sábado, 12 de setembro de 2026

SOMBRAS DAS ÁRVORES


Nas tardes quentes do interior, nenhuma invenção era mais valiosa do que a sombra generosa de uma grande árvore.

 

O menino descobria ali um refúgio para descansar, conversar ou simplesmente observar o movimento da natureza.

 

Enquanto o vento balançava os galhos, o tempo parecia caminhar devagar.

 

Era um abrigo simples, capaz de transformar o calor intenso em momentos de paz e imaginação.

 

Nos bancos de concreto das praças, aposentados liam discretamente jornais já amarelados pelo tempo.

 

Outros, silenciosos e pensativos, apenas contemplavam o balançar dos galhos, como quem deixava a vida seguir sem pressa.  

 

As crianças brincavam despreocupadas, aproveitando a sombra acolhedora das árvores.

 

A natureza protegia a todos.

 

O calor das tardes cuiabanas continua intenso, talvez até mais do que antigamente.

 

As árvores que ofereciam sombra e amenizavam a temperatura foram sendo derrubadas, sem que houvesse uma política permanente de replantio.

 

Em muitos de seus lugares surgiram edifícios de concreto, ampliando a sensação de calor.

 

Transformaram Cuiabá, de uma cidade quente, mas repleta de sombras generosas nas ruas e praças, em uma verdadeira cidade de brasa.

 

As grandes árvores que embelezavam a cidade desapareceram aos poucos.

 

O antigo centro histórico, antes intensamente arborizado, com palmeiras imperiais e frondosos mangueirais, perdeu grande parte de sua vegetação.

 

Muitos moradores mudaram-se para bairros mais distantes.

 

Casas foram abandonadas e, em diversos casos, deram lugar a estacionamentos.

 

Ruas tradicionais, como a rua de Cima, exibem hoje uma sucessão de imóveis fechados, transmitindo a sensação do fim de um importante ciclo da cidade.

 

A sombra das árvores, que durante tantos anos refrescou as tardes cuiabanas e inspirou poetas, permanece apenas na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.  

 

Quem viveu esse tempo sabe que uma cidade não é feita apenas de concreto, mas também da sombra generosa de suas árvores, onde a vida encontrava repouso, beleza e esperança. 


Gabriel Novis Neves

21-07-2026




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