domingo, 25 de outubro de 2026

DEPOIS DO MEIO-DIA DA VIDA


A vida também tem suas horas.

 

A infância é o amanhecer; a juventude, a manhã ensolarada; e a maturidade chega quando o sol alcança o ponto mais alto do céu.

 

Depois do meio-dia as sombras começam a se alongarem, os passos ficam mais lentos e o tempo parece correr cada vez mais depressa.

 

É então que aprendemos a beleza de viver sem pressa, valorizando as lembranças e os pequenos encantos que ainda florescem pelo caminho.

 

Gosto dessa metáfora para representar a vida depois dos cinquentas anos, quando passamos a compreender melhor o valor das coisas simples.

 

Aos noventa e um anos, sei o que significa despertar para mais um dia, encontrar os sinais vitais em ordem e sentir a alegria silenciosa de continuar vivendo.

 

Por isso, cada amanhecer representa uma pequena vitória.

 

Realizei meus sonhos, alcancei minhas metas e já não tenho pressa de chegar a lugar algum.

 

Se pudesse, pediria ao tempo que andasse mais devagar, apenas para acompanhar o crescimento dos meus bisnetos, que parecem ter tanta pressa de crescer.

 

Mesmo depois do meio-dia, a vida continua oferecendo seus altos e baixos, suas alegrias e suas inevitáveis despedidas.

 

Depois dos noventa, cada dia é uma dádiva, embora saibamos que a tarde avança lentamente em direção ao entardecer.

 

Conhecemos o ciclo da existência, mas nunca estamos inteiramente preparados para o seu desfecho.

 

Talvez a fé nos ajude a enfrentar com serenidade os mistérios da vida e da morte.

 

Confesso que não gosto dos rituais de despedida, dos velórios, das velas, dos caixões e dos cemitérios.

 

Prefiro voltar o olhar para a vida enquanto ela acontece, enquanto há luz e presença.

 

Talvez por isso eu me lembre tanto de como era bom ser criança, quando a maior preocupação era encontrar tempo para brincar!

 

Naquela época, a estrada parecia interminável, e cada dia trazia uma descoberta.

 

Hoje, olhando para trás, procuro aquele menino que um dia fui.

 

E descubro que ele ainda mora em mim, esperando o próximo amanhecer.

 

Gabriel Novis Neves

17-10-2026




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