Há relógios que não marcam apenas as horas — contam histórias.
O da minha estante é um deles.
Já não funciona, mas continua lá, como se ainda tivesse o poder de medir o tempo das lembranças.
Foi herança de família, desses que passam de geração em geração, acompanhando as mudanças de casa e de vida.
Seu tique-taque era a trilha sonora das noites tranquilas da minha infância.
Hoje, o silêncio dele é outro tipo de música — uma melodia feita de memória.
O ponteiro parou há muitos anos, num horário que ninguém se lembra ao certo.
Mas eu gosto de pensar que ele parou de propósito, para guardar aquele instante em que o tempo parecia mais amigo.
O relógio da estante não se importa com a pressa do mundo.
Permanece ali, sereno, olhando a sala, as visitas, os dias que passam devagar.
De vez em quando, limpo-lhe o vidro com cuidado, como quem acaricia um rosto antigo.
Ainda vejo o reflexo de minha mãe passando pela sala, ajeitando flores no vaso.
Era ela quem dava corda no relógio todas as manhãs, com um gesto quase ritual.
Parecia conversar com ele, pedindo que o dia fosse generoso com todos nós.
Hoje, ninguém mais lhe dá corda, mas ele continua cumprindo sua função — a de lembrar.
Na casa, é o guardião do tempo vivido.
Não mede segundos nem minutos: mede afetos.
Enquanto o relógio repousa imóvel na estante, sinto que é o tempo quem se movimenta ao redor dele.
E cada vez que olho para aquele mostrador parado, percebo que há relógios que continuam batendo — não no mecanismo, mas dentro da gente.
Gabriel Novis Neves
07-11- 2025

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