A casa parece maior agora.
Os cômodos ecoam um pouco mais.
Não é tristeza — é apenas mudança.
As vozes diminuíram, os passos também.
O silêncio deixou de ser incômodo e passou a ser companhia.
Os casarões cuiabanos da minha infância eram enormes, muitos deles assobradados.
As famílias também eram numerosas — e haja cômodos para abrigar tanta gente.
Na família do meu pai eram quinze filhos.
Cresceram, casaram-se, foram morar longe, e os casarões se esvaziaram.
A casa parece maior agora.
O jeito foi dividi-la ou transformá-la em ponto comercial.
Muitos desapareceram da anatomia da cidade.
Os que resistiram tornaram-se ruinas silenciosas ou estacionamentos de veículos.
Quem quiser conhecer os velhos casarões talvez precise recorrer à inteligência artificial.
A memória já não anda pelas calçadas como antes.
Morei por um período no sobrado do casarão do meu avô Alberto Novis na rua Voluntários da Pátria.
Lembro-me da rotina daquela casa, onde as vozes eram altas — por causa da surdez do meu avô — e a vida corria em ritmo próprio.
Não esqueci nada.
Meu irmão Inon foi para lá beber leite de cabra ordenhada com alegria pelo avô.
Havia um poço no quintal, de onde se tirava água para a cozinha e para a limpeza.
Na estrebaria morava o cavalo, também cuidado por ele.
O leite era medicinal.
O cavalo, instrumento de trabalho.
Naquele tempo, para ser médico, era preciso saber montar.
A cidade cresceu em outras direções.
O Centro Histórico silenciou em suas fachadas feridas.
A antiga região ficou desabitada, entregue à própria memória.
Nasci ali.
Minha formação cultural e intelectual devo a esse pedaço de chão de terra batida.
Hoje a pressa aumentou — mas o silêncio da casa grande ainda me chama pelo nome.
Gabriel Novis Neves
28-02-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.