sexta-feira, 30 de outubro de 2026

NOVEMBRO CHEGAVA CHEIO DE FERIADOS


Novembro sempre me pareceu um mês diferente.

 

Mal começava e já trazia feriados que interrompiam a rotina das escolas, das repartições e do comércio.

 

Para o menino, pouco importava a razão escrita no calendário.

 

Feriado significava acordar sem pressa, brincar por mais tempo e encontrar a família reunida.

 

Quando a data caía perto do fim de semana, a alegria aumentava.

 

Era como ganhar alguns dias de presente antes que dezembro chegasse anunciando suas festas.

 

Mas havia um feriado diferente.

 

Logo no segundo dia de novembro chegava o Dia de Finados.

 

Era tempo de visitar os cemitérios, levar flores e deixar que a saudade aproximasse aqueles que já haviam partido.

 

Talvez por isso esse dia sempre tenha feito minhas lembranças caminharem para muito longe.

 

Volto à Cuiabá da minha infância, às ruas estreitas, aos becos, às praças, aos jardins e à sombra generosa dos mangueirais.

 

Vejo meu avô chegando à nossa casa, na rua de Baixo.

 

Colocava-me à sua frente no cavalo e saíamos pela cidade.

 

Às vezes visitava seus clientes; outras, simplesmente passeávamos ou íamos até o rio Cuiabá para dar banho no animal.

 

O menino assistia a tudo encantado, sem imaginar que aquelas cenas ficariam guardadas para sempre.

 

Outras vezes era meu pai que me convidava. Íamos de ônibus até a agência Migueis, no Porto, para saber da chegada das mercadorias destinadas ao bar.

 

Naquele tempo o transporte fluvial ligava Cuiabá ao restante do país.

 

As estradas praticamente não existiam, e nossa cidade vivia distante de tudo. 

 

Durante a seca embarcações maiores nem sempre conseguiam chegar até a capital.

 

Como eu achava bonita a avenida 15 de Novembro, no Porto, com seu canteiro central arborizado e seus antigos casarões!

 

Ali começara uma parte importante da história da cidade, ligada ao rio, ao comércio e aos tempos do ouro.

 

Tudo isso passou.

 

Mas basta novembro chegar para aquelas imagens voltarem.

 

Aos 91 anos descubro que viver muito também é possuir um enorme álbum de lembranças.

 

E algumas delas o tempo não consegue amarelar.

 

Gabriel Novis Neves

02-10-2026




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