Não faço a mínima ideia de quantos guarda-chuvas emprestei e nunca retornaram.
São objetos de pouco valor comercial, mas o seu desaparecimento desperta reflexões sobre confiança, perdas e pequenos desapegos.
Como é difícil compreender, em profundidade, o que significa ter confiança.
Vale, então, o velho ditado popular: confiar, desconfiando.
Confiar de olhos fechados em alguém sempre envolve riscos.
Não é à toa que até no organograma do serviço público existem os cargos de confiança — funções ocupadas sem concurso, quase sempre melhor remuneradas.
É preciso coragem para emprestar um guarda-chuva e esperar sua devolução nesses meios, salvo honrosas exceções.
Em certas secretarias de Estado, a maioria dos cargos de confiança não é de fato, da confiança do secretário; e há secretários que, por sua vez, não gozam da confiança do próprio governador.
Todos sabem disso.
Assim começa a erosão do valor da confiança.
Sempre observei com cautela os ocupantes desses cargos, pois quase sempre são fruto de indicações políticas e devem lealdade a quem os nomeou.
Mas houve uma exceção marcante: na implantação da Universidade Federal, todos os colaboradores eram, sim, da confiança da Reitoria — apesar de alguns pecados veniais.
Ali, eu poderia emprestar um guarda-chuva certo de que ele voltaria.
Perdas, materiais ou imateriais, fazem parte da vida.
Nem sempre, porém, são aceitas com naturalidade.
Apesar da idade, confesso que ainda não aprendi a lidar bem com elas.
Já sofri muitas, nos dois planos: o material e o imaterial.
Deixei de me lançar em tantas aventuras, por medo da desventura de uma perda — e, assim, acabei, por vezes, caindo no poço da mediocridade.
Em contrapartida, quando enfrentei de frente certas perdas, fui surpreendido pela boa avaliação dos meus pares, que acabaram definindo rumos do meu destino.
Nunca me seduziram os pequenos desapegos.
Não perco o sono pensando no guarda-chuva que emprestei e nunca mais voltou.
A vida modesta que levo é diferente da de muitos contemporâneos, desde cedo envolvidos em apegos materiais.
No fim, a história do guarda-chuva que não voltou acaba servindo como metáfora para refletirmos sobre valores essenciais do nosso cotidiano — valores que, muitas vezes, deixamos de lembrar e de cultivar.
Gabriel Novis Neves
26-09-2025
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