sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A UNIVERSIDADE NO MEIO DO MATO


Quando começaram as obras da Universidade Federal de Mato Grosso, muita gente estranhou a escolha do lugar.

 

Diziam que o campus ficava longe demais da cidade, cercado apenas por mato, poeira e silêncio.

 

Poucos imaginavam que ali surgiria uma das maiores transformações culturais e educacionais do Estado.

 

Os primeiros prédios eram simples, as dificuldades enormes, mas existia entusiasmo entre professores, estudantes e servidores.

 

A universidade nascia cercada de esperança e coragem, como acontece com quase todas as grandes obras humanas.

 

Foi implantada em parte do terreno da antiga chácara do doutor Melo, um engenheiro que morava na avenida 15 de Novembro, no Porto.

 

 A escolha do local foi do governador, engenheiro Pedro Pedrossian.

 

Ficava à margem de uma estrada ainda não asfaltada, que seguia em direção ao sul do Brasil.

 

No terreno foi colocada uma enorme placa:

 

‘Futuras instalações da Universidade Federal de Mato Grosso. ’

 

Pedrossian estudara Engenharia em São Paulo e eu, seu secretário de Educação, Medicina no Rio de Janeiro.

 

Naquela época as cidades universitárias ainda eram novidade no Brasil.

 

Oscar Niemeyer havia projetado a Universitária de Brasília, e o governador desejava que ele também projetasse a futura cidade universitária de Cuiabá.

 

Pedrossian procurou o escritório de Niemeyer no Rio de Janeiro.

 

O arquiteto, entretanto, estava trabalhando fora do Brasil, em razão da situação política do país.

 

Não existiam celulares, internet ou vídeo chamadas.  

 

A comunicação a distância era difícil e demorada.

 

Depois de longa espera, o encontro entre o governador e o arquiteto finalmente aconteceu.

 

Ao ouvir de Pedrossian o desejo de que projetasse a cidade universitária de Cuiabá, Niemeyer perguntou:

 

—A universidade é particular?

 

Ao saber que era do Governo Federal, explicou que estava exilado e trabalhando em Argel, na Argélia, onde projetava uma universidade.

 

Como ficaria aquele trabalho?

 

Pedrossian respondeu, com a firmeza que lhe era característica, que não haveria problema. Meses depois, o escritório de Niemeyer, no Rio de Janeiro, encaminhou o belo anteprojeto do campus de Cuiabá.

 

Era uma obra extraordinária, porém economicamente inviável.

 

Somente um dos grandes edifícios, apelidado de ‘minhocão’ tinha orçamento superior ao do próprio Estado de Mato Grosso.

 

O sonho precisou adaptar-se à realidade.

 

Pedrossian assumiu o comando do projeto de implantação da UFMT até 10-12-1970, quando a Universidade foi oficialmente criada.

 

Depois, coube a mim continuar aquela caminhada.

 

Durante anos vi o mato desaparecer, os prédios surgirem, os estudantes chegarem e a Universidade crescer.

 

Continuei escrevendo essa história até fevereiro de 1982.

 

Hoje, quando recordo aquele terreno distante, coberto de mato e marcado apenas por uma grande placa, penso em quantos sonhos nasceram ali.

 

Onde muito enxergavam apenas mato, nós enxergávamos uma Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

18-08-2026










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