Nas noites de céu limpo, quando a iluminação da cidade era discreta, o menino deitava-se no quintal para admirar o infinito.
Tentava contar as estrelas, reconhecia algumas constelações e imaginava mundos distantes. Sem perceber, aprendia que a imaginação também era uma forma de viajar sem sair de casa.
Contar estrelas não era apenas hábito das crianças.
Poetas, compositores e boêmios também procuravam no céu inspiração para seus sonhos.
Quando menino, minha mãe estimulava os filhos menores a contar as estrelas, sem saber que estava dando asas à nossa imaginação.
O infinito sempre me intrigou.
Gostaria de saber o que existia além da linha do horizonte, onde o sol e a lua pareciam se esconder.
O sol nascia no horizonte, assim como a lua, e as estrelinhas apareciam nas noites de céu limpo.
O resto corria por conta da imaginação, inclusive a imagem de São Jorge montado em seu cavalo na lua.
Hoje aos noventa e um anos, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, continuo a contemplar o infinito e seus mistérios, alimentando a mesma imaginação do menino.
Não conto mais as estrelas.
Agora ensino meus bisnetos a contá-las.
Talvez eles também descubram que o céu é grande demais para caber nos números.
Se eu estivesse na lua, enxergaria a Terra redonda e, quem sabe, compreenderia melhor a importância da nossa imaginação.
Quem escreve precisa de memória, esforço e imaginação.
Sem memória, eu não poderia contar que um dia fui um menino que se deitava no quintal para olhar o céu e tentar contar suas estrelas.
Eram duas missões impossíveis: contar as estrelas e compreender o infinito.
Mesmo assim, tentei as duas.
O imaginário do menino pode se transformar com o passar dos anos, mas os encantos da infância permanecem vivos na memória dos adultos.
Talvez por isso, aos noventa e um anos, eu ainda olhe para o céu.
E, por alguns instantes, volte a ser o menino que contava estrelas.
Gabriel Novis Neves
12-08-2026
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