O Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da nossa Universidade Federal de Mato Grosso completa hoje cinquenta anos de criação.
A Magnífica Reitora, Professora Doutora Marluce Aparecida Souza e Silva, atenta à preservação da memória institucional, organizou uma série de solenidades alusivas à data.
Impossibilitado de comparecer à abertura, gravei um breve depoimento audiovisual, que será exibido no início das comemorações desse Jubileu de Ouro.
Recordo-me do surgimento do Núcleo, quase por acaso, durante uma viagem a Brasília, ao lado da professora Maria de Lourdes Delamônica Freire.
Ex-aluna da UnB, ela soube da presença de uma pesquisadora portuguesa interessada na história de Cuiabá e sugeriu que a UFMT acolhesse a pesquisa.
Assim veio a professora Maria Cecilia Guerreiro de Souza, que se mudou para Cuiabá e, junto aos nossos pesquisadores, deu origem ao NDIHR, hoje cinquentenário.
Não sou historiador, mas sempre estive próximo da história.
Morei na rua do Campo, entre o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, e as residências dos historiadores Estevão de Mendonça e seu filho Rubens de Mendonça, até partir para o Rio de Janeiro, onde estudei Medicina.
Em 1968, como Secretário Estadual de Educação no governo de Pedro Pedrossian, vivi um episódio que nunca esqueci.
Certa tarde, sem aviso, recebi em meu gabinete o Padre Wanir Delfino César, do Instituto Histórico de Mato Grosso.
Foi direto ao ponto:
— Precisamos salvar a certidão de nascimento de Cuiabá.
Referia-se aos Anais da Fundação de Cuiabá.
Contou-me que um amigo restaurador da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, havia examinado o documento e garantira ser possível recuperá-lo, embora o trabalho fosse delicado e demorado.
O padre precisava de cinco mil reais.
Naquele tempo, era o dobro do salário de um secretário de Estado.
Falei com o governador, que autorizou a quantia.
O padre Wanir não era homem de papéis nem de prestação de contas — era homem de missão.
Meses depois, num 7 de setembro, às três da tarde, entregou-me o documento restaurado na sede da Rádio Cultura, próxima à igreja do Senhor dos Passos.
A cerimônia foi transmitida ao vivo.
Levei-o para casa e, sem saber onde guardá-lo, ouvi a recomendação mais simples e segura:
— No lugar mais protegido que tiver.
Ali ficou, por anos, no fundo de um armário, atrás de cobertores, como um tesouro silencioso.
Com a criação do NDHIR, entreguei-o aos cuidados dos nossos pesquisadores.
Hoje, ao celebrar cinquenta anos dessa instituição, sinto que aquele gesto antigo encontrou seu destino.
A memória, quando bem guardada, também sabe esperar.
Gabriel Novis Neves
09-04-2026
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