A vida guarda certas coincidências que só o tempo, com sua lenta sabedoria nos permite compreender.
Ainda menino, em Cuiabá, tive a oportunidade de conhecer dois homens que, em 1945, disputariam a Presidência da República: o brigadeiro Eduardo Gomes e o general Eurico Gaspar Dutra.
O primeiro encontro aconteceu na rua do Campo, diante do Clube Feminino, pouco antes das eleições de dezembro daquele ano.
O brigadeiro discursava de um dos janelões do casarão do seu Batinga.
Lá embaixo, na rua, cerca de cento e cinquenta pessoas acompanhavam suas palavras.
Cuiabá era então uma cidade de aproximadamente cinquenta e cinco mil habitantes, e os acontecimentos políticos ainda pareciam caber na intimidade de suas ruas.
Muito anos depois, já estudante de Medicina no Rio de Janeiro, voltei a cruzar o caminho daquele personagem.
Minha última residência na capital federal ficava na rua Senador Vergueiro, no Flamengo.
Católico praticante, o brigadeiro costumava assistir aos domingos à missa na Igreja da Santíssima Trindade, inaugurada em 1945.
A proximidade entre a casa e a igreja fazia com que sua presença tornasse parte da paisagem cotidiana do bairro.
O general Eurico Gaspar Dutra conheci quando ele já ocupava a Presidência da República, durante uma visita à sua terra natal.
Dessa passagem por Cuiabá nasceram recursos para importantes obras, entre elas o Estádio General Dutra, nosso querido Dutrinha, e o primeiro conjunto habitacional do bairro Popular.
Eram marcas concretas de uma visita presencial que permaneceu na memória da cidade.
Em 1954, quando frequentava o cursinho do professor Galotti, na rua Álvaro Alvim, na Cinelândia, era comum encontrar o ex-presidente caminhando tranquilamente pelas ruas.
Vestia terno, gravata e chapéu.
Ia ao cinema ou ao teatro, sem acompanhantes, seguranças ou qualquer sinal de que carregasse sobre os ombros a antiga autoridade de um chefe de Estado.
Aquela simplicidade me impressionava.
Havia algo de profundamente humano em ver um ex-presidente misturado à multidão, seguindo seus passos pela cidade sem a distância que hoje parece inseparável do poder.
Os tempos mudaram.
Hoje, até autoridades de pequenas cidades circulam cercadas de proteção.
A violência política transformou a proximidade entre governantes e cidadãos motivo de apreensão.
O encontro casual, que antes podia ser apenas uma lembrança, tornou-se uma possibilidade cercada de riscos.
Não pretendo idealizar o passado.
Aqueles anos também conheceram intolerâncias, conflitos e injustiças.
Mas guardo uma imagem que o tempo não conseguiu apagar: a de um presidente caminhando pelas ruas como qualquer cidadão.
Houve dias em que isso era possível.
E essa simples lembrança, por si só, diz muito sobre aqueles tempos.
Gabriel Novis Neves
20-10-2026

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