Durante a faculdade meu caderno estava sempre cheio de anotações.
Escrevia com atenção cada detalhe das aulas, procurando não perder nenhuma informação importante.
Com o passar do tempo, aquelas páginas tornaram-se um registro fiel do meu aprendizado.
Mais do que simples apontamentos, eram uma forma de organizar o pensamento e fixar o conhecimento adquirido.
Os cadernos dos estudantes de Medicina eram verdadeiras preciosidades e, durante os seis anos do curso, foram meus fiéis companheiros.
Um colega maranhense, excelente aluno, fazia suas anotações a lápis, com uma borracha escolar sempre à mão.
Corrigia os erros com delicadeza e depois soprava sobre a página os vestígios da borracha, para meu encanto, preservando um hábito dos tempos do ensino primário.
Os alunos que usavam cadernos, nem sempre eram bem vistos por parte da turma, que preferia consultar apenas os livros.
Mas o conhecimento médico é vasto demais, e anotar o que os professores ensinavam nas aulas teóricas e práticas, era uma necessidade.
Essas anotações, a que chamávamos de macetes, tornavam-se resumos valiosos das lições recebidas.
Entender e guardar o que líamos nos grossos livros de Medicina sempre foi um processo lento.
Ainda mais para aqueles que, no ensino básico, haviam aprendido mais a decorar do que a compreender.
Nos bondes que me levavam à faculdade e aos hospitais, eu levava o caderno para rever lições anteriores e manter o estudo em dia.
Quando estava sem ele, anotava o que julgava importante nos espaços em branco do livro que carregava.
Fixar o conhecimento me obrigava a reler sempre o que já havia aprendido.
O médico é, por natureza, um eterno estudante: de livros, revistas científicas, seminários, simpósios e reuniões clínicas.
Com a globalização, a internet, passou a despejar, vinte e quatro horas por dia, novos conhecimentos médicos.
Tornou-se impossível, mesmo com o auxílio das anotações, saber tudo sobre a arte de curar.
Daí nasceram as especialidades e subespecialidades.
E o caderno sempre cheio, companheiro de tantos anos, acabou cedendo lugar ao celular.
Mudaram os instrumentos.
Mas o ofício de aprender continuou o mesmo.
Gabriel Novis Neves
09-04-2026
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