sábado, 15 de agosto de 2026

TIRANDO ÁGUA DO POÇO


Nas casas antigas buscar água fazia parte da rotina diária.

 

O menino segurava a corda, observava o balde descer lentamente e esperava o momento de puxá-lo de volta, cheio de água fresca.

 

Era uma tarefa simples que ensinava esforço, colaboração e o verdadeiro valor de um bem tão precioso.

 

O poço fazia parte dos quintais quando eu era menino.

 

Além de fornecer água fresca aos moradores da casa, nas festas de Santo Antônio era imprescindível para as brincadeiras das moças casamenteiras.

 

Era no quintal, morada do poço, que aconteciam as danças, todos vestidos de caipiras.

 

Entre as brincadeiras mais procuradas estavam a de fincar a faca na bananeira e a de olhar para o fundo do poço.

 

As moças casamenteiras acreditavam descobrir ali o rosto do futuro namorado.

 

Os rapazes divertiam-se no pau de sebo.

 

O quintal sempre foi um lugar de lazer para toda a família.

 

Além de guardar aquele tesouro de água fresca, era o lugar ideal para armar uma rede e passar a tarde balançando, sem fazer nada, apenas brincando com os próprios pensamentos.

 

Gostava de acompanhar os pedreiros perfurando um poço e observar o capricho com que concluíram a obra, cercando sua abertura com segurança.

 

Um dos prazeres da minha infância era retirar água do poço da casa do meu avô.

 

Encostava-me na mureta e olhava bem lá no fundo, acompanhando o balde amarrado à corda até tocar a água.

 

Depois vinha o esforço de trazê-lo novamente à superfície, carregado daquele líquido precioso. Enchia o latão de vinte litros e o levava até a cozinha.

 

Estava terminada a minha tarefa.

 

Cuiabá nasceu numa baixada, e o lençol freático era superficial.

 

Durante muitos anos as casas não possuíam água tratada nem rede de esgoto.

 

O poço, portanto, não era apenas parte da paisagem dos quintais: era indispensável à vida das famílias.

 

Quando retornei do Rio de Janeiro, formado em Medicina e casado, morei numa casa de oitenta metros quadrados, sem quintal e com a fossa na garagem.

 

O tempo levou os poços, os grandes quintais e muitas daquelas antigas brincadeiras.

 

Mas não levou da minha memória o menino debruçado sobre a mureta, vendo um balde desaparecer na escuridão e voltar trazendo água fresca.

 

Naquele tempo, até tirar água do poço era uma maneira de aprender a viver.

 

Gabriel Novis Neves

12-08-2026




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