terça-feira, 17 de março de 2015

Segredo


Um ditado popular reza que segredo não foi feito para guardar. Em política, então!, esta palavra é totalmente desconhecida! Embora muito usada ao pé do ouvido.
Até as doceiras da Padaria Viena conhecem com detalhes o projeto de engenharia política para eleger a última Mesa Diretora da nossa Assembleia Legislativa.
Elas trabalham sem contato com o público. Essas informações, com certeza, chegaram pelo vento...
Houve chapa única, que obteve vinte e três votos favoráveis à proposta de trabalho apresentada, e um voto em branco.
Certo deputado assumiu que, inadvertidamente, apertou errado o botão do painel eletrônico da votação, explicando aos seus pares a origem do voto em branco.
Moralmente, o resultado foi por unanimidade, muito difícil de acontecer em regimes democráticos. Mas, ocorreu por aqui.
Divulgado o nome do escolhido houve uma surpresa geral da população que esperava outra decisão no olho eletrônico.
Também pudera! Os apoiadores do governo do Estado eram onze e o grupo da oposição estava fechado com treze parlamentares.
Após “conversas”, a vontade soberana prevaleceu e a chapa da oposição foi desfeita. O placar foi a goleada ao estilo alemão de futebol.
Todo mundo sabe o mecanismo utilizado para a execução dessa perfeita tarefa.
Se até entre quatro paredes não existe mais segredo devido ao advento das selfies, imaginem em uma eleição dessa grandiosidade com interesses mil.
Somos um bando de bobos, ou deixamos as coisas como estão só para inglês ver?
A hipocrisia, mesmo neste vendaval de denuncismos de falcatruas, continua desafiando as nossas instituições.
As doceiras da padaria sabiam com antecedência tudo o que iria, e como iria acontecer. Não ficaram, portanto surpreendidas com o acontecido, fácil de comprovar pelos modernos métodos de tecnologia.
Segundo um provérbio libanês, “a ti cabe guardar teus segredos e não aos outros”.
Em uma eleição com vinte e quatro membros, existe essa possibilidade?

Gabriel Novis Neves
28-02-2015

UAI


Não dá mesmo para entender o funcionamento da nossa política!
Em países democráticos existem partidos que representam ideologias as mais diversas e seus seguidores se respeitam e são tratados como adversários políticos, e não, inimigos.
Por estas bandas temos mais de vinte partidos políticos que, de diferentes, têm apenas as siglas. Não apresentam nenhuma diferença ideológica e todos só pretendem a conquista do poder, para saciar interesses do seu grupo e vaidades pessoais.
Chega a ser cômica a situação de alguns agrupamentos nos nichos do poder, onde há mais divergências que convergências.
A situação da nossa Assembleia Legislativa chega a ser surreal!
Integrantes do mesmo partido ali representado são mais inimigos pessoais que adversários históricos - e irreconciliáveis por cicatrizes antigas ainda não curadas.
Veja a situação do seu Presidente, que foi Secretário de Saúde do atual companheiro de partido, hoje líder do governo.
A saída do médico do comando da saúde do município, quando o seu colega de partido exercia o mandato de Prefeito de Cuiabá, não foi das mais tranquilas. Aconteceram graves acusações entre as partes.
Vaso quebrado não se cola e tem de ser substituído por um em perfeitas condições, especialmente quando as ofensas foram morais e públicas.
Atualmente, embora debaixo da mesma sigla partidária, um é Presidente da Casa e outro é líder do governo.
Como por aqui adversários existem, mesmo sendo da mesma agremiação partidária, fica fácil imaginar as dificuldades que terão para tratar de assuntos de interesse público.
O líder quer investigar os escândalos de corrupção que assolam a Casa de Leis, e vai atingir em cheio antigos colegas.
Estes, por sua vez, conhecem todos os meandros do líder quando foi prefeito e que foi humilhantemente rejeitado pelos eleitores na tentativa de atingir o Paiaguás.
Uma coisa é certa, não haverá o mínimo de vontade para um trabalho conjunto visando o bem estar da coletividade, embora as aparências enganem.
A fofoca sempre foi o combustível na vida pública e o não fofoqueiro se inviabiliza para essa função tão importante.
No momento são fabricadas inúmeras delas por minuto e, como diz o velho ditado popular – onde há fumaça, há fogo.
Vamos esperar a poeira baixar para ver o final de mais uma novela de horror.
O pobre marquês opinou sobre o assunto nebuloso dizendo: “- uai, esse trem ‘naum’ vai dar certo!”.

