Durante muitos anos Cuiabá padeceu com a falta de energia elétrica.
Quando menino lembro-me de um gerador instalado no morro da Prainha, e que sustentava a cidade.
O censo demográfico realizado pelo IBGE em 1980 já registrava mais de duzentos mil habitantes quando a Universidade Federal de Mato Grosso completava dez anos de funcionamento.
Em 1945, porém, não havia dados precisos.
A população não deveria passar de cinquenta mil almas, no máximo.
A energia vinha do rio da Casca, na região da Chapada dos Guimarães e sua distribuição era irregular.
Para aliviar o problema o governo do Estado instalou um possante gerador, no morro da Prainha, socorrendo a capital.
Clubes esportivos e instituições particulares seguiram o mesmo caminho.
O bar do meu pai, por exemplo, não podia sobreviver sem energia para a sorveteria e o setor de bebidas.
A iluminação pública vinha de postes altos, mas sua luz era fraca, amarelada.
Inspirava medos, brincadeiras e também encontros amorosos ao cair da noite.
Bastava um relâmpago sobre o rio da Casca e a cidade inteira mergulhava na escuridão, até o gerador do morro da Prainha assumir seu papel.
Mesmo assim, a claridade era pálida e insuficiente, obrigando muitos a se recolherem em casa, temendo assaltos.
Outros, porém, viam ali a chance perfeita para viver namoros proibidos, sob a cumplicidade da penumbra.
O fornecimento regular de energia elétrica só veio com a construção da barragem do Manso, também na Chapada, e com o incentivo às micro usinas que atraíram grandes empresários.
Mesmo hoje, com hospitais, quartéis, edifícios, shoppings, restaurantes, hotéis e clubes contando com seus próprios geradores de emergência, a cidade já não teme o escuro.
Cuiabá, com seus mais de setecentos mil habitantes, ilumina-se com postes de luz clara. E ninguém mais namora na rua.
Fica em casa, às claras.
O velho gerador do morro da Prainha deixou apenas a lembrança de um tempo e o apelido carinhoso: ‘Casinha do Morro da Luz. ’
Gabriel Novis Neves
04-10-2025
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