Não havia nada melhor, nas tardes quentes cuiabanas, do que o cheiro da terra molhada e o som das goteiras.
Isto fazia a alma descansar.
Como eu gostava dessa combinação entre a chuva batendo nas telhas de barro e o compasso das goteiras!
Ainda bem que a minha casa da rua do Campo não era forrada — assim eu podia sentir os borrifos da chuva sobre o corpo.
Seo Domingos, velho pedreiro da família, sabia que, depois das chuvas, teria de cimentar as goteiras, especialmente as dos dormitórios.
Também cabia a ele desentupir os bueiros da área de serviço, entupidos pelas folhas das plantas da varanda e do quintal.
Desde o meu retorno à cidade natal, em 1964, sempre morei em casas com forro — e há trinta anos num apartamento.
Mesmo durante um temporal, se estou dormindo, nem percebo que choveu.
Aquela alegria sensorial — o cheiro da terra molhada, o som da chuva no telhado, as goteiras e os borrifos — jamais voltarei a sentir.
Certos odores da natureza, como o da terra molhada, parecem incompatíveis com o progresso.
Não acho que o progresso tenha sequestrado os prazeres simples da vida, ao alcance de todos.
Mas as cidades tornaram-se mais embrutecidas, sem a beleza da água escorrendo em direção aos córregos.
Perdemos a poesia e o encanto do córrego da Prainha transformado em avenida; do Barbado, do 8 de Abril e do Quintal Grande — este último, totalmente canalizado, corre agora sob a pela região da Avenida Mato Grosso.
O tanque do Baú foi aterrado para dar lugar a prédios públicos e a uma clínica famosa.
Cuiabá tem vinte e oito córregos — e a maioria está escondida sob o asfalto.
Sem o devido cuidado na canalização, a cidade sofre com as inundações.
As chuvas tão aguardadas na cidade mais quente do Brasil trazem, junto com o alívio, os horrores das enchentes.
A velha capital do Estado nasceu num vale, onde toda a água das chuvas, sem drenagem, transforma as ruas em rios.
Gabriel Novis Neves
29-10-2025

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