Gabriel Novis Neves
28-02-2015

Entrega de obras


O mundo atual nos envolveu em um cipoal de problemas outrora inimagináveis.
Bem antigamente, o proprietário de um terreno construía ou supervisionava a construção da sua moradia.
Com o “progresso” esse trabalho ficou inviável e fomos obrigados a terceirizá-lo.
As empresas construtoras assinam com o comprador um contrato de venda do imóvel, com o prazo de entrega determinado e com o compromisso do cronograma de pagamento.
Quando o contratante atrasa nos seus pagamentos, fica caracterizado como inadimplente, tem o seu nome no Serasa, paga elevados juros, enfim, é taxado com uma enormidade de multas, tudo dentro da legislação vigente no país.
Tanto no setor público como no privado, mesmo com o consumidor honrando os compromissos contratuais, o prazo da entrega das obras nem sempre respeita o previsto em contrato.
Até as obras pagas adiantadamente, com data de entrega registrada em cartório, costumam atrasar até um ano para o infeliz proprietário ter a sua posse.
Esse período em que o contrato não foi cumprido pela firma construtora, sem nenhum sinistro ou fator justificável, não permite juridicamente pensar no reembolso do comprador logrado.
Está tudo certo! Nenhuma explicação recebe o investidor, sempre foi assim e sempre será. A corda arrebenta do lado mais fraco, diz o ditado popular.
De onde vem tanto poder das empreiteiras? Basta ter curiosidade e verificar pela mídia quem banca as caríssimas eleições “democráticas” neste país.
A cordeirada é achatada por todos os lados. Paga impostos altíssimos, taxas de juros elevadas e é sempre a mais lesada.
Temos inúmeros órgãos de Defesa do Consumidor, mas, para fazer cumprir prazos de entregas de obras nada fazem, mesmo com o consumidor cumprindo a sua parte no contrato de compra e venda.
Não acreditamos nessa história de mudanças políticas com medidas moralizadoras protegendo esse segmento social que trabalha honestamente e investe na compra do seu teto.
Prazos existem sempre para quem não tem cacife para ajudar a manter a estrutura do poder.
Mudanças? Tá bom!

Gabriel Novis Neves
25-02-2015

BLEFE


Após a mudança da capital de Mato Grosso - de Vila Bela da Santíssima Trindade para Cuiabá - e com o advento da República em 1889, o nosso Estado quase sempre foi governado por políticos da cidade e circunvizinhanças, como Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço, Diamantino, Cáceres e, mais recentemente, por cuiabanos que colonizaram o sul do grande Estado.
O Nortão, até 1950, ainda era a nossa grande e promissora reserva ecológica com as suas riquezas naturais. No dizer de Antônio Callado, era um enorme cofre fechado cuja chave para a sua abertura seria o conhecimento científico.
Personalidades ilustres e de caráter ilibado tomaram conta da nossa administração pública formando com seus exemplos e ética uma excelente escola de gestores.
Eram os profissionais liberais, educadores, empresários da região - e até o nosso Arcebispo Dom Aquino Corrêa - os ocupantes do outrora honroso cargo de governador do Estado.
Negocistas, aventureiros e despreparados para funções de estado não tinham oportunidade.
A maioria dos nossos governadores daquela época foi vitoriosa nas suas empreitadas. Chegavam ao poder com folgada situação patrimonial e deixavam o cargo com dificuldades econômicas até mesmo para se manterem - quando não, pobres.
Esse modelo de gestão que implantou uma sólida civilização nesta região chegou à exaustão com a imensa e desorganizada corrente migratória que ocupou o norte do Estado por ocasião da sua colonização.Foi a época da motosserra, que representava a ideologia do falso progresso.
Em 2002 deixou o governo um cuiabano de prestígio nacional, que cedeu ao marketing dos novos mato-grossenses de botina e olhos azuis.
Muda-se a história política e o poder vai para as mãos dos desmatadores das nossas florestas.
Cuiabá sofre um processo de desmoralização e esvaziamento em todas as suas atividades.
A vez era dos “homens sérios e trabalhadores” que, na sua imensa maioria, vinham do sul do Brasil. Tentaram fazer o que os cuiabanos realizavam visando o desenvolvimento do Estado.
Na verdade, construíram inexplicáveis fortunas pessoais, não contribuindo em nada para melhorar a nossa saúde, educação, infraestrutura e segurança pública.
Durante doze anos foram fortemente blindados pela mídia e outros poderes constituídos.
A farsa terminou depois que o programa Fantástico, com “cuidados especiais”, mostrou o papel dos nossos modernos colonizadores.
A festa acabou e o blefe de progressistas findou nos porões da justiça.
Que essa lição sirva de exemplo para as novas gerações.
Expulsemos os fariseus do estado sagrado!

