Antes das embalagens descartáveis, as garrafas de vidro eram cuidadosamente lavadas e reaproveitadas.
Havia um verdadeiro capricho em deixá-las limpas, brilhando à luz da cozinha, prontas para receber água fresca, leite ainda morno, sucos ou outros líquidos.
Era um costume que ensinava economia sem discursos, mostrando que os objetos podiam ter longa vida quando tratados com atenção e respeito.
Quem pertence à minha geração certamente guarda alguma história envolvendo as antigas garrafinhas de leite deixadas, ainda de madrugada, à porta dos apartamentos, com o frio da manhã ainda preso no vidro.
Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, esse era um dos assuntos mais comentados nas pensões estudantis.
Os veteranos ensinavam, em tom de brincadeira, que o calouro só estaria realmente adaptado à cidade grande depois de beber o leite dessas garrafinhas e aprender a saltar do bonde da Light ainda em movimento, sentido o vento no rosto e o coração acelerado.
Era uma travessia típica da juventude, contada com orgulho e muito bom humor.
Para nós, representava uma curiosa combinação de economia estudantil: garantia uma boa dose de proteína e ainda poupava o dinheiro da passagem do bonde.
Em casa, porém, a relação com as garrafas de vidro era bem diferente.
Minha mãe tinha um cuidado especial com sua lavagem, esfregando cada uma com paciência, como se polisse pequenas joias.
Nada era desperdiçado.
Depois de limpas, voltavam a servir para guardar água filtrada, leite ou qualquer outro líquido.
Nossa geladeira vivia repleta delas, alinhadas como sentinelas silenciosas.
Não foram poucas as vezes em que, ao abrir a porta, uma ou duas escorregavam e se espatifavam no chão da copa, o estalo seco do vidro quebrando o silêncio da casa e provocando um susto seguido de correria.
Hoje quase tudo é descartável.
As garrafas de vidro perderam espaço para embalagens plásticas de vida curta.
Ao escrever sobre essas pequenas lembranças, percebo que também reencontro parte da minha juventude, com seus cheiros, sons e pequenas aventuras.
O idoso vive cercado de histórias, e conta-las é uma maneira de manter o passado vivo e de aproximar as pessoas.
As garrafas desapareceram das cozinhas, mas continuam intactas na memória de quem aprendeu que cuidar das coisas era também uma forma de cuidar da vida.
Gabriel Novis Neves
12-07-2026
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