quinta-feira, 16 de julho de 2015

Selvageria


Nesses milênios de existência a humanidade, em sua essência, mudou muito pouco e, se o fez, foi disfarçando os seus instintos mais primitivos sob forma de hipocrisia social.
As guerras continuam cada vez mais cruéis - agora subsidiadas pelas grandes indústrias bélicas aparelhadas pela mais alta tecnologia.
As intolerâncias religiosas, raciais e de gênero, atualmente recrudescidas mundialmente, nos humilham como seres ditos racionais.
Continuamos intransigentes com aqueles que nos parecem diferentes, totalmente insensíveis aos seus sofrimentos, movidos apenas pela nossa vaidade e pelo nosso desejo de poder.
As castas privilegiadas continuam as mesmas em todos os níveis e cada vez mais desinteressadas por aquelas que julgam seus inferiores.
A sede de poder desvairado leva civilizações inteiras   ao extermínio ou ao caos.
Os grandes déspotas de todos os tempos são sempre os mesmos, os Neros, os Napoleões, os Hitlers, os Mussolinis, apenas travestidos de mensageiros da paz, fazendo com que as pessoas mais esclarecidas cheguem à conclusão que a humanidade é realmente inviável.
O caos em que vivemos nesse mundo altamente tecnológico é o maior exemplo disso.
Atingimos nesses últimos setenta anos um nível impensável de desenvolvimento pelos nossos antepassados.
Com o surgimento da sociedade de consumo a moral e a ética foram abolidas que, de alguma forma, ainda tentavam ditar os costumes. Foi implantado o “Deus Dinheiro“, senhor supremo de todas as coisas e pessoas.
O mundo continua dividido, como sempre foi, entre os poderosos que determinam as regras do jogo, sempre em benefício próprio, e a grande massa desvalida que perambula sem destino e sem perspectivas - apenas oprimida como carneirada obediente.
Consequência de todo esse quadro: muita intolerância e barbárie nas relações interpessoais.
O ser humano, nem no âmbito interno, não admite que alguém possa ser feliz de acordo com as suas próprias regras.
Pessoas livres são consideradas perigosas uma vez que passam a rejeitar todas as amarras a que tentam aprisioná-las.
Dessa maneira, continuamos através dos séculos nesse mesmo quintal de mesmice, selvageria e intolerância do passado.
Quantos mais mil anos serão necessários para completarmos a nossa evolução como seres animais racionais dignos dessa nomenclatura?