Gabriel Novis Neves
26-02-2015

sexta-feira, 13 de março de 2015

Bambu


As notícias atuais são tão violentas e virulentas que para metabolizá-las temos de ser tal qual o bambu, que se curva, mas resiste.
Na Ásia, jatos supermordernos desaparecem em pleno voo com centenas de passageiros a bordo.
O Fanatismo religioso continua produzindo vítimas na terra, no mar e no ar.
Até em cidades pequenas como a minha, a criminalidade assemelha-se a das grandes metrópoles, onde o crime organizado domina.
Os delitos cometidos trazem a marca da crueldade patológica.
Observamos uma atuação capenga dos direitos humanos, pois se manifestam com rigor somente quando a causa produz dividendos políticos. É a luta de classes!
Em um país onde o cume do poder está corroído pelos escândalos e pela promiscuidade entre interesses públicos e privados que sangram o Tesouro Nacional, não encontramos exemplos a seguir. 
É mentira daqui, mentira dali, adubando o campo para o cultivo da hipocrisia.
 “Sempre foi assim!”, bradam os conservadores. “Essa situação não pode continuar!”, imploram os utópicos ou, pejorativamente, os chamados de inocentes.
Vivemos uma grande farsa, beirando a anarquia.
Precisamos criar uma sociedade feita aos moldes de um bambu, que poderá até se curvar pela prepotência dos poderosos de ocasião, porém, não cederá nunca aos seus caprichos.
Verdadeiras violências éticas, morais, visuais, auditivas transformaram o nosso dia a dia. Diante desta nova realidade temos de agir como um bambu – envergar, mas não quebrar.
“Hoje a escolha não é mais entre violência e não violência. É entre a não violência e a não existência”. Martin Luther King.

Gabriel Novis Neves
01-03-2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

ZUM, ZUM, ZUM


Após a exibição no famoso programa Fantástico da amostra grátis da corrupção em Mato Grosso, o comentário que mais se ouviu por aqui foi que estava faltando um na listinha do desvio de recursos das obras da “Copa das Copas”.
Dias atrás escrevi um artigo sobre as obras inacabadas do campeonato dos 7x1. Recebi vários e-mails de leitores reclamando que não mencionei a origem de todas as maracutais mostradas na televisão - que teve seu início por ocasião da escolha de Cuiabá como uma das subsedes da Copa.
Nessa ocasião o governador que aparece na Rede Globo era vice.
Um delator premiado, e um dos acusados, agente público, declarou à justiça que tudo começou quando ele era Secretário de Fazenda do Estado.
A verdade é que jornais, sites locais e demais veículos de comunicação de massa, apontam que houve “esquecimento” de alguém na matéria desonrosa para nosso Estado.
Segundo os especialistas, houve uma falha jornalística. O clamor público foi tanto que me fez recordar de uma antiga marchinha carnavalesca de muito sucesso de autoria de Fernando Lobo e Paulinho Soledade feita para homenagear um comandante da aviação civil e membro do Clube dos Cafajestes no Rio de Janeiro, morto em um desastre aéreo.
Quem tem mais de sessenta anos, gosta de música e ainda não foi atacado pela “Doença do Alemão”, com saudade lembra-se da cantora Dalva de Oliveira cantando e dançando o “Zum, zum, zum”.
“Oi! Zum, zum, zum,
Zum, zum, zum!
Está faltando um!” – dizia o refrão.
Não percebi a ausência de ninguém na reportagem fantástica e bombástica, pois, quando o Estado está envolvido em crimes contra o erário cometido pelos seus mais altos dirigentes, significa que as ramificações do crime organizado estão enraizadas e espalhadas por todos os segmentos da máquina administrativa.
Triste domingo de “enterro de carnaval” para nossos honestos trabalhadores atingidos na sua honra e dignidade.
Quantas escolas, postos de saúde e estradas não desapareceram pelo vendaval da corrupção.
Necessitamos de muito trabalho para desfazer essa péssima imagem que hoje temos e demonstrar ao Brasil que não somos corruptos.
Como no caso da mulher do Cézar, Imperador Romano, temos de provar que não só parecemos honestos, e sim, que somos de fato honestos.
A que ponto chegou a ganância pelo poder!
Ferramentas o Estado possui para não se esquecer de ninguém que foi poupado pelo Fantástico.
A decisão é política.
Acreditamos no novo governo das mudanças para esclarecer e punir todos os envolvidos nesse imbróglio político administrativo.

