Nas tardes quentes do interior, nenhuma invenção era mais valiosa do que a sombra generosa de uma grande árvore.
O menino descobria ali um refúgio para descansar, conversar ou simplesmente observar o movimento da natureza.
Enquanto o vento balançava os galhos, o tempo parecia caminhar devagar.
Era um abrigo simples, capaz de transformar o calor intenso em momentos de paz e imaginação.
Nos bancos de concreto das praças, aposentados liam discretamente jornais já amarelados pelo tempo.
Outros, silenciosos e pensativos, apenas contemplavam o balançar dos galhos, como quem deixava a vida seguir sem pressa.
As crianças brincavam despreocupadas, aproveitando a sombra acolhedora das árvores.
A natureza protegia a todos.
O calor das tardes cuiabanas continua intenso, talvez até mais do que antigamente.
As árvores que ofereciam sombra e amenizavam a temperatura foram sendo derrubadas, sem que houvesse uma política permanente de replantio.
Em muitos de seus lugares surgiram edifícios de concreto, ampliando a sensação de calor.
Transformaram Cuiabá, de uma cidade quente, mas repleta de sombras generosas nas ruas e praças, em uma verdadeira cidade de brasa.
As grandes árvores que embelezavam a cidade desapareceram aos poucos.
O antigo centro histórico, antes intensamente arborizado, com palmeiras imperiais e frondosos mangueirais, perdeu grande parte de sua vegetação.
Muitos moradores mudaram-se para bairros mais distantes.
Casas foram abandonadas e, em diversos casos, deram lugar a estacionamentos.
Ruas tradicionais, como a rua de Cima, exibem hoje uma sucessão de imóveis fechados, transmitindo a sensação do fim de um importante ciclo da cidade.
A sombra das árvores, que durante tantos anos refrescou as tardes cuiabanas e inspirou poetas, permanece apenas na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Quem viveu esse tempo sabe que uma cidade não é feita apenas de concreto, mas também da sombra generosa de suas árvores, onde a vida encontrava repouso, beleza e esperança.
Gabriel Novis Neves
21-07-2026
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