O jornal abandonado pode revelar muito: notícias antigas, o cheiro do papel e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.
Sempre tive fascínio por notícias antigas.
Na juventude fazia as compras de casa nos armazéns, e quase tudo vinha embrulhado em folhas de jornal, mais baratas que o papel próprio para o comércio.
Meu pai lia os jornais da cidade e um do Rio de Janeiro.
Depois guardava-os no quarto de despejo.
Eu os vendia nos armazéns, pelo preço que o comerciante estipulava.
Saía satisfeito e, com o dinheiro, comprava queimadas e pirulitos na casa do seu Freitas.
Gostava de reler aquelas páginas, especialmente as notícias antigas da Segunda Guerra Mundial e as de futebol do Rio.
Apesar de estarmos mais próximos de São Paulo, nossa identidade cultural sempre esteve ligada ao Rio de Janeiro.
Hoje isso mudou: procuramos São Paulo para tudo, sobretudo pelos serviços médicos.
Vendi o apartamento que tinha no Rio; minha filha mantém um em São Paulo.
Muitos não têm coragem de jogar fora um velho jornal.
Alguns preferem dobrá-lo e deixá-lo sobre o banco da praça — esse espaço unanimemente presente nas cidades brasileiras, nascidas ao redor delas, respiradores sociais do lazer popular.
O jornal esquecido na praça, porém, guarda segredos: notícias que o leitor ocasional desconhece, o perfume do papel que nos transporta ao passado e o silêncio das praças que já não abrigam leitores.
Ali, como donos do nosso passado, ressuscitamos vivências.
Sou um admirador privilegiado das praças Alencastro e da República, onde passei boa parte da minha juventude.
Vi muitos jornais dobrados em seus bancos.
Poucos se aventuraram a abri-los.
Hoje moro próximo à praça Popular, com suas árvores frondosas e bancos.
Quase sempre encontro, esquecido por alguém, um jornal dobrado à espera de um novo olhar.
Gabriel Novis Neves
27-09-2025
| Jardim Alencastro |
| Praça da República |
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