Havia um momento especial antes da casa despertar completamente.
O silêncio era interrompido apenas pelo canto distante de um galo, pelo chilrear dos pássaros ou pelo ranger de alguma porta.
O menino apreciava aquela tranquilidade sem perceber que estava vivendo um dos instantes mais serenos da infância.
Depois vinha o barulho intenso, quando a casa despertava.
As ruas ganhavam voz e os automóveis congestionavam avenidas e viadutos.
As obras espalhadas pela cidade produzem ruídos incessantes, assim como a construção de edifícios cada vez mais altos.
Em frente ao meu apartamento, uma construtora ergue um verdadeiro monstro de concreto.
Ainda não sei quantos andares terá.
Por enquanto, ficarei privado do sol da manhã. Restará apenas o sol da tarde, voltado para os fundos do prédio.
Daqui a alguns anos, dificilmente existirão casas no centro histórico de Cuiabá.
As poucas que permanecem, muitas delas tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional, encontram-se abandonadas, em ruinas,
consumidas pela ação do tempo.
Perdemos grande parte da arquitetura colonial que marcou os primeiros trezentos anos de nossa cidade.
Ainda menino, gravei na memória aquela Cuiabá antiga, quando o silêncio reinava antes que todos acordassem.
A arquitetura acolhedora das velhas casas cuiabanas ainda desperta em mim a lembrança daqueles instantes serenos da infância.
O primeiro edifício de apartamentos de Cuiabá foi construído ao lado do Palácio do Governo, entre a rua Cândido Mariano e a Praça Alencastro.
Curiosamente, não foi projetado com garagens.
Naquele tempo havia poucos automóveis na cidade e seus proprietários estacionavam tranquilamente nas ruas.
Hoje existem empresas de estacionamento espalhadas por toda a cidade.
Muitos moradores deixam seus carros nas garagens dos edifícios e utilizam o Uber para seus deslocamentos.
Cada condomínio possui o seu regimento interno, destinado a preservar a boa convivência e o silêncio nas primeiras horas do dia.
Infelizmente, nem sempre essas normas são respeitadas.
Sinto saudade daquele silêncio que antecedia o despertar da casa, quando a cidade ainda parecia respirar devagar e a vida ensinava, sem pressa o valor da tranquilidade.
Gabriel Novis Neves
06-08-2026
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