Gabriel Novis Neves
26-02-2015

terça-feira, 10 de março de 2015

Fragilidades


Todos nós temos os nossos pontos frágeis prestes a se romperem por causas consideradas por terceiros como desprezíveis e injustificáveis.
Durante a vida criamos, através da repetição de momentos desagradáveis que nos tocam negativamente, verdadeiros focos de atrito aos menores estímulos.
A gama de tons que eles desencadeiam, nubla os nossos dias e, até mesmo, pequenos momentos na convivência do dia a dia.
Incrível imaginar a força das palavras, que é totalmente diversa de pessoa para pessoa.
Dependendo do dito, somos capazes de transformar um copo d’água num oceano de lamentações e de infelicidades, tudo em função de uma frase mal formulada, num momento inoportuno.
Não por acaso, os verdadeiros sábios falam pouco.
O silêncio não aproxima, mas também impede o erro.
Palavras não ditas são sempre sábias na sua essência, exatamente porque permanecem ocultas e versáteis no imaginário de cada um.
Talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em expor os nossos mais profundos sentimentos.
Preferimos que eles permaneçam no mesmo túmulo em que um dia repousarão também os nossos corpos.
Quem sabe por essa razão tenhamos tanto medo da morte, que sinaliza para a grande solidão humana.
Com o acesso moderno à tecnologia digital eliminamos os últimos resquícios de privacidade que, mal ou bem, não só nos protegia como também escamoteava os nossos sentimentos, algumas vezes não tão nobres.
Com o advento da Internet, palavras são lançadas intempestivamente sem o menor pudor, invadindo a privacidade de todos.
Queremos a qualquer preço sermos vistos e, de preferência, admirados, sem nos preocuparmos se o outro concorda ou não com essa invasão.
Não é de bom tom que mensagens de todo e qualquer tipo não sejam imediatamente respondidas, por mais desinteressantes que elas sejam.
A sinceridade da resposta é o que menos conta. Insistimos em nos mostrarmos, ainda que o outro não esteja apto a essa troca.
Ignoramos a privacidade alheia, pois estamos tão umbigados, que o que queremos mesmo é amenizar as nossas carências.
Confundimos tudo isso com atenção e afeto, sentimentos bem distantes do profundo respeito ao próximo que deveria ser o princípio básico a reger nossas vidas.
Tal como náufragos desesperados, buscamos no outro a boia para as nossas frustrações.
Nesses últimos anos, a mídia digital contribuiu, em muito, para o aumento das nossas fragilidades.
Debaixo dessa troca hipócrita de afeto, o que tentamos mesmo é viver a vida do outro quando sentimos que a nossa está totalmente despida de interesse.
Não imagino que Bill Gates ao criar a sua máquina diabólica, pudesse calcular o grau de frustração dos habitantes desse planeta e o resultado que esse tiroteio digital causaria.
Ainda bem que o lado positivo do mundo digital ultrapassa, em muito, essa faceta mesquinha e perversa do seu uso com a qual, infelizmente, temos de conviver.
Como se já não bastasse as nossas inúmeras fragilidades, ainda temos que aturar a de tantos outros através de mensagens compulsivas e ininterruptas - nem sempre em momentos oportunos - quando, o que queremos mesmo, é a entrega ao devaneio e à imaginação.
Gabriel Novis Neves
04-02-2015