domingo, 30 de agosto de 2026

OS PRIMEIROS PROFESSORES CHEGARAM DE LONGE


Os primeiros professores da UFMT desembarcavam em Cuiabá trazendo livros, sotaques diferentes e disposição para enfrentar desafios.

 

Muitos deixavam grandes centros urbanos para morar numa cidade ainda pequena, quente e distante das grandes capitais culturais do país.

 

Alguns estranhavam o calor cuiabano, as ruas tranquilas e o ritmo da vida local.

 

Mesmo assim, permaneceram.

 

Vieram ajudar a construir uma universidade praticamente do zero.

 

Com eles chegaram novas ideias, experiências acadêmicas e uma enorme vontade de ensinar numa terra ainda carente de oportunidades no ensino superior.

 

Foi difícil explicar que a universidade não era mais uma repartição pública federal destinada a oferecer bons empregos aos filhos da elite cuiabana.

 

Ela nascera para oferecer oportunidades a todos e romper uma antiga tradição: a de que o filho do médico deveria ser médico e o filho do sapateiro, sapateiro.

 

Ouvi muitas críticas por aproveitar um professor vindo de longe em lugar de um filho da terra.

 

Sempre procurei escolher professores pelo currículo, pela competência e pela capacidade de ensinar, e não pelo sobrenome ou pelo lugar onde haviam nascido.

 

Graças a essa luta, em pouco tempo implantamos uma universidade respeitada no país.

 

Seus cursos, inclusive os considerados nobres — Direito, Engenharia e Medicina —alcançaram excelentes avaliações do Ministério da Educação.

 

Praticávamos a política educacional.

 

A política partidária não tinha lugar dentro da universidade.

 

Cheguei, inclusive, a perder o cargo de reitor, sendo posteriormente reconduzido.

 

Passados mais de cinquenta anos da criação da UFMT, é emocionante ouvir os depoimentos daqueles primeiros professores que chegaram de longe para nos ajudar.

 

Muitos permaneceram e adotaram Cuiabá como sua própria cidade.

 

Em reconhecimento à participação naquela aventura educacional, receberam o título de professores fundadores.

 

Tenho hoje o prazer de conviver com gerações mais novas que nem me conheceram e pouco sabem sobre os primeiros tempos de nossa universidade.

 

A atual reitora, professora doutora Marluce, zelosa com a preservação, procura do nosso passado, procura reconstruir e valorizar essa bonita história.

 

Um dos primeiros atos de sua gestão foi retomar o Projeto Memória, com a inauguração da placa da Sala de Parto, sede da primeira reitoria da nossa universidade —fato ainda desconhecido por muitos.

 

Aqueles professores chegaram de longe trazendo livros nas malas e sonhos na cabeça.

 

Com o passar dos anos, deixaram de ser professores de fora.

 

Tornaram-se parte da história de Cuiabá.

 

E ficaram para sempre na memória da nossa Universidade.

 

Gabriel Novis Neves

25-08-2026




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