Gabriel Novis Neves
21-06-2015

quarta-feira, 15 de julho de 2015

INDIGNAÇÃO


Estamos num momento político social caracterizado por extrema indignação. Pela impossibilidade de ser extravasada, tende a se transformar em uma intensa crise depressiva generalizada.
Não sei se consigo me lembrar - e olha que nesses oitenta anos vi e vivi muitos momentos difíceis – de uma fase em que um número tão grande de pessoas no Brasil estivesse se sentindo tão injustiçada.
Em parte, por uma maior conscientização promovida pelos modernos meios de comunicação, mas, principalmente, pelos vários e seguidos equívocos políticos e econômicos de que temos sido vítimas nas últimas décadas.
Nunca tantas pessoas de classes sociais tão diversas se sentiram tão atingidas!
A desigualdade social atingiu níveis insuportáveis e a carneirada começa a dar sinais de cansaço.
Falávamos em cidade partida, em luta de classes, em injustiça social, mas tudo isso nos parecia distante, incapaz de promover qualquer tipo de confronto.
Falávamos que os morros um dia poderiam descer em fúria, e isso virou realidade quando presenciamos morte pelo simples roubo de uma bicicleta.
Por outro lado, vemos uma classe política totalmente desvinculada do bem estar público, absolutamente umbigada aos seus interesses pessoais, cada vez mais distante dos propósitos para os quais foi eleita.
Num momento grave de grande recessão econômica, de desemprego alarmante, de salários aviltantes, o judiciário tem o desplante de, ao apagar das luzes, aumentar em 78% os seus já polpudos soldos.
Como se não bastasse, uma ajudinha adicional para a educação de cada filho, uma merecida bolsa família.
Quando um governo nada mais faz a não ser fatiar o bolo entre seus apaniguados, mantendo e aumentando cargos comissionados, votando reformas que nada reformam, mas, ao contrário, quando atingem com mais força os menos favorecidos através de impostos escorchantes, é porque a vista cansada está se transformando em cegueira galopante.
A falta de sensibilidade do poder é tamanha que, na ânsia de permanecer num navio que ameaça ir a pique, não percebe que também se destruirá com toda a sua tripulação.
É uma nave à deriva, que já nem precisa de uma grande tempestade para ser afundada, bastam os ventos que sopram de todos os lados e que tornam esse mar cada vez mais revolto.
Não entendem que essa indignação vigente é o caldo de cultura que propiciaram as grandes revoluções da humanidade, todas muito sangrentas. Foi assim na França, na Rússia, no México.
Realmente, as manifestações de rua com patricinhas e mauricinhos não amedrontam o poder, apenas sinalizam que os andares de baixo serão atingidos rapidamente.
Até que ponto os seus jatinhos e helicópteros conseguem manter a nuvem de distância que os separa do povo e de seus sofrimentos?
Diante desse quadro caótico de inflação, queda desenfreada de empregos,  queda na indústria, nos serviços,  no consumo, não seria prudente abdicar de alguns anéis ante a possibilidade de perder todos os dedos?

Gabriel Novis Neves
25-06-2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

Viagens terapêuticas


Os médicos costumam receitar a certos pacientes uma viagem de cunho terapêutico como forma de auxiliá-los a se desligar dos problemas afligentes do dia a dia.
Além do descanso mental, o viajante enriquece seus conhecimentos e, se não for alienado, melhora a sua cultura.
Observo que os políticos de nações em crise procuram sempre um encontro com o homem mais poderoso do mundo (Obama) para demonstrar ao seu povo o quanto são respeitados no exterior.
Tudo isso seria até aceitável se, na prática, alguma das reivindicações dos visitantes fossem atendidas.
O que impressiona é a grandiosidade das nossas delegações, sempre bem maior que de outros países.
Em avião moderno e luxuoso, pago pelo povo brasileiro, uma grande comitiva - formada pela presidente, assessores, ministros e empresários - fica, inicialmente, hospedada num dos hotéis mais sofisticados de Nova York.
A seguir se dirige a Washington para o ato cinematográfico do encontro com o Presidente na Casa Branca – símbolo do poder no planeta.
Total falta de sensibilidade num momento em que 56% da população brasileira estão endividadas.
Para finalizar a “turnê da crise”, uma visita até São Francisco para visitar universidades, nos informa a mídia da comitiva.
Falta o mínimo de pudor aos nossos governantes com tamanho esbanjamento de dinheiro da nossa sofrida população trabalhadora.
Nada será resolvido, apenas, montado um cenário na terra do Tio Sam para abafar os escândalos que sufocam nosso país com crises financeiras e políticas.
O capitalismo é selvagem e nada será concedido gratuitamente ao Brasil além das fotos oficiais nos jardins da residência do Presidente do Império Capitalista.
Diariamente, Obama recebe chefes de Estado do mundo inteiro pedindo ajuda. Ele nada decide emocionalmente.
Nossa turma com certeza voltará contando inúmeras conquistas deste passeio proveitoso.
Muitos estão comparando essa visita ao Baile da Ilha Fiscal. 
E os bilhões de dólares que os chineses iriam investir aqui? 
Alguém sabe informar como estão os projetos estruturais, especialmente os da ferrovia transoceânica que muito nos interessa? 
Está parecendo um novo VLT.

