Entre prateleiras e filas apressadas um velho relógio marca as horas de quem não tem tempo.
E quantos pequenos dramas e gentilezas acontecem ali, entre o caixa e o carrinho!
Os carrinhos abarrotados de alimentos e utensílios parecem carregar, junto com as compras, a pressa de cada um naquela fila interminável — onde não vale furar a ordem, nem mesmo com atestado médico.
Todos que aguardam têm compromissos e se guiam pelo relógio do supermercado, que às vezes parece não caminhar.
Dramas como o horário de levar as crianças à escola, se repetem diariamente, enquanto a fila insiste em não andar.
A gentileza dos caixas, quase sempre pacientes, ampara os aflitos daquelas filas sem fim.
Alguns preferem fazer as compras de madrugada, ou longe das datas de pagamento dos servidores públicos, quando o movimento aumenta e o tempo parece apertar ainda mais.
E o grande relógio do supermercado segue firme, cumprido sua função de informar a hora exata — lembrança silenciosa de que todos ali têm pressa.
O caixa do supermercado parece passar por um teste psicológico diário: trabalhar onde ninguém tem tempo.
Precisa demonstrar tranquilidade, oferecer pequenas gentilezas e manter o ritmo, sem deixar escapar o bom humor.
Certa vez o relógio parou.
Foi um Deus nos acuda.
Logo o gerente trouxe outro, restaurando a paz no ambiente.
Mas há também os que vão ao supermercado para passear, encontrando amigos que há muito não viam.
Encostam-se diante do frigorífico de queijos e, entre uma fatia e outra, colocam a conversa em dia.
O estacionamento é outro ponto de prosa, longe dos olhares severos do relógio.
Na despedida, trocam números de telefone e seguem felizes para casa.
O ser humano tem dificuldade de compreender o tempo — talvez por isso viva tão apressado e intranquilo.
Até os silvícolas, hoje, se orientam pelos relógios de pulso.
Que poder adquiriu o tempo, com a presença dos relógios!
Até os rituais indígenas passaram a ser administrados pelo relógio dos brancos, gerando pressa e estresse.
Gabriel Novis Neves
13-11-2025

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