Os passarinhos faziam parte da rotina das casas antigas.
O menino colocava água limpa nos bebedouros, espalhava sementes e esperava, em silêncio, a visita daqueles pequenos visitantes.
Aos poucos descobria que cuidar dos animais era também uma forma de aprender respeito, paciência e carinho pela natureza.
O quintal da minha casa só ficava em silêncio durante a noite, quando os passarinhos recolhiam-se para dormir.
Bastava o dia clarear para que saíssem em busca de sua alimentação preferida: goiabas, cajus e mangas maduras.
Faziam uma alegre algazarra enquanto se alimentavam e entoavam seus cantos para atrair as fêmeas na época do acasalamento.
Seu canto enchia a casa de vida, formando uma verdadeira orquestra da natureza.
De vez em quando, aves de maior porte, como as pombas, apareciam para beber água ou construir seus ninhos.
Cuidar dos passarinhos nunca significou aprisioná-los em gaiolas.
Eles nasceram para voar livremente, espalhando sementes pelos caminhos e contribuindo para o equilíbrio da natureza.
Certa vez, meu pai ganhou uma linda arara que falava muito e chamava cada pessoa da casa pelo nome.
Para evitar que fugisse, colocaram-na em uma bela gaiola, instalada junto à porta da cozinha.
A experiência, porém, não deu certo.
A arara acabou sendo doada a um colecionador, e nunca mais soube qual foi o destino daquela gaiola.
Hoje moro em um apartamento de cobertura, onde mantenho um pequeno jardim.
Ali continuo recebendo a visita de passarinhos que vêm beber água e algumas vezes, até construir seus ninhos.
Durante muitos anos, era comum o cuiabano criar passarinhos em casa.
Quase todos os antigos casarões exibiam gaiolas penduradas nas varandas e corredores.
Inesquecível, porém, era a coleção de Raul José Vieira, filho do deputado Augusto Mário Vieira.
Havia tantas gaiolas que algumas ocupavam até o seu dormitório.
O amor de Raul pelos pássaros era tão grande, que o levei para a Universidade Federal de Mato Grosso.
Com o apoio científico da professora Mirami Macedo, foi criado o zoológico da universidade, em uma área ao lado da reitoria.
Infelizmente, hoje ele está desativado por falta de recursos.
Raul José formou-se em Biologia pela UFMT e, já aposentado, continua ministrando cursos para estudantes da UFMT e de escolas de Cuiabá.
Uma vida inteira dedicada ao estudo, à preservação e ao amor pelos passarinhos.
Gabriel Novis Neves
06-08-2026
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