Gabriel Novis Neves
02-07-2015

segunda-feira, 13 de julho de 2015

FALTA UM LÍDER


Ainda há pouco o Brasil era um país rural, não industrializado, dependente economicamente dos países mais desenvolvidos.
Enfrentávamos sérios problemas nas áreas da educação, saúde, habitação, mobilidade urbana e obras de infraestrutura.
Estávamos em um momento de euforia na década de cinquenta com a industrialização de Vargas e o otimismo do Juscelino quando, em 1958, conquistamos o primeiro título mundial de futebol na Suécia.
De lá para cá, o futebol serviu de cortina para esconder todas as nossas insuficiências e inflacionar a nossa autoestima.
Éramos os melhores do mundo nesta arte. Nada se comparava às habilidades dos nossos craques.
Esquecemos todas as nossas dificuldades e começamos a criar reis e príncipes no futebol.
A nossa autoestima aumentou quatro anos após no Chile - repetimos o sucesso da Suécia.
Éramos bicampeões do mundo em futebol!
Nossa cultura ficou toda na ponta das chuteiras! Encerrando esse ciclo em 1970 com a conquista do tricampeonato no México.
O Brasil tornou-se conhecido no mundo como o país do futebol, das mulatas e do carnaval.
Nos últimos quarenta e cinco anos, mais dois títulos mundiais foram acrescentados com as vitórias nos Estados Unidos e na Coréia do Sul.
Desde então acumulamos uma série de derrotas vexatórias, culminando com os 7X1 para a Alemanha na Copa de 2014, aqui mesmo no Brasil.
Agora, no Chile, em campanha irreconhecível, não chegamos nem às quartas de final.
Perdemos a hegemonia no futebol e não avançamos em outros setores, como educação, ciência e tecnologia.
No momento enfrentamos a maior crise ética da nossa história, com uma economia enfraquecida e o crescimento nacional paralisado.
O pior é que não temos mais o amuleto do futebol para nos sustentar diante dos obstáculos administrativos que assolam este país.
Resta-nos a violência, criminalidade, corrupção e toda sorte de problemas sociais.
Precisamos de um líder para nos tirar do fundo deste poço de humilhação e nos conduzir a uma nação desenvolvida, igualitária e plural.

Gabriel Novis Neves
02-07-2015

Democracia


Impressionante constatar o pleno exercício da democracia grega frente a uma das maiores crises econômicas de sua história.
Basicamente, democracia é a forma de governo em que o poder e a responsabilidade cívica são exercidos por todos os cidadãos, diretamente ou através de seus representantes legitimamente eleitos.
Criada na Grécia antiga, berço da civilização, esta forma de governo – democracia - atravessou os séculos e, mesmo aos solavancos, mostrou ser o melhor regime político na prevenção de sociedades injustas.
Sensacional o exemplo que o sofrido povo grego vem dando ao mundo! 
Em uma mesma praça, em frente ao parlamento, a população organiza, em dias alternados, manifestações através do “sim”, ou através do “não”, em resposta a um plebiscito que determinará a que tipo de sistema econômico o país deverá estar vinculado.
Já não se trata das imensas mudanças macroeconômicas do país, mas também do perigo de contaminação de outros países europeus tais como, Portugal, Espanha e Itália, que já se encontram em crises sucessivas.
Essa compreensão global é que, a meu ver, leva o povo grego a esse exercício constante de democracia.
Estão cônscios de que seu destino, na perspectiva de saída do euro, envolve toda uma situação europeia, não apenas econômica, mas, principalmente, geopolítica, que, após vivenciar duas grandes guerras mundiais no último século, vem mostrando crescimento de movimentos de intolerância por todas as partes.
Mais do que nunca os gregos estão mostrando ao mundo que democracia é a institucionalização da liberdade, ainda que isso custe um alto preço.

