Os primeiros professores da UFMT desembarcavam em Cuiabá trazendo livros, sotaques diferentes e disposição para enfrentar desafios.
Muitos deixavam grandes centros urbanos para morar numa cidade ainda pequena, quente e distante das grandes capitais culturais do país.
Alguns estranhavam o calor cuiabano, as ruas tranquilas e o ritmo da vida local.
Mesmo assim, permaneceram.
Vieram ajudar a construir uma universidade praticamente do zero.
Com eles chegaram novas ideias, experiências acadêmicas e uma enorme vontade de ensinar numa terra ainda carente de oportunidades no ensino superior.
Foi difícil explicar que a universidade não era mais uma repartição pública federal destinada a oferecer bons empregos aos filhos da elite cuiabana.
Ela nascera para oferecer oportunidades a todos e romper uma antiga tradição: a de que o filho do médico deveria ser médico e o filho do sapateiro, sapateiro.
Ouvi muitas críticas por aproveitar um professor vindo de longe em lugar de um filho da terra.
Sempre procurei escolher professores pelo currículo, pela competência e pela capacidade de ensinar, e não pelo sobrenome ou pelo lugar onde haviam nascido.
Graças a essa luta, em pouco tempo implantamos uma universidade respeitada no país.
Seus cursos, inclusive os considerados nobres — Direito, Engenharia e Medicina —alcançaram excelentes avaliações do Ministério da Educação.
Praticávamos a política educacional.
A política partidária não tinha lugar dentro da universidade.
Cheguei, inclusive, a perder o cargo de reitor, sendo posteriormente reconduzido.
Passados mais de cinquenta anos da criação da UFMT, é emocionante ouvir os depoimentos daqueles primeiros professores que chegaram de longe para nos ajudar.
Muitos permaneceram e adotaram Cuiabá como sua própria cidade.
Em reconhecimento à participação naquela aventura educacional, receberam o título de professores fundadores.
Tenho hoje o prazer de conviver com gerações mais novas que nem me conheceram e pouco sabem sobre os primeiros tempos de nossa universidade.
A atual reitora, professora doutora Marluce, zelosa com a preservação, procura do nosso passado, procura reconstruir e valorizar essa bonita história.
Um dos primeiros atos de sua gestão foi retomar o Projeto Memória, com a inauguração da placa da Sala de Parto, sede da primeira reitoria da nossa universidade —fato ainda desconhecido por muitos.
Aqueles professores chegaram de longe trazendo livros nas malas e sonhos na cabeça.
Com o passar dos anos, deixaram de ser professores de fora.
Tornaram-se parte da história de Cuiabá.
E ficaram para sempre na memória da nossa Universidade.
Gabriel Novis Neves
25-08-2026
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