sobre a cadeira do quarto.

 

Não me lembro de tê-la colocado ali.

 

Talvez tenha sido ontem à noite, talvez pela manhã.

 

Pequenos gestos se acumulam na casa sem que percebamos.

 

A toalha esperava silenciosa, como se ainda guardasse a umidade do banho e a pressa discreta do dia.

 

Fiquei olhando para ela mais tempo do que seria necessário.

 

Quantos movimentos repetimos sem notar? Quantos hábitos se instalam como móveis invisíveis da rotina?

 

O meio-dia passou enquanto eu escrevia, desiquilibrando as tarefas reservadas para a tarde.

 

Foi então que pensei: a manhã parece sempre mais curta.

 

Os antigos insistiam que nela o aprendizado era mais fácil, e que a noite nascera apenas para o descanso.

 

Na preparação para o vestibular de Medicina, descobri que isso nem sempre era verdade.

 

Pela manhã e à tarde frequentava aulas teóricas; restava-me a noite para estudar.

 

O exame acontecia logo após o carnaval.

 

Morando na capital do samba, ouvia ao longe as marchinhas ecoando pelas ruas, enquanto eu me debruçava sobre livros.

 

Depois de aprovado, conheci o leque de oportunidades que o carnaval oferecia.

 

Não me recordo dos carnavais que deixei passar.

 

Fui, pouco a pouco, aproximando-me da festa — primeiro espiando, depois participando. Regina levou-me aos salões.

 

Nunca usei fantasia, nem mesmo um simples disfarce.

 

E, no entanto, aqueles sons distantes da década de cinquenta — o rufar dos tamborins ouvido de longe — acabaram transformando-se, anos depois na criação da Mocidade Independente Universitária, em Cuiabá.

 

Tornei-me presidente da escola mais famosa da cidade, movido não por ambição, mas por um desses gestos quase imperceptíveis que mudam destinos.

 

O filósofo Eduardo Portela já afirmou que o carnaval é a maior manifestação da cultura popular brasileira.

 

Concordo.

 

Às vezes, o que começa como distração distante torna-se compromisso, identidade, memória coletiva.

 

A toalha dobrada sobre a cadeira me ensinou isso hoje.

 

Nada é pequeno demais.

 

Um gesto esquecido pode guardar o início de uma história inteira.

 

E a vida, silenciosa como aquela toalha, vai se dobrando sobre nós — esperando apenas que a descubramos.

 

Gabriel Novis Neves

17-02-2025




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