Nas varandas dos antigos casarões cuiabanos — não sei se por acaso ou por tradição — sempre havia uma poltrona vazia em um dos cantos.
Esse objeto simples guardava um profundo simbolismo: era sinal de ausência, mas também de esperança.
Representava o espaço reservado às memórias, à espera silenciosa de quem já partiu ou, quem sabe, de quem ainda pode chegar.
Na sala de visitas do meu apartamento, conservo uma dessas poltronas antigas, herança de família.
Ela repousa próxima ao oratório, iluminada por um janelão.
Apesar de confortável, quase nunca é usada.
Os bisnetos preferem a cadeira de balanço, onde encontram o embalo dos meus braços.
Entretanto, minha mulher sempre escolhia aquela poltrona.
Ali se jogava para descansar, para ouvir histórias ou para confidenciar segredos.
Ninguém mais da família adotou o mesmo hábito, e desde então ela permanece vazia, mesmo nos dias festivos em que a casa se enche de vozes e risos.
Talvez essa poltrona continue esperando por ela.
Para mim, não está desocupada: conserva sua presença invisível, sua memória viva.
Quase vinte anos já se passaram desde a sua partida, e ainda assim acredito que um dia ela pode voltar para se refestelar novamente e ouvir as novidades que guardo para lhe contar.
Como é bom sonhar, inventar cenários que poderiam ser verdadeiros!
Afinal, viver não é apenas acrescentar dias ao calendário, mas aprender a lidar com essas presenças silenciosas que nos acompanham. Todos nós, ao longo da vida, encontramos uma poltrona vazia em nossa varanda interior. Símbolo de saudade, de passagem e de continuidade, ela atravessa gerações, ensinando que a ausência também pode ser companhia.
Assim é a poltrona da minha sala: ocupando um espaço reservado às memórias.
Gabriel Novis Neves
25-09-2025
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