Hoje encontrei a toalha dobrada sobre a cadeira do quarto.
Não me lembro de tê-la colocado ali.
Talvez tenha sido ontem à noite, talvez pela manhã.
Pequenos gestos se acumulam na casa sem que percebamos.
A toalha esperava silenciosa, como se ainda guardasse a umidade do banho e a pressa discreta do dia.
Fiquei olhando para ela mais tempo do que seria necessário.
Quantos movimentos repetimos sem notar? Quantos hábitos se instalam como móveis invisíveis da rotina?
O meio-dia passou enquanto eu escrevia, desiquilibrando as tarefas reservadas para a tarde.
Foi então que pensei: a manhã parece sempre mais curta.
Os antigos insistiam que nela o aprendizado era mais fácil, e que a noite nascera apenas para o descanso.
Na preparação para o vestibular de Medicina, descobri que isso nem sempre era verdade.
Pela manhã e à tarde frequentava aulas teóricas; restava-me a noite para estudar.
O exame acontecia logo após o carnaval.
Morando na capital do samba, ouvia ao longe as marchinhas ecoando pelas ruas, enquanto eu me debruçava sobre livros.
Depois de aprovado, conheci o leque de oportunidades que o carnaval oferecia.
Não me recordo dos carnavais que deixei passar.
Fui, pouco a pouco, aproximando-me da festa — primeiro espiando, depois participando. Regina levou-me aos salões.
Nunca usei fantasia, nem mesmo um simples disfarce.
E, no entanto, aqueles sons distantes da década de cinquenta — o rufar dos tamborins ouvido de longe — acabaram transformando-se, anos depois na criação da Mocidade Independente Universitária, em Cuiabá.
Tornei-me presidente da escola mais famosa da cidade, movido não por ambição, mas por um desses gestos quase imperceptíveis que mudam destinos.
O filósofo Eduardo Portela já afirmou que o carnaval é a maior manifestação da cultura popular brasileira.
Concordo.
Às vezes, o que começa como distração distante torna-se compromisso, identidade, memória coletiva.
A toalha dobrada sobre a cadeira me ensinou isso hoje.
Nada é pequeno demais.
Um gesto esquecido pode guardar o início de uma história inteira.
E a vida, silenciosa como aquela toalha, vai se dobrando sobre nós — esperando apenas que a descubramos.
Gabriel Novis Neves
17-02-2025
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