O reflexo de um pássaro no vidro revela o mistério da solidão e o voo silencioso da alma.
Todas as manhãs, um pequeno pássaro batia no vidro da janela.
Talvez visse ali um rival — ou talvez a solidão da própria imagem refletida.
Um dia, o vidro quebrou, e o passarinho sumiu.
Mesmo depois do conserto, ele nunca mais apareceu.
Gostaria de saber por anda esse passarinho.
Talvez tenha encontrado outro vidro, na janela de algum prédio mais alto que o meu.
Ou, assustado, tenha desaparecido das redondezas e nunca mais voltou a bater no vidro do meu quarto.
Estranha ausência — eu que já estava acostumado com aquela batida ritmada nas manhãs.
Será que ele nunca mais se olhou no reflexo de nenhuma janela?
Ou será que a sua imagem refletida já não é a mesma de antes — nem rival, nem solidão?
Acho que o vidro quebrado lhe fez bem. Talvez agora continue pousando em janelas mais altas, cujos vidros já não lhe devolvem o espelho da tristeza.
Quem sabe tenha encontrado uma nova companheira, e nela a felicidade que lhe faltava — exorcizando a antiga solidão refletida em si mesmo.
Assim mesmo, espero que o passarinho volte a passear na minha janela e veja refletida no vidro uma nova criatura — ele próprio, transformado.
Pode ser que, com a mudança do horário de visita, os raios de sol tenham alterado o reflexo, confundindo-lhe a imagem e os sentimentos
Quando as pessoas vão à praia, deitam-se na areia, próximas às ondas, e voltam com a pele bronzeada — sinal de vida e de saúde.
Em dias sem sol, retornam frustradas sentindo o vazio de uma manhã perdida.
Não sei se o passarinho da minha janela refletia no vidro a sua felicidade ou a sua tristeza.
Por que não voltou mesmo depois da troca do vidro?
Ou teria vindo às escondidas e não mais reconheceu a própria imagem, agora transformada em espelho?
Mistérios que só descobrimos vivendo — mesmo que não sejamos um simples passarinho.
Gabriel Novis Neves
06-11-2025

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