O ferro de passar de minha infância era o de brasa, pesado, acompanhado sempre do cheiro de roupa limpa e bem cuidada.
Quase todas as famílias cuiabanas tinham suas lavadeiras e passadeiras de confiança.
As da minha casa vinham do bairro do Baú.
Elas lavavam nos tanques, passavam e engomavam em suas próprias casas.
A goma dos ternos brancos era orgulho dos fregueses, exibidos aos domingos nas missas e nas retretas da Praça Alencastro.
Seus donos não ousavam sentar-se, para que o vinco não quebrasse nem amassasse — o mesmo cuidado tinhas as moças com as suas saias plissadas.
As lavadeiras eram respeitadas e bem tratadas, afinal, perder uma freguesia era prejuízo.
O trabalho de lavar as roupas era artesanal; já o ato de passá-las, exigia o ferro a brasa, que deixava no ar aquele perfume de roupa bem cuidada.
Meu uniforme de gala do Colégio Salesiano São Gonçalo, era branco.
Usava-o apenas em solenidades: velórios de autoridades ou desfiles escolares.
Retornava invariavelmente amassado e logo era enviado à lavadeira.
Em 1946, era também a minha melhor roupa — uniforme branco impecável, acompanhado de quepe militar.
Recordo-me de certa ocasião em que minha mãe, com tantos filhos a cuidar, pediu que eu a representasse no casamento de amigos.
Respondi que não tinha roupas adequadas.
Ela retrucou: ‘E o uniforme do colégio dos padres, engomado que está no meu guarda-roupa?’
E lá fui eu, menino, de uniforme de gala a uma festa de adultos — morrendo de vergonha.
Até hoje guardo na memória aquele acontecimento inusitado.
Vieram depois os ferros elétricos e, mais tarde as lavanderias.
Hoje, minhas roupas leves, são lavadas na lavanderia do meu apartamento e passadas com ferro elétrico pela cuidadora.
As peças mais pesadas —ternos, calças, camisas de manga comprida, edredons e cobertores vão para as tinturarias.
O velho ferro a brasa, que já reinou em tantas casas cuiabanas, hoje é apenas peça de museu em um mundo dominado pela tecnologia.
Gabriel Novis Neves
02-10-2025
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