Gabriel Novis Neves
02-07-2015

PROTOCOLO DE INTENÇÕES


Quando não se tem certeza que um objetivo será alcançado costumamos assinar um documento fantasia chamado “Protocolo de Intenções”.
Todos os agentes públicos onde essa prática é mais utilizada conhecem muito bem o que isso significa em termos pragmáticos, quando centenas deles são festivamente celebrados, muitas vezes para aliviar uma pressão política e social existente.
Com o passar do tempo tudo é esquecido e nada concretizado.
Recentemente, uma delegação chinesa esteve no Brasil, quando foram assinados dezenas desses protocolos com o governo federal e alguns estaduais.
A propaganda oficial passou à população a falsa imagem que os trilhardários orientais chegaram com malas de dinheiro para investimentos no nosso país.
Áreas prioritárias seriam atendidas, como construções e pavimentações de estratégicas estradas ao escoamento dos nossos produtos.
Ferrovias transoceânicas, pontes, aeroportos e portos, além da compra de centenas de jatos da Embraer e ações das nossas principais estatais, como da fragilizada Petrobras.
Bilhões de dólares seriam despejados em nosso território, em momento de grave crise econômica com PIB em queda, desemprego na indústria, recessão em todos os setores das nossas atividades produtivas, com repercussões sociais insuportáveis.
Greves por melhores condições de trabalho e salários nos serviços essenciais como educação, saúde, segurança, transportes, pipocam em toda a nação, exigindo soluções imediatas e corretas.
A falta de credibilidade dos nossos governantes atingiu patamares impensáveis, e a ausência de transparência nas suas ações sonegou da nossa gente a informação de que esses recursos dos projetos orientais serão financiados pelo nosso banco de desenvolvimento (BNDES) a juros subsidiados.
Um negócio da China para os chineses, cuja moeda forte só terá vantagens sobre o nosso dinheiro podre.
Projetos serão elaborados, aprovados e, finalmente, o momento crucial da liberação dos recursos.
Quando isso acontecerá, se acontecer, ninguém sabe informar, pois vivemos no país onde ninguém sabe de nada.
Até quando iremos fazer esse tipo de administração de inventar soluções rápidas em tempo de crise financeira?

Gabriel Novis Neves
21-06-2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Financiamento do SUS


Sempre escrevi que os dois grandes problemas para o deficiente funcionamento do nosso Sistema Único de Saúde (SUS) eram a falta de financiamento público e a politicagem na gestão.
O poder público, para justificar o injustificável, defende a tese única da má gestão, ignorando a falta de recursos humanos qualificados, insumos e espaços físicos adequados.
Em 2014 o governo federal deixou de executar cerca de dez bilhões de reais previstos no orçamento, e em janeiro anunciou cortes nas contas de 2015.
Mais da metade do dinheiro não utilizado deveria ser investido em obras e equipamentos para unidades da rede pública.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMSrevelam que, historicamente, entre os países com sistema universal de saúde, o Brasil aparece com o menor percentual de participação do setor público na despesa per capita no referido item.
Ocupamos, mesmo sendo a sétima economia do mundo, uma colocação abaixo da Argentina, da Austrália, da Espanha, da Suécia, do Reino Unido, de Cuba, do Canadá, da Alemanha e da França.
Essa situação revela a fragilidade da gestão em todos os níveis (federal, estadual e municipal), que se mostra despreparada para usar o que está no orçamento.
O governo federal implantou a ditadura da tesoura. Os efeitos à nossa população percebem-se no atendimento médico que lhe é oferecido, onde doentes brigam até por vaga em maca de corredor hospitalar.
A pedalada fiscal provocou atrasos na liberação de recursos federais e desencadeou crises nos hospitais conveniados, especialmente nos filantrópicos.
As Santas Casas foram atingidas gravemente para manter suas portas abertas, pois que, em cerca de mil municípios brasileiros, são as únicas instituições a oferecerem leitos públicos.
Realmente saúde pública não é prioridade nacional!

Gabriel Novis Neves
21-06-2015